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A “sensação de segurança” é um engodo

O penúltimo texto tratava de um dos aspectos mais cansativos e artificiais da forma marqueteira que assumiu a política de uns tempos para cá. (Quanto tempo? Dez, vinte anos? Difícil estabelecer um início preciso para um processo tão paulatino…) Embora o tema a perpasse sem descanso, não me refiro à política enquanto disputa de poder, embora esse aspecto tenha recoberto o termo quase inteiramente no debate público, mas ao verdadeiro quotidiano político, o esforço constante de viver em comunidade. Trata-se da questão da segurança, martelada em todos os telejornais, muitos filmes, conversas no barbeiro e no táxi, e repetida inclementemente por candidatos a qualquer coisa em seus discursos temerários.

Poderia ser uma particularidade brasileira. Afinal, nossas maiores cidades são território livre para assaltos, sequestros-relâmpago e o diabo a quatro, quando não estão em franca guerra civil, sem contar os acordos de bastidores entre governos e grupos criminosos para que estes últimos “peguem leve”. Mas não. A julgar pela prioridade que o tema recebe, o mundo inteiro deve estar à beira de centenas de guerras civis entre criminosos satânicos e os pobrezinhos dos cidadãos de bem, sempre acuados em seus cantos, tentando levar suas vidas sem serem esquartejados por bandos criminosos. Sem contar os terroristas, claro. Porque, afinal de contas, eles existem. E se existem, só podem estar por toda parte, certo? O raciocínio parece tortuoso, mas tem dado sucesso a seus proponentes em eleições mundo afora.

Muitos meses atrás, comentei aqui sobre a violência policial, comparando maio de 68 e todos os meses de 2008, na França como no mundo. Só de confrontar fotografias antigas com recentes, ficou claro que a tropa de choque (CRS na França) que trocaram cascudos com estudantes diante da Sorbonne em 68 mais parece uma fileira de guardas de trânsito, comparada à tropa de hoje. Aqueles policiais tinham capacetes, escudos e espingardas (não usaram), por certo; os de hoje parecem robôs de filmes de ficção científica, com suas armaduras, máscaras e coturnos à la Kiss. A polícia de hoje é bem mais ameaçadora. Tem um visual que intimida enormemente. Mesmo as patrulhas simples, pelo menos na França (e pelo que vi, no Rio também), vestem-se com blusas negras que lhes dão um ar de muito mais fortes, além de rasparem a cabeça como recrutas do exército. Não consegui explicar isso à época, então retomo a pergunta: por que a polícia deste início de século precisa causar tanto terror?

Para responder, volto ao penúltimo texto: a estação ferroviária, a cerveja, os soldados em uniforme camuflado exibindo suas boinas negras e seus fuzis semi-automáticos, desses que disparam sei lá quantas centenas de projéteis por segundo. Também coturnos, também cabeças raspadas, uma forma de olhar que, sem a menor fagulha de sucesso, buscava passar a impressão de investigar qualquer coisa. Um quarteto que se arrastava entre malas e bilhetes, simbolizando o mesmo programa anti-terrorismo que eliminou os bagageiros das estações de trem. Imagino o alto comando do exército a formular sua política de combate aos homens-bomba: colocar alguns rapazes sobre as plataformas, prontos para metralhar o primeiro zé-mané que pareça ter uma banana de dinamite por baixo da bata ou do turbante (sim, porque gente de paletó está acima de qualquer suspeita).

A segurança é a prioridade número um da maioria dos governos ao redor do mundo. Economia, saúde, educação, meio-ambiente, tudo isso é obrigado a disputar o segundo lugar, onde ainda sobram eventuais migalhas de atenção midiática. Talvez haja duas exceções. Uma é nosso bom e velho Lula, porque também não tem muito como competir com os políticos estaduais Brasil afora, que ainda enchem as PMs de carros enquanto a criminalidade teima em não ceder. A outra é o celebérrimo Obama, que, não é nada, não é nada, prossegue com duas guerras do outro lado do mundo, uma delas justamente contra o terrorismo. Fora esses aí, há anos ouvimos falar, e vemos na prática, em aumento do efetivo policial, tolerância zero, combate à delinqüência, câmeras espalhadas pelas cidades, monitoramento de lan-häuser, atenção particular para os “subúrbios sensíveis”. O público, já apavorado, porque já escutou esses discursos todos e já viu cenas de jovens em confronto com a tropa de choque, adere. Vota, esquece todos os outros problemas, fecha os olhos para a má gestão da estrutura pública… essa ladainha, todos conhecemos.

Mas, ora, que coisa estranha: nenhuma dessas políticas de segurança tem surtido um grande efeito duradouro. A não ser, talvez, o programa de Rudolph Giuliani em Nova York, o “tolerância zero”. Mas não é a mesma coisa, porque o que se fez na Big Apple foi deixar de fechar o olho para as pequenas infrações, como avançar o sinal vermelho e encher as calçadas de cadeiras. Isso, mais um policiamento ostensivo em nada diferente do que fazem os tradicionais guardas londrinos, conseguiu um nível de paz e tranqüilidade urbana muito maior do que a paranóia policialesca que, por exemplo, levou ao assassinato de Jean Charles.

A reação do público, no entanto, parece não reverberar a contradição. Nas pesquisas, as pessoas, aquelas normais, trabalhadoras, de bem (e assim por diante), continuam manifestando um medo enorme, diante de um mundo que lhes aparece como cada vez mais perigoso, instável e coalhado de bandidos, desde criminosos comuns até terroristas religiosos. Mesmo assim, elas declaram, diante da reação governamental, isto é, diante da presença massiva de gente com uniforme futurista, cacetete, fuzil, boina, cabeça raspada, escudo, capacete, óculos de visão noturna e gás lacrimogêneo, que experimentam uma maior “sensação de segurança”.

Ora, direi, sensação de segurança! Mas se dizíeis estar a vos cagar de medo! Como é possível?

Diante de tamanho paradoxo, refleti sobre o assunto e cheguei à conclusão que segue: essa tal “sensação de segurança” é um engodo. Ela não existe. Quando alguém acredita experimentar uma “sensação de segurança”, está enganada, não porque não esteja sentindo nada, mas porque aquilo que ela toma por uma “sensação de segurança” é, na verdade, outra coisa. Logo veremos o quê. Primeiro, preciso mostrar que não faz sentido falar em “sensação de segurança”. Ora, “sensação de segurança”…

Imagine você, em sua casa, deitado em seu sofá numa tarde de sábado, depois daquela feijoada, vendo pela televisão seu time ser esculachado em rede nacional. Você está seguro? Até certo ponto, sim. Pode cair um meteoro em sua casa, claro, mas afora essas hipóteses mirabolantes, você corre pouco risco de ser vítima de algum evento traumático ou perigoso. E que sensação você tem nesse momento? Sonolência, provavelmente. Raiva do juiz, talvez. Preocupação com o aluguel, eventualmente. Azia, posso arriscar. Mas “sensação de segurança”? Duvido.

Outra situação: você está dirigindo numa estrada escura. É noite. Chove a cântaros (é uma chuva das antigas). De repente, uma enorme vaca ruminando a um palmo dos faróis. Você entra em pânico. Solta um berro de pavor. Mas não há tempo para faniquitos: no último instante, você dá uma guinada com o volante, afunda o pé no freio, depois no acelerador, e consegue se safar. Seu coração ainda está disparado, você continua sem fôlego, suas mãos tremem. Mas o medo já passou. O que você sente? Alívio, certamente. Ódio da péssima iluminação da estrada, sem dúvida. Pena da vaca que talvez não escape ao próximo carro, nem ele a ela. Mas “sensação de segurança”? Necas…

Talvez eu esteja querendo brigar com os fatos, admito. Se as pessoas garantem que têm essa tal sensação, se elas insistem que é uma experiência verdadeira, quem sou eu para contradizê-las? Mas antes que me lapidem: eu nunca disse que elas não sentem nada. Eu disse simplesmente que essa sensação não é de segurança. Então, direis, é de quê? Tentarei responder.

Metade da resposta, acredito, está nas explicações dos pesquisados. Elas sentem medo e o associam de alguma maneira à “sensação de segurança”. Essa associação é muito freqüente para ser coincidência. De fato, tudo aponta para a noção de que a “sensação de segurança” corresponde à constatação (talvez inconsciente) de uma ausência de ameaça ou, melhor ainda, da ameaça contida, afastada, superada. É o que vimos nos exemplos acima, de maneira rudimentar, mas válida. Portanto, é impossível conceber a “sensação de segurança” sem uma sensação mais fundamental e mais evidente de medo, pavor, terror, ameaça, risco, decadência, desordem, chame como quiser – escolha, por exemplo, uma palavra do repertório de analistas políticos ligados a qualquer governo ao redor do mundo.

Seguimos no campo do paradoxo: como é possível que a “sensação de segurança” seja fundada sobre o medo, se o medo é o oposto da segurança? Estranho, não? Falta alguma coisa nessa nossa definição…

Então voltemos aos dois textos que mencionei nos primeiros parágrafos. O que encontramos? Policiais saídos de algum videogame, desses baseados em Robocop ou Exterminador do Futuro. O temor (mal dirigido) do terrorismo islâmico, que põe soldados armados até os dentes em todas as estações de trem da França (e muitos pontos turísticos), como se aqueles rapazes recém-saídos do treinamento fossem capazes de evitar a detonação de uma bomba. As tropas de choque que, e isso eu vi com meus próprios olhos, precisam de dois ou três batalhões, camburões e jatos d’água para desbloquear escolas onde garotos e garotas de 16, 17 anos fazem seu mui ameaçador piquete.

Para que serve tudo isso? Quem está mais seguro graças a esses bravos profissionais da violência estatal? A população? A gente de bem? O nobre e honrado cidadão? Alguém realmente acredita nisso? Sim, alguém acredita nisso. Basta ver, também alguns parágrafos acima, a reação habitual dos já mencionados cidadãos. Mortos de medo, mas ainda eleitores dos Sarkozys, Berlusconis e Serras da vida, graças a essa formidável “sensação de segurança”.

Devem então ser esses os componentes da magia paradoxal de nosso tempo. Primeiro, o medo; depois, o belicismo encarnado em policiais e soldados. Mas por que o belicismo? O que ele representa, quer dizer, o que ele provoca em quem o presencia? Traduzindo, como é que ele contribui para a “sensação de segurança”? Afinal de contas, guerras são tão opostas a qualquer noção de segurança quando o próprio medo, aliá seu correlato. Será possível que a “sensação de segurança” seja fundada sobre duas coisas que se opõem tão perfeitamente a qualquer idéia de estar seguro?

Sim, é possível. E talvez exatamente como conseqüência da contradição, da mesma forma como a multiplicação de dois números negativos produz um positivo. O belicismo dos assustadores soldados faz sentido quando entendemos a impressão que ele esconde: uma percepção de força, ou seja, uma demonstração de poder. Talvez o conforto implícito de que é possível agredir de volta, ou até agredir antes. De que qualquer ameaça será contrabalançada por um efeito punitivo e multiplicador. Que sei? Só posso afirmar que essa projeção de virilidade primitiva é o segundo componente da tal “sensação de segurança”.

Com isso, acho que já temos um quadro da nossa vítima. A “sensação de segurança” nada mais é senão um núcleo de medo recoberto por uma couraça de poder. Como o medo exige alguma forma de força e a força só é necessária quando temos medo, um anula e alimenta o outro. Desse estranho equilíbrio, dessa tensão delicada e perigosa, nasce essa tal “sensação de segurança” que tanta gente afirma sentir. Ou seja, é um engodo e um engodo arriscado.

Digo arriscado porque a “sensação de segurança” só pode aumentar de duas maneiras: ou cresce o medo e, em seguida, a demonstração de força como reação que restabelece o equilíbrio, ou aumentam, forçando um pouco a barra, as demonstrações de força, que por sua vez reverberam até multiplicar também o medo original. Não é difícil perceber que estamos diante de uma bola de neve. Só lembrando que o destino de toda bola de neve é a avalanche.

Até onde conseguimos levar o discurso e a estrutura reticular que sustentam a “sensação de segurança” tão fundamental a essa política mané de nossos tempos? De onde mais podem vir as ameaças que justifiquem tropas de choque e soldados com fuzis desfilando pelas ruas e estações de trem? Que outras medidas podem ser tomadas para, como é mesmo que se diz?, garantir a tranqüilidade dos cidadãos? Respostas nos comentários, por favor.

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O repouso do general

Quando soube que estariam todos fora – demônios, reis, colombinas, palhaços –, concebeu o mal-estar, dramatizou a doença, conquistou a solidão. Livres as paredes para o silêncio, os salões entregues à vibração do tempo baldio, fremiu e suspirou de alívio e apreensão.

Estacou por instantes sem volume. Quando o sangue voltou aos dedos, entregou-se à tarefa solene de desabotoar a farda, pendurá-la no cabide, encerrá-la na escuridão do guarda-roupa. Puxou dos ombros os galardões cheios de estrelas, apertou-os na palma da mão e os depositou na gaveta. Fora de vista, mas não de alcance. Para o caso de precisar buscá-los às pressas.

Seria lá o repouso do general. Nada de respostas, nada de comandos e decisões. A camisa de algodão lhe caía esquisita, mas agradável. Como trocar de pele.

Respiração caprichada, caminhou a passos arrastados até a poltrona. E se instalou, rijo, como numa sala de interrogatório. Conforme o previsto.

Só então ousou um lançar de olhos para o volume que trazia entre as mãos. O objeto grande, pesado e viscoso, coberto por um pano branco tão limpo, liso, fragrante – por que não dizer: imaculado. Tantos anos à espera do momento de encarar a carga, tantos anos, pareciam uma vida inteira. A exemplo da vida, não tinham começo na memória. Que esforço, que heroísmo, dar a crer aos outros que aquilo, aquela coisa, era natural. Que sabia o que fazia. Que vagava pela casa carregando um pacote branco com algum propósito. Missão misteriosa, mas incontornável.

Agora que estavam todos fora – demônios, reis, colombinas, palhaços –, era o momento de esclarecer tudo de uma vez por todas. Teve orgulho da coragem com que fitava o volume fantasmagórico. As mãos, porém, suavam. O cotovelo empurrava os dedos para o pano, o ombro os retinha. Homem e objeto, como conjunto, entravam em sintonia com o tempo paralisado.

Sentiu-se ameaçado, espantou-se, puxou por reflexo o lençol, violento. O tecido voou como espectro e pousou como pomba. Ficou espalhado sobre o assoalho, inerte.

Diante de seus olhos, o volume descoberto. Como antes, não sabia o que era. Não podia descrever a forma. Irregular e perfeitamente simétrico. Opaco ao extremo. Difuso, fora de questão. Solidez opressiva que se esvaía rumo ao chão. Por hábito, desandou a dar nomes: é o mundo, é minha alma, é o passado.

De súbito, faltou fôlego. Cessou a confusão do batismo cego. Poderia decidir-se por qualquer daqueles nomes, ou qualquer outro; subsistiria o mais terrível dos atributos, sempre. O que trazia nas mãos, nelas teria de seguir. Deixasse cair, é certo que espatifaria. O ar seria tomado de imediato pelo vapor venenoso do mundo, da alma, do passado.

Sufocaria. Pereceria. E não conseguia escolher entre o sacrifício sumário, mas horrendo, e a tortura vitalícia de carregar ainda, diante de todos – demônios, reis, colombinas, palhaços –, o volume abjeto, a massa amorfa, coberta pelo mesmo pano branco outrora imaculado, agora encardido com a poeira das cidades.

Na fúria da indecisão, lembrou-se das insígnias ocultas. Esticou-se com cuidado reverente. Não foi à gaveta, mas ao lençol, ainda enrugado a seus pés. A decisão estava tomada sem que alguém a tomasse.

Mesmo para a alma perturbada, à beira do escapismo, era patente. Sublinhavam-no as lágrimas, ao romper o portal. O peito se ergueu em revolta, soluçava e recusava o ar. Debaixo da mortalha, o objeto estremeceu. Poderia deslizar a qualquer instante. Mas não havia controle para os espasmos do corpo entregue.

De uma porta que se cria inexistente, entrou a desconhecida. O susto invocou o sangue das faces e ressuscitou o general. As estrelas das divisas tinham aparência ridícula sobre o algodão dos ombros, mas expunham uma imposição de respeito.

Só não se entregava à deferência o rosto ainda afogueado. A desconhecida flutuava através do salão. Encarou-o e, com expressão indiferente, perguntou o porquê das lágrimas. A resposta saiu refletida, viril como cumpre replicar:

— Não sei… Não sei.

Com isso, ergueu-se e se pôs em marcha, carregando seu fardo, até a escrivaninha do quotidiano.

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Da urna aos muros

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Quarta-feira, cinco de novembro, oito horas da noite. Entranhas da Gare Saint-Lazare, estação do oitavo arrondissement de Paris. Uma mulher de meia-idade, cabelos brancos e bem curtos, destaca-se da multidão, quase despercebida. Ela escreve com uma caneta pilot negra sobre o fundo branco de um painel publicitário, em movimentos tranqüilos e seguros. Ninguém a incomoda.

Tendo-a avistado à distância, logo penso se tratar de um membro do grupo anarquista que ataca propagandas por toda a cidade, na missão de denunciar o consumismo e a lavagem cerebral. Mas é uma surpresa: eu pensava que os ativistas underground fossem todos muito jovens. Ao menos o são os que, vez em quando, acabam apanhados pela segurança e sofrem processos por dano a propriedade.

A corrente de viajantes vai passando aos encontrões, sem espiar a mulher resoluta em seu discreto vandalismo. Um fluxo penoso, sem ritmo, mil rumos sem direção. Como sangue empurrado por um coração fora de compasso.

Entre pastas, meias de seda e capotes, só uma pessoa interrompe a marcha para ler a mensagem: outra mulher de meia-idade, mas de cabelos anelados, tingidos de vermelho berrante.

Quando a ativista termina seu texto, estou quase perto o bastante para ler. A fulva espectadora sorri de leve. A autora anui de um gesto brusco da cabeça. Um sorriso e ela tampa a caneta. Está claramente satisfeita com o serviço. Pode voltar a seu caminho.

Já estou bastante próximo para enxergar a mensagem. Sobre o anúncio de sapatos elegantes, lê-se:

À quand un Obama ici?

Uma constatação de como a onda azul está espalhada pelo mundo. A onda que venceu, como não venceu a verde, de Gabeira, no Rio. A francesa engajada, figura tão peculiar deste país, queria um Obama para seu país.

Nações diferentes, histórias diferentes, contextos diferentes. Um Obama na França teria de cair realmente do céu, mas pouco importa. A grafiteira do metrô não quer um presidente jovem, inteligente, carismático e negro.

Ela quer o símbolo, a imagem. O Obama dos cartazes, não o do Salão Oval. Ela quer o nome ao qual está associado tudo que se pode esperar de bom e revolucionário neste nosso começo de século, que parecia tão conformista e reacionário.

“Quando teremos um Obama aqui?”, ela quer saber.

Minha senhora, nesse sentido em que a senhora está pensando, já temos.

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Anátema

Imagine esta circunstância sobrenatural: se aproxima de você uma entidade misteriosa, digamos, um anjo, e lhe estende umas folhas de papel. Você toma o volume e se põe a ler. Tem uma certa dificuldade em entender o que está escrito, mas aos poucos vai juntando os cacos para decifrar o documento. São as linhas gerais de uma personalidade. Meia dúzia de frases explicativas, um diagrama das leis que regem o sistema de convicções, uma tabela com o índice de respeito aos princípios, um gráfico com a taxa de desvio da norma (auto-imposta) e, ao final, o histórico das reorientações de conduta, organizado em tópicos.

Você chega ao termo da última página. Leu tudo, porque não quer ser desrespeitoso com um enviado dos céus, mas não entende por que lhe entregaram um relatório tão detalhado sobre a alma de algum desconhecido. Uma pessoa que, coitada, recebe impulsos e sofre influências de todos os lados, respeita mas critica tudo em que jamais acreditou, deseja o que despreza, desconhece o que quer, faz perguntas a si própria e se perde nelas, sem que a resposta ao menos seja de seu interesse. Um espírito que age segundo certezas perdidas no inconsciente, enquanto as idéias que profere mal tocam suas emoções, mas não entende por que continua comendo quando quer emagrecer, por que entra em brigas quando bebe, por que não consegue largar o emprego e partir para aquele safári na África.

Não que a mente dos outros seja desinteressante, mas, convenhamos, você pensa: quanta indiscrição!

Confuso, mas ainda em deferência ao ser de pura razão que tem à sua frente, você ousa lhe perguntar o que é aquilo. No tom mais suave que consegue, é claro. O anjo sorri, como sempre sorriem os anjos, a crer nos relatos, e responde: és tu, cabra. Impossível, você pensa. Mas emudece. O anjo repousa o sorriso, que não seria de bom tom sorrir tendo à frente um mortal perplexo. Confere se não há mais questões e, finda a missão, parte em silêncio. Os anjos, bem se sabe, dizem somente o necessário. Está no manual.

E você segue no mesmo lugar, sentado ao meio-fio, melhor lugar possível para se entregar ao exame de um material tão perturbador. Aquilo ali é o esclarecimento de todo o seu ser, trazido por um enviado de Deus, mas não tem jeito de você se reconhecer na papelada. Vem a aflição. Um aperto. Será verdade? É, ora, porque tem de ser. Mas como, cadê, nada ali parece bater, é um disparate. Talvez o tal anjo seja um gênio maligno, destacado para enganá-lo. Talvez seja um sonho. Aquele não é você, você que se conhece, você que vive à sua própria volta o dia inteiro. Nas linhas, aqui e ali, um ponto que coincide, nada de mais. Uma idéia do passado, mas que já foi. Manias difíceis de sufocar, mas superadas eventualmente. Pensamentos repetidos e vícios de linguagem que, no fundo, é verdade, você tem, pensando melhor.

Detalhes, detalhes, se desse para contar com eles, a vida seria impossível. E, no entanto, são eles que começam a se encaixar. E mesmo assim, é bastante aleatório. Uma coisa que virou outra, a metamorfose de uma crença, a fusão de um par de sonhos, o abandono involuntário de um trajeto. O que está aqui, na primeira página, bate bem com uma passagem da penúltima. Juntos, os dois trechos explicam um terceiro, perdido nas notas de rodapé. Uma frase que não tem sentido, ah, mas tem, é só reler em seguida a esta outra, que também parecia não dizer nada. Cáspite! Você não se conhece.

Nos anexos, trechos inteiros de pensamentos, desses em que você se perde durante as caminhadas no calçadão. Que escândalo: no mesmo dia, pior, na mesma manhã, você fez a descoberta da escalação ideal para o seu time. Mas são escalações diferentes, e você nem percebeu. Mas como nenhuma delas coincidiu com a do técnico, não houve problema em considerá-lo um incapaz, principalmente depois da derrota contra um time mais fraco. Consta também uma paixão fulminante pela responsável do atendimento, já esquecida, e um tanto improvável. Como se apaixonar por aquela mulher desprezível, sem graça, artificial, interesseira, carreirista e acima do peso? Só pode ser mentira. No entanto, está ali e ponto final. Como também está a vez em que você votou contra seu grupo, traidor, só de birra. E o episódio da doença fingida, para não passar por covarde diante de um lutador mais forte, mais treinado e, ainda por cima, desleal.

Raio de anjo! Por que essa tortura? Você azeda, se revolta, levanta de um salto, determinado a esquecer que tudo isso aconteceu, acordar do pesadelo, tocar sua vida. Que os deuses, seja lá quem forem, saibam que você é humano, é imperfeito, tem o direito de mudar e cometer deslizes, cair em contradição, mentir sem querer, ser honesto mas sucumbir a tentações. E que não venham lhe causar amargura e angústia de novo, à toa desse jeito! Dado o recado, você parte, batendo os pés. Mas, veja só, não rasga o documento, não atira no lixo o resumo de sua vida, não queima seu passado impresso. Leva-o na mão, enrolado como um diploma, até chegar em casa e se atirar no sofá.

* * *

Sei de pelo menos um psicólogo que vai ler este texto. E ele há de exclamar diante da tela: céus, o rapaz está fazendo uma auto-análise em público! E já que vou ser desmascarado de qualquer forma, então admito, não tem jeito, é mesmo algo assim. Pelo menos, tive o bom senso de esconder as idéias debaixo de uma alegoria, soterradas pela metáfora. Digo isso para provar que não pirei, nem andei experimentando substâncias pesadas antes do tempo.

Por outro lado, se não recebi a visita de anjo nenhum (ainda bem), recebi um comentário de um texto muito antigo, vindo de um desconhecido. Se não me entregaram uma folha de papel, mil perdões, é uma metáfora ordinária para a tela do computador. Se não estava escrita minha vida inteira, estava, sim, uma fração de um eu que deixei escapar, que ficou para trás enquanto eu tinha olhos, braços e pernas voltados só para novos eus desconhecidos. Ganhei deste lado, perdi daquele. Deixei de ser idêntico a mim mesmo.

Que importa, é o que acontece com todos. Muda-se tanto, que não dá mais nem para identificar um eu original com quem se poderia ser idêntico daí por diante. Mas é terrível ser confrontado com a encarnação de uma parte do próprio espírito (e é precisamente isso que um texto é). Outro estilo, outro tom, outro tema. Quase, poderíamos dizer, outro autor.

Daí advém toda sorte de questionamentos. Esquecemos os ganhos, damos atenção demais às perdas e nos deixamos asfixiar pela nostalgia de qualquer coisa de muito indefinida. A pergunta vem sem ser chamada: o que quero de mim, para mim, como mim, é aquilo ou é isto? Ou seria ainda uma terceira coisa? Por que não posso manter aquele ritmo, aquele estilo, aquela mente, e apenas enriquecê-la com esta?

Nada fácil ser fiel a si próprio! Em meus devaneios, desvio o foco para este blog. Relendo seu título, penso no que me motivou a batizá-lo assim. Foi há dois anos. Que nome teria o blog se fosse começado hoje? “Para ler sem olhar” é que não seria, pensei, numa tristeza inopinada. Tenho olhado tanto para aquilo que leio… Seria de um cinismo repulsivo renomear este espaço tal e qual. A leveza que me pautava, implodi-a. Quis ganhar musculatura, ganhei foi peso. Estrangulei o último lirismo que sobrevivia nesta prosa e deformei a tal ponto meus parágrafos que quem me conheceu naqueles tempos, hoje atravessaria sem um relance o meu caminho.

Maldito anjo desconhecido, que se meteu a exumar idéias que enterrei sei lá onde. Você me paralisou, roubou meu fôlego e meu apetite. Não posso nem desejar sua morte, seu imortal, mas posso me recusar a encarar as verdades que me trouxe. Se, pela marcha fatal da vida, me é vetado falar como me apetece, meu protesto será o silêncio embirrado.

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A segunda verdade

Para fazer crer que Florença é uma maravilha

Um dia alguém me disse que, editando imagens, a gente se sente um artista. Quem foi, não lembro, sei é que mentiu. Há mais de ano venho aprendendo, ainda grosseiramente, a manipular minhas fotos. Mando o programa reforçar as cores, reduzir o brilho, aumentar o contraste. Corto o que não interessa, cubro o feio com belezas importadas de outras figuras, de chapas batidas meses mais cedo, em outros lugares, cidades que nem falam a mesma língua. Misturo, retoco, distorço, enfim, brinco um bocado. Mas… que artista, que nada, eu me sinto é como criança.

Quando pequeno, eu desenhava absurdos. Queria resumir no mesmo enquadramento todos os capítulos de uma história que se ia criando ao instante, sem roteiro, no cruzamento caótico das imaginações múltiplas. Alguém que acompanhasse a inquietude dos meus dedos, tiranizando o lápis e as canetinhas coloridas, se desviasse a atenção por um segundo, voltaria surpreso. Da folha em branco teria resultado uma loucura de linhas e círculos, suja, pesada, grossa, incompreensível. Para mim, uma epopéia intergalática ou coisa que o valha. Para qualquer outro, garranchos e só. Mas eu não me incomodava. Enquanto a idade e a escola não metiam semáforos nessas encruzilhadas, eu me divertia com a composição das quimeras que, querendo abraçar a narrativa, a figuração e a temporalidade, acabavam sem se agarrar nenhum.

Alto-relevo de flor no Fórum de Roma

Pequeno, eu também dizia absurdos. Tanto quanto os desenhava e até mais. Pensava que a fantasia valia pelo real, agia em intermediário entre um e outro, convencido de que meu universo particular se bastava, era completo já, com tão poucos anos de formação (mas, para mim, eram todos os anos que pudesse ter havido). Os disparates que eu dizia, se punham em gargalhadas os grandes da família, não carregavam a carga pejorativa da mentira. Pelo menos não como eu a entendia, o crime das supremas punições. Não, eram inocentes idéias, que se vinham organizar como num quadro de avisos, substitutas de um mundo que se dava a perceber rápido demais, desordenado, sem interesse, feinho, muito opaco para merecer meu apego.

Agora, crescido (em algumas coisas mais, em outras, nem tanto), eis que me flagro entusiasmado, como uma criança, diante de um computador. À minha frente, uma foto qualquer, tirada no meio de uma viagem ou de um passeio pela cidade. Alta é a chance de que já empunhasse a câmera com a idéia de fazer uns retoques mais tarde. Faço-os agora, o programa oferecendo três fileiras horizontais, mais duas verticais, com alterações que posso impor ao retângulo inocente. Imponha-as!, é o que parece exigir a máquina. Para ela, o golpe do obturador é sempre muito pouco, ele que já secciona, congela e falseia um segmento do universo. É imperativo, prossegue o computador, nesse diálogo delirante, fazer uso das minhas ferramentas!

E obedeço, como criança. Mas tento não exagerar: o resultado estético é tão importante quanto o técnico, porque dele será derivado o poder retórico. E não há retórica mais sediciosa que a da imagem, quando se passa por espontânea. Talvez seja aí que o artista exerce seu sarcasmo, com edição ou sem. O artista, seja qual for sua intenção, é um sarcástico porque, ao contrário da criança que só quer desvendar o mundo, ele busca a força da retórica. Sua segunda verdade, escudada na estética, tenta se esgueirar para dentro da primeira, desdobrá-la e multiplicá-la.

O Photofilter salvou esta imagem da perdição definitiva

Acabo de descrever o artista como um sofista maquiavélico. Foi um erro. Passei por cima da beleza de seu trabalho, a investigação tátil dos materiais deste mundo. Comparei-o à criança, mas não o comparei ao adulto, seu verdadeiro concorrente. Aquele que, como a criança, diz do mundo disparates, apoiado em sua experiência do real. Com a diferença de que a criança gosta de seus disparates enquanto tais, não quer deles mais que a delícia da invenção. Já o adulto sustenta o edifício de suas verdades sobre a reconstrução que faz, sem querer, sem saber, do entorno. Chama de verdade algo que lembra, mas a memória não é fato, é imagem. Como a que vou trabalhando no editor, lentamente, até que corresponda ao ideal daquilo que retrata, bela e formatada.

O artista entrelaça à primeira verdade uma segunda, de sua lavra. E está em seu direito, pois que aquela primeira, a real, a dos fatos ou que assim se crê, não é feita da carne, do material deste mundo. Ela é composta de proposições e conceitos que, como os garranchos e os disparates das crianças, ocupam o lugar da bruma fluida de uma realidade muito imprecisa, vaga, confusa demais para as consciências maduras e orgulhosas de o ser. A primeira verdade, no fundo, no fundo, já não é nada mais do que uma reconstrução improvisada, que tenta se harmonizar com o mundo indizível, mas não consegue evitar os confrontos, sempre tão freqüentes.

É por isso que minha edição de imagens não aspira ao artista, mas também não atinge a criança. Retoquei o monumento de Genebra porque as cores estavam pálidas, debaixo do sol que não teve trabalho para ofuscar a objetiva, embora em mim não causasse o menor desconforto. Escondi uma enorme bola de futebol que, à força de celebrar a Eurocopa, vulgarizava o lago. Escolhi que uma determinada vista de Paris deveria ficar em preto-e-branco, porque desbotada e pálida estava minha alma no dia em que a registrei. Não foi fantasia, nem retórica. Foi falsidade ideológica, um estelionato cuja vítima é minha própria experiência.

Eis a essência da fraude. Contemplo minhas próprias fotografias em busca das emoções de tempos vividos. Mas as emoções que elas contêm estão todas nelas e em nenhum outro lugar. Evocam lembranças que não partem do passado, mas da imagem, só da imagem. Editadas, redobram seu poder de convencer meus olhos e ouvidos, como as mulheres que, belas e às lágrimas, nos dão a crer que as fazemos infelizes.

Quem diria que isso é história, largada no meio dos turistas!

A imagem é mentirosa tanto quanto a palavra. Como quando digo a alguém que estou feliz ou que estou triste e entendem o que quero dizer, muito embora ignorem sempre de que é feita minha alegria, meu pesar. Mas a palavra voa, a imagem fica, seduz, não carece de um idioma comum para se remontar nas retinas. Enquanto trabalho, suponho um mundo construído apenas com imagens, quais tijolos. Entre o olho e uma figura, sempre apenas mais imagens. Parece terrível, parece pesadelo, mas não: afora o ganho de clareza e o silêncio extasiado, não é diferente de um mundo construído com palavras. A comparação, no fundo um silogismo frouxo, me reconforta. E sigo trabalhando, submerso no passatempo infantil dos meus retoques.

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Todo dia é dia da mentira

Tela E Chao
Quis postar ontem alguma grande mentira, aproveitando o Primeiro de Abril. O mais difícil, eu já sabia, seria criar uma lorota tão crível que se destacasse de todas as outras mentiras que publico neste blog, já sem grande compromisso com a verdade. Quebrei a cabeça de madrugada, não dormi, subi e desci pelo metrô pensando em lograr o leitor. Falhei na missão. Estou tão acostumado a mentir quando escrevo que, ao precisar fazê-lo deliberadamente, acabo enredado na confusão de versões e percepções. Condenado pela fé nos fatos. Só que aqui é caso de texto, não de fato.

Quando alguém escreve, parte de uma impressão, talvez uma idéia, no máximo um conceito, para chegar ao texto. A grande desgraça e, ao mesmo tempo, a grande riqueza desse processo é que – e isso é um fato acima de todo questionamento – o produto resulta sempre, sempre, infiel à afecção que deu origem ao palavrório. Quem procura no texto alguma bela verdade cai na armadilha da ilusão perniciosa. Mas aquele que lhe extrai certeza e dogmatismo só pode ser tolo ou desleal.

A salvação está no fato de que não apenas o texto é infiel às impressões, mas as impressões traem o texto despudoradamente. O velho poeta que conta nos dedos as sílabas das rimas, o jovem que escarra na métrica e na assonância, o gabola que passa por cima dos versos e compõe em torrentes, todos esses são presas fáceis para a falácia de copiar suas emoções no peito do leitor. Isso não é possível. A relação entre um texto e quem o lê é insondável. Um neurologista pode se esbaldar com o cérebro de um leitor, cheio de campos acesos. Mas isso não lhe traz ciência do imaterial, e é de imaterial que tratamos.

Toda a beleza da leitura está nesse livre jogo de infidelidades. Aquilo que a alma reproduz ao receber o escrito depende mais dela mesma e menos de quem cortou os pulsos para aperfeiçoar a expressão; mas, no limite, é o fruto de ambos. Daí a frustração de quem crê ter algo a dizer ou a passar. Desconfio sempre dos autores satisfeitos, orgulhosos, realizados. E, nisso, jamais me enganei.

Nem poema, nem tratado, nem romance, nem cálculo algébrico: texto algum pode ter a ousadia de tentar reter os vapores do inconsciente. Nem à própria consciência, de onde saem palavras e gestos, isso é dado. Uma proposição pode ser prudente, pode ser rigorosa, pode ser aberta e repicada de ressalvas, mas não captaria as nuances do que pretende expressar. Morte à estatística, que se crê capaz de quantificar as imperfeições e discrepâncias de todo discurso. A porcentagem é desonesta.

Ao escrever, a única maneira de ser honesto de fato é apagar todas as palavras imediatamente. Engoli-las. É por isso que a fala é sempre mais sincera, mais humana e verdadeira. Uma frase pronunciada morre tão logo seja dita. A não ser na memória de quem falou e de quem ouviu. Mas isso é outro tema. Já diziam os latinos: verba volent, scripta manent. Podemos inverter a ordem do ditado: o texto fica, com toda sua inverdade. O dito voa, desaparece, subsiste apenas sob a forma de lembrança. Nada mais maneável do que uma lembrança.

Perseguido pelas mentiras que venho empilhando neste endereço há quase dois anos, saí pela rua atrás de uma boa brincadeira de Primeiro de Abril. Não a vi. No lugar dos chistes, dei com faces, edifícios, árvores, automóveis, lojas, mendigos. Verdades, enfim, todas elas a postos, à espera de serem transformadas em mentiras. Pacientes algumas, outras roendo as unhas, parecem acreditar que as frases vão torná-las imortais, reproduzidas como impressões e idéias no espírito do leitor. Eu mesmo, honestamente, já acreditei nisso.

Post scriptum: foram duas as coisas que me atraíram a atenção na tarde de ontem, e serão tema para as próximas duas crônicas. A mudança radical que se produz nos semblantes no início deste mês; e um par de plátanos na praça aqui atrás. Pode me cobrar.

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Nos jardins, as cerejeiras

Três cerejeiras
Existem polianas – e polianos – para tudo neste mundo. São sensibilidades capazes de encontrar alegria em qualquer coisa. É o caso da gente que aponta belezas específicas a cada estação do ano, dizendo que todas podem ser fruídas e amadas, cada uma à sua maneira. É, digamos, quase verdade. Mas uma verdade mitigada pelo fato de que o verão queima, a primavera engana com suas temperaturas imprevisíveis, o outono anuncia o inverno naquelas folhas coloridas, e o inverno, ora…

Admito que uma paisagem campestre coberta de neve dá uma belíssima imagem para quebra-cabeças de 2000 peças, ao menos nas poucas horas em que a luminosidade é suficiente para o obturador da câmera. Mas, sem mencionar a penumbra, a neve de verdade, concreta e muito empírica, não é nada disso. Fica suja ao se misturar com a lama, é viscosa quando derrete, escorrega e causa acidentes. Muito bonita quando cai. Depois, um Deus nos acuda.

Aqui em Paris, quase nunca há neve. Dizem que caiu um pouco há dois anos (eu não vi). De sorte que qualquer elogio à beleza do inverno deve excluir esta célebre cidade. Entre novembro e março, Paris é feia, cinzenta, carrancuda e ainda mais suja do que de hábito. É a estação chuvosa, quando as paredes se tornam pegajosas e recendem a cinza de cigarro barato. A ausência do que de verde há na vegetação desnuda a monotonia cromática sufocante das fachadas, na cidade que deveria ser toda luz. À exceção dos turistas brasileiros, ninguém é feliz; as mordidas e os rosnados recíprocos se multiplicam. Sair à rua torna-se algo a evitar. Em poucas palavras, são meses passados na toca.

Foi por isso que escolhi cerejeiras para ilustrar este texto rabugento. Três delas. E lanço-me à tese: não há melhor augúrio do que a chegada das cerejeiras. Ainda é março, as flores e folhas só virão em abril, mas já, ladeando os galhos eriçados dos plátanos, estão elas, as cerejeiras, rompendo em flores rosadas. É um alívio, muito mais do que uma festa para os olhos. Em si, a beleza pouco diz: há cerejeiras também no Brasil, mas elas não se destacam, ficam humildes no meio dos ipês, manacás e damas-da-noite. Em março, dar com uma cerejeira em flor em Paris é como atracar no cais após a tempestade. É o mesmo efeito, sobre os músculos como sobre o espírito.

Se me fosse dado mudar algo no texto de “O Cerejal”, de Tchekhov (seria um sacrilégio, já sei), eu apenas inverteria a ordem das estações: a ação começaria em agosto e terminaria em abril, as árvores sendo postas abaixo em pleno ápice da exuberância, quando respondem por toda a alegria dos russos a cinco graus negativos. Mas isso talvez fosse terrível demais para o público moscovita, soaria, imagino, um tanto melodramático. Vai ver, foi por isso que o autor escolheu a ordem como está, com o desmatamento às portas do inverno: nem o mais bruto dos mujiques enriquecidos derrubaria cerejeiras em flor. É certamente o que ele pensou.

Sobre a concretude dos dados: consta que as cerejeiras vieram do Japão. Não tem dúvida disso a senhorinha que, tendo visto um rapaz pacato a fotografar árvores, postou-se ao meu lado e comentou: “Como são sublimes, as cerejeiras japonesas!” Concordei e sorri para suas costas encurvadas, seu manto de lã grossa, sua cabeleira rala e opaca. Uma dessas nonagenárias que circulam por Paris sem receio algum, e hão de continuar com seus passeios enquanto tiverem pernas. Pois ela, que já viu tanta cerejeira florindo, na guerra como na paz, ainda se admira das flores. Como eu.

Corrigindo a informação: apenas as cerejeiras ornamentais são importadas da terra do sol nascente. As frutíferas são daqui mesmo. Pois as cerejeiras japonesas, em sua pátria, chamam-se Sakura e simbolizam a beleza efêmera de nada menos do que a vida em si. Os policiais e o exército usam a flor da cerejeira como símbolo, como faziam os pilotos kamikaze, de quem se esperava que reencarnassem como Sakura. É também o título de uma canção tão monótona que vence qualquer samurai pelo sono. Sakura, as árvores que enfeitam a primavera nos jardins do imperador, como a enfeitam em meus bulevares.

Devo confessar que tirar prazer da vista de uma aléia florida me faz sentir como um autêntico capiau. Das cerejeiras, diria o cínico, devemos tirar apenas cerejas (não das Sakura, que, como vimos, são ornamentais). Mas o cínico esquece que todas as cerejas que comi na vida vieram da feira ou do supermercado. Somos civilizados, tudo está ao alcance da mão, a um clique ou um telefonema de distância. Não é o caso de desesperar com o inverno e se apaixonar pelas cerejeiras. Mas, fazer o quê, é assim. Estamos chegando perto, mas ainda não aniquilamos a natureza em todas as frentes.

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