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Elogio à paciência e à sutil ironia

Foi na semana passada que entrei no blog do Catatau para comentar um texto recente, mas acabei não comentando. Fui atraído pela lista de comentários recentes, que terminava com o de um certo Pr. Thieme, num artigo publicado no longínquo, para não dizer antediluviano, mês de maio. Admirado da distância entre os argumentos originais e a contribuição listada na coluna lateral, resolvi visitar a página e acabei esquecendo da vida, sem contar o texto recente com que eu pretendia contribuir.

Fiquei pasmo ao ver a extensão da lista de comentários (para quem se interessar, ela está aqui), quase monopolizada pelo titular do blog e o Pr. Thieme. Mais ainda, deliciei-me com o desenrolar da conversa, muito embora ela manifeste algumas práticas retóricas que me enchem de apreensão quanto ao futuro. É que a irreconciliável diferença entre a lucidez argumentativa do blogueiro e o messianismo quase iletrado do comentarista produz algumas situações impagáveis, dignas de figurar em esquetes de um Monty Python da vida. (Por sinal, Eric Idle tem um vídeo no Youtube em que esfarela em derrisão alguns comentários virulentos que aparecem na lista do grupo. Merece uma visita.)

Começo com o que me preocupa. O Pr. Thieme se apresenta como um pastor evangélico defensor daquela tal psicóloga (por ter se formado na faculdade de psicologia, não por compreender a matéria, bem entendido) que prometeu “curar gays”. A defesa é baseada em uma série de testemunhos e passagens curtas da Bíblia, que, costurados de maneira aleatória e conveniente, fazem as vezes de exegese e fundamento teórico. Eventualmente, como na caixa de comentários de Catatau, esse tipo de técnica retórica esbarra em gente mais preparada. Solução? Vencer pelo cansaço, através de evasivas, repetições, argumentos ad hominem e assim por diante.

Mas vamos com calma. Vale analisar os sintomas um por um, para traçar o quadro daquilo que considero tão perturbador.

De fato, Pr. Thieme escreve com a retórica de quem foi treinado para seduzir platéias. Recorre reiteradamente a exemplos de grande apelo emocional e fácil compreensão. Intercala esses exemplos com sentenças identificativas, do tipo “A é B”, de imediata absorção, como postulado, pelo auditor (ou leitor) desatento ou despreocupado. Resultado: sem precisar expressá-lo distintamente, ele cria a falsa impressão de um silogismo. Mas, já que a conexão lógica não está explícita, a falácia passa batida e se instala no inconsciente do receptor como uma grande verdade.

Por exemplo:

Apelo emocional: “Nem a medicina resolve. Os três médicos que acharam que o Bozo estava morto converteram-se a Cristo (os três).

Postulado: “É a vantagem de ter o Poder de Deus para te iluminar sobre o problema a enfrentar e não depender somente de seus conhecimentos humanistas.

Silogismo disfarçado: Práticas de origem científica (no caso, medicina e psicologia) têm a obrigação de romper com seus fundamentos teóricos se for do interesse maior de determinada afiliação religiosa.

Observe que o truque aí acima só pode ter efeito por se aproveitar de outro silogismo escondido, que pressupõe que toda afiliação religiosa interpreta perfeitamente os textos sagrados. Isso parece contraditório, uma vez que, como todos sabemos, diferentes grupos religiosos interpretam as mesmas escrituras diferentemente. Sem contar, claro, o fato de que determinados grupos aceitam ou rejeitam tais ou tais escrituras como válidas ou não. Mas é menos contraditório do que parece. Trata-se de uma adaptação relapsa, talvez voluntariamente, dos princípios de sola fides (só a fé) e sola scriptura (só as escrituras) de Lutero.

Não sei se o pastor em questão é luterano (duvido muitíssimo), mas pouco importa. O fato é que Lutero pregava a salvação pela graça e a orientação pelo recolhimento diário para leitura e exegese dos textos sagrados cristãos, no âmbito individual e, por extensão, comunitário. Salientar o comunitário como extensão do individual é de fundamental importância para não cair no erro de determinados argumentadores, sobretudo evangélicos, como o Pr. Thieme. Dentro de uma comunidade bem delimitada, a aceitação (leia-se fé) de algumas interpretações básicas das escrituras funciona como conjunto de postulados para promover a vida religiosa comunitária, calcada sobre um desenvolvimento conjunto, no interior daquela coletividade específica e delimitada, de uma compreensão global dos textos sagrados. Não é à toa que grande parte da teologia e do pensamento político alemães partem da noção de comunidade.

O que tenta fazer o intérprete leviano do sola scriptura e do sola fides é incinerar o conceito de comunidade. Mas, como algum tipo de formulação coletiva é necessária num universo não-autista como o nosso, o que acaba acontecendo é algo profundamente perigoso: a comunidade é engolida pelo conceito de indivíduo. Isso permite a qualquer fiel isolar um versículo, aplicá-lo a algo em que tem convicção, e alardear suas próprias conjecturas como sendo a palavra de Deus.

A armadilha não poderia ser mais clara. O raciocínio por trás dessa atitude considera como verdadeira a seguinte conseqüencial: se os textos sagrados manifestam a palavra de Deus, então tudo que pode ser tirado de um texto sagrado manifesta a palavra de Deus. É um evidente caso de premissa omitida. Mesmo admitindo que toda escritura manifesta a palavra de Deus, quem “tira” interpretações desses textos não é Deus. São homens, mesmo que eles se creiam inspirados pelo Espírito Santo.

O que, a princípio, poderia vir salvar essa leitura solipsista das escrituras é o sola fides. Ora, lembremos que o sola fides é um rumo para a salvação, quase um atestado de “adesão” ao sola gratia, considerado em geral o princípio fundamental do luteranismo e retomado pela maior parte das denominações protestantes. Portanto, ele não pode ser usado como princípio que valide argumentos de cunho social, isto é, coletivo. O motivo é muito simples: não há mecanismo individual nenhum para assegurar o fiel de que sua fé está bem encaminhada; a própria Bíblia possui mais de um trecho destinado a alertar o fiel para a projeção em Deus de suas próprias convicções. O melhor exemplo de todos é provavelmente o mesmo trecho da carta de S. Paulo aos Coríntios que Catatau invoca para espezinhar o Pr. Thieme, e que inspira o título deste meu elogio (voltarei a isso mais adiante).

Retomando o fio do raciocínio, temos uma situação em que a interação entre o indivíduo e a comunidade está rompida, tornando os princípios de sola fides, sola gratia e sola scriptura o oposto daquilo a que estavam destinados. Suplantada pela retórica e pelo marketing espetaculoso (acho que aqui um exemplo é desnecessário), a religiosidade vira instrumento de manipulação política (e social, econômica, …). Observe que esse resultado seria suficiente para fazer queimar no inferno as almas mesmas que invocam Deus (ou deuses, se for o caso) para manobrar decisões políticas e sociais.

Afinal de contas, e eis a mais temível conseqüência da armadilha já mencionada, quando alguém projeta em Deus suas próprias idéias, como descrito nos últimos parágrafos, ele está, sabendo ou sem saber, tomando a si mesmo por Deus. Repito: a subversão dos princípios de sola fides, sola gratia e sola scriptura leva o fiel, ou aquele que se considera fiel, a se tomar por Deus. O termo técnico, se ainda for necessário, é blasfêmia.

É claro que esse tomar-se por Deus é um processo inconsciente e involuntário. Mas ele não acontece à toa: é resultado da perda da noção de comunidade, aquela em cujo seio a fé e as escrituras, compartilhadas pela leitura e a interação (lembremo-nos que, para Lutero, todo fiel é um sacerdote), aproximava a coletividade de Deus. No lugar da comunidade eclesiástica, o que temos hoje é o messianismo, o marketing e o espetáculo. No lugar da interação, temos grupos cada vez mais restritos, voltados não a uma busca de iluminação pela investigação das escrituras (sola scriptura), mas uma busca da catarse pelo contato físico com o livro sagrado (já viu aquelas pessoas andando por aí com a Bíblia na mão? Vê se elas refletem comunitariamente sobre aquilo…). No lugar da fé desenvolvida pela intersubjetividade comunitária, temos a auto-afirmação através de um combate profundamente político e longe de espiritual.

Como foi acontecer algo assim? Escolho, como explicação, usar dois autores que vão deixar muita gente ignara com os cabelos em pé. Isso mesmo: Nietzsche (cruz credo!) e Marx (te esconjuro!). O primeiro é autor da famosa sentença: “Deus está morto”, que todo mundo conhece e muita gente entende como uma provocação aos fiéis. Mas quem a lê assim o faz porque prefere não espiar o resto da passagem do louco com a lanterna: “Fomos nós que o matamos”, ele diz.

A interpretação mais imediata dessas duas frases é a preferida de quem se aproveita da religiosidade em proveito próprio. Ela consiste em crer que, no lugar desse Deus que considera morto, o homem coloca a si próprio. Afinal, parece difícil imaginar que o homem possa não colocar nada no lugar de princípio absoluto, para se orientar neste mundo de contingência em que tudo é fugidio. Como organizar uma interpretação da realidade sem pontos de apoio? Resultado: o homem se colocaria na condição de parâmetro para essa interpretação, tomando-se por absoluto e, por que não extrapolar, tomando-se por Deus. Quem nunca ouviu essa análise?

Ela não é tão errada quanto parece, na verdade. Mas ela se interrompe onde lhe interessa, sem chegar ao ponto verdadeiramente problemático da questão. Um tal “assassinato de Deus” não poderia ir adiante sem a corrosão do espírito comunitário que sustentava, para Lutero, os três “solae” e, para S. Paulo, a ecclesia (igreja; veja essa explicação em mais detalhe nos comentários do blog do Catatau). Trata-se, portanto, de uma decorrência da modernidade, tanto quanto as ferrovias, a metralhadora, a Coca-Cola e o Edir Macedo. De súbito, a estrutura onto-teológica que sustentava a espiritualidade ruiu, primeiro na Europa cristã, depois no mundo todo – e as perturbações do mundo islâmico que perduram até hoje são outra faceta do mesmíssimo fenômeno.

Mas o tema deste texto não é o Islã, e sim o discurso pseudo-religioso que toma suas próprias máximas como sendo palavra de Deus. E aqui é que vou recorrer a Marx (tire as crianças da sala). O barbudo alemão comedor de criancinhas abre seu 18 de Brumário de Luiz Napoleão com uma de suas passagens mais brilhantes. Diz ele, citando Hegel, que a história acontece duas vezes, “a primeira como tragédia; a segunda como farsa”. Mas o mais interessante é o que vem logo em seguida e merece uma citação integral (tirada do site marxists.org):

Os homens fazem a sua própria história, mas não a fazem segundo a sua livre vontade; não a fazem sob circunstâncias de sua escolha e sim sob aquelas com que se defrontam diretamente, legadas e transmitidas pelo passado. A tradição de todas as gerações mortas oprime como um pesadelo o cérebro dos vivos. E justamente quando parecem empenhados em revolucionar-se a si e às coisas, em criar algo que jamais existiu, precisamente nesses períodos de crise revolucionária, os homens conjuram ansiosamente em seu auxilio os espíritos do passado, tomando-lhes emprestado os nomes, os gritos de guerra e as roupagens, a fim de apresentar-se nessa linguagem emprestada.

Proust, que não sei se leu Marx, escreveu um romance de umas boas 4000 páginas (uma tal Busca do Tempo Perdido) em que demonstra, por exemplo, como a burguesia fin-de-siècle se comportava como imitação farsesca da aristocracia dos séculos passados. Pois é o mesmo que acontece hoje, com aqueles que se pretendem os ressuscitadores do Deus cujo necrológio Nietzsche escreveu no século XIX.

Como vimos, o que essas pessoas promovem não é ressurreição de nenhuma sorte. Ao contrário, aproveitando-se da morte (autêntica ou não, pouco importa) de Deus, eles embalsamam o cadáver exposto por Nietzsche, como os soviéticos embalsamaram Lênin na Praça Vermelha, e falam através dele, como os soviéticos falavam através dos despojos do pai da Revolução, incapaz de se defender. O resultado é o que vemos: uma imitação, como farsa, da religiosidade histórica, baseada ela sim em um verdadeiro sistema exegético. E essa imitação se manifesta nessas lamentáveis lideranças, auto-intituladas religiosas, que se aproveitam da necessidade natural humana de alívio espiritual, apenas para adquirir peso num jogo político que tomou dimensões inimagináveis em épocas anteriores à “morte de Deus” que Nietzsche apontou, com sua habitual argúcia e verve.

Mas peço desculpas por essa longa digressão que foge absurdamente do título. É que eu queria demonstrar como o individualismo que gente como o Pr. Thieme denuncia nos “humanistas” e “relativistas” (ver seus comentários no blog do Catatau) está na origem da própria religiosidade ersatz que sustenta tantas denominações que aparecem muito mais no noticiário político do que em verdadeiros estudos teológicos. Pois é isso que, no começo do texto, eu considerava perturbador e perigoso. Utilizar-se de um subterfúgio religioso para fazer política não pode ter boas conseqüências. Logo me vem à cabeça gente como Savonarola e Torquemada. Fé cega e poder estatal são uma mistura explosiva, porque a certeza absoluta de encarnar o Bem (com letra maiúscula, e não nos esqueçamos que estamos falando de gente que confunde seus próprios instintos com a palavra de Deus) surrupia à ação qualquer possibilidade de limites. Assustador, sim, por esse motivo.

Agora, finalmente, chego ao elogio à paciência e à fina ironia. Nos comentários do blog do Catatau, o Pr. Thieme tenta, de toda forma, exaurir o gosto argumentativo do blogueiro. Se fosse comigo, ele conseguiria, porque eu não consigo exercitar essa divina virtude que é a paciência. Enquanto o comentarista insiste em repetir o mesmo discurso sentimental e confuso, que certamente passa por muito sábio para quem está predisposto a segui-lo se necessário até o inferno, o blogueiro perde horas de sua vida para responder. Privado do “chega, cansei” com que ele espera a vitória por pontos, o que resta ao comentarista? Expor-se ao ridículo e cansar não mais o blogueiro, mas o leitor.

E eu pergunto: como Catatau consegue ter tanta paciência? Acho que a resposta está na fina ironia. Apesar da enorme empulhação que deve ser ficar dando respostas, durante meses, à tortuosa linha argumentativa de seu oponente, imagino que deve ser muito divertido levá-lo a tornar suas próprias frases uma grande piada. Catatau chega ao ponto de, na maior cara-de-pau, chamar o sujeito de idiota, e ter como réplica apenas a queixa molenga de que a palavra é grega.

Se eu for pedir algo a Deus (e digo isso sem nenhuma intenção provocativa), será uma infinita paciência como a do Catatau, temperada com a mesma sabedoria de usar da ironia sem dar a perceber a ofensa numa primeira e ligeira leitura. Acontece que, sempre que sou irônico, e isso acontece com freqüência, a hostilidade fica logo patente. Não consigo disfarçar. Ao contrário, com sua proverbial fineza, Catatau é muito mais eficiente, como demonstra deu desmonte dos delírios do comentarista em seu blog. Simplesmente brilhante.

Como eu já disse, vale a leitura.

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arte, comunicação, conto, costumes, crônica, descoberta, ironia, Itália, literatura, livros, opinião, prosa, reflexão

O mochileiro e a biblioteca

Sorte que nem todos os meus amigos lêem isto aqui. Com isso, posso fazer fofocas sobre alguns conhecidos sem risco de ofendê-los. Naturalmente, eu sou alguém de muito boas intenções e não vou me meter a espalhar os podres de quem quer que seja. Se abro uma exceção hoje, é por uma boa causa. Há episódios na vida da gente que nos põem a matutar e, se achamos as considerações pertinentes, postá-las é obrigação. Não é o blog uma ferramenta de reflexões? Pois.

Lá vai o causo: recebo a visita de um amigo que, já um pouco passado da idade, cumpre o ritual do mochilão pela Europa. Aqui é verão e dá pra ver que ele esteve pelo Mediterrâneo. Está queimado, expansivo e com alguns quilos de sobra. Instala-se como um saco de batatas no meu frágil sofá. Com a desenvoltura de quem acabou de passar pela Itália, agarra a cerveja que lhe estendo. E se põe a falar de suas aventuras, as turísticas e as amorosas, como é de seu feitio.

De repente, sem motivo para mudar o assunto, o rapaz envereda pela história de alguém que conheceu em Turim. Um livreiro desses que, sentados sob as arcadas da capital piemontesa (ah, que belas e saudosas arcadas!), passam a tarde jogando papo fora, a não ser que venha lhes incomodar algum cliente em potencial. O tal velhinho, que foi como meu amigo se referiu a ele daí por diante, se gabava de estar próximo de completar seu nono milésimo volume lido. Surpresa do viajante: com que então aquele pacato ancião tinha lido 9000 livros em sua vida?

Pois o homem assegurou que sim e, na rispidez do macho latino, desafiou meu amigo a duvidar. Nada disso, nada de dúvida, foi a réplica. O que queria o brasileiro era aprender a fórmula, conhecer a mágica, ser iniciado nas artes da leitura ininterrupta. A julgar por seu ar iluminado, eu diria que o aprendizado tinha sido um sucesso. Curioso, pedi que ele me concedesse ao menos um vislumbre do que lhe transmitira o guru.

Sem problemas, foi a resposta. E ele apontou para minha estante de livros. Pediu que eu supusesse uma estante mais avantajada, com quatro largas prateleiras. E eis o segredo de ler tanto quanto o tal senhor italiano: no início de cada ano, as duas prateleiras superiores deveriam ser preenchidas com os volumes a serem lidos ao longo do ano. O número que ele sugeriu era mesmo impactante: 120, ou um livro para cada três dias, mais ou menos.

À medida em que se fossem “consumindo” essas unidades, elas deveriam ser transferidas para as duas prateleiras inferiores, de tal maneira que, no final de dezembro, todos os 120 livros tivessem sido deslocados. Ora, objetei, ninguém consegue manter um passo tão puxado! Pois bem, explicou-me o mochileiro, com o passar dos meses, o leitor percebe que o “progress bar” (o termo é dele e me fez cair brevemente na risada) não está avançando a contento. Com isso, ele acelera, intensifica seu ritmo de leitura, pula páginas, faz o que for. Mas cumpre a meta. Cumpre a meta. Cumpre a meta!

Em seguida a esse predicado repetido com perdigotos e olhos esbugalhados, o visitante se ergueu e arrematou: o mais belo de todo o segredo é que aqueles livros enfileirados na barraquinha de Turim eram os frutos da leitura do ano anterior. Porque, e eis o pulo do gato, ao final do ano, cumprida a meta, todos os 120 anos tinham de ser doados, vendidos, jogados fora, qualquer coisa. Nada de guardar livro velho! Nada de mofo, nada de traças, nada de exibicionismo bibliófilo!

Afastando-me com um empurrão de bêbado, o visionário amigo partiu para cima de minha humilde biblioteca. Postou-se diante das lombadas e se pôs a coçar o queixo. Apontou, o dedo mole de desprezo, para minhas prateleiras e perguntou o que, “disso aqui”, eu já tinha lido ou ainda não. Nessa hora, confesso que empaquei.

Gaguejando, suando frio, talvez tremendo um pouco, fui obrigado a admitir que não tinha certeza, não sabia muito bem, estava em dúvida, assim, vacilando. O rapaz ficou pasmo. Lançou-me um olhar de zombaria, incredulidade e superioridade que provavelmente nunca esquecerei. Que espécie de demente não sabe dizer quais dos livros de sua própria estante ele já leu ou deixou de ler?

Ligeiramente humilhado, fiz um esforço de concentração para lhe dar uma resposta. À distância, examinei eu mesmo os títulos todos e tentei me lembrar do que eles diziam. Pouco a pouco, comecei a me dar conta de algo bastante curioso. Pouquíssimos eram os volumes cujo conteúdo eu desconhecia por inteiro. Normalmente, esses vazios correspondiam a presentes recebidos com um sorriso amarelo e largados no meio dos outros volumes. Alguns, também poucos, eu nunca havia tocado. Mas não eram exatamente “não lidos” porque, embora suas páginas nem tivessem sido cortadas1, eu sabia do que se tratava e os guardava ali como referência em potencial. Na verdade, eu sabia que nunca leria de fato aqueles livros, mas essa não era mesmo sua função. Eles estavam ali para dialogar com minhas ideias e outras leituras, quando fosse o caso.

Depois, consegui separar mentalmente mais um grupo, de longe o maior. Eram os livros “parcialmente” lidos. Os que comecei a ler, mas parei. Os que me valeram um ou dois capítulos, e só. Os que foram abertos duas ou três vezes, quando precisei de uma referência ou uma precisão. Os que, resumindo, preencheram uma lacuna ou outra, dessas que parecem tão trágicas no esforço de entender alguma coisa.

Por último, o grupo que quase lhe apontei: aqueles livros que li de cabo a rabo, da primeira página à última, introdução, prefácio, índice, notas e aquela última folha que nos informa que “este volume foi impresso na gráfica tal e tal para a editora tal e tal no dia tanto”… Mas me interrompi a tempo de salvar o patrimônio. Se meu amigo soubesse que aqueles livros eram já lidos, ele tentaria me convencer a doá-los, vendê-los, jogá-los fora. Talvez até os atirasse pela janela!

Mas tive um estalo. Eu estaria mentindo, se lhe dissesse que aqueles livros eram “já lidos”, como dizemos de um tubo de pasta de dente que ele já foi usado, esgotado, consumido, terminado. Mesmo se chegamos ao fim, será que matamos um livro, como matamos um pacote de biscoitos? Quantas vezes já não tive de voltar a um livro para me certificar da declaração de um personagem ou do argumento de um filósofo! Não seria cruel da minha parte dizer que esse livro que consultei, que reli, que folheei, é já lido, exausto, inútil a ponto de merecer a lixeira ou, vá lá, uma volta ao ciclo do mercado?

Tive de inventar uma outra estratégia. Meu amigo estava impaciente e desconfio de que já questionava minha sanidade mental. Expandi os braços, abri um largo sorriso, talvez tenha até dado um pequeno salto. E exclamei: “estou lendo todos!” Ele perdeu um pouco o equilíbrio, como eu esperava. O fator surpresa estava do meu lado e eu tinha de aproveitá-lo. Continuei com a explicação. Os livros jamais abertos são uma leitura em potencial, mas que nem por ser potencial é menos verdadeira. Em seguida, há os que estou lendo parcialmente – nesses, resta uma parte também potencial. Aqueles cujas páginas atravessei por inteiro são livros plenamente em leitura, e não plenamente lidos.

Meu oponente não estava muito convencido. Talvez se eu tivesse cabelos brancos e vivesse debaixo de arcadas centenárias… Não sei. Tentei convencê-lo da ideia de que um livro presente é um livro vivo e a leitura é só um detalhe da nossa relação com ele. Fiz uma analogia estranha com as commodities e os produtos fast-food que consumimos e esgotamos, depois mandamos para aterros sanitários e quetais. Ele amarrou a cara, prestes a manifestar sua discordância. Eu estava perdendo terreno para o ancião de Turim.

Até que toquei na corda certa. Com um cálculo meio absurdo, dei um tapa no ombro do amigo e passei os dedos pelas lombadas: “Acho que já passei dos nove mil… cada vez que penso num desses livros, é como se o lesse de novo. Assim, cada um vale por (digamos) dez. E acho que tem mais de noventa aqui…” Isso dito, os olhos do mochileiro brilharam. Ele sorriu, deu-me um abraço apertado, esqueceu do famigerado livreiro e sugeriu um brinde.
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1 Desculpe o anacronismo. Há décadas não se cortam mais páginas de livro, mas a imagem é tão poética…

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comunicação, costumes, história, imprensa, ironia, jornalismo, literatura, modernidade, obituário, opinião, passado, prosa, reflexão, reportagem, saudade, tempo, trabalho, transcendência, vida

Entrevista não de todo impossível

O que segue são as palavras de um jovem do sexo masculino, entrevistado na penumbra, para garantir o anonimato, e com a voz embaralhada eletronicamente, para evitar a identificação. É um depoimento “real”, colhido durante uma entrevista informal sobre as transformações de que a nova geração é, ao mesmo tempo, vítima e protagonista. As declarações foram tomadas em meados do último ano, mas o entrevistado, empregado numa corretora da valores da Bovespa, só hoje autorizou sua publicação, por temor de represálias que não foram especificadas.

* * *

Que jornal você anda lendo?

– Na verdade, desde que saí da casa dos meus pais, nunca assinei um jornal…

– Desculpe interromper: quando foi isso?

– Foi uns… cinco, seis anos atrás. Eu vi que já podia me sustentar, se fizesse alguns sacrifícios, mas minha renda era baixa demais, o aluguel um pouco salgado, e ainda tinha a gasolina, a cerveja… Acho que dá pra dar uma idéia. Não é que eu não gostasse de ler jornal. Ao contrário, eu adorava, lia desde criança, o Kfouri, o Nassif, o Cony, todo mundo. Mas eu precisava economizar e achava que poderia ler os jornais que chegavam no trabalho. Só que… assim…

– Não é a mesma coisa.

– Pois é. Ler em casa, tomando café… poder dobrar, separar os cadernos, sujar o papel de comida… E, no trabalho, você tem que manter uma certa postura, quer dizer… Você está lendo, não é como em casa, porque… Lá, você lê jornal e, no serviço, você lê o que está no jornal, entendeu?

– Em casa você não lê o que está no jornal?

– Não é isso, acho que me expressei mal. Em casa, o jornal é todo seu, mesmo que você divida ele com a família. E é uma coisa só, não é só um monte de notícias e colunas. É diferente, quer dizer…

– Mas as notícias são importantes também, não? Isto é, a informação. Como você fazia para se informar?

– É isso… informação, sim, claro, eu tinha. Eu via o jornal no trabalho e, para as coisas mais especializadas, do mercado, a gente recebe um clipping. Acho que o jornal em si era para saber um pouco do resto do mundo. Futebol, por exemplo.

– E a internet?

– Ah, sim, eu usava muito, claro. Mas ainda não era um substituto para o jornal, como é hoje. Quase não tinha notícia de graça, o pagamento não era seguro, aliás, continua não sendo, e os blogs não eram nada confiáveis.

– E agora…

– Ah, agora a internet é meu contato com o mundo, né? Nem TV, eu assisto mais!

– E você se considera um autêntico representante da “geração Y”?

– Nunca entendi direito o que isso quer dizer…

– A geração de pessoas sempre conectadas, que usam MSN, Orkut, Facebook, iPod…

– Não sei, acho que não. Até que eu não sou tão conectado assim. Acho que, para alguém que acorda todas as manhãs há décadas e vai buscar o jornal na porta, eu devo parecer um monstro informatizado, viciado em internet… Mas não sei, não me sinto assim. Aparece tanta coisa nova na internet, todo dia, que eu me sinto o maior dos reacionários com meu velho e-mailzinho. Nem blog eu tenho! E pior… não escrevo daquele jeito estranho, como se chama, mesmo?

– Mas é pela internet que você se informa, conversa, se diverte…

– Não é bem assim. Eu prefiro mil vezes conhecer gente no bar que na internet. Eu converso pelo Skype e pelo MSN por pura conveniência, isso não quer dizer que seja minha primeira opção…

– Você já fez amizades pela internet?

– Já, muitas! Minha namorada, aliás, eu conheci num fórum de discussão do Iron Maiden.

– Você começou nossa conversa dizendo que gostava de jornais, mas nunca assinou…

– Compro na banca, de vez em quando.

– Quando, por exemplo?

– Quando meu time ganha campeonatos, por exemplo. É uma lembrança que a gente tem que guardar. Não é a mesma coisa imprimir do site, concorda? Ou então, às vezes uma capa me seduz, tipo… quando promete uma série de textos com um tema importante. Aí eu compro como se fosse uma revista especializada.

– E como é essa experiência? Você disse que ler o jornal no trabalho “não é a mesma coisa”…

– É mesmo. Eu tinha mais coisas para dizer sobre isso. Nos fins-de-semana, eu vou almoçar com minha mãe. Família italiana, sabe como é… E então, antes do almoço, eu me sento no sofá e fico lendo o jornal que ela assina. E é nessas horas que eu sinto o quanto é diferente…

– Melhor?

– Não é por aí… é diferente. Às vezes, eu leio versões de jornal na internet que são a edição impressa escaneada. E não é a mesma coisa. Acho que eu já disse que o jornal é uma coisa só… Ele é um corpo inteiro e eu tenho a sensação de que, quando estou lendo jornais, mesmo que eu pule partes, depois volte, pare a leitura de um artigo no meio, quer dizer… o que quer que eu faça, estou com um jornal na mão… Nunca tive essa sensação com notícias que li na internet. No computador, eu sempre busco a notícia individualmente, ou o artigo de opinião, ou sei lá. Não é que seja melhor ou pior, é diferente, só isso.

– Mas você está mais acostumado com…

– O jornal, porque cresci com ele. É verdade, eu me sinto mais confortável lendo jornal, mas não é disso que estou falando. O jornal é cheio de coisas que eu não quero saber, que eu não tenho a menor vontade de ler, não me interessam, mas que estão ali… E mesmo quando eu passo por cima, não olho, enfim, não posso fazer nada contra as partes que não me interessam. Elas existem e pronto. São as partes do mundo que eu não controlo nem de longe, e nem por isso deixam de existir.

– Você se sente mais humilde, é isso?

– Acho que você está colocando palavras na minha boca [riso], mas é isso, uma lição de humildade. Só que o melhor de tudo é que às vezes eu acabo até lendo alguma dessas notícias que não me interessam e eu nunca tinha tido noção do quanto isso é diferente, quer dizer… pra mim é diferente, para os mais velhos é a coisa mais banal do mundo. Quer ver? Outro dia, meu time ganhou um campeonato importante e eu comprei o jornal. Na mesma página que dava notas aos jogadores, embaixo, tinha os resultados do turfe. Eu sempre achei essa palavra engraçada, falando nisso, quer dizer… Corrida de cavalo se chama turfe… Mas olha só que estanho… Eu não sei nada sobre aqueles cavalos, mas só de ver os resultados, números, nomes de puro-sangue, tudo aquilo, comecei a viajar. Fiquei imaginando aquelas pessoas todas, aposentados, desempregados, viciados, todo mundo nos fundos do jóquei, fazendo fila para apostar, rasgando a ficha quando perde dinheiro… E eu nem estava prestando atenção, quer dizer… puxa, entende?

– Mas a net é toda interligada, uma coisa leva à outra…

– Não sei até que ponto tudo é interligado… O que isso quer dizer, “interligado”? Sei lá, só sei que quando quero ver uma notícia, não vou ficar clicando em todas as palavras sublinhadas que aparecem. Olha, não quero parecer nostálgico, mas só vou dizer uma coisa: agora que todo mundo diz que os jornais estão morrendo, eu começo a ter arrependimentos. Se tivesse alugado o apartamento num bairro mais barato quando fui morar sozinho, poderia ter sobrado dinheiro para tomar mais cerveja e, ainda, assinar um jornal e uma revista. Agora é tarde, né? Os jornais vão acabar e, de toda forma, já ficaram tão ruins, não acha? Mas que sinto uma certa pena de não receber aquele resumo do mundo todo dia em casa, pode ter certeza.

– Mas esse resumo do mundo, como você diz, não é uma coisa meio autoritária? Alguém decidiu o que você leria e é isso que você vai ler. A internet costuma ser considerada mais democrática, porque tem a coisa da interatividade…

– Claro, claro, sem dúvida. É uma coisa totalmente diferente. Mas eu confesso que não me sinto capaz de decidir eu mesmo como vou resumir o mundo das notícias. Precisa ter uma formação muito fuderosa para saber escolher por conta própria, quer dizer… Não que isso seja muito diferente de como as coisas eram antes, com os jornais, né? Os donos do jornal escolhem como as coisas vão ser ditas e você precisa ter uma formação muito fuderosa para não cair na manipulação… autonomia não é para qualquer um, né?

– Mas na internet o jornalista não pode só dizer o que quer… O leitor responde, reage, contradiz o autor…

– Você está falando dos comentários das notícias? E dos posts? Tem alguma coisa boa aí?

– Claro que tem, tem coisa muito boa…

– Pode ser. Mas como é que eu vou saber? Entro na página do jornal, tem a notícia, e embaixo tem “dona fulana” e “seu sicrano” criticando as informações do jornalista. Que base eu tenho para julgar? E se o comentarista é muito bom, sei lá, com certeza ele só vai embaralhar mais a minha cabeça, porque ele sabe mais do que eu naquele assunto…

– Mas você não pode negar que isso te abre um campo de possibilidades. Não é só aquela voz única, senhora da razão, disseminando sua sabedoria. Do outro lado, eventuais objeções e emendas vêm à tona muito mais facilmente…

– Não estou negando. Com certeza, não estou negando. Mas continuo achando que só quem tem uma formação muito fuderosa consegue se orientar no meio de tanto debate!

– O que você quer dizer com “formação muito fuderosa”?

– Putz… sei lá. Saber tudo sobre tudo, vai! [riso]

– A possibilidade de todo mundo escrever no seu blog, comentar no blog dos outros, intervir nas notícias dos jornais, nos verbetes de dicionários, nos artigos da Wikipédia, além de poder fazer suas próprias reportagens por podcast, por vídeo à la Youtube, postar as próprias fotos, tudo isso você não acha que torna mais difícil a manipulação da opinião e da informação?

– Olha, você está falando com alguém que trabalhou a vida inteira no mercado financeiro. No meu metiê, a informação pode enriquecer ou empobrecer alguém em poucos minutos. Um telefonema pode derrubar uma empresa, uma frase no Twitter pode arruinar um banco, qualquer boato pode me levar a ter um ataque cardíaco. Eu acho o seguinte: quem tem mãos manipula. Quem tem mãos grandes manipula muito. Não é perfeitamente lógico? Dificultar a manipulação? Só se for mais difícil se afogar no meio do Pacífico que numa pia.

– Mas então nada muda?

– Como não? Sair de uma pia e cair no oceano não é uma mudança? [risos] Agora, falando sério, estou com medo de parecer um conservador renhido nessa história. Logo eu, que trabalho com dois monitores na minha frente, com a cotação de várias bolsas e commodities em tempo real. Já me aconteceu de intermediar uma operação que mudou o controle acionário de uma empresa, tudo bem que mais para pequena, mas foi via comunicação instantânea. Opa, estou na defensiva…

– É uma questão de escala, pelo que entendi…

– Não! Com certeza, não. Se fosse assim, eu acharia que ler jornais e ler o que está nos jornais é a mesma coisa, e ler notícias pela internet, idem. Lembra aquelas imagens dos operadores de bolsa fazendo gestos com a mão, empurra-empurra, segurando um telefone gigantesco no ouvido? Será que é só uma questão de escala que isso exista cada vez menos? Eu acho que não, quer dizer… Olha, se tem uma coisa que eu aprendi vendo as ações mudarem de mão é que nunca, nunca, nunca é só uma questão de escala. Se parece que é só quantitativo, é porque ainda não se chegou ao ponto de sela, quando os sinais se invertem. Sabe?

– Então você admite que é uma revolução.

– Posso perguntar aos universitários? [risos] É uma revolução, OK, mas isso significa que o mundo vai ter que aceitar ficar de ponta-cabeça [N.T.: de cabeça para baixo] por algum tempo. Vai encarar? Daqui a pouco ninguém mais vai sentir saudade daquele jornal inteirinho, cheio de coisas que a gente não queria e não esperava, porque pode conseguir exatamente o que quiser, quando quiser, na internet. Será que só eu vou ser o ultrapassado?

– Bom, toda a geração mais velha…

– Claro, claro, mas você sabe: “no longo prazo, estaremos todos mortos”. Isso, quem disse foi Keynes. Mas eu não sou keynesiano, viu?

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alemanha, barbárie, crônica, crime, descoberta, desespero, doença, escândalo, frança, guerra, história, inglaterra, literatura, opinião, passado, pena, prosa, reflexão, tempo, tristeza, vida

O relato e a realidade

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Duas semanas atrás, quando escrevi sobre a Primeira Guerra, pelo menos três pessoas mencionaram o mesmo livro: Nada de Novo no Front, de Erich Maria Remarque. Um dos poucos volumes que eu trouxe quando vim para a França, mas que aguardava com a maior paciência na estante, ainda sufocado no plástico, com etiqueta, preço e tudo. Jamais esperneou, talvez antevendo que o projeto de recuperar meu pobre alemão não iria muito longe, e a tradução brasileira não seria preterida em definitivo pelo original. De fato, sua espera foi recompensada: depois das vivas recomendações na caixa de comentários, o livro está sendo devorado, enquanto a versão alemã segue descansando numa livraria qualquer.

Pois bem, devo dizer que esta pequena obra, considerado o maior romance pacifista do último século, está arruinando minha vida. Como explicar? Poderia ser o estilo, mas… Acontece que o ex-soldado Remarque relata sua vida nas trincheiras de uma forma tal, que dignifica o próprio conceito de relato, enquanto cobre de vergonha a idéia de estilo, por assim se dizer.

Ora, o estilo é próprio das narrativas, encaixe habilidoso de passagens e sentenças, com o fito de produzir uma obra literária. O relato, por outro lado, prescinde do estilo, na medida em que não narra, mas conta, nem quer produzir obra alguma, mas gravar na atenção do ouvinte – desculpe, do leitor – uma reprodução tão perfeita quanto possível dos fatos que ficaram gravados na carne de quem relata. É isso, no fundo, o fato. Pelo meno saquele que pode ser transmitido por um relato: uma impressão forte, indelével, gravada na carne, muito mais do que na memória.

Pois é o que me dá quando estou lendo esse livro. Os fatos relatados por Remarque ficam gravados na minha atenção como se marcados a faca, e é na carne que os sinto. Eu poderia dizer que é culpa do realismo… mas que tolice a minha! Realismo é um estilo e o relato passa ao largo dessas coisas. Remarque falando da guerra que viveu é mil vezes mais marcante que qualquer realismo, mesmo o hiperbólico de um Zola, por exemplo. E isso não é demérito algum para o mestre francês. O gênio que lhe cabe é o da narração; nesse campo, seu lugar no Panthéon está garantido.

Narrados, os fatos que Remarque despeja no papel desapareceriam, soterrados pelo estilo. Seria uma obra e, como toda obra, poderia ser amada, criticada, resenhada e assim por diante. Não é o caso. Nada de Novo no Front não se presta a resenhas e questões de Vestibular. Na realidade, só pode ser ouvido – desculpe, lido. Só é romance na medida em que o narrador [sic] se chama Paul (Bäumer) e o autor se chama Erich Maria. No mais, é o puro perpetuar daquilo que não deveria ter sido esquecido, mas foi: que as manobras e treinamentos militares, as querelas da geopolítica, as glórias nacionais, aniquilarão o humano com a facilidade de um primeiro disparo.

Justamente por ser tão simples, quase frio, o relato de Remarque tem colocado em risco meu respeito por nosso gênero e meu interesse por todas essas questões fuleiras que discutimos todo dia, nos jornais, nas universidades, nos escritórios, hélas!, na internet. Foi por isso que eu disse que ele estava arruinando minha vida. Desculpe soar como Adorno, mas como posso estudar, trabalhar, escrever; como posso me preocupar com as obras críticas de Baudelaire e coisas do gênero, depois de um trecho como os que seguem? Peço que você os leia, mesmo que não tenha estômago para “esse tipo de coisa”:

À minha frente, abriu-se uma cratera; vejo-a confusamente. É raro cair mais de uma granada no mesmo buraco, e, por isso, procuro entrar nele. De um salto, atiro-me para dentro, achatado como um peixe fora d’água. Novamente, um sibilar faz-se ouvir; encolho-me depressa; procuro abrigar-me. Sinto alguma coisa à minha esquerda, aperto-me contra ela, a coisa cede. Gemo, a terra desfaz-se, apressão do ar troveja nos meus ouvidos, arrasto-me por baixo da massa que cede, puxo-a por cima de mim, é madeira e pano, um abrigo, um miserável abrigo contra os estilhaços que caem à minha volta.

Abro os olhos. Meus dedos seguram uma manga, um braço. Um ferido? Grito-lhe, nenhuma resposta… é um morto. Minha mão esquadrinha mais longe e encontra lascas de madeira. Lembro-me então de que estamos no cemitério.

Mas o fogo é mais forte do que tudo. Destrói a consciência; arrasto-me mais profundamente sob o caixão, ele deve proteger-me mesmo que a própria Morte esteja deitada nele.

À minha frente, abre-se uma cratera. Abarco-a com os olhos como se fosse com as mãos, preciso entrar nela de um só salto. Sinto algo no rosto, uma mão que agarra meu ombro… será que o morto ressuscitou? A mão me sacode, viro a cabeça e, na luz tênue, reconheço Katczinsky: tem a boca aberta e berra. Não escuto nada, ele me sacode, aproxima-se e, num momento de menos barulho, sua voz me alcança:

– Gás… Gáas… Gáaas! Avise aos outros!…

(…)

Com um estrondo, qualquer coisa escura cai a pouca distância de nós; é um caixão que fora atirado para o alto.

Vejo Kat mover-se na direção do objeto e rastejo até lá. O caixão caiu em cima do braço estendido do quarto homem da nossa cratera. Com a outra mão, tenta arrancar a máscara contra gás. Kropp agarra-o nesse momento, torce seu braço firmemente e o mantém assim.

Kat e eu começamos a tentar liberar o braço ferido. A tampa do caixão está solta e quebrada; é fácil arrancá-la; o morto, nós o retiramos: ele cai no chão como um saco. Depois, soltamos a parte inferior do caixão.

(…)

O bombardeio acabou. Volto na direção da cratera e faço sinal para os outros, que saem arrancando, também, as máscaras. Pegamos o ferido; um de nós segura o braço entalado. E, assim, afastamo-nos depressa aos tropeções.

O cemitério é um campo de ruínas. Caixões e cadáveres estão espalhados por toda parte. É como se tivessem sido mortos novamente, mas cada um dos que foram feitos em pedaços salvou a vida de um de nós.

Reconhecemos os rostos contraídos, os capacetes lisos: são franceses. Quando alcançam os restos das redes de arame farpado, já tiveram sensíveis perdas. Uma fileira completa foi abatida por nossas metralhadoras; depois, temos várias dificuldades com os tiros, e eles conseguem aproximar-se.

Vejo um que cai de pé num cavalo de frisa, o rosto voltado para cima. O corpo abate-se sobre si mesmo, como um saco, as mãos ficam juntas, como se quisesse rezar. Então, o tronco destaca-se inteiramente; apenas as mãos, decepadas pelos tiros da metralhadora, ficam penduradas, com uns farrapos de braços, no arame farpado.

(…)
Tornamo-nos animais selvagens. Não combatemos, defendemo-nos da destruição. Sabemos que não lançamos as granadas contra homens, mas contra a Morte, que nos persegue, com as mãos e capacetes. Pela primeira vez em três dias, conseguimos vê-la cara a cara; pela primeira vez em três dias, podemos nos defender contra ela. Uma raiva louca nos anima, não esperamos mais indefesos, impotentes, no cadafalso, mas podemos destruir e matar, para nos salvarmos… e para nos vingarmos. Escondemo-nos, abaixados atrás de cada canto, por trás de cada defesa de arame farpado, e, antes de corrermos, atiramos montes de granadas aos pés dos inimigos que avançam. O estampido das granadas de mão repercute poderosamente nos nossos braços e pernas. Corremos agachados como gatos, submersos por esta onda que nos arrasta, que nos torna cruéis, bandidos, assassinos, até demônios; esta onda que aumenta nossa força pelo medo, pela fúria e pela avidez de vida, que procura lutar apenas pela nossa salvação. Se seu próprio pai viesse com os do outro lado, você não hesitaria em atirar-lhe uma granada em pleno peito.

Quem há de dizer que esses trechos são escatológicos, se eles traduzem uma realidade pura, inquestionável? Quem há de argumentar que são apelativos, se o apelo que esses homens fariam seria, antes de qualquer coisa, para voltar ao convívio de suas famílias?

Esse relato atira por terra um dos ditos mais questionáveis que existem, aquele segundo o qual uma imagem vale por mil palavras. Pois sim… Afirmo que uma imagem é ela mesma e nada mais. Um punhado de palavras, curto que seja, ao contrário, multiplica ao infinito a possibilidade imagética do receptor. E tanto, que qualquer tentativa de reduzi-las a uma só imagem é obrigada, a fortiori, a mutilar profundamente o sentido e o poder da comunicação. A imagem é frustrante, auto-referente e muito pobre, se comparada à palavra – e olha que sou apaixonado por cinema.

Por sinal, a sétima arte e seus derivados, na tentativa desesperada de envolver e enredar seu espectador, tem se tornado cada vez mais explícita, mais frenética, mais barulhenta, mais ofuscante. Mas, mesmo se desorienta o senso de realidade do público, não adianta. O fato é que as imagens sangrentas, de gosto duvidoso, do cinema de hoje podem me causar desconforto, até medo, e me dar vontade de desviar os olhos ou mudar de canal.

Bah… Lendo o relato de Remarque, minha única preocupação é sair logo dessa maldita batalha, dessa trincheira infecta, dessa loucura interminável que não conhece artifício. Nada de Novo no Front é um dos únicos livros que jamais me fizeram estremecer, quero dizer, literalmente, fisicamente, como se as balas zunissem em volta dos meus ouvidos e eu fosse um garoto desamparado com um rifle na mão. Coisa assim nunca me aconteceu com filme algum.

Paro por aqui, embora muito ainda pudesse ser dito. Por exemplo, sobre como o livro deveria ser obrigatório nas escolas, tão obrigatório que as questões perguntassem por detalhes insignificantes, para garantir que cada um dos estudantes o leu e releu de cabo a rabo. Ou então, sobre como ele me ajudou a entender um pouco melhor por que os Partidos Comunistas foram tão fortes na Europa do pós-guerra – e, tudo bem, vai aí mais um trecho que não deixa dúvidas quanto ao que quero dizer:

Quando volto do quartel, uma voz forte me chama. Ainda perdido nos meus pensamentos, viro-me e me vejo diante de um major. Dirige-se a mim com rispidez:

– Não sabe bater continência?

– Queira desculpar, major – digo, confuso. – Não o tinha visto.

Grita mais alto ainda:

– Também não sabe falar como deve?

Gostaria de dar-lhe uma bofetada, mas controlo-me, pois, do contrário, lá se vai minha licença; eu me aprumo, na posição de sentido, bato os calcanhares, e digo:

– Não o vi, meu major.

– Então, faça o favor de prestar mais atenção – vocifera. – Como se chama?

Dou o meu nome.

Seu rosto vermelho, gordo, ainda mostra indignação.

– Qual é o regimento?

Respondo de acordo com o regulamento. Ainda não é o suficiente para ele.

– Onde se encontra a sua Companhia?

Mas, agora, não agüento mais e digo:

Entre Langemark e Bikschote.

– O quê? – pergunta perplexo.

Explico-lhe que cheguei há uma hora, de licença, e suponho que então ele vá me deixar em paz.

Mas eu me engano. Fica ainda mais furioso:

– Certamente acha que pode trazer para cá os maus costumes do front, não é? Pois está redondamente enganado. Graças a Deus, aqui domina a ordem! Vinte passos à retaguarda, marche – comanda.

Dentro de mim, ferve uma raiva surda.

Mas nada posso fazer, mandar-me-ia prender imediatamente, se quisesse. Então, recuo, avanço, e, seis metros à sua frente, contraio-me numa continência garbosa, que só relaxo quando me encontro a seis metros de distância.

Ele me chama novamente e, com benevolência, me explica que mais uma vez está colocando a piedade acima do regulamento. Mostro-me devidamente agradecido.

– Pode retirar-se – comanda.

Dou meia-volta e vou embora.

Foi o suficiente para estragar-me a noite. Apresso-me a ir para casa e jogo a farda a um canto; aliás, era o que já deveria ter feito.

Mas fica um último comentário sobre o título. No original, é Im Westen nichts neues, ou seja, Nada de Novo no Front Ocidental.Essas famosas trincheiras da Primeira Guerra ficavam justamente na França, “conhecida” pelo Estado-Maior prussiano como “frente ocidental”. Imagino que o tradutor brasileiro tenha riscado de nossa versão a menção a de qual frente se está falando porque não se pressupõe que o leitor brasileiro saiba que a Alemanha lutou a guerra em duas frentes, a Rússia contando como frente oriental. A propósito, como será o nome do livro em Portugal, onde os leitores têm, provavelmente, um conhecimento maior da situação alemã nessa guerra?

PS: Minha edição é da L&PM Pocket, Porto Alegre, 2004. Tradução de Helen Rumjaneck.

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Houellebecq e sua ilha

Acabou de sair por aqui um filme dirigido por Michel Houellebecq. Fiquei curioso para vê-lo, embora a somatória de todos os trechos seus que li não dê um livro inteiro. E não li por birra, simplesmente. Sempre tive a impressão de que seu jeito polêmico era forçado. A antipatia é uma das estratégias de marketing mais exploradas pelos autores hodiernos, não me pergunte a razão. Temendo que minha opinião sobre o escritor contaminasse minhas impressões sobre sua obra, me abstive de abrir um volume de Houellebecq. Mas fui ver o filme, graças a uma promoção de início de outono que atirou lá para baixo o preço dos ingressos de cinema em Paris. Passamos a tarde inteira de domingo entrando e saindo de salas de exibição, numa maratona que começou com uma comédia musical americana e terminou com uma ficção científica metida a conto filosófico. Se o sentido tivesse sido o oposto, talvez tivéssemos dormido melhor, mas o fato é que fechamos a noite com as imagens desiludidas de A possibilidade de uma ilha (La possibilité d’une île).

Em poucas palavras, o que para alguns é fundamental, mas para mim não tem importância alguma: o filme é bom? Não chega a ser. A ironia amarga da prosa de Houellebecq mal dá o ar de sua graça, assim como a condensação do tempo e da identidade individual, pedra de toque do livro que deu origem ao filme. As personagens não têm carisma, ao contrário do livro, em que mesmo o grande líder religioso é um cínico desiludido. (Antes que me pergunte como sei disso, se não li o livro: folheei-o.)

Agora que estou livre da obrigação de avaliar o filme, posso entrar nos assuntos muito mais interessantes que ele pode gerar. Em primeiro lugar, fico imensamente feliz de saber que ainda é possível fazer filmes assim. Uma linguagem longe do convencional, longos planos e pausas, atores imóveis, ângulos oblíquos, cortes inesperados. Como nos bons tempos do cinema. É verdade que, apesar das entradas quase gratuitas, a pequena sala estava praticamente vazia. Não mais de oito pessoas, enquanto no tal musical americano (muito divertido, por sinal) saía gente pelo ladrão de uma sala muitas vezes maior. Mas isso não quer dizer nada. Bem ou mal, Houellebecq conseguiu dinheiro para adaptar seu próprio livro da maneira como bem entendesse, e isso é sinal de que ainda existe alguém disposto a investir nas empreitadas arriscadas. Certo dia, alguém deu uma soma considerável na mão de Fellini para ele imprimir no celulóide seus sonhos absurdos. Não sei quem foi o empresário visionário, mas garanto que ficou rico. Tampouco sei quando surgiu o consenso de que o público é formado única e exclusivamente por gente sem imaginação e dopada pelas fórmulas consagradas de Hollywood. Só sei que é uma lástima.

Mesmo não sendo o caso de Houellebecq, existe uma legião de cineastas cheios de boas idéias e muito talento, jovens, arrojados, inventivos, sedentos por uns caraminguás para rodar o primeiro longa. Esse pessoal não é invenção minha, qualquer festival de curta-metragens revela um caminhão de gente interessante. Entre eles e as obras-primas da próxima geração, o único obstáculo é o investidor, que precisa perder o medo do fracasso, para aprender a apostar no longo prazo. Foi assim que os empreendedores do passado ficaram ricos; não foi pela repetição temerosa de velhas fórmulas cansadas e disseminadas ad nauseam.

* * *

Agora, ao segundo ponto que eu gostaria de levantar. Dizem que Houellebecq tem uma personalidade desprezível. Eu não teria como avaliar. Mas é certo que uma das coisas interessantes sobre sua obra literária é a dificuldade de distinguir o que é opinião sua e o que é pensamento das personagens. Os protagonistas de seus livros costumam ser pessoas vis, baixas, rasteiras, vulgares, cínicas, inescrupulosas e por aí vai. Mas a tinta consegue, com o concurso de uma certa habilidade estilística, misturar os traços de forma tão indiscernível, que idéias e conceitos passam por entre os dedos do julgamento, como areia fina. É Houellebecq o racista, ou seu herói? Autor ou personagem, qual é o cretino? São exemplos das discussões que os literatos gostam de ter a respeito do escritor.

Pois bem, acontece que o próprio escritor resolveu colocar na tela um de seus livros. Deve ser o sonho de muitos artistas, imagino. É muito raro que um filme seja melhor do que o livro de que é adaptação, a não ser nos casos em que o texto original é um romance de quinta, e a resultante cinematográfica, uma obra-prima. É o caso de Psicose, por exemplo. No mais das vezes, vale mais a pena perder uns dias sobre o papel do que um par de horas diante da tela. Logo, o melhor é criar algo inteiramente diferente do original, que não possa ser comparado a ele, que provoque no máximo uma ligeira reminiscência.

É que, dizem, uma imagem vale por mil palavras. Eu estaria mais inclinado a considerar que uma imagem vale por uma imagem; uma palavra, por uma palavra. São linguagens que atingem campos diferentes da nossa sensibilidade. Uma cena não é o mesmo que a descrição da cena, nem é o mesmo que sua representação. Assim, alguém que assista a um filme com a cabeça de um leitor está fadado a não compreender absolutamente nada do que tem pela frente.

É nessa distinção que Houellebecq entrega o ouro. A grande vantagem do texto escrito é que, embora demore muito mais tempo para ser absorvido do que o visual, deixa sempre um espaço enorme para a imaginação. Por mais detalhada que seja uma descrição, ela não entrega pronta a figura descrita, como acontece na tela. Determinadas idiossincrasias do autor conseguem manter-se veladas, se for essa sua intenção. A imagem exige cuidados maiores. A escolha dos atores tende a reproduzir os mecanismos inconscientes de quem os escolheu, e no caso de A possibilidade de uma ilha, o diretor é o próprio escritor. Paisagens, cores, cortes, tudo isso é parte do discurso, tanto quanto vírgulas, parágrafos e capítulos no romance original. É possível ler através desses detalhes.

Não sei como explicar, para alguém que não o viu e provavelmente não o verá, o que o filme deixa revelar, provavelmente sem querer. Chego a imaginar, também, que posso ter projetado minhas próprias opiniões sobre a obra; isso não é de todo impossível. Mas, ressalvas à parte, o tom decadentista de Houellebecq parece desnudar-se inteiramente. Revela-se, como eu desconfiava, forçado. Tive a impressão de que o autor não acredita em seus próprios argumentos.

A desolação que as paisagens deveriam transmitir parecem estar só na reiteração dos horizontes calcinados, enfileirados sem sentido, incapazes de tocar o espectador. A acidez do protagonista, interpretado por Benoît Magimel (que já encarnou Luís XIV), parece vir mais de sua fisionomia peculiar do que de sua postura diante dos fatos que presencia.

A heroína silenciosa, cujo clone vagueia por terras inóspitas após o desaparecimento da humanidade, faz um esforço enorme para expressar seu desespero. Mas não é fácil, sobretudo se comparamos sua situação à do clone do protagonista, que passeia em filosofices verborrágicas por campos e vales, acompanhado de um cãozinho muito simpático. Não estou querendo corroborar a idéia de que Houellebecq seja racista por fazer cair repetidamente sua protagonista negra, seminua, ao chão de um deserto, sem lhe dar ao menos uma fala para mostrar seu trabalho de atriz, enquanto o rapaz esbelto, louro e culto paira sobre a desgraça humana com um belo terno negro e um cajado, falando sem parar. Mas é difícil entender por que tanta desigualdade, mesmo depois que acabou o sistema capitalista.

Não quero demover os amantes da literatura de uma ida ao cinema para ver A possibilidade de uma ilha. Pelo contrário, apesar de todos os defeitos que eu acreditei encontrar no filme, o fato de que ele exista é um acontecimento a ser aplaudido. Ademais, para quem gosta mesmo de livros, de Houellebecq ou não, é uma oportunidade rara ver como um autor adapta sua própria obra para a tela.

PS: Para quem lê em francês, eis uma discussão interessante sobre o filme.

E outra aqui, indicação de Bruno Carmelo.

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Herculano, o que escondes de nós?

Ainda há quem se preocupe com o que diziam, pensavam e escreviam os sábios de povos extintos, adoradores de deuses incontáveis, bebedores de vinho doce, guerreiros sangüinários que dizimavam povos em nome da glória, como se a esse estranho conceito coubesse mais valor que à vida humana. Sim, há ainda quem sonhe com o que diziam tantos volumes perdidos na queda dos grandes impérios da Antiguidade, e salive ao supor os tesouros ainda escondidos abaixo de nossos pés.

Essas pessoas passam por loucas. Cada vez mais, à medida em que o turbilhão de opiniões e leituras apressadas vai sugando o interesse das gentes pelo argumento alheio. Que dizer de outros paradigmas? Línguas mortas? O que poderia nos ensinar a leitura de um estóico do tempo de Cristo como Sêneca, forçado ao suicídio por um pupilo que calhava ser Nero, o imperador ensandecido, mas que cortou os pulsos durante um banquete, diante dos convivas, alegre, em altiva sujeição? A nós, mergulhados até o pescoço nas traições que movimentam cada mercado, nos impasses éticos que travam o quotidiano das ações, o que teria para dizer o jovem Sêneca?

Teríamos de mudar algo em nosso conhecimento da natureza, se encontrássemos os trechos perdidos de Empédocles? Não creio que isso nos obrigaria a abandonar o atomismo e reconduzir à luz os quatro elementos. Tampouco imagino que a obra integral de Demócrito invalidaria a mecânica quântica, com seus átomos indivisíveis e imprevisíveis. E no entanto, estranhamente, os velhos gregos e latinos, com seus fragmentos e tratados apócrifos, ainda são interessantes para certas pessoas, que se debruçam sobre diálogos muitas vezes incompreensíveis em busca de um conhecimento que cabia a outro mundo, com seus próprios problemas, critérios, aspirações e formas de expressão.

Poderíamos perguntar que recompensa tiram essas pessoas de uma leitura tão penosa. Talvez algumas frases espirituosas, para soltar durante o aperitivo, nas festas do grand monde. Mas isso se obtém, tanto quanto, à leitura das compilações de aforismos mais recentes, como as de Ruy Castro.

Mas parece que também se pode ganhar algo por outros lados. Algo até pessoal, já que o acúmulo individual de ativos há tempos é o único chamariz de interesse. Gente de outros tempos e outros lugares tende a enxergar as mesmas coisas que nós de ângulos inusitados, às vezes opostos aos nossos, mas nem por isso menos corretos. Os antigos, já que é deles que estamos falando, tinham seus próprios vícios e manias, o que significa que não tinham os nossos, o que faz com que suas idéias pareçam milagrosamente frescas e potentes.

Assim, sabemos bem que Platão, com toda sua dialética, defendia uma organização social plenamente estratificada. Pior ainda, em sua escala de cinco níveis para a degradação dos sistemas políticos, a democracia cai num vexatório quarto lugar, à frente apenas da tirania mais ímpia. Acontece que, hoje, todos amamos a democracia. Não podemos ouvir um pio contra ela. Matamos por ela, censuramos por ela, damos golpes de Estado e dissolvemos congressos em nome da democracia. Mas quando tentamos entender de que se trata, não demora a ficar claro que transformamos essa palavra num grande vácuo, que designa pouco mais do que o fato de que eventualmente as pessoas saem de casa para deixar seu voto numa urna. Ao passo que os antigos textos de Platão fazem críticas até hoje tão pertinentes ao sistema democrático, que chegamos a balançar. Tendo escrito há 2300 anos, parece que seu discurso é sobre o processo político que sentimos na pele. Quem se dedica a essas leituras, portanto, não se contenta em matraquear os lugares-comuns de um amor à democracia que já justificou tantas ditaduras ao redor do mundo.

O mesmo vale para o rame-rame interminável que contrapõe razão e emoção. Ora, mas essa oposição nunca existiu! A razão, como componente da psique humana, simplesmente não há. Como diria Hume, se há alguma oposição, é entre emoções calmas e intempestivas, ponto final. O logos dos gregos e a ratio dos escolásticos, sabe quem leu, exprime a capacidade de formular suas impressões, seus pensamentos e, por que não, suas emoções, de forma encadeada, consequente, argumentada. Ou seja: racional, lógica. Mas imperfeita: mesmo essa razão discursiva está sujeita aos deslizes da linguagem e às confusões do pensamento. Não é uma faculdade do entendimento oposta à carga sensível. É um gênero de discurso. Mesmo assim, continuamos a opor o uso da razão a uma sujeição às emoções. Isso não faz o menor sentido, é um vício de linguagem.

É por isso que ainda há quem trema de alegria ao saber que foram encontrados novos trechos de obras antigas. É difícil precisar o quanto essas frases soltas em grego antigo enriquecem nossa visão do universo ainda hoje. Mas o fato é que enriquecem. Reconstruindo os mundos que se perderam, de alguma forma aprendemos sobre como mudamos e sobre como continuamos os mesmos. E conseguimos escapar a formas condicionadas de lidar com a realidade.

Li recentemente em algum canto que existem boas chances de voltarem a escavar a biblioteca da Villa dei Papiri em Herculano, a vizinha menos célebre, mas mais interessante, de Pompéia. No que já se investigou, foram encontradas as obras de Filodemo, um dos principais epicuristas de Roma. Mas ainda há três andares provavelmente apinhados de obras ancestrais, carbonizadas mas ainda legíveis. Como saber o que pode ser descoberto, ou seja, recuperado de um silêncio de vinte séculos? Os tratados exotéricos de Aristóteles? A segunda parte de sua Poética? Centenas de tragédias de Sófocles, Ésquilo e Agaton? O poema de Parmênides? Os tratados logográficos dos sofistas, aqueles pobres professores malhados pela filosofia posterior como Judas em sábado de aleluia? Depois das escavações de Herculano, talvez o cânone da sabedoria ocidental tenha de ser reescrito.

Quando garoto, uma de minhas fantasias era ser arqueólogo. Um pouco por influência de meus gostos cinematográficos, mas principalmente porque eu adorava decifrar códigos, sonhava desencavar monumentos, encontrar manuscritos, reconstituir obras de arte. Fui demovido da idéia pelo argumento de que não há mais nada a tirar do chão. Tudo já teria sido descoberto após as grandes expedições de outros tempos. Isso é falso, claro. Grande parte da humanidade ainda está escondida no subsolo. Recuperá-la, asseguro, não é interessante só para curadores de museus e aficionados em geral. Pode ser fundamental para recobrar nossa habilidade de olhar além do horizonte imediato.

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A vida emoldurada

Torres Azuis Bizarras Noite San Giminiano
Ia andando pela rua dos fundos, atrás de um qualquer coisa que pudesse passar por jantar. Descia uma chuva de alfinete, vagarosa e desagradável. Ainda não era bem noite, mas já fazia escuro e parecia que a cidade se escondia. Todo mundo foge da temperatura que cai bruscamente; em vez de visitar os amigos ou a família, vale mais terminar o domingo com um filme da televisão. No meu caso, foi a necessidade que deu a última palavra. Comer é preciso. Saí. Para me proteger da água e das lâminas do ar, a manta grossa e, principalmente, a música que os fones de ouvido sussurravam.

Quando fiz a curva e embiquei pela rua maior, a faixa mudou. Os acordes em staccato de um cavaco e a voz de Clara Nunes fazendo um aperto de saudade no seu tamborim: Tristeza e Pé no Chão. No mesmo instante, deu-se alguma coisa. Fui invadido por um desconforto que não podia explicar, como se minha cabeça entrasse em conflito consigo mesma. Ou melhor, como se meu corpo visse o mundo à sua frente, mas se reconhecesse em outro canto, outro plano, outro universo. Estranha sensação, caminhar tremendo de frio por uma rua deserta e brilhosa, com tantãs e ganzás como trilha sonora, gingando na celebração de uma voz divina.

Culpa do aparelhinho que me atirava a música direto nos tímpanos. Quem segue seus caminhos ao som da pura realidade, buzinas, berros e motores desregulados, talvez não me entenda. Mas, palavra, é assim. Quando inventaram o walkman, o diskman, o celular que capta FM, o toca-fitas de carro e o famigerado iPod, inventaram ao mesmo tempo a vida com trilha sonora. Para muita gente, o próprio fato de existir passou a ser pontuado pelas emoções que melodias transmitem e batidas impõem.

Tanta gente no metrô com cabos pendurados, caindo pelos lados do pescoço como madeixas de plástico! São garotos, não têm a habilidade de controlar o volume. Um vagão inteiro submetido ao bate-estaca. Seus olhares se perdem no desprezo pelo universo, nem consigo supor que imagem podem ter do mundo, da cidade, das pessoas, enquadrados pela batida agressiva das pistas de dança. Não pode ser a mesma face que eu vejo, por trás de minha música diferente.

Meu caso começou como fuga. Tinha pânico dos vendilhões da Paulista, precisava de um pretexto para não escutar suas vozes, não precisar grunhir um “não” a cada passo. Certo dia, captei a Rádio Cultura pelo celular; examinar os rostos suados e sérios ao som do Stabat Mater de Pergolesi me incutiu a certeza de que todos à minha volta eram infelizes. Compreendi a profunda desgraça de todo aquele ambiente e quis escapar. Claro, a culpa não cabe inteira à música, mas ela tem parte.

Onde foi que li? Um ensaio sobre como mudou nossa relação com a música no último século. Pode ter sido Adorno, o do contra, ou Nikolaus Harnoncourt, ou qualquer outro. Primeiro foi o fonógrafo, que deu à humanidade o controle sobre as harmonias. Qualquer caixinha poderia tocar como uma orquestra. Depois, o rádio espalhou pelo mundo as mensagens sonoras determinadas por alguém em algum lugar, seja lá quem for. Pois era um certo encanto que se quebrava. Tirar melodias de um objeto inanimado perdeu seu verniz de mágica. A música, daí por diante, seria outra.

O golpe de misericórdia foi dado, com certeza, pelo cinema falado. “O grande culpado da transformação”, já dizia Noel Rosa, filósofo malgré soi. Na tela, a música enquadrou a vida real. O herói enlaça a mocinha ao som dos violinos, o assassino dá suas estocadas com um fundo de trítonos secos. O público se deixa envolver. O público somos nós. Nós acreditamos. E transferimos a necessidade de trilha sonora para nossa própria existência. Sem querer.

Daí meu estranhamento, na noite de domingo, enfrentando o frio e a chuva embalado pelo surdo, a cuíca e a voz de Clara Nunes. A máquina que eu trazia no bolso não entende nada. Não sabe escolher o fundo que se adequa por natureza a cada ocasião. Era momento para o quase silêncio de Eric Satie, as lamentações de Robert Johnson ou a cantilena da quinta Bachiana Brasileira de Villa-Lobos. Lágrimas na avenida, um desfile marcado para a quarta-feira? Impossível.

Só fui capaz de retornar ao corpo quando abandonei toda pretensão a uma trilha sonora. O mundo se recompôs, terrível como é: um silêncio de cripta gótica, motores à distância, o eterno chiado urbano que nunca sei de onde vem. Crueza e crueldade do ar que não vibra segundo o acordo das vozes. O ar desobediente que existe além dos meus fones.

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