abril, crônica, descoberta, deus, Filosofia, flores, folhas, frança, opinião, paris, parque, passado, passeio, praça, primavera, prosa, reflexão, religião, tempo, transcendência, vida

Um milagre basta

Abri mão de pensar num sentido para a vida graças à chuva de pétalas de cerejeira e folhas de chorão. É um fechamento tão tranquilo para o ciclo da beleza, que não pude evitar uma tranquilidade semelhante para o ciclo da existência. Simples assim. Antes que o mês de abril possa começar e terminar com seus míseros trinta dias, os galhos se enchem de flores, como se explodisse dentro deles uma matéria inquieta de cor e vida, depois as pétalas se desmancham com o vento e dão lugar às folhas. Mas estas últimas tampouco hão de durar mais do que seis meses, sete no máximo, antes de deixar novamente nus os galhos…

E assim por diante, como todos sabemos. E, como todos sabemos, é esse o mesmo círculo a que obedecem todos os viventes, desde o bilionésimo do bilionésimo ano do passado, desde que cadeias de matéria deram para se replicar. Coisas brotam, coisas secam, nas árvores, nos mares, nas savanas, como na minha cabeça brotam ideias, e são projetos, depois secam, e são desistência.

A florada de um cerejal nao nutre ambições de beleza e faz muito bem. Nada tem muito sentido para um galho coberto de flores, que só sente de fato a inclinação de atrair abelhas – e as abelhas vão, atraídas pelos formatos apetitosos. Estirado, algo preguiçosamente, sobre um branco de praça com vista privilegiada para a colheita dos insetos, vejo, quase distraído, a repetição do que aconteceu no ano passado, no ano em que nasci, antes mesmo que os anos fossem contados. E me ponho a citar: é o ciclo, o ciclo da vida, a vida é um ciclo… e adormeço.

Caem as pétalas e adubam a próxima florada, as folhas virão para tomar seu lugar e encher de energia um infinito de reações químicas, que jamais verei de perto. E nem preciso, para saber que elas só fazem manter e criar mais flores, mais folhas, mais galhos, mais reações. Eu, adormecido, embalado por uma vida em ciclo: acaba para recomeçar, morre para dar mais vida… Um dia, começou sem antes ter acabado; outro dia, vai acabar sem recomeçar em seguida, mil anos antes que o sol, como promete a grande ampulheta cósmica, exploda e engolfe nosso planetinha.

Não que as plantas se perturbem de saber, se souberem, que, depois de tanto tempo, esse brota e apodrece vai dar em nada. E eu, que em muito menos tempo também vou dar soma zero, ainda gasto meu tempo desperto pensando nessas coisas. Jeito besta de ocupar as décadas (um nada!) que me restam! Bom, no fim das contas, esse pensamento e todos os outros se valem, como se valem as abelhas se o assunto é disseminar o pólen. Algo em mim me diz que eu não deveria apostar tanto na minha própria duração para além de mim mesmo, mas…

Vendo tanto renascer, tanto rebrotar, acabo caindo na tentação, doce e idiota, de acreditar que um fim nunca é fim de verdade. Alguma coisa dura, quero; alguma coisa renasce, desejo. Meu lado ingênuo aponta para a beleza do universo, diz que é milagre, e garante que, entre as coisas que não vão terminar quando chegar o meu fim, estou eu mesmo.

É claro que isso não pode ser verdade. Mentira grossa, decerto. Que tem a ver com a beleza que admiro com a transcendência dos meus olhos? Minha carne fenece tão facilmente quanto as folhas do outono, e então, para ser direto: adeus beleza, adeus olhos. Continua o ciclo, mas eu pulei fora dele como essas pétalas que flutuam no vazio. E se meus braços e pernas são feitos do mesmo material que esses galhos, então não valem mais do que eles ou o ciclo de que fazemos todos parte.

Porém, já sei… que mudem as estações, não vai mudar a admiração que tenho pela sua regularidade, o milagre da sua reprodução, e a suspeita pouco justificada de que toda essa vida tem algum sentido e obedece a algum desígnio. Parece não bastar a evidência de que toda a beleza do universio é a beleza que eu aprecio, e todo o sentido da vida é a vida como eu a sinto. Deve ser isso. O verdadeiro milagre da vida é ter engendrado um ser que a sente como bela e tem amor ao ciclo, a ponto de desejar ser maior do que ele. Para mim, já é milagre suficiente.

Padrão
costumes, crônica, descoberta, doença, passado, prosa, reflexão, saudade, tempo, transcendência, tristeza, vida

Dos sustos

De súbito, salta a meus olhos a razão dos sustos. Refiro-me àqueles que parecem se abater sobre cada vivente de tempos em tempos, regulares como as crises sistêmicas do mercado financeiro, mas bem mais freqüentes. Esses traumas, maiores ou menores, são o mecanismo que a natureza criou para nos trazer de volta à vida, quando estamos, sem saber, há muito levando os dias como autênticos defuntos.

Explico. É um engano conceber nossa existência como um arco no tempo, embora seja nossa interpretação mais corrente: uma parábola que salta do nascimento, na maturidade atinge seu cume suave e daí vai descaindo pela velhice, até reencontrar o eixo das abscissas quando a morte nos alcança. Uma curva assim tão suave não pode representar a vida, essa que é tudo, menos suave, e tão menos viva quanto mais tranqüila e regular.

Para quem a observa com atenção, diria mesmo com carinho, a vida desvenda seu doce segredo. Ela se revela inteira, como um fractal surpreendente. Dentro do tempo que nos é reservado nesta existência, que por sinal é muito pouco, temos o dom de nascer muitas vezes, em várias direções, com intervalos que podem ser incrivelmente curtos. No fundo, em vez de uma só, levamos levamos várias vidas, um fragmento dela a cada vez. E isso faz de nós caleidoscópios pulsantes, com todas as cores e movimentos que um caleidoscópio deve ter.

Que isso implique um sem-número de pequenas mortes para cada um de nós não deveria ser causa de aflição. Quem chegou até aqui já provou sua resistência. Não sucumbiu aos muitos finais que já sofreu, nem ao medo de cada reviravolta, mesmo se chegou a pensar que não mais poderia. A última morte, aquela que atinge também a carne, arrisca perder-se no esquecimento, depois de tantos traumas e tantas primaveras.

É assim que passam os anos, é assim que se forma aquele arco que, por desatenção, tomamos pela vida de verdade. Vivemos por um tempo, depois morremos sem saber. E podemos ficar anos, muitos anos assim. Pobres zumbis, cadáveres ambulantes mas asseados, confortáveis no esquife acolchoado de certezas em que nos enterra o quotidiano.

Quanto mais rápido vier o susto, melhor e menos traumático. Quanto mais nos acomodamos na segurança, tão artificial, que se apresentava, ardilosa, como objetivo maior de qualquer vida, mais teremos de sofrer para aceitar que há muito já não vivemos e precisamos nascer de novo, com o impulso de um bom susto. Mudanças desse gênero são quase sempre muito difíceis e deixam sequelas na versão renascida do defunto.

Como ele pode vir, esse tal susto, todos sabem. Quem se flagrar em dúvida deve desconfiar. Se jamais tiver passado por um, é provavelmente porque ainda está precisando. Ainda vive como um morto e não descobriu. Quando soar o alarme, soará em alguma forma inusitada, imprevisível, sorrateira. Eventos físicos e óbvios, talvez, como a experiência de quase ser atropelado, ou se cortar profundamente com uma faca de cozinha ao fatiar tomates. Mas podem sobrevir ainda os superlativos do padecer moral: separações, traições, desilusões.

Venha como vier, o susto é um novo parto. Acordamos para um mundo que tínhamos esquecido, isto é, acordamos para a vida. Descobrimos o quanto éramos mortos, quão idênticos eram nossos dias, como o são os dias da matéria inerte que fatalmente nos tornaremos. Somos atingidos, reagimos. Sentimos o sangue que corria em nossos vasos sem que déssemos por ele. É para isso que tomamos sustos, é por isso que desabam nossos universos.

Porque sofremos, podemos fruir. Eis um decassílabo que resume a existência.

Padrão
arte, costumes, crônica, descoberta, escultura, fotografia, frança, história, imagens, ironia, modernidade, opinião, paris, passado, passeio, prosa, reflexão, tempo

Olhos de pedra

Esta é uma cidade erguida em pedra. Seu crescimento mais brilhante veio pouco antes de se abandonarem os blocos cinzentos e custosos em nome do ferro torcido e, finalmente, do concreto, este também acinzentado, mas pastoso e barato. A pedra era matéria nobre, privilégio de fortes e palácios. Cedida à cidade, ergueria o nome da capital do terceiro Napoleão acima de suas rivais e vizinhas do Velho Continente, que se espalhavam ainda com o pobre e simplório tijolo de barro. Que importa se as outras cresceriam mais, enriqueceriam, seriam coalhadas de edifícios altos, para ocupar o espaço deixado vazio pelas bombas de duas guerras? Ainda hoje, esta Paris regular, simétrica, monótona, é incensada ao redor do mundo, justamente por sua arquitetura litólatra.

Pois foi nessas pedras que os arquitetos esculpiram rostos humanos. Nos prédios mais nobres, cada friso de janela é coroado por uma face em baixo-relevo, como se o cômodo que defende fosse um ventre exposto e arejado. A caminhar pelos bairros de boa linhagem, progridem os números dos edifícios, desfilam as imagens. Muitas dão a pensar nas máscaras da tragédia ática, grandes bocas escancaradas em risos ou máscaras de terror. Outras se quedam neutras, caladas a mirar os passantes sem julgá-los. Há ainda faunos e sátiros, deusas e musas, demônios, esgares furibundos. Uma população, em suma, tão variada quanto a dos vivos.

Gosto de observá-los, esses rostos centenários que testemunharam revoltas, guerras e gerações. Ali estão, a enfeitar apartamentos sem que os proprietários dêem por eles. Diante da variedade de traços e feições, que refletem talvez os humores do arquiteto, troco olhares com as pedras e sou tomado por perguntas que elas não podem responder. Desejo entender o que representam tantas faces, como se escolhiam os temas, por que não se fazem mais. Parecem mais interessantes que os monumentos.

Busco me informar nos livros e na rede. Não encontro estudos a respeito e isso me irrita, mas concluo que sou eu que procuro com palavras equivocadas, porque é certo que alguém já escreveu, já disse, já estudou algo sobre as fileiras de faces. Com meu insucesso, enfim, as imagens frias, que choram quando chove, mas não coram se faz sol, seguem sendo enigmas. Tanto mais, quanto mais meus caminhos as cruzam.

É patente que viviam em outro mundo os ancestrais a quem não bastava edificar as paredes, nuas e lisas, para abrigar os cidadãos honrados, como fazem nossos pares. Aqueles eram tempos em que a eficiência cedia, um pouco pelo menos, lugar aos gracejos. Ardo para saber o que se passava em suas cabeças, quando se dispunham a encarecer o orçamento para que as janelas pudessem contar com cabeças vigilantes e severas, entre os capitólios e as folhas de parreira, também esculpidos.

Lembro de Panofka, que deslindou a charada da perspectiva, eminentemente horizontal: baseia-se, ele entendeu, nas proporções do rosto humano. Cada palácio, cada prédio inteiro, é calculado para harmonizar-se muito mais para os lados que para cima, pois seu princípio, sua causa inconsciente, está posta pela linha dos olhos, a circunferência do crânio, o risco dos lábios. Por que, então, pontilhar de faces as fachadas, se já cada construção é um grande rosto disfarçado, sólido e vivo?

Os prédios são antigos, mas os dias que a cidade vive são os de hoje. Abaixo de sua arquitetura centenária circulam veículos do ano, entre os cartazes contratados pela quinzena. Nas esquinas, postes elevados, coroados por tubos soturnos em lento movimento pendular, mais ativos do que os rostos de pedra que já vão trincando. Dentro dos cilindros, já integrados às paisagens e esquecidos dos passantes, trabalham as câmeras que me protegem, à espera de que eu, ou alguém mais, atente contra a segurança pública.

Dos olhos que não me enxergam, das lentes que me perseguem, sinto que me dedicam uma atenção exagerada. Pedras e circuitos, convidando o indivíduo a cair na paranóia. Seja talvez por isso que não se esculpem mais os rostos. Para evitar o excesso, pois um cidadão abafado é menos produtivo e mais irritadiço. E como as câmeras são mais eficientes, gravam crimes e os evitam, enquanto os rostos só enfeitam as ruas, fica-se com as máquinas, abdica-se das faces, na seqüência de um cálculo bem natural de lógica impecável. Tudo assim se explica. Nem tanto, é certo, como pensavam os antigos, mas sem dúvida como pensam os atuais. E é isso, a bem da verdade, que se quer sempre explicar.

Padrão
arte, crônica, descoberta, férias, Florença, flores, fotografia, imagens, ironia, Itália, opinião, paris, passado, passeio, prosa, reflexão, tempo, transcendência, verão, viagem, vida

A segunda verdade

Para fazer crer que Florença é uma maravilha

Um dia alguém me disse que, editando imagens, a gente se sente um artista. Quem foi, não lembro, sei é que mentiu. Há mais de ano venho aprendendo, ainda grosseiramente, a manipular minhas fotos. Mando o programa reforçar as cores, reduzir o brilho, aumentar o contraste. Corto o que não interessa, cubro o feio com belezas importadas de outras figuras, de chapas batidas meses mais cedo, em outros lugares, cidades que nem falam a mesma língua. Misturo, retoco, distorço, enfim, brinco um bocado. Mas… que artista, que nada, eu me sinto é como criança.

Quando pequeno, eu desenhava absurdos. Queria resumir no mesmo enquadramento todos os capítulos de uma história que se ia criando ao instante, sem roteiro, no cruzamento caótico das imaginações múltiplas. Alguém que acompanhasse a inquietude dos meus dedos, tiranizando o lápis e as canetinhas coloridas, se desviasse a atenção por um segundo, voltaria surpreso. Da folha em branco teria resultado uma loucura de linhas e círculos, suja, pesada, grossa, incompreensível. Para mim, uma epopéia intergalática ou coisa que o valha. Para qualquer outro, garranchos e só. Mas eu não me incomodava. Enquanto a idade e a escola não metiam semáforos nessas encruzilhadas, eu me divertia com a composição das quimeras que, querendo abraçar a narrativa, a figuração e a temporalidade, acabavam sem se agarrar nenhum.

Alto-relevo de flor no Fórum de Roma

Pequeno, eu também dizia absurdos. Tanto quanto os desenhava e até mais. Pensava que a fantasia valia pelo real, agia em intermediário entre um e outro, convencido de que meu universo particular se bastava, era completo já, com tão poucos anos de formação (mas, para mim, eram todos os anos que pudesse ter havido). Os disparates que eu dizia, se punham em gargalhadas os grandes da família, não carregavam a carga pejorativa da mentira. Pelo menos não como eu a entendia, o crime das supremas punições. Não, eram inocentes idéias, que se vinham organizar como num quadro de avisos, substitutas de um mundo que se dava a perceber rápido demais, desordenado, sem interesse, feinho, muito opaco para merecer meu apego.

Agora, crescido (em algumas coisas mais, em outras, nem tanto), eis que me flagro entusiasmado, como uma criança, diante de um computador. À minha frente, uma foto qualquer, tirada no meio de uma viagem ou de um passeio pela cidade. Alta é a chance de que já empunhasse a câmera com a idéia de fazer uns retoques mais tarde. Faço-os agora, o programa oferecendo três fileiras horizontais, mais duas verticais, com alterações que posso impor ao retângulo inocente. Imponha-as!, é o que parece exigir a máquina. Para ela, o golpe do obturador é sempre muito pouco, ele que já secciona, congela e falseia um segmento do universo. É imperativo, prossegue o computador, nesse diálogo delirante, fazer uso das minhas ferramentas!

E obedeço, como criança. Mas tento não exagerar: o resultado estético é tão importante quanto o técnico, porque dele será derivado o poder retórico. E não há retórica mais sediciosa que a da imagem, quando se passa por espontânea. Talvez seja aí que o artista exerce seu sarcasmo, com edição ou sem. O artista, seja qual for sua intenção, é um sarcástico porque, ao contrário da criança que só quer desvendar o mundo, ele busca a força da retórica. Sua segunda verdade, escudada na estética, tenta se esgueirar para dentro da primeira, desdobrá-la e multiplicá-la.

O Photofilter salvou esta imagem da perdição definitiva

Acabo de descrever o artista como um sofista maquiavélico. Foi um erro. Passei por cima da beleza de seu trabalho, a investigação tátil dos materiais deste mundo. Comparei-o à criança, mas não o comparei ao adulto, seu verdadeiro concorrente. Aquele que, como a criança, diz do mundo disparates, apoiado em sua experiência do real. Com a diferença de que a criança gosta de seus disparates enquanto tais, não quer deles mais que a delícia da invenção. Já o adulto sustenta o edifício de suas verdades sobre a reconstrução que faz, sem querer, sem saber, do entorno. Chama de verdade algo que lembra, mas a memória não é fato, é imagem. Como a que vou trabalhando no editor, lentamente, até que corresponda ao ideal daquilo que retrata, bela e formatada.

O artista entrelaça à primeira verdade uma segunda, de sua lavra. E está em seu direito, pois que aquela primeira, a real, a dos fatos ou que assim se crê, não é feita da carne, do material deste mundo. Ela é composta de proposições e conceitos que, como os garranchos e os disparates das crianças, ocupam o lugar da bruma fluida de uma realidade muito imprecisa, vaga, confusa demais para as consciências maduras e orgulhosas de o ser. A primeira verdade, no fundo, no fundo, já não é nada mais do que uma reconstrução improvisada, que tenta se harmonizar com o mundo indizível, mas não consegue evitar os confrontos, sempre tão freqüentes.

É por isso que minha edição de imagens não aspira ao artista, mas também não atinge a criança. Retoquei o monumento de Genebra porque as cores estavam pálidas, debaixo do sol que não teve trabalho para ofuscar a objetiva, embora em mim não causasse o menor desconforto. Escondi uma enorme bola de futebol que, à força de celebrar a Eurocopa, vulgarizava o lago. Escolhi que uma determinada vista de Paris deveria ficar em preto-e-branco, porque desbotada e pálida estava minha alma no dia em que a registrei. Não foi fantasia, nem retórica. Foi falsidade ideológica, um estelionato cuja vítima é minha própria experiência.

Eis a essência da fraude. Contemplo minhas próprias fotografias em busca das emoções de tempos vividos. Mas as emoções que elas contêm estão todas nelas e em nenhum outro lugar. Evocam lembranças que não partem do passado, mas da imagem, só da imagem. Editadas, redobram seu poder de convencer meus olhos e ouvidos, como as mulheres que, belas e às lágrimas, nos dão a crer que as fazemos infelizes.

Quem diria que isso é história, largada no meio dos turistas!

A imagem é mentirosa tanto quanto a palavra. Como quando digo a alguém que estou feliz ou que estou triste e entendem o que quero dizer, muito embora ignorem sempre de que é feita minha alegria, meu pesar. Mas a palavra voa, a imagem fica, seduz, não carece de um idioma comum para se remontar nas retinas. Enquanto trabalho, suponho um mundo construído apenas com imagens, quais tijolos. Entre o olho e uma figura, sempre apenas mais imagens. Parece terrível, parece pesadelo, mas não: afora o ganho de clareza e o silêncio extasiado, não é diferente de um mundo construído com palavras. A comparação, no fundo um silogismo frouxo, me reconforta. E sigo trabalhando, submerso no passatempo infantil dos meus retoques.

Padrão
abril, arte, crônica, descoberta, ironia, opinião, paris, parque, passeio, praça, primavera, prosa, reflexão, transcendência

Todo dia é dia da mentira

Tela E Chao
Quis postar ontem alguma grande mentira, aproveitando o Primeiro de Abril. O mais difícil, eu já sabia, seria criar uma lorota tão crível que se destacasse de todas as outras mentiras que publico neste blog, já sem grande compromisso com a verdade. Quebrei a cabeça de madrugada, não dormi, subi e desci pelo metrô pensando em lograr o leitor. Falhei na missão. Estou tão acostumado a mentir quando escrevo que, ao precisar fazê-lo deliberadamente, acabo enredado na confusão de versões e percepções. Condenado pela fé nos fatos. Só que aqui é caso de texto, não de fato.

Quando alguém escreve, parte de uma impressão, talvez uma idéia, no máximo um conceito, para chegar ao texto. A grande desgraça e, ao mesmo tempo, a grande riqueza desse processo é que – e isso é um fato acima de todo questionamento – o produto resulta sempre, sempre, infiel à afecção que deu origem ao palavrório. Quem procura no texto alguma bela verdade cai na armadilha da ilusão perniciosa. Mas aquele que lhe extrai certeza e dogmatismo só pode ser tolo ou desleal.

A salvação está no fato de que não apenas o texto é infiel às impressões, mas as impressões traem o texto despudoradamente. O velho poeta que conta nos dedos as sílabas das rimas, o jovem que escarra na métrica e na assonância, o gabola que passa por cima dos versos e compõe em torrentes, todos esses são presas fáceis para a falácia de copiar suas emoções no peito do leitor. Isso não é possível. A relação entre um texto e quem o lê é insondável. Um neurologista pode se esbaldar com o cérebro de um leitor, cheio de campos acesos. Mas isso não lhe traz ciência do imaterial, e é de imaterial que tratamos.

Toda a beleza da leitura está nesse livre jogo de infidelidades. Aquilo que a alma reproduz ao receber o escrito depende mais dela mesma e menos de quem cortou os pulsos para aperfeiçoar a expressão; mas, no limite, é o fruto de ambos. Daí a frustração de quem crê ter algo a dizer ou a passar. Desconfio sempre dos autores satisfeitos, orgulhosos, realizados. E, nisso, jamais me enganei.

Nem poema, nem tratado, nem romance, nem cálculo algébrico: texto algum pode ter a ousadia de tentar reter os vapores do inconsciente. Nem à própria consciência, de onde saem palavras e gestos, isso é dado. Uma proposição pode ser prudente, pode ser rigorosa, pode ser aberta e repicada de ressalvas, mas não captaria as nuances do que pretende expressar. Morte à estatística, que se crê capaz de quantificar as imperfeições e discrepâncias de todo discurso. A porcentagem é desonesta.

Ao escrever, a única maneira de ser honesto de fato é apagar todas as palavras imediatamente. Engoli-las. É por isso que a fala é sempre mais sincera, mais humana e verdadeira. Uma frase pronunciada morre tão logo seja dita. A não ser na memória de quem falou e de quem ouviu. Mas isso é outro tema. Já diziam os latinos: verba volent, scripta manent. Podemos inverter a ordem do ditado: o texto fica, com toda sua inverdade. O dito voa, desaparece, subsiste apenas sob a forma de lembrança. Nada mais maneável do que uma lembrança.

Perseguido pelas mentiras que venho empilhando neste endereço há quase dois anos, saí pela rua atrás de uma boa brincadeira de Primeiro de Abril. Não a vi. No lugar dos chistes, dei com faces, edifícios, árvores, automóveis, lojas, mendigos. Verdades, enfim, todas elas a postos, à espera de serem transformadas em mentiras. Pacientes algumas, outras roendo as unhas, parecem acreditar que as frases vão torná-las imortais, reproduzidas como impressões e idéias no espírito do leitor. Eu mesmo, honestamente, já acreditei nisso.

Post scriptum: foram duas as coisas que me atraíram a atenção na tarde de ontem, e serão tema para as próximas duas crônicas. A mudança radical que se produz nos semblantes no início deste mês; e um par de plátanos na praça aqui atrás. Pode me cobrar.

Padrão
crônica, flores, folhas, fotografia, frança, imagens, ironia, março, paris, parque, passeio, praça, primavera, tempo

Nos jardins, as cerejeiras

Três cerejeiras
Existem polianas – e polianos – para tudo neste mundo. São sensibilidades capazes de encontrar alegria em qualquer coisa. É o caso da gente que aponta belezas específicas a cada estação do ano, dizendo que todas podem ser fruídas e amadas, cada uma à sua maneira. É, digamos, quase verdade. Mas uma verdade mitigada pelo fato de que o verão queima, a primavera engana com suas temperaturas imprevisíveis, o outono anuncia o inverno naquelas folhas coloridas, e o inverno, ora…

Admito que uma paisagem campestre coberta de neve dá uma belíssima imagem para quebra-cabeças de 2000 peças, ao menos nas poucas horas em que a luminosidade é suficiente para o obturador da câmera. Mas, sem mencionar a penumbra, a neve de verdade, concreta e muito empírica, não é nada disso. Fica suja ao se misturar com a lama, é viscosa quando derrete, escorrega e causa acidentes. Muito bonita quando cai. Depois, um Deus nos acuda.

Aqui em Paris, quase nunca há neve. Dizem que caiu um pouco há dois anos (eu não vi). De sorte que qualquer elogio à beleza do inverno deve excluir esta célebre cidade. Entre novembro e março, Paris é feia, cinzenta, carrancuda e ainda mais suja do que de hábito. É a estação chuvosa, quando as paredes se tornam pegajosas e recendem a cinza de cigarro barato. A ausência do que de verde há na vegetação desnuda a monotonia cromática sufocante das fachadas, na cidade que deveria ser toda luz. À exceção dos turistas brasileiros, ninguém é feliz; as mordidas e os rosnados recíprocos se multiplicam. Sair à rua torna-se algo a evitar. Em poucas palavras, são meses passados na toca.

Foi por isso que escolhi cerejeiras para ilustrar este texto rabugento. Três delas. E lanço-me à tese: não há melhor augúrio do que a chegada das cerejeiras. Ainda é março, as flores e folhas só virão em abril, mas já, ladeando os galhos eriçados dos plátanos, estão elas, as cerejeiras, rompendo em flores rosadas. É um alívio, muito mais do que uma festa para os olhos. Em si, a beleza pouco diz: há cerejeiras também no Brasil, mas elas não se destacam, ficam humildes no meio dos ipês, manacás e damas-da-noite. Em março, dar com uma cerejeira em flor em Paris é como atracar no cais após a tempestade. É o mesmo efeito, sobre os músculos como sobre o espírito.

Se me fosse dado mudar algo no texto de “O Cerejal”, de Tchekhov (seria um sacrilégio, já sei), eu apenas inverteria a ordem das estações: a ação começaria em agosto e terminaria em abril, as árvores sendo postas abaixo em pleno ápice da exuberância, quando respondem por toda a alegria dos russos a cinco graus negativos. Mas isso talvez fosse terrível demais para o público moscovita, soaria, imagino, um tanto melodramático. Vai ver, foi por isso que o autor escolheu a ordem como está, com o desmatamento às portas do inverno: nem o mais bruto dos mujiques enriquecidos derrubaria cerejeiras em flor. É certamente o que ele pensou.

Sobre a concretude dos dados: consta que as cerejeiras vieram do Japão. Não tem dúvida disso a senhorinha que, tendo visto um rapaz pacato a fotografar árvores, postou-se ao meu lado e comentou: “Como são sublimes, as cerejeiras japonesas!” Concordei e sorri para suas costas encurvadas, seu manto de lã grossa, sua cabeleira rala e opaca. Uma dessas nonagenárias que circulam por Paris sem receio algum, e hão de continuar com seus passeios enquanto tiverem pernas. Pois ela, que já viu tanta cerejeira florindo, na guerra como na paz, ainda se admira das flores. Como eu.

Corrigindo a informação: apenas as cerejeiras ornamentais são importadas da terra do sol nascente. As frutíferas são daqui mesmo. Pois as cerejeiras japonesas, em sua pátria, chamam-se Sakura e simbolizam a beleza efêmera de nada menos do que a vida em si. Os policiais e o exército usam a flor da cerejeira como símbolo, como faziam os pilotos kamikaze, de quem se esperava que reencarnassem como Sakura. É também o título de uma canção tão monótona que vence qualquer samurai pelo sono. Sakura, as árvores que enfeitam a primavera nos jardins do imperador, como a enfeitam em meus bulevares.

Devo confessar que tirar prazer da vista de uma aléia florida me faz sentir como um autêntico capiau. Das cerejeiras, diria o cínico, devemos tirar apenas cerejas (não das Sakura, que, como vimos, são ornamentais). Mas o cínico esquece que todas as cerejas que comi na vida vieram da feira ou do supermercado. Somos civilizados, tudo está ao alcance da mão, a um clique ou um telefonema de distância. Não é o caso de desesperar com o inverno e se apaixonar pelas cerejeiras. Mas, fazer o quê, é assim. Estamos chegando perto, mas ainda não aniquilamos a natureza em todas as frentes.

Padrão