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O Brasil desenvolvido – esboço

O que segue foi escrito aos poucos, nos intervalos de uma semana tempestuosa. Não foi revisado e tenho certeza de que está uma bagunça, “longo demais” para a internet e por aí vai. Mas vai assim mesmo, para sair antes que o povo esqueça os assuntos das últimas semanas, e porque as ideias largadas aqui, de qualquer jeito, são importantes para mim.

Lembrei de Jamelão anunciando, em 1997, que 2004 era o sonho brasileiro: “De braços abertos sou o Rio de Janeiro…”. Pois 2004 passou, como passou Jamelão. De lá para cá, falou-se em 2008, 2012, poderíamos falar de 2040 se fosse necessário. Chegamos a 2016 ouvindo a mesma história de que Cesar Maia queria porque queria as Olimpíadas no Rio, depois do Pan de 2007 que rivalizou com a Eco-92 em maquiagem urbana. Ainda deu tempo de o alcaide maluquinho tirar uma onda com a Marta Suplicy e a velha rivalidade com São Paulo, evocando a frase de Vinícius – a beleza é fundamental, talvez a última coisa fundamental neste mundo. Mas bastou Cesar Maia desgrudar da poltrona para que o COI, provavelmente aliviado, abrir o envelope do sinal verde. Coincidência? Provavelmente. Deixeimos o Maluco Beleza para lá, que ele já não conta mais.

Na verdade, dir-se-ia – e agradeço aos céus pela existência da mesóclise – que o mundo está ficando mais esférico. As Olimpíadas no Rio são um indício disso, ao lado da Copa do Mundo na África do Sul e o Oscar para um quase-Bollywood. Parece que já ficou para trás o eurocentrismo do mundo colonial, a bipolaridade do pós-guerra, o choque unívoco de civilizações que Huntington, com sua mentalidade bipolar, esperava. Seria também o fim do Fim da História, se é que houve um começo. A profecia de um mundo de grandes blocos, de que ouvimos falar desde o início da década de 90, começa a se concretizar e não tem volta: nem mesmo o mais poderoso dos ex-impérios da era moderna pode vencer isoladamente, e é bom (para eles) que os britânicos entendam isso de uma vez por todas.

Aliás, os europeus de maneira geral só se dão conta da urgência de algutinar quando uma crise os aperta, como provam os irlandeses, esses adoráveis pinguços. Quando a coisa começa a melhorar um pouco, todo o continente perde de vista o correr da história e se fecha em nacionalismos anacrônicos e já algo ridículos. Sendo assim, vivam as crises! Ao mesmo tempo, os temíveis chineses se esforçam por espalhar contratos com o mundo inteiro, mas sempre de uma posição de dominância que talvez acabe revelando ser seu calcanhar de Aquiles. Afinal, eles empilham gente num território enorme, mas continuam dependendo de alguns apertos-de-mão para não se ver diante de uma massa bilionária de ex-camponeses esfaimados e revoltados. Já os americanos, que passaram oito anos tentando enfiar cubos quadrados em buracos triangulares, agora correm atrá do tempo perdido, acenam para tudo mundo, sorriem e tudo mais, enquanto, em casa, os mais atrasados continuam atirando dardos na efígie de Obama. Eis aí, em poucas palavras, um instantâneo geopolítico do mundo.

Se tivesse tempo e paciência, eu poderia enveredar a falar da turma que está pondo as manguinhas de fora militarmente: indianos, paquistaneses, iranianos, russos. Mas são iniciativas que não têm grande perspectiva de sucesso, porque é cada vez mais improdutivo negociar pela ameaça, particularmente a atômica. Lembremos que é sempre mais fácil ser atingido que atingir e o primeiro a lançar a bomba será também o primeiro a sumir do mapa – e isso vale tanto para Israel quanto para a Coréia do Norte.

Em vez disso, prefiro me concentrar no Brasil, esse país que todo mundo adora, à exceção dos agentes de imigração europeus e dos zagueiros da seleção argentina. Nosso acesso a esse mundo G-20 que nasce é particularmente auspicioso, como todos sabem. A economia cresce, os juros escorregam, a desigualdade começa a ceder, a diplomacia dá boas tacadas, voltamos a fazer o básico, qual seja, investir em pesquisa, ensino e transporte. No lugar de uma grande massa de funcionários públicos mal pagos e sem função, como outrora, temos ministérios e autarquias ocupados por técnicos qualificados como talvez nunca tenhamos tido.

E assim por diante. No mundo inteiro, jornalistas, analistas e todo tipo de gente que gosta de dar pitaco manifestam simpatia por nós. Um aponta o país como contrapeso aos EUA na América Latina. Outro se admira de nosso potencial energético renovável. Outro ainda louva a firmeza demonstrada perante a quartelada de Honduras. Muitos lembram a iniciativa de valorização do G-20, ponto culminante de uma idéia de não-alinhamento que começou há décadas mas, até hoje, tendia a só patinar. Parece que tudo vai muito bem para Pindorama – e esse apelido talvez esteja a caminho de desaparecer. Quem sabe?

É tentador dizer que estamos diante de uma oportunidade de desenvolvimento de uma dimensão que jamais conhecemos. Parece mesmo fantasiosa a ideia de um Brasil desenvolvido, rico e justo, não mais o país do futuro, mas um verdadeiro – como é mesmo que se diz? – global player. Mas a verdade é que já vivemos situações mais ou menos parecidas, sim. Oportunidades de subir alguns degraus na escala da História, tivemos algumas. Desde uma hipotética industrialização ainda no século XIX até a reforma agrária nos anos 60 e o controle da inflação em 94, deixamos todas pela metade. É por isso que, quando ouço Lula dizer que o Brasil deixou de ser um país de segunda classe para se tornar um país de primeira, logo penso: “Calma, presidente. Você está tomando por fato consumado o que não passa de potencial”.

Não quero soar pessimista. Não estou insinuando a existência de uma maldição de atraso que paira sobre as nossas cabeças. Mas quero, sim, chamar a atenção para o fato de que desenvolver-se envolve muito mais do que o crescimento econômico, o reconhecimento da mídia internacional e a esperança de “ética já” ou coisa que o valha, como se um salto de patamar trouxesse milagrosamente o fim “dessa roubalheira toda que está aí” e o início de uma vida de moleza, espelhada no que muita gente em nossa classe média pensa que acontece no “primeiro mundo”. Na verdade, passar à categoria de país desenvolvido, daqueles em que a desigualdade é pouca e a segurança muita, implica uma mudança radical na vida de um povo, algo de que o brasileiro terá de se mostrar capaz se quiser cumprir a profecia do presidente.

Nos anos 70, um analista do governo americano de nome Herman Kahn – uma figura estranha e interessantíssima, cheia de ideias heterodoxas sobre guerra nuclear, possivelmente um dos inspiradores do Dr. Fantástico de Kubrick – especulou que existiria uma curiosa lei da economia: a partir de um certo patamar de renda per capita, ou seja, com o enriquecimento de uma dada sociedade, as condições de vida da classe média alta se tornam “menos confortáveis”. Esse discreto desconforto resultaria do desaparecimento, ou pelo menos da restrição, de alguns serviços de luxo: babás, motoristas, contínuos (sim, existe uma palavra em português para office boy) e assim por diante. Todos esses passam a estar reservados apenas aos “muito ricos”, categoria bastante restrita, como se sabe.

A experiência é muito traumática e provoca uma sensação algo esquizofrênica em quem a atravessa: a impressão de ao mesmo tempo enriquecer e empobrecer, se é que algo assim é possível. Grande parte das convulsões sociais de 1800-1970 na Europa, por exemplo, podem ser interpretadas assim: gente de nariz empinado que não aceitava a ideia de que seus criados e lacaios acedessem a uma condição de relevância social, leia-se política. Em muitas ocasiões, ganhou quem queria segurar a marcha do desenvolvimento (1848 na Alemanha, 1871 na França); em outras, ganhou quem queria acelerá-lo (um bom exemplo não é europeu, mas pouco importa: a guerra civil americana).

Se for verdade que estamos em pleno salto para o desenvolvimento (e há controvérsias), terá então chegado a hora e a vez do Brasil (nessas horas chego até a simpatizar com Galvão Bueno: Brasil-sil-sil-sil!). Fico me perguntando se conseguiremos fazer essa auto-transposição para um país em que as famílias não “têm” empregada e quem lava a louça são as crianças. Em que “eu estou pagando” não é argumento para justificar abusos mesquinhos de poder. Em que quem serve as mesas nos restaurantes são jovens não necessariamente “desfavorecidos”, que financiam seus estudos pelo trabalho mas nem por isso acham essa condição humilhante ou degradante, muito pelo contrário. Imagine, o Brasil um país em que usar o transporte público é normal e até preferível, por muito mais prático do que se submeter ao trânsito, às multas, ao estacionamento caro. Imagine, o carro já não mais aquele símbolo de status tão paradigmático…

Tudo isso parece muito longe de acontecer no Brasil, é claro. Mas o problema, porque o choque de mentalidades é sim um problema, já começa a se esboçar. Quando, por exemplo, nossa diplomacia começa a ter um peso em decisões de interesse mundial, é preciso que a opinião pública, em casa, tenha acesso às verdadeiras questões que estão em jogo – função da imprensa – e possa se posicionar de acordo com essas questões; e como, repito, são questões de interesse mundial, é preciso que esse posicionamento tenha em vista essa dimensão maior, e não um mero partidarismo de fundo de quintal. Afinal, como sabemos, o alcance da política de um país desenvolvido ou quase desenvolvido transborda largamente suas próprias fronteiras. Sim, isso pode vir a acontecer: a opinião pública brasileira influindo de verdade. Mas para isso será preciso que ela seja de fato uma opinião, e não só um amálgama de impressões dispersas e predominantemente emotivas. Será preciso que ela se baseie em algo estável, ou seja, um ambiente político em que todas as vozes têm peso – sim, porque num país desses, o conceito de “excluído” é vergonhoso.

O caso das Olimpíadas no Rio é sintomático, portanto o catalisador desta breve reflexão (não tão breve, considerando que está num blog). À parte as avaliações objetivas do evento – se é verdade que traz benefícios de longo prazo, se é mais estorvo que bênção etc. –, podemos dividir em dois campos as reações à notícia. De um lado, a euforia com o “triunfo”, com o reconhecimento de nossos esforços, com a integração da América do Sul à festa do esporte. Do outro, a velha história de que, até hoje, tudo em nosso país foi superfaturado e resultou em serviços frustrantes, a começar pelos jogos panamericanos no próprio Rio há dois anos.

Retomando o argumento das exigências de um país que pretende se desenvolver, posso afirmar sem risco de engano que é preciso superar o pensamento de ambos os campos. Não vou ser frio a ponto de deplorar a alegria de ter realizado em 2009 um “sonho brasileiro” declamado em 1997 pela bateria da Mangueira, nem alienado a ponto de fingir que o desvio de verbas não é uma modalidade em que somos medalha de ouro. Mas acredito que não mereço ser lapidado por lembrar que tanto o bom funcionamento dos jogos quanto o bom uso do dinheiro, mais quaisquer benefícios que o evento possa trazer, dependem de nós e apenas de nós.

Em outras palavras, a primeira vítima de um Brasil desenvolvido (a esse ponto ainda profundamente hipotético, não vamos perder de vista) será esse velho fatalismo que nada mais é, na verdade, do que conservadorismo disfarçado. Uso aqui conservadorismo num sentido talvez errado: não é o ser conservador no sentido de defender antigos valores morais, sociais, políticos, econômicos – alguns dirão “ser de direita” –, mas de agir, talvez inconscientemente, para manter mesmo aquilo que em nossa sociedade é vício e reconhecemos como tal. Isso inclui o ódio rancoroso contra “os países ricos” que, mal disfarçado, está por trás da euforia de muitos, a começar pelo presidente, com o “Rio 2016”.

Mas é mais manifesto nesse tal fatalismo, cujas principais vertentes são, por um lado o “todo político é ladrão” e, por outro, o “todo favelado (ou pobre, se preferir) é ladrão”. A primeira frase é mencionada com uma frequência razoável e não está tão longe da verdade. Mas, embora poucas pessoas não-fanáticas entrem para a vida política sem querer tirar um benefício pessoal, uma declaração tão peremtória acaba não servindo a outro propósito senão justificar a alienação voluntária. Sabendo que “todo político é ladrão”, temos uma boa razão para não nos metermos nisso. Ficamos cuidando da nossa vida e, quando passamos nas Cinelândias da vida, deploramos aqueles grupos de pessoas mal-intencionadas com seus cartazes e buzinas diante da Assembleia. Sim, porque, se estão dialogando com políticos, só podem ser mal-intencionados…

A vertente oposta é menos evidente, já que não pega muito bem dizer que “todo favelado é ladrão”. Mas é o que pensa muita gente na classe média, que não poupa nem a própria empregada doméstica, “lá em casa há 20 anos” mas vigiada bem de perto. Mesmo quem, muito pudico, não afirma que “todo pobre é ladrão” imediatamente presume que o carro de alguém com “cara de favelado” (sic) só pode ser roubado ou comprado com dinheiro de origem duvidosa. Esse sentimento difuso, mas bem real, é consequência de uma configuração social em que “pobre” é um conceito que vai muito além de “pessoa com renda baixa” e implica de fato uma outra categoria humana, outra casta, outra classe de seres humanos. Coisa de antigamente, aliás, o mundo inteiro foi assim pela História quase inteira. Mesmo o uso da língua é diferente entre essas classes; os de dentro zombam do “falar errado” dos de fora, que, por sua vez, tentam caprichar quando se comunicam com seus “superiores” e acabam só produzindo mais motivo para chacota. Quem não reconhece, nisso, o Brasil? Pois bem, somando tudo, temos que “todo político é pilantra, todo pobre é ladrão, fala errado e tem que saber o seu lugar”.

Pois bem, não poderá existir “o lugar do pobre” num Brasil que se pretenderá desenvolvido. Tomando “lugar” no sentido literal, desfavelizar é fundamental mas é pouco e teleféricos não vão apagar esse que é um dos maiores símbolos da nossa fratura social (o termo é um galicismo, mas funciona). Num país desenvolvido, a diferença entre ricos, pobres e classe média é quase inteiramente quantitativa, em vez de qualitativa. É uma diferença enorme, claro, mas bem mais fluida e menos cruel. Paralelamente, não pode haver lugar em nosso imaginário Brasil desenvolvido (ou qualquer outro país, aliás) para o dar de ombros político: exultar com qualquer piada ridícula que ironize o dedo perdido do presidente e lamentar que seja possível uma ação governamental justa e adequada, a não ser as que me beneficiem direta e particularmente. A emergência de novos interesses e opiniões, novos pontos de vista, novas exigências de gente que até então não tinha nem voz, nem perspectiva, nem visibilidade, transforma o jogo político numa roleta com incontáveis casas. Para todos os grupos, o interesse e a participação políticos, seja na forma de reivindicações, seja pela administração, tornam-se imprescindíveis, para não dizer inescapáveis. O espaço público organizado (ou seja, a política) é o meio de interação de sociedades “desenvolvidas”, da mesma forma como o Bope e congêneres são o meio de interação de sociedades atrasadas.

O que tem de especial no “sonho brasileiro” que Jamelão cantou não é a perspectiva de que se torne realidade. Essa, sempre tivemos e sempre frustramos, porque o Bope continua sendo mais fácil do que a política, principalmente para quem comanda as bordoadas em vez de levá-las. A diferença, pelo menos até onde posso senti-la, é um pouco mais de interesse, um pouco mais de exigência, para que o futuro de fato se torne presente, como se tem falado. Organizar jogos olímpicos é um pálido exemplo disso. Pálido, mas com enorme cartaz. Sem uma gestão competente, fruto de uma determinada capacidade de organização coletiva (leia-se política), é certo que o evento não decola. Velhas perdas de tempo, como o fatalismo já mencionado, o bairrismo e o espírito de porco de quem prefere puxar papo pelas reclamações, deixam de ser excentricidade nacional para se revelarem os estorvos que realmente são. Só por isso, a perspectiva do “Rio 2016” já é, pelo menos potencialmente, algo a celebrar.

De maneira geral, o que me deixa razoavelmente otimista não é nem o pré-sal, nem a Copa, nem as Olimpíadas, nem a política externa, nem o PAC, nem o editorial do Clarín, do FT ou do NYT. É, sim, uma percepção difusa de que as gerações mais jovens, no país, têm um interesse maior na administração da coisa pública, no planejamento urbano, em projetos de desenvolvimento de longo prazo. Na esfera federal como em Estados e municípios, começam a ser ouvidos os grupos de estudo e os gestores qualificados, que antes viviam abafados pelo fatalismo político e os lobbies dos aproveitadores de sempre. Quanto tempo isso vai durar, nem imagino, mas é um momento auspicioso, embora longe da panaceia que o Planalto quer fazer crer. Resta ver se não vamos querer sabotar mais uma vez nosso próprio futuro, como já é nosso hábito.

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No tempo em que a polícia batia

Em tese, um certo sumiço na virada do ano é coisa normal, mas acho que passei do ponto. Não foi por querer que fiquei desconectado durante as últimas semanas, e nesse meio-tempo houve muito assunto para deixar uma palavra por aqui, e não pude fazê-lo. Pouco a pouco, espero retomar o ritmo normal de postagens. O primeiro tema que ficou em suspenso é a continuação do texto sobre Der Baader Meinhof Komplex. E, como demorei tanto, acho que terei de aproveitar para desdobrar o assunto em três. Primeiro, este neste texto, sobre a polícia e os cascudos que só ela sabe dar. Depois, mais dois, não sei ainda em que ordem, mas um falará das músicas que são tocadas no filme e o fenômeno da Indústria Cultural, primeiramente evocado por filósofos, que coincidência, alemães. O outro aproveitará, se é que esse verbo é apropriado num momento como este, o gancho da ofensiva israelense contra o perigosíssimo território de Gaza atrás dos terroristas do Hamas… enfim, o conceito de terrorista é qualquer coisa que precisa de fato ser pensado mais profundamente.

E para ressuscitar este espaço, nada melhor do que um texto que, apesar de indiretamente, recupera alguns pontos que deixei passar em 2008. São efemérides como os quarenta anos de todas as coisas grandiosas que aconteceram em 68 (maio de Sorbonne e Nanterre, agosto de Praga, dezembro de Cinelândia e Brasília), e bem que gostaria de encaixar aqui a morte de Harold Pinter, que eu deveria ter comentado e não comentei, e os centenários de Claude Lévi-Strauss e Manoel de Oliveira… mas não vai ser possível.

Fico, então, com as brigas de quarenta (e um) anos atrás para começar meu assunto. Nem preciso dizer, essa série de eventos interligados são uma das raízes do grupo revolucionário e, mais tarde, terrorista alemão. De fato, Der Baader Meinhof Komplex mostra bem como surgiu o bando: no dia 2 de junho de 1967, durante uma manifestação até então pacífica contra o xá Reza Pahlavi, em visita a Berlim, um policial à paisana atirou pelas costas, ou seja, executou o estudante de literatura Benno Ohnesorg, de 26 anos, pai de uma criança, que morreu no mesmo instante.

Estudantes mortos

Mas Ohnesorg provavelmente não foi o primeiro e certamente não foi o único estudante morto nesse tempo que ficaria conhecido como início dos “anos de chumbo”. No Brasil, tivemos Edson Luís de Lima Souto, de 16 anos, cujo assassinato por um policial acabou resultando na célebre Passeata dos Cem Mil de 26 de junho de 1968. Em 2 de outubro, a famosa guerra da Maria Antônia, entre estudantes da USP e do Mackenzie (esses últimos reforçados por jovens encorpados que eram tudo, menos estudantes) também deixou sua vítima, de nome José Guimarães, secundarista e pintor de 20 anos. As famosas prisões de Ibiúna, a propósito, aconteceram dez dias mais tarde.

No mesmo 2 de outubro, uma manifestação estudantil na Plaza de las Tres Culturas, Cidade do México, foi reprimida pelas forças unidas da polícia e do exército com saraivadas repetidas de balas que deixaram um número indeterminado de mortos. A estimativa mais razoável diz que pereceram 400 pessoas, contando não apenas os manifestantes, mas também as pessoas que apenas passavam pelo local. Aliás, o pequeno incidente não chegou a perturbar o funcionamento das Olimpíadas na cidade, poucas semanas depois. Em fevereiro, dois meses antes do assassinato de Martin Luther King e quatro meses antes do de Robert Kennedy, durante uma manifestação na Carolina do Sul pelos direitos civis, três estudantes foram baleados e mortos por, exatamente, policiais. E por aí vai.

Estudantes e policiais se enfrentaram ao redor do mundo, com ou sem mortes, pelos anos seguintes. Nada, claro, como o 68 que, até hoje, ainda faz muitos olhos brilharem, com a Primavera de Praga, a ocupação das universidades em Roma, as palavras de ordem dos jovens de Nanterre e da Sorbonne, criativos como nem os mais prestigiosos publicitários chegam a ser: “Sous le pavé, la plage” (debaixo das pedras, a praia, numa tradução péssima), “soyez réalistes, demandez l’impossible” (sejam realistas, exijam o impossível), “exagérer, c’est commencer à inventer” (exagerar é começar a inventar). Essa garotada, tão boa com as palavras, cheia de idéias e ideais, encheu Paris de barricadas e respondeu ao gás lacrimogêneo com os paralelepípedos que arrancava do chão. Apanharam, apanharam feio. Tudo acabou voltando ao normal. A prefeitura, prudente, cobriu suas ruas de asfalto. Mas os suspiros dos saudosos ainda ecoam.

Tudo isso para mostrar que foi qualquer coisa, menos um caso isolado, a morte de Benno Ohnesorg, o jovem alemão de sobrenome tão sugestivo. Que foram tempos duros, não se pode negar, mesmo que as causas ainda sejam motivo de disputa. Resta que a violência era disseminada através de um mundo povoado por governos que, dos dois lados da Cortina de Ferro, temiam revoluções; jovens perplexos com a cultura de massas que já dava os primeiros sinais do que seria o sistema de ensino industrial e rasteiro de hoje; trabalhadores que, por um lado, eram seduzidos pela mensagem soviética e, por outro, tinham um poder de reivindicação e de compra sem par; grupos minoritários começando a exigir reconhecimento e direitos, na esteira do sentimento de culpa mundial com o antissemitismo (agora tem que ser assim? Com o s dobrado em vez de hífen?) que conduziu ao Holocausto.

O que parece…

Trocando em miúdos, parece que essa era uma época em que um volume significativo de pessoas estava disposta a brigar, bater e apanhar, fosse por uma causa, pelo reconhecimento de seus direitos, por uma melhor remuneração do trabalho, pela liberdade de expressão, enfim, fosse pelo que fosse. Parece, também, que do outro lado havia uma força de segurança disposta a baixar o sarrafo, em bom português, e jamais recuar. Parece que o Poder, do fundo dos palácios, temia com tanta força ser desalojado que não se importava de soltar a cavalaria e a tropa de choque contra sua própria população. Parece que o direito de se expressar livremente não era considerado com muita seriedade, nem de um lado, nem de outro do Muro de Berlim. Parece que a idéia por trás da polícia, naqueles tempos, não era tanto a de coibir a criminalidade, mas apenas manter as gentes sob controle, como se vê, por exemplo, na caricatura francesa em que um policial do CRS (o batalhão de choque) carrega no escudo a insígnia das SS nazistas.

Por outro ponto de vista, parece que o mundo aprendeu algo desde então. Parece que nos tornamos mais livres e mais conscientes. Parece que a ilusão comunista caiu com a União Soviética e o mundo quase todo obteve o direito sagrado de pensar e desejar as mesmas coisas, sempre. Parece que a polícia não exerce mais aquela função de pôr na linha as pessoas que parecem discordar. E ainda, mesmo que continue violenta e opressiva, parece que as forças policiais estão concentradas em lutar contra o crime ou o que, para a opinião pública, parece crime. Parece que os policiais não são mais assustadores como eram naquele tempo em que, não raro, se comportavam como os fascistas da geração anterior. Parece que as pessoas não têm mais contra o que protestar, resolvidas que estão as contradições do mundo, no grande abraço sensual do consumo e da competição. Parece que a única ameaça para nossa tranqüilidade vem de fanáticos barbudos.

… mas não é.

Acontece que encontrei em algum canto da internet as imagens acima (vi algumas maravilhosas numa exposição do fotógrafo turco Göksin Sipahioglu, mas elas não estão em domínio público). Os distintos homens de gravata que aparecem aí são os temidos CRS que enfrentaram a fúria estudantil da Sorbonne em maio de 68. Lançaram bombas de gás lacrimogêneo, deram bordoadas em rapazes e moças, sendo que no começo nem sabiam ao certo o que estava acontecendo (um policial chega a relatar que a viatura recebia ordens contraditórias no caminho para as barricadas). Foram ironizados pelos slogans dos estudantes e acabaram caricaturados como soldados das SS nazistas, mas deram conta do recado. Nenhuma Bastilha caiu naquela primavera.

Esses sujeitos de olhar fuzilante e ameaçador eram os agentes da opressão nos violentos tempos de nossos pais, em que o equilíbrio do mundo ameaçava ruir por um sopro e a qualquer momento um líder mundial poderia decretar a aniquilação do planeta, como vemos em filmes como Dr. Fantástico (odeio essa tradução). E já que estamos nesse pé, eu me pergunto que aparência têm os agentes da ordem nesses nossos tempos sem “ameaça comunista”, em que os estudantes temem demais o desemprego para pensar em protestos, em que não há mais grupos armados de esquerda ou agentes soviéticos infiltrados. Pois bem, ei-los, os mesmos CRS, quarenta anos mais tarde:

Foram-se as gravatas, os paletós bem cortados, os elmos projetados por alguma estilista, os cassetetes de meio metro. No lugar, o que vemos são máscaras de gás, capacetes grossos, caneleiras acolchoadas, cassetetes com tasers, uniformes ultra-cibernéticos que, se me disserem que ricocheteiam balas, não vou duvidar. Os rapazes da fotografia, que, pensando bem, não deixam um centímetro de pele à mostra e bem poderiam ser andróides – com o perdão da analogia fantasiosa -, não foram enviados para alguma guerra distante, como salvadores do mundo ou dos valores democráticos ocidentais (ideais republicanos, diriam os franceses).

Todas essas imagens foram feitas em Paris, algumas durante manifestações de jovens do subúrbio contra o recentemente eleito Nicolas Sarkozy; outras durante as greves estudantis de 2005 contra uma reforma do sistema universitário que parecia projetada por Bush; e uma única por ocasião de um mui irônico evento em que os CRS foram chamados para dar uma coça nos bombeiros em greve: não parece uma guerra de ciborgues?

Bem se vê por essas imagens que, não, a polícia não está menos disposta a dar bordoadas do que há quarenta anos. Não, não estamos mais razoáveis. Não, o mundo não se tornou mais seguro. Não, o poder não se sente mais garantido. Não, não era apenas como resposta e prevenção ao perigo soviético que a polícia (e as forças armadas, por sinal) estavam de sobreaviso para dar cascudos. Não, as contradições não estão resolvidas. Não, ainda falta muito para que as pessoas deixem de ter contra o que protestar.

Revejo a caricatura dos CRS retratados como agentes das SS e sou tomado por sentimentos contraditórios. Por um lado, o respeito que sempre se deve à História, cujos fatos merecem ser apreendidos em sua própria dimensão, sem o olhar condescendente, mas distorcido, do futuro. Por outro, a impressão de que os batalhões de choque deste início de século são infinitamente mais parecidos com a SS em termos de violência do que os engravatados de quarenta anos atrás.

Por algum motivo, e essa questão é certamente mais importante do que pode parecer, a polícia sabe ser um instrumento de dissuasão até melhor do que naquele tempo. Tem mais poder de fogo, mais proteção e, a julgar pelas imagens em que três ou quatro policiais são necessários para segurar um manifestante, tem também mais efetivo. A princípio, isso parece estranho, considerando que o inimigo, ao que sabemos, abandonou o certame. Estamos carecas de saber que as atenções de quem tem por função “manter a ordem pública” estão há muito voltadas para outra direção, não mais os jovens rebeldes do Quartier Latin, mas os filhos de imigrantes do subúrbio. Já os estudantes, que outrora corriam o risco de se deixar abater em batalhas urbanas, não têm mais a mesma disposição para a briga. Certo dia, topei com alguns que tentaram bloquear a entrada de sua faculdade, ao norte de Paris: bastou a polícia chegar para que eles mesmos desfizessem a barreira. Se algum desses garotos for filho de alguém de 68, é certamente a vergonha da família.

A pergunta passa a ser, portanto: se a polícia não mudou de postura e até a intensificou, o que aconteceu do lado dos estudantes para que eles não se disponham a arriscar o pescoço em barricadas? Por que as tensões não chegam mais às vias de fato, ou antes chegam tão raramente, como foi neste ano na Grécia, cujos estudantes revoltados mereceram os aplausos e muitas pichações de apoio nos muros da França, feitas por estudantes que gostariam muito, mas não têm a mesma força de vontade?

Não tenho resposta para nenhuma dessas perguntas, mas o mero gesto de formulá-las talvez já ajude a esclarecer que há algo de muito profundo que diferencia os jovens de hoje dos de quarenta anos atrás. Eu gostaria de saber, por exemplo, o que fez com que uns fossem de um jeito e outros, de outro. Acho que a resposta passa pela noção de indústria cultural, mas isso, como já mencionei acima, é questão para outro texto.

Para uma lista de slogans de 1968, clique aqui.

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