arte, Clara Nunes, crônica, música, prosa

A vida emoldurada

Torres Azuis Bizarras Noite San Giminiano
Ia andando pela rua dos fundos, atrás de um qualquer coisa que pudesse passar por jantar. Descia uma chuva de alfinete, vagarosa e desagradável. Ainda não era bem noite, mas já fazia escuro e parecia que a cidade se escondia. Todo mundo foge da temperatura que cai bruscamente; em vez de visitar os amigos ou a família, vale mais terminar o domingo com um filme da televisão. No meu caso, foi a necessidade que deu a última palavra. Comer é preciso. Saí. Para me proteger da água e das lâminas do ar, a manta grossa e, principalmente, a música que os fones de ouvido sussurravam.

Quando fiz a curva e embiquei pela rua maior, a faixa mudou. Os acordes em staccato de um cavaco e a voz de Clara Nunes fazendo um aperto de saudade no seu tamborim: Tristeza e Pé no Chão. No mesmo instante, deu-se alguma coisa. Fui invadido por um desconforto que não podia explicar, como se minha cabeça entrasse em conflito consigo mesma. Ou melhor, como se meu corpo visse o mundo à sua frente, mas se reconhecesse em outro canto, outro plano, outro universo. Estranha sensação, caminhar tremendo de frio por uma rua deserta e brilhosa, com tantãs e ganzás como trilha sonora, gingando na celebração de uma voz divina.

Culpa do aparelhinho que me atirava a música direto nos tímpanos. Quem segue seus caminhos ao som da pura realidade, buzinas, berros e motores desregulados, talvez não me entenda. Mas, palavra, é assim. Quando inventaram o walkman, o diskman, o celular que capta FM, o toca-fitas de carro e o famigerado iPod, inventaram ao mesmo tempo a vida com trilha sonora. Para muita gente, o próprio fato de existir passou a ser pontuado pelas emoções que melodias transmitem e batidas impõem.

Tanta gente no metrô com cabos pendurados, caindo pelos lados do pescoço como madeixas de plástico! São garotos, não têm a habilidade de controlar o volume. Um vagão inteiro submetido ao bate-estaca. Seus olhares se perdem no desprezo pelo universo, nem consigo supor que imagem podem ter do mundo, da cidade, das pessoas, enquadrados pela batida agressiva das pistas de dança. Não pode ser a mesma face que eu vejo, por trás de minha música diferente.

Meu caso começou como fuga. Tinha pânico dos vendilhões da Paulista, precisava de um pretexto para não escutar suas vozes, não precisar grunhir um “não” a cada passo. Certo dia, captei a Rádio Cultura pelo celular; examinar os rostos suados e sérios ao som do Stabat Mater de Pergolesi me incutiu a certeza de que todos à minha volta eram infelizes. Compreendi a profunda desgraça de todo aquele ambiente e quis escapar. Claro, a culpa não cabe inteira à música, mas ela tem parte.

Onde foi que li? Um ensaio sobre como mudou nossa relação com a música no último século. Pode ter sido Adorno, o do contra, ou Nikolaus Harnoncourt, ou qualquer outro. Primeiro foi o fonógrafo, que deu à humanidade o controle sobre as harmonias. Qualquer caixinha poderia tocar como uma orquestra. Depois, o rádio espalhou pelo mundo as mensagens sonoras determinadas por alguém em algum lugar, seja lá quem for. Pois era um certo encanto que se quebrava. Tirar melodias de um objeto inanimado perdeu seu verniz de mágica. A música, daí por diante, seria outra.

O golpe de misericórdia foi dado, com certeza, pelo cinema falado. “O grande culpado da transformação”, já dizia Noel Rosa, filósofo malgré soi. Na tela, a música enquadrou a vida real. O herói enlaça a mocinha ao som dos violinos, o assassino dá suas estocadas com um fundo de trítonos secos. O público se deixa envolver. O público somos nós. Nós acreditamos. E transferimos a necessidade de trilha sonora para nossa própria existência. Sem querer.

Daí meu estranhamento, na noite de domingo, enfrentando o frio e a chuva embalado pelo surdo, a cuíca e a voz de Clara Nunes. A máquina que eu trazia no bolso não entende nada. Não sabe escolher o fundo que se adequa por natureza a cada ocasião. Era momento para o quase silêncio de Eric Satie, as lamentações de Robert Johnson ou a cantilena da quinta Bachiana Brasileira de Villa-Lobos. Lágrimas na avenida, um desfile marcado para a quarta-feira? Impossível.

Só fui capaz de retornar ao corpo quando abandonei toda pretensão a uma trilha sonora. O mundo se recompôs, terrível como é: um silêncio de cripta gótica, motores à distância, o eterno chiado urbano que nunca sei de onde vem. Crueza e crueldade do ar que não vibra segundo o acordo das vozes. O ar desobediente que existe além dos meus fones.

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10 comentários sobre “A vida emoldurada

  1. esplendida crônica, excelente foto da solidão, e eu não sei que o som musical é especial nas noites desacompanhadas?
    me lembro do milagroso toca disco alemão Telefunken, 1934, dez discos de ardosia empilhados, um no fim, outro engatilhado, terminada a pilha, que maravilha, o aparelho invertia os discos e a musica continuava, vinte melodias sem interrupção, quase 60 minutos de som, e agora? no computador estocados 1600 faixas escolhidas a dedo, tempo sem fim pra escutar….

    abração

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  2. Silvia disse:

    Eu tive a oportunidade de entrevistar o Decio Pignatari para uma tal de Revista do CD (imagine….) que falou uma coisa interessante sobre os fones de ouvido, que eles misturam a musica na nossa cabeca, uma coisa assim. Gostei muito do seu post, especialmente da »chuva de alfinete».

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  3. Tô pra comentar esse post há maior tempão, mas sempre arranjo uma desculpa esfarrapada pra dar corda pra preguiça. Pois bem, hoje vim dizer que você escreve muito bem, conforme disse a Fran aí em cima. Já tô ficando até chata, mas parabéns Diego, belíssimo post!!!!

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  4. Madeixas de plástico foi bárbaro! Admiro sua habilidade com textos descritivos. Bravo!

    De fato, o cinema falado casa a música com o ambiente, coisa que se consolida nas telenovelas, mas, talvez, a necessidade de isolar-se do mundo e perder-se nas ondas musicais tenha se firmado pela incapacidade de interagir com tantos anônimos (é quase um “não te escuto porque você não existe pra mim”).

    Mas, voltando ao post… meu amigo, siga este conselho: crie playlists. Tenho específicas para estudar, correr e até para usar o transporte público. Assim você não corre o risco de ouvir Cavalgada das Vanquírias enquanto poda o jardim.

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  5. Fala Diego!
    Como anda a vida à francesa?
    Gostei da crônica. Vou linkar eu blog ao meu.
    E tbm li esse texto sobre a música e tbm nao lembro quem foi. Quem sabe nem foi o mesmo. Talvez tenha sido via Umberto Eco criticando os frankfurtianos. Depois façamos uma discussão sobre o tema, pois tendo a discordar parcialmente do autor do texto que nao sabemso que é.
    abçs
    Maceió

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  6. Fico com pena de comentar e estragar seu texto. Pode acontecer, né?
    Às vezes prefiro só ler e ficar encantada com suas palavras que criaram quadros para me envolver…

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  7. “Quando inventaram o walkman, o diskman, o celular que capta FM, o toca-fitas de carro e o famigerado iPod, inventaram ao mesmo tempo a vida com trilha sonora.”

    Pode ter certeza que eu sei EXATAMENTE como você se sente!

    Ótimo texto!

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