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As maravilhas de domingo

Este fim-de-semana foi pródigo em leituras excelentes na blogosfera. Minha avó dizia que diante da voz da sabedoria, o esperto escuta e o tolo responde. Subscrevo, acrescentando que na era dos links, além de escutar, podemos passar adiante. Pois! Seguem aí os melhores posts que li nesses dias.

(O fato de ter comentado em alguns deles faz de mim um tolo, na acepção da minha avó?)

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Cesar Kiraly, em seu Modos de Fazer Mundos, às vezes posta filosofia, às vezes poesia. Mas tem dias em que ele resolve fazer as duas coisas de uma vez só. Aí não tem quem segure. Uma imagem pontiaguda da visibilidade das revoluções e a singularidade deste nosso zoon politikon.

Se Godard, como diz o texto, cria sentidos sobre as imagens do cinema, sobre um cinema criador de imagens, Rodrigo Cássio se cria em cima de Godard.

A revolução no mundo árabe é um evento profundamente singular. Sem isso, não seria revolução. Eu gostaria de desenvolver um pouco essa ideia, mas isso se tornou desnecessário: quem viu de dentro essa sigularidade, como Mohamed Bamyeh, já deixou isso suficientemente claro.

Hugo Albuquerque explicita que, se viver em São Paulo é infernal, não o é à toa.

Esta carta aberta de Ana Maria Gonçalves a Ziraldo já fez bastante barulho internet afora. Merece um pouco mais. Esses (muitos) parágrafos me deixaram com vergonha do texto que escrevi para o Amálgama sobre O Presidente Negro, achando que estava fazendo uma crítica ao Monteiro Lobato. Há! Pobre de mim.

Este texto é mais velhinho, mas aproveito o ensejo. Carlos Magalhães abre a cortina do nosso cenário escravocrata, em plena urbanidade pós-moderna e assim por diante.

Este aqui, de Fabiano Camilo, é mais velho ainda. Que importe? Tem de ser lido. Sobre a visibilidade do homossexual na televisão brasileira e, por extensão, no Brasil.

E paro por aqui,

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Bouazizi, o herói de Nietzsche

Nem Assange, o indiscreto hacker australiano. Nem Zuckerberg, o ainda mais indiscreto empresário precoce da rede, como quis a revista Time. Nem Suárez, o goleiro fugaz dos pampas, sobre o qual ainda hei de escrever. O maior herói de 2010 foi um vendedor de frutas, ambulante e sem licença, natural de Sidi Bouzid, no interior da Tunísia. Chamava-se Mohamed Bouazizi e tinha 26 anos quando morreu.

O gesto heróico de Bouazizi foi um martírio que, em si, não tem nada de novo, mas sempre impressiona. No Vietnã de 1963, Thích Quảng Đức desceu do convento e, com toda a calma que se espera de um monge budista, imolou-se na praça mais movimentada de Saigon. Kennedy admitiu que a imagem daquele corpo se consumindo abalou o mundo. Na Tchecoslováquia de 1969, Jan Palach, estudante de filosofia, escolheu que sua existência não passaria dos 21 anos. De que valia viver sob o jugo soviético? Em 1989, a celebração de sua memória desaguaria na Revolução de Veludo, batendo um cravo no caixão da Cortina de Ferro.

É perturbador, mas parece que morrer dá resultado. Continuar lendo

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Lula, o sortudo

Parece estabelecido um consenso na imprensa e nos meios formadores de opinião, ao menos do eixo Rio-São Paulo, de que o sucesso do governo recém-encerrado é fruto de um grande lance histórico de sorte, sem o qual teríamos assistido a um fracasso – retumbante, como se diz de todos os fracassos. A tal sorte consiste, segundo esse raciocínio, num aumento espantoso e duradouro (mas não sem precedentes) do preço dos insumos básicos que o Brasil exporta, de minério a grãos, de carne a frutas. Ou seja, acredita-se oficialmente que o bom desempenho econômico dos últimos anos não passa de uma rebarba da expansão chinesa.

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Assuntos que passaram

Quando se esgotaram minhas forças – e isso deve fazer umas duas semanas, pouco mais, pouco menos – logo vi que a primeira vítima seria o blog. Eu estava certo. Assunto vinha, assunto ia; a vontade de escrever vibrava entre as orelhas, mas desfalecia entre a mão e o lápis (que digo? É o teclado…). O coeficiente de crescimento do desânimo, como não podia deixar de ser, era proporcional ao acúmulo de eventos ao redor dos meus olhos e sentidos. O mundo é assim mesmo: ou você gira com ele, ou aceita a frustração. (Não há nada errado em aceitar a frustração; é melhor do que se deprimir à toa.)

Foi assim que, nesse meio-tempo, eu quis comentar uma infinidade de coisas, mas não o fiz. Em muitos casos, a escolha foi acertada: outros o fizeram melhor do que eu jamais faria, e uma humilhação evitada não deixa de contar ponto a favor. Talvez essa máxima contrarie o espírito blogueiro, mas é assim, não há o que fazer. Em outros casos, perdi a chance: nem me lembro mais das reflexões simpáticas que me causou a vista de uma meia-dúzia de bolas de futebol, gastas e esfarrapadas, boiando em meio à sujeira, numa curva do rio.

Seja como for, listo aqui algumas das idéias que deveria ter desenvolvido em postagens específicas. Qual é o interesse para você que me visita desses parágrafos curtos sobre coisas que mereciam páginas e páginas? Ora, os links, claro. Pois vamos:

1) No último fim-de-semana, passou um documentário alemão no canal Arte sobre Dennis Hopper, com o tristemente premonitório título de “Spiel (oder stirb)”: crie ou morra. Pois bem, três dias depois ele modulou o verbo. Não obstante, recomendo a todos o filme, em que o ator conta sua vida com uma sinceridade e uma naturalidade marcantes. Em seus últimos anos, Hopper se dedicava às artes plásticas, com um interesse particular por fotografar grafites de gangues em Los Angeles, na tentativa de decriptá-los. Eis um trecho, eis outro. Eu poderia mencionar que ele era um personagem fantástico e um ator fenomenal, mas isso, todo mundo já sabe. Então me contenho em sugerir: procurem o documentário.

2) Mais uma sobre morte, um de meus velhos temas preferidos neste blog: Louise Bourgeois não chegou ao centenário, o que certamente teria sido tema para uma escultura e escritos carregados de ironia. Como no caso de Dennis Hopper, eu poderia mencionar que ela era uma personagem fantástica e uma artista fenomenal, mas isso, todo mundo já sabe. Então me contenho em recomendar um espetáculo sobre ela, obra da sempre maravilhosa Denise Stoklos. Ela tende a rodar o país apresentando diversos de seus monólogos, e “Faço, Desfaço, Refaço” costuma estar no meio deles. Ou seja, seu dever, visitante, é ficar atento à agenda da moça. Mais cedo ou mais tarde, ela vai passar pela sua cidade. Encontrei poucas coisas na internet sobre esse espetáculo, em que Stoklos incorpora Bourgeois através de seus escritos, mas eis dois links possíveis: este e este.

3) Um dos assuntos que não ouso abordar é a questão da Terra Santa (dizem que o sangue purifica, o que explica a santidade daquele deserto). Há muita coisa em jogo, uma história enrolada demais e um jogo de retórica e pressões em que os culpados são muitos e a vítima é uma só: a população que preferia poder só tocar a vida. Aliás, Brecht tinha razão. Quem tenta não se interessar por política é massacrado (desculpe a citação imprecisa) por quem se interessa. Em todo caso, algumas reflexões se fazem necessárias, sobretudo depois que o governo israelense foi mais longe do que o longe demais a que já tinha ido.

A primeira delas: não consigo entender como um país cuja fundação remete ao trauma do genocídio e ao racismo sistemáticos pode agir, meros sessenta anos depois, de forma sistematicamente genocida e racista. Acho que só conseguirei produzir um texto a respeito quando tiver entendido isso, ou seja, nunca.

A segunda: O risco de cair no fascismo começa quando alguém resolve substancializar um povo, um governo e os atos de um e outro, para em seguida identificá-los. Tenho visto muita gente tratando como anti-semitismo toda e qualquer crítica às atitudes criminosas do governo israelense: muro, bloqueio de Gaza, bombardeios de hospitais, assassinato de ativistas e por aí vai. Com o risco de cair numa comparação de Godwin, lembro que Goebbels considerava qualquer crítica a Hitler como “anti-alemã” (Sophie Scholl perdeu a cabeça por isso); Jdanov considerava qualquer arte independente como anti-revolucionária (está lá a Sibéria que não me deixa mentir); e, em nossas terras tropicais, o lema era “Ame-o (pode parecer que é o Brasil, mas é o regime, ou seja, a ditadura) ou deixe-o (pode parecer que é o Brasil, mas é o mundo dos vivos)”. Quem identifica críticas a Israel com o ódio ao judaísmo está a dois passos de se tornar um fascista, se é que já não se tornou, e o governo israelense está de braços abertos para essa categoria humana.

A terceira: Robert Fisk tem toda razão: são covardes aqueles que não condenam o ataque israelense à flotilha humanitária. E os mais covardes são os governos “ocidentais” (já disse que odeio essa expressão), aqueles que ou sentiram o fascismo na carne, ou lutaram contra ele, ou ambos, e deveriam atuar para que coisas assim não pudessem se repetir.

A ante-penúltima: o fascismo também tende a achar que consegue fazer todo mundo de otário, não sei por que razão ; em 1o de setembro de 1939, os alemães vestiram cadáveres com uniformes poloneses e acusaram o país vizinho de atacar uma estação de rádio sua, tentando justificar o início da Segunda Guerra (ninguém caiu, claro). Nossos ditadores tentaram fazer crer que Vladimir Herzog tinha se enforcado na cela (e teve gente que caiu, a começar por alguns órgãos de imprensa). Agora o governo israelense mostra vídeos de estilingues (!!!), bolas de gude (!!!) e pedaços de madeira como prova de que seus pobres comandos foram atacados por hordas de pacifistas. Bem que Einstein (por sinal, judeu) avisou: a quarta guerra mundial vai ser lutada com paus e pedras…

A penúltima: mais covarde ainda é o governo (ditatorial, aliás) egípcio, pouco mencionado em todo esse imbróglio, mas que também deixa fechado seu acesso à faixa de Gaza. E isso porque é uma nação muçulmana, que se pretende líder do mundo árabe, e que já esteve mais de uma vez em guerra com Israel.

A última: se eu vivesse no Oriente Médio ou perto dele, provavelmente estaria louco atrás de uma bomba atômica também. Afinal, quem é capaz de transformar um canto de terra num gigantesco campo de concentração é capaz de qualquer coisa. Os únicos detentores da famigerada arma na região têm se revelado uns autênticos lunáticos.

4) Outro assunto que não ouso abordar: eleições. E os motivos são vários. Estando fora do Brasil, quem sou eu para discutir mais este emocionante embate PT X PSDB? As informações que chegam aqui sobre o Brasil são bastante positivas: crescimento econômico, estabilidade financeira, redução da miséria e da desigualdade, investimentos em infra-estrutura, expansão do comércio, medidas anti-cíclicas perante o risco de recessão, desfavelização, recuperação da pesquisa científica… Mas como meus amigos tucanos seguem se descabelando, concedo-lhes o benefício da dúvida: talvez haja mesmo estatísticas secretas provando que o país ruma célere para o desastre.

Mas não posso deixar de levantar algumas hipóteses que me têm martelado a cabeça.

A primeira: muita estranheza me causa essa guinada à direita do PSDB, particularmente de Serra, nos últimos anos. De sua origem na luta intelectual contra a ditadura, o partido de Montoro e Covas foi parar nos braços da Arena, nem bem passado um quarto de século. O PSDB, que um dia chegou a se apresentar como núcleo do progressismo nacional, tornou-se um ninho para Azeredos e Guerras deste mundo.

Como explicar? Dois indícios parecem oferecer uma possibilidade de compreensão desse estranho fenômeno. Primeiro, o movimento irreversível e consistente do PT para o centro, ou melhor, para longe da esquerda (o que não necessariamente é a mesma coisa, se levarmos em conta a miríade de sentidos possíveis para o termo “esquerda”). Acontece que o PT é um partido com uma base mil vezes mais sólida que a do PSDB, porque são movimentos sociais que existem de fato e não estão apenas nas conversas de apartamentos de Higienópolis, nem entre as mesas do Massimo. Em outras palavras, essa migração do PT parece traduzir um movimento consistente da sociedade brasileira (cujos descontentes deságuam no PSol), o que deixa o PSDB um tanto sem argumentos ou bandeiras.

O segundo indício é a derrocada dos partidos conservadores tradicionais; o ex-Arena tentou até a velha estratégia de assumir um nome contraditório (“Democratas”), mas não deu certo. Só alguns poucos malucos ainda crêem que Demóstenes Torres e Kátia Abreu têm algo de construtivo a oferecer para o país. Ou seja, mesmo a parcela mais conservadora da sociedade está menos radicalizada, embora ainda apareça muita gente disposta a ter saudade da ditadura e chamar o combate a ela de “terrorismo”. Enquanto o clã dos Maias e Magalhães vai afundando, o antigo partido “social-democrata” (se é que eles jamais o foram) ocupa seu lugar. Isso para não mencionar a turma do Maluf, claro. Não deixa de ser uma evolução da mentalidade do país e uma prova de que não estamos indo tanto para o buraco quanto querem fazer crer os e-mails descabelados que tenho recebido…

A segunda, na verdade um corolário da primeira: conforme temos podido ver, o candidato dos tucanos à presidência, que dispensa apresentações, parece ter ido pelo mesmo caminho. Quem leu os artigos e comentários de “Brasil sem milagres”, escritos entre 78 e 86, tem dificuldade em reconhecer o homem que hoje inibe a pesquisa e o ensino em São Paulo e manda ver a metralhadora giratória contra países vizinhos e pessoas com pensamento menos monolítico que o de seu partido. Pois é, uma das poucas vantagens que tiro de ser formado em economia é ter lido artigos publicados nos anos 70 por gente que, hoje, pode preferir queimar seus antigos escritos (não, não estou falando de FHC).

A grande questão é: para quem vai o discurso raivoso? Para quem vão factóides como o Ministério da Segurança e a cocaína boliviana? Afinal, se considerarmos que tanto o problema da violência quanto o das drogas, embora ainda fortíssimos no Brasil, estão muito menores do que eram há dez anos, dá para perceber um descompasso estranho entre o que berra a oposição e o que percebem os eleitores. Ora, nem preciso dizer o quanto isso é improvável num tempo em que o marketing político está tão profissionalizado. Portanto, a pergunta pode ser reformulada assim: se eles não esperam conquistar eleitores novos com o discurso raivoso e descolado da realidade, o que eles esperam?

Minha hipótese é a seguinte: nem Serra, nem o PSDB têm esperança de vencer as próximas eleições presidenciais. A brigas deles, portanto, não é com o PT pelo Planalto, mas com o PFL, pela população conservadora. Se o PDS continuar sua derrocada, o PSDB se consolida como partido conservador brasileiro (o que não deixa de ser uma evolução, convenhamos), empurrando ainda mais a Arena para o esquecimento. Com isso, o estranho discurso da campanha de Serra não seria pela conquista de novos eleitores, que poderiam lhe dar uma vitória já aparentemente impossível, mas pela consolidação dos velhos eleitores. Enfim, é só uma hipótese.

A última: tenho razões para crer que Folha e Globo estão derrubando o último bastião do jornalismo independente com circulação generalizada no país. A observar de perto!

5) Sobre isto aqui, que continua aqui, ainda pretendo fazer um texto mais extenso. Quando ousei fazer críticas à pretensa panacéia do hipertexto, alguns anos atrás, me tomaram por um dinossauro – não importa se foi num blog pra lá de moderno (sic) como o Cálculo Renal. Pois bem, Carr é famoso, então neguinho vai ter que escutar. Aliás, é até irônico dizer algo assim justamente numa postagem cheia de links…

6) Não posso ir embora sem lincar um texto breve, mas preciso de meu amigo Leonardo. Quando eu falei que havia casos em que me dei bem por não escrever e evitar a humilhação de ver alguém dizer algo muito melhor do que eu diria, era nisto que estava pensando. Lelec manda muito bem ao escancarar o abuso do pretérito do futuro, que se tornou o único tempo verbal de uma imprensa tornada inútil e anódina. O contexto está no artigo anterior de Leonardo, que merece muito ser lido, em seu blog ou no Amálgama, onde a caixa de comentários pegou fogo.

Era isso… obrigado pela atenção!

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A “sensação de segurança” é um engodo

O penúltimo texto tratava de um dos aspectos mais cansativos e artificiais da forma marqueteira que assumiu a política de uns tempos para cá. (Quanto tempo? Dez, vinte anos? Difícil estabelecer um início preciso para um processo tão paulatino…) Embora o tema a perpasse sem descanso, não me refiro à política enquanto disputa de poder, embora esse aspecto tenha recoberto o termo quase inteiramente no debate público, mas ao verdadeiro quotidiano político, o esforço constante de viver em comunidade. Trata-se da questão da segurança, martelada em todos os telejornais, muitos filmes, conversas no barbeiro e no táxi, e repetida inclementemente por candidatos a qualquer coisa em seus discursos temerários.

Poderia ser uma particularidade brasileira. Afinal, nossas maiores cidades são território livre para assaltos, sequestros-relâmpago e o diabo a quatro, quando não estão em franca guerra civil, sem contar os acordos de bastidores entre governos e grupos criminosos para que estes últimos “peguem leve”. Mas não. A julgar pela prioridade que o tema recebe, o mundo inteiro deve estar à beira de centenas de guerras civis entre criminosos satânicos e os pobrezinhos dos cidadãos de bem, sempre acuados em seus cantos, tentando levar suas vidas sem serem esquartejados por bandos criminosos. Sem contar os terroristas, claro. Porque, afinal de contas, eles existem. E se existem, só podem estar por toda parte, certo? O raciocínio parece tortuoso, mas tem dado sucesso a seus proponentes em eleições mundo afora.

Muitos meses atrás, comentei aqui sobre a violência policial, comparando maio de 68 e todos os meses de 2008, na França como no mundo. Só de confrontar fotografias antigas com recentes, ficou claro que a tropa de choque (CRS na França) que trocaram cascudos com estudantes diante da Sorbonne em 68 mais parece uma fileira de guardas de trânsito, comparada à tropa de hoje. Aqueles policiais tinham capacetes, escudos e espingardas (não usaram), por certo; os de hoje parecem robôs de filmes de ficção científica, com suas armaduras, máscaras e coturnos à la Kiss. A polícia de hoje é bem mais ameaçadora. Tem um visual que intimida enormemente. Mesmo as patrulhas simples, pelo menos na França (e pelo que vi, no Rio também), vestem-se com blusas negras que lhes dão um ar de muito mais fortes, além de rasparem a cabeça como recrutas do exército. Não consegui explicar isso à época, então retomo a pergunta: por que a polícia deste início de século precisa causar tanto terror?

Para responder, volto ao penúltimo texto: a estação ferroviária, a cerveja, os soldados em uniforme camuflado exibindo suas boinas negras e seus fuzis semi-automáticos, desses que disparam sei lá quantas centenas de projéteis por segundo. Também coturnos, também cabeças raspadas, uma forma de olhar que, sem a menor fagulha de sucesso, buscava passar a impressão de investigar qualquer coisa. Um quarteto que se arrastava entre malas e bilhetes, simbolizando o mesmo programa anti-terrorismo que eliminou os bagageiros das estações de trem. Imagino o alto comando do exército a formular sua política de combate aos homens-bomba: colocar alguns rapazes sobre as plataformas, prontos para metralhar o primeiro zé-mané que pareça ter uma banana de dinamite por baixo da bata ou do turbante (sim, porque gente de paletó está acima de qualquer suspeita).

A segurança é a prioridade número um da maioria dos governos ao redor do mundo. Economia, saúde, educação, meio-ambiente, tudo isso é obrigado a disputar o segundo lugar, onde ainda sobram eventuais migalhas de atenção midiática. Talvez haja duas exceções. Uma é nosso bom e velho Lula, porque também não tem muito como competir com os políticos estaduais Brasil afora, que ainda enchem as PMs de carros enquanto a criminalidade teima em não ceder. A outra é o celebérrimo Obama, que, não é nada, não é nada, prossegue com duas guerras do outro lado do mundo, uma delas justamente contra o terrorismo. Fora esses aí, há anos ouvimos falar, e vemos na prática, em aumento do efetivo policial, tolerância zero, combate à delinqüência, câmeras espalhadas pelas cidades, monitoramento de lan-häuser, atenção particular para os “subúrbios sensíveis”. O público, já apavorado, porque já escutou esses discursos todos e já viu cenas de jovens em confronto com a tropa de choque, adere. Vota, esquece todos os outros problemas, fecha os olhos para a má gestão da estrutura pública… essa ladainha, todos conhecemos.

Mas, ora, que coisa estranha: nenhuma dessas políticas de segurança tem surtido um grande efeito duradouro. A não ser, talvez, o programa de Rudolph Giuliani em Nova York, o “tolerância zero”. Mas não é a mesma coisa, porque o que se fez na Big Apple foi deixar de fechar o olho para as pequenas infrações, como avançar o sinal vermelho e encher as calçadas de cadeiras. Isso, mais um policiamento ostensivo em nada diferente do que fazem os tradicionais guardas londrinos, conseguiu um nível de paz e tranqüilidade urbana muito maior do que a paranóia policialesca que, por exemplo, levou ao assassinato de Jean Charles.

A reação do público, no entanto, parece não reverberar a contradição. Nas pesquisas, as pessoas, aquelas normais, trabalhadoras, de bem (e assim por diante), continuam manifestando um medo enorme, diante de um mundo que lhes aparece como cada vez mais perigoso, instável e coalhado de bandidos, desde criminosos comuns até terroristas religiosos. Mesmo assim, elas declaram, diante da reação governamental, isto é, diante da presença massiva de gente com uniforme futurista, cacetete, fuzil, boina, cabeça raspada, escudo, capacete, óculos de visão noturna e gás lacrimogêneo, que experimentam uma maior “sensação de segurança”.

Ora, direi, sensação de segurança! Mas se dizíeis estar a vos cagar de medo! Como é possível?

Diante de tamanho paradoxo, refleti sobre o assunto e cheguei à conclusão que segue: essa tal “sensação de segurança” é um engodo. Ela não existe. Quando alguém acredita experimentar uma “sensação de segurança”, está enganada, não porque não esteja sentindo nada, mas porque aquilo que ela toma por uma “sensação de segurança” é, na verdade, outra coisa. Logo veremos o quê. Primeiro, preciso mostrar que não faz sentido falar em “sensação de segurança”. Ora, “sensação de segurança”…

Imagine você, em sua casa, deitado em seu sofá numa tarde de sábado, depois daquela feijoada, vendo pela televisão seu time ser esculachado em rede nacional. Você está seguro? Até certo ponto, sim. Pode cair um meteoro em sua casa, claro, mas afora essas hipóteses mirabolantes, você corre pouco risco de ser vítima de algum evento traumático ou perigoso. E que sensação você tem nesse momento? Sonolência, provavelmente. Raiva do juiz, talvez. Preocupação com o aluguel, eventualmente. Azia, posso arriscar. Mas “sensação de segurança”? Duvido.

Outra situação: você está dirigindo numa estrada escura. É noite. Chove a cântaros (é uma chuva das antigas). De repente, uma enorme vaca ruminando a um palmo dos faróis. Você entra em pânico. Solta um berro de pavor. Mas não há tempo para faniquitos: no último instante, você dá uma guinada com o volante, afunda o pé no freio, depois no acelerador, e consegue se safar. Seu coração ainda está disparado, você continua sem fôlego, suas mãos tremem. Mas o medo já passou. O que você sente? Alívio, certamente. Ódio da péssima iluminação da estrada, sem dúvida. Pena da vaca que talvez não escape ao próximo carro, nem ele a ela. Mas “sensação de segurança”? Necas…

Talvez eu esteja querendo brigar com os fatos, admito. Se as pessoas garantem que têm essa tal sensação, se elas insistem que é uma experiência verdadeira, quem sou eu para contradizê-las? Mas antes que me lapidem: eu nunca disse que elas não sentem nada. Eu disse simplesmente que essa sensação não é de segurança. Então, direis, é de quê? Tentarei responder.

Metade da resposta, acredito, está nas explicações dos pesquisados. Elas sentem medo e o associam de alguma maneira à “sensação de segurança”. Essa associação é muito freqüente para ser coincidência. De fato, tudo aponta para a noção de que a “sensação de segurança” corresponde à constatação (talvez inconsciente) de uma ausência de ameaça ou, melhor ainda, da ameaça contida, afastada, superada. É o que vimos nos exemplos acima, de maneira rudimentar, mas válida. Portanto, é impossível conceber a “sensação de segurança” sem uma sensação mais fundamental e mais evidente de medo, pavor, terror, ameaça, risco, decadência, desordem, chame como quiser – escolha, por exemplo, uma palavra do repertório de analistas políticos ligados a qualquer governo ao redor do mundo.

Seguimos no campo do paradoxo: como é possível que a “sensação de segurança” seja fundada sobre o medo, se o medo é o oposto da segurança? Estranho, não? Falta alguma coisa nessa nossa definição…

Então voltemos aos dois textos que mencionei nos primeiros parágrafos. O que encontramos? Policiais saídos de algum videogame, desses baseados em Robocop ou Exterminador do Futuro. O temor (mal dirigido) do terrorismo islâmico, que põe soldados armados até os dentes em todas as estações de trem da França (e muitos pontos turísticos), como se aqueles rapazes recém-saídos do treinamento fossem capazes de evitar a detonação de uma bomba. As tropas de choque que, e isso eu vi com meus próprios olhos, precisam de dois ou três batalhões, camburões e jatos d’água para desbloquear escolas onde garotos e garotas de 16, 17 anos fazem seu mui ameaçador piquete.

Para que serve tudo isso? Quem está mais seguro graças a esses bravos profissionais da violência estatal? A população? A gente de bem? O nobre e honrado cidadão? Alguém realmente acredita nisso? Sim, alguém acredita nisso. Basta ver, também alguns parágrafos acima, a reação habitual dos já mencionados cidadãos. Mortos de medo, mas ainda eleitores dos Sarkozys, Berlusconis e Serras da vida, graças a essa formidável “sensação de segurança”.

Devem então ser esses os componentes da magia paradoxal de nosso tempo. Primeiro, o medo; depois, o belicismo encarnado em policiais e soldados. Mas por que o belicismo? O que ele representa, quer dizer, o que ele provoca em quem o presencia? Traduzindo, como é que ele contribui para a “sensação de segurança”? Afinal de contas, guerras são tão opostas a qualquer noção de segurança quando o próprio medo, aliá seu correlato. Será possível que a “sensação de segurança” seja fundada sobre duas coisas que se opõem tão perfeitamente a qualquer idéia de estar seguro?

Sim, é possível. E talvez exatamente como conseqüência da contradição, da mesma forma como a multiplicação de dois números negativos produz um positivo. O belicismo dos assustadores soldados faz sentido quando entendemos a impressão que ele esconde: uma percepção de força, ou seja, uma demonstração de poder. Talvez o conforto implícito de que é possível agredir de volta, ou até agredir antes. De que qualquer ameaça será contrabalançada por um efeito punitivo e multiplicador. Que sei? Só posso afirmar que essa projeção de virilidade primitiva é o segundo componente da tal “sensação de segurança”.

Com isso, acho que já temos um quadro da nossa vítima. A “sensação de segurança” nada mais é senão um núcleo de medo recoberto por uma couraça de poder. Como o medo exige alguma forma de força e a força só é necessária quando temos medo, um anula e alimenta o outro. Desse estranho equilíbrio, dessa tensão delicada e perigosa, nasce essa tal “sensação de segurança” que tanta gente afirma sentir. Ou seja, é um engodo e um engodo arriscado.

Digo arriscado porque a “sensação de segurança” só pode aumentar de duas maneiras: ou cresce o medo e, em seguida, a demonstração de força como reação que restabelece o equilíbrio, ou aumentam, forçando um pouco a barra, as demonstrações de força, que por sua vez reverberam até multiplicar também o medo original. Não é difícil perceber que estamos diante de uma bola de neve. Só lembrando que o destino de toda bola de neve é a avalanche.

Até onde conseguimos levar o discurso e a estrutura reticular que sustentam a “sensação de segurança” tão fundamental a essa política mané de nossos tempos? De onde mais podem vir as ameaças que justifiquem tropas de choque e soldados com fuzis desfilando pelas ruas e estações de trem? Que outras medidas podem ser tomadas para, como é mesmo que se diz?, garantir a tranqüilidade dos cidadãos? Respostas nos comentários, por favor.

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É ruim o rio, se arfa?

Viver fora, muitas vezes, é como olhar no espelho. Nós nos vemos como se fôssemos algum outro, poucos passos à nossa frente. Mas sempre com o olhar fixo e direto, nunca deixamos de ser nós mesmos a encarar. Isso é verdade para tudo: a política, os costumes, as cidades. Como eu disse, tudo. O mundo estrangeiro é como os animais de laboratório que estudamos, querendo, na verdade, entender nossas próprias existências.

No meio desse tudo, o campo em que minha lógica mais se aplica é a língua. Pelo menos, para mim. A primeira coisa que alguém precisa conseguir quando mora fora é ficar acostumado com a fala dos outros. Mas então, logo em seguida, perdemos um pouco o costume da nossa. Quero dizer, de escutá-la pelas ruas, naturalmente, em seu habitat. Vivendo, em suma.

Com isso, quando damos com ela, inesperadamente, atrás de alguma esquina, ela parece alguma coisa outra. Alguém que não vemos há anos, digamos. Então, descobrimos nossa melodia, que soa aos outros tão particular quanto a deles para nós. Aquilo que nem valia nossa atenção acaba metamorfoseado em tesouro, porque sentimos saudade daquele nosso jeitinho, nosso som, tão mais gostoso que o deles – para nós, é claro, mas ironicamente também para eles.

Mais importante ainda talvez seja o que sucede com as palavras. Tanto é o esforço para enfiar no crânio todos os vocabulários do outro mundo – as gírias, os jargões, os nomes das verduras no supermercado –, que acabamos fechando o acesso a alguns dos nossos próprios nomes. Esquecemos que eles existem. Estão lá, mas, por falta de uso, é como se tivessem morrido.

Até que, um dia, reaparecem. Ou brotam da boca no meio de um papo, ou ouvimos alguém dizê-las, ou as lemos em algum canto. Milagre indescritível, quando as palavras se reencantam. Voltam a ser o que foram para os primitivos, os primeiros hominídeos a dizer alguma coisa. Reencontramos sua sonoridade, que no mais das vezes não passa de um encontro um tanto fortuito de sílabas, mas tem de vez em quando algo de muito sobrenatural. Faz-se evidente, sem mais, o que aquela palavra serve para expressar e o que está além dela. Resumindo, não deixa de ser um aprendizado em poesia, e acho que é por isso que gosto cada vez mais de Manoel de Barros.

Talvez nada disso tenha muito sentido para quem está no dia-a-dia do próprio idioma. Então é melhor partir para os exemplos.

Assistindo a um documentário sobre letras da MPB, eis que me deparo com uma palavrinha extraordinária, pronunciada por um cantor pernambucano: “arfa”. O verso dizia algo como “o peito que arfa”. Pois esse verbo, assim declinado, me encantou, a mim que há anos não o usava nem para dizer que alguma donzela arfava. Aliás, creia-me: “arfava”, “arfante” (eca!) e “arfar” não soam nem de longe tão bem quanto “arfa”. Talvez seja mesmo o acento na primeira sílaba, que, na pronúncia carnal e telúrica de cariocas e nordestinos, parece traduzir na emissão a própria ideia do ar que falta. A quem? A quem arfa, ora. Arfa, arfa, arfa. A palavra, por si só, é quase uma onomatopeia.

Depois, tive um choque diante de uma das palavras mais banais, só porque resolvi pensar nela. Coisa mais besta, fiquei fascinado com “ruim”. Ruim! Nem parece palavra do português, pense bem, a tal ponto que ainda não se decidiram se é monossílaba (rúim) ou dissílaba (ruím). Pessoalmente, mesmo que em teoria esteja errado, prefiro “rúim”. É mais áspera, logo agressiva, logo pior. “Ruím” não parece se referir a coisas ruins, mas a alguma espécie de passarinho que pode aparecer no quintal de vez em quando. “Olha lá um ruím! Que gracinha…” Estou dizendo besteira? É ruim.

Outra linda banalidade que reencontrei: “rio”. Estou tão acostumado a ouvir pessoas dizendo que vêm do Rio (de Janeiro), que corro o risco de perder de vista o sentido original da palavra, o fluxo quase invisível de água que corta nossas cidades e justifica que elas estejam onde estão. Falamos tão naturalmente do Sena, do Tâmisa, do Capibaribe, do Tietê, do Tejo, com seus artigos tão minuciosamente definidos, que esquecemos da verdade que se impõe: esses são todos rios, rios com seu “i” alongado de caminho perene.

Sem esse “i”, caímos num monossílabo que é a terceira pessoa do pretérito perfeito (como um idioma tão lindo pode ter uma expressão tão feia?) do verbo rir: riu. Que é, aliás, como os paulistanos chamam os rios, eles que tratam os seus como depósito de lixo e dejetos menos nobres. Honestamente, não vejo a menor graça nisso. Aliás, a vogal comprida faz falta também a outras línguas, que não conseguem manifestar oralmente o fato de que um rio é um rio, não é uma poça d’água. River, fleuve, Fluß… bah.

Eu teria exemplos bastantes para abrir um novo dicionário; mas é melhor parar por aqui. Afinal, todos sabemos que o caminho da verdade é ser sucinto, não? Provavelmente vou passar o resto da noite pensando em gente que arfa, em coisas ruins, em rios que fluem como uma conversa na minha língua. Nesse meio-tempo, talvez eu me lembre de outras palavras sumidas, que me surpreendem e deliciam.

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O garoto que mexia com letras

Meu garoto estava inconformado com as letras como elas são: sempre as mesmas. Que saco, ele se disse: um som, uma figura. E às vezes a gente ainda é obrigado a ler as palavras de um jeito que não é o que está dito nas letras. Isso não é bom.

Depois, ficou maravilhado de saber que existiam outros alfabetos: no grego, o Ene é um Vê; o Erre, um Pê; o Dê, um triângulo. No russo, tem uma mesa com três pés e um É ao contrário. (esse alfabeto se chama cirílico. Ah, belo nome.) E o chinês faz de cada palavra um desenho de bastonetes e curvas. Acontece que nesses alfabetos, também, as letras são sempre do jeito que são. E isso, ele já tinha entendido, não é bom.

Meu garoto queria que as letras mudassem tão rápido, tão sempre, quanto o mundo. Quer dizer, o mundo que ele via, um mundo que não pára quieto. Meu garoto, que não costumava sentar o facho, se trancou no seu canto e não saiu de lá durante dias e dias. Meu garoto não sentiu fome, nem sede, porque tinha quem cuidasse por ele dessas preocupações menores.

Quando apareceu de novo, trazia um protótipo. “Olha só, ele dizia, é um Bê com três barrigas!” E saiu mostrando para quem aparecia à sua frente. Ele esvoaçava, orgulhoso de sua invenção. Uma contribuição do meu garoto à escrita no Ocidente. De cada interlocutor, ele recebia um sorriso complacente e uma festinha na nuca. Como a festinha que recebem os cãezinhos, e ficam contentes.

Mas não era um cãozinho; era meu garoto. Ele não queria festinha, queria mudar o mundo. Pelo menos uma parte dele, nem que fosse só uma letrinha. E sumiu de novo. A casa virou casa sem garoto, casa de gente grande. Até que ele voltou com outra novidade. Uma folha de papel em branco como a outra, com um Bê que parecia perfeitamente normal. Mas é claro que nada pode ser tão normal assim, em se tratando do meu garoto.

Entre as duas barrigas do Bê, as barrigas de sempre, ele tinha imaginado uma terceira, menor. Ela não deixava a linha do encontro das duas outras tocar no bastão vertical, o principal, preenchido com um traço mais vigoroso do lápis para reiterar sua preponderância. E a explicação: do meio do Bê, nasce um Dê. E essa letra é o nascimento, ainda no meio do caminho.

Mas por que não é um Cê?, perguntaram. O Cêe vem logo depois do Bê no alfabeto. Meu garoto sacudiu a cabeça: o alfabeto não está com nada, ele ensinou, como ensinam os garotos aos grandes quando sabem melhor. O Dê vem do Bê e o Cê vem do Ó. Não é óbvio?

Daí em diante, meu garoto entrou num movimento de dedicação integral à sua invenção, fusão e gênese de letras para um alfabeto mais criativo ou dinâmico. Era um tal de Tê virando Efe, Éle com dois bastões verticais, Agá explodindo do meio de um Á… Em dia, ele veio com um círculo cortado no meio e ficou muito decepcionado ao descobrir que aquilo já tinha um nome: era um Téta, era grego e já era muito antigo…

Não demorou um mês para que as paredes estivessem cobertas com estranhos símbolos, cujo sentido era derivado de outros tantos símbolos, ainda com um emprego por descobrir. Estou certo de que eram, no total, mais do que cem, vá saber. Da manhã até a noite, meu garoto mexia nas suas invenções. Ou as modificava, ou as contemplava, ou engordava seu portfólio.

Cheguei a imaginar que isso seguiria pelo sécula seculórum, mas não: de repente, ele parou. Uma certa melancolia no olhar do meu garoto denunciava que alguma coisa não estava bem em seu lugar. Era isso mesmo: ele tinha percebido que, uma vez que existiam, suas novas letras estavam existidas e eram existentes. Paravam de andar, tanto quanto os alfabetos que ele tinha um dia esnobado.

Mas não haveria de ficar por isso. Meu garoto nunca se dá por vencido. Um dia, sumiu de sua fronte aquele ar tão melancólico. Uma luz tomou seu lugar. Convenhamos que era esperança… mas ele a chamava de “ideia genial”.

Mais um tempo trancado na cuca e ele voltou com outra criação: em vez de inventar novas letras, ele soprava a poeira das velhas, encaixava assim e assado, uma de cara para a outra, em cima, embaixo, enfim. Ele obrigava os sinaizinhos cansados a gritar e dizer coisas novas, coisas que nem eles mesmos tinham pensado, não sabiam que podiam representar.

Disso, ele jamais se cansou. Segue fazendo a mesma coisa até hoje, ainda com o mesmo prazer, neste tempo acinzentado em que já ninguém mais quer tratá-lo por garoto.

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O repouso do general

Quando soube que estariam todos fora – demônios, reis, colombinas, palhaços –, concebeu o mal-estar, dramatizou a doença, conquistou a solidão. Livres as paredes para o silêncio, os salões entregues à vibração do tempo baldio, fremiu e suspirou de alívio e apreensão.

Estacou por instantes sem volume. Quando o sangue voltou aos dedos, entregou-se à tarefa solene de desabotoar a farda, pendurá-la no cabide, encerrá-la na escuridão do guarda-roupa. Puxou dos ombros os galardões cheios de estrelas, apertou-os na palma da mão e os depositou na gaveta. Fora de vista, mas não de alcance. Para o caso de precisar buscá-los às pressas.

Seria lá o repouso do general. Nada de respostas, nada de comandos e decisões. A camisa de algodão lhe caía esquisita, mas agradável. Como trocar de pele.

Respiração caprichada, caminhou a passos arrastados até a poltrona. E se instalou, rijo, como numa sala de interrogatório. Conforme o previsto.

Só então ousou um lançar de olhos para o volume que trazia entre as mãos. O objeto grande, pesado e viscoso, coberto por um pano branco tão limpo, liso, fragrante – por que não dizer: imaculado. Tantos anos à espera do momento de encarar a carga, tantos anos, pareciam uma vida inteira. A exemplo da vida, não tinham começo na memória. Que esforço, que heroísmo, dar a crer aos outros que aquilo, aquela coisa, era natural. Que sabia o que fazia. Que vagava pela casa carregando um pacote branco com algum propósito. Missão misteriosa, mas incontornável.

Agora que estavam todos fora – demônios, reis, colombinas, palhaços –, era o momento de esclarecer tudo de uma vez por todas. Teve orgulho da coragem com que fitava o volume fantasmagórico. As mãos, porém, suavam. O cotovelo empurrava os dedos para o pano, o ombro os retinha. Homem e objeto, como conjunto, entravam em sintonia com o tempo paralisado.

Sentiu-se ameaçado, espantou-se, puxou por reflexo o lençol, violento. O tecido voou como espectro e pousou como pomba. Ficou espalhado sobre o assoalho, inerte.

Diante de seus olhos, o volume descoberto. Como antes, não sabia o que era. Não podia descrever a forma. Irregular e perfeitamente simétrico. Opaco ao extremo. Difuso, fora de questão. Solidez opressiva que se esvaía rumo ao chão. Por hábito, desandou a dar nomes: é o mundo, é minha alma, é o passado.

De súbito, faltou fôlego. Cessou a confusão do batismo cego. Poderia decidir-se por qualquer daqueles nomes, ou qualquer outro; subsistiria o mais terrível dos atributos, sempre. O que trazia nas mãos, nelas teria de seguir. Deixasse cair, é certo que espatifaria. O ar seria tomado de imediato pelo vapor venenoso do mundo, da alma, do passado.

Sufocaria. Pereceria. E não conseguia escolher entre o sacrifício sumário, mas horrendo, e a tortura vitalícia de carregar ainda, diante de todos – demônios, reis, colombinas, palhaços –, o volume abjeto, a massa amorfa, coberta pelo mesmo pano branco outrora imaculado, agora encardido com a poeira das cidades.

Na fúria da indecisão, lembrou-se das insígnias ocultas. Esticou-se com cuidado reverente. Não foi à gaveta, mas ao lençol, ainda enrugado a seus pés. A decisão estava tomada sem que alguém a tomasse.

Mesmo para a alma perturbada, à beira do escapismo, era patente. Sublinhavam-no as lágrimas, ao romper o portal. O peito se ergueu em revolta, soluçava e recusava o ar. Debaixo da mortalha, o objeto estremeceu. Poderia deslizar a qualquer instante. Mas não havia controle para os espasmos do corpo entregue.

De uma porta que se cria inexistente, entrou a desconhecida. O susto invocou o sangue das faces e ressuscitou o general. As estrelas das divisas tinham aparência ridícula sobre o algodão dos ombros, mas expunham uma imposição de respeito.

Só não se entregava à deferência o rosto ainda afogueado. A desconhecida flutuava através do salão. Encarou-o e, com expressão indiferente, perguntou o porquê das lágrimas. A resposta saiu refletida, viril como cumpre replicar:

— Não sei… Não sei.

Com isso, ergueu-se e se pôs em marcha, carregando seu fardo, até a escrivaninha do quotidiano.

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A mais monstruosa das guerras

Há noventa anos, hoje, terminou a mais monstruosa das guerras.

Depois de todas as atrocidades cometidas sob o jugo ensandecido de Hitler, poderia parecer que a Segunda Guerra Mundial mereceria esse título, mas não. O que os nazistas fizeram de monstruoso enquanto tiveram o poder na Alemanha foi, de certa forma, paralelo ao conflito: campos de concentração e extermínio, perseguição a minorias, o reino do terror no país em que outrora caminharam e escreveram Kant e Leibniz. Na Ásia, mesma coisa: os grandes crimes das forças imperiais do Japão na China e na Coréia foram cometidos contra populações civis, quando os combates propriamente ditos já haviam sido ganhos. Uma covardia ainda maior do que qualquer embate militar. A guerra em si, porém, tolheu a vida do melhor da juventude de diversos países, arrasou cidades inteiras e desestruturou famílias e povos. Episódios hediondos houve, claro, como o bombardeio de Dresden e as bombas de Hiroshima e Nagasaki. Mesmo assim, insisto em dizer que a Primeira Grande Guerra foi mais monstruosa.

Todo o rancor que atirou o mundo no segundo e mais abjeto conflito teve seu início nas trincheiras de 14-18, ou melhor, nos gabinetes de Paris, Berlim, Londres, Viena etc., onde grandes dignitários decidiam que os homens de seus países deveriam mofar nesses buracos infectos cavados na terra. Foi o primeiro conflito em que o inimigo, de ambos os lados, foi demonizado pela propaganda de massa ainda um tanto incipiente. Os cartazes, as emissões de rádio, os folhetos que se distribuíam nos países envolvidos criaram, pela primeira vez, uma sensação confusa de aversão generalizada aos demais povos, um nacionalismo negativo cujas conseqüências foram sentidas na carne pelas duas gerações seguintes.

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O primeiro bombardeio aéreo surgiu em 1914, com zepelins alemães atacando a até então neutra Bélgica. Morreram nove civis, os primeiros de milhões que seriam massacrados por bombas e mísseis atirados de aviões e lançadores distantes. Nove corpos estraçalhados sem que os algozes nem sequer vissem o resultado de sua ação. O uso irrestrito da metralhadora, o tanque de guerra, a granada de mão, o gás de mostarda, os genocídios e as máscaras assustadoras que o acompanham são o legado mais evidente do confronto, que terminou com 40 milhões de pessoas a menos neste mundo.

Mas nem mesmo essas invenções abjetas são o resultado mais importante do terremoto de 14-18. Com a mesma força das infecções que ratos e esgotos da trincheira transmitiam aos soldados, era corroída a estrutura do militarismo aristocrático, algo romântico, em que a guerra manifestava a grandeza secular dos povos e dos reis. Os limites da corrida colonialista também foram escancarados pelas escaramuças que tiveram lugar em três continentes ao mesmo tempo. Quatro monarquias milenares desapareceram: os Romanov, os Habsburg, os Hohenzollern, os Otomanos. Com elas, o mito da guerra nobre, que levara Otto von Bismarck a receber em sua tenda o derrotado e capturado Napoleão III em 1870, foi enterrado por Georges Clemenceau e outros líderes mais modernos e pragmáticos: a partir de 1918, uma derrota deixou de ser apenas uma derrota. Teria de ser uma humilhação.

Foi uma guerra que teve um estranho começo: o sistema de alianças e tratados era tão intrincado que ninguém sabia de que lado um país entraria. Todos os envolvidos tinham planos para uma vitória relâmpago, como o alemão Schlieffen, o francês XVII e o russo 19. Todos falharam: as técnicas defensivas eram muito mais desenvolvidas que as ofensivas, qualquer tentativa de avançar era um suicídio, os exércitos de ambos os lados logo aprenderam a cavar a terra e esperar os acontecimentos. Isso, no front ocidental. Na Rússia, a administração czarista era tão incompetente para alimentar seus soldados que Lênin e Trotski fizeram a revolução.

E a guerra teve também um estranho final: a forma como se deu a rendição do império alemão, já convertido em república, apesar de não haver um único soldado estrangeiro em seu território. Esse curioso fato é fundamental para entender o horror que a Europa e, por extensão, o mundo viveriam vinte anos mais tarde. A capitulação da Alemanha, claramente derrotada, mas não aniquilada, foi o último ato de guerra que se possa considerar militarmente normal. Mas demonstra a falta de compreensão do que tinha se tornado o mundo.

Quando os americanos entraram no conflito, ao lado dos aliados, tanto a França quanto a Alemanha estavam à beira do esgotamento, do colapso e da revolução comunista que já tinha varrido a Rússia. O que os alemães, ainda muito apegados à idéia de aristocracia, nobreza e sacralidade militar, não tinham entendido é que a guerra massiva, industrial e monopolista não deixava mais lugar aos tratados de paz do século anterior. A França, ao contrário, compreendeu perfeitamente. Governados por Georges Clemenceau e comandados pelo marechal Foch, os franceses inventaram um conceito, mais um, que se tornaria um símbolo da insanidade bélica no confronto seguinte, na aplicação de Hitler: a “guerra total”. Morreremos de fome, esgotaremos nossos recursos, deixaremos de ser uma grande potência, mas não perderemos esta guerra.

A guerra total foi uma decorrência lógica de um mundo de produtividade absoluta, lucratividade extrema e formação de monopólios e cartéis. As democracias ocidentais sabiam disso, porque viviam mais intensamente o capitalismo à la Rockefeller, enquanto as potências centrais, sobretudo a Áustria, ainda pensavam como grandes impérios aristocráticos que eram. Mesmo a Alemanha, cuja produção industrial já superava em muito a britânica, não captou os novos ventos. Perdeu por isso, o que lhe custou uma humilhação desnecessária e a ascensão do regime de terror mais intenso que o mundo já viu. (Atenção: “mais intenso” é diferente de “maior”.)

A monstruosidade da Primeira Guerra Mundial pagou seu preço na Segunda: foi uma paga de mais monstruosidade ainda. O rancor francês de 1870 foi transferido para a Alemanha. A guerra total foi levada às últimas conseqüências por Hitler. Mais algumas dezenas de milhões de vidas foram apagadas do mapa. Nos anos 30, a dita comunidade internacional foi incapaz de deter os avanços dos nazistas sobre os territórios vizinhos pelo simples motivo de que, freqüentemente, acreditava-se que eles tinham razão em reclamar reparações pelas injustiças impostas no tratado de Versalhes (de 1919) por uma França amedrontada com o poderio do vizinho, embora derrotado. Tamanhos eram o rancor e o ódio, que o famoso e maldito ditador alemão exigiu assinar a rendição da França, em 1940, no mesmo vagão do mesmo trem, no mesmo ponto da mesma linha férrea em que foi assinado o armistício de 1918, em Compiègne. Depois, o vagão foi levado para a Alemanha e queimado. Hoje, há um museu na pequena cidade da Champagne com uma réplica exata do tal vagão.

Nicolas Sarkozy anunciou que as celebrações pela vitória de 1918, este ano, vão abandonar o cretino tom triunfalista e se concentrar mais na memória das vítimas da estupidez humana. Mortos, mutilados, órfãos, miseráveis. A biblioteca de Leuven, com 230 mil volumes, destruída pelos alemães. Os armênios, que a Turquia tentou varrer do mapa. Os australianos e neozelandeses enviados pelo comando militar britânico para o suicídio no estreito de Dardanelos, na Turquia. Tudo isso, naquela que deveria ser “a guerra para acabar com todas as guerras”.

Sarko tem razão. Não há vitória nenhuma quando 40 milhões de pessoas morrem e um continente é transformado em barril de pólvora, tão perigoso que, ao estourar após menos de 30 anos, mais 60 milhões de almas seriam aniquiladas. Ao lembrar de uma guerra como essa, devemos ter em mente o quanto a humanidade pode ser atroz e monstruosa, mesmo quando se considera no ápice da civilização, como acreditavam os europeus da belle époque.

PS1: Sobre o fim da cordialidade militar, da era vitoriana e do respeito ao inimigo, recomendo este antigo texto do blog de Rafael Galvão.

PS2: A referência mais imprescindível para entender como foi monstruosa a Primeira Guerra, em que os soldados eram tratados como meros pedaços de carne pelos comandantes, é evidentemente Paths of Glory (Glória feita de sangue), de Stanley Kubrick.

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