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A aposta de Varoufakis

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4) Parte abstrata: pule sem dó

O grande problema é que estamos acostumados a julgar nossa realidade a partir de objetos aos quais se possa atribuir ou deixar de atribuir alguma qualidade. No entanto, não existe nenhum objeto, nenhum corpo, nenhuma legislação, nenhuma construção teórica, que se possa apontar e dizer: “isto aqui corresponde ao conceito de democracia”. Ou, mais simplesmente: “é isto a democracia”. A expressão “regime democrático” não é uma descrição, mas a expressão de uma expectativa; melhor dizendo, de uma esperança. Temos tendência a pensar que a democracia se define como o regime em que “o governo não está acima dos cidadãos”, mas essa definição se contradiz por dois motivos.

Primeiro, se há governo, é porque uma parte conduz outra parte – esse é o sentido etimológico do termo “governo”, que vem de kubernetes, o timoneiro que governa um navio; esse radical também se encontra, aliás, na palavra cibernética, cujos pais, Norbert Wiener em particular, sonhavam em criar uma ciência que descrevesse o governo tanto das máquinas quanto dos organismos vivos e, finalmente, da sociedade… Segundo, porque nossa tendência automática e equivocada, hoje, é assimilar “governo” a “Estado”. Mas somos governados por mil outras coisas, a começar pelas óbvias: religiões, grupos armados, potências estrangeiras, instituições multilaterais, vozes midiáticas, o sistema financeiro… E outros menos evidentes: tradições, condições meteorológicas, a morfologia urbana. Mas isso também está além do escopo do texto.

Não quero com isso dizer que devemos abandonar a idéia de democracia: muito pelo contrário. Essa esperança que se manifesta na expressão “regime democrático” já é grande coisa e, se formos dar uma de Tsipras (ou Lula), podemos dizer que ela é um excelente fundamento para agir política e socialmente, invertendo aquele outro afeto tão potente da política: o medo. Por sinal, não é à toa que o único afeto que sobrou no fundo da caixa de Pandora, elpis, geralmente traduzido como esperança, também pode ser traduzido como expectativa – com um componente de temor: o papel de quem age, constrói e inventa é garantir que a tradução que prevalece seja a primeira, e não a segunda.

Deixando de hipostasiar a democracia, poderíamos fazer excelente uso dessa palavra, desse krattos na mão do demos. A soberania, poder ativo (e não comando) disseminada e fluida, produzindo decisões locais capazes de reproduzir-se reticularmente, em vez de cindir o corpo social de alto a baixo pela força de um soberano imóvel. Utópico? Irrealista? Pois sim, mas não estou falando de um paradigma de organização social, e sim do uso de um conceito. E o que há de mais potente na idéia de democracia é que ela funciona melhor (ela só funciona de verdade) quando lançada para o infinito; uma boa analogia é com aquelas cenouras que se penduram na frente dos olhos dos jegues para que eles continuem andando.

Talvez esse ponto fique mais claro recuperando a questão que coloquei acima: como passamos do platonismo anti-democrático a uma noção platônica da democracia e o que ocorreu nesse meio-tempo. Uma boa narrativa desse processo, pelo qual os conceitos de “democracia” e “representativo”, originalmente opostos, foram se unindo até virar a imagem ideal do governo mais justo possível (o pior, exceto todos os demais, no célebre adágio de Churchill), pode ser vista neste vídeo do professor Renato Lessa.

Não vou reproduzir aqui o que ele diz, porque seria plágio e sairia muito aquém do original. Mas quero reter o seguinte: a paulatina inclusão de mais e mais grupos no campo dos direitos civis, políticos e sociais (cf. T.H. Marshall, com sua progressão tão arrumadinha) permitiu a emergência desse otimismo tão moderno que vê nas sociedades avançadas uma tendência a tornar-se mais democráticas, o que corresponderia a dizer: mais livres, mais justas, mais abertas.

Deixando de lado as críticas a Marshall por sua visão anglocêntrica, não faz mal nenhum aceitar a idéia de que essa tendência existe. Mas se é uma tendência, em primeiro lugar, já vemos que não é um dado estabelecido. A sociedade moderna-democrática-justa-e-aberta está longe daquele eidos de que falei acima. Mas, em segundo lugar, é importantíssimo reconhecer que essas ondas de incorporações de grupos sociais ao mundo dos direitos, que sem dúvida nenhuma são avanços resplandescentes, foram sempre conquistadas de fora para dentro, ou de baixo para cima, muitas vezes com o sacrifício de inúmeras vidas, e depois de décadas ou séculos de disputas simbólicas, políticas e econômicas. O “dentro”, no caso, é a ordem social e política (e econômica, não custa lembrar), que precede a própria luta, e portanto precede a justiça, a abertura e a liberdade que tanto caracterizam nossa idéia de democracia.

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4 comentários sobre “A aposta de Varoufakis

  1. Pingback: Lendo sobre a Grécia | Blog Pra falar de coisas

  2. Delair disse:

    Acho que tu consegues captar boa parte da complexidade da situação, tanto é que é difícil apreender esse ensaio com uma única leitura.
    Só uma coisa que percebi, e fiquei pensando, essa frase “Há muitas maneiras de seqüestrar a democracia sem instaurar uma democracia.” Não seria sem instaurar uma ditadura?
    Valeu, Diego, em breve vou reler esse texto.

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  3. Pingback: Naturam expellas (parte 4) | Para ler sem olhar

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