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45 minutos de um início de século

Decido esticar um pouco mais o motor, abusar da energia que resta ao fim de uma jornada já intensa, aproveitar que os olhos e os neurônios ainda estão embalados para trabalhar até a pane no sistema nervoso. Um erro, nem preciso dizer: não bastasse a epopéia de encontrar uma porta aberta para deixar o edifício, é subúrbio, é noite, e em meio de semana há menos trens. Um quarto de hora na plataforma, à espera da composição, acompanhando o vapor que minha respiração lança no ar, dificilmente constitui um prazer. São nove horas.

Já a meio caminho ouço à distância – na verdade, não tão longe – o buzinaço. Cinco para as nove, provavelmente. Sigo meu caminho. De imediato, imagino que seja o trânsito na via expressa, agravado por um acidente, quem sabe. Mas essa interpretação é tola e logo se dissipa: não buzinas, buzinaço. Coisa muito diferente. Só pode ser futebol, percebo, corrigindo-me. Lembro de uma notícia lida pela manhã: é noite de jogo da França e os autóctones estão exasperados, temerosos de ficar fora da Copa. Está esclarecido o mistério, julgo, e me engano novamente. Prossegue a barulheira. Estremeço como Proust (com o perdão do paralelo) estremeceu ao sentir o pavimento irregular da rua e ser atirado em memórias de Veneza e Balbec. Quanto a mim, é como se estivesse diante de uma UERJ da vida. Em noite de gala.

Por um momento, me perco da realidade. Faltando dois para as nove, sou despertado por um berro agudo. Percebo que já subo a rampa da estação e uma motoca com dois molecotes vem descendo bem rápido e em ziguezague. O berro é da buzina, desagradável mas ridícula, descontado o risco de atropelamento. Salto de lado, desejando secretamente esticar a pasta para causar um acidente. Deve ser o mesmo desejo secreto da pequena senhora que, poucos passos atrás de mim, também dá um pulo e dirige à motoca um palavrão. Já vão longe os meninos, empunhando uma bandeira que, no escuro, não consigo divisar.

Uma tela azul informa que o próximo trem só chega às nove e quinze. Suspiros meus e de quem mais tenha visto a informação. Desço as escadas e conto, por falta do que fazer, os gatos-pingados que esperam sob a luz tíbia das lâmpadas parcas. São 21; mas sou mais um, não posso esquecer de contar a mim mesmo: somos 22. Segue o buzinaço. Os franceses, imagino, vão animados para o Stade de France . Nove e cinco.

Além do alambrado, escuto mais berros. Posso enxergar uma pequena multidão à distância e logo concluo que é mais gente a caminho do estádio. Surpreende-me, porém, o mantra entoado: nada de “Allez les bleus!”, mas algo diferente. Impossível decifrar, com a concorrência de um trem que passa vazio. Passa ao meu lado um menino, doze anos talvez, vestindo uma camiseta branca, com um escudo verde. Reconheço a bandeira da Argélia. Apuro o ouvido e consigo distinguir as palavras do canto: One, two, three! Vive l’Algérie! Uma rima bilíngüe, coisas da globalização, e de autoria de um povo que fala ainda um terceiro idioma. Nove e dez, o frio já trinca a minha mandíbula, o barulho dos torcedores embandeirados vai se aproximando. Seria então um França x Argélia? Seria no Stade de France? Nesse caso, que coragem demonstram os magrebinos. Vão atravessar a cidade torcendo contra o mandante! Ali no subúrbio, onde os conjuntos habitacionais escondem e contêm os tons de pele e as línguas menos estimados no país, eles estão seguros, diria mesmo que estão em casa. Mas no centro da capital, sabem os deuses o que pode suceder.

São nove e dez. O garoto uniformizado está mais uma vez por perto. Peço licença e pergunto com quem a Argélia vai jogar. Ele me encara como se eu viesse de cair da lua. Em poucas palavras, ele explica: já jogou, já ganhou, está na Copa e nós vamos comemorar em Saint Michel. Eu também me sinto como um alienígena. Parabenizo o rapaz e desejo sorte no Mundial. Meu inconsciente, enquanto isso, divide-se em duas ponderações. O menino fala um francês perfeito. Ele é francês. Certamente nasceu por aqui. Mas está identificado é com o país de seus ancestrais, como toda aquela multidão que vai se aproximando da estação, cada vez mais barulhenta.

Rumo a Saint Michel, a praça apinhada de turistas onde têm lugar todas as comemorações esportivas da cidade. Como quando os bleus ganharam da Nova Zelândia no rúgbi ou, hélas, do Brasil no futebol. Esta noite, outro país fará sua celebração de vitória, no coração da antiga capital imperial, diante da fonte onde o Arcanjo degola o dragão. Sabem os deuses, ainda, o que pode acontecer. Ponho-me a especular se não haveria um certo fundo político, de cunho étnico, histórico, sei lá eu, nessa manifestação esportiva. Pode ser. Mas certamente não para o menino afogueado e imberbe que se posta à minha frente. Tento parecer simpático e explico que não acompanho muito, na verdade quase nada, do futebol europeu ou, no caso, africano. Por outro lado, e a despeito de um amortecimento em mantas e cachecóis, também estou num espírito futebolístico. Meu time joga hoje, estou apreensivo, e ainda por cima o jogo cai no meio da madrugada, em função do fuso horário. O garoto não quer saber, está provavelmente incomodado por aquele sujeito – talvez até eu lhe apareça como um velho – que puxa assunto assim, sem mais, na plataforma do trem.

Ele não está para confraternizações. Não com brasileiros, ao menos. São nove e doze, o one-two-three já desce os degraus para tomar o trem que passa em três minutos. Mais uma vez, sinto como se fosse a estação Maracanã, aquela massa humana magnificada pelo próprio número, estapeando os painéis publicitários como se fossem tambores e provocando os poucos que permanecem alheios, fingindo ignorá-los. Nada no muito é mais importante do que o destino daquela equipe, é o que crêem os argelinos, como creram e seguirão crendo todos os torcedores em todos os tempos. Reis e generais não fazem a história, mas centroavantes e arqueiros. Acho curioso como eles falam em francês entre si, sem sotaque algum, afora as gírias do subúrbio. Estranha situação, penso. Estar ligado a uma terra pelo corpo e a outra pela alma. O imperialismo deixa suas chagas, não apenas nas colônias, mas na própria metrópole. Clemenceau dificilmente terá imaginado que um dia a juventude argelina tomaria de assalto a praça de Saint Michel. Pois é o que farão, esta noite, os netos e bisnetos de um povo que, naquele tempo, nada mais era do que carne para moer na luta contra o Kaiser.

Chega a composição às nove e quinze, numa surpreendente pontualidade. Os torcedores fazem também o trem de tambor. Pá Pá Pá! Os passageiros se assustam. O canto ainda é o mesmo: one-two-three, vive l’Algérie! Não sem um certo desprezo bairrista, concluo que o brasileiro é muito mais criativo, cheio de cantos diferentes, alguns brilhantes, outros dementes, incitando uma violência tão à toa quanto um jornal esportivo. Procuro um vagão com menos bandeiras e apitos, na esperança de viajar sentado. Qual. Sou obrigado a seguir em pé e o trem ainda vai lento, suponho que por causa dos torcedores, talvez se pendurando para fora ou qualquer coisa dessas que torcedores fazem, como sabemos. Na primeira parada, nove e vinte, entra uma moça de xador e bandeirola na mão. Ela agitará seu brinquedinho timidamente. Não deve ter o hábito do futebol.

Mais alguns minutos e estamos na estação central, onde vamos nos separar. Sigo ao norte, eles ao sul, rumo ao grande objetivo estratégico, a praça Saint Michel. Consigo descer mais rápido e avanço na direção das catracas e da esteira rolante. Nove e vinte e quatro, ouço à distância a aritmética anglo-saxã dos argelinos, felizes da vida. Mas já nada tenho com eles, ou pelo menos é o que creio.

Mais veloz que eu, chega à esteira rolante uma pequena companhia de policiais. São sete. Caminham bem à minha frente. Como de hábito, ponho-me a considerar sua aparência ameaçadora. Todos grandes, fortes como colheitadeiras, com suas jaquetas e calças negras, estofadas para aumentar a impressão de musculatura. Nada que lembre os tradicionais e simpáticos uniformes da política francesa. São todos muito brancos e nenhum parece interessado na vitória da Argélia. Cabeças raspadas debaixo das boinas também negras e um cinto de utilidades à la Batman, com pistola, lanterna e um mostruário de bugigangas que não sei identificar. Com seus coturnos de sola grossa, são todos muito altos, e cada passo ribomba pelo subterrâneo. Quem passa no sentido oposto espia discretamente, com uma certa perplexidade e um grande receio de encarar diretamente aqueles agentes da, como se diz, ordem. Alguns olhares também se dirigem para mim. Esses deixam entrever uma certa pena, como se imaginassem que estou sendo detido.

Aquelas figuras, com seus cassetetes, suas luvas, suas algemas, também me incomodam. Espero poder me afastar deles assim que termine a esteira. Mas, para minha grande decepção, eles tomam o mesmo túnel que eu, sobem os mesmos degraus. Esmagam a escada rolante como se a quisessem escangalhar. Nem imagino de onde vem esse ódio. Nove e vinte e oito, estamos todos, os policiais e eu, na mesma plataforma do metrô. O que querem aqui? Para onde vão? E por que sete, cáspite?

A resposta aparece espontaneamente às nove e meia em ponto. Do outro lado, uma vibração abafada parece vir do túnel. Ela cresce e se transforma num som conhecido: one-two-three, vive l’Algérie. Em poucos instantes, a plataforma oposta está inundada de jovens em verde e branco, empunhando as bandeiras com o crescente – uma delas enorme –, pulando como crianças e fazendo desta vez as máquinas de refrigerante de tambores, que denunciam a falta de ritmo. (Nisso os brasileiros também somos melhores.) Notável, me dizem meus botões, como as torcidas se parecem no mundo inteiro.

Ao mesmo tempo, minha visão periférica capta um movimento rápido. São os policiais, que afastam os viajantes sem grande gentileza e se perfilam diante dos trilhos, olhos petrificados e fixos na pequena multidão festiva. Espinhas retesadas, todos. Alguns cruzam os braços, outros apóiam os punhos na cintura. O que para mim era uma torcida, para eles é um bando de baderneiros, pelo visto. Mas os baderneiros não dão bola para a posição de ataque dos predadores, separados da enorme presa por uma vala eletrificada. A festa continua, a cantoria, a barulheira. O poder de dissuasão dos mamutes públicos é nula diante do contentamento magrebino.

É nove e trinta e três quando chega o metrô para os torcedores e demais passageiros na direção contrária à minha. Eles embarcam sem conceder um mínimo olhar às hostes da repressão e da ordem, aos sete bravos touros que não deixam de encará-los, mesmo quando as portas se fecham. Não há contato, não há comunicação. A disparidade das emoções e intenções é tão radical que encerra os dois grupos em universos isolados. Ainda bem, concluo. Provocações de parte a parte não poderiam terminar bem.

Restabelecido o silêncio na estação, penso que os policiais vão retomar sua conversa ali mesmo. Qual nada. Mal partiu o trem, nove e trinta e cinco, o mais velho e provavelmente mais graduado dá um tapa ligeiro no ombro de um outro e sentencia: “pronto, podemos ir”. Como se abrissem uma comporta, todos relaxam. Os rostos de pedra se tornam milagrosamente humanos. Contando piadas e trocando receitas, eles viram as costas e partem, de volta para casa ou para o quartel – ou ambos, por que não? Eles estavam ali com o fito único de se revelar em ameaça diante da multidão de argelinos. Nada mais. Exercida a pressão, missão cumprida. Todos os presentes vão se lembrar de que, afinal de contas, não estamos seguros coisa nenhuma.

Finalmente, tudo está tranqüilo. Sem tambores, sem rimas bilíngües, sem tropa de choque. Reflexivo e algo entristecido, tomo o metrô às nove e trinta e seis. Às nove e quarenta, estou caminhando para casa. Não me encontro mais no subúrbio, mas ainda muitos carros passam na avenida como bandeiras alviverdes, crescentes, buzinaços, one-two-three e Yallah, yallah. Esfomeado e morto de frio, aperto o passo, mas só tenho um pensamento: oxalá a polícia não invente de ir à praça Saint Michel.

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Aderindo à indiscrição

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Cheguei a crer que os memes tivessem saído de moda, finalmente. Mas eis que aparece esse das seis coisas quase secretas (e, em geral, bastante genéricas) sobre si mesmo, e me vejo convidado a participar pelo Catatau. Ora, o Catatau é blogueiro obrigatório para qualquer internauta que tenha alguma coisa entre as orelhas. Ou seja, não sou muito de memes, mas quando vem um de alguém com a qualificação que acabo de dar, ai daquele que esnoba a convocação. Além do quê, este é um dos poucos que já recebi a deixar uma abertura para algo mais do que uma lista banal de trivialidades que, em tempos menos espetacularizados (Tutty Vasquez diria que é “evasão de privacidade”…), não teriam interesse para ninguém.

Portanto, agora que encontrei boas desculpas para fazer o de sempre, ou seja, burlar meus próprios princípios, parto para pensar nas tais seis coisas genéricas, quer dizer, secretas. Deixo só mais uma rabugice: elas bem poderiam ser cinco ou sete; a fascinação de nosso tempo pelas listas rigidamente numeradas é coisa em que penso bastante, mas não consigo entender de jeito nenhum. Se ao final deste texto só tiverem sido mencionadas quatro, ou mesmo três coisas, honorável internauta-san, não estranhe. É só para ser do contra, uma mania minha que, de secreta, nada tem.

Começo, então, com minha maior mácula. Um dado sobre mim de que eu mesmo, vez por outra, me pego duvidando. Um absurdo que não sei como foi ter lugar. Pois bem: a verdade é que eu sou diplomado em Economia. Sim, estudei taxas marginais de substituição, curvas IS-LM, caixas de Edgeworth, o ótimo de Pareto e toda aquela velha conversa fiada sobre o indivíduo racional de preferências transitivas. Entretanto, estudar é uma coisa e aprender é outra. Apesar de dois anos enfiado em econometria, não saberei o que fazer se me colocarem diante de um E-views, programinha graças ao qual o economista pensa ter as mesmas qualificações matemáticas de um engenheiro, coitado. Enfim!, economista, é como sou obrigado a preencher no campo profissional de qualquer formulário. É minha pena a pagar. Se bem que talvez o pior de tudo seja quando alguém, por intermédio de algum amigo da onça bem intencionado, descobre em que faculdade estudei e, por associação, pensa que cursei Administração de Empresas. O, la honte! Sei bem que há algo muito errado comigo, mas vamos com calma…

Agora, uma anedota futebolística. Em criança, eu vivia num bairreco chamado Vila Suzana, lá para depois do Morumbi, onde hoje os espigões fazem competição, mas vinte anos atrás não havia nada além do que as sobras da Mata Atlântica. Ou melhor, quase nada. Tinha uma escola, um condomínio e um estádio de futebol. A conseqüência é que, na infância, fui um autêntico são-paulino, quer dizer, quase autêntico, sabe como é. Enfim fui perder o interesse pelo tricolor paulista quando, aos 13 anos, fui pela primeira vez ao Maracanã. Foi um Fla-Flu daqueles, que me fez entender até que ponto o futebol pode envolver elementos telúricos e inconscientes, muito além do estéril “quem ganhou de quem”. Em campo, Romário e Sávio de um lado, Renato Gaúcho e Luiz Henrique do outro. Mas quem decidiu a parada com dois gols foi um cracaço de 45 minutos chamado Rogerinho (quem?!). Não era final de campeonato, nem nada. Aliás, a final daquele ano seria outro Fla-Flu, por sinal um dos jogos mais emocionantes de todos os tempos, mas eu não estava presente por motivo de superstição na família. Nem foi o jogo em si que determinou meu futuro de torcedor. Foram as arquibancadas. Pela primeira vez na vida, entendi que torcedor poderia fazer algo mais do que mascar amendoim e mandar o adversário “chupar”. Quem me conhece há poucos anos provavelmente nem sabe disso, mas meus primeiros colegas de faculdade (sim, em Economia) ainda podiam me ver, vezenquando, com uma velha camisa do São Paulo. Quando rasgou, não me preocupei em comprar outra.

Terceiro fato que deveria ser secreto, mas vem à tona, desta vez inspirado pelas confissões de Pierre Bayard. Admito que sou um pós-graduando em Filosofia que jamais leu 1) a Crítica da Razão Pura, de Kant; 2) a Fenomenologia do Espírito, de Hegel; 3) O Mundo Como Vontade e Representação, de Schopenhauer; 4) Ser e Tempo, de Heidegger: 5) O Ser e o Nada, de Sartre, embora tenha lido outros textos de todos os citados. Três dessas obras estão pegando poeira na minha estante, à espera de algumas férias em que eu quebre a perna ou coisa parecida. (Enquanto isso, li It de Stephen King e Esfera, de Michael Crichton.) Não que isso me impeça de ser pernóstico a ponto de concordar ou discordar das teses de todos esses grandes mitos da filosofia ocidental. E inda faço discursos, explico para “leigos” interessados, respondo a objeções e assim por diante. Quando o encadeamento de um argumento me falta e acabo gaguejando, não faz mal: ponho a culpa na necessidade de traduzir conceitos que aprendi originalmente em francês. Nessa, eu me saio como alguém muito, mas muito chique. É que uma parte do treinamento nas faculdades de filosofia consiste em aprender a fingir que entende determinados assuntos. Mais ou menos como a gente aprende na faculdade de economia, com a diferença de que o filósofo não precisa invocar números sem sentido e, mesmo assim, convence mais. Mistérios da retórica…

Aproveitando que entramos por essa senda, um outro segredo é que não terminei o curso da Sorbonne. Depois de dois anos, fiz prestarem para algo meus créditos de Economia e pulei para a pós em Nanterre. Talvez o tempo restante do curso, que perdi, fosse dedicado justamente ao estudo dos livros que mencionei no tópico anterior. Mas duvido muito. O mais provável é que os professores continuassem preocupados em formatar seus estudantes para produzir dissertações e comentários de texto na mais perfeita “méthode française”. Como eu quero mais é que esse maldito método vá pelos ares, achei melhor pular fora. Isso significa que nunca vou poder pendurar um diploma da Sorbonne na parede. Mas isso nem é tão grave, considerando meu prazer mesquinho de deixar arestas por aparar, a ponto de responder com míseros quatro tópicos a uma proposta que explicitamente exigia seis.

PS: Se eu pensar em mais alguma coisa, atualizo o texto ou adiciono na caixa de comentários.

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Das outras vezes em que passei a noite em claro desde que vivo em Paris, foi para ver futebol. Ontem, abdiquei de acordar a tempo de ir ao curso de alemão para viver a História in the making. À distância, mas em tempo real, como só nossa era de conexões pode permitir. Olhos inchados, sobre a escrivaninha uma caneca de chá, trêmulo de frio e expectativa, passei horas no portal da CNN, a clicar sobre os mapas dos Estados americanos, vendo a subida dos números, acompanhando os comentários da torcida democrata em blogs e jornais, que, em poucas horas, passaram da apreensão esperançosa a uma torrente incontida de emoção, alívio e orgulho.

Eram quase seis horas da manhã na Europa quando começou o discurso da vitória de Barack Obama, no Grant Park de Chicago. Ohio e Virginia acabavam de revelar sua definitiva mudança de lado. A Flórida estava a caminho. Enquanto esperava a subida ao palanque do presidente eleito, a cobertura da BBC exibia cenas da celebração no Quênia, terra do pai e de muitos meio-irmãos de Barack. Uma multidão cantava e dançava, em meio a declarações de que aquela era uma vitória deles, também, um pouco. E quem haverá de dizer que não era? Comecei a imaginar a expressão de algum redneck do Mississippi que estivesse assistindo àquela cobertura; não sem uma certa alegria sádica, pensei que ele talvez sofresse um enfarte. Pena que só existisse na minha cabeça.

E começou o discurso. O 44o presidente dos Estados Unidos é um pequeno milagre, para não dizer que é um grande milagre. Seu domínio da oratória é raro. Cada movimento de sua cabeça e de suas mãos, cada pausa no meio das frases, cada piadinha que quebra a gravidade da retórica, cada olhar, tudo é tão bem estudado que parece natural. A facilidade de sua expressão é tamanha que faz crer que improvisa. Certa vez, debati com meu pai um discurso de campanha do então recém-escolhido candidato democrata. Ele dizia que não empolgava, eu discordei. Sem falsa modéstia, eu tinha razão. Obama não pode imprimir a suas palavras um tom inflamado, que o associaria mais a Jesse Jackson e a Malcolm X do que a Martin Luther King Jr., cujo famoso discurso do sonho é evocado por dez entre dez comentaristas desta eleição. De quebra, ainda reduziria a percepção de sua distância do belicismo caipira dos republicanos atuais.

Obama, ao falar, inculca no ouvinte os atributos que quer: sereno, culto, preparado, forte, capaz. Sua fala é tão bem controlada que até nos momentos em que deveria perder o controle, não perde. Foi assim quando se referiu a Michelle Obama, “the love (pausa) of my life“, e a sua avó, que faleceu no final da última semana. À parte os agradecimentos, devo dizer que fiquei muito impressionado com a força e a beleza do discurso. Digno de Lincoln, King, evidentemente, e Churchill, também em versão de texto, porque a pronúncia não é nada fácil (se não tiver paciência, pule direto para o último parágrafo, que é o ápice da beleza oratória). Melhor, creio, do que Kennedy. Em política, saber falar é tão importante quanto saber costurar acordos ou administrar a economia. Também nesse aspecto, Obama começa muito bem.

Nem preciso dizer que sou fascinado pela arte da Oratória. Talvez porque eu mesmo falo muito mal: tendo a embaralhar as palavras e perder a atenção do ouvinte. Que dirá de uma multidão… A vantagem de viver no estrangeiro, aliás, é que, com o sotaque, tudo se perdoa. Admiro, até invejo, quem consegue segurar o público só com a força de sua presença e de sua voz. Mais além, a palavra é um dos fenômenos que mais me fascinam. O poder de falar é determinante. É quase irresistível. Apaixona, como se vê pelos olhares vidrados da multidão que segue a voz clara de Obama, como investidores seguem sem pensar as ondas do mercado. A persuasão das belas palavras leva às lágrimas homens feitos, grisalhos, que em teoria viveram o suficiente para não se deixar emocionar e conduzir tão facilmente. Milhares de pessoas abrem mão de sua individualidade para repetir o mantra irresistível da campanha bem-sucedida: “Yes, we can!

A oratória é uma arte perigosa, sim. Basta lembrar de Carlos Lacerda, de Joseph Goebbels, e da seqüência magistral de Júlio César, peça de Shakespeare em que Brutus e Marco Antônio discursam sobre o cadáver ainda quente do líder, e basculam as emoções da multidão romana pela simples potência de suas frases fulminantes. O bardo, com sua visão aguda, não deixa dúvidas: o erro estratégico de Brutus foi deixar o adversário falar; e por último, ainda por cima. O texto dá a entender que a história do Império Romano seria outra sem essa falha.

Mas Obama, como eu já disse, é um milagre. No ponto em que está, já realizou grande parte do que tinha de fazer como símbolo. Imagem do homem negro que supera os obstáculos e consegue unir todas as etnias do país. Encarnação do esclarecimento que esmaga o perigo crescente do obscurantismo. Um bofetão no rosto da tradição racista dos Estados do Sul. Só pelo fato de ter sido eleito, Obama já abalou as estruturas nefastas da desigualdade, embora ela não vá deixar de existir, e forte, mesmo que ele seja reeleito e conduza um governo impecável nos próximos oito anos. Obama já chegou mais longe que o doutor King. E já chegou mais longe que Bobby Kennedy, branco como a neve, mas assassinado sem ter a chance de vencer as primárias democratas.

Porém, há que entender-se que o Barack Hussein Obama que conhecemos já é uma página da história. Acabou. Daqui por diante, teremos um outro Barack Hussein Obama. Um presidente não é um candidato. Não há um inimigo claro, uma chapa John McCain e Sarah Palin, que não representa absolutamente nada em termos governamentais e administrativos, mas encarna com perfeição a política do atraso, a manipulação de emoções patrióticas belicistas, a mentira de um misticismo chinfrim que se faz passar por religião, a estupidez agressiva travestida de honestidade simplória, que obteve dos eleitores do país mais rico do mundo a bagatela de cinqüenta e cinco milhões de votos. Eis o número de americanos que saíram de casa para escolher o absoluto vazio.

Isso já ficou para trás. Obama não é mais um antípoda dessa gente, ele agora é seu líder. Escolherá um ministério, enfrentará uma crise, tomará decisões difíceis. Negociará acordos comerciais com outros países, inclusive o Brasil, e será duro nas negociações, como espera seu eleitor. Será criticado por jornalistas e zombado por comediantes, como todos os presidentes de todos os países, salvo, no máximo, as piores ditaduras. Ele deixará de incorporar a esperança. Passará a representar um país. Sua oratória será fundamental nessa nova etapa de recessão e guerra, mas não será tudo. A grande, a verdadeira vitória que o novo presidente americano pode obter é outra:

Quando criança, eu vivia num subúrbio de Washington, D.C., e na minha turma da escola havia um único garotinho negro, de cujo nome já me esqueci (como, aliás, de todos os outros coleguinhas daquele tempo). Em várias aulas, a adorável professorinha, Ms. Flannery (engraçado, do nome dela, não esqueci!), se esforçava por nos fazer entender a importância da igualdade e o absurdo da discriminação racial. Certo dia, recebemos como dever de casa inventar uma história que envolvesse outros alunos da turma. Na que escrevi, todos os meus amigos eram abduzidos por alguma força inexplicável e se transformavam em pessoas más, muito cruéis. Eu seria o único a resistir e teria de salvar todos os demais. Um verdadeiro herói americano, digamos assim. Mas mudei o enredo. Achei, veja só, que estaria agindo como um racista se incluísse o colega negro na lista dos maus. No texto final, então, nós dois lutávamos lado a lado pelo triunfo do Bem. Ninguém jamais soube por que fiz a alteração. Meu colega ficou lisonjeado. Se fosse no Brasil, tenho certeza de que passariam a me olhar torto, com o tradicional “sei não”…

Contei esse episódio para chegar à vitória que Obama ainda precisa conquistar, nos quatro ou oito anos em que ocupará a Casa Branca. Ele terá triunfado se ações ingênuas como a minha se tornarem obsoletas. Se ninguém comentar uma decisão do presidente fazendo menção à sua cor. Se não pegarem mais leve, nem mais pesado, porque ele “é negro”. Se concordâncias e discordâncias passarem por cima do fato, como se fosse um detalhe. Ironicamente, o maior feito de Obama terá sido transformar sua grande diferença em qualquer coisa de corriqueiro.

É claro que não vai acontecer. Quinhentos anos de discriminação racial, escravidão, segregação, preconceito, não vão ser apagados por um ou dois mandatos. Mas já terá sido um ganho enorme se, no mundo inteiro, pessoas que sempre enxergaram a si próprias como inferiores por causa de sua pele puderem ter espaço para se impor como cidadãos plenos. Daqui por diante, todas as crianças, de todas as cores e etnias, do mundo inteiro, vão nascer e crescer com a imagem de um presidente americano que não é branco, não é W.A.S.P (OK, Kennedy era católico). Para essas crianças, a idéia de que o negro possa ser inferior ao branco não fará sentido. Eis a vitória que Obama terá de cavar enquanto estiver trabalhando no Salão Oval.

Estou convicto de que a madrugada fria que passei diante do computador e da televisão é algo que vou contar para meus netos. Valeu a pena.

PS: Sobre as eleições propriamente ditas, em português, recomendo os óbvios Biscoito Fino e Pedro Dória, além do excelente blog de Argemiro Ferreira. Para algumas frases bem escolhidas e traduzidas para nossa última flor do Lácio, recorram ao Animot. Para quem gosta de sarcasmo irrefreado, O Hermenauta.

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Pé-frio, abnegado e feliz

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Ontem à noite, telefonei para meu colega Diego de Oliveira com a intenção de provocá-lo. Trata-se de um amigo brasileiro, interessante sobretudo por suas contradições: é, ao mesmo tempo, carioca e paulista, capitalista e socialista (como a China?), economista e artista, roqueiro e sambista. Vá entender a figura! Acho que a única cláusula pétrea em sua constituição é sua paixão irracional pelo Fluminense. Tão irracional que ele é capaz de todo tipo de sandice pelo seu clube do coração. Senão, vejamos:
Perguntei-lhe, por telefone, se pretendia varar a noite para acompanhar, pelo rádio, a final da Copa do Brasil contra o Figueirense, em Florianópolis. Com uma dificuldade enorme, até engraçada, de manter a voz estável, ele respondeu que não. “Como não?”, retorqui. “Não é todo dia que o seu time chega a uma final! O que é varar uma noite, tendo a oportunidade de ver um título inédito? Você vai desperdiçar isso, só porque precisa acordar cedo e ir trabalhar?”
“Não é isso”, ele respondeu, algo vexado. “É claro que eu passaria a noite inteira ouvindo o jogo via internet… mas não posso.” Pensei que a culpa fosse de sua conexão, que estivesse falhando. Não. Pensei que ele não fosse, por algum motivo, dormir em casa. Tampouco. A explicação, quando o rapaz finalmente cedeu às minhas pressões, me levou às gargalhadas. “É que, pelo rádio, sabe como é… Eu sou muito pé-frio!”
Ele se ofendeu com minhas risadas e, como todo supersticioso, desenvolveu uma argumentação estatística para provar como, de fato, seria perigosíssimo para seu time se ele colocasse os fones no ouvido e se conectasse à Tupi, à Globo, à Nacional, à CBN. Trouxe à baila outros jogos que acompanhou. Traumas, desclassificações, títulos perdidos, gols espíritas. Uma evidência, no seu entender, ainda mais forte: esses gols costumam acontecer logo depois que ele se conecta. Que tragédia! Sinistro, muito sinistro, diria Januário de Oliveira.
Por outro lado, Diego já se manteve afastado das tentações radiofônicas em outras ocasiões. Sucesso: belas vitórias, goleadas, gols mágicos, títulos. “É o óbvio ululante”, ele exclama, citando o ídolo maior da literatura tricolor, Nelson Rodrigues. Esse Diego, trata-se de um pé-frio dos piores. O Fluminense deveria pagar alguém para amarrar os braços de seu torcedor, cada vez que ele tente acompanhar uma partida.
É uma maldição. Uma sina. Seu destino é ficar nervoso, em silêncio, esperando que se esgotem as quase duas horas de duração de um jogo para, finalmente, ficar sabendo apenas do resultado e acompanhar os melhores momentos. Ter a sorte de seu clube, e dos demais 10 milhões de torcedores, entre as mãos, é uma responsabilidade que poucos conseguiriam suportar. Mesmo à distância, separado de seu Tricolor por um oceano enorme, só Diego é que decidirá o título, mais do que Renato Gaúcho, Roger, Thiago Neves ou Carlos Alberto. O auto-controle de um jovem exilado conta mais para uma conquista do que os treinamentos nas Laranjeiras ou as contratações.
Muito bem, então. É sorte do Fluminense que seu torcedor mais decisivo seja um abnegado. Como eu disse, é alguém que faria qualquer sandice pelo seu clube. Não, claro, como alguns malucos que viajam o país inteiro atrás de um time. Pelo contrário. O maior ato de amor de Diego é não ver, nem ao menos escutar as partidas.
Acontece que, esta manhã, encontrei o dito-cujo no corredor. Cambaleava, pobre diabo, com sua camisa um pouco amassada deixando entrever, por debaixo da gola, o uniforme listado nas três cores de seu time, traduzindo tradição. Tinha olheiras do tamanho de castanhas e um sorriso de cãibras. Quando deu por mim, veio me abraçar como se faz no Brasil – mas aqui, pega um pouco mal. Sua aparência exterior não me enganou: ele não pregara o olho.
“Então você ficou acordado! Não resistiu ao encanto da partida? Irresponsável! Quase pôs o Fluzão a perder!”
Ele sacudiu a cabeça. “Não acompanhei o jogo… mas estou louco de felicidade! É campeão!”
Como se eu acreditasse. “E essas olheiras? Acha que me engana?”
“Estou falando sério. Não vi o jogo, mas também não consegui dormir. Fiquei a madrugada inteira acordado, deitado na cama, olhando para o teto. É um desespero. Você não supõe como é terrível! Saber que a bola está rolando e você não pode acompanhar. Estamos ganhando? Estamos perdendo? É redenção ou humilhação? Impossível dormir. Só levantei quando, quase às cinco da manhã, meu pai me telefonou para dar a notícia.”
E repetia: “É campeão, é campeão, é campeão…” Para ser honesto, essas manifestações de alegria futebolística me irritam um pouco. Dei os parabéns, que sou bem-educado, e me afastei. Superstição tem limites… ou não tem? Talvez o futebol seja o exato domínio em que nossa fé no oculto se liberta. Tudo bem, Diego, eu compreendo seu parafuso a menos.
Ele, a esta hora, deve estar adormecido, com a cabeça sobre o tampo de sua mesa. Mas é merecido. Ele dorme o sono dos campeões e dos malucos. E hoje, em particular, ele é ambos.
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