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Peri ou Nascimento?

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“Não ambicionamos o prestígio de país conquistador e detestamos notoriamente as soluções violentas. Desejamos ser o povo mais brando e o mais comportado do mundo. Pugnamos constantemente pelos princípios tidos universalmente como os mais moderados e os mais racionais. (…) Tudo isso são feições bem características do nosso aparelhamento político, que se empenha em desarmar todas as expressões menos harmônicas de nossa sociedade, em negar toda espontaneidade nacional. O desequilíbrio singular que gera essa anomalia é patente (…).”

Sergio Buarque de Hollanda, Raízes do Brasil, capítulo 7: Nossa Revolução

“(…) São freqüentes, entre nós, os relapsos no furor selvagem, ou primitivo, de destruição, manifestando-se em assassinatos, saques, invasões de fazendas por cangaceiros: raro aquele dos nossos movimentos políticos ou cívicos em que não tenham ocorrido explosões desse furor recalcado ou comprimido em tempos normais.”

“É natural que na noção de propriedade como na de outros valores, morais e materiais, inclusive o da vida humana, seja ainda o Brasil um campo de conflito entre antagonismos os mais violentos. No tocante à propriedade, para nos fixarmos nesse ponto, entre o comunismo do ameríndio e a noção de propriedade privada do europeu. Entre o descendente do índio comunista, quase sem noção de posse individual, e o descendente do português particularista que até princípios do século XIX viveu, entre alarmes de corsários e ladrões, a enterrar dinheiro em botija, a esconder bens e valores em subterrâneos, a cercar-se de muros de pedra e estes, ainda por cima, ouriçados de cacos de vidro contra os gatunos.”

Gilberto Freyre, Casa Grande e Senzala

“Transformaram a ilha das Cobras num montão de ruínas, juncada de cadáveres. O governo matou legiões de marinheiros anistiados.”

Edmar Morel, A Revolta da Chibata

A válvula

Escrevo em um momento em que, no plano da grande política, o clima vai esfriando, enquanto a política quotidiana tenta formar seus modos de ação e decisão. Sintomas de esfriamento são: o Congresso perdeu o impulso de aprovar correndo algumas demandas mais fáceis vindas das ruas; a história da reforma política caiu num impasse que, pensando bem, merecia um comentário por si próprio; e o caso dos médicos estrangeiros tomou uma proporção maior do que merecia, dada a dimensão da energia liberada pelo confronto nas ruas. Nas ruas, pouco a pouco, experimentam-se as tentativas de formular um espaço comum entre as formas de mobilização tradicionais e as ainda incipientes; é assim que vejo, por exemplo, a greve de hoje, que acontece em paralelo a uma série de outros encontros e protestos: pela democratização da mídia, pela abertura das planilhas do transporte e assim por diante. Apesar do esfriamento na política oficial, o jogo da política, no campo molecular, mudou um pouco no Brasil. Idéias fervilham e desejos afloram. Organizações de todos os tipos se reúnem para discutir eventuais próximos passos. Um encontro desses, por exemplo, voltado à cultura, teve lugar no Teatro Oficina na segunda-feira. No mínimo, serviu para expor que a vontade de propor, de agir e de continuar construindo uma vida em conjunto jamais deixou de existir. A grande pergunta que sai de encontros como esse é: onde se pode avançar de fato?

Pessoalmente, eu diria que, de todos os temas e reivindicações que explodiram no espaço público no mês passado, o mais fértil para realmente produzir mudanças duradouras nos problemas do Brasil seja a questão da violência policial. Arrisco uma afirmação: se conseguirmos, de alguma maneira, romper um ciclo de violência e repressão totalmente fora de escala e desvinculado de qualquer legitimidade que não seja a mais brutal guerra de todos contra todos, em seguida, como numa reação em cadeia, obteremos ganhos no modo de operação de todas as demais áreas aventadas.

Espero conseguir argumentar aí abaixo duas coisas. A primeira: que a brutalidade policial é hoje, no Brasil (e cada vez mais no mundo) o óleo lubrificante que mantém “o sistema” funcionando da maneira como funciona: muito mal. Uso aqui “o sistema” no mesmo sentido em que ele aparece no primeiro filme Tropa de Elite. Foi muito interessante ver o sucesso que fez o Capitão Nascimento: com toda sua incorruptibilidade, Nascimento e seu Bope eram a válvula de escape das grandes falhas de um sistema corrompido, capaz de estourar em qualquer canto. E por que não estourava? Porque lá estava a eclusa de farda negra, o chocalho da panela de pressão do Brasil moderno, a garantia de que todos poderão se locupletar ao mesmo tempo, ainda que ao preço de experimentar um medo constante e abstrato. Honesto até a medula, o capitão Nascimento é a alegoria de um deus ex machina que garanta a cada um de nós a certeza de poder ser corrupto indefinidamente.

Acontece que não basta apontar o dedo para a polícia, declará-la violenta, deplorar seus excessos, seus assassinatos, seu relacionamento íntimo com as organizações criminosas que eventualmente enfrente por regulação ou por poder, o terror constante que impõe à população periférica… da qual colhe seus próprios praças. A segunda coisa que quero argumentar é: a violência policial é o ponto de convergência, uma espécie de nexo, ou, para usar um termo caro aos estatísticos, uma “proxy” da violência que é constitutiva do modo de vida brasileiro. Ou seja, a polícia é brutal porque o Brasil é brutal, e para que o Brasil seja brutal sem maiores sobressaltos. A brutalidade, a corrupção, a dominação, o latifúndio, se mantêm graças a diversos fatores, dentre os quais os exageros da polícia têm um papel axial. Resumindo, conquistar uma polícia que não seja brutal é a chave para conquistar um Brasil que não seja brutal, nem corrupto, nem ineficiente.

Isso não vem de hoje e se manifesta de maneiras muito diferentes, até mesmo desconexas. Talvez seja forçar demais a barra fazer um paralelo entre a polícia atual e os capitães do mato da escravidão, talvez seja até um exagero lembrar da traição aos marinheiros na Revolta da Chibata, talvez não faça o menor sentido tratar no mesmo pé da Guerra de Canudos, da Revolta da Vacina, das remoções de Pereira Passos, dos grupos de extermínio da ditadura, das cadeias superlotadas, dos hospitais em frangalhos, dos deslizamentos de terra, do trânsito que tanto mata. Mas é para isso que servem os argumentos: para mostrar que essa conexão, se não é direta e evidente, é certamente real.

Síndrome de Mariz

Tudo gira em torno do fato de que o Brasil dotado de voz vive enclausurado naquilo que poderíamos chamar de “síndrome de D. Antonio de Mariz”. O dito Antônio é personagem de José de Alencar em O Guarani, baseado em alguém que existiu de fato no século XVI. Vive recluso em sua propriedade perdida no meio do mato, cercado por choupanas de “aventureiros” que lhe prestam estranhos serviços e vivem de seu favor. Sua grande fonte de alegria é a família: a fiel Dona Lauriana, “imbuída de todos os prejuízos de fidalguia e de todas as abusões religiosas daquele tempo”, a filha Cecília, reclusa, pura, diáfana, e o filho Diogo, seu bravo sucessor. Vive a lamentar que não possa exibir essa família, sustentáculo da sociedade luso-brasileira, nas cortes de Lisboa, tomadas pela União Ibérica, que não aceita. É fiel à coroa e à família, e só. Vive morto de medo dos aimorés hostis que cercam sua propriedade, construída ali na terra deles, agora consagrada a deuses distantes. A família vive no equilíbrio improvável e instável entre os bandeirantes que passam, os aventureiros que ficam, dos aimorés que possam atravessar o Paquequer (um rubicão tropical) para destroçá-los, quiçá devorá-los, e a ilusão de uma nobreza no meio dos quatis e jaqueiras.

Só a estranha figura onírica de um índio quinta-coluna, porém heróico, motivado por uma paixão idealizada pela filha do patriarca, garante a sobrevivência da ilusão de que esse equilíbrio possa durar. O patriarca não teme os aventureiros e até mesmo os admira, ainda que seja evidente um desfecho em que eles tentem saquear sua casa e violar sua filha. Numa explosão ensandecida de violência basal, a salvação, o êxtase mesmo, está na absorção da figura onírica de Peri (“o guarani”, na verdade um goitacaz), que se converte, aceita ser o receptáculo da colonização, se entrega ao patriarca, se dedica à Ceci de casta pura, se purifica ele mesmo pela exposição à tempestade, pela força bruta que subjuga a natureza, e realiza o sonho da conquista da Terra em que o selvagem, ainda viril, mas tendo incorporado os valores do conquistador, envereda pela terra e funda uma raça mestiça espelhada no distante continente triunfal. Esse delírio de violências e fusões está incrustado na mente do brasileiro, esse irrecuperável Mariz…

A família como núcleo puro de resistência contra um ambiente hostil, por selvagem, ou arriscado, por ausência de lei. A relação promíscua com intermediários violentos e armados, dependentes mas sempre aptos à rebelião. O olho sempre atento às idas e vindas da metrópole distante e idealizada. A mística de uma síntese racial etnocêntrica em que as hierarquias sejam perfeitamente preservadas. Eis a “síndrome de D. Antonio de Mariz” que nos acomete a todos.

As mortes banalizadas

Gosto de lembrar também de um conto de Lima Barreto que, no plano literário, está longe de ser de seus melhores, mas como expressão de um modo de vida, é irresistível, por revelador. Chama-se “Despesa filantrópica” e trata de um homem que, vivendo no interior, recebe a visita de “um dos mais famosos assassinos do lugar”, “o tipo acabado do interior do Brasil”. O lugar em questão era um “daqueles lugares bravios, onde a coragem pessoal, mesmo certa jactância, é indispensável”.

No conto, o interlocutor sem nome pergunta ao narrador:

“ – Qual é o traço característico [desse tipo acabado do interior do Brasil]?

– É a futilidade dos móveis do crime e a capacidade de matar a mandado de outrem. (…) a mais simples rixa por causa de uma questão de compra e venda leva um sujeito ao assassinato. Uma frase assim, assim, (…) determina que o Fagundes mate Orestes.”

Em seguida, o narrador conta o caso de um sujeito que, enganado pela mulher, parte para matá-la em outro canto. Depois, volta ao vilarejo, “espalha a ‘boa nova’ do que fizera; publica, no jornal local, o seu retrato e o da mulher, a peso de dinheiro; e espera tranqüilamente a ação da justiça.” E prossegue: “O caipira, o matuto, o Jeca, como se diz atualmente depois de Monteiro Lobato, mata mais por vaidade do que mesmo por vingança, crueldade ou por tara. De forma que ser valentão, matador, é lá um título de honra e os assassinatos cometidos são como condecorações de ordens reais e imperiais. Sendo assim, nada mais fácil do que achar quem aceite encomendas de ‘mortes’.”

O narrador conta da visita que recebeu, em que o matador se gaba dos crimes de sua lavra: “Falava com a calma mais natural deste mundo, empregando os mais lindos modismos do dialeto caipira.” Consternado, o bom narrador, crendo-se livre da “síndrome de D. Antonio de Mariz”, oferece de comprar o revólver ao matador local. O negócio é feito, mas eis que o homem volta em poucas horas, carregando um rifle que lhe custou menos ainda do que ganhara pela arma. Nosso Mariz involuntário promovera o lucro do assassino. Já ali, “o sistema” se alimenta de quem fica horrorizado com ele e clama pela paz numa terra em que condição nenhuma promove a paz. Já ali, não pode dispensar os incorruptíveis capitães Nascimento da vez. Mais do que denunciar a violência do campo brasileiro, nosso autor genial denuncia a ingenuidade de quem, talvez não tão ingenuamente, talvez um tanto cinicamente, queira localizar, individualizar um traço sistêmico.

Lima Barreto fala de uma violência arbitrária, banal, até mesmo requisitada e bem considerada no plano social. Algo que persiste no campo brasileiro, onde os matadores “free-lancer” e os capangas contratados ainda são “tipos acabados” do Brasil. Mas Lima não menciona o lado urbano dessa realidade. Não me lembro de algum conto em que ele trate disso diretamente, embora trate freqüentemente de uma ou outra forma da violência quotidiana da cidade brasileira. E isso, muito embora fosse um suburbano que escreveu na era do malandro de navalha, “o rei da ralé”, Madame Satã que mata Geraldo Pereira, que briga em bando com a polícia. Falando nela, é aquela polícia que, por sua vez, eventualmente faz a limpa na Lapa, ou obriga a população a tomar uma vacina, “para o seu bem”, ajuda a remover cortiços para a abertura da Avenida Central, belíssima e européia… Mas se não encontramos nada disso em Lima, encontramos em Aluísio Azevedo, em dezenas de sambas, em crônicas policiais, na entrevista de um Madame Satã já idoso ao Pasquim, décadas mais tarde.

Talvez um terceiro argumento, à guisa de conclusão e tentando imprimir um tom mais otimista ao texto como um todo, venha a ser o seguinte: parece que, enfim, “o sistema” está se deslocando. É demais imaginar que desta vez os Peris convertam Marizes, mas o contrário já deixou de ser condição necessária. Até o Capitão Nascimento, ele mesmo um Peri com caveirão e boina, acabou se dando conta de seu papel na corrupção generalizada. Isso foi no segundo Tropa de Elite e ficou pela metade. Pelo menos na ficção, a velha fórmula de resolver tudo na porrada, em que o mais forte sempre leva a melhor, para depois converter o mais fraco a sua filosofia, ao ponto de contratá-lo como leão-de-chácara fardado e sem tarja de identificação, está enfrentando dificuldades.

Na vida real, é bem verdade que as Secretarias de Segurança Pública de todo o país e até mesmo nosso mal escolhido ministro da Justiça continuam fomentando a lógica da polícia como válvula de escape para um sistema inerentemente instável e volátil. Grande parte da população também segue na mesma linha, aplaudindo helicóptero da polícia que metralha áreas residenciais. Pura “síndrome de D. Antonio de Mariz”. Mas quando um massacre na Maré enfrenta um categórico não dos moradores, quando a Zona Sul e a Zona Norte se sublevam ao mesmo tempo, quando o extremo Oeste da Zona Oeste do Rio, Santa Cruz, se manifesta também para pedir participação na cidade – para pedir o direito à cidade –, tenho a impressão de que alguns espaços estão sendo transformados, algumas barreiras estão sendo levantadas. Isso me enche de esperança. Esperança, sobretudo, de que essa instituição reguladora da violência incrustada no quotidiano brasileiro seja também a primeira a se transformar profundamente.

Acredito que, sem seu modo interno de regulação, como é a polícia de excessos violentos e linguagem bélica, “o sistema” entre num processo de reorganização completa, um verdadeiro efeito-cascata, começando por outras formas de violência com as quais já nos acostumamos. Acredito que as conseqüências poderão ser enxergadas em muitas áreas, inclusive todas aquelas demandadas pelas manifestações de junho, à esquerda, ao centro e à direita.

Efeito-cascata?

Mas que áreas são essas? Na origem desse período breve mas interessantíssimo de manifestações, todos se lembram, encontramos a reivindicação da mobilidade urbana, seja pelos “vinte centavos” já inscritos na pedra, seja pela idéia da tarifa zero. É bem verdade que, mais profundamente, existe aí uma questão de direito à cidade, de potência de circulação, de promoção dos encontros e da força humana de maneira mais ampla. A imagem da tarifa de ônibus cristaliza essa demanda por um direito à cidade que nunca houve de fato no Brasil.

Essa demanda, por sua vez, é a manifestação urbana de um desejo íntimo pelo direito ao território, que também vibra nos muitos interiores, cada qual à sua maneira. A cidade é a idéia acabada do núcleo político, onde se constróem as ágoras, os monumentos, as barricadas, as muralhas. Não é à toda que palavras como “política” e “cidadão” venham ambas da palavra “cidade”, em suas raízes respectivamente grega e latina. Já “economia” é um termo derivado da grande propriedade rural, é a gestão desse “oikos” onde, dizia Aristóteles, marido e mulher distribuem entre si a tarefa da gestão da terra, da família e dos escravos. Mas não estamos na Antiguidade, estamos na era industrial, que cunhou em seu nascedouro a expressão “economia política”. Em outras era, essa expressão teria sido um oximoro, mas hoje podemos tratar como paradoxo, ou seja, como campo de disputa e de produção. Em outras palavras, como… economia política. Caso contrário, esvaziada a disputa, caímos numa mera… política econômica, onde variáveis são administradas em gabinetes como outrora o “oikos” era administrado pelo patriarca e sua esposa. No nosso caso, por sinal, por ninguém menos que D. Antonio de Mariz.

Somando tudo isso, temos uma luta por espaços na constante produção de um Brasil, com seus fragmentos de classes, seus estamentos anacrônicos, seus tipos emergentes sempre novos. Uma vibração de pura topologia, enfim, que perpassa 500 anos de ocupação do subcontinente pautada pela exploração de curto prazo e a concentração tanto fundiária quanto de mercado (remeto aqui ao título de um livro recente de Francisco Weffort: Espada, Cobiça e Fé). Mas também concentração de poder… poder decisório, poder discricionário, poder físico. E sempre cabe lembrar que o termo alemão para “violência”, “Gewalt”, tem em sua raiz o poder de mandar (“walten”), pura e simplesmente, algo que o líder político brasileiro, comandante de jagunços ou de tropas – militares, policiais ou policial-militares –, conhece bem.

Depois que a mobilização extrapolou os limites do transporte público, incorporou os, digamos assim, “grandes temas”, começando pela a saúde e a educação, até chegar no tema mais amplo de todos: a corrupção. Digo que a corrupção é o tema mais amplo de todos porque pode tanto ser usada para falar de uma falha sistêmica em todos os níveis quanto como combustível em disputas partidárias. E ainda pode ser usada para esvaziar qualquer demanda concreta, quando a corrupção é atribuída a tal ou tal político ou, pior ainda, “a esses políticos que nós temos”. Ora, o político sendo pouco mais do que um gestor da política e da economia, vetor de interesses ou de demandas, não há nada mais anódino do que deplorar a corrupção do político em geral. Que eventualmente expulsem os políticos da cidade: teremos um caso quase literal de bode expiatório, aquele que absorve a percepção de falha sistêmica da cidade, poderíamos até dizer de culpa, e é expulso, sacrificado, imolado. Tudo isso para que a cidade, ou a sociedade, possa voltar a seu quotidiano… Enquanto os aimorés estão distantes e os “aventureiros” estão a serviço, D. Antonio de Mariz pode dominar a Serra dos Órgãos sem impedimentos.

Se quisermos chegar a algum lugar em relação à corrupção, teremos de cortar na própria carne e sair da síndrome de Mariz. A corrupção tem de ser tratada em seu sentido mais originário: a corrupção é aquilo que leva à morte ou à doença de um organismo, de um sistema, de uma coletividade. “Um bando de ladrões dominando o Congresso” é só um sintoma de que um sistema está corrompido; ou, melhor dizendo, uma engrenagem do mecanismo da corrupção. Um sistema é corrupto quando, institucionalmente, ele produz a exclusão, o sectarismo, a destruição física e psíquica da terra e da gente, e consegue se manter assim sem entrar em colapso. Afinal, e isso é importantíssimo, se houver colapso, o sistema desaparece e deve ser substituído por outro, ou seja, por um estado pré-político, fundador da política, onde tudo pode acontecer. Mas, independentemente do resultado, já não se trata mais rigorosamente do mesmo sistema.

A partir da necessidade de manter-se apesar de todos os desequilíbrios e de todas as pressões que poderiam levar ao colapso, surge a urgência de uma válvula de escape, de um chocalho como o das panelas de pressão, de uma eclusa. Já não se trata mais da questão de uma violência que funda o poder, como diria Benjamin: trata-se da violência que mantém o poder, que o reproduz e absorve para dentro de si a instabilidade inerente ao sistema. É a violência do quotidiano do Brasil em geral e a violência da polícia em particular. No geral, é o assassino de Lima Barreto, gentil ao visitar o “dotô” segundo o protocolo, mas plenamente disposto a matá-lo por uma soma qualquer. No particular, é o capitão Nascimento: na prática, um “aventureiro” que cerca D. Antonio de Mariz e está enganosamente a seu serviço; na fantasia, o Peri convertido, heróico, viril, disposto a sacrificar-se por Ceci sem tomar seu corpo.

O contexto atual

Quero terminar com um pouco menos de abstração literária e um pouco mais de concretude e modernidade. Deixo de lado Lima Barreto e José de Alencar para citar Sergio Adorno, do Núcleo de Estudos da Violência, na USP. Num ensaio de nome “Violência e Crime: sob o Domínio do Medo na Sociedade Brasileira”, o sociólogo escreve vários trechos que merecem ser citados diretamente. Adorno lembra que desde a colônia “a violência esteve incorporada ao quotidiano dos homens escravos e livres” e, da colônia à República, “a violência desmedida foi utilizada habitualmente na repressão a movimentos sociais contestatórios, como as revoltas regionais, em especial contra o movimento operário nascente no final do século XIX”.

Em seguida, ele menciona a violência atroz da República da Espada e das outras duas ditaduras que tivemos, no século XX. E diz: “Muitos acreditavam que a reconstrução da democracia conduziria inevitavelmente à pacificação da sociedade. Mas não foi o que aconteceu”. Em vez disso, “surpreendentemente, após o retorno (…) ao Estado de Direito, explodem conflitos de diversa natureza: crescimento dos crimes, (…) graves violações de direitos humanos e conflitos com desfechos fatais nas relações interpessoais”. (Aqui, lembro daquela curiosa campanha, alguns meses atrás, para que as pessoas em São Paulo “respirassem fundo” antes de tomar uma atitude violenta como balear um vizinho…) Mais à frente, lemos: “Compõe ainda esse cenário de violência a explosão de conflitos nas relações interpessoais e intersubjetivas, que nada parecem ter em comum com a criminalidade quotidiana.”

Segue Adorno: “A resposta do Estado tem sido caracterizada por ambivalência, ora legislando e apostando em políticas do tipo ‘mão dura’ ou tolerância zero, ora em políticas ‘liberais’ e inscritas no território dos direitos humanos (…)”. Talvez para responder àqueles insensatos que afirmam que na época da ditadura o Brasil não tinha violência, ele escreve: “Os estudos revelavam o crescimento, desde fins da década de 1970, de quase todas as modalidades de crimes contra o patrimônio e contra a vida. Aumentavam em volume e intensidade os chamados crimes violentos, aqueles que ameaçam a integridade física das pessoas, como roubos, estupros, extorsão mediante seqüestro e homicídios”.

Mencionando a ação dos justiceiros (como o de Lima Barreto), grupos de extermínio, esquadrões da morte e linchamentos, Adorno aponta o paradoxo de que “os avanços da democracia corriam paralelos a graves violações de direitos humanos”. E “contra esses cenários de violência, policiais, não raro estimulados pela formação adquirida nas agências de polícia, recorreram ao uso abusivo da força”. Tudo isso lembrando que “o crime segue a rota da riqueza e não da pobreza, como muitas vezes se acreditou.”

A dupla face do problema do tráfico de drogas também é expresso no ensaio: enquanto o crime organizado se imiscui nas classes populares, “o envolvimento da classe média e mesmo de elevados estratos socioeconômicos nas atividades conexas, como lavagem de dinheiro, fraudes bancárias, corrupção de autoridades e governantes, tem se tornado recorrente. Esse quadro se completa com as conexões entre mercados ilegais e mercado político, das quais resultam financiamento também ilegal de campanhas políticas, corrupção de autoridades e enriquecimento ilícito”.

Aqui chegamos ao grande nó da violência, em que a segregação territorial e social se torna indistinguível da corrupção do sistema, e onde o policial violento e militarizado tem atuação destacada: a polícia custa a reconhecer “a necessidade de reforma institucional, seja em suas práticas de policiamento repressivo e preventivo, seja nas técnicas de investigação policial, assim como nas suas formas de recrutamento e formação profissional de seus quadros”, de tal maneira que os policiais, incorporando a lógica da válvula reguladora do sistema, crêem que o “controle do crime e da violência é de exclusiva competência das autoridades policiais”, ignorando que “segurança pública é, cada vez mais, objeto de planos de ação que envolvem não apenas conhecimento especializado, mas também parcerias entre governos e organizações da sociedade civil”.

Com grande clarividência, Adorno encerra dizendo que “não é estranho que a violência tenha se apropriado do quotidiano dos cidadãos e cidadãs brasileiros. Por um lado, intensificou o sentimento de medo e insegurança coletivos, (…) de que os mais fortes podem impor sua vontade sob ameaça do uso da força”. E a afirmação mais significativa: “a violência paradoxalmente institui linguagens, representações de mundo que parecem ordenar e hierarquizar relações e atribuir sentido ao inevitável: as mortes, os ilegalismos, a arbitrariedade das autoridades no controle social”.

Esse cenário descrito no texto de Sergio Adorno é o que sonho ver atingido pela recusa veemente à violência policial. Se conseguirmos chegar a um ponto em que entendamos como inaceitável o uso da pancada como solução para qualquer mísero incômodo que atravesse nosso caminho, (talvez a gente passarinho, diria Mario Quintana), estaremos no trampolim para irmos bem mais longe como sociedade. Se esse processo começar pela atuação da polícia – e da Força Nacional de Segurança, claro –, tanto melhor. Os símbolos sempre funcionaram como indutores para a prática e é por isso que sempre coalharam os espaços públicos (e os privados também).

O inciso XI do artigo 7 da Constituição Federal diz claramente que a casa de todo cidadão é inviolável e só pode ser penetrada com ordem judicial. Hoje, a polícia invade casas nas periferias e favelas sem hesitar, rasga móveis para procurar drogas e deixa muitos hematomas ao partir. São forças da ordem agindo na contramão da Constituição, portanto na contramão da lei, na contramão de qualquer ordem que alguém ousaria chamar de civilizada. Mas um dia a casa invadida pode ser a de algum D. Antonio. Nem que seja só um sustinho: gás lacrimogêneo no Leblon. A este ponto, as alternativas estão dadas: recorrer a fantasia de uma síntese hierárquica com Peri, o fantasmagórico herói indígena, ou pular para fora da síndrome de D. Antonio de Mariz.

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21 comentários sobre “Peri ou Nascimento?

  1. Bruno Alvaro disse:

    O meu comentário aqui não tratará de “confeitar” teu ótimo texto. O texto é bom e isso é fato. Mas de reafirmar que ele me questionar (e tuas indagações, argumentos, etc., me alcançaram nisso) o quanto estamos num momento preocupante da nossa sociedade e que poucos têm atentado para isso.

    Abraço e esse texto não dá para ler sem olhar o que está a nossa volta, meu amigo!

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  2. Vinícius de Melo Justo disse:

    Nada a acrescentar a esse ótimo texto, que quase me faz reler O Guarani (!!!), exceto duas coisas:

    1) A citação a “passarinho” não é de Bandeira, mas de Mario Quintana.

    2) Quando marcaremos aquela cerveja esperta, hein?

    Parabéns pelas reflexões, como sempre.

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    • Diego Viana disse:

      Obrigado, mestre. Vou corrigir já. Sempre misturo os autores…

      Quanto à cerveja, você que é o agitador do Twitter… hehehe. Este fim-de-semana devo estar livre.

      Abs

      PS: acho que você tem coisa melhor pra ler!

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      • Vinícius de Melo Justo disse:

        Pois é, tenho, mas sempre li O Guarani (quer dizer, relembrei do que li, há mais de 12 anos não pego esse livro) pelo prisma da atualização romântica brasileira do mito do bom selvagem. O pano de fundo me parecia por demais opaco para servir a uma interpretação, e você me revelou errado.

        Mas o Lima Barreto deve ser mais interessante mesmo. Esse conto citado me lembrou muito o Guimarães Rosa do Primeiras Estórias, em especial o conto Famigerado (que você deve conhecer).

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        • Diego Viana disse:

          É parecido mesmo. Não lembrava desse conto… Gostei da parte em que o pistoleiro diz que não gosta lidar com esse pessoal de governo…

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  3. Lima disse:

    Acerca do Lima Barreto, ele escreveu sobre a Revolta da Vacina em seu Diário Íntimo e também mascarado sob o nome de Revolta dos Sapatos no Isaías Caminha. Segue um estudo interessante: http://ow.ly/mVmGN

    E para não passar batido, muito bacana o blog, que tomei conhecimento apenas por agora. Passarei a acompanhar!

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      • Duda Maia disse:

        Bom dia Diego, meu nome é Duda Maia sou bailarina e venho trabalhando no Rio há alguns anos com espetáculos teatrais na função de Direção de Movimento.
        Desde 2010 eu coordeno um curso em Angra dos Reis chamado Atelier de Preparação de Atores da FITA, que está vinculado ao festival de teatro que acontece todos os anos na cidade.
        Este curso é dado apenas para os moradores de Angra, atores ou não, fazemos sempre uma seleção para compor as turmas. Este é um projeto do João Carlos Rabello, diretor da FITA, que sempre teve o desejo de usar o teatro para melhorar a educação em Angra.
        O projeto tem patrocínio, geralmente do governo ou da própria prefeitura e para os alunos é totalmente gratuito, inclusive todo o material didático.
        Como vc sabe, fora as mansões, ilhas, iates e hoteis de luxo; Angra é uma cidade extremamente pobre, mas realmente com jovens sedentos por estudo.
        Quando o João me chamou pra elaborar e coordenar o curso pensei em um formato de aula onde houvesse a integração das matérias, tento sempre fazer uma ponte entre as aulas, levantando discussões com os alunos e criando uma sequência de trabalho que aumente o grau de dificuldade das aulas. Desta forma, sempre conseguimos fazer um curso que não seja um modelo de curso fragmentado.
        Em 2010, fizemos um curso de dois meses com o intuito de preparar estes jovens atores para algumas audições de espetáculos que teriam sua estreia na FITA, o mote foi O Ator Criador, onde todos os alunos estimulavam os atores a pensar não só como intérprete, mas como aquele que traz a ideia.
        Em 2011, o curso teve 04 meses e focamos na qualificação da linguagem. Percebemos a dificuldade que cada um tinha em falar e escrever e a ideia foi despertar no aluno o interesse pela sonoridade e pela leitura, gostar da lingua portuguesa. Dividimos o curso em 03 módulos, Preparação ( com aulas de corpo, voz, improvisação, história do teatro e construção de roteiro. Interpretação – com aulas de teatro e Direção, onde diretores fizeram breves experiências com textos curtos, dirigindo a turma em pequenos grupos e levantando discussões.
        Este ano o mote é a formação de plateia, estimulando uma informação que gere ação. Faremos um primeiro módulo com aulas focando na ideia de observação, um segundo durante o festival onde os alunos tem que assistir algumas peças escolhidas por mim, depois participar de um debate com atores ou com o diretor da peça e na sequência fazer comigo um trabalho prático ou teórico que faça alguma ponte com o que foi discutido e observado. No ultimo módulo, pós festival, chegarão os professores de interpretação que irão trabalhar em cima de questões que foram apontadas durante os dois módulos anteriores.
        Bom, escrevi um tratado para te falar que tenho pensado muito sobre tudo que está acontecendo aqui no Brasil, tenho ido a algumas manifestações, lido mais sobre isso do que costumava ler e vejo o quanto ainda preciso estudar. No meio disso tudo fico pensando como Angra é uma cidade governada por políticos que sempre roubaram e como tem tanto dinheiro, sinto que as pessoas querem melhorar a cidade e não sabem o que fazer, porque são ignorantes em termos políticos, escolhem mal quando votam, conhecem pouco a história política do país.
        Tenho lido seus artigos que me fazem pensar diariamente e por causa deles e de tudo que está acontecendo fiquei com vontade de ter uma pessoa no curso este ano que falasse um pouco desse momento com os alunos, situasse historicamente, fizesse uma reflexão sobre o poder do voto, se possível algum paralelo com o papel político da Arte, talvez mostrando um filme e debatendo, não sei ainda, tudo está confuso na minha cabeça. Mas o que sei é que eu não sou militante, sou artista, eu não teria capacidade de me colocar de forma clara em nenhuma dessas reuniões políticas, mas penso que talvez, meu papel seja aproveitar que terei 50 pessoas na mão, com vontade de aprender e discutir, pessoas que saem da sala e tem influência sobre outras pessoas, pois muitas são professores, diretores, etc. Pessoas que podem entender que assistir a um espetáculo de forma mais crítica saindo da ignorância, pode ser um caminho para uma atitude política mais consciente.
        Diego, eu não te conheço, é muito intuitivo, mas precisava te falar que pensei em você para este encontro. Sei que você mora fora, mas gostaria de saber um pouco do que você acha desta ideia, se você gostaria de participar, se por acaso você estará no Brasil em setembro. Ou se você pensa em alguém que poderia ter este encontro com esses alunos, são quatro dias de encontro de quinta a domingo. Duas turmas de 25 alunos cada, cada turma tem 03 horas de aula por dia.
        Fica o convite e a vontade de ter algum retorno seu,
        obrigada,
        um abraço,
        Duda Maia

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