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Elvis e Michael: do extrativo ao industrial

Agora que passou um pouco a comoção em torno do maior dos reis do Pop, acho que posso especular a respeito sem risco de levar tijoladas na testa. Prudência nunca é demais, mesmo quando o assunto é Michael Jackson, cujos receptores de hormônios prudentes eram para lá de atrofiados… Difícil é escolher o aspecto mais fecundo desse falecimento lastimável, mas longe de surpreendente.

Poderia ser a triste ironia de que todo o aparato medical, as máscaras, a hipocondria, eram resultado de uma intenção declarada do cantor de atingir os cem anos: não só o projeto fracassou, mas fracassou exatamente na metade do período. Prova de que a fixação com a longevidade é só mais um dos pequenos auto-enganos que nos impedem de simplesmente viver a vida. Também se pode enveredar pelo caminho que é, sem dúvida, o mais explorado: Michael como vítima do massacre da mídia, da ebriedade com o sucesso, das relações familiares doentias. Mas isso é notícia velha, não precisávamos de um cadáver para saber que a indústria cultural tem o poder de esfarelar uma vida, sobretudo a de alguém talentoso e desequilibrado como o caçula dos Jackson.

E já que foi evocada a tal indústria cultural, lembro que a morte súbita e inesperada (mais ou menos) de Jacko foi comparada à de Elvis Presley, mais de trinta anos antes, tão súbita e inesperada quanto. E as semelhanças são várias: ambos haviam sido “os reis”. Elvis do rock nos anos 50, depois da canção melosa e romântica; Michael, do pop nos anos 80, aquele que se atravessava no cruzamento entre o soul negro e o que viriam a ser os ritmos eletrônicos. Ambos foram belos e luminosos na juventude; no final da vida, tornaram-se estranhos, até repulsivos. Ambos ficaram conhecidos por passos de dança arrojados e revolucionários. Ambos marcaram a história da música popular americana: Elvis por ter sido o branco que “invadiu” o gueto e se apropriou de seu novo ritmo; Michael porque, enquanto negro, foi um ídolo universal, acima das questões de raça, à parte a mudança de cor.

Todas essas semelhanças são notáveis, claro; mas a diferença é mais fundamental e reveladora. Essa diferença se refere à época em que cada um viveu e atuou. Não tanto pelo período histórico em si, mas porque Elvis e Michael encarnam e são produtos de fases diversas do desenvolvimento histórico da tal indústria cultural. Para simplificar as coisas, podemos dizer que Elvis pertence à era da “indústria cultural extrativa”, enquanto Michael representa a “indústria cultural industrial”… Soa estranho? Tanto melhor, continue a leitura.

Michael Jackson foi produzido, em mais de um sentido, pelo pai. Junto com os irmãos mais velhos, foi talhado e moldado para o sucesso. Sendo, por natureza, o mais talentoso de todos, foi também o alvo do maior esforço de caracterização. Desde pequeno, inculcaram-lhe a máxima a que ele seria fiel, talvez contra a própria vontade, pelo resto de sua conturbada e curta vida: qualquer resquício de humanidade seria um estorvo para o produto midiático que ele deveria ser a todo instante. Michael Jackson tornou-se, com isso, uma marca. Uma máquina forçada a adaptar-se ao mercado caprichoso dos gostos juvenis, para continuar a produzir uma torrente volumosa de lucros e dividendos.

A falha trágica de Michael foi jamais ter conseguido demarcar a fronteira entre a commodity midiática e o indivíduo verdadeiro. O sucesso de Thriller se tornou uma obsessão tão grande que ele precisou pensar em si mesmo como monumento e imagem de capa de disco, talvez até mesmo quando estivesse dormindo em Neverland. Falando no rancho, creio que um junguiano o retrataria como tentativa desesperada do inconsciente do ídolo para retornar a uma era em que ele era verdadeiramente humano, apenas uma pessoa como todos nós: o tempo de sua primeira infância. Mas é melhor pular essa parte.

O caso de Michael se torna ainda mais chocante quando o comparamos a Madonna, sua contemporânea como ídolo pop. Ela, como ninguém, sabe ser um produto, capaz de se renovar a cada repique do mercado, capaz de chamar a atenção e, claro, os holofotes, de todas as formas possíveis, seja via sexualidade, maternidade ou musculatura. Mas ela também sabe ser a dona do produto, a detentora da marca, a empresária, a investidora. Michael Jackson jamais teve essa sapiência, daí sua desgraça.

Mas a comparação que queremos fazer é com Elvis, que também veio de baixo, também tinha questões familiares (o pai dava pequenos golpes na praça e chegou a ser preso por isso; a mãe tinha tendência ao alcoolismo e morreu bebendo). Também teve um sucesso retumbante: vendeu tanto quanto os Beatles, ou quase. E também morreu cedo, irreconhecível, decadente, infeliz, afogado em barbitúricos e outras drogas.

Ao contrário de Michael, Elvis jamais foi talhado para o sucesso. Seus pais o prepararam para uma vida dura de americano sulista; o maior mérito de sua mãe foi tirá-lo de um emprego para não prejudicar demais os estudos. Mas era um garoto mimado, isolado, que gostava de usar roupas e penteados diferentes, aprendeu alguns acordes tortos no violão e passava tardes inteiras ouvindo cantores gospel pelas igrejas de Memphis, Tennessee.

Um pouco mais crescido, montou uma bandinha para tocar os ritmos do tempo. O movimento diferente de seu corpo, aliado à mistura única de influências em seu canto, hipnotizava as plateias e chamou a atenção de um executivo da Sun Records. Era 1953. Em 1955, ele estava na RCA com um contrato de primeiro time, rumo a se tornar o Rei do Rock. Arrumaram-lhe um (péssimo) empresário; inventaram golpes de marketing. Mudaram um pouco seu som e sua aparência. Exploraram o movimento de seus quadris (Elvis the Pelvis, lembra dessa?). Levaram-no à televisão e ao cinema. Graças a ele, muita gente encheu o bucho de grana. Como ocorreria, mais tarde, com Michael Jackson.

Só que, no caso e no tempo de Elvis, ele só passava a ser moldado e formatado depois de descoberto. Michael nunca foi descoberto: ele foi feito. Foi fabricado nas oficinas da Motown pelo artífice que era seu pai. Daí o caráter exemplar da comparação entre os dois ídolos. O período em que viveu Elvis era extrativista no sentido em que as gravadoras procuravam o talento bruto, perdido no coração da América rural ou nos subúrbios das metrópoles, nos cantos esquecidos. Em todo lugar, enfim, de onde poderiam sair jovens, tímidos e desajeitados, mas com novas misturas rítmicas, novos passos de dança, figuras potenciais de um frenesi midiático. Em seguida, é claro que havia uma cadeia industrial instalada e a respeitar: as gravações, as composições encomendadas, as capas de disco, as polêmicas forjadas, tudo que os últimos 60 anos souberam estabelecer e reproduzir tão bem.

Essa cadeia é que evoluiu com o tempo. Primeiro, foram os profissionais que tentaram se adaptar a ela, para melhor explorar seus potenciais: é o caso de Jimmy Page, que foi músico de estúdio antes de ser ídolo nos Yardbirds e, claro, no Led Zeppelin. Ele conhecia em profundidade o funcionamento da indústria do disco e foi o primeiro a calcular com precisão a dinâmica das faixas. A lendária banda que ele formou com John Paul Jones, John Bonham e Robert Plant nada mais era, no princípio, do que a aplicação desse conhecimento de Page. Por que não chamar a essa fase da indústria cultural “fabril”?

Pois enquanto o Led estava no auge, surgia na Motown – aquela grande fábrica de sucessos e ídolos – a banda dos irmãos Jackson, em mais uma fase da indústria cultural. Em vez de simplesmente reproduzir na cadeia produtiva da cultura (no caso, da música) uma série de técnicas de sucesso comprovado, como na era fabril, passou-se a inserir técnicas novas de sedução do público, desenvolvidas em laboratório, a partir de testes e estatísticas. Assim, o retorno dos investimentos seria mais garantido: o produto cultural que resultasse do processo de fabricação seria impecável, irresistível, um triunfo assegurado. Pura tecnologia industrial.

Madonna e Michael Jackson são, como eu já disse, os exemplos mais fecundos de produtos dessa fase “industrial” da indústria cultural. Mas, enquanto Madonna soube ser ao mesmo tempo investimento e investidor, Michael confundiu os dois lados e não foi capaz de aproveitar os rendimentos de sua própria produção. Com isso, ele enfraqueceu sua posição no mercado e não é à toa que, na última década de sua vida, tenha rolado constantemente ladeira abaixo, sempre a tentar recuperar seu valor em bolsa.

Como tudo no mundo, a indústria cultural continua a evoluir. Todos sabemos como as gravadoras estão sofrendo com as mudanças nos gostos e nos hábitos do público. Hoje, quem quer se fazer conhecer posta, por exemplo, vídeos no Youtube e músicas no Facebook. Um exemplo límpido é o sujeito que compôs músicas como Hey, Paul Krugman , e foi citado pela net inteira.

A princípio, para muita gente, essa nova fase parece uma volta ao período extrativista. Mas isso é enganador. Há tantos métodos e fórmulas nas redes sociais quanto em qualquer outra configuração da produção cultural. Resta aos produtores a tarefa de descobri-las e lucrar com elas. Não tenho dúvidas de que a era das redes sociais produzirá seus Elvis Presley, John Bonham e Michael Jackson, cujas histórias gloriosas e trágicas serão contadas pelos jornalistas de amanhã. Seja lá como forem esses jornalistas…

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Litania para o capital

Fuçando nos arquivos mais recônditos deste HD, acabei encontrando a brincadeira que segue abaixo. Foi escrita quando eu estava na faculdade (e, aliás, este HD nem fabricado era), para provocar meus colegas corretores da Bovespa, que andavam um tanto nervosos, conseqüência de alguma dessas crises por aí.

Lembro-me particularmente de um desses meus amigos, a quem perguntei, por pura gaiatice, já sabendo a verdade, se a corda estava apertando demais o pescoço da empresa em que ele trabalhava. (A tal empresa foi absorvida por outra bem maior, poucos dias depois.)

Pois bem, a resposta do rapaz foi adorável: “Agora, só resta rezar.”

Passei o dia imaginando como rezariam os colegas do rapaz, logo antes da abertura dos negócios, à espera do retinir do sininho. Seria como uma grande celebração, engravatados de joelhos, mãos unidas, ar de introspecção. Aos poucos, vai se erguendo uma voz coletiva, um grande uníssono, para este que, em nosso século, tomou o lugar que já foi de Deus e outros deuses.

Enfim, segue abaixo um esboço do que clamariam os infelizes. Já vou avisando a Duncan Niederauer que cobrarei os direitos autorais se ele quiser adotar a nova oração nas cerimônias da NYSE.

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Litania para o capital

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Ó Vós, que permitis, divinamente,
A implosão de todo patrimônio!

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  • Concedei-nos cobrir as perdas.

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Ó Vós, que sois pai de todas as Bolsas,
idolatria de derivativos!

.

  • Concedei-nos cobrir as perdas.

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Ó Vós, que distribuís as sementes
da fortuna e da fome, cegamente!

.

  • Concedei-nos cobrir as perdas.

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Ó Vós que podeis prever o porvir
daqueles que abdicam de consumir!

.

  • Concedei-nos cobrir as perdas.

.

Vós que negais os frutos do trabalho,
escutai as preces do investidor:

.

  • Concedei-nos cobrir as perdas!
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Nada me tira do sério como um filme picareta

Fogueira Para Um Mau Filme
Minha maior dificuldade na hora de falar de filmes que vi, livros que li, músicas que escutei e por aí vai é que não consigo ser elegante quando me sinto agredido pelo autor. Friso que isso é diferente de não gostar: posso sair de uma sessão com a impressão de que aquele filme não era para mim; posso, ao terminar um livro, considerar o autor fraco e o enredo desinteressante; posso não ser atraído por um ritmo ou uma melodia. Em todos esses casos, até que tudo bem. Não gostei e ponto; que outros gostem, não faz mal, e viva a democracia.

Coisa muito diversa é quando fica patente, ao subirem os letreiros (no caso do cinema), que alguém ali quis me fazer de otário. Pode ser o diretor, o roteirista, o protagonista, pouco importa. Aceito com o coração aberto uma produção pobre, até mesmo, em alguns casos, descuidada. Pontos de vista estéticos, mesmo filosóficos, muito diferentes dos meus, idem. Picaretagem e cretinice, jamais.

Mas nem sempre a gente vai ao cinema sozinho. Podemos ir, vamos supor, com a namorada e um grupo de amigos. Podemos ser todos confrontados, juntos, com um filme que não tem o menor respeito por nossa inteligência, paciência, tempo, dinheiro, enumere o que quiser. Podemos todos sair revoltados da sala, querendo o sangue de quem cometeu o crime e de quem o financiou (grande chance de terem sido nossos impostos). Mas, como estamos do outro lado do oceano, não podemos fazer nada. Sob efeito da irritação, a namorada e os amigos só podem se voltar para você e inquirir:

– E então, blogueiro? Vai escrever o quê sobre essa maravilha?

Você explica aquilo que eu já disse: não consigo ser elegante ao desancar um filme. Tampouco estou disposto a abrir mão da elegância. Melhor calar, principalmente porque o filme em questão merece todos os adjetivos impublicáveis que eu poderia elencar. A namorada e os amigos fazem cara feia. Insistem, você se nega. Finalmente, cede um pouco, promete pensar, mas só na esperança de que eles esqueçam o assunto.

Pobre esperança! No dia seguinte, os amigos voltam à carga. Pensou? Escreveu? Você fica encabulado ao admitir que não. As massas, que é o que você gostaria que fossem sua namorada e seus dois ou três amigos, o conclamam a deixar de tolices e descer a lenha no tal do filme. Você, que é inflexível como chiclete, acaba cedendo.

Muito bem, chega de nariz de cera: depois de ver A Via Láctea, juro pelo asfalto da Paulista que nunca mais assistirei a um filme de Marco Ricca. Não vou chegar a desejar, como esbravejou uma desconhecida na poltrona à minha frente, que ele queime lenta e dolorosamente nas chamas do inferno. Verdade que algo parecido chegou a passar pela minha cabeça, mas é demais. Ou sou eu que sou condescendente demais. Por outro lado, bem que os negativos desse filme podiam queimar, e nem precisa ser no inferno. Basta que eu não corra o risco de, um dia, sem querer, topar com um trecho na televisão.

Não sei o que me levou a trocar um dia de sol no cais do Sena por um filme do Marco Ricca. Por acaso eu não sabia que ele é uma espécie de anti-Midas cinematográfico? Aliás, teatral também. Tudo em que mete a mão vira lixo, para não usar um termo deselegante demais. O problema é que, de uns tempos para cá, a figura resolveu se meter a fazer filmes intelichentes. Por quê, meu Deus?

Assim como no último, Crime delicado, o próprio Ricca interpreta um cara intelichente e atormenta-a-a-ado, pobrezinho. Mas é praticamente a mesma pessoa, para não dizer que é o próprio Ricca. No outro, era um crítico teatral; neste, é um escritor frustrante, isto é, frustrado. Tudo bem, a produtora é dele, o dinheiro veio sei lá de onde, mas está na mão dele e ele faz o que quiser. Pode até meter uma câmera em close em cima de si mesmo durante uma hora e meia e obrigar o público a ouvir seus poemas mal recitados enquanto perdigotos se espalham pela tela. Excelente programa, e peço perdão pela imagem um tanto repulsiva.

Desculpe estragar a surpresa do final, mas, bom… não é surpresa nenhuma, então não tem problema. A história foi a seguinte: um belo dia, alguém deve ter montado Vestido de Noiva (Nelson Rodrigues) em São Paulo, e convidado Marco Ricca para a estréia. Grande erro. Ele gostou da idéia de alguém que é atropelado e delira entre a vida e a morte. Só esqueceram de avisar a Marco Ricca que Vestido de Noiva é uma obra-prima porque Nelson Rodrigues é um gênio. E não basta enfiar no filme umas cenas metidas a poéticas, uns diálogos metidos a intelichentes, uns flash-backs e outros truques banais para tornar um filme genial e seu produtor, um gênio.

É preciso um algo a mais. E, com todo respeito à Alice Braga, que esteve bem em outros filmes, e ao sobrinho da Daniela Thomas, cujo nome me escapa, maus atores não são esse algo a mais. Trilha sonora banal e, ao mesmo tempo, metida a besta, muito menos. Uma súbita, desnecessária e muito mal executada reconstituição de época, então, nem merece comentários.

Talvez Marco Ricca tenha buscado a polêmica. Talvez para alavancar seu nome, o que explicaria que apareçam, logo ao final da última cena (talvez para não dar tempo ao púbico de escapar), estourando o tamanho da tela, as dez letras que o constituem. Como se dissessem: eis o culpado! Ecce homo, para ser tão pedante, ou melhor, intelichente quanto o filme. Mas esse desígnio também deu com os burros n’água: não há polêmica alguma, pelo menos na sessão em que estive, com uma sofredora centena de pessoas, o veredito foi unânime. Quem não se levantou a meio filme fugiu imediatamente ao final. Exceção feita, é óbvio, para os que dormiam.

Nenhum amigo lhe avisou, ao ver o copião, que o filme é vergonhoso? Que sua tentativa de se mostrar intelichente redundaria em um papelão histórico? Será que ele mesmo não percebeu? Agora estamos nós, pobres cinéfilos, obrigados a engolir um tijolo. Vendido para o mundo inteiro. Imagino o dono de uma sala de exibição estrangeira que presencie um desastre tamanho. Vai certamente pensar: “nunca mais penso em comprar um filme brasileiro…” É que o estrangeiro não sabe discernir nossas produções umas das outras. Ele não pode, como é meu caso, deixar de ver só os filmes do Marco Ricca. Vai acabar largando tudo. Uma pena.

Deixe ver se tenho mais alguma coisa a comentar sobre esses rolos de filme jogados fora… Ah, sim: antes de escrever uma cena que se passa na Livraria Francesa do centro de São Paulo, não custa dar uma passada lá. Eu sei que o centro é de difícil acesso, é feio, é sujo, é perigoso, é tudo isso e muito mais. Mas pelo menos não veríamos pessoas procurando (e o pior, encontrando) Drummond, Bandeira e João Cabral no original, numa loja que só vende Prévert, Desnos e Mallarmé. Outra solução, se a idéia era filmar lá dentro, seria simplesmente não dar um close no painel da loja. Pode parecer intelichente ter no filme um diálogo na Livraria Francesa. Mas, puxa, com uma gafe dessas, acaba ficando estúpido.

Chega de ser deselegante. Talvez eu devesse fazer um artigo inteiro para as boas novas, mas ora, tarde demais. Vai só um parágrafo, e bem rápido. Hoje, dia 12, este blog completa dois anos de existência. Nesse meio-tempo, ele mudou de cara algumas vezes, até que, por fim, mudou de casa. E cresceu. Pouca coisa, mas saiu do zero! Longa vida ao Para Ler Sem Olhar! Hip-hip, hurra!

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Se um estoura, estouram todos (ou O Sapo de La Fontaine)

Sapo gordo prestes a estourar (La Fontaine)
É feio dizer “eu avisei” ou “eu já sabia”; mas acontece que, bem, eu avisei. E eu já sabia. Com as ferramentas rudimentares do raciocínio econômico que tinha aprendido a manusear ao final de uma formação quase involuntária, consegui provar por A+B que, não importa em que direção aponte o gráfico de crescimento do PIB brasileiro, a cidade de São Paulo caminhava com destino certo para o colapso definitivo. Isso, perdoe reiterar, é o que eu dizia há coisa de cinco anos. Mas só hoje, ao tentar discutir soluções para o problema do trânsito, a sociedade e seus governantes percebem o óbvio.

Bem que tento conter o impulso de me vangloriar. Mas lembro dos fins-de-tarde nos botecos da Augusta, contemplando a guerra entre carros, motos e ônibus, tomando cerveja gelada enquanto os afoitos profissionais derretiam na tentativa de voltar a casa; lembro dos amigos a rir, já altos, da exposição detalhada de minha teoria. Lembro que eles consideravam impossível duas tendências opostas darem o mesmo resultado. Enfim, só quero lembrar a eles que estava tudo previsto.

Aqueles meus cálculos contemplavam duas possibilidades, ou seja, um Brasil em franco crescimento econômico, digamos, quase um novo milagre; ou um Brasil estagnado, irremediavelmente estagnado, pior ainda do que foi nos anos 80 e 90. Em ambos os casos, a própria concentração pantagruélica de riqueza na terra que um dia teve garoa se encarregaria de sufocá-la. Vejamos, em primeiro lugar, o que aconteceria se o país não conseguisse retomar o crescimento:

À primeira vista, a idéia não parece má para a vida paulistana. Sem crescimento econômico, vendem-se menos carros, constroem-se menos arranha-céus, menos pessoas se espremem nas plataformas do metrô, menos aviões chegam e partem de Congonhas. Olhando assim, não parece terrível, para a cidade de São Paulo, que o país siga estagnado. Acontece que, como de hábito, a coisa não é tão simples. Mesmo estagnado, o país produz novas pessoas; é gente que precisa encontrar trabalho e, como já se viu durante décadas em nosso país, vai atrás dele onde ele está. Conseqüência: o fluxo de gente em desespero, fugindo da miséria, que chegaria em São Paulo em busca de emprego não deixaria de aumentar. A cidade ficaria ainda mais apinhada, mais favelizada, mais desigual e, bem provavelmente, mais violenta. Em duas palavras, ela sufocaria.

E se o país enriquecesse, (sem redistribuir a economia pelo território)? Nesse caso, o crescimento dos investimentos, o aumento da renda, a queda do desemprego, a pressão por novos empreendimentos – em resumo, tudo que acompanha o crescimento econômico vigoroso – tornaria a cidade intransitável em dois segundos. E irrespirável, naturalmente. O horizonte sumiria de vez, as aeronaves se chocariam, tentando pousar no meio da cidade, o barulho de helicópteros ficaria insuportável; no metrô, um grito de “fogo”, “rato” ou “tarado” causaria uma onda de choque que atiraria os cidadãos mais próximos da linha sobre os trilhos eletrificados (já é assim). O caos, que estava evidente para qualquer um com o mínimo senso de civilização, ficaria patente.

Na última semana, li diversos comentários sobre os recordes de engarrafamento em São Paulo. 180 quilômetros, 190, 200, 220. O metrô teria sido uma solução, mas é tarde, não dá tempo. Tampouco bastaria a proposta de pedágio urbano: por falta de opções, os carros pagariam, mas continuariam circulando quase tanto quanto hoje. Há mais de dez anos, li que o prejuízo com o trânsito, só em São Paulo, passava da casa do bilhão e meio de dólares por ano. Hoje, deve ser o triplo disso. Já era uma cidade em que eu não conseguia trabalhar direito, porque já chegava “no serviço” (como se diz) esgotado. Hoje, tremo de lembrar.

A única solução para São Paulo e, de maneira geral, para o Brasil e suas metrópoles, é repensar nossa lógica econômica. Precisamos tomar consciência de nossa dificuldade em romper com a tradição do Convênio de Taubaté. Eis o ponto-chave nefasto de nossa história, que escancarou, em papel passado, nossa escolha pelo latifúndio. Passamos dos cafeicultores aos industriais, depois aos bancos, mas ainda somos os mesmos. Queremos concentrar a lavoura (em sentido metafórico), queremos crescer com a energia que sugamos dos vizinhos, e ainda acreditamos demais em superlativos: de que vale termos o maior estádio, a segunda maior frota de automóveis e terceira de helicópteros, a maior sala de concertos, as maiores cidades? Do outro lado, o país ainda produz miséria, ignorância e barbárie em profusão. Voltando à realidade de São Paulo, temos uma Berrini que vai se verticalizando, enquanto, ao nível do solo, a vida é, há tempos, insuportável. Má escolha.

Sem desconcentrar a economia, integrar o país e desenvolver as regiões, ou seja, o território como um todo, o país e sua maior cidade estão condenados. É o anátema da cobiça. Mas isso é apenas o evidente. São Paulo, primeiro, cresceu como centro industrial e era um modelo para o resto do país; locomotiva, dizia-se. No meio do caminho, o maquinista parece ter exagerado no carvão; achacado pelo espírito do Convênio de Taubaté, depenou das tábuas os demais vagões, para continuar acelerando. A cidade se pôs a concentrar o setor financeiro, o cultural, o varejista, o esportivo, o editorial, o aéreo…

Faz lembrar o sapo da fábula de La Fontaine, que queria ficar do tamanho de um boi. Foi se enchendo de ar, cresceu, cresceu, até que estourou. No caso de Sampa, o maior problema é que tem um país em volta. Se um sapo estoura, estouram todos. Parece que a barriga do bicho já apresenta algumas rachaduras preocupantes. E as perspectivas de crescimento para o PIB brasileiro em 2008 vão além dos 5% de 2007. Não tem metrô, pedágio ou rodízio que sirva de esparadrapo para um sapo tão inchado.

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O que dizem as rosas


É engraçado. Ainda ontem, entreguei uma crônica para ser publicada no próximo fim-de-semana, e já agora percebo o quanto está permeada de mentiras. Mentiras, bom, talvez seja um termo brusco demais. Mas são certamente inverdades. No texto, desenvolvo as impressões que me causou a visão de uma mulher que cheirava uma rosa com o semblante pétreo de quem encarou Medusa. Isso aconteceu, sim; e é verdade que o fato desencadeou em mim uma corredeira de pensamentos. Todo o resto que escrevi não passa de suposições.

Ora, supor é diferente de inventar, no sentido de criar eventos, ficções, quiçá mentiras. A suposição é uma atitude legítima, provavelmente o atributo fundamental da mente humana, princípio de todos os demais. Só que implica certos riscos. Pode acontecer de alguém se perder nas próprias conjecturas, quando se entrega sem ressalvas às libertinagens do espírito. Resultado: acaba tomando por verdadeiras coisas que não o são. Meras hipóteses, sintetizadas por uma imaginação sem vergonha. Acho que foi o que houve comigo.

Não vi quando ela se agachou para recolher a rosa. Apenas supus que ninguém compraria uma flor tão pequena, amassada, indigna. Ela foi certamente resgatada do olvido da calçada. Tampouco virei o rosto para acompanhar o gesto final de desprezo da mulher, atirando a planta de volta a seu chão. Sei, de alguma maneira inexplicável, que ela o fez. Mas não vi. É inconcebível, ao menos para mim, que alguém mantenha a expressão tão rija ao sorver o perfume de uma flor, sem depois atirá-la à distância.

Finalmente, no momento em que a cena se desenrolava, não pensei, como escrevi na crônica, no milagre da técnica humana que traz flores – e, aliás, frutas – à Europa em pleno inverno. O raciocínio existiu, por certo, senão jamais poderia ter sido redigido. Mas foi posterior, fruto já do conforto do aquecimento, com um copo entre os dedos. Na hora, a autêntica, o que me veio à mente foi coisa muito diversa.

No instante em que o nariz da mulher roçou a ponta das pétalas, lembrei-me foi de Cartola. Da mais célebre de suas estrofes, dentre tantos versos fabulosos:

Queixo-me às rosas / Mas, que bobagem, as rosas não falam, / Simplesmente, as rosas exalam / o perfume que roubam de ti, ai!

Antes que interpretem a lembrança como um elogio à amazona, garanto que não foi dela que a flor roubou seu perfume. Que fragrância pode emanar da mulher que acantoa uma flor enquanto a cheira? Aquela, do alto de seu salto agulha, exalava no máximo a boa meia hora que passou no metrô abarrotado.

Lembrei de Cartola porque sempre me lembro dele. Não sei por que isso acontece. O pai da Mangueira ronda minhas especulações como um fantasma. Visitando o Brasil, constatei o banzo de que sofro ao tentar acompanhar a letra de Cordas de Aço e não conseguir porque, no meio do caminho, tinha a voz embargada. Por quê? E por que, de tanta boa música no Brasil que saltita em torno de rosas e flores, como uma ciranda temática, fui lembrar que as rosas não falam, simplesmente exalam o perfume que roubam de ti?

A mulher fria cheirou a rosa sem cheirá-la, sem tentar queixar-se a ela, nem entender de onde vinha o perfume. Mas, curiosamente, foi graças a ela que entendi em que palavra se concentra a força arrasadora dessa estrofe. Pois afirmo, sem recurso: está no advérbio. Ao cravar um singelo “simplesmente” no meio de seu poema (sim, asseguro que é um poema), o eterno Angenor de Oliveira fez de um samba, monumento. Uma mera palavra concentra as instruções para cantar – e tocar, claro – a música inteira. Pena que a maioria dos intérpretes não o perceba.

O próprio Cartola gravou sua música com um tom tão prosaico, que derrubaria mesmo a francesa que não sabe cheirar flores. Ele canta As Rosas Não Falam no tom exato em que qualquer mulher acredita no que ele diz. A menor variação transformaria o discurso em cantada barata: “as rosas exalam o perfume que roubam de ti, boneca”. Se, no lugar do “simplesmente”, o autor cometesse algo como “inversamente”, “ao contrário” ou “em vez disso”, a composição inteira estaria morta. Mas aí não seria o gênio, não seria Cartola.

Eis a verdade sobre o que pensei, de pé na calçada, tomando chuva, depois que perdi de vista a infeliz desalmada. A lembrança se reavivou de repente, enquanto eu pensava outras coisas, como queria Henri Bergson. O resto são elucubrações. Incrível como é preciso aceitar um pouco de mentira para produzir textos, evocar sentimentos, transmitir verdades.

Pois sim, a verdade vem sempre entremeada de incorreções e autênticas mentiras. O mesmo vale para a memória. A pureza, queremos crer que está em algum canto, elegemos-lhe um santo, construímos um altar para adorá-la. Admito que é ingenuidade minha, resolver assim depositar na autoridade da música de Cartola toda minha ilusão de pureza. Enfim, é o que é.

Mas vou limpar a mente / Sei que errei, errei inocente.

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