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A aposta de Varoufakis

ada colau

3) Do avesso

Isso posto, resta explicar o que tem a ver toda essa discussão sobre o fascismo com as agruras da democracia, grega ou não. Para começar, nosso modo de falar em democracia é infiel à própria democracia. Quando pensamos em democracia, o que vem à mente são eleições livres, com sufrágio universal, partidos políticos, movimentos sociais, representação sindical, pesquisas de opinião, um Judiciário independente, um Legislativo atuante, liberdade de imprensa. Em cada um desses pontos, não há um instante sequer em que o edifício como um todo não esteja sob ameaça. Mas se a democracia está constantemente sob ameaça, ininterruptamente seqüestrada, será que essa ameaça não compõe a própria idéia de democracia?

O pulo do gato é que satisfazer-se com a idéia de que um regime de governo estável corresponde automaticamente à presença da democracia implica colocá-la imediatamente na posição de “ordem”, o que é no mínimo uma hipóstase e no máximo o próprio mecanismo pelo qual ela se deixa capturar por poderes totalizantes. A ordem que as aristocracias tanto defendem, a ponto de precisar de uma carga muito limitada de hesitações para aliar-se a grupos fascistizantes (ou abertamente fascistas, sejamos claros), passa a ser defendida, e por motivos muito semelhantes, não mais pelos aristocratas, mas pelos democratas.

Os democratas se tornam assim os baluartes do que enxergam como uma ordem atacada por todos os lados e, quando vemos, não conseguimos mais distingui-los dos próprios aristocratas… O que é embaraçoso, porque pode obrigá-los a se aproximar… de quem? Ora, daqueles que, apesar de seus métodos brutais e idéias belicosas, são também, por princípio, defensores da ordem em que cresceram: aqueles mesmos proto-fascistas de que falamos acima. Ainda são democratas? Nunca foram? Ou será que, no limite, o democrata é só uma imagem, um modelo, uma idéia?

Nessa enorme salada, o ponto a que se pode chegar, extrapolando a tendência, é aquele em que aristocratas, democratas, plutocratas, tecnocratas, fascistas, populistas, comunistas (cuja recaída nessa narrativa da ordem foi vertiginosa e mais do que trágica no século XX, e que parecem não conseguir se libertar dessa areia movediça), trocam de cadeiras constantemente, sem saber qual é ao certo seu lugar na mesa.

Assistimos a uma complicação dessa salada pelo menos desde 2001, com o famoso 11 de setembro. Que ameaça pode ser mais grave e urgente contra a democracia do que o terrorismo internacional, organizado, que joga aviões contra prédios em nome do ódio aos valores ocidentais – a liberdade, a democracia e tudo que vient avec? O combate a esse grande perigo não exige as medidas mais severas para defender a segurança dos cidadãos livres? Não cabe a um bom governo garantir essa segurança ali onde se conquistaram liberdades? E por aí vai.

Parece paradoxal que a defesa das liberdades democráticas tenha resultado no “Patriot Act”, na espionagem da NSA denunciada por Edward Snowden, nos abusos de poder em aeroportos, na militarização das polícias (processo muito evidente nos países desenvolvidos, um pouco menos no Brasil, onde a polícia sempre foi militarizada), na supressão de direitos. Não custa lembrar que a sensação de segurança é um engodo. Com a ascensão do Estado Islâmico, ainda por cima, o clamor por mais repressão e vigilância em nome da “defesa das liberdades” só cresceu, e o ataque ao Charlie Hebdo foi a gota d’água, abrindo a última tampa de xenofobia e sectarismo que porventura ainda estivesse fechada – mas sobre isso já escrevi.

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4 comentários sobre “A aposta de Varoufakis

  1. Pingback: Lendo sobre a Grécia | Blog Pra falar de coisas

  2. Delair disse:

    Acho que tu consegues captar boa parte da complexidade da situação, tanto é que é difícil apreender esse ensaio com uma única leitura.
    Só uma coisa que percebi, e fiquei pensando, essa frase “Há muitas maneiras de seqüestrar a democracia sem instaurar uma democracia.” Não seria sem instaurar uma ditadura?
    Valeu, Diego, em breve vou reler esse texto.

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  3. Pingback: Naturam expellas (parte 4) | Para ler sem olhar

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