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Peri ou Nascimento?

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“Não ambicionamos o prestígio de país conquistador e detestamos notoriamente as soluções violentas. Desejamos ser o povo mais brando e o mais comportado do mundo. Pugnamos constantemente pelos princípios tidos universalmente como os mais moderados e os mais racionais. (…) Tudo isso são feições bem características do nosso aparelhamento político, que se empenha em desarmar todas as expressões menos harmônicas de nossa sociedade, em negar toda espontaneidade nacional. O desequilíbrio singular que gera essa anomalia é patente (…).”

Sergio Buarque de Hollanda, Raízes do Brasil, capítulo 7: Nossa Revolução

“(…) São freqüentes, entre nós, os relapsos no furor selvagem, ou primitivo, de destruição, manifestando-se em assassinatos, saques, invasões de fazendas por cangaceiros: raro aquele dos nossos movimentos políticos ou cívicos em que não tenham ocorrido explosões desse furor recalcado ou comprimido em tempos normais.”

“É natural que na noção de propriedade como na de outros valores, morais e materiais, inclusive o da vida humana, seja ainda o Brasil um campo de conflito entre antagonismos os mais violentos. No tocante à propriedade, para nos fixarmos nesse ponto, entre o comunismo do ameríndio e a noção de propriedade privada do europeu. Entre o descendente do índio comunista, quase sem noção de posse individual, e o descendente do português particularista que até princípios do século XIX viveu, entre alarmes de corsários e ladrões, a enterrar dinheiro em botija, a esconder bens e valores em subterrâneos, a cercar-se de muros de pedra e estes, ainda por cima, ouriçados de cacos de vidro contra os gatunos.”

Gilberto Freyre, Casa Grande e Senzala

“Transformaram a ilha das Cobras num montão de ruínas, juncada de cadáveres. O governo matou legiões de marinheiros anistiados.”

Edmar Morel, A Revolta da Chibata

A válvula

Escrevo em um momento em que, no plano da grande política, o clima vai esfriando, enquanto a política quotidiana tenta formar seus modos de ação e decisão. Sintomas de esfriamento são: o Congresso perdeu o impulso de aprovar correndo algumas demandas mais fáceis vindas das ruas; a história da reforma política caiu num impasse que, pensando bem, merecia um comentário por si próprio; e o caso dos médicos estrangeiros tomou uma proporção maior do que merecia, dada a dimensão da energia liberada pelo confronto nas ruas. Nas ruas, pouco a pouco, experimentam-se as tentativas de formular um espaço comum entre as formas de mobilização tradicionais e as ainda incipientes; é assim que vejo, por exemplo, a greve de hoje, que acontece em paralelo a uma série de outros encontros e protestos: pela democratização da mídia, pela abertura das planilhas do transporte e assim por diante. Apesar do esfriamento na política oficial, o jogo da política, no campo molecular, mudou um pouco no Brasil. Idéias fervilham e desejos afloram. Organizações de todos os tipos se reúnem para discutir eventuais próximos passos. Um encontro desses, por exemplo, voltado à cultura, teve lugar no Teatro Oficina na segunda-feira. No mínimo, serviu para expor que a vontade de propor, de agir e de continuar construindo uma vida em conjunto jamais deixou de existir. A grande pergunta que sai de encontros como esse é: onde se pode avançar de fato?

Pessoalmente, eu diria que, de todos os temas e reivindicações que explodiram no espaço público no mês passado, o mais fértil para realmente produzir mudanças duradouras nos problemas do Brasil seja a questão da violência policial. Arrisco uma afirmação: se conseguirmos, de alguma maneira, romper um ciclo de violência e repressão totalmente fora de escala e desvinculado de qualquer legitimidade que não seja a mais brutal guerra de todos contra todos, em seguida, como numa reação em cadeia, obteremos ganhos no modo de operação de todas as demais áreas aventadas.

Espero conseguir argumentar aí abaixo duas coisas. A primeira: que a brutalidade policial é hoje, no Brasil (e cada vez mais no mundo) o óleo lubrificante que mantém “o sistema” funcionando da maneira como funciona: muito mal. Uso aqui “o sistema” no mesmo sentido em que ele aparece no primeiro filme Tropa de Elite. Foi muito interessante ver o sucesso que fez o Capitão Nascimento: com toda sua incorruptibilidade, Nascimento e seu Bope eram a válvula de escape das grandes falhas de um sistema corrompido, capaz de estourar em qualquer canto. E por que não estourava? Porque lá estava a eclusa de farda negra, o chocalho da panela de pressão do Brasil moderno, a garantia de que todos poderão se locupletar ao mesmo tempo, ainda que ao preço de experimentar um medo constante e abstrato. Honesto até a medula, o capitão Nascimento é a alegoria de um deus ex machina que garanta a cada um de nós a certeza de poder ser corrupto indefinidamente.

Acontece que não basta apontar o dedo para a polícia, declará-la violenta, deplorar seus excessos, seus assassinatos, seu relacionamento íntimo com as organizações criminosas que eventualmente enfrente por regulação ou por poder, o terror constante que impõe à população periférica… da qual colhe seus próprios praças. A segunda coisa que quero argumentar é: a violência policial é o ponto de convergência, uma espécie de nexo, ou, para usar um termo caro aos estatísticos, uma “proxy” da violência que é constitutiva do modo de vida brasileiro. Ou seja, a polícia é brutal porque o Brasil é brutal, e para que o Brasil seja brutal sem maiores sobressaltos. A brutalidade, a corrupção, a dominação, o latifúndio, se mantêm graças a diversos fatores, dentre os quais os exageros da polícia têm um papel axial. Resumindo, conquistar uma polícia que não seja brutal é a chave para conquistar um Brasil que não seja brutal, nem corrupto, nem ineficiente. Continuar lendo

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arte, Clara Nunes, crônica, música, prosa

A vida emoldurada

Torres Azuis Bizarras Noite San Giminiano
Ia andando pela rua dos fundos, atrás de um qualquer coisa que pudesse passar por jantar. Descia uma chuva de alfinete, vagarosa e desagradável. Ainda não era bem noite, mas já fazia escuro e parecia que a cidade se escondia. Todo mundo foge da temperatura que cai bruscamente; em vez de visitar os amigos ou a família, vale mais terminar o domingo com um filme da televisão. No meu caso, foi a necessidade que deu a última palavra. Comer é preciso. Saí. Para me proteger da água e das lâminas do ar, a manta grossa e, principalmente, a música que os fones de ouvido sussurravam.

Quando fiz a curva e embiquei pela rua maior, a faixa mudou. Os acordes em staccato de um cavaco e a voz de Clara Nunes fazendo um aperto de saudade no seu tamborim: Tristeza e Pé no Chão. No mesmo instante, deu-se alguma coisa. Fui invadido por um desconforto que não podia explicar, como se minha cabeça entrasse em conflito consigo mesma. Ou melhor, como se meu corpo visse o mundo à sua frente, mas se reconhecesse em outro canto, outro plano, outro universo. Estranha sensação, caminhar tremendo de frio por uma rua deserta e brilhosa, com tantãs e ganzás como trilha sonora, gingando na celebração de uma voz divina.

Culpa do aparelhinho que me atirava a música direto nos tímpanos. Quem segue seus caminhos ao som da pura realidade, buzinas, berros e motores desregulados, talvez não me entenda. Mas, palavra, é assim. Quando inventaram o walkman, o diskman, o celular que capta FM, o toca-fitas de carro e o famigerado iPod, inventaram ao mesmo tempo a vida com trilha sonora. Para muita gente, o próprio fato de existir passou a ser pontuado pelas emoções que melodias transmitem e batidas impõem.

Tanta gente no metrô com cabos pendurados, caindo pelos lados do pescoço como madeixas de plástico! São garotos, não têm a habilidade de controlar o volume. Um vagão inteiro submetido ao bate-estaca. Seus olhares se perdem no desprezo pelo universo, nem consigo supor que imagem podem ter do mundo, da cidade, das pessoas, enquadrados pela batida agressiva das pistas de dança. Não pode ser a mesma face que eu vejo, por trás de minha música diferente.

Meu caso começou como fuga. Tinha pânico dos vendilhões da Paulista, precisava de um pretexto para não escutar suas vozes, não precisar grunhir um “não” a cada passo. Certo dia, captei a Rádio Cultura pelo celular; examinar os rostos suados e sérios ao som do Stabat Mater de Pergolesi me incutiu a certeza de que todos à minha volta eram infelizes. Compreendi a profunda desgraça de todo aquele ambiente e quis escapar. Claro, a culpa não cabe inteira à música, mas ela tem parte.

Onde foi que li? Um ensaio sobre como mudou nossa relação com a música no último século. Pode ter sido Adorno, o do contra, ou Nikolaus Harnoncourt, ou qualquer outro. Primeiro foi o fonógrafo, que deu à humanidade o controle sobre as harmonias. Qualquer caixinha poderia tocar como uma orquestra. Depois, o rádio espalhou pelo mundo as mensagens sonoras determinadas por alguém em algum lugar, seja lá quem for. Pois era um certo encanto que se quebrava. Tirar melodias de um objeto inanimado perdeu seu verniz de mágica. A música, daí por diante, seria outra.

O golpe de misericórdia foi dado, com certeza, pelo cinema falado. “O grande culpado da transformação”, já dizia Noel Rosa, filósofo malgré soi. Na tela, a música enquadrou a vida real. O herói enlaça a mocinha ao som dos violinos, o assassino dá suas estocadas com um fundo de trítonos secos. O público se deixa envolver. O público somos nós. Nós acreditamos. E transferimos a necessidade de trilha sonora para nossa própria existência. Sem querer.

Daí meu estranhamento, na noite de domingo, enfrentando o frio e a chuva embalado pelo surdo, a cuíca e a voz de Clara Nunes. A máquina que eu trazia no bolso não entende nada. Não sabe escolher o fundo que se adequa por natureza a cada ocasião. Era momento para o quase silêncio de Eric Satie, as lamentações de Robert Johnson ou a cantilena da quinta Bachiana Brasileira de Villa-Lobos. Lágrimas na avenida, um desfile marcado para a quarta-feira? Impossível.

Só fui capaz de retornar ao corpo quando abandonei toda pretensão a uma trilha sonora. O mundo se recompôs, terrível como é: um silêncio de cripta gótica, motores à distância, o eterno chiado urbano que nunca sei de onde vem. Crueza e crueldade do ar que não vibra segundo o acordo das vozes. O ar desobediente que existe além dos meus fones.

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