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Imagens que não fizeram história (1): Nuremberg

Pense numa imagem – uma fotografia, digamos – poderosa, que prende o olhar, provoca emoções fortes, fica marcada na lembrança. De onde vem esse poder? Pode vir de muitas origens diferentes: o enquadramento, a composição, o tema, a iluminação, as cores, as personagens. Mas será que uma imagem em que nenhum desses fatores é particularmente notável pode ter seu poder também? Uma imagem pode ser completamente desprovida de força quando olhada da primeira vez, e só depois, quando encarada com calma, explodir de alguma maneira? Não haveria momentos em que o que há de mais poderoso numa imagem não resulta do que está ali, ou melhor, do que o fotógrafo quis colocar ali, mas de um rastro involuntário, de uma referência implícita, daquilo que falta ao enquadrado, ao visível, ao captado? Imagens que, por si só, não fazem história podem ser históricas à sua própria maneira?

Por exemplo:

tribunal de nuremberg

É fácil perceber que a fotografia aí em cima precisou de um tempo de exposição considerável para ser tirada. Sem poder recorrer a equipamento de iluminação e possivelmente também sem acesso ao filme mais adequado (ou talvez na época o filme a cores ainda não viesse em grãos muito grandes), o fotógrafo teve que abusar do intervalo de abertura para não deixar metade do tribunal fora de foco ou nas trevas.

Mas quanto tempo o obturador ficou aberto, exatamente?

Um chute: só duas pessoas se locomovem na imagem. Ao fundo, perto da porta, alguém que parece ser um intérprete, dá um único passo à frente. À direita, alguém apressado, talvez um mensageiro, imagino que um soldado da Polícia do Exército (Military Police), dá o que parecem ser quatro passos. Fiz o teste em casa e concluí que dificilmente alguém dá quatro passos em menos de [quase] dois segundos.

É um tempo de exposição notável e, a julgar pelo fato de que as lâmpadas, ao fundo, não estão com a luz estourada, posso imaginar que a iluminação não era das mais fortes – algo pouco surpreendente, para padrões europeus. Além disso, a atmosfera de penumbra combina com o espírito geral do momento.

São, pois, quase dois segundos. Esse intervalo está condensado no imediato da forma, mas sem a menor intenção estilística. O autor está documentando um julgamento. Não está “investigando” nada. Não é um artista que pretende épater le bourgeois e, para isso, sintetiza os microssegundos de movimentos, meros gestos, daquele punhado de gente dentro de uma sala, espalhando-os sobre as dimensões do enquadramento. Suas escolhas não são estéticas, seu formalismo é técnico e nada mais.

Mesmo assim, é o tempo de exposição, invisível ao olhar desatento, mas discretamente presente, que provê a ocasião para que a imagem seja expressiva. Graças à evidência de um corpo apressado que se desloca, um indivíduo que dá um passo, um punhado de folhas viradas, abaixo, na mesa ao centro, temos a oportunidade de experimentar um breve momento do tribunal de Nuremberg, em 1945 ou 1946.

Nem precisamos saber quem é o réu nessa sessão específica, nem qual o crime de guerra, nem o veredito. Só precisamos nos perguntar: o que se moveu durante esse quase par de segundos em que o obturador esteve aberto, para que uma chapa recebesse a luz de uma sala de mobília escura? Já não é mais questão do intérprete, do mensageiro ou dos autos folheados: quais são os gestos flagrados?

Tentei contar, na sala toda abarcada pela lente e apinhada de figuras sisudas, os rostos que saíram borrados. Só encontrei três. Um homem de uniforme militar, aparentemente nazista, na extrema direita. Deve ser réu, o que explicaria o que parecem ser movimentos laterais da cabeça. Um pouco abaixo dele, um homem parece coçar a testa ou limpar o suor, gesto parecido ao que faz a moça de cabelos negros na mesa do primeiro plano.

De resto, nas centenas de presentes, não encontrei lábios tremidos, ou olhos, ou mãos. Alguém fala, em algum lugar, e não podemos ver. Vemos apenas aqueles que escutam, silenciosos, imóveis, sisudos. Ninguém deixa o registro, na chapa do fotógrafo, de um comentário, um bocejo, um estalar de dedos, um coçar da nuca. No máximo, dois ou três homens com a cabeça apoiada na mão.

O que eles ouvem? Um relato do holocausto? As atrocidades das tropas SS? A sentença de morte de algum nazista? Isso, a imagem não diz. O que diz é outra coisa: a tensão dos lábios, a fixidez dos corpos, algo como um sabor travado de quem é confrontado com o indizível, o inacreditável, o inaceitável – mas como fato consumado. Tudo isso graças à baixa iluminação. À primeira vista, esta é um registro de tribunal. Olhando com mais calma, é uma imagem, em todos os muitos sentidos dessa palavra, do tribunal de Nuremberg.

*     *     *

PS: Os réus que aparecem nesta foto – no centro, à direita, fundo da sala – são Hermann Goering (à esquerda, de óculos escuros), Rudolf Hess, Joachim von Ribbentrop, Wilhelm Keitel (o único que está mexendo o rosto) e Ernst Kaltenbrunner. A foto é de 1946. Exceto Hess, que cumpriu pena de prisão perpétua na cadeia de Spandau, todos os demais foram condenados à morte. Goering suicidou-se antes que a sentença pudesse ser cumprida.

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FHC entre o povão e a contradição

Como é pobre a celeuma em torno do artigo de Fernando Henrique! Debater se o homem propõe ou não que o partido dele “abandone o povão” e se concentre na classe média, como se fosse algum absurdo haver partidos de classe média… Um texto inteiro poderia ser dedicado à preferência do brasileiro pela polêmica mesquinha, até mesmo na política, onde as discussões deveriam ser mais penetrantes e corajosas diante da aporia inescapável (sim, a política, enquanto arte, é o bailado numa pista de aporias). A algazarra em torno do texto fernandino é um claro exemplo dessa mediocridade escolhida. Valeria bem mais a pena, por ora, destrinchar o artigo, porque ele expõe o impasse em que se enreda, com muito gosto, o partido de que o autor é presidente de honra. Façamo-lo.

Nosso ex-presidente entende seu texto como um raio-x das insuficiências da oposição, especificamente o PSDB, e uma proposta de reorientação. Entre circunlóquios, lugares-comuns e interpretações bem livres da história recente do país, FHC acaba dizendo, um pouco sem querer, algumas coisas bastante verdadeiras. Se fossem ditas por querer, seriam talvez dolorosas demais para os tucanos e seus correligionários, porque revelam em filigrana que as diretrizes peremptórias que FHC delineia para seu partido, ora, são simplesmente o que o partido, tal como se organiza hoje, não poderá nunca realizar. Em outras palavras, Fernando Henrique atirou no que viu e acertou no que não viu. Só que, como estamos falando de política, o “ver” significa “querer ver”­ – é uma maneira de recortar a realidade de um universo político, tornando-a um discurso coerente, mas coerente segundo determinados pressupostos – e o “não ver” significa “recusar terminantemente, a ponto de não poder ver”. Continuar lendo

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