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O mau comerciante

Monet+gare+saint+lazare
Michel não tem tino comercial. Nem um pouco. Faz parte do inexaurível contingente dos que, fora de sintonia com a época em que vivem, não nasceram para os negócios. Não é que lhe faltem interesse ou gosto. Ao contrário, ele adora o comércio. Loucamente. Sofre uma atração misteriosa pelo comprar e vender. Já se meteu no ramo do vestuário, da gastronomia, da arte. Aos trinta e cinco anos, não cansa de mudar de ramo. E essa é sua maldição.

Neste fim-de-semana, mais uma vez, Michel encerrou uma empreitada. Está mais triste do que nos outros finais. Esse era seu sonho mais belo. Prometia uma vida prazerosa, confortável, e contato com gentes de todas as partes. A ilusão, como sói acontecer a quem se coloca além das fronteiras, teve prazo curto. Mal completou três anos. Ao final, dívidas e uma amargura difícil de abafar.

O projeto parecia infalível. Graças a um empréstimo bancário, obtido com esforço e rapapés, Michel comprou uma antiga casa no vilarejo de Giverny. A localidade, que abriga pouco mais de seiscentas almas, é o segundo destino mais visitado da Normandia. O sucesso é fruto de um quase acaso: ali assenta-se a última residência de Claude Monet, o grande impressionista. Ao redor da casa singela em que o pintor passou seus anos derradeiros, espraia-se o mais exuberante dos jardins, fonte de inspiração para algumas das telas mais famosas que há. As ninféias, por exemplo, que bóiam entre pontes japonesas e salgueiros, renderam painéis gigantescos expostos no museu da Orangerie, em Paris.

O sucesso do vilarejo é tanto que, durante cinco meses, tudo permanece fechado. Casa de Monet, Museu de Arte Americana, restaurantes, hotéis, residências. Tudo. Michel, ao se estabelecer em Giverny, sabia que teria de acumular, entre abril e outubro, o suficiente para passar o inverno sem sobressaltos. E não deveria haver problemas. Seus colegas e vizinhos estavam satisfeitos com os negócios. No inverno, projetam viagens para o hemisfério sul, como se pássaros fossem. Michel, a despeito dos bons serviços prestados e da dedicação, não teve a mesma sorte.

Conheci-o por telefone, quando já estava na Gare Saint-Lazare, estação cujos trens irrigam a Normandia. Rouen, Calais, Caen. Na noite anterior, Nicole e eu passamos horas procurando lugarejos para passar um par de dias, descansando de um mês de trabalho pesado, antes do reinício das aulas. Decidimo-nos por Giverny, finalmente. Custaria menos, era mais perto e mais reservado do que os outros lugares que se apresentaram. Separamos uma lista de hospedarias. Eram quase todas chambres d’hôte, versão francesa do bed and breakfast anglo-saxão, com a diferença de que o conceito é algo mais sofisticado. Em Giverny, os preços são quase indiscerníveis. Mas uma das casas oferecia algo além: um jantar completo, com explicações de todos os pratos, dos aperitivos, dos vinhos, da sobremesa. Era a casa de Michel.

Quando nos buscou na estação, ele explicou que já não fazia mais o tal jantar, porque todo o material já fora empacotado. A casa estava vendida, ele entregaria no dia seguinte à nossa partida. Mesmo assim, escolhemos ficar hospedados ali. Foi uma ótima escolha. A casa, centenária, havia sido uma leiteria no início do século XX, conforme se via no cartão-postal pendurado no corredor de entrada, como se fosse um quadro. A acolhida, esplêndida, louvável. O pequeno quarto, de paredes amarelas, dava para um milharal infinito. Como um todo, a estadia recomporia as forças do pior doente.

O problema econômico de Michel é que ele vê no cliente um amigo em potencial. O correto, num negociante, seria o inverso. Quase perdemos o trem, pelo tempo que gastamos conversando com nosso anfitrião à mesa do café. Em compensação, ele foi magnânimo. Quando lhe contei que não havia trazido meu violão para a França, foi buscar um que já não usava há anos, e o entregou em minha mão. Em seguida, algumas lembrancinhas. Um isqueiro com o nome da vila, um pequeno quadro de vidro para pendurar à janela, figurando a catedral. E, com um suspiro que concentrou toda sua frustração, a fotografia da casa que ele habitou naqueles três anos dedicados à hotelaria.

Na última manhã, quando partíamos, havia caixas de mudança espalhadas pela sala. Nem por isso, o tratamento que recebemos de Michel e sua esposa foi menos agradável. Quando anunciei a intenção de pagar, ele trouxe aquilo que seria a cereja do bolo. Cobrou, pela hospedagem, quase 30% a menos do que o acordado. Preço de amigo, ele explicou, em tom melancólico. Protestei. Menos do que deveria, é verdade. O orçamento de estudante não pode recusar descontos.

Michel não é um bom comerciante, mas é dono de uma alma de rara nobreza. Fechou e vendeu sua casa deliciosa no campo, e haverá de se dedicar a algum outro negócio. Quanto a nós, viajantes incuráveis, é certo que teremos excelentes lembranças dos dois dias que passamos entre as folhagens avermelhadas de Giverny. Mas, quando quisermos voltar, quem haverá de nos dar tratamento assim?

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7 comentários sobre “O mau comerciante

  1. tina oiticica harris disse:

    Meu trajeto na França me leva ao país do Languedoc. Não sabia nada sobre esta parte de Monet. Este teu Michel é uma grande exceção. Não o perca de vista. Bom astral, Diego, bom astral.

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  2. Cris disse:

    Bateu uma vontade de viajar… e nada como um bom anfitriao. Tem gente que nasce para ser comerciantes, outros nascem para ser amigos, pouco nascem para ser os dois. Vou sonhar com esse cenario avermelhado.

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  3. Daniel disse:

    esses teus textos têm que sair em livro, pra gente ler quieto´lá no quarto. assim no pc é impossível não ler sem doer a vista (no meu caso). e, claro, é impossível não ler. ainda bem que você vai me dar um óculos novo no natal.

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  4. ô, meu Deus! Quase chorei com o que você contou! Mas que belo passeio vocês realizaram com o acréscimo de uma história humana ímpar para guardar e para também contar.
    abraços

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