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O brasileiro chocado

Desembarco em Guarulhos como se apenas para ouvir uma mesma pergunta, da boca de jovens e velhos, altos e baixos, gordos e magros: querem todos saber se estou “chocado” com “as coisas do Brasil”. Todas essas pessoas partem do pressuposto de que, morando fora do país, em poucos anos perdemos de vista “a nossa incivilidade” ou “o quanto somos bárbaros”. Em outras palavras, acredita-se que o exilado se esquece de caminhar aterrorizado pelas ruas, de não confiar em que os carros parem, como se espera deles, nos sinais vermelhos, e assim por diante.

Reconheço que algo assim possa acontecer a alguém ao cabo de muito tempo no exterior. Algo como vinte anos, como no caso do protagonista daquele que considero um dos melhores filmes brasileiros da última década, embora pouquíssimo aplaudido: O Príncipe (2002, Ugo Giorgetti). Mas três anos e meio é muito pouco para tanto choque. Sei muito bem que temos assaltos e golpes, atropelamentos e deslizamentos de encostas. Por outro lado, também sei que muito brasileiro esnobe vai passar um período fora, brevíssimo, em intercâmbio, por exemplo, e isso já basta para que volte “chocado” com o Brasil. Solução: não leve a sério esse tipo. Quem realmente esteve fora por longas temporadas, quando chega sente mesmo é vontade de comer picanha e tomar cerveja gelada. Só vai pensar em choques muito tempo depois.

Mas tenho uma dica ao companheiro de exílio, você que vem passar umas férias com a família no Brasil, você que ainda não veio visitar os amigos. Vamos a ela: jamais dê de ombros a essa pergunta fatal. Nem ouse argumentar que nossa incivilidade também não é tanta e existe, em grau menor, maior ou igual (pouco importa) em todo canto, à exceção, talvez, da Suécia. Evite a todo custo exibir otimismo com o país. Se tiver o instinto de avaliar que há menos gente dormindo na rua, por exemplo, engula as palavras. Se há uma coisa que não mudou no Brasil, ou melhor, no brasileiro, e está longe de ser um choque para mim, é a exigência frenética, doentia, de consenso. Talvez seja fruto do nosso infame e gravíssimo quase-monopólio de mídia, sei lá eu. Mas é incrível e, cá entre nós, um tanto perturbador.

Uma das cláusulas desse consenso pressuposto e compulsório diz que não há nada mais irrecuperável e estragado do que nosso belo e melancólico país. Se a economia cresce, é uma sorte que já vai passar (ouvi isso tantas vezes, desde que cheguei!). Aliás, para muitos, não é sorte do país, mas do partido que está no poder, o que me soa bastante insólito. Se vamos sediar uma Copa do Mundo, é porque houve acordos inconfessáveis de bastidores, como se o lobby fosse invenção brasileira (antes fosse). O negativismo é de rigor, e ai de quem destoe! Portanto, amigo exilado, simule indignação e concorde, se não quiser perder os amigos e o couro.

A negatividade é mais grave, creio eu, no Rio de Janeiro, que foi cidade realmente maravilhosa e vive há trinta anos sob o domínio da decadência e da desfaçatez. O resultado, potencializado por um monopólio de mídia que há muito já passou do quase, é um povo que deseja ardentemente o derrotismo, a humilhação, a vergonha. É uma espécie de síndrome de Estocolmo auto-aplicada. O carioca está tão convencido de que só é possível vencer por meio de maracutaias que, quando surge um triunfo limpo, ele é logo assoberbado por despeito e sabotagem. Já é consenso que a Olimpíada será um fracasso, por exemplo, embora seu sucesso dependa apenas de uma breve concentração de esforços, leia-se boa vontade, isto é, força de vontade.

Estou escaldado. Fui dizer que o astral das pessoas nas ruas parecia melhor e já ouvi que provavelmente tinha visto bêbados. Fui dizer que as ruas pareciam mais limpas e ouvi que era para enganar turistas. Fui dizer que havia menos mendigos e ouvi que eles tinham mudado de área, sei lá com que intenção. A infelicidade, neste país e, particularmente, nesta cidade, se tornou tão obrigatória quanto a vistoria de veículos. Isso seria chocante, se eu já não estivesse careca de saber. Eu e minha mania de querer discordar dos outros! Devo ter perdido muitas amizades assim, de gente que hoje talvez me considere meio amalucado.

Mas já que o tema é choque, há uma coisa, sim, que me chocou. Trata-se da rádio USP, de São Paulo (naturalmente), FM 93,7. Era uma de minhas rádios preferidas, a única que tocava a boa música brasileira regularmente, sem se aproveitar da sigla “MPB” para nos obrigar a ouvir pop-zinhos totalmente desqualificados. Sintonizei-a e, para minha grande surpresa, tocava uma daquelas músicas dançantes americanas dos anos 80 que se ouvem em tantas outras estações. É claro que tomei um susto. Fui perguntar a amigos e fui informado de que, de fato, a programação mudou.

Não é chocante? A única emissora paulistana em que se podia escutar de Paulinho da Viola a Jacob do Bandolim passou a se dedicar a A-ha e Duran Duran. Por quê? Falta de público? Mas estamos falando de uma estação estadual, ligada à principal universidade do Estado. Não deveria ela preocupar-se mais com a difusão cultural do que com o lucro imediato? Uma rádio pública é um investimento, ou seja, tem um custo. Por que encarar esse custo, se o produto final é só mais uma concorrente de todas as outras rádios, privadas, oferecendo o mesmo produto que elas, ou seja, algo que podemos tranqüilamente ouvir em qualquer estação? O que está por trás dessa mudança? Quem teve a idéia? Eis aí uma das mais chocantes “coisas do Brasil”…

PS: A belíssima e formidável artista que guardo em casa está apresentando sua peça Strindbergman no espaço cultural Sergio Porto, Rio de Janeiro, Humaitá, às quartas e quintas, 21h. Em Paris e São Paulo, foi um sucesso inquestionável. Vejamos agora a quantas anda o bom gosto dos cariocas. O site do espetáculo é www.strindbergman.com.

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Olhos nos olhos

Peço desculpas a Chico Buarque por pegar emprestado o título de sua canção… mas acho que ele não se oporia. Além disso, se é para copiar alguma coisa, que seja uma obra genial. E sou, como já admiti em outras entradas deste espaço, enormemente fascinado pelo poder acachapante do olhar. Nos versos de Chico, a mulher (preciso elogiar a interpretação de Maria Bethânia? Acho que não, pega mal repetir o óbvio) manifesta seu despeito conclamando o antigo amante a revelar, olhos nos olhos, o que lhe causa a felicidade que ela está segura de ter reconquistado. Sou da opinião de que sem a indicação dos olhos nos olhos, o desafio seria nulo. Fraco, artificial, uma tentativa irrelevante de concretizar uma crença meramente racional.

De fato, só mesmo o encontro intencional de dois pares de olhos, recheados, estourando de intencionalidade, pode fixar de fato uma mentira, uma verdade, uma opinião autêntica. Mesmo a razão só consegue, no máximo, pronunciar essas coisas todas. Pode ser em fonemas ou letras, ou ainda gestos, imagens símbolos, qualquer coisa capaz de transmitir um sentido, mas é mera pronúncia, não é transmissão. A fixação, mesmo, só se dá quando os sujeitos se encaram, e se encaram de verdade.

Pois é aí que isso me toca: poucos são os olhos que tenho para olhar e, céus, que falta fazem! Não me entenda mal: os olhos estão por toda parte, surgindo e desaparecendo a cada estação, a cada esquina, em cada sala. Mas que quero eu com esses olhos urbanos, que fogem para o anonimato a cada ameaça de encontro? De tal forma eles me exasperam e entristecem, que prefiro, sem perceber, sufocar minha natural indignação gregária. Resulta que me torno um igual, frio e furtivo como todos os demais, a ponto de escolher a solidão que já me era imposta.

Não, muito antes disso, careço daqueles olhos quentes que se iluminam à nossa vista, os olhos, sem mais rodeios, dos amigos. E se pode parecer estranho que eu não diga, direta e simplesmente, que tenho saudades dos amigos, é que a questão é outra, bem mais complexa. Mais urgente é a presença e, na presença, claro, o face a face: olhos nos olhos. A situação primordial em que um desacordo milimétrico entre palavras e alçar discreto das sobrancelhas atesta, de imediato, a existência de um problema, uma dor, qualquer coisa que o amigo esconde – e esconde, no mais das vezes, de si mesmo. A expressão cúmplice que precede e acompanha o vidro-no-vidro, o copo-no-copo, o olho-no-olho de um brinde camarada, uma expressão sem a qual o brinde é só bebedeira.

Nada contra, por favor, meus contatos como têm sido nos últimos anos! O alô, o “como vão as coisas”, ou “o que tem feito”, “está fazendo muito frio por aí?” e outras frivolidades. Frio está, claro, mas não tanto quanto a frieza dos telefones, dos e-mails que mais parecem relatórios de atividades, em que se vai sabendo de quem casou, quem separou, quem arranjou tal ou tal emprego e mudou de cidade. Fico perturbado só de pensar quanta desgraça, quanto sofrimento, quanto Prozac pode estar escondido debaixo de um “por aqui, tudo ótimo, e por aí?”!

Restam, é claro, os novos amigos, os olhos que se sorriem ainda desconfiados, quase em desespero pela própria raridade. Os brindes enfáticos, preocupados em se assegurar de que podem ser substitutos para a cumplicidade que se esfumou na distância. Verdade seja dita, às vezes isso pode acontecer, eles se correspondem, sim. É uma alegria, um enriquecimento, mas não um substituto que baste. Ademais, mesmo os bons novos amigos que se fazem vêm com prazo apertado. Quantos já não voltaram para casa e se tornaram, eles também, amigos de telefone e e-mail! A intimidade que se vai buscando no dia-a-dia resulta, em geral, algo ressabiado, embora fundamental. Como é estranho o permanente estado de sobressalto com a possibilidade de uma nova despedida e o retorno ao ponto de partida…

Talvez mais estranho ainda, e mais próprio à personalidade peculiar a este mundo que se vai construindo, são os contatos para os quais o velho (e, para muitos, ultrapassado) olho-no-olho nem entra em consideração. Nomes que aparecem nas navegações do tempo ocioso; amigos, e amigos de amigos, em redes sociais. Conversas por comentário, afinidade ou discordância na leitura de textos de terceiros, também desconhecidos. Programas de conversa à distância, digitada enquanto se realiza alguma outra tarefa, como a de escrever sobre a amizade para postar na internet.

Quase não me reconheço pela pouca surpresa que tenho da considerar como amigos pessoas que jamais vi, cujas vozes desconheço, cujos olhos nunca fitei. Alguns não passam de apelidos, pseudônimos, máscaras carnavalescas que, de inocentes, redundaram num autêntico seqüestro ontológico. Outros têm nome, sobrenome e fotografia publicada no perfil, e já é um alento, embora nada garanta que tudo aquilo não seja falso, inventado, um trambique, uma brincadeira. Nada disso, porém, impede que conversemos, contemos causos, ouçamos histórias, aceitemos palpites e conselhos. Não é incrível que nos entreguemos a relações dessas com a maior naturalidade? E será loucura imaginar um futuro em que esse seja o contato predominante entre as pessoas?

Loucura, talvez não seja, mas será menos humano. Ou então, claro, a humanidade é que terá de ser outra, o que não chega a ser uma hipótese tão absurda quanto pode soar. Somos uma raça que já quase não fala com a própria voz, parte em viagens sem deslocar o corpo, dobra a própria existência em mundos codificados, por pura diversão. Então, nada de ilógico em pensar que não olhamos mais com os próprios olhos, não diretamente. Que mediamos toda a nossa percepção do mundo por um véu que, num eufemismo, chamamos de tela. Nos abraçamos por siglas e nos emocionamos com figuras coloridas. Se é assim que haveremos de ser, bom, assim sejamos.

Mas não sei se há lugar para mim num mundo como esse. Olho na tela, tela no olho, ondas e cabos transoceânicos fazendo as vezes do curto espaço entre os rostos de dois velhos amigos na mesa de um bar. Até onde posso enxergar, de meu ponto-de-vista ultrapassado pelo visto, é que pode ser todo feito de máscara e mentira, esse novo mundo que me exclui. Esse mundo que terá abolido o olhos-nos-olhos e às verdades, mentiras e opiniões que poderiam ser feitas restará apenas ser pronunciadas.

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Blood, toil, tears and sweat

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Das outras vezes em que passei a noite em claro desde que vivo em Paris, foi para ver futebol. Ontem, abdiquei de acordar a tempo de ir ao curso de alemão para viver a História in the making. À distância, mas em tempo real, como só nossa era de conexões pode permitir. Olhos inchados, sobre a escrivaninha uma caneca de chá, trêmulo de frio e expectativa, passei horas no portal da CNN, a clicar sobre os mapas dos Estados americanos, vendo a subida dos números, acompanhando os comentários da torcida democrata em blogs e jornais, que, em poucas horas, passaram da apreensão esperançosa a uma torrente incontida de emoção, alívio e orgulho.

Eram quase seis horas da manhã na Europa quando começou o discurso da vitória de Barack Obama, no Grant Park de Chicago. Ohio e Virginia acabavam de revelar sua definitiva mudança de lado. A Flórida estava a caminho. Enquanto esperava a subida ao palanque do presidente eleito, a cobertura da BBC exibia cenas da celebração no Quênia, terra do pai e de muitos meio-irmãos de Barack. Uma multidão cantava e dançava, em meio a declarações de que aquela era uma vitória deles, também, um pouco. E quem haverá de dizer que não era? Comecei a imaginar a expressão de algum redneck do Mississippi que estivesse assistindo àquela cobertura; não sem uma certa alegria sádica, pensei que ele talvez sofresse um enfarte. Pena que só existisse na minha cabeça.

E começou o discurso. O 44o presidente dos Estados Unidos é um pequeno milagre, para não dizer que é um grande milagre. Seu domínio da oratória é raro. Cada movimento de sua cabeça e de suas mãos, cada pausa no meio das frases, cada piadinha que quebra a gravidade da retórica, cada olhar, tudo é tão bem estudado que parece natural. A facilidade de sua expressão é tamanha que faz crer que improvisa. Certa vez, debati com meu pai um discurso de campanha do então recém-escolhido candidato democrata. Ele dizia que não empolgava, eu discordei. Sem falsa modéstia, eu tinha razão. Obama não pode imprimir a suas palavras um tom inflamado, que o associaria mais a Jesse Jackson e a Malcolm X do que a Martin Luther King Jr., cujo famoso discurso do sonho é evocado por dez entre dez comentaristas desta eleição. De quebra, ainda reduziria a percepção de sua distância do belicismo caipira dos republicanos atuais.

Obama, ao falar, inculca no ouvinte os atributos que quer: sereno, culto, preparado, forte, capaz. Sua fala é tão bem controlada que até nos momentos em que deveria perder o controle, não perde. Foi assim quando se referiu a Michelle Obama, “the love (pausa) of my life“, e a sua avó, que faleceu no final da última semana. À parte os agradecimentos, devo dizer que fiquei muito impressionado com a força e a beleza do discurso. Digno de Lincoln, King, evidentemente, e Churchill, também em versão de texto, porque a pronúncia não é nada fácil (se não tiver paciência, pule direto para o último parágrafo, que é o ápice da beleza oratória). Melhor, creio, do que Kennedy. Em política, saber falar é tão importante quanto saber costurar acordos ou administrar a economia. Também nesse aspecto, Obama começa muito bem.

Nem preciso dizer que sou fascinado pela arte da Oratória. Talvez porque eu mesmo falo muito mal: tendo a embaralhar as palavras e perder a atenção do ouvinte. Que dirá de uma multidão… A vantagem de viver no estrangeiro, aliás, é que, com o sotaque, tudo se perdoa. Admiro, até invejo, quem consegue segurar o público só com a força de sua presença e de sua voz. Mais além, a palavra é um dos fenômenos que mais me fascinam. O poder de falar é determinante. É quase irresistível. Apaixona, como se vê pelos olhares vidrados da multidão que segue a voz clara de Obama, como investidores seguem sem pensar as ondas do mercado. A persuasão das belas palavras leva às lágrimas homens feitos, grisalhos, que em teoria viveram o suficiente para não se deixar emocionar e conduzir tão facilmente. Milhares de pessoas abrem mão de sua individualidade para repetir o mantra irresistível da campanha bem-sucedida: “Yes, we can!

A oratória é uma arte perigosa, sim. Basta lembrar de Carlos Lacerda, de Joseph Goebbels, e da seqüência magistral de Júlio César, peça de Shakespeare em que Brutus e Marco Antônio discursam sobre o cadáver ainda quente do líder, e basculam as emoções da multidão romana pela simples potência de suas frases fulminantes. O bardo, com sua visão aguda, não deixa dúvidas: o erro estratégico de Brutus foi deixar o adversário falar; e por último, ainda por cima. O texto dá a entender que a história do Império Romano seria outra sem essa falha.

Mas Obama, como eu já disse, é um milagre. No ponto em que está, já realizou grande parte do que tinha de fazer como símbolo. Imagem do homem negro que supera os obstáculos e consegue unir todas as etnias do país. Encarnação do esclarecimento que esmaga o perigo crescente do obscurantismo. Um bofetão no rosto da tradição racista dos Estados do Sul. Só pelo fato de ter sido eleito, Obama já abalou as estruturas nefastas da desigualdade, embora ela não vá deixar de existir, e forte, mesmo que ele seja reeleito e conduza um governo impecável nos próximos oito anos. Obama já chegou mais longe que o doutor King. E já chegou mais longe que Bobby Kennedy, branco como a neve, mas assassinado sem ter a chance de vencer as primárias democratas.

Porém, há que entender-se que o Barack Hussein Obama que conhecemos já é uma página da história. Acabou. Daqui por diante, teremos um outro Barack Hussein Obama. Um presidente não é um candidato. Não há um inimigo claro, uma chapa John McCain e Sarah Palin, que não representa absolutamente nada em termos governamentais e administrativos, mas encarna com perfeição a política do atraso, a manipulação de emoções patrióticas belicistas, a mentira de um misticismo chinfrim que se faz passar por religião, a estupidez agressiva travestida de honestidade simplória, que obteve dos eleitores do país mais rico do mundo a bagatela de cinqüenta e cinco milhões de votos. Eis o número de americanos que saíram de casa para escolher o absoluto vazio.

Isso já ficou para trás. Obama não é mais um antípoda dessa gente, ele agora é seu líder. Escolherá um ministério, enfrentará uma crise, tomará decisões difíceis. Negociará acordos comerciais com outros países, inclusive o Brasil, e será duro nas negociações, como espera seu eleitor. Será criticado por jornalistas e zombado por comediantes, como todos os presidentes de todos os países, salvo, no máximo, as piores ditaduras. Ele deixará de incorporar a esperança. Passará a representar um país. Sua oratória será fundamental nessa nova etapa de recessão e guerra, mas não será tudo. A grande, a verdadeira vitória que o novo presidente americano pode obter é outra:

Quando criança, eu vivia num subúrbio de Washington, D.C., e na minha turma da escola havia um único garotinho negro, de cujo nome já me esqueci (como, aliás, de todos os outros coleguinhas daquele tempo). Em várias aulas, a adorável professorinha, Ms. Flannery (engraçado, do nome dela, não esqueci!), se esforçava por nos fazer entender a importância da igualdade e o absurdo da discriminação racial. Certo dia, recebemos como dever de casa inventar uma história que envolvesse outros alunos da turma. Na que escrevi, todos os meus amigos eram abduzidos por alguma força inexplicável e se transformavam em pessoas más, muito cruéis. Eu seria o único a resistir e teria de salvar todos os demais. Um verdadeiro herói americano, digamos assim. Mas mudei o enredo. Achei, veja só, que estaria agindo como um racista se incluísse o colega negro na lista dos maus. No texto final, então, nós dois lutávamos lado a lado pelo triunfo do Bem. Ninguém jamais soube por que fiz a alteração. Meu colega ficou lisonjeado. Se fosse no Brasil, tenho certeza de que passariam a me olhar torto, com o tradicional “sei não”…

Contei esse episódio para chegar à vitória que Obama ainda precisa conquistar, nos quatro ou oito anos em que ocupará a Casa Branca. Ele terá triunfado se ações ingênuas como a minha se tornarem obsoletas. Se ninguém comentar uma decisão do presidente fazendo menção à sua cor. Se não pegarem mais leve, nem mais pesado, porque ele “é negro”. Se concordâncias e discordâncias passarem por cima do fato, como se fosse um detalhe. Ironicamente, o maior feito de Obama terá sido transformar sua grande diferença em qualquer coisa de corriqueiro.

É claro que não vai acontecer. Quinhentos anos de discriminação racial, escravidão, segregação, preconceito, não vão ser apagados por um ou dois mandatos. Mas já terá sido um ganho enorme se, no mundo inteiro, pessoas que sempre enxergaram a si próprias como inferiores por causa de sua pele puderem ter espaço para se impor como cidadãos plenos. Daqui por diante, todas as crianças, de todas as cores e etnias, do mundo inteiro, vão nascer e crescer com a imagem de um presidente americano que não é branco, não é W.A.S.P (OK, Kennedy era católico). Para essas crianças, a idéia de que o negro possa ser inferior ao branco não fará sentido. Eis a vitória que Obama terá de cavar enquanto estiver trabalhando no Salão Oval.

Estou convicto de que a madrugada fria que passei diante do computador e da televisão é algo que vou contar para meus netos. Valeu a pena.

PS: Sobre as eleições propriamente ditas, em português, recomendo os óbvios Biscoito Fino e Pedro Dória, além do excelente blog de Argemiro Ferreira. Para algumas frases bem escolhidas e traduzidas para nossa última flor do Lácio, recorram ao Animot. Para quem gosta de sarcasmo irrefreado, O Hermenauta.

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A opinião: bunda ou apêndice?

Parte 1: um perfeito nariz-de-cera (internautas sem tempo podem pular para a parte 2).

Quem visita meu blog há mais tempo talvez se choque com a falta de compostura no título desta postagem. Há quem pense que eu prefiro evitar o risco de ofender a sensibilidade das senhoras respeitáveis (um grupo que, neste era mesquinha em que vivemos, inclui cada vez mais senhores, rapazotes e moçoilas, gente que de respeitável só tem a fleugma; máscara, se preferirem). Isso até poderia ser verdade, porque tento dar sempre preferência à confrontação de argumentos, em detrimento da estratégia mais comum do choque puro e simples. Até admiro os chocantes, mas seu modus operandi, no mais das vezes, leva o leitor-alvo (em todos os sentidos) a ir navegar por outras plagas, sem se incomodar com essa chatice que são os argumentos cortantes, estruturados ou não.

Mas acontece que as (e os) tais senhoras respeitáveis não têm o menor pudor de me chocar. A mim, que tanto me preocupo com elas! Nem ligam de ofender minha inteligência, nem de faltar com o respeito para com todos que, sem se travestirem de “senhoras”, também são dignos de respeito. Fico chocado, e profundamente, de ver a desfaçatez com que essa gente urbana, estudada e, vamos lá, respeitável ergue a voz para emitir juízos obscurantistas como se fossem a conclusão de um raciocínio rigoroso, para logo em seguida dispensar, com um sopapo – desrespeitoso – qualquer idéia contrária, por mais fundamentada que seja. Fico ainda mais chocado com o fato de que toda essa gente respeitável move mundos e fundos para obrigar o resto do universo a viver de acordo com seus princípios, a ponto de colocar em risco qualquer outro princípio, mesmo alguns mais universais e mais indispensáveis. Resumindo, o que mais me choca é a passividade com que vamos caindo no mesmo mundo cruel e cego em que passamos tantos séculos, de que foi tão penoso começar a sair, de que ainda nem tínhamos conseguido escapar por completo.

Por isso, o título e mote deste texto: a opinião é como a bunda ou como o apêndice?

Parte 2: o choque das analogias anatômicas

O dito tradicional estabelece, com um sarcasmo delicioso, a primeira assertiva: “opinião é que nem bunda, cada um tem a sua”. Correta ou não, a frase não é neutra, como nenhuma é; ela tem conseqüências perniciosas. Legitima o fato de que, após uma discussão acalorada, cada um segue seu caminho com a opinião intocada, muitas vezes disposto a cometer as maiores atrocidades em nome das platitudes que pensa e não vai deixar de pensar, porque, afinal de contas, é sua opinião, assim como sua bunda é sua bunda e assunto encerrado.

A opinião, se concebida como bunda, por parecer inofensiva tem carta branca para justificar atitudes nada indiferentes, nada inocentes. Mas, ora, a própria bunda é de fato inofensiva! Uma, ou antes, duas camadas de gordura recobrindo um par de músculos, para protegê-los quando o indivíduo se senta. Não há nada de perigoso numa bunda, ao contrário das opiniões (a não ser, naturalmente, para as pulsões que muita gente “respeitável” abafa no fundo mais obscuro do inconsciente). Colocando de lado essa parcela sinistra da população, está claro que a analogia deve ser rejeitada. Por isso, venho propor, em seu lugar, uma outra analogia, que tampouco é perfeita, reconheço, mas já melhora bastante a compreensão do fenômeno. Ficaria assim: “opinião é que nem o apêndice. Cada um tem o seu, até que seja extirpado”. Apesar da imperfeição no paralelismo dos gêneros, dou garantia de que as vantagens são óbvias. Vamos ao exame.

Extirpar uma bunda é uma intervenção traumática, violentíssima. Salvo no caso de um tumor de que nunca ouvi falar, a gluteotomia (perdoe o neologismo, não resisto a um trocadilho) é injustificável. Imagino que a vida sem bunda seja insuportável, quase impossível; a bunda é mais importante do que parece. E o apêndice? Ora, basta uma dor mais forte para que nos desfaçamos dele em dois minutos. Se o médico diz: “é apendicite”, a resposta é imediata: “opere!”. O apêndice não faz a menor falta, não serve para nada. Cirurgia nele.

O problema é que a opinião, ao contrário do apêndice, tem serventia outra, além de inflamar. Eu deveria ter usado a “amígdala”: ela também parecia ser só um enfeite incômodo, mas depois que milhões de adolescentes se deixaram desgoelar e se tornaram mais suscetíveis a laringites e faringites, ela se revelou um pouco menos inútil. Agora é tarde, sigo com o apêndice, até porque ainda é possível que se descubra uma função para ele; nesse caso, quem o arrancou antes de confirmar que a dor era uma apendicite “daquelas”… vai ficar amargurado.

Ver-se sem opinião é muito parecido. Tem uma infinidade de situações em que, em conseqüência de um episódio em que opiniões estejam envolvidas, a cabeça do cidadão se põe a doer como a virilha de alguém com apendicite. Nessas horas, o que não falta é gente se apresentando como cirurgião, pronta para operar a cabeça do coitado. Mas não são neurocirurgiões, por favor, olha a capacidade de abstração! São médicos da mente e médicos da alma… porém, não havendo CRM para isso, resulta que esse é um campo onde os charlatães abundam. (N.B.: malgrado a semelhança fonética, a última palavra não implica um retorno à primeira analogia da opinião.)

Como operam esses enganadores opiniáticos? Muito simples. Para demonstrar, voltemos à nossa breve suposição de dois parágrafos acima. E se descobrissem que o apêndice cumpre um papel fundamental, por exemplo, na digestão, e que, no longo prazo, sua falta é garantia de um câncer intestinal? O que fariam os médicos (os verdadeiros)? Provavelmente, algo parecido com o que se faz com quem extirpou as amígdalas, que precisa tomar antibióticos mais pesados ao menor sinal de incômodo na garganta. Assim, a cada refeição mais, digamos, caprichada, o sem-apêndice precisaria engolir algum remédio, uma pílula desenvolvida e fabricada com o fim específico de substituir a função do adendo perdido. Ou seja, uma pílula ERSATZ (sempre quis encaixar a palavra “ersatz” num texto deste blog. Finalmente consegui!).

No caso das opiniões, é a mesma coisa. Livros e líderes oferecem prateleiras e prateleiras abarrotadas de opiniões ERSATZ, ou seja, substitutas de opiniões verdadeiras. E, como é de praxe nas modernas sociedades industriais, o que não falta são critérios em potencial para a escolha. A apresentação, por exemplo: embalagem, rótulo, capa, cor, logotipo. Ou então, o estilo de vida que aquele produto (quero dizer, aquela opinião) simboliza: arrojado, dinâmico, respeitável (ah, não!, essa palavra de novo!)… Ou ainda o preço: idéias baratinhas são ótimas para conquistar mercados mais vastos. Finalmente, não nos esqueçamos do maior teste a que uma mercadoria pode resistir: a prova do tempo. “Nossa idéia está no mercado há mais de cem, há mais de mil anos. Bilhões de pessoas já aderiram! O que você está esperando?”

Como para as pílulas, como para toda mercadoria, os modelos são inúmeros. Vejamos, por exemplo, os que se encaixam como uma luva para os mais esquentadinhos. São opiniões radicais, intolerantes, sustentadas, no mais das vezes, por bravatas e afirmações peremptórias, tão autoritárias que intimidam o insensato que cogitar questioná-las. Vendem como água.

Também existem as opiniões projetadas com vistas às boas almas. Essas são igualmente intolerantes, mas se baseiam em princípios transcendentais, eternos, imutáveis, cuja justificativa está além, muito além da pobre finitude humana, de sua triste razão, tola e limitada. Para essas opiniões, é assim porque não poderia ser de outra forma, mesmo que possa; e se puder, que a possibilidade seja um escândalo, um desacato, um deus-nos-acuda. A lógica que rege essas opiniões ersatz é das mais banais: se seu pressuposto é a intrínseca bondade do opinador, logo (ergo, dirão os pedantes), necessariamente o pressuposto de toda opinião contrária, ou apenas diferente, é o mal.

Nada, porém, faz mais sucesso entre pacientes dos doutores opiniáticos do que “a opinião para quem quer justificar o que já vem fazendo”, apesar de ser a mais dispendiosa. Disparado. Alguém que teve extirpada sua capacidade de produzir opiniões por conta própria precisa, naturalmente, de antibióticos para evitar infecções hospitalares. Precisa de remédios que ajudem na cicatrização. Precisará, naturalmente, de uma fisioterapiazinha, que consistirá na leitura de periódicos e opúsculos escolhidos a dedo, quais sejam, os que carreguem nos elogios ao estilo de vida do convalescente. Por fim, precisará recuperar a área operada, maquiá-la, reproduzir a aparência normal. Pois bem, essa opinião ersatz é a mais completa de todas. Ao final da aplicação, o paciente terá uma postura impassível, um ar de superioridade, uma segurança inabalável, típicos de quem está acima das controvérsias porque já constatou, bem antes de todo mundo, qual é a grande verdade sobre a vida. Os argumentos em contrário são rejeitados com um alçar dos ombros. Os pobres mortais que ainda não entenderam como tudo é tão óbvio, ah, esses só merecerão um suspiro condescendente. Cá entre nós, é preciso meter a mão no bolso, mas essa opinião ersatz vale o investimento!

Depois de tanto palavrório, acredito ter provado que a opinião, como um todo, se parece muito mais com o apêndice do que com a bunda, embora a bunda, normalmente, seja muito mais bela do que o apêndice. Na verdade, entender que a opinião é como a bunda decorre de uma observação muito empírica da realidade, preguiçosa demais para lhe buscar os princípios. De fato, olhando em volta, parece mesmo que todas as opiniões são bundas num doce balanço a caminho do mar. Mas isso é só aparência: o que acontece é que todas essas opiniões são ersatz. As verdadeiras opiniões, aquelas que têm alicerces e podem ser substituídas por outras mais sólidas, são coisa rara.

Todos os seres humanos têm capacidade para desenvolvê-las, mas a quase totalidade de nosso gênero prefere chamar o cirurgião e arranjar logo uma ersatz, muito mais prática. A supressão da opinião é uma moda, uma febre, muito maior e muito mais duradoura do que a do implante de silicone nos seios, para dar um exemplo idiota. De tal maneira que as opiniões se tornam, de fato, como as bundas. E têm em comum com elas, de fato, a cadeira, poltrona ou sofá em que passam a maior parte de seu tempo. Daí, entendemos agora, a analogia consagrada.

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A segunda verdade

Para fazer crer que Florença é uma maravilha

Um dia alguém me disse que, editando imagens, a gente se sente um artista. Quem foi, não lembro, sei é que mentiu. Há mais de ano venho aprendendo, ainda grosseiramente, a manipular minhas fotos. Mando o programa reforçar as cores, reduzir o brilho, aumentar o contraste. Corto o que não interessa, cubro o feio com belezas importadas de outras figuras, de chapas batidas meses mais cedo, em outros lugares, cidades que nem falam a mesma língua. Misturo, retoco, distorço, enfim, brinco um bocado. Mas… que artista, que nada, eu me sinto é como criança.

Quando pequeno, eu desenhava absurdos. Queria resumir no mesmo enquadramento todos os capítulos de uma história que se ia criando ao instante, sem roteiro, no cruzamento caótico das imaginações múltiplas. Alguém que acompanhasse a inquietude dos meus dedos, tiranizando o lápis e as canetinhas coloridas, se desviasse a atenção por um segundo, voltaria surpreso. Da folha em branco teria resultado uma loucura de linhas e círculos, suja, pesada, grossa, incompreensível. Para mim, uma epopéia intergalática ou coisa que o valha. Para qualquer outro, garranchos e só. Mas eu não me incomodava. Enquanto a idade e a escola não metiam semáforos nessas encruzilhadas, eu me divertia com a composição das quimeras que, querendo abraçar a narrativa, a figuração e a temporalidade, acabavam sem se agarrar nenhum.

Alto-relevo de flor no Fórum de Roma

Pequeno, eu também dizia absurdos. Tanto quanto os desenhava e até mais. Pensava que a fantasia valia pelo real, agia em intermediário entre um e outro, convencido de que meu universo particular se bastava, era completo já, com tão poucos anos de formação (mas, para mim, eram todos os anos que pudesse ter havido). Os disparates que eu dizia, se punham em gargalhadas os grandes da família, não carregavam a carga pejorativa da mentira. Pelo menos não como eu a entendia, o crime das supremas punições. Não, eram inocentes idéias, que se vinham organizar como num quadro de avisos, substitutas de um mundo que se dava a perceber rápido demais, desordenado, sem interesse, feinho, muito opaco para merecer meu apego.

Agora, crescido (em algumas coisas mais, em outras, nem tanto), eis que me flagro entusiasmado, como uma criança, diante de um computador. À minha frente, uma foto qualquer, tirada no meio de uma viagem ou de um passeio pela cidade. Alta é a chance de que já empunhasse a câmera com a idéia de fazer uns retoques mais tarde. Faço-os agora, o programa oferecendo três fileiras horizontais, mais duas verticais, com alterações que posso impor ao retângulo inocente. Imponha-as!, é o que parece exigir a máquina. Para ela, o golpe do obturador é sempre muito pouco, ele que já secciona, congela e falseia um segmento do universo. É imperativo, prossegue o computador, nesse diálogo delirante, fazer uso das minhas ferramentas!

E obedeço, como criança. Mas tento não exagerar: o resultado estético é tão importante quanto o técnico, porque dele será derivado o poder retórico. E não há retórica mais sediciosa que a da imagem, quando se passa por espontânea. Talvez seja aí que o artista exerce seu sarcasmo, com edição ou sem. O artista, seja qual for sua intenção, é um sarcástico porque, ao contrário da criança que só quer desvendar o mundo, ele busca a força da retórica. Sua segunda verdade, escudada na estética, tenta se esgueirar para dentro da primeira, desdobrá-la e multiplicá-la.

O Photofilter salvou esta imagem da perdição definitiva

Acabo de descrever o artista como um sofista maquiavélico. Foi um erro. Passei por cima da beleza de seu trabalho, a investigação tátil dos materiais deste mundo. Comparei-o à criança, mas não o comparei ao adulto, seu verdadeiro concorrente. Aquele que, como a criança, diz do mundo disparates, apoiado em sua experiência do real. Com a diferença de que a criança gosta de seus disparates enquanto tais, não quer deles mais que a delícia da invenção. Já o adulto sustenta o edifício de suas verdades sobre a reconstrução que faz, sem querer, sem saber, do entorno. Chama de verdade algo que lembra, mas a memória não é fato, é imagem. Como a que vou trabalhando no editor, lentamente, até que corresponda ao ideal daquilo que retrata, bela e formatada.

O artista entrelaça à primeira verdade uma segunda, de sua lavra. E está em seu direito, pois que aquela primeira, a real, a dos fatos ou que assim se crê, não é feita da carne, do material deste mundo. Ela é composta de proposições e conceitos que, como os garranchos e os disparates das crianças, ocupam o lugar da bruma fluida de uma realidade muito imprecisa, vaga, confusa demais para as consciências maduras e orgulhosas de o ser. A primeira verdade, no fundo, no fundo, já não é nada mais do que uma reconstrução improvisada, que tenta se harmonizar com o mundo indizível, mas não consegue evitar os confrontos, sempre tão freqüentes.

É por isso que minha edição de imagens não aspira ao artista, mas também não atinge a criança. Retoquei o monumento de Genebra porque as cores estavam pálidas, debaixo do sol que não teve trabalho para ofuscar a objetiva, embora em mim não causasse o menor desconforto. Escondi uma enorme bola de futebol que, à força de celebrar a Eurocopa, vulgarizava o lago. Escolhi que uma determinada vista de Paris deveria ficar em preto-e-branco, porque desbotada e pálida estava minha alma no dia em que a registrei. Não foi fantasia, nem retórica. Foi falsidade ideológica, um estelionato cuja vítima é minha própria experiência.

Eis a essência da fraude. Contemplo minhas próprias fotografias em busca das emoções de tempos vividos. Mas as emoções que elas contêm estão todas nelas e em nenhum outro lugar. Evocam lembranças que não partem do passado, mas da imagem, só da imagem. Editadas, redobram seu poder de convencer meus olhos e ouvidos, como as mulheres que, belas e às lágrimas, nos dão a crer que as fazemos infelizes.

Quem diria que isso é história, largada no meio dos turistas!

A imagem é mentirosa tanto quanto a palavra. Como quando digo a alguém que estou feliz ou que estou triste e entendem o que quero dizer, muito embora ignorem sempre de que é feita minha alegria, meu pesar. Mas a palavra voa, a imagem fica, seduz, não carece de um idioma comum para se remontar nas retinas. Enquanto trabalho, suponho um mundo construído apenas com imagens, quais tijolos. Entre o olho e uma figura, sempre apenas mais imagens. Parece terrível, parece pesadelo, mas não: afora o ganho de clareza e o silêncio extasiado, não é diferente de um mundo construído com palavras. A comparação, no fundo um silogismo frouxo, me reconforta. E sigo trabalhando, submerso no passatempo infantil dos meus retoques.

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abril

A grande transformação*

Gente Sentada No Parque
Novamente sobre o Primeiro de Abril, quando saí de casa em busca de uma mentira e não encontrei. Como já expliquei no último texto, aliás. Por outro lado, e para meu grande espanto, o que encontrei foi uma nova cidade. Absorto na minha busca infrutífera, ganhei a rua, mas antes mesmo de atingir a esquina, já me sentia deslocado. Esta não é a mesma Paris de ontem, isto é, 30 de março; estes não são os mesmos parisienses. Terei atravessado um portal místico ao empurrar as cinco toneladas da porta do edifício? Terei sido transportado para outra realidade, outro país? Meu humor anda assim tão bom, que vejo tudo de outra forma?

Rumo ao pequeno parque escondido nos fundos do bairro, percorro as ruas do quotidiano como se explorasse as veredas de Atlântida. Mesmo os mendigos, encalacrados pelos últimos meses nas soleiras e nas escadarias do metrô, têm o ar de quem toma sol. Sentados em banquinhos de três pés, pedem seus trocados com gentileza, numa subversão tão perturbadora do desespero do inverno, que chega a parecer artifício. Um motorista com vocação para Nakajima quase atropela um motociclista, mas nem por isso um xinga o outro. Ao contrário, produz-se ali a Segunda Revolução Francesa: um pede desculpas ao outro e segue sua vida.

Quanto às moças, as célebres patricinhas francesas, elas trocaram seus cachecóis felpudos e brilhantes por coques estilizados. Chego a perder um minuto observando uma dessas estruturas de melenas: parece projetado por Calder, tamanha a delicadeza do equilíbrio, sob a ameaça da primeira brisa. É abril. Adeus botas de saltos mais altos que os canos, olá saias curtas e sandálias.

Descrito assim, pode parecer caso de dia ensolarado, mais quente do que os anteriores, irreversível final do inverno. Ledo engano. Primeiro de abril não foi mais quente do que 30 de março. Talvez a média tenha ficado até um ou dois graus mais baixa. Sol, houve. Menos do que no dia anterior, mais do que no seguinte. O horário de verão já vige desde o dia 21. Oficialmente, já temos quase duas semanas de primavera. Lanço a pergunta: que raios, afinal, mudou tanto de segunda para terça-feira?

Resposta singela, mas verdadeira: o mês. Nada mais. Não há ato psicológico mais forte que arrancar uma página de calendário. Abril é quando se fica mais alegre e se vestem roupas mais leves, certo? Pois bem: alcançamos abril, então é hora de inverter o guarda-roupa. Se eu disser que o francês deixa a condução de sua vida, em muito vasta medida, a cargo de datas, horas e outras funções matemáticas, vai certamente parecer exagero. Mas afirmo que, se for, é por muito pouco. A metamorfose está aí que não me deixa mentir. A mudança do vestuário não aconteceu gradualmente, tampouco a do humor. Foi, literalmente, de um dia para o outro.

É a regra. O mesmo acontece, por exemplo, no início do inverno. Os imóveis que têm aquecimento central automático o ativam, todos, quase sem exceção, em 15 de outubro. Eis o dia em que se começa a sentir frio. E, de fato, é o dia em que os casacos aparecem. Pouco importa que esteja muito mais quente que no dia 14. O dia 14 não é o dia em que se começa a sentir frio. É o dia 15, esse sim. Eis o dia, repito. Ponto final.

Cheguei a desenvolver uma teoria sobre o Primeiro de Abril. Assim como é a data em que as roupas se tornam leves (sob o risco de tiritar, não nos esqueçamos), é também o momento de começar a demonstrar alguma alegria, de vez em quando. Os sorrisos guardados no fundo do armário podem sair, empoeirados e cobertos de um ligeiro bolor. Daí a idéia de instituir a data de zombaria sobre os outros, de ser maldoso, mentir, pregar peças. É mais um pretexto para dar risadas; afinal de contas, os europeus precisam de fortes incentivos para gargalhar e, quando o fazem, normalmente exageram. Ainda hei de publicar uma tese a respeito.

Quanto ao que há de extraordinário e acintosamente belo na primavera de Paris, especificamente em abril, prefiro me ater ao texto do ano passado e à música que, naquele momento, embalou meus dias.

Na semana que vem, os plátanos prometidos!

* Título plagiado da obra magistral de Karl Polanyi.

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Todo dia é dia da mentira

Tela E Chao
Quis postar ontem alguma grande mentira, aproveitando o Primeiro de Abril. O mais difícil, eu já sabia, seria criar uma lorota tão crível que se destacasse de todas as outras mentiras que publico neste blog, já sem grande compromisso com a verdade. Quebrei a cabeça de madrugada, não dormi, subi e desci pelo metrô pensando em lograr o leitor. Falhei na missão. Estou tão acostumado a mentir quando escrevo que, ao precisar fazê-lo deliberadamente, acabo enredado na confusão de versões e percepções. Condenado pela fé nos fatos. Só que aqui é caso de texto, não de fato.

Quando alguém escreve, parte de uma impressão, talvez uma idéia, no máximo um conceito, para chegar ao texto. A grande desgraça e, ao mesmo tempo, a grande riqueza desse processo é que – e isso é um fato acima de todo questionamento – o produto resulta sempre, sempre, infiel à afecção que deu origem ao palavrório. Quem procura no texto alguma bela verdade cai na armadilha da ilusão perniciosa. Mas aquele que lhe extrai certeza e dogmatismo só pode ser tolo ou desleal.

A salvação está no fato de que não apenas o texto é infiel às impressões, mas as impressões traem o texto despudoradamente. O velho poeta que conta nos dedos as sílabas das rimas, o jovem que escarra na métrica e na assonância, o gabola que passa por cima dos versos e compõe em torrentes, todos esses são presas fáceis para a falácia de copiar suas emoções no peito do leitor. Isso não é possível. A relação entre um texto e quem o lê é insondável. Um neurologista pode se esbaldar com o cérebro de um leitor, cheio de campos acesos. Mas isso não lhe traz ciência do imaterial, e é de imaterial que tratamos.

Toda a beleza da leitura está nesse livre jogo de infidelidades. Aquilo que a alma reproduz ao receber o escrito depende mais dela mesma e menos de quem cortou os pulsos para aperfeiçoar a expressão; mas, no limite, é o fruto de ambos. Daí a frustração de quem crê ter algo a dizer ou a passar. Desconfio sempre dos autores satisfeitos, orgulhosos, realizados. E, nisso, jamais me enganei.

Nem poema, nem tratado, nem romance, nem cálculo algébrico: texto algum pode ter a ousadia de tentar reter os vapores do inconsciente. Nem à própria consciência, de onde saem palavras e gestos, isso é dado. Uma proposição pode ser prudente, pode ser rigorosa, pode ser aberta e repicada de ressalvas, mas não captaria as nuances do que pretende expressar. Morte à estatística, que se crê capaz de quantificar as imperfeições e discrepâncias de todo discurso. A porcentagem é desonesta.

Ao escrever, a única maneira de ser honesto de fato é apagar todas as palavras imediatamente. Engoli-las. É por isso que a fala é sempre mais sincera, mais humana e verdadeira. Uma frase pronunciada morre tão logo seja dita. A não ser na memória de quem falou e de quem ouviu. Mas isso é outro tema. Já diziam os latinos: verba volent, scripta manent. Podemos inverter a ordem do ditado: o texto fica, com toda sua inverdade. O dito voa, desaparece, subsiste apenas sob a forma de lembrança. Nada mais maneável do que uma lembrança.

Perseguido pelas mentiras que venho empilhando neste endereço há quase dois anos, saí pela rua atrás de uma boa brincadeira de Primeiro de Abril. Não a vi. No lugar dos chistes, dei com faces, edifícios, árvores, automóveis, lojas, mendigos. Verdades, enfim, todas elas a postos, à espera de serem transformadas em mentiras. Pacientes algumas, outras roendo as unhas, parecem acreditar que as frases vão torná-las imortais, reproduzidas como impressões e idéias no espírito do leitor. Eu mesmo, honestamente, já acreditei nisso.

Post scriptum: foram duas as coisas que me atraíram a atenção na tarde de ontem, e serão tema para as próximas duas crônicas. A mudança radical que se produz nos semblantes no início deste mês; e um par de plátanos na praça aqui atrás. Pode me cobrar.

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O que dizem as rosas


É engraçado. Ainda ontem, entreguei uma crônica para ser publicada no próximo fim-de-semana, e já agora percebo o quanto está permeada de mentiras. Mentiras, bom, talvez seja um termo brusco demais. Mas são certamente inverdades. No texto, desenvolvo as impressões que me causou a visão de uma mulher que cheirava uma rosa com o semblante pétreo de quem encarou Medusa. Isso aconteceu, sim; e é verdade que o fato desencadeou em mim uma corredeira de pensamentos. Todo o resto que escrevi não passa de suposições.

Ora, supor é diferente de inventar, no sentido de criar eventos, ficções, quiçá mentiras. A suposição é uma atitude legítima, provavelmente o atributo fundamental da mente humana, princípio de todos os demais. Só que implica certos riscos. Pode acontecer de alguém se perder nas próprias conjecturas, quando se entrega sem ressalvas às libertinagens do espírito. Resultado: acaba tomando por verdadeiras coisas que não o são. Meras hipóteses, sintetizadas por uma imaginação sem vergonha. Acho que foi o que houve comigo.

Não vi quando ela se agachou para recolher a rosa. Apenas supus que ninguém compraria uma flor tão pequena, amassada, indigna. Ela foi certamente resgatada do olvido da calçada. Tampouco virei o rosto para acompanhar o gesto final de desprezo da mulher, atirando a planta de volta a seu chão. Sei, de alguma maneira inexplicável, que ela o fez. Mas não vi. É inconcebível, ao menos para mim, que alguém mantenha a expressão tão rija ao sorver o perfume de uma flor, sem depois atirá-la à distância.

Finalmente, no momento em que a cena se desenrolava, não pensei, como escrevi na crônica, no milagre da técnica humana que traz flores – e, aliás, frutas – à Europa em pleno inverno. O raciocínio existiu, por certo, senão jamais poderia ter sido redigido. Mas foi posterior, fruto já do conforto do aquecimento, com um copo entre os dedos. Na hora, a autêntica, o que me veio à mente foi coisa muito diversa.

No instante em que o nariz da mulher roçou a ponta das pétalas, lembrei-me foi de Cartola. Da mais célebre de suas estrofes, dentre tantos versos fabulosos:

Queixo-me às rosas / Mas, que bobagem, as rosas não falam, / Simplesmente, as rosas exalam / o perfume que roubam de ti, ai!

Antes que interpretem a lembrança como um elogio à amazona, garanto que não foi dela que a flor roubou seu perfume. Que fragrância pode emanar da mulher que acantoa uma flor enquanto a cheira? Aquela, do alto de seu salto agulha, exalava no máximo a boa meia hora que passou no metrô abarrotado.

Lembrei de Cartola porque sempre me lembro dele. Não sei por que isso acontece. O pai da Mangueira ronda minhas especulações como um fantasma. Visitando o Brasil, constatei o banzo de que sofro ao tentar acompanhar a letra de Cordas de Aço e não conseguir porque, no meio do caminho, tinha a voz embargada. Por quê? E por que, de tanta boa música no Brasil que saltita em torno de rosas e flores, como uma ciranda temática, fui lembrar que as rosas não falam, simplesmente exalam o perfume que roubam de ti?

A mulher fria cheirou a rosa sem cheirá-la, sem tentar queixar-se a ela, nem entender de onde vinha o perfume. Mas, curiosamente, foi graças a ela que entendi em que palavra se concentra a força arrasadora dessa estrofe. Pois afirmo, sem recurso: está no advérbio. Ao cravar um singelo “simplesmente” no meio de seu poema (sim, asseguro que é um poema), o eterno Angenor de Oliveira fez de um samba, monumento. Uma mera palavra concentra as instruções para cantar – e tocar, claro – a música inteira. Pena que a maioria dos intérpretes não o perceba.

O próprio Cartola gravou sua música com um tom tão prosaico, que derrubaria mesmo a francesa que não sabe cheirar flores. Ele canta As Rosas Não Falam no tom exato em que qualquer mulher acredita no que ele diz. A menor variação transformaria o discurso em cantada barata: “as rosas exalam o perfume que roubam de ti, boneca”. Se, no lugar do “simplesmente”, o autor cometesse algo como “inversamente”, “ao contrário” ou “em vez disso”, a composição inteira estaria morta. Mas aí não seria o gênio, não seria Cartola.

Eis a verdade sobre o que pensei, de pé na calçada, tomando chuva, depois que perdi de vista a infeliz desalmada. A lembrança se reavivou de repente, enquanto eu pensava outras coisas, como queria Henri Bergson. O resto são elucubrações. Incrível como é preciso aceitar um pouco de mentira para produzir textos, evocar sentimentos, transmitir verdades.

Pois sim, a verdade vem sempre entremeada de incorreções e autênticas mentiras. O mesmo vale para a memória. A pureza, queremos crer que está em algum canto, elegemos-lhe um santo, construímos um altar para adorá-la. Admito que é ingenuidade minha, resolver assim depositar na autoridade da música de Cartola toda minha ilusão de pureza. Enfim, é o que é.

Mas vou limpar a mente / Sei que errei, errei inocente.

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O cartão nosso de cada dia

Cart%C3%B5es,+muitos+cartoes
Às vezes é difícil justificar, mesmo explicar, minha política geral de sensatez. Mas estou contente com ela, tem funcionado, está ótimo. Um de seus princípios mais elementares, por exemplo, é a proibição de entrar na corrente das discussões sobre os escândalos periódicos da política brasileira. Longe de ser um atestado de alienação, a estratégia está calcada em motivos muito concretos. Em primeiro lugar, estou fora do país: não tenho meios, nem paciência, para acompanhar de perto o desenrolar de cada novela de Brasília. Depois, porque não sou, nem pretendo ser, alguma sumidade em análise política e, no meu entender, não há campo pior para a ingenuidade do que esse, embora seja impossível navegar por blogs e jornais sem tropeçar num ingênuo. Também, porque há gente que faz isso muito melhor do que eu, e os que fazem pior, o fazem com uma tal autoridade que chega a confundir. Por último, é tanto escândalo, que um blogueiro pode acabar passando a vida inteira sem comentar outra coisa e, ao termo de seus dias, já nem se lembrará mais o que queria dizer todo aquele barulho.

Felizmente, minha política cerceadora é razoavelmente malemolente, bem à brasileira, flexível, contornável. Em resumo, deixa uma porta aberta para as disposições em contrário, e nem por isso deixa de se pautar pela sensatez irrestrita. Sendo assim, em casos particulares minha consciência pode admitir um escândalo político como tema, conquanto seja só um trampolim para reflexões de outra natureza. Por “outra natureza”, expressão vaga como ela só, tento traduzir desde um nível maior de abstração – discussões conceituais, digamos – até um problema que abarque os aspectos mais concretos de nossa existência nacional.

Feitas as explicações, mãos à massa. Esse último episódio, o dos cartões corporativos, pode ser muito útil para que nós, os brasileiros, compreendamos um pouco melhor nosso próprio espírito nacional (ethos, diria Norbert Elias). Aplicando minha política de sensatez, temos que:

1) Sobre a ilegalidade ou, se preferir, a imoralidade dos saques e compras com dinheiro vivo cujo proprietário legítimo é o Estado brasileiro, creio não haver muito mais a discutir. De fato, esse dinheiro tem sua origem em impostos e lucros obtidos com a venda do combustível caríssimo da Petrobras. Em resumo, é nosso, não deveria ser usado por amigos dos amigos de quem ocupa o palácio.

2) Cidadãos com muito gosto e pouca compreensão para a política andam aventando a possibilidade de remover o presidente, como conseqüência das denúncias e da próxima CPI que há de atrair os holofotes. Ora, não precisa ter grande vivência em Brasília para saber que isso é mais do que improvável: um evento do porte de um impeachment não é jamais o fruto de considerações éticas ou legais. É sempre, invariavelmente, uma decorrência do jogo político. Mas hoje, não interessa a ninguém, na política brasileira, tirar Lula do poder, ao contrário do que pensam certos comentaristas que vivem com a cabeça nas nuvens. A exceção talvez seja o Rodrigo Maia, filho do prefeito, que parece mais preocupado em colocar a cabeça fora d’água do que em navegar com sabedoria pelos canais do poder. Ou seja, tampouco é assunto.

Sobra o fato em si, e o que ele nos diz sobre nossa forma brasileira de agir. Dediquemo-nos a isso! Um dos traços mais interessantes do governo Lula é o caráter profundamente corriqueiro de seus vícios. As gafes, os escândalos, as pequenas atitudes muito vergonhosas em que cai o presidente parecem, às vezes, de naturalidade e inocência atrozes. Bebedeiras, pronúncia falha, assessores que usam o dinheiro público para gastos pessoais. É menos agressivo, porém mais ofensivo, curiosamente.

Parece que grandes desvios, negociatas e crimes do gênero são mais dignos da sujeira típica da política. Relevamos, para não dizer que perdoamos. Mas há algo profundamente incômodo nesses pecadilhos vulgares em que a atual gestão do nosso Estado é mestre. (Não estou dizendo que são os únicos que ela comete, bem entendido. A existência de pequenos delitos não exclui a grande sujeira, o mensalão está aí que não me deixa mentir.)

Existe um estranho, mas evidente, desequilíbrio nas nossas reações. Tão estranho que merece ser explicado. Eis minha proposta, nessa nossa investigação informal: graças às falhas do PT, estamos descobrindo o quanto são erradas atitudes que, normalmente, não temos vergonha alguma de tomar nós mesmos. A dos cartões é só a mais banal. Quantas vezes o brasileiro não vai a jantares de negócios e, pelo fato de poder usar dinheiro da empresa, não o próprio, aproveita para tomar vinhos mais caros até do que a casa em que vive? Em viagem, quantas vezes o brasileiro não saca, do cartão da empresa, os euros com que passeará na Champs-Élysées? E quantas vezes ele sentirá remorso por isso?

Talvez esse seja o ponto mais positivo de ter na presidência um sujeito que não recebeu a menor preparação para agir como um estadista (tempo para isso não lhe faltou, aliás). Lula e seu entourage cometem erros impensáveis numa equipe alinhada como a de Fernando Henrique (o presidente, não o goleiro). É vergonhoso, é terrível, mas tem seu lado bom. Expõe nossos próprios pequenos erros. A candura com que Lula reagiu à descoberta de que “isso não se faz” chega a ser emocionante. Assim como nós, brasileiros, quando avançamos os sinais vermelhos, damos “um jeito” de conseguir alguma coisa e passamos por cima da lei e da ética, não temos a menor idéia de que agimos de forma condenável. “É normal, ué!”

Os vícios do governo escancaram os nossos. Viva! Pelo visto, o Estado reflete a alma de seu povo, como já preconizava o decano Platão. Resta saber o quanto isso vai nos atingir. Não tenho grandes esperanças. Estou convencido de que vamos nos ater à etapa de lançar pedras contra as vidraças do Planalto. Resguardado, naturalmente, que não resulte em nada: imagine se, daqui a vinte anos, um garoto pergunta ao pai, para um trabalho de História na escola, por que o presidente Da Silva foi afastado do cargo, e o pai, em pleno gesto de apanhar o cartão da empresa para pagar alguma conta pessoal, lhe responde: “porque fez o que estou fazendo agora”? Que situação desconfortável! Pensar em mudar a atitude do povo inteiro é uma temeridade. Melhor pensar em outra coisa.

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