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O relato e a realidade

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Duas semanas atrás, quando escrevi sobre a Primeira Guerra, pelo menos três pessoas mencionaram o mesmo livro: Nada de Novo no Front, de Erich Maria Remarque. Um dos poucos volumes que eu trouxe quando vim para a França, mas que aguardava com a maior paciência na estante, ainda sufocado no plástico, com etiqueta, preço e tudo. Jamais esperneou, talvez antevendo que o projeto de recuperar meu pobre alemão não iria muito longe, e a tradução brasileira não seria preterida em definitivo pelo original. De fato, sua espera foi recompensada: depois das vivas recomendações na caixa de comentários, o livro está sendo devorado, enquanto a versão alemã segue descansando numa livraria qualquer.

Pois bem, devo dizer que esta pequena obra, considerado o maior romance pacifista do último século, está arruinando minha vida. Como explicar? Poderia ser o estilo, mas… Acontece que o ex-soldado Remarque relata sua vida nas trincheiras de uma forma tal, que dignifica o próprio conceito de relato, enquanto cobre de vergonha a idéia de estilo, por assim se dizer.

Ora, o estilo é próprio das narrativas, encaixe habilidoso de passagens e sentenças, com o fito de produzir uma obra literária. O relato, por outro lado, prescinde do estilo, na medida em que não narra, mas conta, nem quer produzir obra alguma, mas gravar na atenção do ouvinte – desculpe, do leitor – uma reprodução tão perfeita quanto possível dos fatos que ficaram gravados na carne de quem relata. É isso, no fundo, o fato. Pelo meno saquele que pode ser transmitido por um relato: uma impressão forte, indelével, gravada na carne, muito mais do que na memória.

Pois é o que me dá quando estou lendo esse livro. Os fatos relatados por Remarque ficam gravados na minha atenção como se marcados a faca, e é na carne que os sinto. Eu poderia dizer que é culpa do realismo… mas que tolice a minha! Realismo é um estilo e o relato passa ao largo dessas coisas. Remarque falando da guerra que viveu é mil vezes mais marcante que qualquer realismo, mesmo o hiperbólico de um Zola, por exemplo. E isso não é demérito algum para o mestre francês. O gênio que lhe cabe é o da narração; nesse campo, seu lugar no Panthéon está garantido.

Narrados, os fatos que Remarque despeja no papel desapareceriam, soterrados pelo estilo. Seria uma obra e, como toda obra, poderia ser amada, criticada, resenhada e assim por diante. Não é o caso. Nada de Novo no Front não se presta a resenhas e questões de Vestibular. Na realidade, só pode ser ouvido – desculpe, lido. Só é romance na medida em que o narrador [sic] se chama Paul (Bäumer) e o autor se chama Erich Maria. No mais, é o puro perpetuar daquilo que não deveria ter sido esquecido, mas foi: que as manobras e treinamentos militares, as querelas da geopolítica, as glórias nacionais, aniquilarão o humano com a facilidade de um primeiro disparo.

Justamente por ser tão simples, quase frio, o relato de Remarque tem colocado em risco meu respeito por nosso gênero e meu interesse por todas essas questões fuleiras que discutimos todo dia, nos jornais, nas universidades, nos escritórios, hélas!, na internet. Foi por isso que eu disse que ele estava arruinando minha vida. Desculpe soar como Adorno, mas como posso estudar, trabalhar, escrever; como posso me preocupar com as obras críticas de Baudelaire e coisas do gênero, depois de um trecho como os que seguem? Peço que você os leia, mesmo que não tenha estômago para “esse tipo de coisa”:

À minha frente, abriu-se uma cratera; vejo-a confusamente. É raro cair mais de uma granada no mesmo buraco, e, por isso, procuro entrar nele. De um salto, atiro-me para dentro, achatado como um peixe fora d’água. Novamente, um sibilar faz-se ouvir; encolho-me depressa; procuro abrigar-me. Sinto alguma coisa à minha esquerda, aperto-me contra ela, a coisa cede. Gemo, a terra desfaz-se, apressão do ar troveja nos meus ouvidos, arrasto-me por baixo da massa que cede, puxo-a por cima de mim, é madeira e pano, um abrigo, um miserável abrigo contra os estilhaços que caem à minha volta.

Abro os olhos. Meus dedos seguram uma manga, um braço. Um ferido? Grito-lhe, nenhuma resposta… é um morto. Minha mão esquadrinha mais longe e encontra lascas de madeira. Lembro-me então de que estamos no cemitério.

Mas o fogo é mais forte do que tudo. Destrói a consciência; arrasto-me mais profundamente sob o caixão, ele deve proteger-me mesmo que a própria Morte esteja deitada nele.

À minha frente, abre-se uma cratera. Abarco-a com os olhos como se fosse com as mãos, preciso entrar nela de um só salto. Sinto algo no rosto, uma mão que agarra meu ombro… será que o morto ressuscitou? A mão me sacode, viro a cabeça e, na luz tênue, reconheço Katczinsky: tem a boca aberta e berra. Não escuto nada, ele me sacode, aproxima-se e, num momento de menos barulho, sua voz me alcança:

– Gás… Gáas… Gáaas! Avise aos outros!…

(…)

Com um estrondo, qualquer coisa escura cai a pouca distância de nós; é um caixão que fora atirado para o alto.

Vejo Kat mover-se na direção do objeto e rastejo até lá. O caixão caiu em cima do braço estendido do quarto homem da nossa cratera. Com a outra mão, tenta arrancar a máscara contra gás. Kropp agarra-o nesse momento, torce seu braço firmemente e o mantém assim.

Kat e eu começamos a tentar liberar o braço ferido. A tampa do caixão está solta e quebrada; é fácil arrancá-la; o morto, nós o retiramos: ele cai no chão como um saco. Depois, soltamos a parte inferior do caixão.

(…)

O bombardeio acabou. Volto na direção da cratera e faço sinal para os outros, que saem arrancando, também, as máscaras. Pegamos o ferido; um de nós segura o braço entalado. E, assim, afastamo-nos depressa aos tropeções.

O cemitério é um campo de ruínas. Caixões e cadáveres estão espalhados por toda parte. É como se tivessem sido mortos novamente, mas cada um dos que foram feitos em pedaços salvou a vida de um de nós.

Reconhecemos os rostos contraídos, os capacetes lisos: são franceses. Quando alcançam os restos das redes de arame farpado, já tiveram sensíveis perdas. Uma fileira completa foi abatida por nossas metralhadoras; depois, temos várias dificuldades com os tiros, e eles conseguem aproximar-se.

Vejo um que cai de pé num cavalo de frisa, o rosto voltado para cima. O corpo abate-se sobre si mesmo, como um saco, as mãos ficam juntas, como se quisesse rezar. Então, o tronco destaca-se inteiramente; apenas as mãos, decepadas pelos tiros da metralhadora, ficam penduradas, com uns farrapos de braços, no arame farpado.

(…)
Tornamo-nos animais selvagens. Não combatemos, defendemo-nos da destruição. Sabemos que não lançamos as granadas contra homens, mas contra a Morte, que nos persegue, com as mãos e capacetes. Pela primeira vez em três dias, conseguimos vê-la cara a cara; pela primeira vez em três dias, podemos nos defender contra ela. Uma raiva louca nos anima, não esperamos mais indefesos, impotentes, no cadafalso, mas podemos destruir e matar, para nos salvarmos… e para nos vingarmos. Escondemo-nos, abaixados atrás de cada canto, por trás de cada defesa de arame farpado, e, antes de corrermos, atiramos montes de granadas aos pés dos inimigos que avançam. O estampido das granadas de mão repercute poderosamente nos nossos braços e pernas. Corremos agachados como gatos, submersos por esta onda que nos arrasta, que nos torna cruéis, bandidos, assassinos, até demônios; esta onda que aumenta nossa força pelo medo, pela fúria e pela avidez de vida, que procura lutar apenas pela nossa salvação. Se seu próprio pai viesse com os do outro lado, você não hesitaria em atirar-lhe uma granada em pleno peito.

Quem há de dizer que esses trechos são escatológicos, se eles traduzem uma realidade pura, inquestionável? Quem há de argumentar que são apelativos, se o apelo que esses homens fariam seria, antes de qualquer coisa, para voltar ao convívio de suas famílias?

Esse relato atira por terra um dos ditos mais questionáveis que existem, aquele segundo o qual uma imagem vale por mil palavras. Pois sim… Afirmo que uma imagem é ela mesma e nada mais. Um punhado de palavras, curto que seja, ao contrário, multiplica ao infinito a possibilidade imagética do receptor. E tanto, que qualquer tentativa de reduzi-las a uma só imagem é obrigada, a fortiori, a mutilar profundamente o sentido e o poder da comunicação. A imagem é frustrante, auto-referente e muito pobre, se comparada à palavra – e olha que sou apaixonado por cinema.

Por sinal, a sétima arte e seus derivados, na tentativa desesperada de envolver e enredar seu espectador, tem se tornado cada vez mais explícita, mais frenética, mais barulhenta, mais ofuscante. Mas, mesmo se desorienta o senso de realidade do público, não adianta. O fato é que as imagens sangrentas, de gosto duvidoso, do cinema de hoje podem me causar desconforto, até medo, e me dar vontade de desviar os olhos ou mudar de canal.

Bah… Lendo o relato de Remarque, minha única preocupação é sair logo dessa maldita batalha, dessa trincheira infecta, dessa loucura interminável que não conhece artifício. Nada de Novo no Front é um dos únicos livros que jamais me fizeram estremecer, quero dizer, literalmente, fisicamente, como se as balas zunissem em volta dos meus ouvidos e eu fosse um garoto desamparado com um rifle na mão. Coisa assim nunca me aconteceu com filme algum.

Paro por aqui, embora muito ainda pudesse ser dito. Por exemplo, sobre como o livro deveria ser obrigatório nas escolas, tão obrigatório que as questões perguntassem por detalhes insignificantes, para garantir que cada um dos estudantes o leu e releu de cabo a rabo. Ou então, sobre como ele me ajudou a entender um pouco melhor por que os Partidos Comunistas foram tão fortes na Europa do pós-guerra – e, tudo bem, vai aí mais um trecho que não deixa dúvidas quanto ao que quero dizer:

Quando volto do quartel, uma voz forte me chama. Ainda perdido nos meus pensamentos, viro-me e me vejo diante de um major. Dirige-se a mim com rispidez:

– Não sabe bater continência?

– Queira desculpar, major – digo, confuso. – Não o tinha visto.

Grita mais alto ainda:

– Também não sabe falar como deve?

Gostaria de dar-lhe uma bofetada, mas controlo-me, pois, do contrário, lá se vai minha licença; eu me aprumo, na posição de sentido, bato os calcanhares, e digo:

– Não o vi, meu major.

– Então, faça o favor de prestar mais atenção – vocifera. – Como se chama?

Dou o meu nome.

Seu rosto vermelho, gordo, ainda mostra indignação.

– Qual é o regimento?

Respondo de acordo com o regulamento. Ainda não é o suficiente para ele.

– Onde se encontra a sua Companhia?

Mas, agora, não agüento mais e digo:

Entre Langemark e Bikschote.

– O quê? – pergunta perplexo.

Explico-lhe que cheguei há uma hora, de licença, e suponho que então ele vá me deixar em paz.

Mas eu me engano. Fica ainda mais furioso:

– Certamente acha que pode trazer para cá os maus costumes do front, não é? Pois está redondamente enganado. Graças a Deus, aqui domina a ordem! Vinte passos à retaguarda, marche – comanda.

Dentro de mim, ferve uma raiva surda.

Mas nada posso fazer, mandar-me-ia prender imediatamente, se quisesse. Então, recuo, avanço, e, seis metros à sua frente, contraio-me numa continência garbosa, que só relaxo quando me encontro a seis metros de distância.

Ele me chama novamente e, com benevolência, me explica que mais uma vez está colocando a piedade acima do regulamento. Mostro-me devidamente agradecido.

– Pode retirar-se – comanda.

Dou meia-volta e vou embora.

Foi o suficiente para estragar-me a noite. Apresso-me a ir para casa e jogo a farda a um canto; aliás, era o que já deveria ter feito.

Mas fica um último comentário sobre o título. No original, é Im Westen nichts neues, ou seja, Nada de Novo no Front Ocidental.Essas famosas trincheiras da Primeira Guerra ficavam justamente na França, “conhecida” pelo Estado-Maior prussiano como “frente ocidental”. Imagino que o tradutor brasileiro tenha riscado de nossa versão a menção a de qual frente se está falando porque não se pressupõe que o leitor brasileiro saiba que a Alemanha lutou a guerra em duas frentes, a Rússia contando como frente oriental. A propósito, como será o nome do livro em Portugal, onde os leitores têm, provavelmente, um conhecimento maior da situação alemã nessa guerra?

PS: Minha edição é da L&PM Pocket, Porto Alegre, 2004. Tradução de Helen Rumjaneck.

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abril

A grande transformação*

Gente Sentada No Parque
Novamente sobre o Primeiro de Abril, quando saí de casa em busca de uma mentira e não encontrei. Como já expliquei no último texto, aliás. Por outro lado, e para meu grande espanto, o que encontrei foi uma nova cidade. Absorto na minha busca infrutífera, ganhei a rua, mas antes mesmo de atingir a esquina, já me sentia deslocado. Esta não é a mesma Paris de ontem, isto é, 30 de março; estes não são os mesmos parisienses. Terei atravessado um portal místico ao empurrar as cinco toneladas da porta do edifício? Terei sido transportado para outra realidade, outro país? Meu humor anda assim tão bom, que vejo tudo de outra forma?

Rumo ao pequeno parque escondido nos fundos do bairro, percorro as ruas do quotidiano como se explorasse as veredas de Atlântida. Mesmo os mendigos, encalacrados pelos últimos meses nas soleiras e nas escadarias do metrô, têm o ar de quem toma sol. Sentados em banquinhos de três pés, pedem seus trocados com gentileza, numa subversão tão perturbadora do desespero do inverno, que chega a parecer artifício. Um motorista com vocação para Nakajima quase atropela um motociclista, mas nem por isso um xinga o outro. Ao contrário, produz-se ali a Segunda Revolução Francesa: um pede desculpas ao outro e segue sua vida.

Quanto às moças, as célebres patricinhas francesas, elas trocaram seus cachecóis felpudos e brilhantes por coques estilizados. Chego a perder um minuto observando uma dessas estruturas de melenas: parece projetado por Calder, tamanha a delicadeza do equilíbrio, sob a ameaça da primeira brisa. É abril. Adeus botas de saltos mais altos que os canos, olá saias curtas e sandálias.

Descrito assim, pode parecer caso de dia ensolarado, mais quente do que os anteriores, irreversível final do inverno. Ledo engano. Primeiro de abril não foi mais quente do que 30 de março. Talvez a média tenha ficado até um ou dois graus mais baixa. Sol, houve. Menos do que no dia anterior, mais do que no seguinte. O horário de verão já vige desde o dia 21. Oficialmente, já temos quase duas semanas de primavera. Lanço a pergunta: que raios, afinal, mudou tanto de segunda para terça-feira?

Resposta singela, mas verdadeira: o mês. Nada mais. Não há ato psicológico mais forte que arrancar uma página de calendário. Abril é quando se fica mais alegre e se vestem roupas mais leves, certo? Pois bem: alcançamos abril, então é hora de inverter o guarda-roupa. Se eu disser que o francês deixa a condução de sua vida, em muito vasta medida, a cargo de datas, horas e outras funções matemáticas, vai certamente parecer exagero. Mas afirmo que, se for, é por muito pouco. A metamorfose está aí que não me deixa mentir. A mudança do vestuário não aconteceu gradualmente, tampouco a do humor. Foi, literalmente, de um dia para o outro.

É a regra. O mesmo acontece, por exemplo, no início do inverno. Os imóveis que têm aquecimento central automático o ativam, todos, quase sem exceção, em 15 de outubro. Eis o dia em que se começa a sentir frio. E, de fato, é o dia em que os casacos aparecem. Pouco importa que esteja muito mais quente que no dia 14. O dia 14 não é o dia em que se começa a sentir frio. É o dia 15, esse sim. Eis o dia, repito. Ponto final.

Cheguei a desenvolver uma teoria sobre o Primeiro de Abril. Assim como é a data em que as roupas se tornam leves (sob o risco de tiritar, não nos esqueçamos), é também o momento de começar a demonstrar alguma alegria, de vez em quando. Os sorrisos guardados no fundo do armário podem sair, empoeirados e cobertos de um ligeiro bolor. Daí a idéia de instituir a data de zombaria sobre os outros, de ser maldoso, mentir, pregar peças. É mais um pretexto para dar risadas; afinal de contas, os europeus precisam de fortes incentivos para gargalhar e, quando o fazem, normalmente exageram. Ainda hei de publicar uma tese a respeito.

Quanto ao que há de extraordinário e acintosamente belo na primavera de Paris, especificamente em abril, prefiro me ater ao texto do ano passado e à música que, naquele momento, embalou meus dias.

Na semana que vem, os plátanos prometidos!

* Título plagiado da obra magistral de Karl Polanyi.

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