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A nação e o baile

Pintura de Auguste Renoir retratando o tradicional baile do Moulin de la Galette em Montmartre

Perdoe não fugir do óbvio. Lamento, mas a atmosfera circundante sufoca qualquer esforço de escrever sobre outros assuntos, quando se está na França e o dia é 14 de julho. Comentários superficiais sobre o quotidiano enveredam, sorrateiros, pela descrição das festas públicas; reflexões críticas, analíticas ou cínicas descambam em teses sobre o nacionalismo; nem mesmo trancar-se em casa serve de escapatória, já que o estranho silêncio dos vizinhos e da rua realçam o espoucar distante dos fogos. Portanto, perdoe, curvo-me a comentar as celebrações, debater o patriotismo, invadir os bulevares.

Talvez a tarefa mais difícil, neste caso, seja descrever o perfil do nacionalismo francês e lhe avaliar o peso. Começo por um dos traços mais famosos deste país, que é sua folclórica e quase indevassável burocracia.i Em poucas palavras, explico que a famosíssima, cujo eufemismo mais corrente é Administration Française, nada mais é do que a concretização de uma estratégia de unificação nacional, que viu o dia já na Idade Média.

Se você tem ojeriza a relatos históricos, sinta-se livre para ler apenas esta frase e, em seguida, pular o resto do parágrafo, em que faço com poucas frases um resumo cronológico da burocracia e do nacionalismo franceses, desde o século XIV, com a dinastia Valois instaurando um sistema de administração pública tão eficiente que fez da França o primeiro grande Estado-nação do norte da Europa, até o pós-guerra de De Gaulle e Mitterrand, que recriaram, cada um à sua maneira, o sistema da papelada dos Valois (para controlar ou canalizar a fúria revolucionária das esquerdas), passando ainda pelo trauma sanguinolento da Revolução de 1789, que, em termos formais e administrativos, foi pouco além de uma tradução dos princípios jurídicos, sem alterar lá muito profundamente a estrutura de organização pública do país, dos ideais monárquicos aos republicanos.

Falando em República, eis uma palavra onipresente em jornais, escolas, hospitais, museus, pontos turísticos. Os imigrantes, diz-se, devem aprender e incorporar os princípios da República. A educação não pode ser reformada, para não criar uma cisão lógica entre as gerações da República. O mesmo vale para a ortografia, praticamente idêntica desde que existe a República. Os bombeiros são um símbolo republicano, como a literatura e a culinária. Não são símbolos nacionais ou culturais, mas republicanos, um termo que resume melhor o orgulho e o raciocínio do gaulês.

Em outras palavras, a idéia de República embala todas as vertentes do nacionalismo no Hexágono. E diziam que o nacionalismo morreu. É verdade que um certo nacionalismo parece coisa do passado, aquele que teve, por muito tempo, uma conotação algo militar, freqüentemente econômica, no mínimo belicosa. Esse pensamento parece corroborar-se quando vemos o tradicional desfile da Champs Élysées quase vazio, a fumaça dos aviões com as três cores da bandeira, os tanques um pouco desatualizados, a parada dos veteranos acompanhada praticamente apenas pelas esposas dos veteranos, sem contar os políticos, jornalistas, fotógrafos e um punhado de turistas vindos do interior. Um exército que já não tem muito emprego, mas mantém o ar solene e garboso ao subir a rua íngreme, menos de um mês após ser notificado de que vai encolher em efetivo e orçamento. Nada parecido com as cenas de Elena e os homens, de Jean Renoir, em que as multidões meio embriagadas se acotovelavam para acompanhar a passagem dos bravos heróis da República, pelos idos do século retrasado.

Para sorte dos princípios republicanos, há outras maneiras de sentir-se pertencente a uma nação. O nacionalismo está longe de morto, como se vê em toda parte do Leste Europeu, na recuperação de línguas regionais, na autonomização crescente das etnias. A França talvez seja uma exceção desconfortável, mas, como praticamente tudo neste início de século, algum arremedo de nacionalismo sobrevive transferido para a esfera das relações pessoais. Os dialetos, a música, o futebol, os ídolos, a cozinha, as paisagens.

Tendo em mente essa mudança de perspectiva, torna-se mais fácil a procura pelos franceses que comemoram sua data nacional. Estamos prontos para largar os conceitos históricos e ganhar a rua. A maioria estará deserta, como há de esperar quem viu as filas e confusões nos aeroportos, estações de trem, terminais rodoviários e estradas. Mas o vazio é enganoso. Exprime menos a fuga para o sol e as férias do que o cansaço e a ressaca. Afinal, na última madrugada, todos que não partiram em viagem ficaram acordados.

Jovens e velhos, gordos e magros, moradores e visitantes, todos formaram filas enormes para entrar em algum dos incontáveis bailes de bombeiros que se espalham pelo país. Nessa madrugada, a cada ano, as casernas, quase todas, baixam a guarda e se transformam em discotecas enormes, com vários ambientes, bandas, orquestras, mesas enormes para as famílias, champanhe a preço acessível. A garotada dança ensandecida, os idosos bebem sentados, contando histórias do passado, as moças cravam os olhos nos anfitriões, fardados, musculosos, talvez um pouco sérios demais para um evento tão alegre e que só acontece uma vez por ano. Por algum motivo, as bombeiras fazem menos sucesso com os rapazes, embora muitas também mereçam os aplausos de qualquer marmanjo.

Entre uma música e outra, um excelente exercício de sobriedade é contar o número de bandeiras tricolore em torno do salão. Erguidas em diagonal, dobradas segundo um padrão elegante e antiquíssimo, quietas e alertas em seus postos, elas não deixam esquecer aos foliões que aquela é uma celebração nacional. Jovial, barata, etílica, sem dúvida, mas sobretudo um ritual da unidade do país. Eis a mensagem das bandeiras, dos uniformes e até mesmo da arquitetura. Estáticos e discretos, esquecidos do público, às vezes é assim que os símbolos exercem seu maior poder.

Na história da França, houve reis que subjugaram as províncias impondo-lhes o francês como único idioma, não raro em regiões sem a menor raiz latina, como a Alsácia e a Gasconha. Napoleão, séculos mais tarde, formou o maior exército que o mundo já vira, conquistou a Europa, mudou a mão das ruas, recheou o Louvre, depois caiu em Waterloo. As sucessivas Repúblicas amarraram um cidadão ao outro com os elos, aparentemente inquebráveis, dos formulários e repartições, tarifas e concursos nacionais. De lá para cá, o que houve de constante, nacional e republicano foram os bombeiros, cujos bailes produzem uma expectativa comum a todos no país, jovens e velhos, gordos e magros, moradores e visitantes.

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A última curva do círculo

Um súbito azedume, raiva contra as folhas amassadas e secas. É injustificado o travo na glote ao pisar sobre elas, mortas e embebidas na água suja da estação. Daqueles caminhos cobertos de amarelo e vermelho, em que o vento dos belos dias erguia redemoinhos, restaram essas pequenas sombras encarniçadas, molduras marcadas pelas solas dos sapatos. E ao erguer os olhos para as poucas que ainda se agarram aos galhos, amedrontadas com a perspectiva da queda e da morte inevitável, não é a melancolia usual de um jovem dezembro que me ataca, mas essa absurda aversão, esse horror despropositado.

Meus ombros não têm marcas de pegada. Têm, sim, o peso de um tempo indiscreto, imperador narcisista que faz questão de se exibir. Deixa em meu corpo um sinal, o afundamento das espaldas, o desejo do tronco de esconder-se do olhar severo que o déspota lhe lança, como a todos. Confundo-o com a chuva, que amolece o tecido da casaca e a aba do chapéu, tal qual o deteriorar-se dos meses me abala o espírito. Tento espanar, com a água, a pressão do tempo. Tento abrir os ombros e preencher os pulmões. Mas o ar que atende ao convite me ofende. Gelado, queima os caminhos; empapado, enrijece minhas faces.

Desisto. Recolho-me novamente, inerte, como inertes estão os cadáveres em que piso, ainda que tente evitá-los, desgostoso.

Reconheço que basta contar quatro meses para brotarem as próximas folhas, minúsculas, redondas, de um verde transparente. Reconheço que é o ciclo, infinitamente mais ancestral do que qualquer ancestralidade a meu alcance. Erradas estão as folhas que insistem em não tombar, que imploram a uma natureza que não responde, que choram quando fustigadas pelo vento, que secam no pé e não entendem a condenação definitiva. Está inscrito, em sua natureza de folha, o destino do outono. Morrer. Nascer em abril. Perecer em novembro.

Eu é que não vou perecer com a aproximação do inverno. Mas sinto, intimamente, que já experimentei diversos ocasos, uma suíte deles, desde que as cores começaram a mudar e os ventos assumiram sua inclemência. Morro com uma folha, morro com mil. Morria alegre com a hemorragia de outubro, quando elas caíam como lágrimas de sangue e jorravam ao longo das aléias. Morro novamente, agora amargo, enquanto os ciprestes se preparam para a estabilidade do olvido.

Sei por isso que sigo o mesmo ciclo das folhas. Estamos na mesma curva, na mesma etapa, a um passo do mesmo mergulho. Se, enquanto a terra permanece congelada, não estarei morto, como elas, estarei ao certo paralisado. Estarei diminuído, abafado pelos panos que me mantêm vivo, pressionado pelas precipitações enervantes, quase sem folga. Como os vegetais, subsistirei na esperança de um novo abril, a nova reversão da curva, do ciclo, do círculo, o renascimento que se vive a cada ano, a volta, o alívio.

Creio que seja essa expectativa que me atemoriza. A evidência de que existo agrilhoado aos ciclos e de que esses ciclos são um só. Minha vida. Entrego-me ao ódio por essas folhas, não por elas, que nada podem, mas pela hélice a que estão amarrados meus pulsos e tornozelos, como elas aos galhos, antes da queda.

Como se falasse, dirijo a palavra às folhas mortas e lhes pergunto por que não ficam assim, por que não se contentam em apodrecer e seguir eternamente como húmus. Brotar novamente na primavera, que terror! É o supremo ato de submissão, um esforço para se entregar mais uma vez, entre tantas, à parábola que resultará em outra morte, em mais lama, em mais pegadas.

Eu me encheria de admiração por elas, se as folhas se recusassem a recomeçar. Elas teriam a força que a razão quis atribuir apenas a si própria, e que tanta desgraça causou aos entes concretos, ao se misturar aos corpos, templos do necessário, sede da condenação ao tempo. Diante da recusa heróica dos vegetais, eu me questionaria.

Eu me perguntaria, vexado, perturbado, por que eu mesmo, por que nós todos, que temos mais vontade do que as folhas, não podemos dar um passo para fora do destino. Da fatalidade, de uma forma de vida que se nutre infinitamente da própria morte. De um estágio que sabemos superar, mas a que nos curvamos como escravos.

Por que nos aferramos a ser trágicos? Eu desejaria saber. Seria a manifestação que eu gostaria de dar à minha inveja dos vegetais forros. Meu rancor mudaria nessa inveja se, e somente se, eu visse, nas folhas, a prostração transmutada em liberdade. Até lá, como parece inevitável, vou morrendo para viver.

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É o queira ou não queira

Sabe Deus as coisas em que eu estaria pensando, se não pensasse tanto nas estações. Pelo visto, na hora de me atribuir uma personalidade, alguém cometeu um engano infeliz. A cabeça que estava reservada para mim deve andar apertando o crânio de algum desses muitos homens do campo que invejam a rotação acelerada das cidades e se perdem em devaneios de asfalto. Pois eu, que jamais vivi em cidade que fosse menos do que enorme, fui dotado com a vocação deslocada de caminhar a esmo pelo espaço vazio. Plantações, prados, veredas.

A que se soma essa coisa com as estações. Não só pelo ciclo, pela passagem do tempo, mas pela fisionomia que se imprime nas paisagens, por imposição, sem recurso, de um planeta que anda em círculos. E pela adaptação calma dos viventes, reféns de uma natureza que os precede em muito. Na falta dos horizontes vastos, recorro às ruas, às margens dos rios, aos parques recortados da virulência imobiliária. É pouco, mas é o que há.

Por muito tempo, quis me considerar uma alma, como eu dizia, “do verão”. Pelos dias mais claros, ligeiramente no Brasil, dramaticamente aqui. Porque sou um amante da luz, embora me sinta mais vivo nas madrugadas. Também, ao menos em parte, pelo calor, que quando extremo me pareceu sempre um flagelo mais suportável do que o frio.

Meu partidarismo estival era tão intransigente que eu antagonizava até com Tom Jobim. Sim, o próprio, confesso. Como ousa, maestro, associar o fim do verão, com aquelas enxurradas medonhas, a uma promessa de vida no coração? Para mim, as águas de março marcavam era o início dos tempos de lã, escuridão e resfriados. Evidente que, como sempre, eu estava errado. Simplesmente não entendia o principal, quase óbvio, cego de convicção.

A esperança de que fala a canção nada tem a ver com os meses seguintes. Não exprime qualquer alívio com o fim da fornalha. Como pude não perceber o sentimento difuso, involuntário, produzido ao pé da garganta, uma esperança de vida sem quê nem porquê! A doce satisfação do estio que vai se encerrando ignora, mesmo nas terras mais inóspitas, as projeções para o futuro. Vão secar as folhas, vão cair, mas o espírito nem se lembra.

Não são os mais belos do ano, título reservado à eclosão súbita da primavera, em abril. Mas os dias finais do verão produzem, e isso é uma certeza, o ar mais carregado de vibrações. São ondas de emissor impreciso, talvez o próprio sol, talvez a terra já cansada do sol, talvez as árvores e as pessoas sorvendo os últimos raios que vão descer neste ano. Seja o que for, essas são as duas semanas mais agradáveis que há.

Acontece que o final do verão, nesta metade do mundo, não chega em março, mas em princípios de setembro. São esses dias de agora, em que as famílias voltam das férias e as crianças reencontram colegas e carrascos na sala de aula. É pouco tempo, duas semanas no máximo. Há que aproveitá-las, nos intervalos das enrolações burocráticas que alguém, gerações atrás, resolveu grampear nesta época, acredito que por recalque.

Eis o espírito com que vou redescobrindo a cidade. Nem é preciso esforço, dou logo com um sem-número de detalhes saborosos, efêmeros como cada estágio da vida. É assombroso, por exemplo, como a cor das fachadas muda de um mês para o seguinte. Eu bem queria apertar a mão de Monet, que abriu nossos olhos para cada variação de luz que incide sobre o entorno, sobre os alicerces de nossa vida! O alaranjado nas pedras de Notre-Dame, ontem, não era como o azul esmaecido de novembro. Mesmo as fagulhas de entardecer, que balouçam nas marolas a cada barco que passa, como em qualquer outro mês, agora cintilam em tom mais pungente. Ainda prata, mas um prateado diferente, esse que está aí, vejo, vivencio, mas não ouso descrever.

Se eu vivesse no campo, em outros tempos, certamente não acharia poético o brilho das marolas. Sem dúvida, estaria ocupado com a colheita, cortando lenha para garantir o inverno, separando a ração dos animais. Fora de questão, essa história de caminhar pela cidade em busca de um verão que já se foi. Não faria o menor sentido correr atrás das estações. Elas pesariam sobre mim, inescapáveis, sem interesse pelas minhas preferências.

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À menor das grandes capitais

Genebra, crepúsculo no verão
Estou em dívida com uma cidade. Tudo que ela quer de mim, e eu venho protelando, é um punhado de palavras sobre como ela encanta sem fazer alarde, ao ponto de definir a si mesma como “a menor das grandes capitais”. Pois bem, cá estou para saldar a dívida, começando pelo epíteto que equilibra com tanta competência a auto-ironia e o orgulho, de uma maneira que só conseguem os muito refinados. Em outras palavras, ele se aplica com perfeição a Genebra.

Como um todo, a Suíça é um país muito instigante. São 41 mil quilômetros quadrados de lagos e montanhas, espremidos entre as legiões sempre famintas de França, Alemanha, Itália e Áustria. Esse adorável cubículo é compartilhado por menos de oito milhões de almas, que falam, de seu jeito bem particular, os idiomas de todos os vizinhos, mais um punhado de dialetos. Não consigo deixar de me surpreender com o fato de que um país tão pequeno tem quatro línguas oficiais. Mas é assim.

Os helvécios são gente conhecida por ser ordeira, educada e competente. São notórios especialistas em fabricar canivetes e relógios, além de lavar, nas horas vagas, o dinheiro de corruptos do mundo inteiro. Talvez seja por isso que as notas do franco suíço sejam tão belas, estampas coloridas de um bom gosto tamanho, que dá tristeza gastar.

Nesse país cheio de paisagens bucólicas, cada cidadão é um soldado, mantém um fuzil em casa e, se acaso for piloto de aviões, obrigatoriamente já comandou caças, na juventude. Não que haja risco de o país entrar em guerra, por suposto. A Confederação Helvética, que é como o país se chama oficialmente, é neutra por cláusula constitucional. O último aventureiro que inventou de atacar esses pacatos montanheses rigorosamente treinados para as batalhas foi um corso invocado de nome Napoleão, mas ele não demorou a se arrepender.

O país surgiu no século XII, em busca da tranqüilidade que as disputas internas do Sacro Império não proporcionavam. Genebra, por sinal, foi o último cantão a aderir, já no século XIX, quando se libertou do mesmo imperador corso que esbarrou na resistência suíça. Com isso, o cantão de Genebra é uma espécie de península cercada de França por quase todos os lados, ligada ao próprio país praticamente apenas pelas águas de um lago que leva seu nome.

Não chega a ser, como Berna e principalmente Zurique, a sede de grandes bancos e seguradoras, embora tenha lá seu pé no mercado financeiro. Na realidade, o próprio do local são as organizações supra-nacionais, que fazem de Genebra algo como a capital européia, para não dizer mundial, da diplomacia. Não é à toa que a Convenção de Genebra tem esse nome; dê um passeio sem direção pela cidade e esteja certo de passar diante dos escritórios da OIT, da OMC, da OMS e outras siglas célebres.

Talvez venha daí a definição de Genebra como menor dentre as grandes capitais. Pequena, ela é, sem dúvida, com seus cento e oitenta mil habitantes, incluindo as áreas rurais. Mas também, certamente, o ambiente é de grande capital. Avenidas largas, edifícios imponentes, arquitetura variada (bem mais do que a de Paris), gente na rua, excelentes bares, restaurantes, teatros, museus. Mas, acima de qualquer outro atributo, é preciso louvar o lago.
vista para o lago e o centro
Genebra está situada no ponto preciso em que o lago Léman (ou Genebra) desemboca no Ródano, um belo rio, e importantíssimo, cujo valor estratégico e econômico deu ensejo a uma infinidade de batalhas, desde o tempo dos centuriões. Mas para o turista, felizmente, o que mais conta é o tom esverdeado, único, da água, cuja superfície se estende em forma de triângulo em direção às montanhas cobertas de neve. Para a alma, o contraste com o azul de um céu descoberto é agradável como receber uma massagem; não há melhor lugar para contemplá-lo do que a relva esmerada dos diversos parques que ladeiam o núcleo urbano.

É difícil explicar o prazer mágico que aquele lago produz, mesmo à distância, pontilhado de veleiros, lanchas e banhistas. Talvez seja um efeito do cheiro forte de maresia que impregna toda a região central, muito embora a água seja doce como chocolate suíço. Talvez seja o gorgolejar que abafa o ruído tísico dos automóveis, quando caminhamos pela orla. Talvez seja a população incontável de cisnes, exibindo-se por todos os lados, brancos e sinuosos, sempre a atazanar os patos, tão mais fracos e discretos. Que fantástica descoberta: o lago dos cisnes existe, fica na Suíça, Tchaikovski não o inventou; quando muito, o descreveu, inspirado por Genebra.

Do barqueiro que alugava pequenas lanchas de 13 pés, ouvimos que a pequena embarcação poderia subir o lago e nos levar até Lausanne e Montreux, se dispuséssemos de algumas horas e muitos francos suíços. Quase cedemos, atiçados pelo desejo, mas declinamos da idéia. Imagine! Como seria a experiência chegar de barco a Montreux, cenário do jazz e de Smoke on the Water, um dos refrões mais famosos do Rock n’ Roll, senão o mais famoso? Todas as perspectivas, é claro, pareciam maravilhosas, mas tivemos de nos contentar com um mergulho rápido por ali mesmo. E já bastou para que nossos corpos se declarassem agradecidos.

Seria um crime retratar Genebra como apenas um balneário, embora a cidade goste de reforçar esse seu aspecto, celebrando o lago com um enorme jato d’água. Uma visita ao centro histórico, encarapitado num morro e cercado de antigas muralhas, é obrigatória para todos que tiverem interesse em arquitetura, história, teologia, filosofia e gastronomia. Come-se bem naquelas ladeiras, isso é garantido e dispensa delongas. Mais interessante é o orgulho que a população demonstra dos eventos cruciais que se passaram ali. De distrito do Sacro Império a laboratório de Calvino; depois, república protestante que recebia os refugiados de todo o continente, ao ponto de que novos pavimentos foram acrescentados a todas as edificações, para abrigar a população que dobrou da noite para o dia no século XVII; finalmente, um canto delicioso da Suíça.

O legado da Reforma é valorizado em cada esquina da cidade velha. O parque mais conhecido exibe um painel de cem metros, o dito monumento internacional, com alto-relevos que contam a história das disputas religiosas que culminaram na criação de um leque de novas religiões, na Europa do século XVI. Um espaço de relativo destaque é reservado a Lutero e Zwingli, mas a principal escultura, aliás de aspecto um pouco sinistro, põe lado a lado João Calvino, Teodoro de Beza, John Knox e William Farrell, enormes e solenes.
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No alto do morro, ao lado da catedral, o museu da Reforma, muito mais do que informativo, é apologético às raias do exagero. A julgar pelo que está exposto ali, todas as boas iniciativas dos últimos séculos são obra de protestantes, a começar pela fundação da Cruz Vermelha, ocorrida ali mesmo, duas ruas abaixo. Curiosamente, contudo, o brasão de Genebra carrega ainda os símbolos de duas instituições superadas por sua história: as chaves do arcebispo e a águia do imperador. Da mesma forma como o hino nacional holandês, até hoje, faz referência ao domínio espanhol.

Outro filho celebrado da cidade é Jean-Jacques Rousseau, que passeava solitário pelas alamedas, produzindo devaneios e pensamentos. Isto é, só até as idéias resultantes culminarem em sua expulsão e exílio em Berna e na Inglaterra. Felizmente, as discordâncias são águas passadas, Genebra abraça a memória de seu filósofo (e romancista e músico) com enorme boa vontade. Hoje, ruas, edifícios e parques ostentam seu nome em diversos bairros. Certamente esse não é o lugar ideal para fazer elogios a Diderot e Voltaire (embora esse último vivesse ali ao lado, em Fernay, França).

Espero ter quitado meu débito com Genebra, embora o comércio pareça um tanto desequilibrado. A cidade suíça, reafirmo, me proporcionou alguns dias de muita satisfação: estética, gastronômica, física. Eu, de meu lado, só pude retribuir com um parco consumo e uma quinzena de parágrafos, como se ela estivesse interessada no que tenho a dizer. A solução recai sobre uma promessa: hei de retornar para, quem sabe, cortar o lago Léman em toda sua extensão, como sugeriu o barqueiro, e ver de um ângulo muito diverso a menor das grandes capitais.

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Memórias do solstício

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Em tempos de mundo cibernético, não tem maior tortura que passar uns dias fora do ar, sem saber quando volta o servidor, se alguma informação vai ser perdida, se algum leitor pensará que o blog acabou de vez. Um horror. Nesta última semana, cansei de digitar o endereço de meu blog, e meu blog não era encontrado. Dizia-me o navegador, veja a ousadia, que a página não existe. Sei muito bem que ela existe, sim senhor.

Agora estamos de volta à ativa, espero que de vez; se perdi algo, foi a oportunidade de publicar um qualquer coisa sobre o último sábado, 21 de junho, ainda no calor dos eventos. Não há nada como traduzir, ou tentar traduzir, um clima presente, a sensação das coisas enquanto elas acontecem, o frescor das impressões e dos olhares. Mas, como essa possibilidade está excluída, resta buscar na memória o que ficou gravado do dia mais longo do ano.

No fundo, é até melhor; a memória é uma víbora, transforma todas as percepções em fantasias, imagens, relatos que nossa consciência constrói para si mesma, em geral nada fiéis aos fatos, se é que eles existem, os fatos. A memória, sempre perdida entre nossas idéias e nossos desejos, está a um passo da loucura, de forma que a sanidade nada mais é do que um acordo bastante instável entre as quimeras de pessoas que convivem estreitamente.

A digressão do parágrafo anterior parece não fazer sentido, mas faz. O último sábado, 21 de junho, foi o solstício de verão do hemisfério norte, noite de São João, em que a claridade é imperatriz e obriga a celebrar a fertilidade. No norte da Europa, o marrom-e-cinza do inverno já ficou definitivamente para trás, substituído pelo verde e o azul mais intensos, como se não fosse o mesmo continente.

É quando os nórdicos gigantes, os sisudos prussianos, os ingleses fleugmáticos e os enfezados parisienses resolvem colocar tudo de pernas para o ar. É como um carnaval, com toda espécie de fantasia, idéia, loucura e desejo. Mas como só dura uma noite, e uma noite bem clara, a turma não consegue se controlar. Ao longo do ano, cruzamos toda essa gente no metrô e nas calçadas, macambúzia, sorumbática, francamente hostil. De repente, no bendito solstício, eis que aparecem abraçados, saltitantes, cheios de bebida no bucho, soltando gritos selvagens e entoando canções de bar. Impossível não simpatizar com eles.

Cada país, claro, tem sua própria maneira de celebrar o mais longo dos dias (não estou me referindo ao Dia D). Os suecos fabricam coroas de flores e dançam em torno de uma enorme estaca verde que, espero eu, simboliza algo muito positivo. É o que se faz, pelo menos, no campo. Os urbanos preferem entornar aquavit, despir-se em praça pública e bater o carro. Não é à toa que peças como Senhorita Júlia e filmes como Sorrisos de uma Noite de Verão se passem justamente nesse dia em que jamais escurece. Por sinal, Bergman só filmava no estio.

Os ingleses, ah, eles e suas particularidades. Não consigo pensar em nada de específico que aconteça em Londres, mas essa é a data em que se realiza, há trezentos anos, a corrida de cavalos mais britânica que há. Nesse dia, o resfolegar dos cavalos é ofuscado pelas distintas senhoras de sangue azul, que concorrem para decidir quem usa o chapéu mais esdrúxulo e, se possível, cafona. A discrição é terminantemente proibida. Quanto à plebe, ou seja, o resto de nós, ninguém descreveu melhor a insanidade coletiva do solstício do que Shakespeare em Sonho de uma Noite de Verão. A idéia de que pessoas sejam transformadas em jegue do pescoço para cima, na verdade, não é tão fantasiosa.

Cá na França, nunca podemos esquecer o fator determinante que é a Administration Française, ou seja, o governo, que desde o século XIII é a razão de ser deste país. Em algum momento dos últimos séculos, os planejadores republicanos, ou mesmo os da monarquia, consideraram que orgias públicas não contribuem para a manutenção da ordem, ou que não são de bom tom, ou que configuram uma ameaça à estabilidade do Estado. Seja lá o que consideraram, saíram-se com uma alternativa para as festanças desordenadas: a Fête de la Musique.

Está longe de ser má idéia. Quem quiser pode, com toda tranqüilidade, escolher uma programação comedida para esse dia em que as cidades são tomadas por toda sorte de apresentação musical. O austero não precisa se esconder debaixo dos lençóis, pode procurar um recital de piano romântico, um concerto de orquestras barrocas, em salas climatizadas e confortáveis. Excelente oportunidade para escutar as belas harmonias que a humanidade já produziu, sem gastar demais.

Mas não é o que escolhe a maioria, claro. Na Fête de la Musique, músicos de todos os níveis tiram os instrumentos do estojo, sentam no meio-fio e tocam. Rodas se formam a cada esquina. As horas vão passando, mais e mais pessoas saem de suas casas, garrafas de vinho na mão. Amigos abraçados, adolescentes fantasiadas, cantores de ocasião libertos do dever de manter silêncio. Os mendigos e malucos que passam o ano deitados sobre os bancos das praças se reconciliam com a sociedade. É que cada cidadão se tornou um pouco mendigo e um pouco maluco.

Quando, lá pelas nove, o dia finalmente começa a fenecer, já é impossível caminhar pelos bairros centrais de Paris. Nem mesmo a música se ouve mais, distante, sufocada pelos berros aleatórios de uma multidão bem mais interessada em festejar a distância das neves. A harmonia já ficou para trás, já não se distinguem mais os violonistas com ar de Bob Dylan, os flautistas metidos a Manu Chao, os DJs que dançam com movimentos rápidos das mãos. Há apenas olhos esbugalhados, risos escancarados, cabeleiras emaranhadas, um amontoado de gente alegre sem motivo aparente.

Fica claro que, como tantas vezes acontece, os planejadores da Administration Française atiraram no que viram e acertaram no que não viram. A estratégia de acalmar as festividades do solstício, se é que existiu mesmo e não é coisa da minha cabeça, falhou vergonhosamente. Mas criou-se algo diferente, um evento que não se resume a bebedeira e violência, mesmo que tenha ambas em dose generosa. As cidades se mobilizam, as melodias se ouvem, acordamos com o programa na mão, traçando a rota do dia. Conseguindo escapar da insanidade no centro, há muito o que aproveitar.

De agora em diante, o vetor é outro. Começou o verão oficial, mas a contagem é cruel. Os dias sempre serão mais curtos do que o anterior. Aproveitando os dois meses de sol que lhes são reservados, os europeus promoverão em julho e agosto uma enorme migração interna que deixará as cidades vazias. Todos estarão nas praias do Mediterrâneo, na África, no Pacífico, alguns até no Brasil. Num certo sentido, é uma maneira de se recuperar da ressaca do solstício.

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Ainda mais ao norte

Carl Xiii
Nenhum dia na Suécia é igual ao anterior. Tão violenta é a variação das horas de luz e trevas, que os suecos não conseguem conter o comichão de comentar o assunto, quando a curva da primavera vai se tornando mais e mais aguda: “nesta época”, eles informam, cúmplices de contentamento, “são cinco minutos de sol a mais por dia”. E o dado confere com o que aprendemos na véspera.

Não sei quem foi que convencionou as datas que marcam a virada das estações, seguindo os solstícios e equinócios. É provável que tenha sido a academia de ciências da França, como sempre, no mesmo golpe em que foram inventados o metro, o quilo e todo o resto das medidas rigidamente decimais, às quais só os anglo-saxões ainda tentam resistir. Em todo caso, certamente não foram os suecos. O dia se equipara em duração à noite na penúltima semana de março; na última, tem início o horário de verão. Mas é final de abril e não há sinal de verão em Estocolmo. Difícil topar com uma árvore já pontilhada de brotinhos de folhas. Enquanto em Paris as sakura já murcham e passam do rosa ao verde, na Escandinávia ainda abrem os primeiros botões de cerejeira.

Os cariocas dizem que o Rio de Janeiro conta com só duas estações: verão e inferno. Piada antiga. Na Suécia, pode-se dizer algo parecido: há o inverno, inferno oposto ao fluminense, e o “não-inverno”. Em julho, o termômetro eventualmente bate nos trinta e os nórdicos derretem. Hoje, domingo, primeiro dia no ano com céu em puro azul, temperatura positiva já ao amanhecer e mais de dez graus no princípio da tarde. A cidade inteira se lança à rua, redescobrindo os territórios que deixou vazios desde setembro. Coisa linda de se ver. Para nós, é muito frio, mas eles aproveitam para deixar braços e pernas finalmente nus. Não os pescoços, cabe alertar: só um louco sairia sem cachecol antes de maio, arriscando uma pneumonia que o deixe prostrado na cama por todo o verão. Nem pensar.

Pergunte a um sueco como ele consegue viver num lugar coberto de neve de setembro até abril. Faça isso a título de experimento antropológico. Há aqueles, com alma de esquimó, que consideram insuportável de tão quente o inverno de outros países europeus, como a Alemanha. Mas é minoria. Há boas chances de que a resposta seja um suspiro, seguido da confissão: “não sei”. Muitos têm o sonho de se mudar para um país mais ameno, para não dizer quente. Alguns citam a Jamaica, porque é tropical e fala-se inglês. E todo sueco é fluente em inglês, com uma pronúncia muito mais agradável do que a dos nativos, sejam britânicos, americanos, australianos, indianos… Ao final de outra pausa, longa e melancólica, o entrevistado responderá em tom de profecia, mais do que de descoberta: “Suporto o inverno para esperar o verão”.

Concluo que o frio extremo é, antes de mais nada, um grande aprendizado. Com a sucessão dos anos, a espera pia por um verão curto e apenas fresco ensina os jovens a se tornarem pacientes. Talvez isso explique o nível de civilização do país e do povo. A Suécia é tudo que dela se diz. ônibus não atrasam, lixo nas ruas é lenda das terras bárbaras ao sul (e praticamente o mundo inteiro está ao sul), mendigo é coisa do passado. Covardia comparar a Suécia à França. A falta de educação parisiense, o mau humor, a frieza, a empáfia, tudo isso passa longe de Estocolmo. Ou seja, aqueles que atribuem ao frio a nuvem negra sobre as cabeças francesas estão apenas muito enganados. Os fatos indicam coisa bem diversa. Aqui, transeuntes sorriem quando abordados, comerciantes são solícitos e dão informações, ninguém se compraz em destratar os outros. Para quem vive no meio de gauleses, conviver com os temíveis vikings é um alívio.

Uma palavra sobre a capital: Estocolmo é a cidade mais linda da Europa, pelo menos entre as que conheço. Uma pena que só se possa vê-la em todo seu esplendor a partir de maio, até setembro no máximo. Fora dessa janela, não bastassem a escuridão e o frio, muita coisa nem abre. Mas quando há luz, não existe delícia maior do que bordejar a linha d’água, entre pessoas tranqüilas sobre suas bicicletas, sem multidões, sem turistas berrando, sem excursões de japoneses, americanos e brasileiros.

Posso ofender muitas sensibilidades ao dizer que Estocolmo é mais bela do que Paris, Roma, Florença, Praga. Não é culpa minha. Na comparação, as cidades italianas não dão nem para o começo. Fora os museus e monumentos, são mais sujas do que o aterro de Gramacho. Praga poderia rivalizar, mas perde pelo tamanho e porque o adversário é mesmo muito difícil. Quanto a Paris, a incensada, é mesmo muito bela, mas cansa rápido. De sua arquitetura toda haussmannienne, cinzenta e retilínea, resulta uma cidade monótona, monocromática, monocórdia. Estocolmo é colorida, espalhada, ampla. Sua arquitetura é imaginativa, sabe misturar diferentes épocas e escolas, quase sempre sem ruído. Belíssima cidade, repito.

Mas este é apenas um texto introdutório. Lanço aqui uma seqüência quase desconexa de primeiras impressões. Coisas assim são o que vi na capital gostosa de um país nórdico desde que cheguei, dois dias atrás. Mas há muito a dizer nas próximas crônicas, se a internet parar de me pregar peças.

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De dois plátanos

Platano
Bem no meio da região conhecida Batignolles, existiu até meados do século XIX um terreno largado, coberto de lixo deixado pelos fazendeiros do entorno, em suas idas e vindas para os mercados da capital. Não havia o menor motivo para prestar atenção no que houvesse sobre os tufos de grama anêmica. Eram objetos esquecidos, indesejados, pontilhando o espaço entre umas poucas árvores quase desfolhadas, tortas, irrelevantes.

Do dia para a noite, Batignolles se tornou um naco do 17o arrondissement de Paris, pelas ordens de Napoleão III (“o pequeno”, segundo Zola). Pequeno ou não, o sobrinho do diabo corso mandou transformar em parque aquela área perdida no meio de seu novo e estimado bairro burguês. Dando seguimento a uma folclórica fixação sua, quis algo no estilo inglês, em que os caminhos são curvos e a grama, impecável. Encarregou seu paisagista preferido, Jean-Charles Alphand, de canalizar a água e criar um córrego com pequenas cachoeiras e pontes, dando num lago artificial para os patos e cisnes negros que passariam a viver ali. Um canto para crianças, caminhos tortuosos, grama capinada e árvores substituídas, uma pequena estufa para uma única pequena árvore, trazida da Ásia e coberta de folhas até hoje. Alphand era um homem muito competente. A square Batignolles, século e meio depois, é um lugar delicioso para ver o tempo passar, pelo menos quando não faz muito frio.

De casa até lá, ando pouco mais de dez minutos. Um caminho que já percorri um sem-número de vezes. Sempre que precisei de sossego, inspiração, verde, rostos. É o lugar em que vivem os tais plátanos sobre os quais venho prometendo escrever desde o início do mês. São dois. Caules robustos e negros implantados com firmeza na terra, um ao lado do outro, seus galhos espalhados a uma distância desrespeitosa. Cobrem o lago inteiro, servem de pouso e guarda-sol para as aves, recortam a vista do céu como se quisessem nos lembrar de que a vida real está aqui, colada ao chão, e as copas das árvores mais vetustas são seu limite.

Até a última vez em que os vi, jamais tinha percebido que eram dois. Contemplava o emaranhado opulento de madeira escura e era só o que via: um emaranhado opulento de madeira escura. Desta vez, por acaso, e essas coisas só acontecem por acaso, vi-me parado diante de um dos troncos, que eu não conseguiria abraçar sozinho. Pude observar as ranhuras da casca, as reentrâncias na madeira, as cicatrizes do tempo, que acumula madeira em camadas, como uma vela que vai derretendo. Mas quanto tempo? Pensei que jamais saberia. Até que avistei, distraído, uma plaqueta verde pendurada, quase invisível. E descobri que se trata de uma árvore de 1860.

Aquele plátano silencioso mudou de figura no mesmo instante. Seu nascimento precedia de alguns anos o do próprio parque. Foi plantado pelo vento, não pelo homem, a quem só coube a sabedoria de não derrubá-lo e incluí-lo em seus cálculos. O lago recebeu seu formato tal como é simplesmente porque, com o tempo, uma bela árvore cresceria e abriria os galhos sobre ele, como asas de um cisne sobre os filhotes. Alphand subiu no meu conceito: além de paisagista competente, não comungava do maior vício de seu tempo, que era a fé doentia na razão e no planejamento humanos. Essa presunção estúpida, que derrubou monumentos e matas, teria levado qualquer engenheiro da época a impor ao lago o traçado de seu esquadro. Mas Alphand considerou que dali a 150 anos um plátano valeria mais do que uma piscina, e cedeu. Com toda razão.

E não foi a última conclusão que tirei do passeio. Mais uma meia-dúzia de passos e fui surpreendido com a informação de que não havia um plátano, mas dois, como eu já disse. Esse segundo tinha o caule ainda mais largo, escuro e áspero. Um grande buraco, à altura de meus olhos, banhava em breu o coração da árvore e revelava o heroísmo com que ela se mantinha de pé. Aquela imagem de força e decrepitude tinha a singular qualidade de ser ao mesmo tempo bela e sublime, se é que os guardiães da Estética me permitem falar assim.

Em seguida, procurei conferir a idade. A placa me deu mais informações do que eu precisava. Seus poucos numerais explicavam que já crescia a árvore antes mesmo de a região entrar para Paris. Os vendedores que atiravam seu lixo sobre a grama o faziam nas redondezas de um jovem plátano. Enquanto Haussmann botava a capital abaixo, folhas nasciam e caíam dos mesmos galhos, em obediência às leis da primavera e do outono, da mesma maneira como as vejo agora.

A regularidade do ciclo biológico não foi alterada nem com as barricadas de 1848, nem com os alemães desfilando pelas Champs-Élysées em 1870, nem com a violência da Comuna, no ano seguinte, nem com a chegada dos nazistas. Tudo isso nada significou para nenhum dos plátanos. Se a Sorbonne parou em 68 e em 2006 (mal comparando), os plátanos nem ficaram sabendo.

De repente, surpreendi meu pensamento nas palmeiras imperiais do Jardim Botânico, enfeitando os caminhos desde que éramos colônia. Quietas, belas, soberanas, enquanto tivemos golpes, ditaduras, escravos e reis, miséria e milagre. Lembrei de D. João VI e do hábito que temos de retratá-lo como glutão e ligeiramente retardado. Que seja, mas então são as palmeiras de um retardado que nos ligam com maior clareza a nosso passado, leia-se nossa história.

De lá para cá, derrubamos o morro do Castelo, abrimos a avenida Rio Branco, demolimos os prédios elegantes que lhe enfeitavam o entorno. Mudamos de capital, de regime, várias vezes de vocação econômica, ao sabor de caprichos nacionais. E as palmeiras balançando ao sabor de ventanias e chuvaradas. Neutras enquanto nossos pais e avós as contemplavam e deixavam de contemplar, elas acompanharam nossos nascimentos e mortes. Exatamente como esses dois plátanos que uma dúzia de crianças agitadas, dois passos à minha frente, tenta desenhar para um trabalho de escola. Plantados no mesmo lugar desde Napoleão III, até Sarkozy e sabe Deus quem mais.

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Como aprendi sobre a morte

Bobby O Boneco De Neve
Vou ter de deixar para a próxima o tal comentário sobre os plátanos, que venho prometendo desde o início do mês. Como sói acontecer no poço inesgotável de surpresas que é este mundo, veio se interpor a meus projetos botânicos um fenômeno insólito. Já a alma dirigia seus cuidados à sagração da primavera, ao final de mais um inverno tão ameno quanto desagradável; espaços já se abriam nos armários, para receber as carapaças que nos protegem desde outubro; passeios e refeições ao ar livre já estavam no programa. Mas São Pedro tinha outros planos. Mandou baixar bruscamente a temperatura, dos dezesseis para o zero mais quadrado. A tal ponto que, na madrugada de ontem, perigosamente equilibrado entre a saúde e a pneumonia, levantei-me da cama, espiei por uma fresta da cortina e constatei o absurdo: do alto vinha neve.

Em vez de me meter em divagações seriamente preocupadas com as piores questões climáticas de nosso tempo (e talvez essa fosse mesmo a reação mais adequada), corri de volta ao quarto e despertei Nicole. Sabedor de sua frustração por não ter visto um floco sequer de neve desde que chegamos à Europa, não podia deixar passar essa singular chance primaveril. Tadinha, ela acordou com olhos deste tamanho, grogue e incapaz de compreender meu entusiasmo. Isso, até o momento em que se acercou da janela e avistou os automóveis todos brancos. Como no pátio de um hospital. Ela saltitava de contentamento.

Puxei o casaco que tinha mais à mão, um cachecol, um gorro, um par de luvas. Meti-me na carapaça e saí. Como um turista tropical, o que no fundo não deixo de ser, tirei fotos e fiz desenhos na camada de gelo sobre os veículos. Corri até a janela de casa, bati no vidro, Nicole abriu. Finalmente, recolhi neve e mais neve, que resultou num boneco de um palmo e meio de altura, ereto sobre o parapeito. Bobby (não fui eu que o batizei) ganhou olhos de botões, um cachecol cor-de-rosa e terra espargida sobre a cabeça à guisa de cabeleira. Tudo na mais refinada técnica que aprendi quando garoto e não pudera mais aplicar.

Assim termina a parte alegre da narrativa. Bobby teve vida curta. A neve parisiense, à qual fui praticamente apresentado ontem, é tão fraca, que nem cobre de branco as calçadas. Nessas condições, um boneco de neve, como o sol de Gregório de Matos, não dura mais que um dia.

Pior do que aprender da existência efêmera é acompanhar o processo. Chegando em casa, parei diante da janela e me deparei com um corpo branco, ainda em pé, tendo ao lado a cabeça tombada, toda suja, sobre a terra negra de um vaso que em breve deverá receber flores. Do pescoço cortado não escorria sangue, mas filetes de água, como se a essência da vida se esvaísse lentamente do pobre Bobby. Tentei encaixar novamente a cabeça, ela voltou a tombar. Recolhi os olhos, reduzidos novamente a botões sem luz.

Ao anoitecer, restava do corpo de Bobby somente um cotoco amolecido. Pensei em guardá-lo na geladeira, mas venceu a sensação de que seria como meter os restos de um filho no IML. Aquele montículo de neve fazia pensar nos corpos dos imolados pelo fogo, embora tão oposto em cor e temperatura. Uma imagem dolorosa e, de certa forma, repulsiva. Estragou meu humor pelas horas seguintes.

Já deitado, pensei no infeliz destino de Bobby, que tão pouco pôde ver deste mundo antes que um sol fraco o consumisse lentamente. Vieram à memória passagens da infância, vivida numa cidade fria, muito mais do que Paris, coberta de neve por quatro ou cinco meses todo ano, a ponto de ao menos um dia de aula ser cancelado a cada mês do inverno. Lembrei-me principalmente de um homem de neve digno do nome, de cachecol, chapéu de cangaceiro e charuto, olhos, nariz e boca, que passou a vida toda de sentinela no quintal, vendo e cumprimentando as pessoas que passavam. Uma existência mais digna e bem mais longa que a do último boneco: quase dois meses. Mas acabou. Sua agonia foi semelhante à de Bobby, só muito mais demorada. Dia após dia, a massa do corpo ficava menor e perdia a forma, a poça se adensando na base. Cachimbo e nariz tombaram, os olhos furaram os flocos da carne, o chapéu e o cachecol foram logo confiscados.

Lembro-me de uma fotografia, já na primavera, desse homem de neve reduzido a quase nada. Em verdade, a fotografia não era dele: era um intruso, ao fundo, mas foi o que vi. A imagem é chocante. E a experiência de acompanhar a decomposição de um amigo que ajudei a conceber e montar, nem preciso dizer, ficou gravada com um selo de dor.

Foi a primeira vez em que aprendi algo sobre a morte. Com quantos anos? Cinco, no máximo seis. O falecimento de Bobby produziu um déjà-vu tenebroso. Foi como uma sessão de psicanálise. Entendo agora, também, por que os povos do Norte, enfim, do frio em geral, têm a expressão sempre tão triste e fechada. Não é a escuridão do inverno. É a experiência tão precoce da morte, repetida a cada ano no corpo frágil e roliço de um boneco simpático como Bobby.

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