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A volta é uma morte entre tantas

Tarólogos de cinema têm um prazer excepcional em virar a carta da Morte e esbugalhar os olhos. “¡La muerte, señor!” E entra um acorde dissonante. Mas nos filmes o herói quase sempre debela o perigo mortal que vai persegui-lo até o triunfo… O subtexto é que o herói, com tudo que ele representa (e pensar que Indiana Jones, no fundo, não é diferente de qualquer mito “primitivo”), é mais poderoso que as forças ocultas, as estrelas, os deuses. O herói, que acerta um tiro no vilão quando o revólver só tem uma bala e o inimigo parecia fora de alcance, nos redime, como espectadores e membros do grupo, de nossa própria mortalidade, do medo de ser aniquilado. Um medo que nos define, que compartilhamos todos, e que dá forma aos heróis que admiramos.

Mais profundamente: a carta do tarólogo – normalmente uma taróloga com véu de cigana – não é exibida para o personagem, quer dizer, o herói. Ao aparecer em close na câmera, o esqueleto dançante é posto cara a cara com o público. O herói está fora do plano e, nesse ponto, tranmuta-se em espelho para as fantasias do espectador. Quem encara a morte é o representante, não o representado, até porque este último é ficcional. ¡La muerte! e ponto. Mas mesmo que alguém morra mesmo no filme, o que eventualmente acontece, o rolo está sempre lá, disponível, para ser revisto e revivido, acompanhando o ciclo de quem acompanha o enredo, eternamente. Às vezes tentamos fugir à evidência, mas a morte é uma fixação generalizada.

Acontece que para o tarô, como para a análise dos sonhos na psicanálise, como ainda para qualquer mitologia no mundo inteiro, a morte – ou a carta da Morte – também representa. Sonhar com morte, virar a carta da morte, recitar um poema épico sobre a morte, tudo isso invoca a sensação e a idéia do fim e do sofrimento, sim. Mas o campo da representação sempre deixa uma abertura para algo maior: o mundo real. A morte representada não é morte de verdade, claro, então não é definitiva e pode ser experimentada uma infinidade de vezes. E a morte representada tem uma vantagem inquestionável sobre a real: ela permite um depois. A vida continua, diz Paulinho da Viola, e continua mesmo depois da morte, quando estamos no campo da representação.

Não só continua, aliás, como é exatamente para isso que serve a morte representada. Um pesadelo em que se morre é sofrido, mas é como uma faxina inconsciente para o despertar no dia seguinte. E quanto mais radical for o sonho, quanto mais dolorosa e angustiante a morte, mais novo será o amanhecer. A morte representada é uma imposição corporal e psíquica do tempo circular sobre a crença idiota num tempo linear, mecânico. Toda representação da morte celebra, mais do que qualquer outra coisa, a ressurreição.

Hoje, é como se tivessem chovido cartas da Morte na minha cabeça. Descubro, atordoado e temeroso, que já vivi e já morri, desconfio que mais de uma vez. Descubro também a mim mesmo, hoje, como um recém-nascido. Ou seja, minha memória é feita de resquícios de uma metempsicose estranhamente instalada num mesmo corpo, este aqui. Este corpo que vai seguindo seu caminho de envelhecimento como se, dentro dele, uma pessoa não tivesse perecido e brotado, perecido e brotado, perecido e brotado, como se celebrasse o Eterno Retorno.

Quatro anos de intervalo fazem toda a diferença. Outra vida, terras distantes, um ciclo inteiro de começar a crescer, espraiar-se como partindo de uma raiz nova, obliterar as estruturas que já estavam assentadas e estabelecidas. De súbito, o retorno, paradoxalmente tão mais súbito quanto há mais tempo planejado. É curioso como as línguas latinas têm uma palavra para o gesto de pivotar o corpo em 180o – retornar, rittornare, retourner (que dá no inglês return, mas é por empréstimo) – e as germânicas não têm. Para esse pessoal do norte, “voltar” é andar para trás, sem enxergar, avançando com a nuca à proa: zurück kommen, come back… É entrar na escuridão, fugindo à claridade da certeza.

Eu poderia descrever minha sensação de volta de ambas as maneiras. Ambas teriam seu fundo de verdade, ambas seriam fundamentalmente falsas. Para me manter no campo da verdade, eu teria de começar mencionando um certo atordoamento, o estranhamento insólito perante o familiar, a consciência de estar excluído de um quotidiano que me pertenceu por inteiro… mas vai além.

Vem à cabeça um verso de Chico Buarque: a saudade é como arrumar o quarto de um filho que já morreu. No meu caso, nada de filho; e a saudade, mesmo se está presente, não é a questão central. De frente para o armário aberto entulhado com todas as coisas que não pude ou não quis levar comigo, de repente vem a constatação: estou arrumando a papelada de alguém que já morreu. De quem são esses carnês de aluguel quitado? Lembro do apartamento, lembro do esforço de pagar. Mas aquilo não é meu. Quem foi que anotou esses números de telefone com nomes estranhos? Algum outro, algum defunto. A letra pode ser minha, mas isso não quer dizer nada. Meu corpo não reconhece o papel, meus olhos não entendem a mensagem.

Encontro registros de momentos que me fizeram sofrer para além de qualquer consolo, muitos anos atrás. Mas céus, quem poderia sofrer por aquilo? “Eu não!”, como diz Beckett: outra pessoa. As fotografias denunciam que essa pessoa, seja quem for, ocupa o corpo que ora habito eu. (Verdade seja dita, também custo a crer que esse rosto pueril tenha alguma relação comigo.) Mas mesmo que eu admita essa coincidência somática, dou minha palavra como essa personalidade e esta carne nada têm uma com a outra.

Só pode ser a personalidade de alguém que já morreu. Uma personalidade acessível apenas pelos traços deixados na tralha que abarrota este armário e faz vergar as prateleiras. Alguém que desencarnou gentilmente, cedendo o lugar para um sucessor que calha de ser eu. Ou melhor, já não sei. Algo me diz que o atordoamento destes primeiros dias corresponde, mal comparando, à experiência do parto. Não a da mãe, claro, mas a do bebê.

Pousar no Galeão foi como enxergar pela primeira vez o clarão do dia. Por um lado, isto é. Porque por outro, foi como atravessar a barreira do aniquilamento. Minha personalidade se desdobrando em duas, uma que perecia, outra que irrompia no mundo. Se é verdade que a vida é feita dos movimentos circulares e expansivos que chamamos, na intimidade, de quotidiano, então é certo que não serei no Brasil a mesma pessoa que fui na França nos últimos… quantos?… quatro anos, algo assim.

Não precisei de carta, nem sonho, nem tragédia grega que me representasse a morte. Esse fim simbólico se apresentou a mim por conta própria, e só fui reconhecer depois. Minhas pequenas e sucessivas mortes estavam marcadas nos traços arquivados atrás de um par de portas de madeira, num canto perdido da casa de minha mãe. Mal sabia ela que tinha um esqueleto no armário… Mas eu o encontrei e, como sói acontecer diante do destino de todos nós, estremeci.

A hora não é de chorar a ausência dessas figuras todas que já habitaram minha carne. Posso contornar o desconforto da carnificina recolhendo os espólios e os nomeando “memória”. É uma solução cínica, mas muito bem aceita e proveitosa. O verdadeiro propósito do momento é começar a engatinhar mais uma vez, levantar, aprender as primeiras palavras e restabelecer uma vida no dia-a-dia, concêntrica, duradoura. Mais uma, só que mais ampla e sólida que as anteriores, espero, já que ela vai habitar uma carne que já incorporou o peso de tantos outros pequenos retalhos de vidas.

Não quero me comparar a Ulisses, mas vejo bem como não basta desembarcar em Ítaca, é preciso recuperar Penélope e o trono. Mas nem Ulisses será, ao massacrar seus rivais, o mesmo rei que foi antes de partir para Tróia. Tampouco será, claro, o guerreiro que passou dez anos na praia até conceber o truque do cavalo. E muito menos será o viajante perdido no Mediterrâneo. O herói grego me ultrapassa largamente em mortes e nascimentos… Mas quem sou eu para competir com um personagem que incorpora a representação da morte?

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7 comentários sobre “A volta é uma morte entre tantas

  1. Carolina Macedo disse:

    Oi Diego,
    acabei de descobrir o blog pelo facebook! Gostei muito do seus textos.
    Comentei lá, mas como não tenho certeza de que você vá lê-lo, transcrevo o comentário aqui:
    Oi Diego, acabei de ler o seu texto!
    hoje estava fazendo uma “faxina” no meu computador e me deparei um pouco com esse sentimento vendo fotos de alguém que eu não reconheço mais.
    “É preciso aprender a morrer”, eu ouvi uma vez, mas a experiê…ncia da morte me assusta também. Às vezes me pego pensando em como será esse “retorno” (se ele acontecerá um dia) porque toda vez vou ao Brasil eu tenho esse sentimento de um lugar, uma vida que não me pertencem mais, no entanto me constituem. Então essa idéia do eterno retorno, da diferença na repetição, faz sentido…nós morremos e renascemos a todo instante, somos os mesmos mas somos diferentes nesse tempo circular onde a vida e a morte se confundem…

    “La seule liberté possible est une liberté à l’égard de la mort. L’homme vraiment libre est celui qui, acceptant la mort comme telle, en accepte du même coup les conséquences –c’est-à-dire le renversement de toutes les valeurs traditionnelles de la vie” Albert Camus

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    • Diego Viana disse:

      Oi Carol, desculpe a demora na resposta. O que voce escreveu ai em cima e lindissimo, adorei. Acho melhor nem comentar, pra nao conspurcar essa beleza. Volte sempre…
      E como vao as coisas por ai, voce e o Clement? Mande abracos.

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  2. gostei muito. este texto diz muito sobre um processo que estou passando agora; não que exista uma mudança exatamente de ares, mas uma ruptura irreconciliável com o passado. como se todo o alicerce esteja ruindo e urge que seja destruído por completo. E nem sei se algo novo ou melhor virá, mas é necessário. Enfim, talvez tenha dado um empurrão maior até para que eu possa escrever o meu texto de adeus a mim mesmo (com um pouco menos de erudição, mas enfim… se isso fosse impeditivo, não escreveria a criança na areia da praia sabendo que logo tudo seria apagado).

    abraços de um desconhecido internetesco. e boa sorte na nova morada 🙂

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    • Diego Viana disse:

      Oi Alexandre, muito obrigado pelo comentario. Fico muito feliz quando alguem se identifica tanto com um texto que publico. Valeu! Volte sempre. Abracos!

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  3. Manoel Galdino disse:

    Gostei do texto, mas faço uma aposta e depois apresento uma dúvida.

    A aposta:
    Daqui a um tempo você perceberá que as notícias sobre sua morte foram exageradas e que muito do que você reputava novo, descoberto e criado na sua vida na França já estava presente aqui. E aí você irá como que em busca desse passado, tentando reconstruir as peças desse quebra-cabeça, tentando entender quando o novo Diego foi realmente novo, quando foi ilusão de sua memórica seletiva.

    Aconteceu isso comigo uns tempos atrás. Eu julgava meu eu pós São Paulo completamente diferente do meu eu alagoano, mas depois fui descobrindo que talvez não fosse bem assim. Foi ouvindo o comentários das pessoas sobre mim e que descobri que elas sabia mais de mim que eu mesmo em alguns aspectos da minha identidade.

    Agora, a dúvida:
    Você fica no Rio ou vem pra São Paulo?

    abraços
    Maceió

    ps.: bela lembrança do Ulisses. Releia a passagem em que a Calipso prende ele e ela propõe que ele fique com ela e ele rejeita. Tá lá o tema do retorno. Sugiro também o excelente texto do Calbino sobre a Odisséia. Releia ambos e vc vai se deliciar…

    ps.2: parece que tem um texto do Eça sobre o tema (Ulisses e Calipso), mas que não li. Chama-se (parece) A Perfeição.

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    • Diego Viana disse:

      Salve Maceio! Cara, quem foi mesmo que disse “as noticias sobre a minha morte estavam exageradas”? Esqueci. [Lembrei: foi Mark Twain!] Em todo caso, identidade é uma palavra que cada vez me convence menos. Acho que vamos nos individuando e desindividuando de acordo com as tensões que atravessam nossa superficie em contato com nosso meio associado, nosso mundo, nossa vida, nossa historia, etc etc etc, chame como achar mais apropriado. O que vejo no passado sao tensoes mortas ou transformadas, que ja deixaram resquicios em mim, mas nao sao mais vivas dessa maneira. Temo que, ao dar com partes do passado, o que encontrarei seja isso, resquicios de tensoes mortas. Alias, e como ja me sinto. De certa forma, os resquicios sao mais verdadeiros em relacao a nos que as tensoes em que vivemos, e e por isso, creio eu, que voce sente que isso diz mais respeito a sua identidade que seu quotidiano corrente. Por sinal, voce tem razao, tenho sentido exatamente isso em diversas situacoes.

      E agora, onde voce esta? Sao Paulo ou Maceio? Se estiver por aqui (estou em SP), vamos tomar umas.

      Obrigado pelas indicacoes, logo assim que eu estiver mais assentado e menos assoberbado, vou atras sem sombra de duvida.

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  4. Pingback: A minha nova inscrição | Para ler sem olhar

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