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Enquanto vou fechando: Ingênuo, de Pixinguinha

Certa vez, eu testava as possibilidades de um recém-adquirido Macintosh, quando me dei conta de que não havia nenhuma gravação de Ingênuo no Youtube.

O quê?, exclamei, pasmo. Ingênuo é uma obra-prima, muito apropriadamente eleita pelo próprio Pixinguinha, seu compositor, melhor música de sua autoria.

Os recursos do Macintosh me ajudaram a preencher essa lacuna (que seria, mais tarde, como posso verificar, preenchida novamente por muitas outras pessoas). Isso foi feito de uma maneira para lá de mambembe: um punhado de fotografias encontradas na internet, jogadas no programa e sincronizadas com a música.

O efeito de aproximação e afastamento não foi idéia minha, simplesmente não consegui tirá-lo.

Surpresa: o vídeo já foi assistido por mais de 11 mil almas, em países tão diversos quanto o Equador, a Turquia e a Coréia. Está melhor do que este blog.

A gravação é de Evandro e seu regional.

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Elvis e Michael: do extrativo ao industrial

Agora que passou um pouco a comoção em torno do maior dos reis do Pop, acho que posso especular a respeito sem risco de levar tijoladas na testa. Prudência nunca é demais, mesmo quando o assunto é Michael Jackson, cujos receptores de hormônios prudentes eram para lá de atrofiados… Difícil é escolher o aspecto mais fecundo desse falecimento lastimável, mas longe de surpreendente.

Poderia ser a triste ironia de que todo o aparato medical, as máscaras, a hipocondria, eram resultado de uma intenção declarada do cantor de atingir os cem anos: não só o projeto fracassou, mas fracassou exatamente na metade do período. Prova de que a fixação com a longevidade é só mais um dos pequenos auto-enganos que nos impedem de simplesmente viver a vida. Também se pode enveredar pelo caminho que é, sem dúvida, o mais explorado: Michael como vítima do massacre da mídia, da ebriedade com o sucesso, das relações familiares doentias. Mas isso é notícia velha, não precisávamos de um cadáver para saber que a indústria cultural tem o poder de esfarelar uma vida, sobretudo a de alguém talentoso e desequilibrado como o caçula dos Jackson.

E já que foi evocada a tal indústria cultural, lembro que a morte súbita e inesperada (mais ou menos) de Jacko foi comparada à de Elvis Presley, mais de trinta anos antes, tão súbita e inesperada quanto. E as semelhanças são várias: ambos haviam sido “os reis”. Elvis do rock nos anos 50, depois da canção melosa e romântica; Michael, do pop nos anos 80, aquele que se atravessava no cruzamento entre o soul negro e o que viriam a ser os ritmos eletrônicos. Ambos foram belos e luminosos na juventude; no final da vida, tornaram-se estranhos, até repulsivos. Ambos ficaram conhecidos por passos de dança arrojados e revolucionários. Ambos marcaram a história da música popular americana: Elvis por ter sido o branco que “invadiu” o gueto e se apropriou de seu novo ritmo; Michael porque, enquanto negro, foi um ídolo universal, acima das questões de raça, à parte a mudança de cor.

Todas essas semelhanças são notáveis, claro; mas a diferença é mais fundamental e reveladora. Essa diferença se refere à época em que cada um viveu e atuou. Não tanto pelo período histórico em si, mas porque Elvis e Michael encarnam e são produtos de fases diversas do desenvolvimento histórico da tal indústria cultural. Para simplificar as coisas, podemos dizer que Elvis pertence à era da “indústria cultural extrativa”, enquanto Michael representa a “indústria cultural industrial”… Soa estranho? Tanto melhor, continue a leitura.

Michael Jackson foi produzido, em mais de um sentido, pelo pai. Junto com os irmãos mais velhos, foi talhado e moldado para o sucesso. Sendo, por natureza, o mais talentoso de todos, foi também o alvo do maior esforço de caracterização. Desde pequeno, inculcaram-lhe a máxima a que ele seria fiel, talvez contra a própria vontade, pelo resto de sua conturbada e curta vida: qualquer resquício de humanidade seria um estorvo para o produto midiático que ele deveria ser a todo instante. Michael Jackson tornou-se, com isso, uma marca. Uma máquina forçada a adaptar-se ao mercado caprichoso dos gostos juvenis, para continuar a produzir uma torrente volumosa de lucros e dividendos.

A falha trágica de Michael foi jamais ter conseguido demarcar a fronteira entre a commodity midiática e o indivíduo verdadeiro. O sucesso de Thriller se tornou uma obsessão tão grande que ele precisou pensar em si mesmo como monumento e imagem de capa de disco, talvez até mesmo quando estivesse dormindo em Neverland. Falando no rancho, creio que um junguiano o retrataria como tentativa desesperada do inconsciente do ídolo para retornar a uma era em que ele era verdadeiramente humano, apenas uma pessoa como todos nós: o tempo de sua primeira infância. Mas é melhor pular essa parte.

O caso de Michael se torna ainda mais chocante quando o comparamos a Madonna, sua contemporânea como ídolo pop. Ela, como ninguém, sabe ser um produto, capaz de se renovar a cada repique do mercado, capaz de chamar a atenção e, claro, os holofotes, de todas as formas possíveis, seja via sexualidade, maternidade ou musculatura. Mas ela também sabe ser a dona do produto, a detentora da marca, a empresária, a investidora. Michael Jackson jamais teve essa sapiência, daí sua desgraça.

Mas a comparação que queremos fazer é com Elvis, que também veio de baixo, também tinha questões familiares (o pai dava pequenos golpes na praça e chegou a ser preso por isso; a mãe tinha tendência ao alcoolismo e morreu bebendo). Também teve um sucesso retumbante: vendeu tanto quanto os Beatles, ou quase. E também morreu cedo, irreconhecível, decadente, infeliz, afogado em barbitúricos e outras drogas.

Ao contrário de Michael, Elvis jamais foi talhado para o sucesso. Seus pais o prepararam para uma vida dura de americano sulista; o maior mérito de sua mãe foi tirá-lo de um emprego para não prejudicar demais os estudos. Mas era um garoto mimado, isolado, que gostava de usar roupas e penteados diferentes, aprendeu alguns acordes tortos no violão e passava tardes inteiras ouvindo cantores gospel pelas igrejas de Memphis, Tennessee.

Um pouco mais crescido, montou uma bandinha para tocar os ritmos do tempo. O movimento diferente de seu corpo, aliado à mistura única de influências em seu canto, hipnotizava as plateias e chamou a atenção de um executivo da Sun Records. Era 1953. Em 1955, ele estava na RCA com um contrato de primeiro time, rumo a se tornar o Rei do Rock. Arrumaram-lhe um (péssimo) empresário; inventaram golpes de marketing. Mudaram um pouco seu som e sua aparência. Exploraram o movimento de seus quadris (Elvis the Pelvis, lembra dessa?). Levaram-no à televisão e ao cinema. Graças a ele, muita gente encheu o bucho de grana. Como ocorreria, mais tarde, com Michael Jackson.

Só que, no caso e no tempo de Elvis, ele só passava a ser moldado e formatado depois de descoberto. Michael nunca foi descoberto: ele foi feito. Foi fabricado nas oficinas da Motown pelo artífice que era seu pai. Daí o caráter exemplar da comparação entre os dois ídolos. O período em que viveu Elvis era extrativista no sentido em que as gravadoras procuravam o talento bruto, perdido no coração da América rural ou nos subúrbios das metrópoles, nos cantos esquecidos. Em todo lugar, enfim, de onde poderiam sair jovens, tímidos e desajeitados, mas com novas misturas rítmicas, novos passos de dança, figuras potenciais de um frenesi midiático. Em seguida, é claro que havia uma cadeia industrial instalada e a respeitar: as gravações, as composições encomendadas, as capas de disco, as polêmicas forjadas, tudo que os últimos 60 anos souberam estabelecer e reproduzir tão bem.

Essa cadeia é que evoluiu com o tempo. Primeiro, foram os profissionais que tentaram se adaptar a ela, para melhor explorar seus potenciais: é o caso de Jimmy Page, que foi músico de estúdio antes de ser ídolo nos Yardbirds e, claro, no Led Zeppelin. Ele conhecia em profundidade o funcionamento da indústria do disco e foi o primeiro a calcular com precisão a dinâmica das faixas. A lendária banda que ele formou com John Paul Jones, John Bonham e Robert Plant nada mais era, no princípio, do que a aplicação desse conhecimento de Page. Por que não chamar a essa fase da indústria cultural “fabril”?

Pois enquanto o Led estava no auge, surgia na Motown – aquela grande fábrica de sucessos e ídolos – a banda dos irmãos Jackson, em mais uma fase da indústria cultural. Em vez de simplesmente reproduzir na cadeia produtiva da cultura (no caso, da música) uma série de técnicas de sucesso comprovado, como na era fabril, passou-se a inserir técnicas novas de sedução do público, desenvolvidas em laboratório, a partir de testes e estatísticas. Assim, o retorno dos investimentos seria mais garantido: o produto cultural que resultasse do processo de fabricação seria impecável, irresistível, um triunfo assegurado. Pura tecnologia industrial.

Madonna e Michael Jackson são, como eu já disse, os exemplos mais fecundos de produtos dessa fase “industrial” da indústria cultural. Mas, enquanto Madonna soube ser ao mesmo tempo investimento e investidor, Michael confundiu os dois lados e não foi capaz de aproveitar os rendimentos de sua própria produção. Com isso, ele enfraqueceu sua posição no mercado e não é à toa que, na última década de sua vida, tenha rolado constantemente ladeira abaixo, sempre a tentar recuperar seu valor em bolsa.

Como tudo no mundo, a indústria cultural continua a evoluir. Todos sabemos como as gravadoras estão sofrendo com as mudanças nos gostos e nos hábitos do público. Hoje, quem quer se fazer conhecer posta, por exemplo, vídeos no Youtube e músicas no Facebook. Um exemplo límpido é o sujeito que compôs músicas como Hey, Paul Krugman , e foi citado pela net inteira.

A princípio, para muita gente, essa nova fase parece uma volta ao período extrativista. Mas isso é enganador. Há tantos métodos e fórmulas nas redes sociais quanto em qualquer outra configuração da produção cultural. Resta aos produtores a tarefa de descobri-las e lucrar com elas. Não tenho dúvidas de que a era das redes sociais produzirá seus Elvis Presley, John Bonham e Michael Jackson, cujas histórias gloriosas e trágicas serão contadas pelos jornalistas de amanhã. Seja lá como forem esses jornalistas…

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