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Um sonho em São Paulo

Personagens+de+sonho
Eis a postagem de um sonho. Não quero fazer do leitor um analista de ocasião, por favor. Mas as imagens que meu inconsciente me impôs esta noite têm muito de cômico. Preciso aproveitar. E não é só isso. Sonhos passam quase sempre pelo assustador e o artístico. Finalmente, são muito reveladores para quem sabe interpretá-los; mas sobre isso, terei de perguntar ao meu amigo especialista em Lacan. A partir de agora, portanto, tente imaginar um blogueiro deitado no divã, mãos cruzadas sobre o ventre e ar de aflição.

Antes de entrar no sonho em si, é preciso dar elementos de interpretação, segundo o que guardo de quando tinha condições de investir em terapia. O que posso dizer é que me lembro do último pensamento antes de me ajeitar no travesseiro: “Quando for ao Brasil, agora que vendi o carro, usarei o transporte público, como faço aqui. Mas os preços mudam tão rápido que, ao tomar um ônibus em São Paulo, terei de, céus!, perguntar a tarifa.” Por algum motivo, a situação me pareceu embaraçosa. Entrar no ônibus sem cartão magnético, só com as notas verdes de um real, e perguntar quanto custa… Acabei pegando no sono.

Coincidência ou não, sonhei justamente que me via em São Paulo, passando as férias. Visitei a família e os amigos. Estive até mesmo na velha faculdade, onde encontrei antigos colegas, um pessoal todo já formado e espalhado pelo mundo. Lá estava, aliás, um sujeito com que trombava quase todo dia, mas nunca foi de fato meu amigo. Quando o cumprimentei, caí na risada, e ele se ofendeu. Mas como não rir, diante de alguém que não vejo há anos, não sei se está vivo ou morto, e de repente me aparece em sonho? A exemplo da vida real, ele não tinha nada a dizer, nenhuma mensagem a passar. Foi uma imagem inútil, produzida pelos mecanismos insondáveis do cérebro.

Vieram me contar que retiraram todos os outdoors da cidade. “Percebeu?”, perguntaram. Olhei em volta. Vi um prédio em forma de carambola, um viaduto grafitado e postes pintados de branco até a metade. Puxa, é mesmo. Ainda é bem feio, mas publicidade, não tem.

Deu vontade de ir até o centro. Assim, sem motivo. Ainda não me esqueci das particularidades paulistanas: transporte de superfície é suicídio; se tomasse um ônibus, ao chegar na avenida Paulista, já seria hora de embarcar de volta para Paris. Cheguei à estação de metrô, mas estava fechada. Uma funcionária impaciente e de cara muito amarrada explicou que não abriria tão cedo. Ao que parece, alguém não estava conseguindo terminar a obra. Nada muito surpreendente, até aí.

Inverossímil foi o fato de, portões trancados e trens parados, haver uma enorme fila para comprar passagem. Postei-me ao final. Já que vivi na cidade a tempo de ver sumariamente eliminado o bilhete de dez viagens, nem me empolguei. Continuava aflito para saber quanto teria de pagar antes de chegar à boca do caixa.

Resolvi empregar artimanhas: puxei papo com uma senhora à minha frente. Ela tinha a altura do meu umbigo. Talvez até menos. Não sei por que reparei nesse detalhe. Comentei que a fila não andava. Ela deu de ombros e retrucou que era normal. Até gostava, e completou: “Bom momento para conversar com o Senhor”.

É pena, mas, na língua falada, não existem maiúsculas. Pensei que ela estivesse se referindo a mim. Algo como: “é um prazer conversar com o senhor”. Na minha ingenuidade, agradeci a gentileza. Sua reação restabeleceu a caixa alta que faltava à oralidade. Em poucos segundos, fui etiquetado como herege, demoníaco, impuro. Um achincalhe público.

Não sei como terminou esse imbróglio azarado. Não sei por que sonhei com uma senhora maluca me esculachando. Sonhos não se preocupam com motivos. Na cena seguinte, já me encontrava diante do caixa. A vendedora tinha os olhos de um peixe morto. (Isso não é uma metáfora.) Pedi dois bilhetes e, para evitar a vergonha de perguntar o valor, puxei uma nota toda amarfanhada de cinco reais.

O peixe morto me lançou um olhar fulminante. O dinheiro era pouco. Cada passagem valia, ou melhor, custava, quatro reais e vinte centavos. Por que essa cifra, precisamente? Não sei, deixo a meu amigo psicólogo a tentativa de responder. Talvez o inconsciente, em seu lado financista, tenha feito uma operação de câmbio autônoma: é mais ou menos o preço de uma passagem no metrô de Paris.

Saí pela estação a vociferar, como um louco. Como podem querer cobrar tanto por essa porcaria de serviço? Um metrô que não cobre quase nada da cidade, não consegue terminar uma linha e vende passagens em estações fechadas? Só fiquei quieto com a chegada dos seguranças: dois homens de uniforme negro e boina, metralhadora e walkie-talkie. Com seus enormes maxilares, já traziam a coronha em riste. Só tive tempo para uma frase: “Foi sem querer, capitão Nascimento”.

Tarde demais. Despertei.

Agradeço ao leitor pela consulta e por me escutar com tanta atenção, anotando tudo no caderninho que o paciente não pode espiar. Também mando agradecimentos ao meu chapa pelas explicações psicanalíticas vindouras. Aliás, fiquei até curioso de saber a quantas andam as tarifas de transporte público em São Paulo e no Rio, depois de pouco mais de um ano. Mas, pensando bem, talvez seja melhor não pensar nisso. O sonho de amanhã pode ser pior.

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