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Pauta difusa e derrota, mais uma vez

Para finalmente dar meu palpite sobre o furacão que passou no Brasil nas duas últimas semanas, adotei dois princípios: pensar em termos conceituais, em vez de impressionistas, e começar do começo. Os motivos, espero, vão ficar claros ao longo do texto.

No começo, isto é, entre a porradaria geral da polícia e a primeira manifestação realmente gigantesca, a interpretação geral era de um “aqui também”. Até então, o país que realmente estava fervendo era a Turquia. Lá como cá, o primeiro vetor invocado para explicar a súbita capacidade de motivação foi o acesso às redes sociais. Ou seja, a Turquia e o Brasil seriam algo como um segundo tempo do animado ano de 2011, que teve Primavera Árabe, Occupy Wall Street, indignados na Espanha, manifestações em Israel, Chile e mais tantos outros países.

Mas eis que veio 2012, o ano da decepção: a Espanha, como o resto da Europa, seguiu com suas políticas de austeridade; na Grécia, o neonazismo ganhou terreno. No mundo árabe, os países sortudos se viram com governos religiosos e conservadores; os azarados, com guerra civil. O Occupy teve de se contentar em descobrir que não só Obama baixou a cabeça para Wall Street, como, no que tange aos direitos civis, estava na mesma linha de Bush. Derrotas, ao que parece.

Agora, 2013. Novos países entram na dança. Além da Turquia e do Brasil, Índia e Indonésia, além de, mais uma vez, os bravos chilenos, se colocam em movimento. Como sempre acontece, comparações pululam com o famoso maio de 1968, quando a greve geral francesa, somadas às manifestações dos estudantes franceses, se espalharam para o Leste Europeu, o México, o Brasil, antes de resultar em derrota e apatia.

Algo nessa comparação, porém, não se encaixa. Em 1968, o que houve de efetivo, como a greve que, sem eufemismos, parou a economia da França, foi comandado pelos fortíssimos sindicatos da época, um tempo de mobilização industrial e partidos de esquerda poderosos. Os caminhos para se chegar aos objetivos, fossem quais fossem as pautas de cada grupo social envolvido, à exceção provável dos estudantes, estavam bem traçados, até onde podiam divisar os envolvidos.

Hoje, não há nada disso. Em 2011, os árabes queriam derrubar seus ditadores. E depois? Os espanhóis queriam mandar embora o neoliberalismo… e mais o quê? Os novaiorquinos eram contra a plutocracia, como quase todo mundo. E assim por diante. No Brasil, as manifestações mais ou menos pequenas contra a cara de pau do transporte público se expandiram da noite para o dia numa maçaroca de gente despolitizada que protesta contra conceitos abstratos como a corrupção, mas não quer saber de questões concretas como… a corrupção do oligopólio do transporte. Com isso, as mesmas críticas endereçadas aos indignados e ao Occupy voltaram: as pautas são difusas, as pessoas não propõem nada de concreto. Continuar lendo

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As maravilhas de domingo

Este fim-de-semana foi pródigo em leituras excelentes na blogosfera. Minha avó dizia que diante da voz da sabedoria, o esperto escuta e o tolo responde. Subscrevo, acrescentando que na era dos links, além de escutar, podemos passar adiante. Pois! Seguem aí os melhores posts que li nesses dias.

(O fato de ter comentado em alguns deles faz de mim um tolo, na acepção da minha avó?)

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Cesar Kiraly, em seu Modos de Fazer Mundos, às vezes posta filosofia, às vezes poesia. Mas tem dias em que ele resolve fazer as duas coisas de uma vez só. Aí não tem quem segure. Uma imagem pontiaguda da visibilidade das revoluções e a singularidade deste nosso zoon politikon.

Se Godard, como diz o texto, cria sentidos sobre as imagens do cinema, sobre um cinema criador de imagens, Rodrigo Cássio se cria em cima de Godard.

A revolução no mundo árabe é um evento profundamente singular. Sem isso, não seria revolução. Eu gostaria de desenvolver um pouco essa ideia, mas isso se tornou desnecessário: quem viu de dentro essa sigularidade, como Mohamed Bamyeh, já deixou isso suficientemente claro.

Hugo Albuquerque explicita que, se viver em São Paulo é infernal, não o é à toa.

Esta carta aberta de Ana Maria Gonçalves a Ziraldo já fez bastante barulho internet afora. Merece um pouco mais. Esses (muitos) parágrafos me deixaram com vergonha do texto que escrevi para o Amálgama sobre O Presidente Negro, achando que estava fazendo uma crítica ao Monteiro Lobato. Há! Pobre de mim.

Este texto é mais velhinho, mas aproveito o ensejo. Carlos Magalhães abre a cortina do nosso cenário escravocrata, em plena urbanidade pós-moderna e assim por diante.

Este aqui, de Fabiano Camilo, é mais velho ainda. Que importe? Tem de ser lido. Sobre a visibilidade do homossexual na televisão brasileira e, por extensão, no Brasil.

E paro por aqui,

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O Senhor do Universo

Nos primeiros dias, o Senhor do Universo me cumprimentava friamente. Foi se abrindo aos poucos, mas em poucas semanas já me recebia com o sorriso desinibido. Isso era mais do que um sinal de apreço: quando ele cumprimenta alguém, é cumprimento sério. O que estiver fazendo, o Senhor do Universo interrompe, mesmo que seja uma frase, enquanto dá seu aperto de mão firme, olhos sempre nos olhos.

Certa vez, nos longos períodos de espera, ele me relatou como o incomodava a indiferença ocidental para com a saudação. Cerra-se a mão e o assunto continua. O contato da pele foi mera formalidade, como bater ponto. Depois dessa confidência, passei a reparar na má vontade com que ele osculava as moças, dobrado ao costume local mas sempre recalcitrante. O beijo, tal como ele o entende, é intimidade, deveria ser reservado para a família e os amigos muito próximos, não para colegas de trabalho.

Sendo assim, eu me policiava ao lhe estender a mão. Não queria magoá-lo se, num deslize, comentasse em hora imprópria que o tempo estava feio. Durante o cumprimento, travestia um ar sério e mirava bem nos olhos do Senhor do Universo. Penso que ele me respeitava justamente por isso. E me estimava, na condição de único que tinha consideração por seus conceitos. Certa vez, a proprietária comentou comigo, mal disfarçando o despeito, que em três anos de convivência não tinha ouvido metade do que eu sabia sobre a vida dele. Certamente era verdade. Ela nem desconfiava, por exemplo, de que ele é o Senhor do Universo.

Não era difícil perceber a razão do segredo. O Senhor do Universo, que naturalmente não suporta a desonestidade, estava convencido de que ela burlava o fisco e errava de propósito o cálculo da hora extra dos subordinados. Verifiquei, depois, que ele tinha razão, mas pouco importa. Fato é que ela lhe perguntava da família e ele dizia friamente que iam bem, a filha recém-nascida e a esposa com dificuldades de adaptação ao novo país. O diálogo avançava muito pouco, mas como ele fazia o serviço corretamente, não corria risco de perder o emprego. Comigo, falava apenas em inglês, código incompreensível para a gaulesa monoglota que pagava nosso salário.

Eis sua rotina. Chega mais cedo, corta as batatas e põe as rodelas no forno. Separa as carnes, as verduras, os temperos, veste seu avental sempre impecável, termina tudo sempre muito antes de chegarem os clientes. Eu entrava com o pão, saía com as toalhas e talheres; enquanto punha as mesas, via-o puxar a agenda e escrevinhar, muito concentrado. O Senhor do Universo, se pudesse ter escolhido, viveria da poesia, que eu ia esguelhar, mais tarde, quando tinha de anotar alguma reserva. Os versos, eu não compreendia. Meu deleite era contemplar as curvas do estranho alfabeto, que me faziam lembrar os arabescos do Taj Mahal, na caligrafia caprichada e miúda de meu colega.

Certa vez, ele me traduziu um dos poemas. Era um epigrama que dizia algo assim: “As pessoas vêem as flores do caminho e dizem: ‘que belas’! Mas logo esquecem”. No original, soava bem. Em seguida, pediu que eu traduzisse algo do português. Escolhi Fernando Pessoa, mas pareceu não tocá-lo, a não ser pelo trecho em que “Deus ao mar o perigo e o abismo deu / Mas nele é que espelhou o céu.” Foi uma noite poética. A centenas de quilômetros do oceano, esses versos foram repetidos diversas vezes, em inglês improvisado, para fixar.

O Senhor do Universo, na verdade, era jornalista. Com seu senso aguçado de justiça, escolheu a editoria mais arriscada para trabalhar. Num país instável como o Bangladesh, onde nasceu e por quem é fervoroso patriota, produzia matérias de política. Soube disso no meio de uma noite tediosa, em que nosso restaurante deu prejuízo, porque não apareceu um cliente sequer. Restou ao garçom brasileiro e ao cozinheiro bengali beber e falar da vida, cada um de seu lado do balcão. Ouvi todo o relato, contado com uma frieza que me pareceu insólita. Uma série de matérias sobre um partido radical islâmico, que cooptava jovens camponeses, acabou lhe rendendo um sequestro. Uma servente, arriscando a própria vida pelo jovem inocente, o libertou e lhe aconselhou a fuga. O repórter não pôde passar em casa, nem telefonar para a família aflita. Sem dinheiro ou documentos, conseguiu, nem sabe como, chegar à Índia, onde amigos o acolheram e enviaram para a Itália. De lá, passou para a França, exilado, empobrecido e desempregado.

Isso aconteceu há sete anos. Desde então, o Senhor do Universo aprendeu o francês, empregou-se primeiro como pizzaiolo, depois como cozinheiro de um restaurante típico de uma região chamada Ariège, de que eu nunca tinha ouvido falar antes de me empregar ali. Ele tampouco, evidentemente. Muçulmano, mas vagamente praticante, não se alimenta das carnes que passa a noite preparando, mas afirma que o motivo seja menos a religião e mais o paladar. Qualquer comida é intragável para ele se não leva curry, então o que o salvou da inanição foi a chegada da esposa, há dois anos, para acompanhá-lo e cozinhar seu jantar de todo dia. Assim, enquanto eu me refestelava com o pato ou o ensopado que ele preparou, o Senhor do Universo se recolhia com os potes de plástico trazidos de casa. Calado, mastigava o frango ao curry, o arroz ao curry, os legumes ao curry, o curry ao curry.

Quando não discorria sobre poesia ou a política de seu país, ele reclamava da sujeira de Paris e da preguiça dos fornecedores, com quem não raro discutia ao telefone, em seu francês agudo e quase incompreensível. Sonhava, aliás ainda sonha, em se transferir para a Inglaterra, onde espera conseguir retomar a carreira jornalística no idioma ocidental que melhor conhece. Acaba de obter a cidadania francesa, pode circular pela Europa o quanto quiser, mas não é tão fácil mudar de país, com a família dependente de seu salário.

Enquanto trabalhei com ele, eu não sabia que se tratava do Senhor do Universo. Para mim, era um sujeito de valor, castigado pela injustiça do mundo, mas orgulhoso demais para se queixar. Eu ficava inconformado, vendo-o arear as panelas antes de partir, de madrugada, um poeta que atravessou o mundo para escapar da perseguição política, um profissional honesto e idealista reduzido a imigrante, um espírito mal aproveitado por um espécie humana incapaz. Tentei convencê-lo a publicar suas memórias, já escritas. Ofereci ajuda na tradução e na procura por uma editora ou um agente.

A idéia fez brilharem seus olhos, mas ele estava cansado demais para perseguir a glória literária. Uma vez, findo o expediente, reparei nos esgares que ele produzia na tentativa de se calçar, sentado ao lado da porta. Conseguiu, mas suspirou. À luz amarelada que entrava pela janela, pude notar o desânimo em seu rosto. Por algum motivo, guardei silêncio. Ao contrário, foi ele que comentou, quase suspirando, que trabalho em restaurante é para gente jovem e forte. Antes que eu respondesse, ele soltou uma risada breve e amarga, emendada numa pergunta: se meu nome tinha algum significado. Respondi dando de ombros, incerto. Oliveira é uma árvore; Viana, não sei, mas é uma cidade portuguesa; Diego é uma das infinitas variações de um nome bíblico pouco lisonjeiro, o gêmeo invejoso.

Antes de me explicar seu próprio nome, ele alçou a cabeça como se fosse olhar em volta. Mas não seria preciso examinar aquele restaurante de vinte e poucos lugares, que tão pouca importância dava às exigências da higiene. O clima já se bastava em melancolia, com a penumbra, a chuva manhosa, o vento frio. Então ele traduziu seu próprio nome, rindo da minha reação de surpresa. Apesar de sorrir e me fazer de incrédulo, eu me enchi de tristeza. Que mundo sarcástico, que mundo cruel, pensei, este em que pode estar oculto num recanto ignóbil o Senhor do Universo.

* * *

PS: A propósito, ele tem um blog (um pouco desatualizado, porém). Para quem conseguir decifrar o alfabeto e a língua, eis o endereço: http://sarwarealam.blogspot.com

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A mais monstruosa das guerras

Há noventa anos, hoje, terminou a mais monstruosa das guerras.

Depois de todas as atrocidades cometidas sob o jugo ensandecido de Hitler, poderia parecer que a Segunda Guerra Mundial mereceria esse título, mas não. O que os nazistas fizeram de monstruoso enquanto tiveram o poder na Alemanha foi, de certa forma, paralelo ao conflito: campos de concentração e extermínio, perseguição a minorias, o reino do terror no país em que outrora caminharam e escreveram Kant e Leibniz. Na Ásia, mesma coisa: os grandes crimes das forças imperiais do Japão na China e na Coréia foram cometidos contra populações civis, quando os combates propriamente ditos já haviam sido ganhos. Uma covardia ainda maior do que qualquer embate militar. A guerra em si, porém, tolheu a vida do melhor da juventude de diversos países, arrasou cidades inteiras e desestruturou famílias e povos. Episódios hediondos houve, claro, como o bombardeio de Dresden e as bombas de Hiroshima e Nagasaki. Mesmo assim, insisto em dizer que a Primeira Grande Guerra foi mais monstruosa.

Todo o rancor que atirou o mundo no segundo e mais abjeto conflito teve seu início nas trincheiras de 14-18, ou melhor, nos gabinetes de Paris, Berlim, Londres, Viena etc., onde grandes dignitários decidiam que os homens de seus países deveriam mofar nesses buracos infectos cavados na terra. Foi o primeiro conflito em que o inimigo, de ambos os lados, foi demonizado pela propaganda de massa ainda um tanto incipiente. Os cartazes, as emissões de rádio, os folhetos que se distribuíam nos países envolvidos criaram, pela primeira vez, uma sensação confusa de aversão generalizada aos demais povos, um nacionalismo negativo cujas conseqüências foram sentidas na carne pelas duas gerações seguintes.

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O primeiro bombardeio aéreo surgiu em 1914, com zepelins alemães atacando a até então neutra Bélgica. Morreram nove civis, os primeiros de milhões que seriam massacrados por bombas e mísseis atirados de aviões e lançadores distantes. Nove corpos estraçalhados sem que os algozes nem sequer vissem o resultado de sua ação. O uso irrestrito da metralhadora, o tanque de guerra, a granada de mão, o gás de mostarda, os genocídios e as máscaras assustadoras que o acompanham são o legado mais evidente do confronto, que terminou com 40 milhões de pessoas a menos neste mundo.

Mas nem mesmo essas invenções abjetas são o resultado mais importante do terremoto de 14-18. Com a mesma força das infecções que ratos e esgotos da trincheira transmitiam aos soldados, era corroída a estrutura do militarismo aristocrático, algo romântico, em que a guerra manifestava a grandeza secular dos povos e dos reis. Os limites da corrida colonialista também foram escancarados pelas escaramuças que tiveram lugar em três continentes ao mesmo tempo. Quatro monarquias milenares desapareceram: os Romanov, os Habsburg, os Hohenzollern, os Otomanos. Com elas, o mito da guerra nobre, que levara Otto von Bismarck a receber em sua tenda o derrotado e capturado Napoleão III em 1870, foi enterrado por Georges Clemenceau e outros líderes mais modernos e pragmáticos: a partir de 1918, uma derrota deixou de ser apenas uma derrota. Teria de ser uma humilhação.

Foi uma guerra que teve um estranho começo: o sistema de alianças e tratados era tão intrincado que ninguém sabia de que lado um país entraria. Todos os envolvidos tinham planos para uma vitória relâmpago, como o alemão Schlieffen, o francês XVII e o russo 19. Todos falharam: as técnicas defensivas eram muito mais desenvolvidas que as ofensivas, qualquer tentativa de avançar era um suicídio, os exércitos de ambos os lados logo aprenderam a cavar a terra e esperar os acontecimentos. Isso, no front ocidental. Na Rússia, a administração czarista era tão incompetente para alimentar seus soldados que Lênin e Trotski fizeram a revolução.

E a guerra teve também um estranho final: a forma como se deu a rendição do império alemão, já convertido em república, apesar de não haver um único soldado estrangeiro em seu território. Esse curioso fato é fundamental para entender o horror que a Europa e, por extensão, o mundo viveriam vinte anos mais tarde. A capitulação da Alemanha, claramente derrotada, mas não aniquilada, foi o último ato de guerra que se possa considerar militarmente normal. Mas demonstra a falta de compreensão do que tinha se tornado o mundo.

Quando os americanos entraram no conflito, ao lado dos aliados, tanto a França quanto a Alemanha estavam à beira do esgotamento, do colapso e da revolução comunista que já tinha varrido a Rússia. O que os alemães, ainda muito apegados à idéia de aristocracia, nobreza e sacralidade militar, não tinham entendido é que a guerra massiva, industrial e monopolista não deixava mais lugar aos tratados de paz do século anterior. A França, ao contrário, compreendeu perfeitamente. Governados por Georges Clemenceau e comandados pelo marechal Foch, os franceses inventaram um conceito, mais um, que se tornaria um símbolo da insanidade bélica no confronto seguinte, na aplicação de Hitler: a “guerra total”. Morreremos de fome, esgotaremos nossos recursos, deixaremos de ser uma grande potência, mas não perderemos esta guerra.

A guerra total foi uma decorrência lógica de um mundo de produtividade absoluta, lucratividade extrema e formação de monopólios e cartéis. As democracias ocidentais sabiam disso, porque viviam mais intensamente o capitalismo à la Rockefeller, enquanto as potências centrais, sobretudo a Áustria, ainda pensavam como grandes impérios aristocráticos que eram. Mesmo a Alemanha, cuja produção industrial já superava em muito a britânica, não captou os novos ventos. Perdeu por isso, o que lhe custou uma humilhação desnecessária e a ascensão do regime de terror mais intenso que o mundo já viu. (Atenção: “mais intenso” é diferente de “maior”.)

A monstruosidade da Primeira Guerra Mundial pagou seu preço na Segunda: foi uma paga de mais monstruosidade ainda. O rancor francês de 1870 foi transferido para a Alemanha. A guerra total foi levada às últimas conseqüências por Hitler. Mais algumas dezenas de milhões de vidas foram apagadas do mapa. Nos anos 30, a dita comunidade internacional foi incapaz de deter os avanços dos nazistas sobre os territórios vizinhos pelo simples motivo de que, freqüentemente, acreditava-se que eles tinham razão em reclamar reparações pelas injustiças impostas no tratado de Versalhes (de 1919) por uma França amedrontada com o poderio do vizinho, embora derrotado. Tamanhos eram o rancor e o ódio, que o famoso e maldito ditador alemão exigiu assinar a rendição da França, em 1940, no mesmo vagão do mesmo trem, no mesmo ponto da mesma linha férrea em que foi assinado o armistício de 1918, em Compiègne. Depois, o vagão foi levado para a Alemanha e queimado. Hoje, há um museu na pequena cidade da Champagne com uma réplica exata do tal vagão.

Nicolas Sarkozy anunciou que as celebrações pela vitória de 1918, este ano, vão abandonar o cretino tom triunfalista e se concentrar mais na memória das vítimas da estupidez humana. Mortos, mutilados, órfãos, miseráveis. A biblioteca de Leuven, com 230 mil volumes, destruída pelos alemães. Os armênios, que a Turquia tentou varrer do mapa. Os australianos e neozelandeses enviados pelo comando militar britânico para o suicídio no estreito de Dardanelos, na Turquia. Tudo isso, naquela que deveria ser “a guerra para acabar com todas as guerras”.

Sarko tem razão. Não há vitória nenhuma quando 40 milhões de pessoas morrem e um continente é transformado em barril de pólvora, tão perigoso que, ao estourar após menos de 30 anos, mais 60 milhões de almas seriam aniquiladas. Ao lembrar de uma guerra como essa, devemos ter em mente o quanto a humanidade pode ser atroz e monstruosa, mesmo quando se considera no ápice da civilização, como acreditavam os europeus da belle époque.

PS1: Sobre o fim da cordialidade militar, da era vitoriana e do respeito ao inimigo, recomendo este antigo texto do blog de Rafael Galvão.

PS2: A referência mais imprescindível para entender como foi monstruosa a Primeira Guerra, em que os soldados eram tratados como meros pedaços de carne pelos comandantes, é evidentemente Paths of Glory (Glória feita de sangue), de Stanley Kubrick.

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Da urna aos muros

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Quarta-feira, cinco de novembro, oito horas da noite. Entranhas da Gare Saint-Lazare, estação do oitavo arrondissement de Paris. Uma mulher de meia-idade, cabelos brancos e bem curtos, destaca-se da multidão, quase despercebida. Ela escreve com uma caneta pilot negra sobre o fundo branco de um painel publicitário, em movimentos tranqüilos e seguros. Ninguém a incomoda.

Tendo-a avistado à distância, logo penso se tratar de um membro do grupo anarquista que ataca propagandas por toda a cidade, na missão de denunciar o consumismo e a lavagem cerebral. Mas é uma surpresa: eu pensava que os ativistas underground fossem todos muito jovens. Ao menos o são os que, vez em quando, acabam apanhados pela segurança e sofrem processos por dano a propriedade.

A corrente de viajantes vai passando aos encontrões, sem espiar a mulher resoluta em seu discreto vandalismo. Um fluxo penoso, sem ritmo, mil rumos sem direção. Como sangue empurrado por um coração fora de compasso.

Entre pastas, meias de seda e capotes, só uma pessoa interrompe a marcha para ler a mensagem: outra mulher de meia-idade, mas de cabelos anelados, tingidos de vermelho berrante.

Quando a ativista termina seu texto, estou quase perto o bastante para ler. A fulva espectadora sorri de leve. A autora anui de um gesto brusco da cabeça. Um sorriso e ela tampa a caneta. Está claramente satisfeita com o serviço. Pode voltar a seu caminho.

Já estou bastante próximo para enxergar a mensagem. Sobre o anúncio de sapatos elegantes, lê-se:

À quand un Obama ici?

Uma constatação de como a onda azul está espalhada pelo mundo. A onda que venceu, como não venceu a verde, de Gabeira, no Rio. A francesa engajada, figura tão peculiar deste país, queria um Obama para seu país.

Nações diferentes, histórias diferentes, contextos diferentes. Um Obama na França teria de cair realmente do céu, mas pouco importa. A grafiteira do metrô não quer um presidente jovem, inteligente, carismático e negro.

Ela quer o símbolo, a imagem. O Obama dos cartazes, não o do Salão Oval. Ela quer o nome ao qual está associado tudo que se pode esperar de bom e revolucionário neste nosso começo de século, que parecia tão conformista e reacionário.

“Quando teremos um Obama aqui?”, ela quer saber.

Minha senhora, nesse sentido em que a senhora está pensando, já temos.

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Houellebecq e sua ilha

Acabou de sair por aqui um filme dirigido por Michel Houellebecq. Fiquei curioso para vê-lo, embora a somatória de todos os trechos seus que li não dê um livro inteiro. E não li por birra, simplesmente. Sempre tive a impressão de que seu jeito polêmico era forçado. A antipatia é uma das estratégias de marketing mais exploradas pelos autores hodiernos, não me pergunte a razão. Temendo que minha opinião sobre o escritor contaminasse minhas impressões sobre sua obra, me abstive de abrir um volume de Houellebecq. Mas fui ver o filme, graças a uma promoção de início de outono que atirou lá para baixo o preço dos ingressos de cinema em Paris. Passamos a tarde inteira de domingo entrando e saindo de salas de exibição, numa maratona que começou com uma comédia musical americana e terminou com uma ficção científica metida a conto filosófico. Se o sentido tivesse sido o oposto, talvez tivéssemos dormido melhor, mas o fato é que fechamos a noite com as imagens desiludidas de A possibilidade de uma ilha (La possibilité d’une île).

Em poucas palavras, o que para alguns é fundamental, mas para mim não tem importância alguma: o filme é bom? Não chega a ser. A ironia amarga da prosa de Houellebecq mal dá o ar de sua graça, assim como a condensação do tempo e da identidade individual, pedra de toque do livro que deu origem ao filme. As personagens não têm carisma, ao contrário do livro, em que mesmo o grande líder religioso é um cínico desiludido. (Antes que me pergunte como sei disso, se não li o livro: folheei-o.)

Agora que estou livre da obrigação de avaliar o filme, posso entrar nos assuntos muito mais interessantes que ele pode gerar. Em primeiro lugar, fico imensamente feliz de saber que ainda é possível fazer filmes assim. Uma linguagem longe do convencional, longos planos e pausas, atores imóveis, ângulos oblíquos, cortes inesperados. Como nos bons tempos do cinema. É verdade que, apesar das entradas quase gratuitas, a pequena sala estava praticamente vazia. Não mais de oito pessoas, enquanto no tal musical americano (muito divertido, por sinal) saía gente pelo ladrão de uma sala muitas vezes maior. Mas isso não quer dizer nada. Bem ou mal, Houellebecq conseguiu dinheiro para adaptar seu próprio livro da maneira como bem entendesse, e isso é sinal de que ainda existe alguém disposto a investir nas empreitadas arriscadas. Certo dia, alguém deu uma soma considerável na mão de Fellini para ele imprimir no celulóide seus sonhos absurdos. Não sei quem foi o empresário visionário, mas garanto que ficou rico. Tampouco sei quando surgiu o consenso de que o público é formado única e exclusivamente por gente sem imaginação e dopada pelas fórmulas consagradas de Hollywood. Só sei que é uma lástima.

Mesmo não sendo o caso de Houellebecq, existe uma legião de cineastas cheios de boas idéias e muito talento, jovens, arrojados, inventivos, sedentos por uns caraminguás para rodar o primeiro longa. Esse pessoal não é invenção minha, qualquer festival de curta-metragens revela um caminhão de gente interessante. Entre eles e as obras-primas da próxima geração, o único obstáculo é o investidor, que precisa perder o medo do fracasso, para aprender a apostar no longo prazo. Foi assim que os empreendedores do passado ficaram ricos; não foi pela repetição temerosa de velhas fórmulas cansadas e disseminadas ad nauseam.

* * *

Agora, ao segundo ponto que eu gostaria de levantar. Dizem que Houellebecq tem uma personalidade desprezível. Eu não teria como avaliar. Mas é certo que uma das coisas interessantes sobre sua obra literária é a dificuldade de distinguir o que é opinião sua e o que é pensamento das personagens. Os protagonistas de seus livros costumam ser pessoas vis, baixas, rasteiras, vulgares, cínicas, inescrupulosas e por aí vai. Mas a tinta consegue, com o concurso de uma certa habilidade estilística, misturar os traços de forma tão indiscernível, que idéias e conceitos passam por entre os dedos do julgamento, como areia fina. É Houellebecq o racista, ou seu herói? Autor ou personagem, qual é o cretino? São exemplos das discussões que os literatos gostam de ter a respeito do escritor.

Pois bem, acontece que o próprio escritor resolveu colocar na tela um de seus livros. Deve ser o sonho de muitos artistas, imagino. É muito raro que um filme seja melhor do que o livro de que é adaptação, a não ser nos casos em que o texto original é um romance de quinta, e a resultante cinematográfica, uma obra-prima. É o caso de Psicose, por exemplo. No mais das vezes, vale mais a pena perder uns dias sobre o papel do que um par de horas diante da tela. Logo, o melhor é criar algo inteiramente diferente do original, que não possa ser comparado a ele, que provoque no máximo uma ligeira reminiscência.

É que, dizem, uma imagem vale por mil palavras. Eu estaria mais inclinado a considerar que uma imagem vale por uma imagem; uma palavra, por uma palavra. São linguagens que atingem campos diferentes da nossa sensibilidade. Uma cena não é o mesmo que a descrição da cena, nem é o mesmo que sua representação. Assim, alguém que assista a um filme com a cabeça de um leitor está fadado a não compreender absolutamente nada do que tem pela frente.

É nessa distinção que Houellebecq entrega o ouro. A grande vantagem do texto escrito é que, embora demore muito mais tempo para ser absorvido do que o visual, deixa sempre um espaço enorme para a imaginação. Por mais detalhada que seja uma descrição, ela não entrega pronta a figura descrita, como acontece na tela. Determinadas idiossincrasias do autor conseguem manter-se veladas, se for essa sua intenção. A imagem exige cuidados maiores. A escolha dos atores tende a reproduzir os mecanismos inconscientes de quem os escolheu, e no caso de A possibilidade de uma ilha, o diretor é o próprio escritor. Paisagens, cores, cortes, tudo isso é parte do discurso, tanto quanto vírgulas, parágrafos e capítulos no romance original. É possível ler através desses detalhes.

Não sei como explicar, para alguém que não o viu e provavelmente não o verá, o que o filme deixa revelar, provavelmente sem querer. Chego a imaginar, também, que posso ter projetado minhas próprias opiniões sobre a obra; isso não é de todo impossível. Mas, ressalvas à parte, o tom decadentista de Houellebecq parece desnudar-se inteiramente. Revela-se, como eu desconfiava, forçado. Tive a impressão de que o autor não acredita em seus próprios argumentos.

A desolação que as paisagens deveriam transmitir parecem estar só na reiteração dos horizontes calcinados, enfileirados sem sentido, incapazes de tocar o espectador. A acidez do protagonista, interpretado por Benoît Magimel (que já encarnou Luís XIV), parece vir mais de sua fisionomia peculiar do que de sua postura diante dos fatos que presencia.

A heroína silenciosa, cujo clone vagueia por terras inóspitas após o desaparecimento da humanidade, faz um esforço enorme para expressar seu desespero. Mas não é fácil, sobretudo se comparamos sua situação à do clone do protagonista, que passeia em filosofices verborrágicas por campos e vales, acompanhado de um cãozinho muito simpático. Não estou querendo corroborar a idéia de que Houellebecq seja racista por fazer cair repetidamente sua protagonista negra, seminua, ao chão de um deserto, sem lhe dar ao menos uma fala para mostrar seu trabalho de atriz, enquanto o rapaz esbelto, louro e culto paira sobre a desgraça humana com um belo terno negro e um cajado, falando sem parar. Mas é difícil entender por que tanta desigualdade, mesmo depois que acabou o sistema capitalista.

Não quero demover os amantes da literatura de uma ida ao cinema para ver A possibilidade de uma ilha. Pelo contrário, apesar de todos os defeitos que eu acreditei encontrar no filme, o fato de que ele exista é um acontecimento a ser aplaudido. Ademais, para quem gosta mesmo de livros, de Houellebecq ou não, é uma oportunidade rara ver como um autor adapta sua própria obra para a tela.

PS: Para quem lê em francês, eis uma discussão interessante sobre o filme.

E outra aqui, indicação de Bruno Carmelo.

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