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Litania para o capital

Fuçando nos arquivos mais recônditos deste HD, acabei encontrando a brincadeira que segue abaixo. Foi escrita quando eu estava na faculdade (e, aliás, este HD nem fabricado era), para provocar meus colegas corretores da Bovespa, que andavam um tanto nervosos, conseqüência de alguma dessas crises por aí.

Lembro-me particularmente de um desses meus amigos, a quem perguntei, por pura gaiatice, já sabendo a verdade, se a corda estava apertando demais o pescoço da empresa em que ele trabalhava. (A tal empresa foi absorvida por outra bem maior, poucos dias depois.)

Pois bem, a resposta do rapaz foi adorável: “Agora, só resta rezar.”

Passei o dia imaginando como rezariam os colegas do rapaz, logo antes da abertura dos negócios, à espera do retinir do sininho. Seria como uma grande celebração, engravatados de joelhos, mãos unidas, ar de introspecção. Aos poucos, vai se erguendo uma voz coletiva, um grande uníssono, para este que, em nosso século, tomou o lugar que já foi de Deus e outros deuses.

Enfim, segue abaixo um esboço do que clamariam os infelizes. Já vou avisando a Duncan Niederauer que cobrarei os direitos autorais se ele quiser adotar a nova oração nas cerimônias da NYSE.

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Litania para o capital

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Ó Vós, que permitis, divinamente,
A implosão de todo patrimônio!

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  • Concedei-nos cobrir as perdas.

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Ó Vós, que sois pai de todas as Bolsas,
idolatria de derivativos!

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  • Concedei-nos cobrir as perdas.

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Ó Vós, que distribuís as sementes
da fortuna e da fome, cegamente!

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  • Concedei-nos cobrir as perdas.

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Ó Vós que podeis prever o porvir
daqueles que abdicam de consumir!

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  • Concedei-nos cobrir as perdas.

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Vós que negais os frutos do trabalho,
escutai as preces do investidor:

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  • Concedei-nos cobrir as perdas!
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costumes, crônica, deus, direita, economia, eleições, esquerda, estados unidos, guerra, história, imagens, imprensa, modernidade, opinião, passado, Politica, prosa, reflexão, religião

Blood, toil, tears and sweat

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Das outras vezes em que passei a noite em claro desde que vivo em Paris, foi para ver futebol. Ontem, abdiquei de acordar a tempo de ir ao curso de alemão para viver a História in the making. À distância, mas em tempo real, como só nossa era de conexões pode permitir. Olhos inchados, sobre a escrivaninha uma caneca de chá, trêmulo de frio e expectativa, passei horas no portal da CNN, a clicar sobre os mapas dos Estados americanos, vendo a subida dos números, acompanhando os comentários da torcida democrata em blogs e jornais, que, em poucas horas, passaram da apreensão esperançosa a uma torrente incontida de emoção, alívio e orgulho.

Eram quase seis horas da manhã na Europa quando começou o discurso da vitória de Barack Obama, no Grant Park de Chicago. Ohio e Virginia acabavam de revelar sua definitiva mudança de lado. A Flórida estava a caminho. Enquanto esperava a subida ao palanque do presidente eleito, a cobertura da BBC exibia cenas da celebração no Quênia, terra do pai e de muitos meio-irmãos de Barack. Uma multidão cantava e dançava, em meio a declarações de que aquela era uma vitória deles, também, um pouco. E quem haverá de dizer que não era? Comecei a imaginar a expressão de algum redneck do Mississippi que estivesse assistindo àquela cobertura; não sem uma certa alegria sádica, pensei que ele talvez sofresse um enfarte. Pena que só existisse na minha cabeça.

E começou o discurso. O 44o presidente dos Estados Unidos é um pequeno milagre, para não dizer que é um grande milagre. Seu domínio da oratória é raro. Cada movimento de sua cabeça e de suas mãos, cada pausa no meio das frases, cada piadinha que quebra a gravidade da retórica, cada olhar, tudo é tão bem estudado que parece natural. A facilidade de sua expressão é tamanha que faz crer que improvisa. Certa vez, debati com meu pai um discurso de campanha do então recém-escolhido candidato democrata. Ele dizia que não empolgava, eu discordei. Sem falsa modéstia, eu tinha razão. Obama não pode imprimir a suas palavras um tom inflamado, que o associaria mais a Jesse Jackson e a Malcolm X do que a Martin Luther King Jr., cujo famoso discurso do sonho é evocado por dez entre dez comentaristas desta eleição. De quebra, ainda reduziria a percepção de sua distância do belicismo caipira dos republicanos atuais.

Obama, ao falar, inculca no ouvinte os atributos que quer: sereno, culto, preparado, forte, capaz. Sua fala é tão bem controlada que até nos momentos em que deveria perder o controle, não perde. Foi assim quando se referiu a Michelle Obama, “the love (pausa) of my life“, e a sua avó, que faleceu no final da última semana. À parte os agradecimentos, devo dizer que fiquei muito impressionado com a força e a beleza do discurso. Digno de Lincoln, King, evidentemente, e Churchill, também em versão de texto, porque a pronúncia não é nada fácil (se não tiver paciência, pule direto para o último parágrafo, que é o ápice da beleza oratória). Melhor, creio, do que Kennedy. Em política, saber falar é tão importante quanto saber costurar acordos ou administrar a economia. Também nesse aspecto, Obama começa muito bem.

Nem preciso dizer que sou fascinado pela arte da Oratória. Talvez porque eu mesmo falo muito mal: tendo a embaralhar as palavras e perder a atenção do ouvinte. Que dirá de uma multidão… A vantagem de viver no estrangeiro, aliás, é que, com o sotaque, tudo se perdoa. Admiro, até invejo, quem consegue segurar o público só com a força de sua presença e de sua voz. Mais além, a palavra é um dos fenômenos que mais me fascinam. O poder de falar é determinante. É quase irresistível. Apaixona, como se vê pelos olhares vidrados da multidão que segue a voz clara de Obama, como investidores seguem sem pensar as ondas do mercado. A persuasão das belas palavras leva às lágrimas homens feitos, grisalhos, que em teoria viveram o suficiente para não se deixar emocionar e conduzir tão facilmente. Milhares de pessoas abrem mão de sua individualidade para repetir o mantra irresistível da campanha bem-sucedida: “Yes, we can!

A oratória é uma arte perigosa, sim. Basta lembrar de Carlos Lacerda, de Joseph Goebbels, e da seqüência magistral de Júlio César, peça de Shakespeare em que Brutus e Marco Antônio discursam sobre o cadáver ainda quente do líder, e basculam as emoções da multidão romana pela simples potência de suas frases fulminantes. O bardo, com sua visão aguda, não deixa dúvidas: o erro estratégico de Brutus foi deixar o adversário falar; e por último, ainda por cima. O texto dá a entender que a história do Império Romano seria outra sem essa falha.

Mas Obama, como eu já disse, é um milagre. No ponto em que está, já realizou grande parte do que tinha de fazer como símbolo. Imagem do homem negro que supera os obstáculos e consegue unir todas as etnias do país. Encarnação do esclarecimento que esmaga o perigo crescente do obscurantismo. Um bofetão no rosto da tradição racista dos Estados do Sul. Só pelo fato de ter sido eleito, Obama já abalou as estruturas nefastas da desigualdade, embora ela não vá deixar de existir, e forte, mesmo que ele seja reeleito e conduza um governo impecável nos próximos oito anos. Obama já chegou mais longe que o doutor King. E já chegou mais longe que Bobby Kennedy, branco como a neve, mas assassinado sem ter a chance de vencer as primárias democratas.

Porém, há que entender-se que o Barack Hussein Obama que conhecemos já é uma página da história. Acabou. Daqui por diante, teremos um outro Barack Hussein Obama. Um presidente não é um candidato. Não há um inimigo claro, uma chapa John McCain e Sarah Palin, que não representa absolutamente nada em termos governamentais e administrativos, mas encarna com perfeição a política do atraso, a manipulação de emoções patrióticas belicistas, a mentira de um misticismo chinfrim que se faz passar por religião, a estupidez agressiva travestida de honestidade simplória, que obteve dos eleitores do país mais rico do mundo a bagatela de cinqüenta e cinco milhões de votos. Eis o número de americanos que saíram de casa para escolher o absoluto vazio.

Isso já ficou para trás. Obama não é mais um antípoda dessa gente, ele agora é seu líder. Escolherá um ministério, enfrentará uma crise, tomará decisões difíceis. Negociará acordos comerciais com outros países, inclusive o Brasil, e será duro nas negociações, como espera seu eleitor. Será criticado por jornalistas e zombado por comediantes, como todos os presidentes de todos os países, salvo, no máximo, as piores ditaduras. Ele deixará de incorporar a esperança. Passará a representar um país. Sua oratória será fundamental nessa nova etapa de recessão e guerra, mas não será tudo. A grande, a verdadeira vitória que o novo presidente americano pode obter é outra:

Quando criança, eu vivia num subúrbio de Washington, D.C., e na minha turma da escola havia um único garotinho negro, de cujo nome já me esqueci (como, aliás, de todos os outros coleguinhas daquele tempo). Em várias aulas, a adorável professorinha, Ms. Flannery (engraçado, do nome dela, não esqueci!), se esforçava por nos fazer entender a importância da igualdade e o absurdo da discriminação racial. Certo dia, recebemos como dever de casa inventar uma história que envolvesse outros alunos da turma. Na que escrevi, todos os meus amigos eram abduzidos por alguma força inexplicável e se transformavam em pessoas más, muito cruéis. Eu seria o único a resistir e teria de salvar todos os demais. Um verdadeiro herói americano, digamos assim. Mas mudei o enredo. Achei, veja só, que estaria agindo como um racista se incluísse o colega negro na lista dos maus. No texto final, então, nós dois lutávamos lado a lado pelo triunfo do Bem. Ninguém jamais soube por que fiz a alteração. Meu colega ficou lisonjeado. Se fosse no Brasil, tenho certeza de que passariam a me olhar torto, com o tradicional “sei não”…

Contei esse episódio para chegar à vitória que Obama ainda precisa conquistar, nos quatro ou oito anos em que ocupará a Casa Branca. Ele terá triunfado se ações ingênuas como a minha se tornarem obsoletas. Se ninguém comentar uma decisão do presidente fazendo menção à sua cor. Se não pegarem mais leve, nem mais pesado, porque ele “é negro”. Se concordâncias e discordâncias passarem por cima do fato, como se fosse um detalhe. Ironicamente, o maior feito de Obama terá sido transformar sua grande diferença em qualquer coisa de corriqueiro.

É claro que não vai acontecer. Quinhentos anos de discriminação racial, escravidão, segregação, preconceito, não vão ser apagados por um ou dois mandatos. Mas já terá sido um ganho enorme se, no mundo inteiro, pessoas que sempre enxergaram a si próprias como inferiores por causa de sua pele puderem ter espaço para se impor como cidadãos plenos. Daqui por diante, todas as crianças, de todas as cores e etnias, do mundo inteiro, vão nascer e crescer com a imagem de um presidente americano que não é branco, não é W.A.S.P (OK, Kennedy era católico). Para essas crianças, a idéia de que o negro possa ser inferior ao branco não fará sentido. Eis a vitória que Obama terá de cavar enquanto estiver trabalhando no Salão Oval.

Estou convicto de que a madrugada fria que passei diante do computador e da televisão é algo que vou contar para meus netos. Valeu a pena.

PS: Sobre as eleições propriamente ditas, em português, recomendo os óbvios Biscoito Fino e Pedro Dória, além do excelente blog de Argemiro Ferreira. Para algumas frases bem escolhidas e traduzidas para nossa última flor do Lácio, recorram ao Animot. Para quem gosta de sarcasmo irrefreado, O Hermenauta.

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A origem insuspeita da crise econômica

Cuidado ao criticar Wall Street. A crise financeira mundial pode ser culpa sua. Pode ter começado, certo dia, quando um amigo, desses que trabalham no governo ou no setor financeiro, vem lhe contar de um pequeno país caribenho, uma ilha parcamente habitada, que acaba de anunciar o projeto de construir um aeroporto ultra-moderno. Com isso, a ilhota, até agora de destaque apenas na produção de conchinhas ornamentais, é garantidamente a próxima coqueluche do turismo internacional.

Barbada, você pensa. Os terrenos ainda se compram a preço de banana, os grandes resorts ainda não tomaram suas decisões de investimento, a hora é agora. Impossível perder dinheiro. Quem investir vai virar milionário. Com os olhos brilhando, vocês juntam um grupo de dez camaradas dispostos a investir, no total, um milhão redondinho de dólares em terrenos na ilha. Colocando em termos cartográficos, dá metade da superfície do país. Quando os hotéis e mansões resolverem correr atrás da carniça, vão ter de desembolsar o dobro. E quem vai ganhar nessa são vocês, investidores atentos. Brilhante!

Seu problema passa a ser, naturalmente, como arrumar cem mil dólares. Um bom dinheiro, que você, é claro, não tem. Pelo menos não assim, disponível. Felizmente, você se lembra então de um personagem que nunca o deixou na mão, tendo inclusive lhe adiantado mil pratas no ano passado, quando o guri quebrou o braço num acidente de patinete. Viva o sogrão!

No almoço do próximo domingo, você expõe seu projeto ao sogrão, carregando nas emoções. Sogrão ouve atento e lhe responde que cem mil não é trocado, é muito mais difícil de emprestar que mil, não dá para abrir mão desse dinheiro todo de uma vez só. Mas você já sabia que o empréstimo não sairia de mão beijada. Já preparou uma proposta que lhe parece bastante boa para ambas as partes. Promete pagar, ao final de dois anos, cento e dez mil dólares. Por gratidão. Traduzindo para a linguagem racional das contas financeiras, são cinco porcento ao ano. Nada mal, pelo menos para uma economia estável.

Mas ainda existe um risco nesse negócio. Sogrão quer algum tipo de garantia, ele precisa de segurança, esse é um prejuízo que ele não tem musculatura financeira para engolir. Você tem algum bem que valha cem mil dólares? Claro! Sua casa, pequena e suburbana, mas agradável e sua, está avaliada mais ou menos por esse valor. Verdade seja dita, você ainda não conseguiu se livrar da hipoteca. Mas a casa lhe pertence, é lá que estão seus objetos queridos, é lá que vive sua família amada. Além do mais, com os lucros da ilha, você paga o sogrão, a hipoteca, a dívida do pôquer e a faculdade do guri.

Para sua felicidade quase incontrolável, o sogrão aceita, contanto que tudo seja posto no papel. Problema nenhum, é assim mesmo que tem de ser. Ele lhe pede uma semana para fazer a transferência. É claro que ninguém deixa esse dinheiro todo dormindo na conta corrente.

No dia seguinte, seu sogrão vai ao banco com uma proposta para o gerente. Considerando a trajetória do mercado imobiliário nos últimos anos, a casa que você lhe prometeu em garantia deverá valer cento e oito mil dólares daqui a dois anos. O sogrão se compomete a entregar daqui a dois anos um bem que vale cento e oito, recebendo agora cem. Nada muito diferente do negócio que você fez com o mesmo sogrão, mas com uma perspectiva um pouco diferente. Afinal, o banco pode projetar um aquecimento maior do mercado imobiliário para os próximos dois anos, o que faria o tal bem, que seu sogrão vai entregar por cento e oito, valer cento e doze.

Mais importante ainda, vale mais a pena para o banco contar com uma promessa de pagamento de cento e oito do que com líquidos cem na mão, porque, ao contabilizar os cento e oito no balanço, é possível liberar uma porção maior dos depósitos dos correntistas para comprar as ações de uma determinada empreiteira no mercado futuro. E essa empreiteira, qual seria, senão a que foi contratada para tirar do papel o aeroporto na pequena ilha? Indiretamente, sem saber, você ajuda seu próprio sonho a se tornar realidade quando pede o empréstimo ao sogrão. Afinal, com seus múltiplos projetos ao redor do globo, a empreiteira não tem caixa para fazer a obra. Mas tem uma estrutura sólida e um excelente valor de mercado. Por meio de uma oferta pública de ações, não deve ter problemas para se financiar. Nunca teve. Com garantias como a sua casa, bancos como o do sogrão fornecem o dinheiro de que a empresa precisa. Felizmente!, porque o governo insular conta justamente, veja só, com a venda de seus terrenos valorizados para pagar pela obra, ao final de sua execução.

Tudo está bem, tudo está em equilíbrio. Nenhum dinheiro de verdade entrou em jogo porque ele simplesmente não é necessário. Basta a expectativa de algum valor ser gerado para colocar em movimento uma grande ciranda de operações econômicas. A essa expectativa corresponde um dinheiro imaginado, suposto, para não dizer fictício, o que seria maldade.

É claro que muita coisa pode dar errado, mas todos os envolvidos estão cientes. Um furacão pode varrer a ilha. Uma revolução. A descoberta de uma doença misteriosa. Um sócio que foge com o dinheiro de vocês. Mas para todos esses casos, a princípio, há solução. Um seguro contra eventos naturais e políticos. Um outro empréstimo, para cobrir a perda iminente da casa. A venda de um ativo da empreiteira. A emissão de títulos, pelo banco, e moeda, no caso do governo da ilha. Não há por que ter medo. Passado o susto, você negocia com o sogrão, que negocia com o banco, que negocia com a empreiteira, que negocia com os mandatários da ilha. Tudo muito civilizado, para que as obras possam finalmente ter lugar.

A não ser, é claro, que todo mundo tenha esticado demais a corda. Se a ilha estiver considerando que vai vender todos os terrenos disponíveis a preços satisfatórios. Se o fluxo esperado de turistas estiver mal calculado. Se a empreiteira apertar o orçamento e esperar um preço irracionalmente alto para suas ações. Se o banco não tiver em reserva o suficiente para cobrir os saques dos clientes. Se o sogrão avaliar com benevolência demais o valor da casa. Se você tiver confiança excessiva em sua capacidade de quitar a hipoteca.

Basta que o mercado desconfie das projeções de construção de hotéis na ilha, digamos. O governo, ao se ver incapaz de pagar pelo aeroporto, emite moeda e causa inflação. Os acionistas fogem da empreiteira. As ações caem. O banco perde liquidez, quer resgatar seus empréstimos, mesmo com taxas menores. A empreiteira precisa do dinheiro, corre atrás de empréstimos, a oferta escasseou, os juros sobem como um foguete. Juros altos, o mercado imobiliário esfria. As casas perdem valor. As hipotecas se tornam mais caras. O sogrão tem de pagar o banco, mas sua garantia de cem mil caiu para setenta. Você acaba tendo de lhe ceder também seu carro, mas continua endividado ainda assim. O sogrão também, por sinal, apesar do novo bólido. O banco não consegue cobrir os saques, tenta vender ações, elas estão em baixa. A empreiteira não consegue empréstimo, pede concordata. A ilha fica sem aeroporto, sem turistas, mas cheia de dívidas, inflação e terrenos baldios, além das conchinhas multicoloridas. Mas ninguém mais quer os terrenos. Aquele milhão de vocês vale agora menos de seiscentos mil dólares. Eis o desastre. Sem contar com os trabalhadores da ilha que já planejavam comprar eletrodomésticos, pagar dívidas, expandir casas…

O sistema financeiro funciona, em grande medida, dessa maneira. Uma cadeia interminável de projeções, expectativas, apostas, dívidas, equilibrando-se umas nas outras. Uma série de regras tentam obrigar as grandes corporações a manter alguma reserva, um certo resguardo. Mas em situações calmas, sobretudo quando esse tipo de garantia existe, um volume financeiro mantido imóvel soa como um atentado ao bom senso. Um pouco mais de risco permitiria investimentos que gerariam riqueza ao redor do planeta. E o planeta precisa de riqueza. Com uma concorrência tão cruel, quem fizer provisões para tempo de tormenta acaba ficando no meio do caminho.

O fato de supor um dinheiro que não existe soa assustador, claro. Mas não há outra maneira. Existe um efeito multiplicador da moeda que faz com que cada dólar impresso se transforme em dezenas na dita ciranda financeira. Deveríamos dizer, talvez, castelo de cartas financeiro. Uma que saia do lugar derruba o edifício inteiro. Isso não deveria ser tão alarmante quanto provavelmente fez parecer a forma em que foi expresso. O capitalismo sempre avançou aos trancos. São os ditos ciclos de crescimento, que culminam em crises, e assim por diante. Se não houvesse um sujeito como o sogrão, que especula entre o banco e você, não haveria esse dinheiro, o fictício, então não haveria crises. Mas tampouco haveria ciclos de crescimento, esses em que o emprego aparece com facilidade, em que você sai para viajar, em que você compra casas e põe os filhos em escolas melhores, em que portos, estradas e linhas de metrô são construídas.

O problema parece ser o dinheiro “fictício”. Mas o dinheiro, seja ele qual for, é uma espécie de encarnação do valor, qualquer valor que se possa comercializar. E valor, em geral, nada mais é senão algo que atribuímos a um objeto, idéia ou pessoa quando sentimos desejo ou necessidade por ele. Sendo assim, projeções esperançosas e ambiciosas para o futuro contêm uma carga enorme de valor, sobretudo porque determinam como os objetos do engenho humano estarão dispostos nos tempos vindouros.

Essas expectativas lidam com a incerteza, é claro, e só podem ser transformadas em valor do ponto de vista econômico através dessa figura mágica que é o dinheiro “fictício”. Essa suposição quanto ao valor futuro, essa incerteza inevitável, está na base do conceito de juro, assim como está na base do mercado de futuros. Juros e negociações futuras são estratagemas para internalizar a incerteza e o risco. Eles perdem, desta feita, todo seu mistério e toda sua temeridade, pelo menos em aparência. A incerteza começa a aparecer, dissimulada que é, sob a forma de uma moeda, um valor negociável. Pois é justamente com essa incerteza velada que negociaram você, o sogrão, o banco, a empreiteira e o governo da ilha.

Imagine agora um certo número de grandes jogadores do mercado agindo como você e seu sogrão, mas concorrendo como cães selvagens por um naco de carne, obrigados a se submeter a todos os riscos possíveis para não serem atirados fora pelos investidores. Muito bem, daí saem as crises.

PS: Este assunto me deu vontade de começar uma reflexão de caráter mais ou menos ontológico sobre alguns conceitos econômicos. Os argumentos estão sendo colocados no papel. Quando prontos, irão para o Cálculo Renal. Mas eu aviso.

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