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Naturam expellas (Parte 1)

[Nota: o ecocídio no Rio Doce me motivou a retomar um texto que vinha tentando escrever desde setembro. O resultado segue aí abaixo, embora esteja ainda apressado e com ar de rascunho. Mas é rascunho mesmo, respirando com a pressa que o tema exige. Esta é a primeira parte de um raciocínio que ficou mais longo do que o usual. Por isso, resolvi postar em fascículos, para não me cansar, nem ao leitor. Calculo que poderei postar cada parte com um intervalo de dois dias. Eu não poderia fazer diferente, dada a gravidade do assunto.]

Mariana (MG) - Distrito de Bento Rodrigues, em Mariana (MG), atingido pelo rompimento de duas barragens de rejeitos da mineradora Samarco (Antonio Cruz/Agência Brasil)

Naturam expellas furca tamen usque recurret

et mala perrumpet furtim fastidia victrix.

Horácio (Quintus Horatius Flaccus, 65aC-27aC)

Talvez seja uma barbaridade tratar de uma tragédia criminosa e desmesurada evocando um poema da antiguidade clássica. Mas acho que essa estratégia pode pelo menos servir como um recurso para tentarmos pensar à frente, quando nos damos conta de que, lá atrás, alguém já avisou, já deu a real, e a gente segue se estropiando por conta da nossa própria irresponsabilidade e cegueira.

Diz o poeta, escrevendo em 50 a.C.: “você pode expulsar a natureza com um ancinho, ela volta cedo ou tarde / irrompendo vitoriosa contra o seu tolo desprezo”. Nos últimos anos, enquanto subia a temperatura e descia a Cantareira, tomei gosto por esses dois versos da epígrafe. A estrofe a que eles pertencem compara a vida nas cidades e no campo.1 Mas para nós, claro, a imagem adquire um sentido bem mais urgente.

Há um mês, lia-se que o Rio Doce não está mais chegando até o mar no Espírito Santo. E agora, para piorar o que já era trágico, o que vai chegar ao oceano é uma enxurrada de metais pesados e tóxicos, depois do rompimento da barreira em Mariana. É bom lembrar que a barreira em questão é pertencente a uma empresa de nome Samarco, subsidiária de duas das maiores mineradoras do mundo: a anglo-australiana BHP Billiton e a nossa conhecida Vale do Rio Doce – empresa que, grosseira ironia, tira o nome do próprio rio que agora destrói. Morreu gente, morreram peixes, morrerão tartarugas, agriculturas ficarão inviáveis. Não há como exagerar no horror.

No mês passado, um naufrágio no porto de Vila do Conde, em Barcarena (Pará), matou boa parte de uma carga de cinco mil bois. Muitos deles afundaram junto com o barco e suas carcaças estão apodrecendo no leito do rio. Milhares de corpos inchados, milhares de esqueletos, no fundo de uma das principais bacias hidrográficas do mundo. Simplesmente porque precisamos exportar mais e mais toneladas de carne – e soja, e minério de ferro, e alumínio… – para cobrir um déficit de conta corrente que, como sabemos com maior ou menor grau de consciência, não pode ser coberto. Escândalos que se somam a escândalos.

Lamento ter que dizer isso: o mais provável é que esses sejam só os primeiros de muitos desastres que seremos obrigados a testemunhar nos próximos anos e, temo, décadas. Não tenho dúvida. Logo se vê pela reação dos responsáveis e das autoridades: livrando a barra da Vale, falando apressadamente em “desastre natural”, recorrendo a doações da população mais bem intencionada, evocando a importância econômica da atividade mineradora no Brasil, embora um breve raciocínio baste para mostrar que esses benefícios econômicos todos são uma enorme e perversa ilusão.

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Eu poderia dizer que hoje a Vale se tornou a nossa BP (petrolífera ex-estatal britânica responsável pelo vazamento catastrófico do golfo do México em 2010). Mas não dá para ignorar que, pela frouxidão com que tratamos o tema ambiental – leia-se, o tema do território, do chão em que pisamos, da comida que comemos etc. –, caminhamos rumo a uma proliferação de casos semelhantes. Pelo andar da carruagem, seremos o país das mil BPs. Falando nisso, foi inspirada pelo desastre no golfo do México que Naomi Klein escreveu em 2014 o livro This Changes Everything; no caso do Brasil, o máximo que posso me dispor a dizer é: “I hope it does”. Mas continuo cético.

Com isso, podem dormir na santa paz de Deus as outras mineradoras, petrolíferas, empreiteiras, incorporadoras, bancos, latifúndios, usinas e por aí vai, que doam os bilhões de nossas campanhas eleitorais para poder esgotar o território (florestas, cidades, campos, mares, rios, subsolos…). Quando o mundo vier abaixo, tudo estará bem para esse pessoal, e mal para o resto de nós, com o beneplácito de todo o espectro político, incluindo a imprensa e os sindicatos. Ainda não entendemos a gravidade da ameaça que ronda nossas cabeças, e não é simplesmente uma crise pertencente aos ciclos produtivos. Essas passam.

E se o assunto é “expulsar a natureza”, parece que essa é uma fixação atávica que nós temos. Já no primeiro reinado, eis o que relata o pintor francês Jean-Baptiste Debret, que retratou algumas de nossas verdades mais desconfortáveis:

Pintor de teatro, fui encarregado de nova tela, representando a fidelidade geral da população brasileira ao governo imperial, sentado em um trono coberto por rica tapeçaria estendida por cima de palmeiras. A composição foi submetida ao ministro José Bonifácio, que a aprovou. Pediu-me apenas que substituísse as palmeiras naturais por um motivo de arquitetura regular, a fim de não haver nenhuma idéia de estado selvagem. Coloquei então o trono sob uma cúpula sustentada por cariátides douradas (…).

Desde o berço, o brasileiro desenvolveu essa mesma relação que temos hoje com o solo em que pisamos e aquilo que nele cresce: há que esconder-se a natureza! Substituí-la por “um motivo de arquitetura regular”! Expulsá-la da representação do que seja o Brasil, naquele que é um de seus símbolos fundadores, a coroa estilizada do primeiro monarca. Nada de palmeiras! A natureza não está aí porque ela não existe. Ou seja: não temos natureza, o que temos são recursos naturais, matérias-primas… Riquezas que fazem nossa pujança e grandeza, como querem nos fazer crer.

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O que mais me desanima é o quanto tudo isso é evidente. Lembro bem dos meus primeiros anos em São Paulo: verões mais ou menos amenos, invernos frios, com temperaturas de um dígito – exceto em uma ou duas semanas do chamado “veranico”, palavra que caiu em desuso, já que hoje podemos vivenciar um mês de setembro como o deste ano, cujo calor, em pleno inverno, me dava dor de cabeça.

Naquele tempo nem tão distante, tempestades de verão eram impensáveis em setembro. Neste ano, tivemos exatamente isso, embora o mês, de modo geral, tenha sido seco como têm sido quase todos os meses há coisa de dois anos. E se eu cruzar com alguém na rua se referindo a “veranico”, não dá para evitar, sangue vai correr. Tivemos algumas semanas chuvosas em São Paulo em outubro e as pessoas já vêem afastar-se a famigerada crise hídrica (que, para parafrasear uma declaração atribuída a Darcy Ribeiro, parece não ser crise, mas projeto). Mal sabem elas que aqueles pés d’água de outubro mantiveram o mês abaixo da média histórica, apesar de tudo…

E falando em correr sangue, se a coisa continuar nessa toada, já se vê que dezembro, janeiro e fevereiro vão ser meses mortíferos. Basta lançar um olhar para o subcontinente indiano, onde 4500 pessoas foram ceifadas por uma onda de calor em maio e junho. E como já se fala em um “Super El Niño” para este verão – já li até a expressão “um El Niño Godzila” –, é de se esperar que setembro pareça ameno em comparação com o que vem pela frente. Mas nenhum desses sinais basta para que o país, como um todo, a começar por suas elites sociais e econômicas, para não falar nas lideranças políticas, coloque esse tema nas primeiras posições da pauta.

E no entanto é um problema que ultrapassa o Brasil, embora o atinja em cheio, na condição de país continental que é. Desastres mortíferos, água acabando, queimadas generalizadas na Indonésia, ciclones mastodônticos no México. No contexto mais amplo, leio notícias de que 2015 baterá o recorde de 2014 como ano mais quente da história (“literalmente território desconhecido”, diz um comentarista, ao compartilhar o gráfico da evolução de temperaturas este ano).

Soubemos também recentemente que a Volkswagen, malandrinha, andou falsificando uns testes de poluição; que o Reino Unido não vai conseguir atingir sua meta de redução de emissões de carbono; que as metas brasileiras “ambiciosas” para reduzir desmatamento, anunciadas por Dilma na ONU em setembro, de ambiciosas não têm nada. Que a China está mais uma vez coberta de poluição.

A boa notícia do ano foi o anúncio de que Obama rejeitou a construção do oleoduto conhecido como Keystone XL, que carregaria petróleo de Alberta, no Canadá, até o golfo do México (pobre coitado…) no Texas. Um ligeiro vento de esperança, mas dado o esforço que movimentos como o 350.org tiveram de despender para conseguir essa vitória, é uma lufada realmente ligeirinha, facilmente engolfada pelo temor com o que há de vir.

O ancinho e nós

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Por essas e outras, não tem como não admirar a fórmula sucinta de Horácio. Dia após dia, estamos tentando expulsar a natureza, com qualquer coisa que faça o papel do tal do ancinho. Por exemplo: como se abrigar desse calor todo? Ora, comprando um ar-condicionado. Mas se a temperatura fresquinha é conseguida aqui dentro graça a um dispêndio brutal de energia, que vai aquecer o resto do mundo lá fora, cedo ou tarde o abafado volta. Talvez não diretamente aqui, mas em algum lugar.

E se está quente na rua, é melhor ir para qualquer lugar de carro – com o ar condicionado ligado, claro, reproduzindo mais uma vez o problema, em duas frentes: a poluição do motor e o gasto energético da refrigeração. Tudo isso para não falar do consumo de energia elétrica, obtida seja com barragens (que andam com reservatório baixo), seja queimando carvão. E assim por diante, até a irrupção vitoriosa daquela que quisemos expulsar.

Mas é certo que a culpa não é do pobre diabo que ativa o ar-condicionado da sala para aliviar o sofrimento dos filhos. Para evitar esse tipo de leitura culpabilizadora e moralista, tratemos Horácio como o autor de uma enorme metonímia: cada ar-condicionado vale por milhões de aparelhos no mundo; o ancinho é o arquétipo de tudo que já se usou para obter essa magra vitória sobre o mundo natural. Assim sendo, já está evidente para qualquer um com um mínimo de boa vontade que a humanidade foi, mais do que arrogante, verdadeiramente frívola ao pensar que “com um ancinho” (muitas vezes traduzido como “violentamente”) poderia “expulsar a natureza”, e que ela não voltaria, mais cedo ou mais tarde, “furtim fastidia“.

A observação de Horácio, porém, é só a primeira das respostas possíveis. Ah, sim, diz o poeta, ela volta e volta triunfal: “recurret victrix”. Vitoriosa, vingativa, violenta. Nessa resposta, ela passa por cima de tudo e retoma o que era seu – o que sempre foi seu, talvez. No plano de um poema que compara a vida urbana à campestre, como é o do autor romano, o sentido dessa idéia é que o dia-a-dia de quem tenta se livrar da natureza é ocupado em varrer, lavar, pintar paredes, consertar telhas, podar árvores, eliminar mofo, jogar fora frutas podres, matar ervas daninhas.

A woman wearing a mask walk through a street covered by dense smog in Harbin, northern China, Monday, Oct. 21, 2013. Visibility shrank to less than half a football field and small-particle pollution soared to a record 40 times higher than an international safety standard in one northern Chinese city as the region entered its high-smog season. (AP Photo/Kyodo News) JAPAN OUT, MANDATORY CREDIT

No plano de um mundo ultra-industrial, financeirizado e cego para suas próprias condições de existência, como é o nosso, a interpretação é bem mais sombria: quanto mais labutamos, quanto mais esforço fazemos, quanto mais desenvolvimento para mandar a natureza para longe, mais irresistível ela vai ser quando voltar, engolindo a todos nós. Quanto mais barragens de rejeitos tóxicos, mais enxurradas. Quanto mais usinas atômicas à beira-mar, mais Fukushima. Quanto mais for viável economicamente arrancar o petróleo do leito marítimo, mais desastres no Golfo do México. Quanto mais for necessário expandir a fronteira agrícola para garantir a expansão de cadeias de junk food, mais queimadas fora de controle na Indonésia.

A imagem que temos ordinariamente da mudança climática ilustra bem essa perspectiva apocalíptica, com sua justeza e também seus exageros. Os mares subirão, as cidades serão engolidas, as florestas se tornarão desertos, as lavouras morrerão, metano jorrará (ou já está jorrando) de enormes crateras na Sibéria. Cada um por si e Deus contra todos. A natureza no papel de Conde de Monte Cristo, eliminando pouco a pouco e fazendo sofrer aqueles que a traíram. Quem é que não está cansado de ler alertas assim?

Mas poderíamos explorar uma outra resposta para a mesma fórmula da natureza que tentamos expulsar só para vê-la retornar vitoriosa. Nesta resposta, o problema de querer enxotar a natureza não está simplesmente em sua arrogância frívola, mas acima de tudo em seu caráter de cabo a rabo ilusório. Assim, os desequilíbrios naturais provocados pelo modo de atuação do ser humano “sobre” a natureza – mas na verdade “na” natureza – se situariam não na interação alienada e extravagante entre um dentro (da casa, da cultura, da civilização, da economia, da humanidade) e um fora (a natureza que foi expulsa, as “externalidades negativas” geradas pela atividade humana, econômica em particular), mas por todos os lados, ou seja, na manutenção da própria idéia de uma “casa” que estaria isolada da natureza; na contemplação de uma natureza que está para lá das paredes; no gesto ele mesmo pelo qual cremos estar (violentamente) expulsando a natureza; por fim, no próprio instrumento que usamos para realizar essa pretensa expulsão: o “ancinho”.

Pretendo, daqui para baixo, demarcar as diferenças entre essas duas respostas possíveis, essas duas leituras rivais dos versos de Horácio tal como transplantados, sem considerações sobre o contexto, para nossa realidade. São diferenças cruciais, bem entendido. Como veremos, todos os termos que aparecem nos versos podem ser lidos diferentemente e, com eles, a maneira como nos relacionamos com essa realidade que nos toca – tão urgente, cada vez mais urgente. E com conseqüências profundas, ainda por cima.

Continua na PARTE 2

Leia também a Parte 3

Leia também a Parte 4

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Leia também a Parte 6

morte dos bois

Notas

1. Pouco antes desses dois versos, há estes outros dois também lindos: “purior in vicis aqua tendit rumpere plumbum / quam quae per pronum trepidat cum murmure rivum?”, que costuma ser traduzido assim: “A água que nas ruas da cidade luta para estourar os canos de chumbo / é mais pura do que aquela que trepida e murmura por um rio?”

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Da série citações: cientistas perante o inconcebível

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“Há mais de trinta anos, os cientistas do clima têm vivido uma existência surreal. Um volume de estudos vasto e em constante expansão aponta que o aquecimento global tem seguido a evolução da presença de gases de efeito estufa exatamente como seus modelos previam. Os indícios físicos se tornam a cada ano mais dramáticos: o recuo de florestas, os animais que migram para o norte, as geleiras que derretem, as temporadas de incêndios florestais que se estendem, maiores taxas de secas, inundações e tempestades – cinco vezes a mais nos anos 2000 do que nos anos 1970. (…) A mudança climática induzida pelo ser humano é real – as temperaturas nos EUA subiram entre 1,3 e 1,9 graus [Farenheit, suponho], principalmente desde 1970 – e a mudança já afeta a agricultura, a água, a saúde humana, a energia, o transporte, florestas e ecossistemas. Mas isso não é o pior. As temperaturas do ar no Ártico estão subindo duas vezes mais rápido do que no resto do mundo – um estudo da marinha dos EUA diz que o Ártico pode perder por inteiro sua cobertura de gelo do verão no ano que vem, 84 anos antes do que previam os modelos – e os indícios de pouco mais de um ano atrás sugerem que a cobertura de gelo do Oeste da Antártica está condenada, o que vai acrescentar entre 20 e 25 pés ao nível do mar. Os 100 milhões de pessoas que vivem em Bangladesh precisarão de outro lugar para viver e cidades costeiras em todo o mundo serão forçadas a se deslocar, uma tarefa dificultada pela crise econômica e a fome que virão – com o interior dos continentes secando, (…) um bilhão de pessoas vão se ver passando fome dentro de 20 ou 30 anos. Ainda assim, apesar de alguns desenvolvimentos na área de energia renovável e algumas conquistas da liderança internacional, as emissões de carbono continuam aumentando regularmente, e os próprios cientistas (…) foram alvo de ataques incansáveis e bem organizados que incluíram ameaças de morte, convocações por um Congresso hostil, tentativas de conseguir suas demissões, assédio legal (…), tudo amplificado por uma propaganda incansável financiada descaradamente pelas empresas de combustíveis fósseis. Pouco antes de uma reunião de cúpula decisiva em Copenhagen em 2009, milhares de seus e-mails foram hackeados em uma operação de espionagem sofisticada que nunca foi esclarecida – embora as investigações oficiais da polícia não tenham revelado nada, uma análise de especialistas técnico-legais revelou o caminho dos ataques a partir de servidores na Turquia e em dois dois maiores produtores de petróleo do mundo, a Arábia Saudita e a Rússia.”

A citação aí acima foi retirada de uma matéria da Esquire (sugiro fortemente a leitura). Quem recomendou foi a Camila Pavanelli, que até há pouco publicava o indispensável Boletim da Falta d’Água. (Obrigado, Camila.) A extensa reportagem trata de cientistas que, vendo em primeira mão os dados sobre o desastre ambiental, ou seja, o colapso do planeta na medida em que é capaz de suportar a existência dos humanos, entram em desespero. Alguns buscam alternativas para a vida depois do colapso final, outros simplesmente abandonam o trabalho, outros entram em depressão profunda. Uma das cientistas, inclusive, começa a estudar psicologia para tentar entender como é possível que a humanidade ainda não tenha se dado conta de que é preciso mudar radicalmente de vida – caso contrário estaremos todos perdidos.

Foi esta última personagem que fez Camila lembrar-se de um texto que escrevi em janeiro, e que também trata desse estado de negação, esse verdadeiro bloqueio psíquico, que nos faz continuar vivendo como se… bom, como se houvesse amanhã, para colocar de um jeito meio musical. Escrevi em janeiro, quando São Paulo estava estorricando, faltava água, e o pessoal continuava preocupado com o PIB ou com o fim-de-semana em Bertioga. Pois bem, agora é agosto; as pessoas estão preocupadas com o PIB, o campeonato brasileiro, o impeachment e o fim-de-semana em Bertioga. E São Paulo está estorricando.

Tudo isso porque, repito: o colapso é algo que conseguimos dizer, mas não exatamente pensar. É O Inconcebível.

Bem; talvez esteja na hora de conceber.

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O Inconcebível

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“Colapso”. Nossas conversas do dia-a-dia, aquelas do bar, da calçada, do elevador, ganharam agora uma nova palavra, um novo clichê. Colapso, como quando as fundações de um prédio se rompem e ele cai, ou quando um sistema complexo se revela mal planejado e ele entra em parafuso. Ou quando a defesa de algum time bate cabeça e toma uma goleada.

Dizemos assim: daqui a pouco a água acaba em São Paulo e a cidade vai entrar em colapso. Às vezes avançamos no raciocínio, citando que a estiagem veio para ficar, por causa da mudança climática e do desmatamento – afinal, já faz anos que tem chovido paulatinamente menos. Então toda a economia do Sudeste vai entrar em colapso: sem chuvas e com tanto calor, as hidrelétricas não agüentam.

Ocasionalmente, tendo mencionado o clima, o pensamento continua avançando e dizemos: se não fizerem algo, o mundo todo é que vai entrar em colapso. E, de fato, é pequena a probabilidade de “fazerem” alguma coisa, uma vez que, vivendo de abstrações, a humanidade, essa que poderia fazer alguma coisa, passou as últimas décadas espoliando o planeta. No máximo, dá para contar com alguns arranjos perfeitamente dribláveis por quem tem imaginação – coisa que não falta aos empreendedores mundo afora.

Às Últimas Conseqüências

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Esse termo, “colapso”, merece um olhar mais atento. Escutando suas três sílabas, percebo que saímos pronunciando a palavra de modo um pouco leviano, como diria o senador Neves. Quantas vezes não afirmei por aí, para puxar papo com um vizinho ou o porteiro, que “o colapso” está ficando cada vez mais provável? Mas será que eu consigo imaginar o que essa expressão implica realmente? Será que sou capaz de representar na minha cabeça o que é o tal colapso? Acho que não. Continuar lendo

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Notas esparsas sobre a água

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I

Alguns meses atrás, um urbanista me contou que é impossível estar em São Paulo a mais de 300 metros de um curso d’água. Tome um mapa da cidade e procure ruas tortas, difíceis de explicar por qualquer racionalidade dos traçados. É quase certo que ali tem um riacho escondido. Existem mais ruas dessas que peixinhos a nadar no mar.

Perto de onde moro há um beco famoso pela arte de rua. Ao longo do ano, clipes e videobooks são realizados naquelas ruelas. Turistas estrangeiros adoram, ficam pasmos. No verão, costuma se transformar em corredeira.

Mais adiante, as mesmas vielas são quase desconhecidas. Ainda assim, têm grafites. Alguns buracos no chão de cimento permitem ouvir um gorgulho. E cheirar. É fétido.

A viela começa numa quadra de basquete e termina num muro, antes de chegar à Cardeal. Ali, um buraco um pouco maior, em forma de sarcófago e tomado por uma árvore que brotou de rebelde, permite espirar o fio d’água que resiste. Esse fio d’água é aquele que, quarteirões para trás, transborda no verão e faz carros escalarem uns nos outros.

O estacionamento do SESC Pompeia tem uma placa enorme e alarmista segundo a qual os motoristas que se arriscam ali devem retirar seus preciosos bólidos quando chover. Três quilômetros distante está a estação de metrô da Vila Madalena. Ali nasce o Córrego da Água Preta, ameaça poderosa aos carros do SESC.

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A estação da Vila Madalena poderia ser um monumento à água, e não ao concreto. Ali também nascem o córrego das Corujas (que, na rua homônima, está no centro de um ambiente bem agradável) e o córrego Verde, esse que inunda o beco aqui perto.

Nos bairros mais afastados, as crianças ainda brincam em córregos, segundo o que aprendi na entrevista que fiz com o urbanista. Mas, na falta de saneamento, a água começa a feder e é imediatamente tapada com uma laje. Fim da brincadeira. O riacho acaba esquecido, a não ser que, à noite, ainda se possa ouvi-lo, como um fantasma.

É o mesmo processo que ocorreu no que hoje é centro: Anhangabaú, Vila Buarque, Bom Retiro, Pinheiros, Paraíso, Vila Mariana, Ipiranga. No século XIX, chegou a haver um banho público no Bom Retiro. Durou pouco. Falando nisso, as margens plácidas do Ipiranga, hoje, são canos.

O Parque do Ibirapuera tem um lago bem famoso, com jatos d’água e iluminação. O urbanista me mostrou mapas e fotos do córrego que, descendo pelo Paraíso e pela Vila Mariana, por baixo do asfalto e de algumas construções, vai dar ali. Antes de se tornar cartão postal, passa por um processo de limpeza que mal dá conta de o deixar em condições mínimas. Tudo isso é invisível.

Vizinhos dos córregos nem sempre sabem de sua existência. Nem desconfiam do por quê de sua rua ter enchente e a do vizinho, não. Alguns até sabem. Tem gente que economiza a conta da Sabesp recolhendo água da nascente para lavar o carro ou a louça. Para beber e tomar banho, é claro que não.

Isso não é proibido. Fazer poço artesiano privado é. Quem mora perto de um riacho desses, sabe de sua existência e tem a sorte de o encontrar não tão sujo… sofre menos com a crise da Sabesp que você.

II

As árvores ainda não murcharam, apesar do calor e da estiagem, porque absorvem a água do lençol freático. A mesma que, pressionada pelo peso do solo e, muitas vezes, pelo peso das construções também, emerge nas minas que criam esses riachos e córregos.

Nós é que não nos beneficiamos dessa água. Ela se torna um estorvo, porque cheira mal, atrai ratos, fomenta o mofo atrás dos armários e ainda transborda com as chuvas de verão. Nenhum de nós jamais fez um passeio romântico à beira de um riozinho paulistano, com banquinhos, amoreiras e bares com espreguiçadeiras. No máximo, corremos à beira do córrego das Corujas.

“Isto aqui não é Berlim”, poderia dizer uma professora da ECA, horrorizada com a idéia de que a vida em São Paulo poderia ser tão agradável quanto nas capitais europeias. Pode não!

Só quem se beneficia do córrego Pirajussara são os remadores da USP. A avenida Eliseu de Almeida é cheia de curvas não para homenagear Copacabana, mas para acompanhar esse córrego. Poderia ser uma das avenidas mais lindas da cidade. Hoje, pelo menos tem ciclovia. A Ricardo Jafet, a Pacaembu, a Nove de Julho e tantas outras também poderiam ser bulevares espantosamente belos. Mas são avenidas feias.

São Paulo foi fundada no encontro de dois rios hoje canalizados e escondidos. Os rios que acabaram se tornando os mais famosos da cidade foram retificados e cercados por avenidas. “Dá para pensar em São Paulo sem as marginais?”, pergunta o prefeito da época, pessoa de fama pouco invejável. Pensar é o que nos resta, eu diria.

Décadas depois, as marginais foram ampliadas com uma terceira pista. Continuam engarrafando.

Um desses rios, além de retificado, teve seu curso invertido. “Usina Elevatória de Traição”, lê-se a certa altura. Traição é o nome de um córrego que também ninguém vê. Esse rio abastece uma represa pontilhada de clubes de campo e de iatismo. A represa é cercada de favelas e bairros irregulares. Todos sabemos como é.

A Guarapiranga abastece parte da cidade, principalmente a Zona Sul. Outros sistemas de represas que abastecem São Paulo são a agora famosa Cantareira, o Alto e o Baixo Cotia, o Rio Grande, o Alto Tietê. Os de Cotia estão bem, ao que parece. Os outros estão secando, assoreados ou contaminados. A Guarapiranga ainda tem bastante água, mas está ficando suja demais.

Falando em Cantareira, também é o nome de uma enorme área verde ao norte da cidade. Como se sabe, não são muitas as áreas verdes da cidade. Uma mudança de rotas do aeroporto de Guarulhos está fazendo os aviões passarem por cima da serra da Cantareira. Isso ameaça a vida selvagem dali, incluindo a vegetação. Tudo muito coerente.

Marilena Chauí estranha que um dos maiores responsáveis por deixar a cidade sem água potável tenha sido reeleito com tanta facilidade. Seus eleitores são os mesmos que fizeram tudo que está descrito acima.

III

Outro entendido em água que entrevistei há alguns meses é engenheiro hidráulico. Ele comentou a disputa em torno do rio Paraíba do Sul, o primeiro no país a ter o uso de sua água cobrado. Lembra disso?

O Paraíba do Sul, que nasce em São Paulo, abastece o sistema Guandu, que fornece água e energia para a Baixada Fluminense e o Rio de Janeiro. Depois segue para o Norte Fluminense. Puxam tanta água dele que não sobra o suficiente para a agricultura nessa região.

Agora o governo paulista quer tirar uma lasquinha um pouco maior. Mas nada garante que sobrem muitas lascas para tirar.

Falando nisso, o Paraíba do Sul, milênios atrás, corria para o sul. O Amazonas, na mesma época, corria para o Pacífico. Hoje, erros de cálculo em usinas amazônicas causam enchentes. O desmatamento no Norte eliminou a nuvem de umidade que cobria o Sudeste. Essas poucas frases já servem para explicar o uso do termo “antropoceno”.

“Puseram uma usina no mar, talvez fique ruim pra pescar”. Chico rimou em eufemismo. Pescar é o de menos.

IV

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Esse engenheiro hidráulico gostava de reiterar o vínculo entre o cuidado com a água e a própria idéia de civilização, seja essa idéia o que for. Agora entendo por quê.

Depois que o poder militar, político e econômico de Roma colapsou, Lugdunum continuou sendo um centro urbano respeitável. O que se perdeu foi a técnica de manutenção dos aquedutos. Depois de um tempo, os canos entupiram e a cidade foi esvaziada. Isso deve valer para muitos outros centros urbanos da Antigüidade.

Por baixo dos fóruns de Roma, aliás, bem no coração da cidade, passava a Cloaca Maxima. Era uma cidade limpa. Deixou de ser na Idade Média, como todas as demais cidades do Continente.

Quando os espanhóis chegaram para a destruir e massacrar sua população, Tenochtitlan tinha 200 mil habitantes. Paris, maior cidade da Europa, tinha 300 mil. Tenochtitlan era alimentada por dois aquedutos e diversos canais de estilo veneziano. O centro urbano era limpo e fresco. Não resistiu à fúria de Cortez.

Naquele tempo, não fazia sentido falar em “vingança de Montezuma”.

Tifo, cólera, difteria e doenças semelhantes matavam dezenas de milhares de pessoas por ano nas maiores cidades da Europa. Hegel, que sucumbiu ao cólera, talvez seja o caso mais ilustrativo. Criou-se o sistema de esgoto tal como o conhecemos hoje. A população dessas cidades explodiu.

O que uma sociedade faz com sua água é um indício do que faz consigo mesma.

Nossa água contém flúor. É uma iniciativa de saúde pública. Ou seja, uma política pública. Ideólogos de um liberalismo hiperbólico vêem nisso a interferência do Estado-Leviatã na vida dos indivíduos. A água é um campo de batalha político.

Hoje, a água do paulistano vem do volume morto do sistema Cantareira. O racionamento foi descartado por motivos político-eleitorais. O dinheiro que deveria ser investido na expansão do sistema não estava disponível por motivos ideológico-econômicos. E talvez por outros motivos também. A ordem do Ministério Público para fazer, de uma vez por todas, as obras necessárias foi ignorada e contornada por 11 anos. A água é um campo de batalha político.

O que uma sociedade faz com sua água é um indício do que faz consigo mesma.

Além de flúor, sabe-se lá o que vem na água que estamos bebendo. Os filhos de uma amiga da minha mulher ficaram doentes e o médico culpou a água. Há quem fale em metais pesados. Há quem ataque caminhões-pipa. Há quem queime ônibus. Há quem ridicularize os que queimam ônibus porque o ônibus não tem nada a ver com a água. Há quem venda água e esteja jogando os preços lá em cima. A chance é agora de garantir o fim do ano.

O governador primeiro comprou briga com o Rio de Janeiro. Depois, comprou briga com a ANA. Agora, comprou briga com a ONU. Não vai ter tropa de choque pra agüentar tanta briga.

Da minha janela, vejo pelo menos seis piscinas. Domingo, dia quentíssimo, as piscinas estavam cheias de gente. Como vão estar essas piscinas no mês que vem?

V

Para encerrar, alguns versos apocalípticos:

cidade com luz

É noite em São Paulo
A cidade está com aspecto de morte.
As distopias nos alcançarão.
Incauto, penso no trabalho; em vão
Acredito que isso ainda importe.

Até o ar respirado é sombrio,
Anunciando as ruínas futuras
Das fachadas, que nossas amarguras
Testemunharam, ante o eterno estio.

Se tratamos por distante o presente,
Somos mais covardes ou ignorantes?

Se o corpo o golpe fatal já sente,
Não se passou algo na mente antes?

Sufocamos. Já estamos afogados.
Cidades prenunciam nossos fados.

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