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De Gabriel e sua alma

Faz pouco menos de um ano que uma grande amiga telefonou com um pedido: que eu hospedasse seu namorado por uma semana. Ele se preparava para uma volta ao mundo em mochilão, começando pela França (ele tinha dupla cidadania, por sinal), depois cortando a Rússia, pela China, o sudeste asiático, a Índia e a África. Naturalmente, qualquer redução de custo seria muito bem-vinda e era aí que eu deveria entrar em cena. Cristina é realmente uma grande amiga, daquelas a quem não se recusam favores. Além do mais, sou sempre aberto a conhecer gente nova, principalmente quem tem alma de aventureiro, como Gabriel.

Ele chegou numa época de trabalho intenso; conversei pouco com ele, nas raras vezes em que nos cruzamos, um entrando, o outro saindo. Foi o suficiente para ele me mostrar o plano de sua viagem, cada cidade em que passaria, cada país, os preparativos que tinha feito, tudo. A ideia era bem simples: tendo terminado o mestrado em economia na PUC, ele passaria um ano esperando as respostas do doutorado nos EUA (acabou sendo aceito na UCLA). Esperando, em termos… Ele conheceria o mundo.

Descobri hoje, por acaso, que Gabriel não conseguiu fechar o círculo. Fins de julho, no Malawi, ele escalava o monte Mulange, 2000 metros de altitude. Perdeu-se do grupo, perambulou durante pelo menos quatro dias, depois sucumbiu ao frio. Estava preparado para condições climáticas muito hostis, mas não por tanto tempo. Não sei se devo pensar no sofrimento de Gabriel enquanto tentava sobreviver na montanha africana, ou no fato de que ele terminou os dias numa viagem admirável, maravilhosa. Estranhamente, continuo invejando sua força de vontade e sua coragem. Sim, inveja é uma palavra que já passou pela minha cabeça… mas no bom sentido. Ele estava fazendo o que eu queria ter feito, mas não fiz por falta de coragem e desprendimento. Sua vida continuará sendo uma lição, muito mais do que sua morte.

Só fiquei sabendo de tudo hoje, mas vi que houve uma grande cobertura na imprensa brasileira. Então há pouco que eu possa acrescentar, senão o fato de que estou consternado de saber que perdemos aquele rapaz despachado, economista que escolheu estudar a verdadeira economia, ao contrário da maioria de seus colegas, que preferem aprender fórmulas de ganho artificial (falo com conhecimento de causa, eu convivi nesse meio). Imediatamente após a confirmação da morte, lembrei-me de duas outras tragédias que vivenciei, e que descrevi neste post. Como eu escrevi naquela ocasião (devo ter escrito, é algo de que estou convicto), a morte parece ter preferência pelas pessoas muito, muito boas.

Lembrei-me também de Into The Wild, filme dirigido por Sean Penn. Um rapaz bem formado, muito jovem, resolve viajar sem dinheiro, sem documentos, até o Alasca, onde se embrenha na neve e acaba morrendo intoxicado por uma raiz venenosa. É uma história parecida, senão pelo fato de que Gabriel queria conhecer o mundo para reformá-lo, ao passo que o personagem de Penn só queria se livrar dos pais, a julgar pela forma como o diretor constrói o filme. Pouco importa, são ainda duas almas que buscavam se libertar desse óbvio em que nos afogamos sem perceber.

Eis o caso. Agora, eu gostaria de conseguir continuar escrevendo muito sobre o destino de Gabriel. Gostaria de convencer milhares de pessoas a buscar o mesmo tipo de ruptura de que acabo de falar. Gostaria, sem dúvida, de convencer a mim mesmo. Mas o verbo me escapa e acho que tudo já está óbvio o suficiente sem minha lenga-lenga. Para quem soube da história pela televisão, deixo apenas um pedido: esqueça o melodrama que certamente acompanhou as matérias; esqueça todos os comentários cafonas que nem preciso ter ouvido para saber que foram feitos. Nada disso tem a ver com o Gabriel Buchmann que conheci em Paris um ano atrás. Pense, ao contrário, no espírito autônomo, contestador, curioso.

É isso.

PS: Leio agora que o corpo deve ter sido cremado hoje mesmo. Deixo este texto, então, como uma forma de participar da cerimônia, mesmo à distância.

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Um episódio em parte real

Como quase tudo que me sucede por aqui, foi no metrô. Madrugada de sábado, uma das últimas composições, já quando o intervalo entre uma e outra passa dos dez minutos. A namorada e eu cansados pelo horário, um tanto altos, mas nem por isso bêbados, esperávamos no silêncio dos que não têm forças para falar. Enfim veio o trem. Havia lugares vagos, para alívio de ambos, e por milagre eram contíguos. Sentamo-nos, eu muito distraído, o olhar para fora da existência, recusando-se a fixar qualquer objeto. Teria continuado assim por toda a viagem, se não ouvisse o suspiro.
– Tadinho!

Virei o rosto para ver o que se passava. Era um homem muito velho, que tentava alcançar a porta. A lâmpada vermelha já piscava, o alarme soava anasalado e arrogante, mas o pobre ancião não tinha nem condição de se apressar, tal era seu estado de decadência física. Cortava o coração vê-lo ali, radicalmente encurvado, esticando os braços a um passo da porta, no esforço heróico de colocar um pé diante do outro. Elogios ao condutor, que, do outro lado da estação, avistou a cena pelo espelho e atrasou nossa partida. Imagine aquele senhor, tão castigado, tendo de esperar um quarto de hora, em pé na plataforma.

O atraso nos deu a oportunidade de agarrar seus braços e alçá-lo para dentro, eu e um outro sujeito igualmente distraído, absorto na música de seu aparelhinho. Foi só o tempo de ele entrar, a porta fechou-se e fomos postos em movimento. Mas como o trem sacudia, já que sacudir é da natureza dos trens, foi necessário ainda segurar o pobre velho desequilibrado, que não tinha forças de se agarrar ao poste de alumínio, nem contrariar o ímpeto da composição para chegar ao assento.
Ele nos agradecia, meneando a cabeça, enquanto o conduzíamos a sentar-se. Instalado, dobrou-se sobre si mesmo e se pôs a revirar o interior do paletó. Não foi surpresa alguma constatar que sua mão tremia com violência. Uma mão de ossos, pele seca e grandes manchas circulares.

Em nome da discrição que as boas maneiras prescrevem, retomei meu assento e meu ar distraído. Do que parecia um episódio terminado, guardava apenas o sentimento de ter realizado a boa ação do dia. Tão grande era minha distração que não acompanhei a seqüência dos movimentos do ancião e, quando ele me estendeu um pequeno objeto, tomei-o sem atentar para o que era.

Vejo agora que foi um erro. Se já não o tivesse entre os dedos, poderia apenas espalmar a mão para recusar o maço de dinheiro que me fora presenteado. Àquele ponto, a quantia era impossível de estimar. Um canudo grosso feito de notas de cinqüenta. Talvez houvesse mais de mil euros atados com um elástico.

Pasmado, ergui os olhos e percebi que muitos me encaravam com ar severo. Ao meu lado, a namorada apertava minha perna, as unhas enfiadas na carne. À frente, o outro rapaz transparecia o mesmo pensamento que o meu, também segurando um maço de notas, sem jeito, o dinheiro lhe queimando os dedos. Como eu, ele claramente não sabia o que fazer. Mas foi o primeiro a falar.

– Monsieur…

Do colega, meus olhos retornaram ao pobre ancião dobrado sobre o assento à minha frente. Observei-o como antes não quisera fazer. Se me referi a ele como “pobre”, não poderia ter escolhido adjetivo mais infeliz. Cada peça de sua roupa indicava o contrário. Os óculos espessos, de aro dourado, acusavam marca das mais cobiçadas. A gravata vermelha era de seda e estampava um padrão característico dos altos funcionários da burocracia francesa. Nos sapatos, no paletó, na carteira de couro, em tudo estava explícita a condição privilegiada daquele velho que nos causava tanta pena.

Imediatamente, assomou ao meu espírito a questão mais óbvia. Que será que o levara a andar de metrô na madrugada de sábado? Um homem em suas condições, rico e doente, quase inválido, poderia muito bem ter tomado um táxi, se não possuísse um carro próprio, conduzido por chofer de luvas brancas. Como fora parar ali? Formulei internamente uma resposta: a idade afetava sua capacidade de raciocínio. Era, sem dúvida, um senil. Isso explicaria não só sua presença, mas o dinheiro que ele metera em nossas mãos.

Já que o outro beneficiado não ia além do vocativo, eu mesmo tive de superar a surpresa e formular um protesto.

– Desculpe, o senhor se enganou. Não precisa dar recompensa, ajudamos por ajudar.

O outro concordou com a cabeça. Fiquei com a impressão de que ele estava aliviado. Mas o velho se recusou a recuperar o dinheiro.

– Não é recompensa. É presente.

Dessa vez, foi o outro que falou, argumentando com a típica linguagem empolada dos franceses.

– O senhor compreende que não é habitual receber somas de desconhecidos, sobretudo com um valor tão elevado…

Em voz baixa e sumida, firme ainda assim, o ancião interrompeu a declaração de recusa e se pôs a explicar, lentamente e em tom autoritário, por que nos deslizara os canudos de dinheiro. Anunciou que estava muito doente e, como podíamos perceber, muito velho. Sabia que seu futuro não contava mais do que um par de meses. Possuía dinheiro demais, pretendia distribuí-lo e se achava no direito de fazê-lo da maneira que escolhesse.

– Minha fortuna, podem acreditar, me serviu bastante, por décadas e décadas. Lutei muito por esse dinheiro, mas também aproveitei como ninguém. Agora chega. Passei no banco, tirei tudo que tinha no caixa. Vou fazer a mesma coisa amanhã e até o corpo não aguentar. Vocês dois me ajudaram, parecem bons garotos, façam o que quiserem com o dinheiro. Comprem alguma coisa, jantem no Alain Ducasse, a escolha é de vocês. Se quiserem uma dica, sugiro viajar. As viagens são a melhor coisa que o dinheiro pode oferecer.

Os olhares que até então me cobravam, agora só exalavam curiosidade, temperada de uma ligeira inveja. Eu cumprira meu dever, recusara o dinheiro. O que fizesse daí por diante não sofreria de carga moral. O mesmo valia para meu companheiro de berlinda, também observado e incomodado. Percebi que, de uma hora para outra, minhas decisões seriam tomadas diante de uma plateia. Como se vivêssemos um estranho programa de auditório gravado no último vagão do metrô, uma composição que seguia seu caminho a chacoalhar e guinchar, fingindo que em suas entranhas só acontecia o perfeitamente corriqueiro.

Sem recursos, fiz o que deveria ter feito em primeiro lugar. Busquei os olhos de minha companheira. Ali, ao meu lado, ainda apertando com força a minha perna, ela me encarava com uma espécie de piedade, ciente de que não há dor pior, para mim, do que ser observado. Em sua expressão, pude ler o desejo de que nada daquilo tivesse acontecido, que pudéssemos simplesmente chegar em casa, como todas as noites, conversando sobre os eventos do dia, depois ver um filme e dormir em paz. Pequenos, humildes, felizes, sem incômodo.

Fui dominado por um leque de sentimentos inconciliáveis. Quis saltar na primeira parada e correr para a rua, longe dos olhares, só eu e minha consciência abalada. Quis ofender o velho, atirar-lhe o dinheiro ao colo, vociferando que a origem só poderia ser suja, indigna, corrupta. Quis arrancar o elástico que prendia o cilindro e lançar o dinheiro para o alto, de modo a que os demais viajantes saíssem da confortável posição de audiência para o ridículo de disputar dinheiro.

E quis chorar, mas não chorei. Não sei por que quis chorar, não sei por que não o fiz. Nem sei dizer quanto tempo se passou antes que eu olhasse para meu duplo, a poucos passos de mim, e o surpreendesse também congelado, esperando minha reação como eu esperava a sua. Acho que ele se dava conta, ao mesmo tempo que eu, de um detalhe muito estranho.

Aquele dinheiro não tinha graça. Se, como sugerira o doador, eu comprasse um computador, um jantar caríssimo ou uma viagem deliciosa, seria uma aquisição morta, frustrante. E fugaz, porque alimentada por um capital de ilusão, alheio, casual. No dia seguinte, deixaria como legado um rastro de pobreza. Aquele papel valioso, de que ambos certamente temos necessidade, nenhum de nós o queria de verdade. Entretanto, ainda que não o quiséssemos, tampouco tínhamos coragem de devolvê-lo. Honra é honra, orgulho é orgulho, mas dinheiro, acima de tudo, é dinheiro.

No impasse, o elemento preponderante era, sem dúvida, a presença do público. Cheguei a desejar que fosse coisa da minha imaginação a idéia de que o vagão inteiro estava submerso no suspense, impaciente para acompanhar o final da história, pronto para apertar os celulares e votar na ação que os protagonistas deveriam seguir. Pois bem, os protagonistas éramos eu e o desconhecido que se tornara, de súbito, meu irmão.

Mas veio a prova de que estávamos, de fato, no centro das atenções. Chegamos a uma estação em que se cruzam quatro linhas de metrô e duas de trem. Onde centenas de milhares de pessoas trocam de direção a cada dia. Mas ninguém desceu, ainda que muitos já estivessem colocados diante das portas. Subiram boas duas dúzias de pessoas, que se espremeram no espaço que deveriam deixar os que saíssem. Não entenderam por que havia tanta gente e uma atmosfera tão pesada. Mas para mim foi uma ponta de alívio.

Só uma pessoa se mantinha alheia ao suspense. O velho, entregue à caquexia, olhava para os próprios joelhos. Balançava a cabeça, com seu cabelo esparso e espetado. Senti raiva, pensei divisar um sorriso de escárnio, tive ganas de agredi-lo como a um cão indefeso. Se o fizesse, como reagiria a plateia? Que me aplaudissem e louvassem, que me linchassem e vaiassem, não sei o que seria mais abjeto. Alguém, ali, talvez já tivesse uma câmera de vídeo empunhada, pronta para tornar a mim e ao outro rapaz estrelas da internet.

A não ser pelos recém-chegados, para quem tudo devia andar na mais perfeita normalidade, não havia conversas. Ouvíamos o tempo que me apertava o pescoço, sentíamos a fricção dos trilhos. O metrô já chegava à estação seguinte, a penúltima de nosso percurso programado, e eu ainda só conseguia pensar em desaparecer.

A claridade da plataforma invadiu as janelas, despertou-me do torpor. Freávamos. Novamente, busquei a opinião de meu colega de impasse. Percebi que ele tremia um pouco. Tive esperança de que seria ele a romper a teia e resolver a situação. Aguardei, olhos cravados nos seus. E ele não me decepcionou. Quando paramos, projetou-se para cima de mim, tão rápido que não tive tempo para o sobressalto, agarrou o dinheiro das minhas mãos, aproximou o rosto do meu, encarou-me com olhos fixos, olhos negros e decididos, e disse, mais ar do que voz:

– Je ne supporte plus!

Vendo que eu meneava, inteiramente de acordo, ele se ergueu e foi até a porta. O alarme se pôs a soar, mas o prazo curto só aumentou sua determinação. Ele ergueu a alavanca. Ouvimos o estrondo do metal, sentimos a brisa fresca e malcheirosa invadir o vagão, acompanhamos o gesto com que ele atirava ao longe os dois cilindros valiosos, grunhindo de raiva.

Enquanto meu novo amigo recuperava o fôlego, acompanhando o dinheiro que rolava para o canto da plataforma, as portas se fecharam novamente diante de seu nariz, velozes como lâminas de guilhotina. Quanto à fortuna, ela seria de quem a encontrasse, provavelmente um mendigo ou um gari. Nossa, não seria.

Cheguei a fantasiar que o catalisador de toda a história desapareceria de repente ou revelaria ser um demônio, um duende, qualquer ser sobrenatural. Mas qual, o velho continuou encalacrado, olhos nos joelhos, como se nada se passasse à sua volta. Uma frieza tamanha me causou calafrios e reforçou minha convicção de que algo ali não podia ser humano.

Recebi um abraço da namorada e pude perceber que ela passara os últimos instantes com a respiração presa. Eu também. De volta à calma, também veio o outro, o corajoso, para me cumprimentar. Pus-me de pé e apertamos as mãos. Mas aquele não poderia ser um cumprimento formal, desses que se dão no início das reuniões de negócios. Apesar de nem sabermos o nome um do outro, trocamos um abraço forte, com tapa nas costas, como se fosse no Brasil.

Logo, porém, fomos lembrados de que não estávamos sós e o episódio escapava à nossa esfera. Antes que nos afastássemos, alguém começou a bater palmas. Em um segundo, todo o vagão aplaudia, até mesmo algumas das pessoas que vinham de entrar e praticamente não acompanharam o ocorrido. O ancião continuava atento a seus joelhos.

O desconforto voltou de um golpe. Tudo começara por causa de uma figura surgida do nada, e de repente queriam me fazer de celebridade. Esperavam sorrisos, um aceno, mais abraços e cumprimentos, fotografias, talvez até autógrafos. Mas eu não tinha escolhido, não queria nada assim. Só pensava em deixar aquele ambiente claustrofóbico e ser esquecido por todos eles. Uma hora da manhã de um sábado qualquer, mas era como se apresentássemos um programa de televisão. Desconhecidos sorriam para nós, faziam perguntas, espoucavam flashes indiscretos. E não teríamos mais nem ao menos o consolo de uma viagem luxuosa ou um jantar elegante.

Pareceu uma eternidade até que a estação chegasse. Enfim, era a nossa. Descemos. Junto conosco, vieram meu bravo companheiro e uma multidão insuportável, incluindo sem dúvida muita gente que já deveria ter saltado. O doador senil continuou na mesma posição, olhos nos joelhos.

O trem partiu, a turba se dissolveu, o pesadelo acabou.

Perguntei ao novo amigo:

– Você também mora no bairro?
– Não – ele respondeu, com seriedade quase solene. – Moro no final da linha, mas acho que prefiro pegar o próximo trem.

Jamais compreendi tão bem uma decisão quanto aquela, apesar dos doze minutos de espera que ele teria pela frente. Pensei que poderíamos lhe fazer companhia, mas os olhos da namorada já mal se mantinham abertos e minhas próprias pernas bambeavam.

Cumprimentei-o mais uma vez e, sem outras palavras, nos separamos. Apesar do episódio intenso que nos uniu, espero que jamais tornemos a nos encontrar.

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As concubinas do sultão

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* Prometo que este é o último da série de textos antigos, pelo menos por enquanto. Foi escrito há mais de um ano, ou seja, a tal “recente” já não tem nada de recente… *

Uma cidade se conhece por seus espaços públicos. Construam-se os edifícios que forem, eles obedecerão sem recurso aos planos e projetos que o arquiteto aprendeu em sala de aula ou desenvolveu em laboratórios e escritórios; no interior, a mais transparente das atividades se dá às escondidas, atrás do concreto, entre as divisórias de compensado, de um pavimento a outro. Se isso parece um paradoxo, que seja. Mas os prédios jamais darão sentido a uma cidade. A não ser, eventualmente, para aniquilá-la, com seu silêncio grosseiro e pelo furto escandaloso de nacos do horizonte.

No espaço público, as coisas acontecem segundo o que são em seu instante. Ainda que sejam planejados os parques e passeios, geométricas as praças de um qualquer núcleo urbano, é muito limitado o poder que a habilidade dos construtores terá sobre o que se passe nos paralelepípedos e gramados. Que podem os técnicos calcular quanto aos encontros, os olhares, os figurinos, o linguajar? Os imóveis pertencem aos proprietários, pois não; os apartamentos são dos inquilinos e os escritórios, das empresas. Mas a rua pertence ao homem. A ninguém mais. Talvez por isso assuste tanto os misantropos.

A culpa dessas minhas reflexões recai toda sobre uma recente passagem por São Paulo. Curta demais para encontrar todos os velhos amigos e tão atribulada que mal pude rever os lugares determinantes do que sou – para o bem e para o mal. (Lembro de alguns que foi impossível visitar: o Bar do Cidão, os teatros da praça Roosevelt, a rua 13 de Maio com o impagável Café Piu-piu…) Mas não foi uma visita tão sumária que me bloqueasse o bombardeio de sensações e lembranças. Umas doces, outras amargas, as mais tristes nem por isso menos ternas.

Receber de uma só vez todas essas impressões emocionais, devo frisar, é coisa de uma violência atroz. Após algumas horas sobre o solo tão familiar e tão distante, percebi o quanto ficara aturdido. Os parentes vinham buscar ternura, queriam saber sobre a vida no estrangeiro e dar as boas-vindas, mas eu, num estado de quase catatonia, era todo balbucios. Graças, a viagem e o fuso horário serviram como desculpa.

Resta que minha relação com a cidade em que cresci nunca foi fácil. Reação, imagino, de um espírito de natureza perambulante, flâneur malgré soi, inconformado com as barreiras que lhe impõe um modelo urbano escamoteador. No entanto, eu jamais o percebera. Pensava que meu problema com São Paulo fosse a poluição, o desafio hercúleo de deslocar-se, o desastre estético, a incompreensível ausência de qualquer forma de ordem urbana. A exemplo de muitos vizinhos, eu me enganava porque tinha o olhar por demais voltado para o alto, lá onde estão as estruturas circunstanciais, aquilo que, por natureza, é e será sempre frio e morto.

Por um lapso de percepção viciada, não entendi que o problema estava ali, logo à frente, na altura dos olhos e dos corações. Foi necessário interpor um oceano entre ela e mim para me dar conta dos fundamentos do conflito em que sempre vivi com a estranha São Paulo das buzinas e mutismos temíveis. Hoje, afastado, perdido no meio de um povo cujas gírias ainda desconheço, o que desenvolvi foi, finalmente, a resposta para o antigo dilema que parecia ter ficado em casa, lá atrás, esquecido no armário.

Eis que São Paulo, enxergo afinal, é uma terra refratária ao espaço público. Parece aplicar um estranho programa: se há alguma área de convivência, em que os olhares se cruzem e se ponham em comunicação, que seja suprimida; se há um parque, que os escapamentos, milhões de galões de gás, sufoquem os freqüentadores; se há calçadas, que se alarguem as avenidas até só haver espaço para o asfalto; se há comércio pelas ruas, que seja confinado a enormes condomínios com ar condicionado e música ambiente.

Enquanto isso, na curta semana que passei entre os meus, eu nutria o enorme desejo de observar os tipos, delinear os rostos, adivinhar pensamentos. É o que faço quando caminho sem destino, a passo lento, pelas ruas de Paris. Só que em São Paulo, os rostos, tipos e pensamentos se furtavam a mim. Subindo ou descendo as calçadas esguias, era impossível decifrar as idéias dos transeuntes: em seus rostos, transparecia apenas a preocupação de desviar dos buracos, dos postes, dos ambulantes e dos demais pedestres espremidos. Cada corpo, ao sair de um carro, de um ônibus, de um prédio, de um buraco do metrô, logo dava um jeito de, furtiva e melindrosamente, enfiar-se novamente em algum buraco do metrô, prédio, ônibus, carro. De um caixote para outro, sempre, tão célere quanto conseguisse. Descobri uma população encaixotada.

Essa conclusão não tem nada de agradável, é claro. Ao contrário, ela perturba sobremaneira. Repito, uma cidade se conhece pelo espaço público. Com o que, de repente, depois de uma vida, percebo que não conheço São Paulo. Como corolário, acredito que ninguém conheça. Pois a cidade não se deixa conhecer. Como se precisasse esconder o rosto, ela abafa a própria voz natural, uma vibração produzida a cada instante pelo flutuar de seus habitantes.

Mas São Paulo parece envergonhada por constituir-se de pessoas. E que não são poucas: dezenas de milhões de almas, veladas como as concubinas de um sultão. Uma multidão que não se olha, não se enxerga, não se cruza. Trocando em miúdos, não se conhece.

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Lições de quem largou o vício

No primeiro dia, tudo parecia depender de nosso heroísmo e abnegação. Largar as drogas parece ao alcance da mão, ao menos para quem tem força de vontade. A desintoxicação, pensando bem, não exigiria nenhum grande gesto, no máximo um pequeno sacrifício: abster-se de dobrar o filtro, de acender o fogão, de riscar o fósforo, de meter a colher no pó, de derramar a água fervida, de acrescentar açúcar, de saborear. Se um único desses movimentos fosse evitado, a salvação estaria próxima.

Era sábado. Dia bem escolhido, sem obrigações, ideal para enfrentar a sonolência e a ofensiva germânica das dores de cabeça. Matar ou morrer. Não havia mais alternativa senão largar o vício que nos corroía por dentro, dissolvia nossos estômagos, impregnava nossas roupas, amarelava nossos dentes e, cheguei a crer, nossa pele.

Ah, líquido insidioso! Quiseste, pois, comprar nossa saúde com energia e sabor? Quiseste envenenar nossas artérias com o ardil de teu aroma? Acreditaste que, dependentes de ti para acordar, trabalhar, raciocinar, não teríamos a coragem e a disposição para expulsar de nossa casa tua perfídia indiscreta? Pois que dirás agora?

De fato, fomos heróicos e abnegados no sábado. No domingo, igualmente. Passamos o dia esparramados sobre a cama, depois sobre o sofá, incapazes de preparar refeição mais complexa que um punhado de sanduíches. Na bancada que serve de despensa, os sacos de pó seguiam intocados e nós tratávamos de não pensar neles. Víamos televisão, embasbacados, porque filmes exigiriam uma concentração inatingível. E se, dentro do crânio, os miolos pulsavam em agonia, fazíamos de conta que era enxaqueca, contra a qual nada se pode fazer.

Segunda-feira chegou, com sua rotina compulsória. Para o tormento físico, tentamos aspirina, a chave-mestra das pílulas. Tomamos logo duas cada, cientes do sofrimento que ainda haveríamos de encarar ao longo do dia. Recorremos à força de vontade para vestir as roupas, amarrar os cadarços e preencher os bolsos com chave, carteira, celular. Colocávamos em palavras nossa convicção: “É preciso ser forte, temos de vencer.”

Quando um de nós se aproximava de uma recaída, lançava um breve olhar para o outro, na tentativa de buscar forças na cumplicidade e no amor. Era nossa única esperança para vencer o empuxo do vício, a crise de abstinência, o desejo lúbrico por aquele líquido negro, ligeiramente viscoso, cuja imagem fantasmagórica parecia pairar constantemente à frente de nossos olhos. Deu certo. Sem querer desapontar o outro, nem eu, nem ela recorremos a uma xícara às escondidas.

Mas persistia a questão da dor, que não passava. E havia trabalho a fazer, muito trabalho. Impossível, debaixo das ondas que afogavam nossos cérebros. Era um impasse evidente. Não sabíamos o que fazer. Se o desempenho profissional se visse comprometido, a volta ao vício seria uma questão de tempo. Pouco tempo. De repente, uma solução possível se afigurou: não havia alternativa, senão cheirar. Fui buscar o pó na despensa. A lata que tinha passado o fim-de-semana intocada me esperava com a paciência de um monge tibetano. Recolhi-a e a levei de volta para a sala. Tínhamos, é verdade, dúvidas de que fosse a melhor atitude. Afinal, cheirar está a um passo de beber. Bem teríamos pensado duas vezes, mas a verdade é que não há motor mais possante que a falta de opção. Destampei a lata.

Soltaram-se os eflúvios, que de imediato se puseram a flutuar pelo recinto. Cheguei a ver alegres tons rosados, em contraste com a verdadeira cor do pó, madeira quase negra. Aproximei o nariz, ainda um pouco hesitante, e aspirei. Faltam palavras para expressar o prazer. Que alívio, um contato afastado, mas real, com o objeto de meu vício. A intempérie no sistema circulatório se acalmou um tanto, tornou-se brisa controlável. Eu poderia ter passado o dia todo com a cara enfiada naquela lata, sujando a ponta do nariz e sofrendo alucinações. Mas passei-a para ela, e ela reagiu de forma idêntica. Desta vez, meu prazer foi contemplar a iluminação imediata de seu rosto.

Assim levamos a semana. Acordávamos, tomávamos o chá-da-manhã, corríamos para a lata milagrosa, santuário das narinas abstêmias. Depois, tentávamos tocar a vida, na medida do possível. Fomos menos produtivos e, desconfio, mais irritadiços. Mais preguiçosos e menos tolerantes. Se, por um lado, alguém parecia nos martelar a cabeça, por outro, aos poucos sumia a fogueira do estômago. Aguentamos.

É essa a palavra. Aguentamos.

Cinco ou seis dias depois, parecia passada a crise. Podíamos levar uma vida quase normal, sem aquela agitação doentia, os olhos esbugalhados, o tremor nos dedos. Forçoso confessar que nos arrastávamos um tanto, sem o ritmo da batalha do dia-a-dia. Mas um ganho era líquido, sem trocadilho, e certo. As cabeças não doíam mais. Esse pequeno triunfo parecia coroar nosso esforço.

Acontece que nos deixamos levar pela ilusão. Sábado à noite, um bar com amigos, a lista de bebidas parecia incluir o item ideal para quem quer levar uma vida normal, como a de todo mundo, isto é, dos limpos, abstêmios, não-viciados. Um drinque que leva a maldita bebida de que tínhamos sido dependentes. Não foi por tolice que caímos na armadilha. Foi traição do inconsciente, ávido por um pouco mais daquele gostinho saudoso. Foi assim que, na manhã de domingo, muito além da ressaca, demos com a velha crise de abstinência a bater na porta.

Em arrependimento, arrancamos cabelos. Imploramos clemência aos espírito da droga. Trocamos acusações vazias, já sabendo que aquela era uma culpa compartilhada. Mais calmos, recorremos a um juramento, como os que se faziam na Idade Média. Dali por diante, seríamos mais fortes, dissemos entre nós.

E fomos mesmo. Exceção feita para um único dia. Quinta ou sexta, já esqueci. Acontece que era um momento-chave de nossas vidas. Demandava um nível de concentração invejável. Como exigir que passássemos sem uma xícara? Pelo menos foi uma só, asseguro. Era inevitável. Caso contrário, não teria como não submergir.

Pois foi aí que aconteceu o milagre. Ao primeiro gole, um enjôo, acidez na boca, discretas convulsões. Sim, um milagre: o corpo rejeitava aquela invasão ácida e quente, de um líquido sem o qual, poucos dias antes, não conseguia se manter coerente. Nesse instante, entendemos que estávamos limpos. Nosso sangue, composto até então de alguns glóbulos, umas gotas de água e um dilúvio de cafeína, já tinha voltado a ser vermelho. Uma vez na vida, havíamos vencido.

Mas não estávamos inteiramente livres de problemas. Precisávamos encontrar uma maneira de preencher a lacuna da disposição física e mental. Essa tinha sido, afinal de contas, nossa desculpa para mergulhar tão profundamente no vício, na dependência, na entrega servil a uma substância pesada. Que outra fonte poderia nos fornecer a trimetilxantina indispensável?

Pensamos primeiro naquele famoso refrigerante imperialista; mas se acidez é o problema, não pode ser essa a solução. Consideramos o chá, mas o resultado foi decepcionante. Chocolate também tem seus efeitos colaterais terríveis, queira Tim Maia ou não. Pílulas? Nada disso, nosso estado de dependência jamais chegou a níveis tão patológicos.

Finalmente, encontramos. Mais uma vez, teríamos de recorrer ao pó, a divina poeira que anima as almas. Uma loja de produtos naturais, na rua de comércio vizinha, vende guaraná em pó. Na seção, claro, de produtos exóticos, muito estranhos, vindo daquelas terras em que as plantas são verdes o ano inteiro. Eis aí a saída. Guaraná é riquíssimo em cafeína, não costuma fazer mal ao estômago e não deixa ninguém com dentes amarelos. Compramos.

Tem funcionado. A cada manhã, misturamos ao suco umas pitadas do guaraná. Com ele, podemos levar o dia inteiro como crianças num parque temático. Só tem um porém. Aliás, sempre tem algum, raios! O bendito pó tem um gosto terrível. Nada parecido com o refrigerante que era brasileiro ou o suco adocicado que se vende nas farmácias. Este que adotamos é arenoso e amargo. Terrível. Como se diz, gosto de remédio. A tal ponto que, da última vez em que o engoli, me flagrei aos suspiros:

– O café era tão gostoso…

* * *

PS: Não foi a primeira vez que tentamos limpar nossos organismos. A primeira, como deve ter ficado claro, falhou vergonhosamente. À época, também escrevi sobre o assunto. O texto pode ser encontrado aqui.

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arte, Brasil, cartola, crônica, descoberta, flores, imprensa, música, paris, reflexão, saudade

O que dizem as rosas


É engraçado. Ainda ontem, entreguei uma crônica para ser publicada no próximo fim-de-semana, e já agora percebo o quanto está permeada de mentiras. Mentiras, bom, talvez seja um termo brusco demais. Mas são certamente inverdades. No texto, desenvolvo as impressões que me causou a visão de uma mulher que cheirava uma rosa com o semblante pétreo de quem encarou Medusa. Isso aconteceu, sim; e é verdade que o fato desencadeou em mim uma corredeira de pensamentos. Todo o resto que escrevi não passa de suposições.

Ora, supor é diferente de inventar, no sentido de criar eventos, ficções, quiçá mentiras. A suposição é uma atitude legítima, provavelmente o atributo fundamental da mente humana, princípio de todos os demais. Só que implica certos riscos. Pode acontecer de alguém se perder nas próprias conjecturas, quando se entrega sem ressalvas às libertinagens do espírito. Resultado: acaba tomando por verdadeiras coisas que não o são. Meras hipóteses, sintetizadas por uma imaginação sem vergonha. Acho que foi o que houve comigo.

Não vi quando ela se agachou para recolher a rosa. Apenas supus que ninguém compraria uma flor tão pequena, amassada, indigna. Ela foi certamente resgatada do olvido da calçada. Tampouco virei o rosto para acompanhar o gesto final de desprezo da mulher, atirando a planta de volta a seu chão. Sei, de alguma maneira inexplicável, que ela o fez. Mas não vi. É inconcebível, ao menos para mim, que alguém mantenha a expressão tão rija ao sorver o perfume de uma flor, sem depois atirá-la à distância.

Finalmente, no momento em que a cena se desenrolava, não pensei, como escrevi na crônica, no milagre da técnica humana que traz flores – e, aliás, frutas – à Europa em pleno inverno. O raciocínio existiu, por certo, senão jamais poderia ter sido redigido. Mas foi posterior, fruto já do conforto do aquecimento, com um copo entre os dedos. Na hora, a autêntica, o que me veio à mente foi coisa muito diversa.

No instante em que o nariz da mulher roçou a ponta das pétalas, lembrei-me foi de Cartola. Da mais célebre de suas estrofes, dentre tantos versos fabulosos:

Queixo-me às rosas / Mas, que bobagem, as rosas não falam, / Simplesmente, as rosas exalam / o perfume que roubam de ti, ai!

Antes que interpretem a lembrança como um elogio à amazona, garanto que não foi dela que a flor roubou seu perfume. Que fragrância pode emanar da mulher que acantoa uma flor enquanto a cheira? Aquela, do alto de seu salto agulha, exalava no máximo a boa meia hora que passou no metrô abarrotado.

Lembrei de Cartola porque sempre me lembro dele. Não sei por que isso acontece. O pai da Mangueira ronda minhas especulações como um fantasma. Visitando o Brasil, constatei o banzo de que sofro ao tentar acompanhar a letra de Cordas de Aço e não conseguir porque, no meio do caminho, tinha a voz embargada. Por quê? E por que, de tanta boa música no Brasil que saltita em torno de rosas e flores, como uma ciranda temática, fui lembrar que as rosas não falam, simplesmente exalam o perfume que roubam de ti?

A mulher fria cheirou a rosa sem cheirá-la, sem tentar queixar-se a ela, nem entender de onde vinha o perfume. Mas, curiosamente, foi graças a ela que entendi em que palavra se concentra a força arrasadora dessa estrofe. Pois afirmo, sem recurso: está no advérbio. Ao cravar um singelo “simplesmente” no meio de seu poema (sim, asseguro que é um poema), o eterno Angenor de Oliveira fez de um samba, monumento. Uma mera palavra concentra as instruções para cantar – e tocar, claro – a música inteira. Pena que a maioria dos intérpretes não o perceba.

O próprio Cartola gravou sua música com um tom tão prosaico, que derrubaria mesmo a francesa que não sabe cheirar flores. Ele canta As Rosas Não Falam no tom exato em que qualquer mulher acredita no que ele diz. A menor variação transformaria o discurso em cantada barata: “as rosas exalam o perfume que roubam de ti, boneca”. Se, no lugar do “simplesmente”, o autor cometesse algo como “inversamente”, “ao contrário” ou “em vez disso”, a composição inteira estaria morta. Mas aí não seria o gênio, não seria Cartola.

Eis a verdade sobre o que pensei, de pé na calçada, tomando chuva, depois que perdi de vista a infeliz desalmada. A lembrança se reavivou de repente, enquanto eu pensava outras coisas, como queria Henri Bergson. O resto são elucubrações. Incrível como é preciso aceitar um pouco de mentira para produzir textos, evocar sentimentos, transmitir verdades.

Pois sim, a verdade vem sempre entremeada de incorreções e autênticas mentiras. O mesmo vale para a memória. A pureza, queremos crer que está em algum canto, elegemos-lhe um santo, construímos um altar para adorá-la. Admito que é ingenuidade minha, resolver assim depositar na autoridade da música de Cartola toda minha ilusão de pureza. Enfim, é o que é.

Mas vou limpar a mente / Sei que errei, errei inocente.

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barbárie, calor, costumes, crônica, crime, desespero, ironia, passado, pena, prosa, reflexão, saudade, tristeza, vida

Um vício é um vício

Caneca
Ouvi dizer que parar de fumar é muito difícil. Não sei, jamais fui fumante. Comprar cigarro, observe, nada mais é do que transformar dinheiro em fumaça. Sem falar no cheiro que impregna as roupas e os ambientes, a tosse, o câncer. Fico imaginando o desespero de tantos colegas durante uma longa palestra da qual não se pode sair para aliviar o vício, e a idéia me parece, menos que triste, engraçada.

Existem outros vícios, sim. Eu não poderia escapar de todos. Está para nascer o homem que vive sem obedecer a alguma substância, impulso ou idéia. Mas estou livre dos principais, acredito. Ao menos, dos mais perigosos. Não consumo químicos ilegais. Minha relação com o álcool é plenamente gustatória. Que culpa tenho, se há uma variedade tão grande de bebidas com valor gastronômico? Sói prová-las o mais rápido possível. E eu as provo. Não a ponto de ser alcoólatra, por favor.

Há um vício, porém, de que não consigo me libertar, e sei que é mortal para o organismo. Uma substância cheirosa, líquida, negra e quente. Uma frutinha vermelha que enriqueceu muito latifundiário brasileiro. Vendida para o mundo inteiro, torrada e moída, fervida e coada, servida no desjejum ou após as refeições. Pelos céus, eu admito, não consigo passar o dia sem tomar café.

Começou quando decidi que deveria escrever sem parar. Foi, digamos, uma decisão leviana de juventude. Acreditei que pudesse ser um desses autores que se debruçam sobre o teclado na hora do almoço e só se levantam para o café-da-manhã (com trocadilho). Horários definidos por e para outras pessoas, porque, com esses artistas geniais e incompreendidos, a comida serve apenas para não cair doente sobre uma página incompleta. Esses abnegados não dão importância às coisas boas da vida. Não buscam prazeres, nem glórias. Querem apenas fazer sua literatura… e assim por diante.

Jamais consegui. Tentei por alguns dias, mas sempre ocorria uma dessas três coisas: 1) Algo me puxava de volta para o mundo exterior, um jogo de futebol, uma morena passando na janela, uma goteira pingando na cozinha. Qualquer coisa. 2) Eu me via sem assunto. Queria escrever, mas, bolas, sobre o quê? Com que palavras? Tentava escrever apenas frases, até que delas saísse algum tema. Não funcionava. Ou as frases eram ruins, ou o assunto era banal. 3) Eu tinha sono. Dormia na escrivaninha, acordava, dormia de novo. Escrever é algo muito chato, já aviso a quem quer começar. Ver televisão é mais interessante e, se dormimos, não sentimos culpa.

O café, insumo insidioso, ofereceu-se como solução. Prometia mil maravilhas. Que me deixaria acordado, alerta, esperto. Que faria de meu cérebro uma máquina incansável, sempre produzindo idéias, frases e imagens. Que eu me tornaria o mais produtivo dos homens, preenchendo laudas e laudas com letra miúda e nervosa. O café, mais do que as drogas, o álcool ou o tabaco, é o segredo dos grandes autores. Acreditei nessa história, caí no conto.

Não demorou para que ele se tornasse minha fonte principal de alimentação. No trabalho, eu afundava o dedo no botão da garrafa térmica. Duas, três vezes por dia. E todos comentavam. Cada colega preparava para si uma pequena xícara a cada manhã. Quanto a mim, era um copo cheio até a borda. Mais de uma vez, vi meu chefe meneando a cabeça, em negativa ressentida. À tarde, quando a garrafa estava vazia, eu quase me recusava a continuar prestando meus serviços. O que me impedia era o medo de ser mandado embora. Sabe como é a situação, a coisa não está fácil para ninguém.

Há anos, eu me arrasto para fora da cama, esbarro em todos os móveis, vou até a cozinha e, em gestos de cágado, preparo a cafeteira. Espalho-me no sofá, à espera, ainda sonhando, os olhos bem atados. Quando ouço o chiado da bebida pronta, não sei explicar o que se produz em mim. Desperto imediatamente e pulo sobre ela. Bebo tudo de uma vez, e só daí parte o dia. Minhas roupas cheiram a café. Meus lençóis, idem. Minha mulher, às vezes, tem insônia, apenas da essência que a roupa de cama exala. E olha que ela também é viciada, e já o era antes de nos conhecermos.

Parar parece impossível. Um dia sem café corresponde a um dia como morto-vivo preguiçoso, mais morto do que vivo. Não quero conversar, mal cumprimento as pessoas, a luz do sol me incomoda. Arrisco dizer que é como se nesse dia eu simplesmente não tenha sido. É um vão na minha existência, a negação da continuidade do tempo.

Pois bem. Há coisa de uma semana, decidimos, juntos, reduzir o consumo da bebida. No lugar das duas canecas diárias, uma xícara. Pois bem. Funcionou no primeiro dia. No segundo, fui acometido da dor de cabeça típica dos dias de pouco café. Resisti bravamente. Depois, vieram os dias cheios de aulas e trabalhos por entregar. Tomamos duas xícaras, cada um. Uma escorregadela, certamente. Mas nada que se compare às canecas transbordando de outrora.

Tenho suado. Tenho tido pesadelos. Não tenho conseguido manter o ritmo de leitura e estudos. Um vício é um vício. Mas hei de resistir. Mesmo se, hoje, algo tenha dado errado. Escrevo com a caneca amarela ao lado do computador, oferecendo-se como prova de meu fracasso. Mas hei de resistir. Parar de fumar, dizem, é bem mais difícil. E tem muita gente que consegue.

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