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Aqueles que celebramos e humilhamos

Sempre achei deliciosa a definição de Jorge Luis Borges para a Guerra das Malvinas: era como a briga de dois carecas por um pente. Mas na sala escura de um teatro de São Paulo entendi que essa analogia tem uma limitação cruel. Em assuntos de guerra, política, diplomacia ou alta finança, os carecas que brigam mal querem saber do pente. Não ligariam se ele se esfarelasse. O que os carecas disputam é a própria disputa, para desgraça dos que vão para a linha de frente. Se são carecas, é porque assim lhes cai melhor a coroa – de ouro, de louros ou de latão. É simplesmente em nome do caimento dessa coroa que se põem a brigar pelo pente, como disputariam um botão ou um dedal ou qualquer outra desculpa para brigar. No caso das Malvinas, os carecas em questão eram Margaret Thatcher e Leopoldo Galtieri, ambos com dificuldade em manter a coroa na cabeça.

Não foi este o único estalo que me deu enquanto assistia a Campo Minado, peça-documentário de Lola Arias que esteve na Mostra Internacional de Teatro de São Palo (MIT-SP). A diretora pôs no palco seis ex-combatentes, três argentinos e três ingleses, nenhum deles ator profissional. Meia dúzia de homens com quase sessenta anos, que na casa dos vinte foram mandados para o pente de Borges a fim de bombardeá-lo, miná-lo, metralhá-lo, até que um dos dois carecas perdesse a coroa de vez – foi Galtieri, como sabemos. Os ingleses, vencedores, tiveram em compensação que engolir Thatcher por mais oito anos.

Das muitas coisas a comentar sobre o espetáculo e principalmente a partir dele, há uma que deve reter nossa atenção. Algo no relato do que aqueles homens viveram há tantas décadas é muito familiar. Ressoa com o noticiário de mais curto prazo e também com algumas sensações atávicas que povoam a subjetividade de qualquer brasileiro. Eu diria que é um enigma, algo que deveria nos atingir diretamente na cara.

I

A maior parte das leituras que já fiz sobre essa guerra destaca o absurdo de uma ditadura que manda seus jovens para serem massacrados em nome de um delírio. Este é o sentido do pente de Borges: a idéia de que a conquista de um território de pingüins representaria um triunfo contra o imperialismo. Mas existe um substrato para todo esse absurdo que precisa ser trazido à superfície.

Uma ditadura como a argentina – e como a nossa; e como a chilena; e como tantas outras na América Latina – costuma se apresentar como profundamente nacionalista. Geralmente se instala com a promessa de proteger o povo honesto e trabalhador contra fantasmas terríveis que o ameaçam. Como sempre fazem os regimes autocráticos, a ditadura argentina apoiou grande parte de sua propaganda na imagem da juventude e das crianças. A imagem central, sem surpresas, é a da família. No discurso dos generais, a ditadura é um governo de salvação nacional, que existe e trabalha para “defender” ou “proteger” essa categoria tantas vezes martelada: a família.

A família, como sabemos, é conceituada como instituição que cuida de seus membros e os mantém a salvo. É a principal fonte de solidariedade e, em sistemas que visam a exclusão completa de qualquer outra forma de solidariedade (como no regime thatcherita, por sinal), é o único apoio para o indivíduo que o resguarde da crueldade do mundo exterior. No caso das ditaduras, porém, o aparato estatal, militarizado, sob o comando de um braço forte e seguro, é uma espécie de “segundo grau” desse exercício de cuidado e atenção. É como a família das famílias.

E quanto àqueles três argentinos de meia-idade que vi em cima do palco: o que eram, em 1982, senão meninos arrancados, justamente, às suas famílias (e escolas, namoradas, amigos etc.) para ir à guerra, em nome de um “pente” e da coroa-de-careca de Gualtieri e demais tiranos? No discurso oficial, porém, eram muito mais que isso. É importante lembrar, como faz Campo Minado, que o jovem soldado é objeto de todo um trabalho de propaganda para que a população o trate como herói.

Lola Arias expõe, em projeções, as reportagens, as peças de propaganda, as imagens de arquivo, que foram mobilizadas para que aqueles jovens recebessem o carimbo de heróis, essa categoria social muito prezada, sobretudo postumamente. Uma categoria que mobiliza alguns afetos bem conhecidos: o orgulho dos pais, a admiração das namoradas (e potenciais namoradas), a inveja dos demais rapazes, os que seguiram com suas vidas e não receberam esse carimbo. Nos depoimentos dos ex-combatentes, ou seja, na voz dos próprios objetos da transformação simbólica, fica evidente como se dá o processo.

Com um certo distanciamento, passado o furor da mobilização, graças às décadas de trabalho de memória e trauma, podemos fazer uma descrição um pouco mais objetiva desse processo. Quando os rapazes vão à guerra, a “família de segundo grau” os extrai (compulsoriamente) da família de primeiro grau, de modo que, quando um jovem está no serviço militar, seu bem-estar é responsabilidade do Estado. É o Estado, na figura das forças armadas, que deve protegê-lo, mantê-lo vestido, alimentado, aquecido. E, na medida do possível, vivo – mas é claro que, numa guerra, isso nem sempre é possível.

Está muito bem documentado que, no caso das forças armadas argentinas, em plena ditadura militar e militarista, esse papel foi executado de maneira nada satisfatória; e a guerra deixou isso muito claro. Os soldados não tinham equipamento para o frio, não recebiam munição suficiente e passavam fome. Na voz daqueles homens de pele enrugada, cabelos brancos e expressão triste, tornam-se ainda mais concretos e patentes os relatos de roupas insuficientes, cargas de alimentos que se perdiam, comunicações deficientes, soldados argentinos explodidos em campos minados que os próprios argentinos tinham instalado.

Até aí, não há muito mais a aprender, senão que a linguagem heróica e patriótica em que se apóia o militarismo, com sua pretensa fundação numa “defesa da família” e seu propalado “amor à juventude”, é uma mentira descarada; mais do que uma falácia, portanto. Uma mentira. A propósito, precisamos recuperar a disposição para fazer o “j’accuse” de Zola. Não se trata de refutação, mas de desmascaramento. Até hoje, há quem repita essa enorme mentira, ainda mais no Brasil (que não passou pelo processo de construção de memória que houve na Argentina, infelizmente). Então precisamos escancarar o fato de que o amor de um regime militar (ou militarizado) à pátria, à família e à juventude é falso, deliberadamente falso. Ao afirmá-lo, uma pessoa não está equivocada, está mentindo. Está sendo desonesta e enganando a população.

II

Isto posto, surgiu algo nos relatos que tocou profundamente a minha sensibilidade, e que eu desconhecia – talvez porque li sobre a guerra das Malvinas já há alguns anos, antes que os arquivos fossem abertos (em 2015) e certos segredos viessem à tona. Em dado momento do espetáculo, ouvimos de um dos ex-combatentes argentinos que seus comandantes torturavam os soldados para que eles não abandonassem seus postos quando já era inútil defendê-los, para que não reclamassem das condições desumanas, ou mais simplesmente, para que não se rebelassem. Sem comida, abrigo e vestimentas adequadas, os soldados ainda por cima eram espancados, amarrados no chão congelado, obrigados a se humilhar perante os colegas.

Outro ex-combatente relata que, na volta para casa, após a derrota, foi obrigado, junto com seus companheiros, a assinar um documento em que se comprometia a não revelar nada do que havia se passado. O filho dileto, o herói da pátria, foi reduzido por sua “família de segundo grau” ao silêncio perpétuo. Neste ponto, vale uma digressão: todos os ex-combatentes passaram por algum grau de estresse pós-traumático, inclusive os ingleses. Mas este indivíduo em particular entrou em profunda depressão, não conseguiu se fixar nos muitos empregos que teve, tornou-se cocainômano e quase morreu afogado. Ironicamente, era o único dos argentinos que tinha entrado para o exército voluntariamente. Saiu da depressão quando passou a se dedicar ao esporte e hoje é triatleta.

Voltando ao tema: no meio das cadeiras do teatro, ouvindo os relatos e a trilha sonora (basicamente Beatles, tocada pelos próprios atores), comecei a entender que estava diante dos dois lados de uma moeda que circula não apenas na Argentina, mas certamente em toda a América Latina e talvez muito mais amplamente.

A “Cara” é a reiterada propaganda sobre os heróis nacionais; a justificação do poder ditatorial, ou simplesmente autoritário, pela vaga “defesa da família”; a constante louvação ao povo (em geral no sintagma “povo trabalhador”) e à juventude (que é “o futuro do país”); a crença irrefletida na disciplina, uma imagem de ordem que destoa de todo o mau funcionamento com que a população está acostumada no dia-a-dia.

A “Coroa” consiste em tratar esses mesmos jovens como gado, pagá-los com salários de fome, humilhá-los, torturá-los, mandá-los para a morte; destruir famílias; produzir um oceano de síndromes pós-traumáticas; fornecer um espetáculo de má organização e indisciplina na cúpula decisória; humilhar os trabalhadores, os jovens, os pobres; reduzir aquele povo tão incensado, aqueles heróis tão propagandeados, a uma condição de silêncio e apatia.

Pensando bem, esta parece ser uma tônica latino-americana. Neste nosso continente de veias abertas, o deslumbramento com fardas, armas, vozes de comando, escaramuças, é patente. O Cone Sul é pródigo em guerras caudilhescas. Do México para o Sul, os governos militares são recorrentes e as ordens para que soldados rasos abram fogo contra seus próprio compatriotas se repetem tristemente. O ponto comum entre Pinochet, Stroessner, Chávez e Figueiredo é a farda. Mas eu também poderia dizer Deodoro, Rosas e Porfírio Díaz.

O soldado, por sua vez, é em geral mal pago, mal equipado e maltratado. Para o Paraguai, no Império, foram mandados os que não conseguiam se safar; na Marinha da Primeira República, os maus tratos levaram à revolta da Chibata. Os comandados de João Cândido, o “Almirante Negro” que manobrou a frota melhor que os brancos, foram traídos pelo governo e os oficiais, e terminaram massacrados. Quando, inadvertidamente, uma dessas lideranças engalanadas se vê na situação de sair do mero discurso e entrar na prática da guerra, os resultados tendem a ser desastrosos, como ocorreu aos argentinos nas Malvinas e aos mexicanos contra os EUA. Sorte dos nossos pracinhas na Itália, que puderam tomar armas e equipamentos emprestados dos americanos.

Será coincidência essa insólita dicotomia do discurso laudatório com a prática do desprezo e da humilhação? O que é que faz com que, em todo o continente, o patriotismo, o conservadorismo e o militarismo estejam tão intimamente ligados aos maus-tratos, ao desprezo e à incompetência? Não faltaram, na história do continente, indícios de que o tipo de comando que se associa à figura do militar, envolvendo autoridade e disciplina, costuma levar a resultados opostos aos esperados e desejados. Mas ainda se ouve muito falar, sobretudo no Brasil, sobre a seriedade e a organização inerentes às forças militares. Por quê?

III

Depois de tantos parágrafos, finalmente chego ao ponto que buscava: o Brasil, onde tem crescido um evidente fascínio pelo militarismo. A intervenção diversionista de Temer no Rio é o cúmulo (pelo menos por enquanto) e a intenção de voto em Bolsonaro é um sintoma grave (esperemos que fique só nisso). Mas deveríamos ter ligado o alerta quando atletas brasileiros passaram a bater continência nos pódios olímpicos, só porque um programa federal os pôs para treinar em instalações militares. Era uma impostura, como sói acontecer: os atletas receberam patentes, mas é evidente que isso não faz deles militares; ademais, não estavam ali representando as forças armadas, mas o país. Mesmo assim, muita gente na classe média achou aquilo lindo.

Em todo caso, é claro que o problema que quero apontar não é só o do fascínio com o exército propriamente dito. O sucesso histriônico do capitão Nascimento, desde o longínquo ano de 2008, é um exemplo de como a polícia é tanto mais encantadora para uma boa parte da sociedade quanto menos ela age como polícia e mais como milícia, uma variação urbana da jagunçagem.

Vale se deter num ponto interessante: freqüentemente os auto-intitulados defensores da polícia se referem aos policiais – na verdade, só os policiais militares – como pessoas corajosas que arriscam a vida na luta contra os bandidos. O corolário dessa descrição é que qualquer crítica à atuação da polícia (militar) nas favelas é uma defesa da criminalidade e um desrespeito a esses bravos profissionais que se sacrificam em nome das famílias de bem. Provavelmente o cúmulo desse raciocínio foi o episódio em que um menino de dez anos foi morto pelo fuzil de um policial no complexo do Alemão (chamava-se Eduardo) quando estava sentado na soleira da porta da própria casa.

Mas o que há de mais interessante é que essas pessoas que tanto dizem admirar e respeitar os policiais, pelo fato de que se arriscam e muitas vezes morrem, parecem nunca se perguntar se é mesmo necessário que tenhamos tantas mortes de policiais todo ano (só no Rio, ano passado, foram mais de cem). Quando acusam seus oponentes de não se importarem com a família de um policial morto, esses supostos defensores da polícia não se questionam se poderíamos viver de um jeito em que os policiais não morressem, não precisassem se sacrificar, não precisassem ser mártires. Nunca vi um comentário dessas pessoas sobre o fato de que a maior parte das mortes de policiais ocorrem fora do serviço, fazendo bicos de segurança para complementar o péssimo salário.

Na verdade, é bastante evidente que a cultura de fascínio com formas militares – seja o exército, seja a polícia – habita no abstrato. Quando descemos ao concreto, essa mentalidade não se preocupa um segundo sequer com a qualidade da formação dos praças. Não se preocupa com suas condições de trabalho, nem com sua remuneração. Não se preocupa com sua segurança – afinal, se trabalhassem e vivessem em segurança, os policiais teriam de ser vistos como servidores públicos e respeitados como tais, não encarados e reverenciados como heróis e mártires.

As deficiências da formação da polícia são amplamente conhecidas: na maior parte dos Estados, um jovem é incorporado à força tendo treinado um número irrisório de tiros; nas casernas, a tortura física e psicológica é constante. Não estou dizendo novidade nenhuma ao mencionar que os recrutas são formados para algo que pouco tem a ver com policiamento. Em geral, diz-se que são formados para uma guerra; e seria uma espécie de guerra interna. Na verdade, acho que a analogia mais pertinente seria dizer que são formados para uma caçada. Seja como for, mais tarde, nas ruas, o equipamento que usam é defeituoso, os serviços de inteligência são pífios e a relação com a população, e não estou falando da bandidagem, é hostil e improdutiva.

Trocando em miúdos, assim como os soldados argentinos na guerra das Malvinas, os policiais brasileiros são atirados ao trabalho sem as condições necessárias para exercê-lo e, se morrem, não é por heroísmo, mas porque são deliberadamente lançados para a morte. Incensados por uma malta de cidadãos que se consideram de bem, gente conservadora e que diz defender a família, a pátria e outras categorias que vêm juntas, são postos por esses mesmos cidadãos tão íntegros em constante situação de perigo, pobreza e fadiga. Quando sobrevivem, sofrem de depressão e outras doenças crônicas, com atendimento médico insuficiente. Quando morrem, e muitos morrem, deixam atrás de si famílias despedaçadas, viúvas e órfãos. Que bela defesa da família.

Ou seja, como a propaganda de guerra da ditadura argentina, também o deslumbramento com a farda, o giroflex e as sirenes esconde este outro lado, que é o desprezo pela vida do policial; e isso, nos dois sentidos da palavra: a vida como aquilo que é ceifado por uma bala no confronto com traficantes, mas também a vida que ele leva, com seu baixo salário, a impossibilidade de descansar na folga, a formação deficiente, o regime de humilhações e torturas a que é submetido da parte dos superiores. Eleger heróis e humilhá-los; cantar louvores à juventude e mandá-la para o matadouro. Longa tradição latino-americana. Longa tradição brasileira.

Em tempo: a brutalidade policial no Brasil, da qual não conseguimos nos livrar quando tivemos a chance, e que, ao contrário, é motivo de celebração para muita gente, só faz sentido nesse registro. Um indivíduo se torna brutal quando age sem parâmetros, ou seja, nem orientações claras e corretas de procedimento, nem regras plenamente vigentes de comportamento. Tanto a humilhação quanto o incensamento conduzem à brutalidade, a primeira por trazer à tona as paixões mais cruas, o segundo por insuflar os espíritos com uma sensação de onipotência. Mas não devemos nos enganar: o policial se torna brutal porque sua situação é frágil; porque, socialmente, ele é na prática um descartável, por obra daqueles que, no discurso, o tratam como paladino.

IV

Guardando as devidas proporções, a intervenção no Rio está para a presidência de Temer como a invasão das Malvinas esteve para a ditadura argentina. Uma manobra diversionista e irresponsável realizada por alguém que se sabe ao abrigo de denúncias e persecuções judiciais, com o objetivo de desviar o foco para problemas distantes. No nosso caso, Temer está enrolado na incapacidade de entregar ao mercado financeiro todas as transformações econômicas esperadas, somando-se à necessidade de escapar a um eventual cerco da Justiça, já que nosso atual presidente faz um pau de galinheiro parecer transparente como vidro.

Na analogia de Borges, Temer é o nosso careca, precisando manter sua coroa maculada na cabeça. O Rio de Janeiro, cidade maravilhosa, ex-capital, cartão postal, símbolo do Brasil para o mundo, etc. etc., se vê reduzido à condição de pente. E pode se quebrar, também. A população e, em particular, os soldados envolvidos na intervenção no Rio são os peões de que nosso careca se serve para se manter agarrado a seu pente.

Claro está que Temer compreendeu bem a natureza do militarismo latino-americano e, em particular, do fascínio atual com as fardas e o armamento pesado no Brasil. Ele sabe perfeitamente que as medidas concretas para promover a segurança da população nada têm a ver com o assunto – tanto que reduziu drasticamente a verba da proteção de fronteiras, tema que candidatos conservadores tanto gostam de tratar como prioritário. Vale a pena ler a Diretriz do Comando do Exército para 2017-2018. Lá se aprende bastante sobre a redução do efetivo e a substituição de combatentes de carreira por temporários – ou seja, jovens fazendo o serviço militar obrigatório. O usurpador tem dito também que os militares deveriam participar mais da vida pública; talvez esteja saudoso do tempo em que a atuação pública militar consistia numa série interminável e impune de conspirações, sem falar nas ditaduras.

O que o usurpador compreendeu é que o cerne desse militarismo está no espetáculo: a aparência de disciplina, limpeza, ordem, força bruta. As operações grandiosas, que dão uma certa demonstração de poder. A garantia de que haverá boas fotos e manchetes, com o apoio de grupos de mídia cujos controladores fazem parte dos mesmos extratos sociais cujos olhos brilham com o militarismo. E ao lado, uma certa sensação de desconforto e medo, que mesmo os mais profundos militaristas devem ter quando vêem passar uma coluna de tanques.

Esta imagem é do Espírito Santo, mas coloquei aqui porque é ótima.

Já os resultados propriamente ditos – digamos, a redução dos índices de violência do Rio, ou o desbaratar de alguma quadrilha mineira que traga pasta de cocaína em helicópteros – são irrelevantes. No fundo, provavelmente são indesejados. Como tem martelado Celso Barros (o sociólogo, não o médico), até hoje não foi divulgado um plano de ação, um projeto, metas, nada. A revista Piauí revelou que o alto comando militar foi tomado de surpresa pela intervenção – e ficou contrariado, muito contrariado. Não existe nem sequer o esforço de esconder que a intervenção federal/militar no Rio é mera pirotecnia.

De fato, com essa intervenção, até o momento o usurpador tem conseguido o que quer, e vai continuar conseguindo por algum tempo. As pessoas que se encantam com Bolsonaro aplaudem os tanques e blindados estacionados diante de favelas. Atitudes inconstitucionais como o fichamento de moradores levam famílias inteiras ao delírio nos bairros ditos “nobres” (com o que descobrimos que ainda estamos na monarquia). Não porque tenham efeito prático, mas porque demonstram força. Temer vai se safando e o ovo da serpente vai crescendo.

De volta a Borges: falei do careca, falei do pente, mas todas essas reflexões começaram com um estalo, no meio de uma peça de teatro, em que seis ex-combatentes, três dos quais argentinos, falam de suas experiências na linha de frente, tomando na cara chuva, vento, neve, balas e bombas. Então vale lançar mais uma pergunta: no nosso caso, quem é que está na linha de frente? Quem são essas pessoas, ou melhor, quem são esses heróis, os jovens defensores da família e da pátria, em nome desta família de segundo grau que é o governo do usurpador?

São o mesmo de sempre, claro: praças, recrutas, meninos que ontem estavam empinando papagaio e hoje estão lançados aos leões. É bem provável que muitos deles estejam em pleno serviço militar obrigatório, ou seja, preferiam estar fazendo outra coisa. Garotos que poderiam, aliás podem, ser filhos dos trabalhadores que lhes coube fichar e revistar. Podem também ser irmãos e amigos de traficantes que eventualmente virão a enfrentar, ambos atirando com armamentos exclusivos do exército, por sinal.

É claro que não tem comparação entre mandar jovens para enfrentar a marinha britânica num arquipélago remoto e gelado e colocá-los para caçar traficantes em ruelas cariocas. (E milicianos? Esses não vão ser enfrentados?) Mas uma mesma lógica rege esses dois processos, além de muitos outros. Esses garotos não são enviados para a linha de frente, para o enfrentamento, enquanto pessoas. Eles são a imagem avançada de todo um aparato simbólico de poder: emblemas, fardas, fuzis, blindados. Os “heróis” não são os próprios soldados, mas um soldado abstrato, imaginário, que absorve todas aquelas imagens de família, pátria, ordem, dever etc., tão difíceis de executar na prática em países autoritários e caudilhescos.

Os próprios garotos, seres humanos de carne e osso, são a mesma coisa que um dia foram esses senhores que vi no palco do teatro em São Paulo, tocando músicas dos Beatles, recuperando as cartas recebidas no front e guardadas num baú durante décadas. São gente que tem uma família concreta, mas para defender “a família” abstrata pode acabar esfacelando a sua própria. São gente que o cidadão de bem aplaude, admirando sua farda e sua postura ereta, mas que recebe um soldo vergonhoso e é colocado para fazer um trabalho para o qual não tem qualificação. São objetos de uma celebração irreal, mas vítimas de um desprezo concreto, como tem sido há mais de 200 anos.

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No tempo em que a polícia batia

Em tese, um certo sumiço na virada do ano é coisa normal, mas acho que passei do ponto. Não foi por querer que fiquei desconectado durante as últimas semanas, e nesse meio-tempo houve muito assunto para deixar uma palavra por aqui, e não pude fazê-lo. Pouco a pouco, espero retomar o ritmo normal de postagens. O primeiro tema que ficou em suspenso é a continuação do texto sobre Der Baader Meinhof Komplex. E, como demorei tanto, acho que terei de aproveitar para desdobrar o assunto em três. Primeiro, este neste texto, sobre a polícia e os cascudos que só ela sabe dar. Depois, mais dois, não sei ainda em que ordem, mas um falará das músicas que são tocadas no filme e o fenômeno da Indústria Cultural, primeiramente evocado por filósofos, que coincidência, alemães. O outro aproveitará, se é que esse verbo é apropriado num momento como este, o gancho da ofensiva israelense contra o perigosíssimo território de Gaza atrás dos terroristas do Hamas… enfim, o conceito de terrorista é qualquer coisa que precisa de fato ser pensado mais profundamente.

E para ressuscitar este espaço, nada melhor do que um texto que, apesar de indiretamente, recupera alguns pontos que deixei passar em 2008. São efemérides como os quarenta anos de todas as coisas grandiosas que aconteceram em 68 (maio de Sorbonne e Nanterre, agosto de Praga, dezembro de Cinelândia e Brasília), e bem que gostaria de encaixar aqui a morte de Harold Pinter, que eu deveria ter comentado e não comentei, e os centenários de Claude Lévi-Strauss e Manoel de Oliveira… mas não vai ser possível.

Fico, então, com as brigas de quarenta (e um) anos atrás para começar meu assunto. Nem preciso dizer, essa série de eventos interligados são uma das raízes do grupo revolucionário e, mais tarde, terrorista alemão. De fato, Der Baader Meinhof Komplex mostra bem como surgiu o bando: no dia 2 de junho de 1967, durante uma manifestação até então pacífica contra o xá Reza Pahlavi, em visita a Berlim, um policial à paisana atirou pelas costas, ou seja, executou o estudante de literatura Benno Ohnesorg, de 26 anos, pai de uma criança, que morreu no mesmo instante.

Estudantes mortos

Mas Ohnesorg provavelmente não foi o primeiro e certamente não foi o único estudante morto nesse tempo que ficaria conhecido como início dos “anos de chumbo”. No Brasil, tivemos Edson Luís de Lima Souto, de 16 anos, cujo assassinato por um policial acabou resultando na célebre Passeata dos Cem Mil de 26 de junho de 1968. Em 2 de outubro, a famosa guerra da Maria Antônia, entre estudantes da USP e do Mackenzie (esses últimos reforçados por jovens encorpados que eram tudo, menos estudantes) também deixou sua vítima, de nome José Guimarães, secundarista e pintor de 20 anos. As famosas prisões de Ibiúna, a propósito, aconteceram dez dias mais tarde.

No mesmo 2 de outubro, uma manifestação estudantil na Plaza de las Tres Culturas, Cidade do México, foi reprimida pelas forças unidas da polícia e do exército com saraivadas repetidas de balas que deixaram um número indeterminado de mortos. A estimativa mais razoável diz que pereceram 400 pessoas, contando não apenas os manifestantes, mas também as pessoas que apenas passavam pelo local. Aliás, o pequeno incidente não chegou a perturbar o funcionamento das Olimpíadas na cidade, poucas semanas depois. Em fevereiro, dois meses antes do assassinato de Martin Luther King e quatro meses antes do de Robert Kennedy, durante uma manifestação na Carolina do Sul pelos direitos civis, três estudantes foram baleados e mortos por, exatamente, policiais. E por aí vai.

Estudantes e policiais se enfrentaram ao redor do mundo, com ou sem mortes, pelos anos seguintes. Nada, claro, como o 68 que, até hoje, ainda faz muitos olhos brilharem, com a Primavera de Praga, a ocupação das universidades em Roma, as palavras de ordem dos jovens de Nanterre e da Sorbonne, criativos como nem os mais prestigiosos publicitários chegam a ser: “Sous le pavé, la plage” (debaixo das pedras, a praia, numa tradução péssima), “soyez réalistes, demandez l’impossible” (sejam realistas, exijam o impossível), “exagérer, c’est commencer à inventer” (exagerar é começar a inventar). Essa garotada, tão boa com as palavras, cheia de idéias e ideais, encheu Paris de barricadas e respondeu ao gás lacrimogêneo com os paralelepípedos que arrancava do chão. Apanharam, apanharam feio. Tudo acabou voltando ao normal. A prefeitura, prudente, cobriu suas ruas de asfalto. Mas os suspiros dos saudosos ainda ecoam.

Tudo isso para mostrar que foi qualquer coisa, menos um caso isolado, a morte de Benno Ohnesorg, o jovem alemão de sobrenome tão sugestivo. Que foram tempos duros, não se pode negar, mesmo que as causas ainda sejam motivo de disputa. Resta que a violência era disseminada através de um mundo povoado por governos que, dos dois lados da Cortina de Ferro, temiam revoluções; jovens perplexos com a cultura de massas que já dava os primeiros sinais do que seria o sistema de ensino industrial e rasteiro de hoje; trabalhadores que, por um lado, eram seduzidos pela mensagem soviética e, por outro, tinham um poder de reivindicação e de compra sem par; grupos minoritários começando a exigir reconhecimento e direitos, na esteira do sentimento de culpa mundial com o antissemitismo (agora tem que ser assim? Com o s dobrado em vez de hífen?) que conduziu ao Holocausto.

O que parece…

Trocando em miúdos, parece que essa era uma época em que um volume significativo de pessoas estava disposta a brigar, bater e apanhar, fosse por uma causa, pelo reconhecimento de seus direitos, por uma melhor remuneração do trabalho, pela liberdade de expressão, enfim, fosse pelo que fosse. Parece, também, que do outro lado havia uma força de segurança disposta a baixar o sarrafo, em bom português, e jamais recuar. Parece que o Poder, do fundo dos palácios, temia com tanta força ser desalojado que não se importava de soltar a cavalaria e a tropa de choque contra sua própria população. Parece que o direito de se expressar livremente não era considerado com muita seriedade, nem de um lado, nem de outro do Muro de Berlim. Parece que a idéia por trás da polícia, naqueles tempos, não era tanto a de coibir a criminalidade, mas apenas manter as gentes sob controle, como se vê, por exemplo, na caricatura francesa em que um policial do CRS (o batalhão de choque) carrega no escudo a insígnia das SS nazistas.

Por outro ponto de vista, parece que o mundo aprendeu algo desde então. Parece que nos tornamos mais livres e mais conscientes. Parece que a ilusão comunista caiu com a União Soviética e o mundo quase todo obteve o direito sagrado de pensar e desejar as mesmas coisas, sempre. Parece que a polícia não exerce mais aquela função de pôr na linha as pessoas que parecem discordar. E ainda, mesmo que continue violenta e opressiva, parece que as forças policiais estão concentradas em lutar contra o crime ou o que, para a opinião pública, parece crime. Parece que os policiais não são mais assustadores como eram naquele tempo em que, não raro, se comportavam como os fascistas da geração anterior. Parece que as pessoas não têm mais contra o que protestar, resolvidas que estão as contradições do mundo, no grande abraço sensual do consumo e da competição. Parece que a única ameaça para nossa tranqüilidade vem de fanáticos barbudos.

… mas não é.

Acontece que encontrei em algum canto da internet as imagens acima (vi algumas maravilhosas numa exposição do fotógrafo turco Göksin Sipahioglu, mas elas não estão em domínio público). Os distintos homens de gravata que aparecem aí são os temidos CRS que enfrentaram a fúria estudantil da Sorbonne em maio de 68. Lançaram bombas de gás lacrimogêneo, deram bordoadas em rapazes e moças, sendo que no começo nem sabiam ao certo o que estava acontecendo (um policial chega a relatar que a viatura recebia ordens contraditórias no caminho para as barricadas). Foram ironizados pelos slogans dos estudantes e acabaram caricaturados como soldados das SS nazistas, mas deram conta do recado. Nenhuma Bastilha caiu naquela primavera.

Esses sujeitos de olhar fuzilante e ameaçador eram os agentes da opressão nos violentos tempos de nossos pais, em que o equilíbrio do mundo ameaçava ruir por um sopro e a qualquer momento um líder mundial poderia decretar a aniquilação do planeta, como vemos em filmes como Dr. Fantástico (odeio essa tradução). E já que estamos nesse pé, eu me pergunto que aparência têm os agentes da ordem nesses nossos tempos sem “ameaça comunista”, em que os estudantes temem demais o desemprego para pensar em protestos, em que não há mais grupos armados de esquerda ou agentes soviéticos infiltrados. Pois bem, ei-los, os mesmos CRS, quarenta anos mais tarde:

Foram-se as gravatas, os paletós bem cortados, os elmos projetados por alguma estilista, os cassetetes de meio metro. No lugar, o que vemos são máscaras de gás, capacetes grossos, caneleiras acolchoadas, cassetetes com tasers, uniformes ultra-cibernéticos que, se me disserem que ricocheteiam balas, não vou duvidar. Os rapazes da fotografia, que, pensando bem, não deixam um centímetro de pele à mostra e bem poderiam ser andróides – com o perdão da analogia fantasiosa -, não foram enviados para alguma guerra distante, como salvadores do mundo ou dos valores democráticos ocidentais (ideais republicanos, diriam os franceses).

Todas essas imagens foram feitas em Paris, algumas durante manifestações de jovens do subúrbio contra o recentemente eleito Nicolas Sarkozy; outras durante as greves estudantis de 2005 contra uma reforma do sistema universitário que parecia projetada por Bush; e uma única por ocasião de um mui irônico evento em que os CRS foram chamados para dar uma coça nos bombeiros em greve: não parece uma guerra de ciborgues?

Bem se vê por essas imagens que, não, a polícia não está menos disposta a dar bordoadas do que há quarenta anos. Não, não estamos mais razoáveis. Não, o mundo não se tornou mais seguro. Não, o poder não se sente mais garantido. Não, não era apenas como resposta e prevenção ao perigo soviético que a polícia (e as forças armadas, por sinal) estavam de sobreaviso para dar cascudos. Não, as contradições não estão resolvidas. Não, ainda falta muito para que as pessoas deixem de ter contra o que protestar.

Revejo a caricatura dos CRS retratados como agentes das SS e sou tomado por sentimentos contraditórios. Por um lado, o respeito que sempre se deve à História, cujos fatos merecem ser apreendidos em sua própria dimensão, sem o olhar condescendente, mas distorcido, do futuro. Por outro, a impressão de que os batalhões de choque deste início de século são infinitamente mais parecidos com a SS em termos de violência do que os engravatados de quarenta anos atrás.

Por algum motivo, e essa questão é certamente mais importante do que pode parecer, a polícia sabe ser um instrumento de dissuasão até melhor do que naquele tempo. Tem mais poder de fogo, mais proteção e, a julgar pelas imagens em que três ou quatro policiais são necessários para segurar um manifestante, tem também mais efetivo. A princípio, isso parece estranho, considerando que o inimigo, ao que sabemos, abandonou o certame. Estamos carecas de saber que as atenções de quem tem por função “manter a ordem pública” estão há muito voltadas para outra direção, não mais os jovens rebeldes do Quartier Latin, mas os filhos de imigrantes do subúrbio. Já os estudantes, que outrora corriam o risco de se deixar abater em batalhas urbanas, não têm mais a mesma disposição para a briga. Certo dia, topei com alguns que tentaram bloquear a entrada de sua faculdade, ao norte de Paris: bastou a polícia chegar para que eles mesmos desfizessem a barreira. Se algum desses garotos for filho de alguém de 68, é certamente a vergonha da família.

A pergunta passa a ser, portanto: se a polícia não mudou de postura e até a intensificou, o que aconteceu do lado dos estudantes para que eles não se disponham a arriscar o pescoço em barricadas? Por que as tensões não chegam mais às vias de fato, ou antes chegam tão raramente, como foi neste ano na Grécia, cujos estudantes revoltados mereceram os aplausos e muitas pichações de apoio nos muros da França, feitas por estudantes que gostariam muito, mas não têm a mesma força de vontade?

Não tenho resposta para nenhuma dessas perguntas, mas o mero gesto de formulá-las talvez já ajude a esclarecer que há algo de muito profundo que diferencia os jovens de hoje dos de quarenta anos atrás. Eu gostaria de saber, por exemplo, o que fez com que uns fossem de um jeito e outros, de outro. Acho que a resposta passa pela noção de indústria cultural, mas isso, como já mencionei acima, é questão para outro texto.

Para uma lista de slogans de 1968, clique aqui.

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A mais monstruosa das guerras

Há noventa anos, hoje, terminou a mais monstruosa das guerras.

Depois de todas as atrocidades cometidas sob o jugo ensandecido de Hitler, poderia parecer que a Segunda Guerra Mundial mereceria esse título, mas não. O que os nazistas fizeram de monstruoso enquanto tiveram o poder na Alemanha foi, de certa forma, paralelo ao conflito: campos de concentração e extermínio, perseguição a minorias, o reino do terror no país em que outrora caminharam e escreveram Kant e Leibniz. Na Ásia, mesma coisa: os grandes crimes das forças imperiais do Japão na China e na Coréia foram cometidos contra populações civis, quando os combates propriamente ditos já haviam sido ganhos. Uma covardia ainda maior do que qualquer embate militar. A guerra em si, porém, tolheu a vida do melhor da juventude de diversos países, arrasou cidades inteiras e desestruturou famílias e povos. Episódios hediondos houve, claro, como o bombardeio de Dresden e as bombas de Hiroshima e Nagasaki. Mesmo assim, insisto em dizer que a Primeira Grande Guerra foi mais monstruosa.

Todo o rancor que atirou o mundo no segundo e mais abjeto conflito teve seu início nas trincheiras de 14-18, ou melhor, nos gabinetes de Paris, Berlim, Londres, Viena etc., onde grandes dignitários decidiam que os homens de seus países deveriam mofar nesses buracos infectos cavados na terra. Foi o primeiro conflito em que o inimigo, de ambos os lados, foi demonizado pela propaganda de massa ainda um tanto incipiente. Os cartazes, as emissões de rádio, os folhetos que se distribuíam nos países envolvidos criaram, pela primeira vez, uma sensação confusa de aversão generalizada aos demais povos, um nacionalismo negativo cujas conseqüências foram sentidas na carne pelas duas gerações seguintes.

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O primeiro bombardeio aéreo surgiu em 1914, com zepelins alemães atacando a até então neutra Bélgica. Morreram nove civis, os primeiros de milhões que seriam massacrados por bombas e mísseis atirados de aviões e lançadores distantes. Nove corpos estraçalhados sem que os algozes nem sequer vissem o resultado de sua ação. O uso irrestrito da metralhadora, o tanque de guerra, a granada de mão, o gás de mostarda, os genocídios e as máscaras assustadoras que o acompanham são o legado mais evidente do confronto, que terminou com 40 milhões de pessoas a menos neste mundo.

Mas nem mesmo essas invenções abjetas são o resultado mais importante do terremoto de 14-18. Com a mesma força das infecções que ratos e esgotos da trincheira transmitiam aos soldados, era corroída a estrutura do militarismo aristocrático, algo romântico, em que a guerra manifestava a grandeza secular dos povos e dos reis. Os limites da corrida colonialista também foram escancarados pelas escaramuças que tiveram lugar em três continentes ao mesmo tempo. Quatro monarquias milenares desapareceram: os Romanov, os Habsburg, os Hohenzollern, os Otomanos. Com elas, o mito da guerra nobre, que levara Otto von Bismarck a receber em sua tenda o derrotado e capturado Napoleão III em 1870, foi enterrado por Georges Clemenceau e outros líderes mais modernos e pragmáticos: a partir de 1918, uma derrota deixou de ser apenas uma derrota. Teria de ser uma humilhação.

Foi uma guerra que teve um estranho começo: o sistema de alianças e tratados era tão intrincado que ninguém sabia de que lado um país entraria. Todos os envolvidos tinham planos para uma vitória relâmpago, como o alemão Schlieffen, o francês XVII e o russo 19. Todos falharam: as técnicas defensivas eram muito mais desenvolvidas que as ofensivas, qualquer tentativa de avançar era um suicídio, os exércitos de ambos os lados logo aprenderam a cavar a terra e esperar os acontecimentos. Isso, no front ocidental. Na Rússia, a administração czarista era tão incompetente para alimentar seus soldados que Lênin e Trotski fizeram a revolução.

E a guerra teve também um estranho final: a forma como se deu a rendição do império alemão, já convertido em república, apesar de não haver um único soldado estrangeiro em seu território. Esse curioso fato é fundamental para entender o horror que a Europa e, por extensão, o mundo viveriam vinte anos mais tarde. A capitulação da Alemanha, claramente derrotada, mas não aniquilada, foi o último ato de guerra que se possa considerar militarmente normal. Mas demonstra a falta de compreensão do que tinha se tornado o mundo.

Quando os americanos entraram no conflito, ao lado dos aliados, tanto a França quanto a Alemanha estavam à beira do esgotamento, do colapso e da revolução comunista que já tinha varrido a Rússia. O que os alemães, ainda muito apegados à idéia de aristocracia, nobreza e sacralidade militar, não tinham entendido é que a guerra massiva, industrial e monopolista não deixava mais lugar aos tratados de paz do século anterior. A França, ao contrário, compreendeu perfeitamente. Governados por Georges Clemenceau e comandados pelo marechal Foch, os franceses inventaram um conceito, mais um, que se tornaria um símbolo da insanidade bélica no confronto seguinte, na aplicação de Hitler: a “guerra total”. Morreremos de fome, esgotaremos nossos recursos, deixaremos de ser uma grande potência, mas não perderemos esta guerra.

A guerra total foi uma decorrência lógica de um mundo de produtividade absoluta, lucratividade extrema e formação de monopólios e cartéis. As democracias ocidentais sabiam disso, porque viviam mais intensamente o capitalismo à la Rockefeller, enquanto as potências centrais, sobretudo a Áustria, ainda pensavam como grandes impérios aristocráticos que eram. Mesmo a Alemanha, cuja produção industrial já superava em muito a britânica, não captou os novos ventos. Perdeu por isso, o que lhe custou uma humilhação desnecessária e a ascensão do regime de terror mais intenso que o mundo já viu. (Atenção: “mais intenso” é diferente de “maior”.)

A monstruosidade da Primeira Guerra Mundial pagou seu preço na Segunda: foi uma paga de mais monstruosidade ainda. O rancor francês de 1870 foi transferido para a Alemanha. A guerra total foi levada às últimas conseqüências por Hitler. Mais algumas dezenas de milhões de vidas foram apagadas do mapa. Nos anos 30, a dita comunidade internacional foi incapaz de deter os avanços dos nazistas sobre os territórios vizinhos pelo simples motivo de que, freqüentemente, acreditava-se que eles tinham razão em reclamar reparações pelas injustiças impostas no tratado de Versalhes (de 1919) por uma França amedrontada com o poderio do vizinho, embora derrotado. Tamanhos eram o rancor e o ódio, que o famoso e maldito ditador alemão exigiu assinar a rendição da França, em 1940, no mesmo vagão do mesmo trem, no mesmo ponto da mesma linha férrea em que foi assinado o armistício de 1918, em Compiègne. Depois, o vagão foi levado para a Alemanha e queimado. Hoje, há um museu na pequena cidade da Champagne com uma réplica exata do tal vagão.

Nicolas Sarkozy anunciou que as celebrações pela vitória de 1918, este ano, vão abandonar o cretino tom triunfalista e se concentrar mais na memória das vítimas da estupidez humana. Mortos, mutilados, órfãos, miseráveis. A biblioteca de Leuven, com 230 mil volumes, destruída pelos alemães. Os armênios, que a Turquia tentou varrer do mapa. Os australianos e neozelandeses enviados pelo comando militar britânico para o suicídio no estreito de Dardanelos, na Turquia. Tudo isso, naquela que deveria ser “a guerra para acabar com todas as guerras”.

Sarko tem razão. Não há vitória nenhuma quando 40 milhões de pessoas morrem e um continente é transformado em barril de pólvora, tão perigoso que, ao estourar após menos de 30 anos, mais 60 milhões de almas seriam aniquiladas. Ao lembrar de uma guerra como essa, devemos ter em mente o quanto a humanidade pode ser atroz e monstruosa, mesmo quando se considera no ápice da civilização, como acreditavam os europeus da belle époque.

PS1: Sobre o fim da cordialidade militar, da era vitoriana e do respeito ao inimigo, recomendo este antigo texto do blog de Rafael Galvão.

PS2: A referência mais imprescindível para entender como foi monstruosa a Primeira Guerra, em que os soldados eram tratados como meros pedaços de carne pelos comandantes, é evidentemente Paths of Glory (Glória feita de sangue), de Stanley Kubrick.

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arte, Clara Nunes, crônica, música, prosa

A vida emoldurada

Torres Azuis Bizarras Noite San Giminiano
Ia andando pela rua dos fundos, atrás de um qualquer coisa que pudesse passar por jantar. Descia uma chuva de alfinete, vagarosa e desagradável. Ainda não era bem noite, mas já fazia escuro e parecia que a cidade se escondia. Todo mundo foge da temperatura que cai bruscamente; em vez de visitar os amigos ou a família, vale mais terminar o domingo com um filme da televisão. No meu caso, foi a necessidade que deu a última palavra. Comer é preciso. Saí. Para me proteger da água e das lâminas do ar, a manta grossa e, principalmente, a música que os fones de ouvido sussurravam.

Quando fiz a curva e embiquei pela rua maior, a faixa mudou. Os acordes em staccato de um cavaco e a voz de Clara Nunes fazendo um aperto de saudade no seu tamborim: Tristeza e Pé no Chão. No mesmo instante, deu-se alguma coisa. Fui invadido por um desconforto que não podia explicar, como se minha cabeça entrasse em conflito consigo mesma. Ou melhor, como se meu corpo visse o mundo à sua frente, mas se reconhecesse em outro canto, outro plano, outro universo. Estranha sensação, caminhar tremendo de frio por uma rua deserta e brilhosa, com tantãs e ganzás como trilha sonora, gingando na celebração de uma voz divina.

Culpa do aparelhinho que me atirava a música direto nos tímpanos. Quem segue seus caminhos ao som da pura realidade, buzinas, berros e motores desregulados, talvez não me entenda. Mas, palavra, é assim. Quando inventaram o walkman, o diskman, o celular que capta FM, o toca-fitas de carro e o famigerado iPod, inventaram ao mesmo tempo a vida com trilha sonora. Para muita gente, o próprio fato de existir passou a ser pontuado pelas emoções que melodias transmitem e batidas impõem.

Tanta gente no metrô com cabos pendurados, caindo pelos lados do pescoço como madeixas de plástico! São garotos, não têm a habilidade de controlar o volume. Um vagão inteiro submetido ao bate-estaca. Seus olhares se perdem no desprezo pelo universo, nem consigo supor que imagem podem ter do mundo, da cidade, das pessoas, enquadrados pela batida agressiva das pistas de dança. Não pode ser a mesma face que eu vejo, por trás de minha música diferente.

Meu caso começou como fuga. Tinha pânico dos vendilhões da Paulista, precisava de um pretexto para não escutar suas vozes, não precisar grunhir um “não” a cada passo. Certo dia, captei a Rádio Cultura pelo celular; examinar os rostos suados e sérios ao som do Stabat Mater de Pergolesi me incutiu a certeza de que todos à minha volta eram infelizes. Compreendi a profunda desgraça de todo aquele ambiente e quis escapar. Claro, a culpa não cabe inteira à música, mas ela tem parte.

Onde foi que li? Um ensaio sobre como mudou nossa relação com a música no último século. Pode ter sido Adorno, o do contra, ou Nikolaus Harnoncourt, ou qualquer outro. Primeiro foi o fonógrafo, que deu à humanidade o controle sobre as harmonias. Qualquer caixinha poderia tocar como uma orquestra. Depois, o rádio espalhou pelo mundo as mensagens sonoras determinadas por alguém em algum lugar, seja lá quem for. Pois era um certo encanto que se quebrava. Tirar melodias de um objeto inanimado perdeu seu verniz de mágica. A música, daí por diante, seria outra.

O golpe de misericórdia foi dado, com certeza, pelo cinema falado. “O grande culpado da transformação”, já dizia Noel Rosa, filósofo malgré soi. Na tela, a música enquadrou a vida real. O herói enlaça a mocinha ao som dos violinos, o assassino dá suas estocadas com um fundo de trítonos secos. O público se deixa envolver. O público somos nós. Nós acreditamos. E transferimos a necessidade de trilha sonora para nossa própria existência. Sem querer.

Daí meu estranhamento, na noite de domingo, enfrentando o frio e a chuva embalado pelo surdo, a cuíca e a voz de Clara Nunes. A máquina que eu trazia no bolso não entende nada. Não sabe escolher o fundo que se adequa por natureza a cada ocasião. Era momento para o quase silêncio de Eric Satie, as lamentações de Robert Johnson ou a cantilena da quinta Bachiana Brasileira de Villa-Lobos. Lágrimas na avenida, um desfile marcado para a quarta-feira? Impossível.

Só fui capaz de retornar ao corpo quando abandonei toda pretensão a uma trilha sonora. O mundo se recompôs, terrível como é: um silêncio de cripta gótica, motores à distância, o eterno chiado urbano que nunca sei de onde vem. Crueza e crueldade do ar que não vibra segundo o acordo das vozes. O ar desobediente que existe além dos meus fones.

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