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Imagens que não fizeram história (4): a Brasília estourada

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Faz bastante tempo desde a última vez que me deu ganas de vir aqui para falar de imagens que “não fizeram história“. Quase dois anos. E por um desses acasos que acabam virando significação, quando volto ao tema é para tratar de uma fotografia de Brasília. No terceiro artigo desta série, comentei uma fotografia de Brasília, justamente. Eram índios debaixo de chuva, à frente do monumento conhecido como “aos candangos” (chama-se, na verdade, Os Guerreiros). Agora, é questão de uma fotografia de candangos visitando o Palácio do Planalto; e com o Congresso ao fundo.

A imagem tem essa potência notável de produzir seus próprio relatos, principalmente quando ultrapassa seu enquadramento particular e abraça outras imagens. Elas demarcam todo um território imagético, atravessando continentes ou gerações. Para além do aspecto indicial da imagem fotográfica, o “isto aconteceu” de Barthes, temos de reconhecer um outro caráter, mais assertivo, que diz “isto está acontecendo” ou “isto ainda acontece”. Um efeito de ilusão, direis, e pode ser mesmo. Mas é muito mais uma reverberação afetiva, sem a qual a fotografia provavelmente só valeria pelo seu caráter documental e não circularia pelas coletividades; ou pelas redes, como tem sido com esta.

Por isso, quando as pessoas se deparam com essa família (seus olhares de admiração, o modo apurado como se vestiram, a patente humildade debaixo dos monumentos de concreto), sentem algo suficientemente forte para deter o olhar. É algo sobre o passado, certamente, mas é na mesma medida, ou até mais, algo sobre o presente: isto ainda acontece, isto ainda está acontecendo, esta foto está sendo tirada agora. Está sendo tirada a cada vez que olho para ela. É graças a esse efeito, essa dobra nas décadas que Einstein não menciona, que esta imagem de René Burri pode se conectar com a dos índios, que circulou em 2015, ou com tantas outras tiradas em Brasília. Ou até em outras cidades, dependendo do território espaço-temporal que queremos delimitar.

* * *

E no entanto não foi nada disso que chamou minha atenção de imediato, ao ver pela primeira vez essa imagem, que apareceu um dia desses nas redes, nem sei bem por quê. A primeira coisa que me saltou aos olhos foi o fundo ligeiramente estourado, bem no centro do quadro, apagando os detalhes de alguns andares do prédio do Congresso e o pé da coluna do palácio. Acontece que René Burri, fotógrafo suíço morto em 2014 com um portfólio contendo retratos de Niemeyer, Fidel, Le Corbusier, De Gaulle e muitos outros, tirou centenas de fotos de Brasília. Não só durante a construção, mas também em 1977, em plena ditadura. Um bom número com caráter essencialmente documental; um bom número explorando a geometria modernista; outras tantas, como esta, lembrando a presença daqueles que de fato construíram a Novacap e que nem sempre são mencionados.

Fiquei encantado com esse ligeiro estouro, mas preciso dar uma breve informação: fui ao site da agência Magnum, que exibe em versão pequena todas as fotografias do livro de Burri sobre Brasília. A imagem, tal como a apresentam ali, não está tão estourada, mas também não tem tanto contraste e os rostos estão na penumbra. Não sei se a versão da agência foi “corrigida” ou se alguém resolveu aumentar o brilho ao postar a foto na internet. Cá entre nós, prefiro a versão com estouro, pressupondo que, de todos os seus cliques, o experiente fotógrafo suíço tenha escolhido este para deixar uma nesga de luz excessiva, chapada como é a luz, no meio do dia, em pleno planalto central deste país tropical.

Faço essa pressuposição, confesso, porque me convém, tanto pela narrativa que quero sobrepor à fotografia quanto pelos demais territórios que ela pode traçar. O que acontece é que lidar com a luz inclemente e brilhante demais, com sombras tão escuras que o contraste pode não ser administrável, sempre foi um problema para quem queria retratar esta parte do mundo. Ainda mais se tivesse no fundo da cabeça os padrões de luminosidade da pintura europeia. A maior parte das representações de paisagens brasileiras que conhecemos de séculos anteriores, de Franz Post a Debret, foram executadas pacientemente no começo da manhã ou no fim da tarde, dizem os livros de história da arte, para aproveitar uma luz mais suave e saturada. A grande exceção está na obra de João Batista da Costa, que fazia paisagens em pleno meio-dia justamente para marcar as diferenças das grandes áreas de cor. (Mais detalhes neste link.)

Refletindo sobre tudo isso, acabei pensando em Albert Camus. Nos textos do célebre existencialista pied-noir, as referências ao Mediterrâneo, Argélia em particular, sempre falam da luz ofuscante. Meursault menciona o sol opressivo e o reflexo cegante na praia diversas vezes, durante a narração que leva ao assassinato do árabe, em O Estrangeiro. No texto teatral O Mal-Entendido, a motivação declarada das assassinas é deixar o frio e passar a viver sob o sol. A imaginação européia sobre a luminosidade tropical é extensa e fértil. Posso mesmo imaginar a insolação que os primeiros exploradores tiveram ao desembarcar das caravelas.

Por isso me chamou a atenção esse pedacinho de luz estourada na fotografia de René Burri, que, afinal de contas, era mesmo um fotógrafo europeu, como Rugendas, Eckhout e Taunay foram pintores europeus. Na minha cabeça, Burri tinha se decidido a gravar a luz tal como é, em vez de procurar compensações, esconder o reflexo do sol atrás do corpo de alguém, algo assim. Como se fosse um comentário de fundo, de natureza técnica, para seu retrato da família, de natureza temática; como se quisesse sublinhar o fato de não estar apenas documentando, mas revelando algo sobre o que viera documentar.

É sempre inspirador testemunhar um encontro entre o tema e a técnica como este. Burri, afinal, deu de cara com o quê quando fotografou Brasília? Seu álbum tem inúmeros cliques de Niemeyer trabalhando, tem Juscelino em reunião com seu arquiteto, tem esqueletos de edifícios que sobem, tem vistas dos prédios prontos contra um território ainda dominado pelo barro, tem vistas dos acampamentos de peões. Tem até imagens de trabalhadores estrangeiros na obra, algo que eu nem sabia que tinha acontecido (são espanhóis). O que ele ouviu de cada grupo desses? Como avaliou o que diziam os políticos, os engenheiros, os jornalistas, os militares, os peões, suas famílias?

Talvez esta imagem revele um pouco disso: que postura tinha o fotógrafo diante daquilo que viera documentar. De quando veio acompanhar uma gigantesca obra de engenharia, com motivações políticas, neste país onde a luminosidade é tanta que se pode ter luz estourada e sombras profundas na mesma composição.

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Em quase todas as fotografias, e também nos vídeos, da inauguração de Brasília, vemos gente vestida em sua melhor roupa. A mais famosa dessas fotografias, que tem inclusive uma versão colorida, é aquela em que Juscelino, com lenço na lapela, agita seu chapéu, sorrindo para além das próprias gengivas. Há também registros da esquadrilha da fumaça, de ginasiais fazendo demonstrações (talvez sejam colegiais, pouco importa), de tropas que desfilam, dos deputados tomando seu assento pela primeira vez (ou, pelo menos, oficialmente pela primeira vez, para as câmeras). Ninguém nessas imagens está vestido de qualquer jeito, ou com a roupa com que vai trabalhar no dia-a-dia.

Esta imagem de Burri não é exceção: também a família humilde (e a legenda, no site da Magnum, acrescenta: “worker from Nordeste”) está com sua melhor vestimenta, sua “roupa de domingo”. Vale a pena se deter nesse detalhe. A esposa do candango carrega, inclusive, um guarda-sol, que, além da óbvia utilidade prática (ainda mais para quem tem um bebê no colo), é um tradicional signo de elegância. O marido veste paletó claro, algo que, pelo visto, perdeu o direito de existir nas nossas cidades, apesar de todo o sol. Talvez a única coisa que destoe seja o colarinho do trabalhador, que não usa gravata. Curiosa ausência.

Em nome do contraste, pense nas imagens que temos dos operários que ergueram aquela cidade (enganosamente) austera no meio do nada. Algumas são tomadas à contra-luz, agigantando suas figuras de heróis anônimos de uma pátria pujante (etcétera e tal). Outras são tomadas distantes, mostrando-os como pontinhos frenéticos de um formigueiro, para expressar a grandiosidade de uma obra em que a figura humana chega a desaparecer. Há ainda as imagens mais jornalísticas, poderíamos até dizer de denúncia, mostrando caminhões apinhados que chegam ao Planalto Central, despejando gente no Areal ou em Ceilândia, ou ainda as instalações em que viviam os candangos. O álbum do próprio Burri fornece exemplares de ambos os tipos.

O que temos nesta imagem é outra coisa. O fotógrafo suíço acompanha a família, e não é uma tomada de surpresa; há outra foto em que eles aparecem por trás, caminhando. Eles exploram as construções monumentais e ainda nuas, não só no sentido físico de não estarem sendo usadas, ocupadas por escritórios e repartições, mas também no sentido simbólico: não carregam o peso das atividades que se desenrolarão ali dentro, e que o visitante ou espectador atual não pode se prevenir de ficar imaginando quando contempla cada uma dessas construções. Sabemos que o grupo está de pé no Palácio do Alvorada por uma única das colunas, que se ergue atrás deles com dimensões acachapantes. Aos olhos de quem se acostumou a ver essas colunas nos últimos 50 anos, associadas a todo tipo de evento triste, traumático e cruel, essas dimensões não podem ser tomadas como mero acaso.

Burri toma a foto ligeiramente de baixo, o que normalmente aumentaria as pessoas, daria a elas dimensões mais fortes e agressivas. Não é o caso de quem está debaixo dessas colunas, também alongadas pelo ângulo de tomada. O que temos são figuras um pouco deslocadas, todas olhando para cima, um pouco intimidadas, com exceção do bebê que dorme, indiferente; logo ele, que vai conviver com a imagem desses edifícios por uma parcela maior de sua vida…

* * *

Mesmo assim, é uma família que se vestiu com o melhor de suas roupas e saiu para passear. Estão ao largo das grandes cerimônias, mas nem por isso menos aprumados. Depois de um longo período de dificuldades, de trabalho duro, o descanso, o lazer. E, claro, a admiração, a reverência, diante das edificações monumentais  – erguidas ao longo de um eixo que carrega o mesmo nome.

A reverência diz muito. Pode-se ver que o operário e sua família têm respeito pelo palácio, em grande medida pelas próprias dimensões da obra arquitetônica, mas também pelo contexto em que foi feita, um contexto carregado de promessas e expectativas. É bem possível que também tenham orgulho da energia física e do “dispêndio de músculo e nervo” (uma definição marxiana para o trabalho) necessário para produzir aquele monumento. Certamente há um componente de esperança, que era o que prometia todo o projeto de desenvolvimento de Juscelino.

Seja lá de onde vem esse “worker from Nordeste”, ele não teria saído de casa se não imaginasse um incremento nas condições de vida em outra terra. Mesmo que, na verdade, ele tenha sido expulso, seja por um grileiro, seja pela seca, seja por ambos. O que quer que tenha acontecido, ele provavelmente nutria a esperança de que a Novacap representasse um país melhor. E isso quer dizer, de seu ponto de vista: um país onde se viveria melhor. Conhecemos uma boa parte da história, no entanto: atraídos pela possibilidade de fugir da miséria, retirantes “from Nordeste” como este trabalhador largaram o que restava de suas terras para tentar a inclusão na civilização, na sociedade de massas, ou de consumo, chame como quiser. Foram tratados como sempre são tratados os pobres, os mestiços, os trabalhadores no Brasil.

Por sinal, quando compartilhei esta fotografia nas redes sociais, uma amiga de cliques contou uma história familiar que não vou reproduzir aqui, porque cabe a ela contá-la, e não a mim. Mas é um relato que contém tudo que conhecemos da história do Brasil ao rés-do-chão: grilagem, jagunços, escravidão por dívida, golpes, violência e morte. Não dá para descolar a história da construção de Brasília da história das secas, das oligarquias, do arrasamento do território e de seus habitantes. Tanto quanto ressoa com a fotografia dos índios de 2015, a imagem de René Burri também ressoa com a pintura de Cândido Portinari, cuja Os Retirantes data de 1944.

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Repetindo o que eu disse no início, a fixidez da imagem lhe confere a característica curiosa de adquirir significações em retrospecto. Como captura de um intervalo no mais das vezes ínfimo, de uma fração de segundo, a fotografia pressupõe necessariamente o tempo que a precede e sucede. E se, nesse instante raptado graças à luz que refletiu, o filme (ou o sensor) foi impressionado com formas prenhes de sentido, pode pressupor ainda mais, muito mais. O operador que tem um dedo no disparador e outros dois na abertura do diafragma tem consciência de algumas dessas possibilidades, mas certamente não de todas. O autor é poderoso, mas a obra tem seus poderes também, que ele simplesmente não pode alcançar. E deve se alegrar por isso.

Mesmo que nada do que eu imaginei acima esteja correto e o Burri de 1960 quisesse apenas fotografar uma inauguração, o Burri de 1977, que retornou a Brasília num momento em que a ditadura já rateava, provavelmente tinha outra idéia. E é bem possível que tivesse outra idéia também sobre suas fotos de 1960. No fim da vida (ele morreu em 2014), talvez tivesse ainda mais uma outra idéia sobre o que portavam de significativo essas imagens de Brasília. É como se os personagens se movessem debaixo das colunas, na medida em que elas vão sendo impregnadas do significado histórico do que acontece entre elas e em volta delas. É como se, ainda hoje, quem passa por aí carregado de pastas (se é que por aí passa alguém) esbarrasse nos candangos extasiados.

Assim, para nós, hoje, esta imagem provavelmente evoca ilusões e desilusões, enganos e engodos, decepções, traições. Penso no bebê que dorme no colo da mãe e cujos pais talvez o imaginassem livre da miséria e da opressão, educado, trabalhando em bons empregos (públicos, talvez). Onde terá crescido essa criança? No Núcleo Bandeirante? Na Candangolândia? Teve acesso às benesses da civilização? Recebeu uma educação emancipadora? Teria idade para escapar dos eventos relatados em Branco Sai, Preto Fica, de Adirlei Queiroz? O que você acha? O que te parece mais provável?

O respeito que o operário tem pela construção, ou por quem a encomendou, dificilmente será recíproco. Depois de Getúlio, depois de Juscelino, depois de Lula, uma das coisas que podemos dizer sobre o Brasil, e que transparece nesta imagem e em tudo que ela pode nos dizer em retrospecto, é que todas as vezes que se vendeu a idéia de um grande impulso adiante para o país, caímos, depois de alguns anos, em retrocessos. Ou melhor, caímos na real. E tudo para descobrir que o grande impulso, o grande facho de esperanças e expectativas estava incompleto, porque continha muitas propostas e poucas rupturas; muita acomodação, muito acordo, e pouca revolução.

As imagens desta família, esta em particular, mostram um instante silencioso (porque, afinal, algumas fotografias, como muitas pinturas, têm som). O evento ocorre em um espaço praticamente vazio. O contraste que se impõe não diz respeito apenas às multidões estridentes que freqüentarão a Novacap daí por diante, preenchendo os ministérios com concursados, terceirizados e comissionados, as casas parlamentares com eleitos, assessores e jornalistas, os palácios com lobistas, solícitos líderes políticos e seus funcionários a servir café.

Mais ainda, o ambiente em que a família visita essa Brasília ainda quase mágica contrasta com o alarido da inauguração oficial, a festa de diplomatas e burocratas, o desfile de Nonô e os discursos de senadores e deputados. Terá sido no dia (e na noite) anterior? Pela ordem das fotografias, é o que parece. E vou admiti-lo, mais uma vez, porque convém à minha narrativa.

Lendo os relatos da época, a inauguração de Brasília foi a marcha triunfal de um país que vencia, batia na porta do clube dos civilizados, demonstrava ser capaz de qualquer coisa, mesmo os planos mais ousados e absurdos. Um país com os olhos voltados para o futuro. Quero dizer: o país do futuro, nada mais e nada menos. Mas quem assistia, das bancadas do plenário ou das galerias, ou mesmo pela televisão, um bem de consumo ainda relativamente raro em 1960, eram aqueles que garantiam os pés do país (eu deveria dizer: “da nação”) muito bem fincados na derrota, no passado, no fracasso, no clube dos expropriados.

René Burri mostra com esta família o dia seguinte desse alarido tão confortável, ou melhor, o silêncio em que se esconde aquela esperança quando recomeça o dia-a-dia. E mostra esse espaço dúbio, ambivalente, da maneira como divaguei até aqui. Com a luz ligeiramente estourada de um ambiente subtropical que não se deixa simplesmente apagar assim tão fácil (nem com os aparelhos de ar-condicionado dos ministérios). Com uma perspectiva de baixo para cima, paradoxalmente reduzindo os personagens ao amplificá-los. E com a constatação de uma reverência humilde perante as colunas em que Oscar Niemeyer revelou um naco de seu gênio (e de sua utopia).

* * *

Como sabemos, quatro anos depois de todo o alarido, nessa mesma cidade, Auro de Moura Andrade declarava vaga a presidência da República, que pouco depois seria tomada pelos militares e sua máquina de tortura, censura e retrocesso. Não consta que a família do “worker from Nordeste” tenha visitado o Alvorada nesse período. Pelo menos não tem fotos disso. Consta, por outro lado, que as tentativas fracassadas de estabilizar a economia depois das despesas com a construção do referido palácio e demais novidades da Novacap foram um fator determinante na queda de Jango e da democracia. É difícil imaginar uma fotografia que represente esse vínculo, exceto pelas imagens de arquivo mostrando Celso Furtado com olhar de cansaço, ou melhor, de derrota. A não ser que tentemos fazer da luz estourada no fundo deste clichê de René Burri uma espécie de alegoria dos estouros em geral, inclusive os estouros de orçamento. E por que não?

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A aposta de Varoufakis

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Uma frase de Yanis Varoufakis grudou na minha cabeça logo no começo do ano, quando o Syriza venceu as eleições e o economista-motoqueiro se tornou ministro. Com o tom confiante que lhe é peculiar e uma linha de raciocínio que denuncia sua formação em teoria dos jogos, ele assegurou que, dentro de alguns meses, um acordo seria alcançado com a troika. Um acordo muito melhor do que o que estava na mesa, bem entendido – e obviamente infinitamente mais favorável aos gregos que o resultado final que agora conhecemos.

Como ele tinha tanta certeza? Os negociadores, dizia Varoufakis, estavam plenamente conscientes de que, se esse acordo não fosse alcançado, o governo do Syriza na Grécia cairia. E o próximo grupo – digamos assim – heterodoxo com que os credores europeus teriam que se sentar para negociar seria o Front National francês. É evidente que a democrática Europa não gostaria de correr o risco de ter um partido proto-fascista no poder de um de seus principais países, não? Um partido ultra-nacionalista, xenofóbico e, para horror da boa sociedade, ferrenhamente eurocético!

Essa declaração ficou ruminando na minha cabeça porque, desde o início, me pareceu um pouco ingênua. Quem garante a Varoufakis que essa abstrata entidade que (não) atende pelo nome de “troika” – e que agora tem sido chamada de “as instituições” – está mais disposta a aceitar um consórcio de grupos de esquerda nominalmente radical, mas na prática bastante moderado, do que um agrupamento de gente proto-fascista? O que a história tem a nos dizer sobre isso? Já adianto: o oposto. Com efeito, entrevistado pela revista New Statesman, Varoufakis revelou seu assombro com a despreocupação da aristocracia continental quanto à radicalização do ambiente político. Mas volto ao assunto mais abaixo. Continuar lendo

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Bouazizi, o herói de Nietzsche

Nem Assange, o indiscreto hacker australiano. Nem Zuckerberg, o ainda mais indiscreto empresário precoce da rede, como quis a revista Time. Nem Suárez, o goleiro fugaz dos pampas, sobre o qual ainda hei de escrever. O maior herói de 2010 foi um vendedor de frutas, ambulante e sem licença, natural de Sidi Bouzid, no interior da Tunísia. Chamava-se Mohamed Bouazizi e tinha 26 anos quando morreu.

O gesto heróico de Bouazizi foi um martírio que, em si, não tem nada de novo, mas sempre impressiona. No Vietnã de 1963, Thích Quảng Đức desceu do convento e, com toda a calma que se espera de um monge budista, imolou-se na praça mais movimentada de Saigon. Kennedy admitiu que a imagem daquele corpo se consumindo abalou o mundo. Na Tchecoslováquia de 1969, Jan Palach, estudante de filosofia, escolheu que sua existência não passaria dos 21 anos. De que valia viver sob o jugo soviético? Em 1989, a celebração de sua memória desaguaria na Revolução de Veludo, batendo um cravo no caixão da Cortina de Ferro.

É perturbador, mas parece que morrer dá resultado. Continuar lendo

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O Brasil desenvolvido – esboço

O que segue foi escrito aos poucos, nos intervalos de uma semana tempestuosa. Não foi revisado e tenho certeza de que está uma bagunça, “longo demais” para a internet e por aí vai. Mas vai assim mesmo, para sair antes que o povo esqueça os assuntos das últimas semanas, e porque as ideias largadas aqui, de qualquer jeito, são importantes para mim.

Lembrei de Jamelão anunciando, em 1997, que 2004 era o sonho brasileiro: “De braços abertos sou o Rio de Janeiro…”. Pois 2004 passou, como passou Jamelão. De lá para cá, falou-se em 2008, 2012, poderíamos falar de 2040 se fosse necessário. Chegamos a 2016 ouvindo a mesma história de que Cesar Maia queria porque queria as Olimpíadas no Rio, depois do Pan de 2007 que rivalizou com a Eco-92 em maquiagem urbana. Ainda deu tempo de o alcaide maluquinho tirar uma onda com a Marta Suplicy e a velha rivalidade com São Paulo, evocando a frase de Vinícius – a beleza é fundamental, talvez a última coisa fundamental neste mundo. Mas bastou Cesar Maia desgrudar da poltrona para que o COI, provavelmente aliviado, abrir o envelope do sinal verde. Coincidência? Provavelmente. Deixeimos o Maluco Beleza para lá, que ele já não conta mais.

Na verdade, dir-se-ia – e agradeço aos céus pela existência da mesóclise – que o mundo está ficando mais esférico. As Olimpíadas no Rio são um indício disso, ao lado da Copa do Mundo na África do Sul e o Oscar para um quase-Bollywood. Parece que já ficou para trás o eurocentrismo do mundo colonial, a bipolaridade do pós-guerra, o choque unívoco de civilizações que Huntington, com sua mentalidade bipolar, esperava. Seria também o fim do Fim da História, se é que houve um começo. A profecia de um mundo de grandes blocos, de que ouvimos falar desde o início da década de 90, começa a se concretizar e não tem volta: nem mesmo o mais poderoso dos ex-impérios da era moderna pode vencer isoladamente, e é bom (para eles) que os britânicos entendam isso de uma vez por todas.

Aliás, os europeus de maneira geral só se dão conta da urgência de algutinar quando uma crise os aperta, como provam os irlandeses, esses adoráveis pinguços. Quando a coisa começa a melhorar um pouco, todo o continente perde de vista o correr da história e se fecha em nacionalismos anacrônicos e já algo ridículos. Sendo assim, vivam as crises! Ao mesmo tempo, os temíveis chineses se esforçam por espalhar contratos com o mundo inteiro, mas sempre de uma posição de dominância que talvez acabe revelando ser seu calcanhar de Aquiles. Afinal, eles empilham gente num território enorme, mas continuam dependendo de alguns apertos-de-mão para não se ver diante de uma massa bilionária de ex-camponeses esfaimados e revoltados. Já os americanos, que passaram oito anos tentando enfiar cubos quadrados em buracos triangulares, agora correm atrá do tempo perdido, acenam para tudo mundo, sorriem e tudo mais, enquanto, em casa, os mais atrasados continuam atirando dardos na efígie de Obama. Eis aí, em poucas palavras, um instantâneo geopolítico do mundo.

Se tivesse tempo e paciência, eu poderia enveredar a falar da turma que está pondo as manguinhas de fora militarmente: indianos, paquistaneses, iranianos, russos. Mas são iniciativas que não têm grande perspectiva de sucesso, porque é cada vez mais improdutivo negociar pela ameaça, particularmente a atômica. Lembremos que é sempre mais fácil ser atingido que atingir e o primeiro a lançar a bomba será também o primeiro a sumir do mapa – e isso vale tanto para Israel quanto para a Coréia do Norte.

Em vez disso, prefiro me concentrar no Brasil, esse país que todo mundo adora, à exceção dos agentes de imigração europeus e dos zagueiros da seleção argentina. Nosso acesso a esse mundo G-20 que nasce é particularmente auspicioso, como todos sabem. A economia cresce, os juros escorregam, a desigualdade começa a ceder, a diplomacia dá boas tacadas, voltamos a fazer o básico, qual seja, investir em pesquisa, ensino e transporte. No lugar de uma grande massa de funcionários públicos mal pagos e sem função, como outrora, temos ministérios e autarquias ocupados por técnicos qualificados como talvez nunca tenhamos tido.

E assim por diante. No mundo inteiro, jornalistas, analistas e todo tipo de gente que gosta de dar pitaco manifestam simpatia por nós. Um aponta o país como contrapeso aos EUA na América Latina. Outro se admira de nosso potencial energético renovável. Outro ainda louva a firmeza demonstrada perante a quartelada de Honduras. Muitos lembram a iniciativa de valorização do G-20, ponto culminante de uma idéia de não-alinhamento que começou há décadas mas, até hoje, tendia a só patinar. Parece que tudo vai muito bem para Pindorama – e esse apelido talvez esteja a caminho de desaparecer. Quem sabe?

É tentador dizer que estamos diante de uma oportunidade de desenvolvimento de uma dimensão que jamais conhecemos. Parece mesmo fantasiosa a ideia de um Brasil desenvolvido, rico e justo, não mais o país do futuro, mas um verdadeiro – como é mesmo que se diz? – global player. Mas a verdade é que já vivemos situações mais ou menos parecidas, sim. Oportunidades de subir alguns degraus na escala da História, tivemos algumas. Desde uma hipotética industrialização ainda no século XIX até a reforma agrária nos anos 60 e o controle da inflação em 94, deixamos todas pela metade. É por isso que, quando ouço Lula dizer que o Brasil deixou de ser um país de segunda classe para se tornar um país de primeira, logo penso: “Calma, presidente. Você está tomando por fato consumado o que não passa de potencial”.

Não quero soar pessimista. Não estou insinuando a existência de uma maldição de atraso que paira sobre as nossas cabeças. Mas quero, sim, chamar a atenção para o fato de que desenvolver-se envolve muito mais do que o crescimento econômico, o reconhecimento da mídia internacional e a esperança de “ética já” ou coisa que o valha, como se um salto de patamar trouxesse milagrosamente o fim “dessa roubalheira toda que está aí” e o início de uma vida de moleza, espelhada no que muita gente em nossa classe média pensa que acontece no “primeiro mundo”. Na verdade, passar à categoria de país desenvolvido, daqueles em que a desigualdade é pouca e a segurança muita, implica uma mudança radical na vida de um povo, algo de que o brasileiro terá de se mostrar capaz se quiser cumprir a profecia do presidente.

Nos anos 70, um analista do governo americano de nome Herman Kahn – uma figura estranha e interessantíssima, cheia de ideias heterodoxas sobre guerra nuclear, possivelmente um dos inspiradores do Dr. Fantástico de Kubrick – especulou que existiria uma curiosa lei da economia: a partir de um certo patamar de renda per capita, ou seja, com o enriquecimento de uma dada sociedade, as condições de vida da classe média alta se tornam “menos confortáveis”. Esse discreto desconforto resultaria do desaparecimento, ou pelo menos da restrição, de alguns serviços de luxo: babás, motoristas, contínuos (sim, existe uma palavra em português para office boy) e assim por diante. Todos esses passam a estar reservados apenas aos “muito ricos”, categoria bastante restrita, como se sabe.

A experiência é muito traumática e provoca uma sensação algo esquizofrênica em quem a atravessa: a impressão de ao mesmo tempo enriquecer e empobrecer, se é que algo assim é possível. Grande parte das convulsões sociais de 1800-1970 na Europa, por exemplo, podem ser interpretadas assim: gente de nariz empinado que não aceitava a ideia de que seus criados e lacaios acedessem a uma condição de relevância social, leia-se política. Em muitas ocasiões, ganhou quem queria segurar a marcha do desenvolvimento (1848 na Alemanha, 1871 na França); em outras, ganhou quem queria acelerá-lo (um bom exemplo não é europeu, mas pouco importa: a guerra civil americana).

Se for verdade que estamos em pleno salto para o desenvolvimento (e há controvérsias), terá então chegado a hora e a vez do Brasil (nessas horas chego até a simpatizar com Galvão Bueno: Brasil-sil-sil-sil!). Fico me perguntando se conseguiremos fazer essa auto-transposição para um país em que as famílias não “têm” empregada e quem lava a louça são as crianças. Em que “eu estou pagando” não é argumento para justificar abusos mesquinhos de poder. Em que quem serve as mesas nos restaurantes são jovens não necessariamente “desfavorecidos”, que financiam seus estudos pelo trabalho mas nem por isso acham essa condição humilhante ou degradante, muito pelo contrário. Imagine, o Brasil um país em que usar o transporte público é normal e até preferível, por muito mais prático do que se submeter ao trânsito, às multas, ao estacionamento caro. Imagine, o carro já não mais aquele símbolo de status tão paradigmático…

Tudo isso parece muito longe de acontecer no Brasil, é claro. Mas o problema, porque o choque de mentalidades é sim um problema, já começa a se esboçar. Quando, por exemplo, nossa diplomacia começa a ter um peso em decisões de interesse mundial, é preciso que a opinião pública, em casa, tenha acesso às verdadeiras questões que estão em jogo – função da imprensa – e possa se posicionar de acordo com essas questões; e como, repito, são questões de interesse mundial, é preciso que esse posicionamento tenha em vista essa dimensão maior, e não um mero partidarismo de fundo de quintal. Afinal, como sabemos, o alcance da política de um país desenvolvido ou quase desenvolvido transborda largamente suas próprias fronteiras. Sim, isso pode vir a acontecer: a opinião pública brasileira influindo de verdade. Mas para isso será preciso que ela seja de fato uma opinião, e não só um amálgama de impressões dispersas e predominantemente emotivas. Será preciso que ela se baseie em algo estável, ou seja, um ambiente político em que todas as vozes têm peso – sim, porque num país desses, o conceito de “excluído” é vergonhoso.

O caso das Olimpíadas no Rio é sintomático, portanto o catalisador desta breve reflexão (não tão breve, considerando que está num blog). À parte as avaliações objetivas do evento – se é verdade que traz benefícios de longo prazo, se é mais estorvo que bênção etc. –, podemos dividir em dois campos as reações à notícia. De um lado, a euforia com o “triunfo”, com o reconhecimento de nossos esforços, com a integração da América do Sul à festa do esporte. Do outro, a velha história de que, até hoje, tudo em nosso país foi superfaturado e resultou em serviços frustrantes, a começar pelos jogos panamericanos no próprio Rio há dois anos.

Retomando o argumento das exigências de um país que pretende se desenvolver, posso afirmar sem risco de engano que é preciso superar o pensamento de ambos os campos. Não vou ser frio a ponto de deplorar a alegria de ter realizado em 2009 um “sonho brasileiro” declamado em 1997 pela bateria da Mangueira, nem alienado a ponto de fingir que o desvio de verbas não é uma modalidade em que somos medalha de ouro. Mas acredito que não mereço ser lapidado por lembrar que tanto o bom funcionamento dos jogos quanto o bom uso do dinheiro, mais quaisquer benefícios que o evento possa trazer, dependem de nós e apenas de nós.

Em outras palavras, a primeira vítima de um Brasil desenvolvido (a esse ponto ainda profundamente hipotético, não vamos perder de vista) será esse velho fatalismo que nada mais é, na verdade, do que conservadorismo disfarçado. Uso aqui conservadorismo num sentido talvez errado: não é o ser conservador no sentido de defender antigos valores morais, sociais, políticos, econômicos – alguns dirão “ser de direita” –, mas de agir, talvez inconscientemente, para manter mesmo aquilo que em nossa sociedade é vício e reconhecemos como tal. Isso inclui o ódio rancoroso contra “os países ricos” que, mal disfarçado, está por trás da euforia de muitos, a começar pelo presidente, com o “Rio 2016”.

Mas é mais manifesto nesse tal fatalismo, cujas principais vertentes são, por um lado o “todo político é ladrão” e, por outro, o “todo favelado (ou pobre, se preferir) é ladrão”. A primeira frase é mencionada com uma frequência razoável e não está tão longe da verdade. Mas, embora poucas pessoas não-fanáticas entrem para a vida política sem querer tirar um benefício pessoal, uma declaração tão peremtória acaba não servindo a outro propósito senão justificar a alienação voluntária. Sabendo que “todo político é ladrão”, temos uma boa razão para não nos metermos nisso. Ficamos cuidando da nossa vida e, quando passamos nas Cinelândias da vida, deploramos aqueles grupos de pessoas mal-intencionadas com seus cartazes e buzinas diante da Assembleia. Sim, porque, se estão dialogando com políticos, só podem ser mal-intencionados…

A vertente oposta é menos evidente, já que não pega muito bem dizer que “todo favelado é ladrão”. Mas é o que pensa muita gente na classe média, que não poupa nem a própria empregada doméstica, “lá em casa há 20 anos” mas vigiada bem de perto. Mesmo quem, muito pudico, não afirma que “todo pobre é ladrão” imediatamente presume que o carro de alguém com “cara de favelado” (sic) só pode ser roubado ou comprado com dinheiro de origem duvidosa. Esse sentimento difuso, mas bem real, é consequência de uma configuração social em que “pobre” é um conceito que vai muito além de “pessoa com renda baixa” e implica de fato uma outra categoria humana, outra casta, outra classe de seres humanos. Coisa de antigamente, aliás, o mundo inteiro foi assim pela História quase inteira. Mesmo o uso da língua é diferente entre essas classes; os de dentro zombam do “falar errado” dos de fora, que, por sua vez, tentam caprichar quando se comunicam com seus “superiores” e acabam só produzindo mais motivo para chacota. Quem não reconhece, nisso, o Brasil? Pois bem, somando tudo, temos que “todo político é pilantra, todo pobre é ladrão, fala errado e tem que saber o seu lugar”.

Pois bem, não poderá existir “o lugar do pobre” num Brasil que se pretenderá desenvolvido. Tomando “lugar” no sentido literal, desfavelizar é fundamental mas é pouco e teleféricos não vão apagar esse que é um dos maiores símbolos da nossa fratura social (o termo é um galicismo, mas funciona). Num país desenvolvido, a diferença entre ricos, pobres e classe média é quase inteiramente quantitativa, em vez de qualitativa. É uma diferença enorme, claro, mas bem mais fluida e menos cruel. Paralelamente, não pode haver lugar em nosso imaginário Brasil desenvolvido (ou qualquer outro país, aliás) para o dar de ombros político: exultar com qualquer piada ridícula que ironize o dedo perdido do presidente e lamentar que seja possível uma ação governamental justa e adequada, a não ser as que me beneficiem direta e particularmente. A emergência de novos interesses e opiniões, novos pontos de vista, novas exigências de gente que até então não tinha nem voz, nem perspectiva, nem visibilidade, transforma o jogo político numa roleta com incontáveis casas. Para todos os grupos, o interesse e a participação políticos, seja na forma de reivindicações, seja pela administração, tornam-se imprescindíveis, para não dizer inescapáveis. O espaço público organizado (ou seja, a política) é o meio de interação de sociedades “desenvolvidas”, da mesma forma como o Bope e congêneres são o meio de interação de sociedades atrasadas.

O que tem de especial no “sonho brasileiro” que Jamelão cantou não é a perspectiva de que se torne realidade. Essa, sempre tivemos e sempre frustramos, porque o Bope continua sendo mais fácil do que a política, principalmente para quem comanda as bordoadas em vez de levá-las. A diferença, pelo menos até onde posso senti-la, é um pouco mais de interesse, um pouco mais de exigência, para que o futuro de fato se torne presente, como se tem falado. Organizar jogos olímpicos é um pálido exemplo disso. Pálido, mas com enorme cartaz. Sem uma gestão competente, fruto de uma determinada capacidade de organização coletiva (leia-se política), é certo que o evento não decola. Velhas perdas de tempo, como o fatalismo já mencionado, o bairrismo e o espírito de porco de quem prefere puxar papo pelas reclamações, deixam de ser excentricidade nacional para se revelarem os estorvos que realmente são. Só por isso, a perspectiva do “Rio 2016” já é, pelo menos potencialmente, algo a celebrar.

De maneira geral, o que me deixa razoavelmente otimista não é nem o pré-sal, nem a Copa, nem as Olimpíadas, nem a política externa, nem o PAC, nem o editorial do Clarín, do FT ou do NYT. É, sim, uma percepção difusa de que as gerações mais jovens, no país, têm um interesse maior na administração da coisa pública, no planejamento urbano, em projetos de desenvolvimento de longo prazo. Na esfera federal como em Estados e municípios, começam a ser ouvidos os grupos de estudo e os gestores qualificados, que antes viviam abafados pelo fatalismo político e os lobbies dos aproveitadores de sempre. Quanto tempo isso vai durar, nem imagino, mas é um momento auspicioso, embora longe da panaceia que o Planalto quer fazer crer. Resta ver se não vamos querer sabotar mais uma vez nosso próprio futuro, como já é nosso hábito.

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A mais monstruosa das guerras

Há noventa anos, hoje, terminou a mais monstruosa das guerras.

Depois de todas as atrocidades cometidas sob o jugo ensandecido de Hitler, poderia parecer que a Segunda Guerra Mundial mereceria esse título, mas não. O que os nazistas fizeram de monstruoso enquanto tiveram o poder na Alemanha foi, de certa forma, paralelo ao conflito: campos de concentração e extermínio, perseguição a minorias, o reino do terror no país em que outrora caminharam e escreveram Kant e Leibniz. Na Ásia, mesma coisa: os grandes crimes das forças imperiais do Japão na China e na Coréia foram cometidos contra populações civis, quando os combates propriamente ditos já haviam sido ganhos. Uma covardia ainda maior do que qualquer embate militar. A guerra em si, porém, tolheu a vida do melhor da juventude de diversos países, arrasou cidades inteiras e desestruturou famílias e povos. Episódios hediondos houve, claro, como o bombardeio de Dresden e as bombas de Hiroshima e Nagasaki. Mesmo assim, insisto em dizer que a Primeira Grande Guerra foi mais monstruosa.

Todo o rancor que atirou o mundo no segundo e mais abjeto conflito teve seu início nas trincheiras de 14-18, ou melhor, nos gabinetes de Paris, Berlim, Londres, Viena etc., onde grandes dignitários decidiam que os homens de seus países deveriam mofar nesses buracos infectos cavados na terra. Foi o primeiro conflito em que o inimigo, de ambos os lados, foi demonizado pela propaganda de massa ainda um tanto incipiente. Os cartazes, as emissões de rádio, os folhetos que se distribuíam nos países envolvidos criaram, pela primeira vez, uma sensação confusa de aversão generalizada aos demais povos, um nacionalismo negativo cujas conseqüências foram sentidas na carne pelas duas gerações seguintes.

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O primeiro bombardeio aéreo surgiu em 1914, com zepelins alemães atacando a até então neutra Bélgica. Morreram nove civis, os primeiros de milhões que seriam massacrados por bombas e mísseis atirados de aviões e lançadores distantes. Nove corpos estraçalhados sem que os algozes nem sequer vissem o resultado de sua ação. O uso irrestrito da metralhadora, o tanque de guerra, a granada de mão, o gás de mostarda, os genocídios e as máscaras assustadoras que o acompanham são o legado mais evidente do confronto, que terminou com 40 milhões de pessoas a menos neste mundo.

Mas nem mesmo essas invenções abjetas são o resultado mais importante do terremoto de 14-18. Com a mesma força das infecções que ratos e esgotos da trincheira transmitiam aos soldados, era corroída a estrutura do militarismo aristocrático, algo romântico, em que a guerra manifestava a grandeza secular dos povos e dos reis. Os limites da corrida colonialista também foram escancarados pelas escaramuças que tiveram lugar em três continentes ao mesmo tempo. Quatro monarquias milenares desapareceram: os Romanov, os Habsburg, os Hohenzollern, os Otomanos. Com elas, o mito da guerra nobre, que levara Otto von Bismarck a receber em sua tenda o derrotado e capturado Napoleão III em 1870, foi enterrado por Georges Clemenceau e outros líderes mais modernos e pragmáticos: a partir de 1918, uma derrota deixou de ser apenas uma derrota. Teria de ser uma humilhação.

Foi uma guerra que teve um estranho começo: o sistema de alianças e tratados era tão intrincado que ninguém sabia de que lado um país entraria. Todos os envolvidos tinham planos para uma vitória relâmpago, como o alemão Schlieffen, o francês XVII e o russo 19. Todos falharam: as técnicas defensivas eram muito mais desenvolvidas que as ofensivas, qualquer tentativa de avançar era um suicídio, os exércitos de ambos os lados logo aprenderam a cavar a terra e esperar os acontecimentos. Isso, no front ocidental. Na Rússia, a administração czarista era tão incompetente para alimentar seus soldados que Lênin e Trotski fizeram a revolução.

E a guerra teve também um estranho final: a forma como se deu a rendição do império alemão, já convertido em república, apesar de não haver um único soldado estrangeiro em seu território. Esse curioso fato é fundamental para entender o horror que a Europa e, por extensão, o mundo viveriam vinte anos mais tarde. A capitulação da Alemanha, claramente derrotada, mas não aniquilada, foi o último ato de guerra que se possa considerar militarmente normal. Mas demonstra a falta de compreensão do que tinha se tornado o mundo.

Quando os americanos entraram no conflito, ao lado dos aliados, tanto a França quanto a Alemanha estavam à beira do esgotamento, do colapso e da revolução comunista que já tinha varrido a Rússia. O que os alemães, ainda muito apegados à idéia de aristocracia, nobreza e sacralidade militar, não tinham entendido é que a guerra massiva, industrial e monopolista não deixava mais lugar aos tratados de paz do século anterior. A França, ao contrário, compreendeu perfeitamente. Governados por Georges Clemenceau e comandados pelo marechal Foch, os franceses inventaram um conceito, mais um, que se tornaria um símbolo da insanidade bélica no confronto seguinte, na aplicação de Hitler: a “guerra total”. Morreremos de fome, esgotaremos nossos recursos, deixaremos de ser uma grande potência, mas não perderemos esta guerra.

A guerra total foi uma decorrência lógica de um mundo de produtividade absoluta, lucratividade extrema e formação de monopólios e cartéis. As democracias ocidentais sabiam disso, porque viviam mais intensamente o capitalismo à la Rockefeller, enquanto as potências centrais, sobretudo a Áustria, ainda pensavam como grandes impérios aristocráticos que eram. Mesmo a Alemanha, cuja produção industrial já superava em muito a britânica, não captou os novos ventos. Perdeu por isso, o que lhe custou uma humilhação desnecessária e a ascensão do regime de terror mais intenso que o mundo já viu. (Atenção: “mais intenso” é diferente de “maior”.)

A monstruosidade da Primeira Guerra Mundial pagou seu preço na Segunda: foi uma paga de mais monstruosidade ainda. O rancor francês de 1870 foi transferido para a Alemanha. A guerra total foi levada às últimas conseqüências por Hitler. Mais algumas dezenas de milhões de vidas foram apagadas do mapa. Nos anos 30, a dita comunidade internacional foi incapaz de deter os avanços dos nazistas sobre os territórios vizinhos pelo simples motivo de que, freqüentemente, acreditava-se que eles tinham razão em reclamar reparações pelas injustiças impostas no tratado de Versalhes (de 1919) por uma França amedrontada com o poderio do vizinho, embora derrotado. Tamanhos eram o rancor e o ódio, que o famoso e maldito ditador alemão exigiu assinar a rendição da França, em 1940, no mesmo vagão do mesmo trem, no mesmo ponto da mesma linha férrea em que foi assinado o armistício de 1918, em Compiègne. Depois, o vagão foi levado para a Alemanha e queimado. Hoje, há um museu na pequena cidade da Champagne com uma réplica exata do tal vagão.

Nicolas Sarkozy anunciou que as celebrações pela vitória de 1918, este ano, vão abandonar o cretino tom triunfalista e se concentrar mais na memória das vítimas da estupidez humana. Mortos, mutilados, órfãos, miseráveis. A biblioteca de Leuven, com 230 mil volumes, destruída pelos alemães. Os armênios, que a Turquia tentou varrer do mapa. Os australianos e neozelandeses enviados pelo comando militar britânico para o suicídio no estreito de Dardanelos, na Turquia. Tudo isso, naquela que deveria ser “a guerra para acabar com todas as guerras”.

Sarko tem razão. Não há vitória nenhuma quando 40 milhões de pessoas morrem e um continente é transformado em barril de pólvora, tão perigoso que, ao estourar após menos de 30 anos, mais 60 milhões de almas seriam aniquiladas. Ao lembrar de uma guerra como essa, devemos ter em mente o quanto a humanidade pode ser atroz e monstruosa, mesmo quando se considera no ápice da civilização, como acreditavam os europeus da belle époque.

PS1: Sobre o fim da cordialidade militar, da era vitoriana e do respeito ao inimigo, recomendo este antigo texto do blog de Rafael Galvão.

PS2: A referência mais imprescindível para entender como foi monstruosa a Primeira Guerra, em que os soldados eram tratados como meros pedaços de carne pelos comandantes, é evidentemente Paths of Glory (Glória feita de sangue), de Stanley Kubrick.

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Herculano, o que escondes de nós?

Ainda há quem se preocupe com o que diziam, pensavam e escreviam os sábios de povos extintos, adoradores de deuses incontáveis, bebedores de vinho doce, guerreiros sangüinários que dizimavam povos em nome da glória, como se a esse estranho conceito coubesse mais valor que à vida humana. Sim, há ainda quem sonhe com o que diziam tantos volumes perdidos na queda dos grandes impérios da Antiguidade, e salive ao supor os tesouros ainda escondidos abaixo de nossos pés.

Essas pessoas passam por loucas. Cada vez mais, à medida em que o turbilhão de opiniões e leituras apressadas vai sugando o interesse das gentes pelo argumento alheio. Que dizer de outros paradigmas? Línguas mortas? O que poderia nos ensinar a leitura de um estóico do tempo de Cristo como Sêneca, forçado ao suicídio por um pupilo que calhava ser Nero, o imperador ensandecido, mas que cortou os pulsos durante um banquete, diante dos convivas, alegre, em altiva sujeição? A nós, mergulhados até o pescoço nas traições que movimentam cada mercado, nos impasses éticos que travam o quotidiano das ações, o que teria para dizer o jovem Sêneca?

Teríamos de mudar algo em nosso conhecimento da natureza, se encontrássemos os trechos perdidos de Empédocles? Não creio que isso nos obrigaria a abandonar o atomismo e reconduzir à luz os quatro elementos. Tampouco imagino que a obra integral de Demócrito invalidaria a mecânica quântica, com seus átomos indivisíveis e imprevisíveis. E no entanto, estranhamente, os velhos gregos e latinos, com seus fragmentos e tratados apócrifos, ainda são interessantes para certas pessoas, que se debruçam sobre diálogos muitas vezes incompreensíveis em busca de um conhecimento que cabia a outro mundo, com seus próprios problemas, critérios, aspirações e formas de expressão.

Poderíamos perguntar que recompensa tiram essas pessoas de uma leitura tão penosa. Talvez algumas frases espirituosas, para soltar durante o aperitivo, nas festas do grand monde. Mas isso se obtém, tanto quanto, à leitura das compilações de aforismos mais recentes, como as de Ruy Castro.

Mas parece que também se pode ganhar algo por outros lados. Algo até pessoal, já que o acúmulo individual de ativos há tempos é o único chamariz de interesse. Gente de outros tempos e outros lugares tende a enxergar as mesmas coisas que nós de ângulos inusitados, às vezes opostos aos nossos, mas nem por isso menos corretos. Os antigos, já que é deles que estamos falando, tinham seus próprios vícios e manias, o que significa que não tinham os nossos, o que faz com que suas idéias pareçam milagrosamente frescas e potentes.

Assim, sabemos bem que Platão, com toda sua dialética, defendia uma organização social plenamente estratificada. Pior ainda, em sua escala de cinco níveis para a degradação dos sistemas políticos, a democracia cai num vexatório quarto lugar, à frente apenas da tirania mais ímpia. Acontece que, hoje, todos amamos a democracia. Não podemos ouvir um pio contra ela. Matamos por ela, censuramos por ela, damos golpes de Estado e dissolvemos congressos em nome da democracia. Mas quando tentamos entender de que se trata, não demora a ficar claro que transformamos essa palavra num grande vácuo, que designa pouco mais do que o fato de que eventualmente as pessoas saem de casa para deixar seu voto numa urna. Ao passo que os antigos textos de Platão fazem críticas até hoje tão pertinentes ao sistema democrático, que chegamos a balançar. Tendo escrito há 2300 anos, parece que seu discurso é sobre o processo político que sentimos na pele. Quem se dedica a essas leituras, portanto, não se contenta em matraquear os lugares-comuns de um amor à democracia que já justificou tantas ditaduras ao redor do mundo.

O mesmo vale para o rame-rame interminável que contrapõe razão e emoção. Ora, mas essa oposição nunca existiu! A razão, como componente da psique humana, simplesmente não há. Como diria Hume, se há alguma oposição, é entre emoções calmas e intempestivas, ponto final. O logos dos gregos e a ratio dos escolásticos, sabe quem leu, exprime a capacidade de formular suas impressões, seus pensamentos e, por que não, suas emoções, de forma encadeada, consequente, argumentada. Ou seja: racional, lógica. Mas imperfeita: mesmo essa razão discursiva está sujeita aos deslizes da linguagem e às confusões do pensamento. Não é uma faculdade do entendimento oposta à carga sensível. É um gênero de discurso. Mesmo assim, continuamos a opor o uso da razão a uma sujeição às emoções. Isso não faz o menor sentido, é um vício de linguagem.

É por isso que ainda há quem trema de alegria ao saber que foram encontrados novos trechos de obras antigas. É difícil precisar o quanto essas frases soltas em grego antigo enriquecem nossa visão do universo ainda hoje. Mas o fato é que enriquecem. Reconstruindo os mundos que se perderam, de alguma forma aprendemos sobre como mudamos e sobre como continuamos os mesmos. E conseguimos escapar a formas condicionadas de lidar com a realidade.

Li recentemente em algum canto que existem boas chances de voltarem a escavar a biblioteca da Villa dei Papiri em Herculano, a vizinha menos célebre, mas mais interessante, de Pompéia. No que já se investigou, foram encontradas as obras de Filodemo, um dos principais epicuristas de Roma. Mas ainda há três andares provavelmente apinhados de obras ancestrais, carbonizadas mas ainda legíveis. Como saber o que pode ser descoberto, ou seja, recuperado de um silêncio de vinte séculos? Os tratados exotéricos de Aristóteles? A segunda parte de sua Poética? Centenas de tragédias de Sófocles, Ésquilo e Agaton? O poema de Parmênides? Os tratados logográficos dos sofistas, aqueles pobres professores malhados pela filosofia posterior como Judas em sábado de aleluia? Depois das escavações de Herculano, talvez o cânone da sabedoria ocidental tenha de ser reescrito.

Quando garoto, uma de minhas fantasias era ser arqueólogo. Um pouco por influência de meus gostos cinematográficos, mas principalmente porque eu adorava decifrar códigos, sonhava desencavar monumentos, encontrar manuscritos, reconstituir obras de arte. Fui demovido da idéia pelo argumento de que não há mais nada a tirar do chão. Tudo já teria sido descoberto após as grandes expedições de outros tempos. Isso é falso, claro. Grande parte da humanidade ainda está escondida no subsolo. Recuperá-la, asseguro, não é interessante só para curadores de museus e aficionados em geral. Pode ser fundamental para recobrar nossa habilidade de olhar além do horizonte imediato.

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Panela de pressão apitando em desespero

Guerre
A Europa carrega nas costas o peso dos crimes da História; senão todos, pelo menos quase. Isto pode ser verificado em todas as catedrais e castelos, bulevares e cafés. A beleza das árvores no outono pode emocionar, mas sussurra constantemente no ouvido a memória do colonialismo, do fascismo e da Inquisição. O Louvre, além da Vênus e da Gioconda, ainda tem nas paredes, mesmo fenecidas, as manchas de sangue da noite de São Bartolomeu. O Duomo de Florença é no fundo um compêndio da ganância dos Medici, assim como a Praça de São Pedro reflete a história para lá de profana do papado. E o museu do Prado, para não esquecer a Península Ibérica, acima de todas as suas telas de Velásquez e El Greco tem penduradas as vítimas hereges e judaicas, como os espectros que rondam o Tiergarten de Berlim.

Mesmo os crimes cometidos na África, na América e na Ásia são reflexo da crueldade dos europeus, esses seres pálidos de terras frias e escuras, que venderam, geração após geração, suas almas em troca de ouro e glória. Os crimes dos americanos no México, no Caribe, na Coréia, no Vietnã, no Iraque, também ecoam, ainda hoje, a sede de sangue dos conquistadores europeus. É a ação do chamado Ocidente (um conceito obscuro capaz de incluir todos os habitantes de países ricos que não têm pele escura ou olho puxado).

Toda essa sanha destrutiva custou caro ao continente. Eles chegaram à beira do abismo mais de uma vez, a última delas há pouco mais de meio século. Perderam grande parte de sua riqueza, suas colônias, sua predominância internacional. Grã-Bretanha, França, Alemanha, Itália, Espanha, Suécia, Áustria, Portugal. Todos eles, países que chegaram a se considerar donos de um belo naco do mundo – ou de todo ele. Centros de cultura, comércio e poder. Todos submetidos ao jugo de sua ex-colônia norte-americana e, por algum tempo, a seu antigo patinho feio, a Rússia.

* * *

O que restou do banho de sangue foi um continente fascinante, pelo que tem de cruel e pelo que tem de admirável. Ao contrário do que disse o Otto Lara Resende (ou será que foi o Nelson Rodrigues, se fazendo passar pelo Otto? Isso acontecia…), não é uma burrice aparelhada de museus, mas o museu vivo das burrices e dos brilhantismos que nem sempre se distinguem claramente. É o continente que inventou o humanismo com as ferramentas do Terror e da retórica esnobe. Foi a primeira parte do planeta a romper aristocraticamente com a aristocracia, a disseminar tiranicamente os valores democráticos, a abrir a sociedade às mulheres, sem abrir mão do patriarcalismo. Neste rabicho da Eurásia surgiu a idéia de que todo indivíduo tem direito à educação: os ricos e os pobres, os brancos e os imigrantes; educados, os trabalhadores puderam render melhor nos momentos da espoliação. A Europa investiu mais do que ninguém em transporte de massa, que leva seus subjugados para subúrbios desumanos como os nossos – bom, talvez não como os nossos.

A amplitude das contradições chega a ser fantástica. Se for para comparar com o Brasil, eu diria que nossas contradições são mais comportadas, reproduzindo na ponta dominada uma imagem de tamanha incompatibilidade. Note-se a civilidade, e quão brutal essa civilidade pode ser: quando há um problema, e Deus sabe que há muitos, eles sentam, discutem e resolvem como der. Nem que isso envolva ameaças de aniquilação e fantasmas de guerras passadas. A cultura européia, com toda sua arrogância e xenofobia, e talvez até mesmo por causa dela, é mais aberta do que a nossa. Como pode? Apesar de uma infinidade de atitudes de segregação e desrespeito que se vêem quotidianamente nas ruas de Paris, ainda assim os franceses se dedicam a iniciativas de aproximação com outras culturas, religiões, civilizações, bem mais que os brasileiros.

No Brasil, quando se discute qualquer assunto, a comparação é inevitável: “no Brasil é X, na Europa (ou nos EUA), é Y”. Já o europeu discute assim: “Aqui X, no Egito é Y, em Madagascar, Z, no Japão W, no México…”. O mais notável é que na verdade eles estudam geografia mais ou menos como nós, mas não acham que seja perda de tempo. É um exercício pelo qual reafirmam para si próprios, e para os periféricos deste mundo, sua superioridade moral (já que a econômica e a bélica, não dá mais). Assim, absorvem aquilo que é útil para eles e elevam à categoria de descrição fiel do universo. É autoritário e, ao mesmo tempo, aberto.

Mesmo assim, parece que o momento atual está fazendo transbordar isso tudo. Devo dizer que estou assustado, sem querer soar sensacionalista. Há um ódio latente que é difícil não notar, e que tem justificado um desejo de retornar a narrativas bem mais fechadas (e tão autoritárias quanto). Aqui há olhares de desprezo, acolá de agressividade. De um lado há sobrenomes tradicionais da Provença ou de Champagne, do outro filhos do Maghreb e da Costa do Marfim. Houve por algum tempo uma ilusão de integração e assimilação que exala uma certa beleza. Por sinal, chegou a ser verdade alguns casos. Por exemplo, durante um curso da faculdade, estudantes de origem islâmica debatem com o professor no tom mais aberto e intelectualmente honesto possível.

Fora da sala de aula, isso não acontece dessa maneira. Os grupos islâmicos estão se tornando mais herméticos e muito se fala em ressentimento. Há famílias que recusam a entrada de médicos e bombeiros em seus enclaves, sentindo-os como se fossem imposição de um império colonial. Não admitem estudantes não-islâmicos em suas escolas, e chegam a expulsar famílias que colocam seus filhos em escolas públicas, e portanto laicas. Afastam-se de todo contato com o país em torno. A descrição é desagradável, mas o mais desagradável é perceber que por muito tempo não acontecia assim… e agora está acontecendo.

* * *

A explicação pode estar no lado inverso, e é por isso que ele me assusta mais. É mais ou menos normal que populações imigrantes procurem buscar segurança no próprio seio (claro, com um certo bom senso), principalmente quando são grupos excluídos socialmente e economicamente desfavorecidos. O que observo, porém, é um recrudescimento do ódio nos europeus, esses mesmos que há algumas gerações desenvolveram os conceitos de tolerância, humanismo, igualdade e assim por diante, pincelados acima. As comunidades muçulmanas se fecham sobre si próprias e os próprios europeus se fecham também, não só para os muçulmanos, mas para os próprios conceitos que formam o, digamos assim, lado mais admirável dessas contradições européias. Andam ressuscitando ideais de pureza e violência que se acreditavam sepultados e superados. A presença de um “outro”, na verdade um semi-outro, já que sua história é intimamente vinculada à história dos europeus nos últimos séculos, justifica a a firmação de uma identidade que também é mutilada e grosseira. Nada de bom pode sair daí.

Vê-se a tensão em cada canto, como uma panela de pressão que apita em desespero. Muçulmanas com véus tão apertados quanto possam, coloridos, de frente para moçoilas de mini-saia e maquiagem, que as encaram com ar de desdém. Rapazes de barba e pele escura olhando como quem quer briga para colegas pálidos que se barbeiam provavelmente duas vezes por dia, e não retornam o olhar de maneira menos agressiva. As posturas estão cada vez mais demarcadas, distantes, herméticas. Os cursos universitários de cultura islâmica têm pouquíssimos interessados, a grande maioria de estudantes muçulmanos, quase nenhum não-islâmicom querendo se aprofundar em outras formas de pensar e enxergar o mundo. Quando o provável próximo presidente chama uma parcela da população de escória, não é à toa. Não há diálogo, senão marginalmente, entre pessoas “de boa vontade” mas um pouco sonhadoras.

Não há como deixar de ver um certo risco de uma guerra civil, quiçá religiosa, na Europa. Nada, claro, como o que se passa no Brasil. Não é questão de ser assaltado na frente de um policial que finge nada ver. É algo um pouco mais, digamos, sério. Seria a concretização do “choque de civilizações” de Samuel Huntington? Talvez, mas o que se choca são, na verdade, vizinhos que têm o mesmo passaporte, votam nos mesmos candidatos, usam a mesma linha de metrô.

Os valores que salvaram o continente, infelizmente, não são tão fortes quanto chegaram a se afirmar (e não poderiam se firmar sem afirmar-se como tais, talvez até mesmo sabendo que era blefe). Não será de estranhar se esses antigos monumentos forem testemunhas de mais um banho de sangue. Talvez o que falte a esses valores seja nutrir-se da própria dialética e entender o quanto há de contraditório neles. Afinal, se havia o ideal de uma integração, que integração é essa que necessariamente apaga quem vem a se integrar? Se de fato a imigração enriquece a cultura que a recebe, qual é o nome que se dá a um enriquecimento que relega a subúrbios esquecidos a fonte dessa mesma riqueza?

Há uma falha trágica, pelo visto, na própria integração, e que vem completar as falhas dramáticas do integrismo dos brancos e do comunitarismo dos árabes. Muito de criação poderia passar no meio desses buracos, desses vórtices supersaturados de energia. Mas caminhando pela cidade e por alguns de seus subúrbios, conversando com jovens e velhos, franceses “de souche” e filhos de magrebinos, o termo que flutua por entre as frases, quando o interlocutor faz a pausa para retomar a respiração, é ressentimento, como o apito da panela de pressão.

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