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O brasileiro chocado

Desembarco em Guarulhos como se apenas para ouvir uma mesma pergunta, da boca de jovens e velhos, altos e baixos, gordos e magros: querem todos saber se estou “chocado” com “as coisas do Brasil”. Todas essas pessoas partem do pressuposto de que, morando fora do país, em poucos anos perdemos de vista “a nossa incivilidade” ou “o quanto somos bárbaros”. Em outras palavras, acredita-se que o exilado se esquece de caminhar aterrorizado pelas ruas, de não confiar em que os carros parem, como se espera deles, nos sinais vermelhos, e assim por diante.

Reconheço que algo assim possa acontecer a alguém ao cabo de muito tempo no exterior. Algo como vinte anos, como no caso do protagonista daquele que considero um dos melhores filmes brasileiros da última década, embora pouquíssimo aplaudido: O Príncipe (2002, Ugo Giorgetti). Mas três anos e meio é muito pouco para tanto choque. Sei muito bem que temos assaltos e golpes, atropelamentos e deslizamentos de encostas. Por outro lado, também sei que muito brasileiro esnobe vai passar um período fora, brevíssimo, em intercâmbio, por exemplo, e isso já basta para que volte “chocado” com o Brasil. Solução: não leve a sério esse tipo. Quem realmente esteve fora por longas temporadas, quando chega sente mesmo é vontade de comer picanha e tomar cerveja gelada. Só vai pensar em choques muito tempo depois.

Mas tenho uma dica ao companheiro de exílio, você que vem passar umas férias com a família no Brasil, você que ainda não veio visitar os amigos. Vamos a ela: jamais dê de ombros a essa pergunta fatal. Nem ouse argumentar que nossa incivilidade também não é tanta e existe, em grau menor, maior ou igual (pouco importa) em todo canto, à exceção, talvez, da Suécia. Evite a todo custo exibir otimismo com o país. Se tiver o instinto de avaliar que há menos gente dormindo na rua, por exemplo, engula as palavras. Se há uma coisa que não mudou no Brasil, ou melhor, no brasileiro, e está longe de ser um choque para mim, é a exigência frenética, doentia, de consenso. Talvez seja fruto do nosso infame e gravíssimo quase-monopólio de mídia, sei lá eu. Mas é incrível e, cá entre nós, um tanto perturbador.

Uma das cláusulas desse consenso pressuposto e compulsório diz que não há nada mais irrecuperável e estragado do que nosso belo e melancólico país. Se a economia cresce, é uma sorte que já vai passar (ouvi isso tantas vezes, desde que cheguei!). Aliás, para muitos, não é sorte do país, mas do partido que está no poder, o que me soa bastante insólito. Se vamos sediar uma Copa do Mundo, é porque houve acordos inconfessáveis de bastidores, como se o lobby fosse invenção brasileira (antes fosse). O negativismo é de rigor, e ai de quem destoe! Portanto, amigo exilado, simule indignação e concorde, se não quiser perder os amigos e o couro.

A negatividade é mais grave, creio eu, no Rio de Janeiro, que foi cidade realmente maravilhosa e vive há trinta anos sob o domínio da decadência e da desfaçatez. O resultado, potencializado por um monopólio de mídia que há muito já passou do quase, é um povo que deseja ardentemente o derrotismo, a humilhação, a vergonha. É uma espécie de síndrome de Estocolmo auto-aplicada. O carioca está tão convencido de que só é possível vencer por meio de maracutaias que, quando surge um triunfo limpo, ele é logo assoberbado por despeito e sabotagem. Já é consenso que a Olimpíada será um fracasso, por exemplo, embora seu sucesso dependa apenas de uma breve concentração de esforços, leia-se boa vontade, isto é, força de vontade.

Estou escaldado. Fui dizer que o astral das pessoas nas ruas parecia melhor e já ouvi que provavelmente tinha visto bêbados. Fui dizer que as ruas pareciam mais limpas e ouvi que era para enganar turistas. Fui dizer que havia menos mendigos e ouvi que eles tinham mudado de área, sei lá com que intenção. A infelicidade, neste país e, particularmente, nesta cidade, se tornou tão obrigatória quanto a vistoria de veículos. Isso seria chocante, se eu já não estivesse careca de saber. Eu e minha mania de querer discordar dos outros! Devo ter perdido muitas amizades assim, de gente que hoje talvez me considere meio amalucado.

Mas já que o tema é choque, há uma coisa, sim, que me chocou. Trata-se da rádio USP, de São Paulo (naturalmente), FM 93,7. Era uma de minhas rádios preferidas, a única que tocava a boa música brasileira regularmente, sem se aproveitar da sigla “MPB” para nos obrigar a ouvir pop-zinhos totalmente desqualificados. Sintonizei-a e, para minha grande surpresa, tocava uma daquelas músicas dançantes americanas dos anos 80 que se ouvem em tantas outras estações. É claro que tomei um susto. Fui perguntar a amigos e fui informado de que, de fato, a programação mudou.

Não é chocante? A única emissora paulistana em que se podia escutar de Paulinho da Viola a Jacob do Bandolim passou a se dedicar a A-ha e Duran Duran. Por quê? Falta de público? Mas estamos falando de uma estação estadual, ligada à principal universidade do Estado. Não deveria ela preocupar-se mais com a difusão cultural do que com o lucro imediato? Uma rádio pública é um investimento, ou seja, tem um custo. Por que encarar esse custo, se o produto final é só mais uma concorrente de todas as outras rádios, privadas, oferecendo o mesmo produto que elas, ou seja, algo que podemos tranqüilamente ouvir em qualquer estação? O que está por trás dessa mudança? Quem teve a idéia? Eis aí uma das mais chocantes “coisas do Brasil”…

PS: A belíssima e formidável artista que guardo em casa está apresentando sua peça Strindbergman no espaço cultural Sergio Porto, Rio de Janeiro, Humaitá, às quartas e quintas, 21h. Em Paris e São Paulo, foi um sucesso inquestionável. Vejamos agora a quantas anda o bom gosto dos cariocas. O site do espetáculo é www.strindbergman.com.

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Conhecido entre os traços

Fotograma do primeiro filme da série O Poderoso Chefão, com um close do ator Robert Duvall

Executa seu caminho no meio de outros tantos corpos, sóbrios no vestir e no pisar o pavimento, cada um em respeito solene ao próprio traçado e nada mais. A tarefa não exige esforço algum, como nunca exigiu, se não for a observação estrita do acordado, do decidido há tempos.

A única novidade é quase nada. Uma força esquisita que empurra para trás. Um pouco incômoda. Está presente, insidiosa, desde os primeiros passos, ainda sobre o carpete da sala de estar. Nunca tinha acontecido, essa energia pesada, negativa, que chega sem anúncio, vinda não se sabe de onde.

Com ela, abafando o som dos outros corpos, a percussão das solas e saltos, os grunhidos da cidade a acertar a disposição apropriada, só ascende à consciência a vibração de um pensamento: a repetição monótona de uma expressão vulgar. O palavrão se valoriza ao raspar, áspero, uma garganta imaginária. As idéias que vêm do fundo permanecem insondáveis. Misteriosos como o empuxo que se opõe ao impulso adequado.

Nada de notável.

Sim, sem dúvida, condições objetivas existem. Questões pragmáticas. Uma pequena coleção de falhas, lado a lado com a lista humilde de sucessos, e o equilíbrio pende discretamente para o lado pessimista. Sem esquecer o inevitável; dessintonia conjugal, fantasias capciosas, contratos rompidos, o sucesso profissional postergado, perspectivas sufocadas.

Uma inclinação do momento, coisa de hormônio, conjunção astral, seja o que for, provê a condição que desequilibra a balança. O prato mais pesado é o que verga de amargura. Na liga, entremeados, o cansaço das férias por tirar, a frustração de estar aquém das ambições sexuais, a dificuldade em aceitar que o tempo se arrasta, como sempre se arrastou para todos.

Entre a força anônima e a imagem difusa de todos os nomes, a mente equilibrada se vê na obrigação de decidir uma estratégia. Pois a retirada é uma estratégia sensata. Vergonhosa, mas sensata. Antes retroceder a ser carregado pelos ventos. Cobrir com as mãos o rosto é melhor, muito mais digno, do que arrancar os olhos para seguir na ofensiva.

Encontra uma superfície horizontal para largar o peso do corpo. Fria, seja o que for, exerce bem o papel de um banco. Então basta para retomar o ânimo, que escapara em algum momento do percurso, sem se dar a perceber.

Ao lado, um outro homem. No turbilhão dos vetores que disputavam um corpo, a cegueira temporária o ocultara. Mas ele esteve sempre ali. Deitado, encolhido, abraçado aos próprios ombros como à última posse que lhe resta. Finge dormir.

Observa-o. Um mendigo. Com todos os atributos de quem vive na rua, procurando a cada noite um novo abrigo. Andarilho debaixo do sol, encalacrado sob as estrelas, eis sua única certeza. Um homem que se apropria da cidade sem que nada na cidade lhe seja próprio.

Estranha figura. Um rosto familiar. A tal ponto que os olhos se fixam sobre os traços e rechaçam o esforço de afastamento. Feições que poderiam ser reconhecidas debaixo da escuridão mais profunda. A familiaridade produz um calafrio. As pontas dos dedos gelam, os pelos do braço eriçam. Quer tocar o vizinho, pousar os dedos sobre seu ombro, depois sentir a textura da pele, devagar. Não ousa. Mas não é asco. Não é nada. Apenas encara.

O homem sente que é observado. Sacode-se bruscamente, não a ponto de assustar. Abre enorme a boca, como para escarrar um grito. Desiste. Emite apenas o hálito de álcool. Põe-se sentado, lentamente, na calma de quem não acompanha as centenas de trajetórias riscadas pouco adiante. Desperto, seu rosto é jovem. Terrivelmente familiar. Alguém do passado, talvez. Impossível não fitar. Um olhar fixo assim deveria incomodar, deveria ofender, mas o homem não deixa ler sua opinião. Apenas exibe a face, os traços que parecem os mesmos de algum sempre.

Passado um instante, o homem desvia sua face conhecida. Lentamente, apóia-se nas duas mãos para se erguer. Como um velho. E se põe em marcha. Termina cada passo antes de começar o seguinte. Cambaleia, mas projeta o corpo e conquista o espaço. Desloca-se em curva, pende para um lado, deixa a impressão constante de que vai cair.

Mas o homem segue. Uma atenção aflita o acompanha à distância. Guarda no inconsciente a linha imaginária que o corpo descreve, no menor detalhe de sua irregularidade. O arabesco intercepta os riscos deixados pelos outros pares de pés, como se os conspurcasse. Desenho livre, atinge as trajetórias de todas as direções e não pede licença. Insolente, a figura.

Salta quando crê que o homem vai ao chão. Ensaia apoiá-lo com o braço, mas interrompe o gesto em pleno ar. Assim permanece, um passo atrás do rosto familiar, sem a ousadia de aproximar-se. O reconhecimento, que atraía, agora repele, com intensidade parelha. Porque a posição é outra; ou porque, junto com o mendigo, o universo se deslocou; ou porque algo emergiu à consciência.

Está claro, mas não nítido, por que o desgraçado é assim tão familiar. As paralelas que deveriam se encontrar no infinito podem sofrer desvios. Podem chocar-se ainda no tempo. Eventualmente, acontece.

Põe-se a correr. Correr é a saída. As funções mecânicas assumem o leme da mente e a recolocam no trajeto planejado, sem empuxo que arraste, sem força alguma conclamando a retroceder. Quando dá por si, já está em pleno destino, agachado, apertando os olhos para escapar à claridade.

Da experiência, somente uma convicção que se insinuara. A desgraça é livre, é fascinante e familiar. Ei-la, a verdade. Parece temível, a desgraça. Mas dá o poder de interromper e cortar todas as trajetórias com a mera vontade.

Só que as trajetórias, conforme é ensinado, acordado e decidido, são sagradas.

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A mais monstruosa das guerras

Há noventa anos, hoje, terminou a mais monstruosa das guerras.

Depois de todas as atrocidades cometidas sob o jugo ensandecido de Hitler, poderia parecer que a Segunda Guerra Mundial mereceria esse título, mas não. O que os nazistas fizeram de monstruoso enquanto tiveram o poder na Alemanha foi, de certa forma, paralelo ao conflito: campos de concentração e extermínio, perseguição a minorias, o reino do terror no país em que outrora caminharam e escreveram Kant e Leibniz. Na Ásia, mesma coisa: os grandes crimes das forças imperiais do Japão na China e na Coréia foram cometidos contra populações civis, quando os combates propriamente ditos já haviam sido ganhos. Uma covardia ainda maior do que qualquer embate militar. A guerra em si, porém, tolheu a vida do melhor da juventude de diversos países, arrasou cidades inteiras e desestruturou famílias e povos. Episódios hediondos houve, claro, como o bombardeio de Dresden e as bombas de Hiroshima e Nagasaki. Mesmo assim, insisto em dizer que a Primeira Grande Guerra foi mais monstruosa.

Todo o rancor que atirou o mundo no segundo e mais abjeto conflito teve seu início nas trincheiras de 14-18, ou melhor, nos gabinetes de Paris, Berlim, Londres, Viena etc., onde grandes dignitários decidiam que os homens de seus países deveriam mofar nesses buracos infectos cavados na terra. Foi o primeiro conflito em que o inimigo, de ambos os lados, foi demonizado pela propaganda de massa ainda um tanto incipiente. Os cartazes, as emissões de rádio, os folhetos que se distribuíam nos países envolvidos criaram, pela primeira vez, uma sensação confusa de aversão generalizada aos demais povos, um nacionalismo negativo cujas conseqüências foram sentidas na carne pelas duas gerações seguintes.

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O primeiro bombardeio aéreo surgiu em 1914, com zepelins alemães atacando a até então neutra Bélgica. Morreram nove civis, os primeiros de milhões que seriam massacrados por bombas e mísseis atirados de aviões e lançadores distantes. Nove corpos estraçalhados sem que os algozes nem sequer vissem o resultado de sua ação. O uso irrestrito da metralhadora, o tanque de guerra, a granada de mão, o gás de mostarda, os genocídios e as máscaras assustadoras que o acompanham são o legado mais evidente do confronto, que terminou com 40 milhões de pessoas a menos neste mundo.

Mas nem mesmo essas invenções abjetas são o resultado mais importante do terremoto de 14-18. Com a mesma força das infecções que ratos e esgotos da trincheira transmitiam aos soldados, era corroída a estrutura do militarismo aristocrático, algo romântico, em que a guerra manifestava a grandeza secular dos povos e dos reis. Os limites da corrida colonialista também foram escancarados pelas escaramuças que tiveram lugar em três continentes ao mesmo tempo. Quatro monarquias milenares desapareceram: os Romanov, os Habsburg, os Hohenzollern, os Otomanos. Com elas, o mito da guerra nobre, que levara Otto von Bismarck a receber em sua tenda o derrotado e capturado Napoleão III em 1870, foi enterrado por Georges Clemenceau e outros líderes mais modernos e pragmáticos: a partir de 1918, uma derrota deixou de ser apenas uma derrota. Teria de ser uma humilhação.

Foi uma guerra que teve um estranho começo: o sistema de alianças e tratados era tão intrincado que ninguém sabia de que lado um país entraria. Todos os envolvidos tinham planos para uma vitória relâmpago, como o alemão Schlieffen, o francês XVII e o russo 19. Todos falharam: as técnicas defensivas eram muito mais desenvolvidas que as ofensivas, qualquer tentativa de avançar era um suicídio, os exércitos de ambos os lados logo aprenderam a cavar a terra e esperar os acontecimentos. Isso, no front ocidental. Na Rússia, a administração czarista era tão incompetente para alimentar seus soldados que Lênin e Trotski fizeram a revolução.

E a guerra teve também um estranho final: a forma como se deu a rendição do império alemão, já convertido em república, apesar de não haver um único soldado estrangeiro em seu território. Esse curioso fato é fundamental para entender o horror que a Europa e, por extensão, o mundo viveriam vinte anos mais tarde. A capitulação da Alemanha, claramente derrotada, mas não aniquilada, foi o último ato de guerra que se possa considerar militarmente normal. Mas demonstra a falta de compreensão do que tinha se tornado o mundo.

Quando os americanos entraram no conflito, ao lado dos aliados, tanto a França quanto a Alemanha estavam à beira do esgotamento, do colapso e da revolução comunista que já tinha varrido a Rússia. O que os alemães, ainda muito apegados à idéia de aristocracia, nobreza e sacralidade militar, não tinham entendido é que a guerra massiva, industrial e monopolista não deixava mais lugar aos tratados de paz do século anterior. A França, ao contrário, compreendeu perfeitamente. Governados por Georges Clemenceau e comandados pelo marechal Foch, os franceses inventaram um conceito, mais um, que se tornaria um símbolo da insanidade bélica no confronto seguinte, na aplicação de Hitler: a “guerra total”. Morreremos de fome, esgotaremos nossos recursos, deixaremos de ser uma grande potência, mas não perderemos esta guerra.

A guerra total foi uma decorrência lógica de um mundo de produtividade absoluta, lucratividade extrema e formação de monopólios e cartéis. As democracias ocidentais sabiam disso, porque viviam mais intensamente o capitalismo à la Rockefeller, enquanto as potências centrais, sobretudo a Áustria, ainda pensavam como grandes impérios aristocráticos que eram. Mesmo a Alemanha, cuja produção industrial já superava em muito a britânica, não captou os novos ventos. Perdeu por isso, o que lhe custou uma humilhação desnecessária e a ascensão do regime de terror mais intenso que o mundo já viu. (Atenção: “mais intenso” é diferente de “maior”.)

A monstruosidade da Primeira Guerra Mundial pagou seu preço na Segunda: foi uma paga de mais monstruosidade ainda. O rancor francês de 1870 foi transferido para a Alemanha. A guerra total foi levada às últimas conseqüências por Hitler. Mais algumas dezenas de milhões de vidas foram apagadas do mapa. Nos anos 30, a dita comunidade internacional foi incapaz de deter os avanços dos nazistas sobre os territórios vizinhos pelo simples motivo de que, freqüentemente, acreditava-se que eles tinham razão em reclamar reparações pelas injustiças impostas no tratado de Versalhes (de 1919) por uma França amedrontada com o poderio do vizinho, embora derrotado. Tamanhos eram o rancor e o ódio, que o famoso e maldito ditador alemão exigiu assinar a rendição da França, em 1940, no mesmo vagão do mesmo trem, no mesmo ponto da mesma linha férrea em que foi assinado o armistício de 1918, em Compiègne. Depois, o vagão foi levado para a Alemanha e queimado. Hoje, há um museu na pequena cidade da Champagne com uma réplica exata do tal vagão.

Nicolas Sarkozy anunciou que as celebrações pela vitória de 1918, este ano, vão abandonar o cretino tom triunfalista e se concentrar mais na memória das vítimas da estupidez humana. Mortos, mutilados, órfãos, miseráveis. A biblioteca de Leuven, com 230 mil volumes, destruída pelos alemães. Os armênios, que a Turquia tentou varrer do mapa. Os australianos e neozelandeses enviados pelo comando militar britânico para o suicídio no estreito de Dardanelos, na Turquia. Tudo isso, naquela que deveria ser “a guerra para acabar com todas as guerras”.

Sarko tem razão. Não há vitória nenhuma quando 40 milhões de pessoas morrem e um continente é transformado em barril de pólvora, tão perigoso que, ao estourar após menos de 30 anos, mais 60 milhões de almas seriam aniquiladas. Ao lembrar de uma guerra como essa, devemos ter em mente o quanto a humanidade pode ser atroz e monstruosa, mesmo quando se considera no ápice da civilização, como acreditavam os europeus da belle époque.

PS1: Sobre o fim da cordialidade militar, da era vitoriana e do respeito ao inimigo, recomendo este antigo texto do blog de Rafael Galvão.

PS2: A referência mais imprescindível para entender como foi monstruosa a Primeira Guerra, em que os soldados eram tratados como meros pedaços de carne pelos comandantes, é evidentemente Paths of Glory (Glória feita de sangue), de Stanley Kubrick.

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Um repórter, finalmente!

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Interrompo o que vinha escrevendo, mais uma crônica fortuita sobre a vida por aqui, para publicar algo sobre um assunto que não sai de minha cabeça há dias. Sem rodeios: estou falando da série de artigos em que Luís Nassif faz um ataque direto à temida, mas há tempos desacreditada, revista Veja. A polêmica me impressiona vivamente. Ora, por quê, se os textos do jornalista não contêm nada de particularmente novo nem sobre a Veja, nem sobre Daniel Dantas, nem sobre Diogo Mainardi (os dois alvos principais)? Muito bem, quero aqui expor meus motivos.

O que me chama a atenção, no caso, não são as acusações de Nassif. Honestamente, elas não me surpreendem nem um pouco. Há pelo menos dez anos, quase ninguém no meu círculo de conhecimentos lê a revista com regularidade; quem lê, geralmente o faz como se consultasse um barômetro das picuinhas empresariais e governamentais do Brasil. Eu mesmo deixei de passar os olhos pela Veja quando ainda estava no colégio, cansado de afirmações atiradas ao vento, sem atribuição de fontes, e naquele tom nervoso que sempre me pareceu de uma vulgaridade vergonhosa. Depois, acompanhei à distância a decadência do periódico: as capas com temas irrelevantes, os outdoors beócios, a dissipação da credibilidade.

Meu último contato com a revisa foi por ocasião do plebiscito da venda de armas. O uso pouco rigoroso (estou sendo bem eufemístico) das estatísticas foi a gota d’água. Percebi que a direção de Veja tinha perdido o senso de realidade e o respeito pelo público. Já vivendo na França, fiquei sabendo da embrulhada envolvendo um editor da revista e John Lee Anderson, um dos maiores jornalistas do mundo, e cheguei à conclusão de que as exalações do rio Pinheiros podem estar afetando a mente dos funcionários da editora Abril. Hoje, acho que, entre os leitores de Veja, sobraram apenas aqueles que desejam ver reproduzidas suas próprias opiniões; ou, no máximo, pessoas que sentem uma necessidade enorme (não é meu caso) de receber, toda semana, uma revista qualquer para ler, e consideram (não sem razão) os concorrentes da revista da Abril ainda piores do que ela.

Quanto a Nassif, eu pouco sabia sobre ele. Por uma, sabia que toca bandolim, o que não confere a ninguém particulares habilidades de reportagem. Sabia que se formou na ECA-USP (acho que estudou também na FEA-USP, mas posso estar enganado), que é mineiro de Poços de Caldas, e trabalhou na Folha de S. Paulo, no Estadão e na própria Veja. A melhor informação que eu tinha sobre ele era seu prazer diabólico em torturar jornalistas: quase sempre mandava sua coluna da Folha depois do horário combinado e muito maior (ou menor) do que o espaço disponível. Eu realmente não tinha idéia de sua experiência no chamado jornalismo duro; traduzindo, eu não sabia se (ou que) ele tinha sido repórter.

Foi e ainda é, pelo visto. E finalmente chegamos ao que me impressionou nos ataques do jornalista à poderosa revista. Foi provavelmente a primeira vez que li um texto produzido no Brasil, pelo menos durante meu período de vida, que tem a aparência e todos os aspectos de uma verdadeira reportagem. Não quero ofender os repórteres brasileiros, por favor não me leve a mal: mas o que entendemos por reportagem no Brasil, e estou falando da prática, não da teoria, são textos relativamente curtos, sem seguimento, pouca menção a documentos, dificilmente uma citação de fontes, rara clareza do que está em jogo.

Isso não é culpa dos jornalistas, evidentemente. Os veículos brasileiros, acredite, são pobres, têm cada vez menos repórteres especiais (aqueles que não fazem nada de específico e têm como função investigar fatos que se tornem os grandes furos que sustentam uma empresa jornalística), não conseguem gastar com viagens, fundamentais para a produção de reportagens longas e rigorosas, não têm músculo para matérias em série (certos jornais simplesmente “não fazem”, se recusam, como se fosse uma determinação da casa: já ouvi isso da boca de um editor), enfim, não podem dar espaço para textos bem desenvolvidos.

O resultado é que as grandes reportagens brasileiras consistem em entrevistas que vêm bem a calhar para os entrevistados, como as de Getúlio Vargas para Samuel Wainer, Pedro Collor para a Veja e Jader Barbalho para a Folha, para citar as que são provavelmente as mais conhecidas. Ou, pior ainda, os dossiês entregues prontos por gente interessada (Nassif fala disso em relação à Veja, mas a prática é muito disseminada), que os veículos de comunicação só têm o trabalho de, se tanto, apurar rapidamente (eis um advérbio de duplo sentido no jornalismo) e colocar no formato certo. O último método consiste no “jornalista esperto”. Os de televisão usam câmeras escondidas a torto e a direito, os da mídia impressa se fazem passar, por exemplo, por consumidores interessados em algum serviço, e assim se consegue chegar a alguma denúncia bombástica.

Outro motivo para essa pobreza de investigação na reportagem brasileira é o nível de exigência do público, reconhecidamente baixo. Um leitor da Veja, por exemplo, não faz a menor questão de apurações, citações de fontes e documentos, nada disso. Só quer as diatribes virulentas, e as recebe com juros. Os demais estão contentes em ouvir, digamos, as denúncias do falecido Toninho Malvadeza contra sei lá qual líder do PMDB, ou as suspeitas que pesam sobre alguma privatização do governo Fernando Henrique. Uma apuração rigorosa e demorada de qualquer dessas informações seria custosa e traria pouco benefício: a concorrência daria a matéria antes, o público não conseguiria reconhecer a diferença de qualidade dos materiais. Resultado, o veículo que apurasse terminaria com um tremendo abacaxi entre as mãos.

Para aprofundar um pouco: por que o nível de exigência do público é tão baixo? Difícil responder, mas arrisco algumas idéias: em primeiro lugar, é um público estreito. Pouca gente lê jornais no Brasil, efeito do alto índice de analfabetismo funcional, da história curta do nosso jornalismo e, num círculo vicioso, da baixa qualidade do produto oferecido. Além disso, o bom jornalismo brasileiro (Última Hora, o antigo JB, o antigo Estadão, a revista Diretrizes) sempre foi abafado pelo mau jornalismo (O Cruzeiro de David Nasser e tantos outros que mais vale não mencionar) e pela censura, que levou à morte, ao exílio ou ao silêncio alguns dos nossos melhores repórteres, da ditadura de Getúlio até nosso último regime semi-totalitário (que é como a jabuticaba, só tem no Brasil). Finalmente, nosso país começou a ter uma imprensa muito tarde, no século XIX, e o advento do rádio e da televisão nos apanhou sem uma tradição de leitura. Foi fatal.

Quando vim morar fora, em 2006, Nassif ainda era colunista da Folha. Sua saída me surpreendeu, mas também me ajudou a compreender algo interessante. Naquelas duas mirradas colunas da página três do Caderno de Economia (ah, desculpe, Dinheiro), ele jamais poderia publicar a reportagem enorme e tão completa que vem colocando em sua página de internet. Pois bem, viva a internet. Muita gente discute se ela vai acabar com o papel, e a resposta é um evidente e sonoro “Não”, seguido, talvez, de uma risada. Mas as possibilidades do mundo online são, de fato, fantásticas, como dizem. Compensam e colocam em xeque uma série de vícios e limitações da dita “imprensa tradicional”: ela terá de se adaptar, e acabará conseguindo. Por outro lado, é curioso que, há anos lendo blogs e páginas de todo tipo, só
agora eu me depare com algo que me entusiasma, ao menos no que diz respeito ao jornalismo. E, curiosamente, vindo de alguém que fez carreira na dita “imprensa tradicional”. Sem contar, a propósito, a enorme contribuição, muito bem aproveitada por Nassif, das caixas de comentários e contribuições por e-mail, fontes de informações que repórter nenhum deve negligenciar, muito mais ricas do que as cartas que chegam a uma redação.

Concluindo: é uma alegria enorme ver uma reportagem de verdade na minha língua natal. Fez-me lembrar um livro excelente para quem se interessa por jornalismo: The Elements of Journalism, de Bill Kovach e Tom Rosenstiel. Tenho certeza absoluta de que essa obra foi editada no Brasil. Nassif contextualiza o que diz, expõe claramente em que ponto ele próprio está envolvido no que relata, publica cópias dos documentos que comprovam suas afirmações, dá nomes a todos os bois. Não seria nem o caso de parabenizá-lo por isso. Em teoria, ele nada mais fez, senão o trabalho do jornalista.

Para reduzir um pouco o tom laudatório do texto, mando uma crítica: alguns abusos nos adjetivos comprometem o tom geral de seriedade das denúncias. Mesmo assim, se, por um lado, ao desmascarar as práticas pouco ortodoxas de Veja (repetindo: muitas delas já bem conhecidas) Luís Nassif presta um serviço ao público leitor brasileiro, por outro, ao fazê-lo como faz, ou seja, através de um trabalho jornalístico bem conduzido, ele presta um serviço à nossa imprensa como um todo. Para mim, isso é o mais importante da série.

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