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Dimensões de um rolé (republicando)

[Este post e os próximos dois são textos recuperados do antigo blog, mas que não estavam no arquivo de transferência. Reposto aqui para que não se percam. Não estão na ordem. Começo por este, publicado em janeiro, porque um dos temas que ele aborda ganhou uma curiosa atualidade graças a um shopping center do Rio de Janeiro]

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Desde o fim do ano passado tenho tido vontade de abordar o fenômeno do rolezinho, que tomou de assalto (sem trocadilho) os jornais e as redes sociais, até mais do que os shopping centers em que acontecem. No mínimo, a comoção em torno do rolezinho é mais uma guinada na série de novidades da esfera pública no Brasil desde junho, ou mesmo antes. Só por isso, o rolezinho, ou melhor, o “caso rolezinho” – para incluir aí toda a mitologia que se formou em torno dele – é algo interessante. Que adolescentes, particularmente nas periferias, gostam de shopping não é novidade para ninguém. Que a internet, sobretudo Facebook e quetais, permite agregar muita gente em muito pouco tempo, tampouco se descobre agora. Que uma linha imaginária divide os espaços de circulação nas cidades brasileiras, menos ainda. Qual é o interesse, então?

É que, de repente, tudo isso aparece junto, numa mistura de provocação involuntária com manifestação de empoderamento. Gera reações de pavor, de prepotência judicial, de (mais uma vez!) violência policial, de gozo acadêmico. Mexe com o desejo e o imaginário de todo tipo de gente e atinge em cheio vários elementos críticos da vida que a gente vai levando (mesmo com todo o problema, todo o sistema, toda Ipanema) no Brasil. O que era simplesmente rolezinho torna-se “caso rolezinho”. Deixa de ser mais um exemplo de como a pirâmide social está se deslocando no Brasil e torna-se agente desse deslocamento, num plano muito mais profundo (e perigoso): aquilo que começou como diversão involuntariamente subversiva já está se tornando forma voluntária de afirmação de uma subjetividade social (e política, claro).

Mais cedo ou mais tarde, acabaria aparecendo uma nova discussão interminável sobre os subterrâneos das relações sociais no Brasil, incluindo não só o fosso social (o simbólico, cada vez mais preponderante sobre o real), mas também a atuação dos magistrados, a ação da polícia, a gramática da intervenção de políticos e comentaristas da imprensa. Mas é notável como uma única palavra, um diminutivo digno de Vinícius, condensou tanta coisa em tão pouco tempo (e espaço)! Continuar lendo

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