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Uma guerra à sociedade civil

Mesmo que nestas eleições não aconteça o pior, parece ter se formado o consenso de que nos próximos anos vamos continuar mergulhados no caos político, no conflito social e na estagnação econômica. É evidente que o triunfo do picareta protofascista torna tudo pior e instala o caos imediatamente. Mas mesmo se o próximo presidente for um dos candidatos do campo democrático, o sistema político está tão bagunçado e o tecido social tão esgarçado, que dificilmente um governo terá a estabilidade necessária para governar sem sustos.

Esse consenso é explicado, no mais das vezes, por dentro do próprio sistema político. A trajetória do PT, tanto no governo quanto fora dele, tentando garantir a hegemonia no campo da esquerda e forçando a candidatura de Lula. As atitudes dos tucanos, que promoveram a tese da derrubada de Dilma logo depois da eleição e estimularam o crescimento da direita raivosa. A falha de Marina Silva em capitalizar seus bons desempenhos eleitorais de 2010 e 2014. Os oligarcas e os fisiológicos que buscam se preservar de todo modo, mesmo que isso signifique jogar o país nas mãos da barbárie.

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Um segundo elemento de explicação muitas vezes levantado é internacional, lembrando da vitória de Trump e do Brexit, além do crescimento da extrema-direita em países como França, Alemanha, Itália, Polônia. Muitos lembram da influência de Steve Bannon, que colocou o laranjão na Casa Branca e pode agora colocar o amarelão no Planalto.

Tudo isso é fato; mas a melhor comparação é com países de renda média, mais semelhantes ao Brasil: Filipinas, Turquia, Hungria, Venezuela. São países que já caíram nas mãos de regimes autoritários ou com tendência ao autoritarismo, nas mãos daqueles que os anglófonos chamam de “strongmen”.

Frágil como é o Brasil – socialmente, politicamente, culturalmente –, não chegará a ser surpreendente se algo semelhante acontecer por aqui. É um risco constante, que não surgiu ontem. E, a seguir o exemplo desses países, não vamos demorar para ter perseguições generalizadas a jornalistas, artistas, políticos de oposição, livre-pensadores.

(Nem preciso dizer, mas demorei a conseguir a energia para sentar e escrever algo, de tanto que temo pela minha própria segurança. E de tão triste, desalentado, que fiquei ao descobrir pessoas que supostamente gostam de mim apoiando a instalação de um regime que poderá me matar.)

Países com perfil parecido com o nosso conseguiram escapar dessa tendência ao obscurantismo, inclusive alguns vizinhos: México, Chile, Colômbia e até a Argentina, com seus megaprotestos e penúria econômica, parecem estar a salvo, ao menos por enquanto. Ainda rezo fervorosamente para que também seja o nosso caso.

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Mas acho que há mais do que a mera explicação política ou internacional para o que está se passando entre nós e para a tendência amplamente percebida de que a ainda há muito a piorar. Essa é, de fato, a dinâmica que está colocada na sociedade e no sistema político: não necessariamente a implosão da democracia frágil e incompleta que construímos nos últimos 30 anos, mas seguramente algum tipo de ruptura, seja com a estrutura de partidos, seja com as formas de lealdade.

Explico (se conseguir): o país está sendo conduzido por duas dinâmicas divergentes, já ativas há pelo menos duas, talvez três décadas, mas que vieram à luz em 2013. Mais cedo ou mais tarde, seria necessário chegar a uma decisão: ou bem uma ação política concreta e consciente para ajustar essas dinâmicas entre si, ou bem deixar chegar à desconexão completa, ou seja, o momento em que o país se torna definitivamente inviável em seu desenho institucional corrente. O que podemos concluir do que aconteceu nos últimos cinco anos é que o sistema político e a sociedade, cada um à sua maneira, estiveram bem aquém do desafio.

Ai de nós.

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A primeira dinâmica é a da inclusão e da diversidade. O lado bom da Constituição de 1988 (e das leis que vieram em sua esteira) é que ela prevê e promove o combate aos nossos maiores males históricos: obriga os três níveis da federação a investir em educação, saneamento, saúde, segurança, infraestrutura. Contém, tanto quanto consegue, a sanha extrativista, latifundiária, sanguinária, de nossas velhas oligarquias patrimoniais. Tudo isso vem de muito antes do governo mais lembrado em termos de inclusão, que foi o de Lula, mas é bem verdade que esse período intensificou os esforços, introduzindo métodos que, inclusive, fogem à lógica da Constituição, como o programa Bolsa-Família.

É evidente que essa inclusão é incompleta e falha em muitos aspectos. Basta pensar em termos de segurança, grande fracasso da Nova República. Para conseguir os ganhos que existiram, insuficientes como foram, foi necessário um sistema político ineficaz, lento, caro, facilmente capturável pela corrupção (se é que se pode falar de captura, quando o objetivo de muitos dos atores envolvidos era justamente promovê-la). O sistema tributário é caótico e regressivo. A geração de receitas para cumprir com as aspirações da Carta Magna é insuficiente (torno a isso depois). Muitos privilégios corporativos foram mantidos e ampliados, notadamente no que diz respeito ao Judiciário. Tudo isso é bem conhecido e documentado.

Mesmo assim, a melhora dos indicadores sociais é patente. Mortalidade infantil, matrículas do ensino fundamental, expectativa de vida, IDH. Não são apenas as ações afirmativas, por exemplo, que garantem a introdução de categorias até então excluídas (a população negra e periférica em geral, sobretudo) nas universidades e principalmente no debate público como um todo. Ao contrário, é porque movimentos sociais se robusteceram que foi possível fazer a pressão necessária para que pudesse haver ações afirmativas.

Se algumas melhorias urbanas incrementais são feitas cá e lá, é porque a população adquiriu energia e poder de pressão suficientes para colocar o poder público em movimento. Se moradores de favelas conseguem obrigar uma prefeitura como a do Rio de Janeiro a abandonar projetos faraônicos em nome do saneamento, agradeça à mobilização social e às normas constitucionais. O Brasil segue sendo um país terrivelmente desigual e injusto, mas é muito menos homogêneo do que há trinta anos. Nesse sentido, a Nova República foi um sucesso.

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A segunda dinâmica é a da derrocada econômica. Já não somos aquele país industrial que chegamos a ser em meados dos anos 70. Este foi um tema que já tratei em outras ocasiões, mas vale dizer que as consequências da mudança de perfil da estrutura produtiva, intensificada, mas não causada, pela ascensão da China e sua gula por soja e minério de ferro, tem impactos graves sobre a capacidade de continuar cumprindo as aspirações da Nova República e de sua Constituição.

O complexo agroexportador e o extrativismo mineral geram pouco valor agregado, pouco emprego, implicam uma cadeia produtiva de baixíssima complexidade. O tão incensado setor agrícola corresponde por algo como 6% do PIB e, mesmo que dobre de tamanho (não vai acontecer), não é capaz de sustentar um desenvolvimento nem sequer próximo ao que precisamos.

Se os empregos criados nas áreas urbanas são quase todos em serviços simples e na construção civil, a renda e os impostos gerados não são suficientes para garantir o fornecimento dos serviços públicos necessários a essa mesma população. E estamos falando de cidades muito grandes, inchadas, como são as brasileiras. Não é por acaso que são cidades feias, violentas, travadas, fábricas de mal-estar e sofrimento psíquico.

O breve, inócuo e atrapalhado plano de incentivo à indústria do governo Dilma é uma das causas próximas do desastre econômico de 2015-2016; mas suspeito que não teria tido um sucesso muito maior se fosse extenso, eficaz e organizado. É preciso mais do que o impulso a certos setores para promover a sofisticação de um parque industrial; é preciso saber se situar, em paralelo ao setor empresarial, na divisão internacional do trabalho.

Mas isto é tema para outro texto (e outro autor). O que quero reter dessa dinâmica é o fato de que toda a lógica da Nova República, com seu espírito inclusivo e diversificador, requer o solo fértil de uma economia que se sofistica, moderniza, complexifica, diversifica. Só assim é possível gerar o valor agregado necessário à realização das aspirações daquele Brasil que retornava à democracia – ou assim acreditava.

No caso do século XXI, isto é algo completamente diferente do que foi nos anos 1950, tempo da substituição de importações, da atração de multinacionais automobilísticas e da expansão da fronteira agrícola. Estamos em era de antropoceno, de modo que é necessário sofisticar o investimento em tecnologias e energias limpas. Mas isto também é assunto para outro texto (esbocei aqui).

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A continuação da primeira dinâmica exige uma transformação da segunda dinâmica. Sem que isso aconteça, e até agora não aconteceu – muito pelo contrário –, o que teremos é a segunda corroendo, canibalizando, a primeira. É o que temos vivido: na tentativa de “equilibrar o orçamento”, de “fazer a Constituição caber no PIB”, o país está abrindo mão de tudo aquilo que aos poucos o vem tornando um pouco menos injusto, um pouco mais diverso. É o caso das universidades, do ensino médio, da ciência e tecnologia, do desenvolvimento territorial.

Mas aquela primeira dinâmica ainda existe e é capaz de expressar sua força. Ela não vai desaparecer só porque as condições objetivas não são mais as mesmas. É por isso que está sendo tão atacada. O conservadorismo “dos costumes”, que logo se traduz em ódio racial, misoginia, homofobia etc., é uma forma de abafamento dessa dinâmica social como um todo. O importante é regredir às antigas distinções da sociedade.

Mencionei um “momento de decisão” e sugeri que ele pode estar se arrastando desde 2013. Nesse caso, não é tanto um “momento” e, como nada foi decidido, não é “de decisão”. Mas o fato é que nem chegamos ainda à ruptura, nem conseguimos instaurar a ação política que sintonizaria as aspirações republicanas ao desempenho econômico. Em outras palavras, o sistema político não se mostrou à altura do país. Não se mostrou à altura da sociedade, por certo.

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Isto é o que traz de volta à tentativa de explicação do nosso possível desastre, agora, neste outubro de 2018. Não vou entrar em detalhes neste texto (outro mais longo se prepara), mas dá para ler as decisões tomadas por todas as forças políticas a partir dessas duas dinâmicas divergentes e da incapacidade de corresponder à necessidade de decisão, perante um esgarçamento que se radicaliza.

Resumindo bem, o esforço do PT em manter a hegemonia no campo da esquerda reflete a perda de sua base, não só aquela de que fala André Singer ao discorrer sobre o lulismo, mas também a rarefação do proletariado industrial, de onde vem o próprio Lula. Tendo perdido as classes médias urbanas, só o que lhe resta é ser um partido burocrático interior ao sistema, que tem a oferecer aos demais atores um forte apoio na população mais desfavorecida. Parece ter funcionado até 2014, sobretudo porque o partido controlava boa parte da máquina estatal e podia cooptar alianças. Agora já não basta.

Os tucanos, que se crêem por algum motivo representantes do Brasil mais lúcido e moderno, erraram feio ao apostar sua sobrevivência política na aproximação com as oligarquias e na radicalização à direita. O PSDB acabou se fundindo com as oligarquias e não conseguiu convencer a direita radical, que prefere inventar seus próprios nomes. Sendo um partido de caciques, vai morrendo pela segunda vez – a primeira foi em 2010, até que em 2014 o PT o ressuscitou para conseguir um segundo turno polarizado.

Já a conjunção entre oligarquias, fisiológicos e outros aproveitadores da política está nadando de braçada. Que perigo corre a bancada do boi, da bala, da bíblia? As dinastias políticas que há séculos dilapidam o Estado conseguiram aprovar uma reforma eleitoral destinada explicitamente a mantê-las no poder. Aqueles que não podem concorrer por estarem presos mandam seus rebentos. É o caso de Eduardo Cunha e Sergio Cabral. O Supremo e o TSE estão majoritariamente alinhados com eles, como ficou evidente com a entrevista irregularmente concedida pelo candidato protofascista à televisão do dono de igreja, que não teve reação dos tribunais.

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Esse grupo – que coincide razoavelmente com o “centrão” da constituinte e pode ser chamado assim – encontrou o candidato presidencial perfeito para seus propósitos. Foi pinçar no Baixo Clero, aquele grupo de aproveitadores sem relevância política, que estão no Congresso só por se dar bem, geralmente graças a um discurso eleitoral mentiroso e populista, uma figura facilmente moldável e desprovida de qualquer escrúpulo.

É algo como um novo Severino Cavalcanti. Desta vez, tem boas chances de colocá-lo no Planalto. Nesse caso, pode-se dizer que é um novo Collor, mas muito piorado, porque retira sua energia política das energias mais destrutivas e reativas que há na sociedade. A candidatura protofascista é a realização lógica do grande acordo anunciado por Romero Jucá e Sérgio Machado: com o Supremo, com os generais, com tudo.

Assim, a candidatura protofascista não é primariamente uma arma na guerra contra a esquerda, o PT, o globalismo ou o que for. Não é primariamente um elemento a mais nas ditas “guerras culturais” que tomaram conta de sociedades mundo afora, e que têm a ver com direitos de mulheres, gays, imigrantes, negros etc. Essas são as energias, facilmente convocáveis neste país moldado pela escravidão, de onde as oligarquias e o fisiologismo retiram sua força para realizar a principal guerra em que está metido.

Trata-se da guerra contra a sociedade. Mais especificamente: a guerra contra a dinâmica de fortalecimento e diversificação da sociedade civil, que poderia colocar em risco sua posição histórica. O Brasil atrasado está em vantagem nessa guerra porque a dinâmica social, sua inimiga, tem necessidade daquele solo de sofisticação econômica que está se desfazendo no país. A dinâmica histórica está a favor do atraso, do patrimonialismo, da oligarquia, e contra a sociedade civil.

A candidatura protofascista é uma ofensiva de grande envergadura contra a sociedade civil.

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Que a democracia está em risco, poucos ainda duvidam. Mas de que vale a democracia para esses agentes? Desde quando oligarcas gostam de democracia? Grupos que foram favorecidos por ambas as nossas ditaduras, e que já se beneficiaram em outros períodos de exceção, por que se preocupariam em manter um regime que dá espaço para a sociedade civil, se ela só atrapalha seus desígnios?

Para ficar no exemplo do bispo dono de igreja que apoia o protofascista, recordo que, em alguns textos publicados em 2016 e 2017, lancei a seguinte pergunta: o que acontece à teologia da prosperidade (essa que sustenta algumas das igrejas recentes que se espalham pelo país) quando deixa de haver prosperidade? Ou seja, quando o crescimento econômico, que até 2014 trazia respostas divinas aos anseios dos fiéis (carro novo, casa própria, ascensão social), vai por água abaixo, deixando em seu lugar a penúria, o fracasso, as dívidas?

O próprio bispo dono de igreja trouxe a resposta: alinha-se imediatamente à repressão pura e simples, à tirania anunciada. E vale dizer: uma tirania anunciada nunca deixa de se realizar, quando tem a chance.

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Abri o texto dizendo que talvez não aconteça o pior neste mês. E que, mesmo não acontecendo, ainda estaremos enredados numa crise em que o risco de ruptura com o regime democrático é real. Apesar da tendência de regressão econômica e social, tudo vai depender da capacidade de mobilização que a sociedade civil será capaz de criar, tendo passado por um susto tão terrível.

Se, por outro lado, acontecer o pior, tudo dependerá da força que a sociedade civil terá para resistir à sua própria destruição. Ainda acredito que essa força seja bastante expressiva, apesar da perda de dinamismo nas últimas décadas. Mesmo que a resistência provoque do outro lado um aprofundamento repressivo, com todas as atrocidades que teremos de testemunhar, não me parece que será suficiente para quebrar a espinha de uma sociedade tão variada e complexa como a brasileira.

Talvez seja excesso de otimismo. Ou um último esforço para ter algum otimismo. Seja como for, os ventos são desfavoráveis, mas ninguém, nunca, está obrigado a sucumbir ao horror – e muito menos se unir a ele.

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As efígies de Marina

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Muito se fala em Marina Silva como fenômeno eleitoral que, mais uma vez, irrompe de forma surpreendente no calendário; são muitas avaliações e muitas certezas, mas até hoje não vi nada sobre o que há nela de mais enigmático e fugidio. Não só pelo efeito que teve sobre o petismo – que, de repente, redescobriu-se de esquerda, ao menos em temas estritamente econômicos – e sobre os tucanos – que alegremente abandonaram um candidato que nunca os agradou de verdade –, nem só pelas idas e vindas ideológicas de alguém que quer governar com Lula e Fernando Henrique, Suplicy e Serra, Giannetti e Erundina. Mas também porque à candidata do PSB aderem tantas – e tão bem – versões e interpretações que o substrato desaparece, torna-se inacessível.

Toda vez que leio sobre Marina, seja de marineiros, seja de anti-marineiros, colunistas de jornal, cientistas políticos etc., sinto que estou lendo não sobre uma pessoa, mesmo uma figura política, mas sobre uma efígie, um daqueles ícones gregos cujo conteúdo simbólico era preenchido pela economia afetiva dos fiéis nos quatro cantos do Império Bizantino. Por isso, noves fora o que venha a significar a efígie de Marina Silva na cédula eleitoral e, com uma probabilidade não negligenciável, nas paredes do Palácio do Planalto, tenho mais interesse em discutir as versões de Marina do que a própria Marina. Até porque, como eu disse, a Marina que tem uma voz, um corpo e uma história está soterrada por suas versões e sou incapaz de exumá-la.

Mas pelo menos acho que consigo pentear um pouco esse universo das versões. Essas são quase infinitas, mas as mais importantes são pelo menos três. Para dar um pouco de tempero à exposição, divido essas versões segundo uma lógica semelhante à de gêneros literários. Com isso, temos, para começar, o suspense fantástico, em que Marina é um fantasma que encarna todos os medos passados, presentes e futuros, como no conto de natal de Dickens. Temos, em seguida, a auto-ajuda de banca de rodoviária, em que ela é a tábua de salvação para todas as frustrações de uma vida desajustada. Por fim, temos ainda o épico novelesco, que faz da candidata a encarnação de esperanças órfãs e flutuantes.

Esses são, respectivamente, a Marina dos petistas, a Marina da direita “de raiz” e a Marina de uma certa classe média autoindulgente, que quis fazer de junho de 2013 o instante apoteótico do civismo anódino. O que tem de interessante nessa multiplicidade de imagens de Marina? Respondo: a curiosa coincidência de que todas elas surgem de um mesmo gesto, isto é, o impulso para recobrir com o coque bem-comportado da ex-ministra a própria insuficiência, a própria falha trágica.

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Dickens no Planalto

Começo pela narrativa petista. Nela, Marina é um fantasma assustador,que arrastacorrentes pelo sótão à noite, gritando “buuu”. Ela é a imagem de alguém que vai mandar escada abaixo as conquistas populares dos últimos anos em nome de uma ecologia vulgar, algo como “ela vai parar o país para salvar o mico da Amazônia e a perereca da Baixada”. Vai, por fim, interromper o processo de ruptura com sei lá quais forças políticas que estariam sendo desalojadas pelo triunfo de Lula, ainda que a maior parte dessas forças pareçam estar perfeitamente alojadas no Estado até hoje.

O segundo ponto dessa narrativa faz uso de uma verdade quase inegável para produzir um enorme sofisma. Nela, Lula teria dado início a uma transformação epocal que só Dilma seria capaz de prosseguir. Em que pese a transformação socioeconômica que ocorreu no Brasil desde 2003, a própria noção de uma transformação epocal, isto é, a inauguração de um novo período histórico no país, a superação de uma etapa e assim por diante, pressupõe que ela não possa ser simplesmente prosseguida. Pode-se prosseguir com um estado de coisas, mas não com a superação de um estado de coisas. Se for verdade que o Brasil atingiu um outro patamar com a inclusão social, a superação da fome endêmica e o combate ativo à miséria, e eu acredito que isso seja uma verdade bastante evidente, necessariamente será preciso pensar o país em outros termos. A idéia de “mudar mais” não contém essa percepção, mas retorno a isso em seguida.

Voltemos ao gênero “suspense fantástico”. Para dar conta da ascensão de Marina Silva, essa narrativa não pode ver nada de diferente do que a intenção, ou então um empuxo inerente à sociedade, de barrar ou reverter a transformação epocal. Então, a nova coqueluche eleitoral só pode ser fruto de: 1) uma conspiração conservadora; 2) a ilusão de uma classe média urbana que se crê moderninha, mas é conservadora; 3) um espoucar de fundamentalismo religioso, em aliança instável com um messianismo ambiental também iludido.

Aos olhos petistas, nada mais pode explicar a onda marineira senão a reação ao processo modernizador encabeçado por pontas-de-lança como Guido Mantega, Henrique Meirelles e José Eduardo Cardozo. Como se estivéssemos num novo 32, num novo 54. Afinal, grande parte da narrativa petista ortodoxa consiste em afirmar-se como continuação de Getúlio, o que não deixa de ser curioso, porque toma Getúlio apenas em sua vertente de modernizador econômico-industrial e deixa de lado o Getúlio que compunha com oligarquias e combatia violentamente a dissidência, comunismo em particular – algo que não deixa de ter seus paralelos no Brasil de hoje, falando nisso.

Esse fantasma, que sempre rondou de alguma maneira a ambição de colocar o Brasil na modernidade industrial (veja você), acabou por encarnar-se numa ex-correligionária. Nela se combinam os saudosos do neoliberalismo, o antipetismo difuso e o explícito daquilo que vem sendo chamado de “antiga classe média”, as quimeras de quem preferiria ver um modelo de desenvolvimento menos destrutivo (e aqui surgem afirmações como “o Brasil não é a Alemanha”, que contradizem frontalmente aquela ambição industrializante) e por aí vai. Marina Silva, a síntese espectral de tudo que não é a luz do desenvolvimentismo.

A conseqüência mais visível é aquela que se expressa na denúncia tão repetida de que não há “nova política” nas ações de Marina, ao contrário do que quer seu discurso. De fato, é um discurso enganoso e cheio de inverdades, esse de uma “nova política”. Mas, primeiramente, não deixa de ser divertido ver políticos atirando a primeira pedra no assunto “discurso enganoso”. E, mais importante ainda, ninguém vai se perguntar por que é que o discurso de uma “nova política” ecoa tanto?

No plano meramente fenomenal, poderíamos ficar satisfeitos com a resposta de que “a política tradicional está esgotada” ou “a representação popular é insuficiente”, mas isso não explica a gigantesca carga de paixões que se envolvem num processo eleitoral como este que estamos atravessando. Demonstração disso são as oscilações nas intenções de voto dos candidatos, que dão até mesmo a Aécio uma nesga de esperança. Outra demonstração está no retorno de algum sabor de debate ao período eleitoral. Finalmente estamos vendo posicionamentos em relação a coisas como o papel do Bacen, a relação entre religião e política, e se o Estado deve colocar-se a reboque do mercado ou tentar direcioná-lo de alguma maneira.

Traduzo: não existindo, a “nova política” introduziu na administração do calendário eleitoral algo que andou ausente demais: a política, que poderíamos chamar de “velha”, mas, neste sentido, tem qualquer coisa de atemporal, embora sua roupagem possa envelhecer e rejuvenescer, cá e lá. O que a falsa, enganosa, mentirosa, quimérica “nova política” escancarou não foi o esgotamento de uma “velha política”, como ela se propunha a fazer. A tal “velha política”, na verdade, é apenas a noção de que se possa simplesmente “administrar” ou “gerir” a coisa pública, modo infeliz de pensar que une num abraço caloroso Aécio-choque-de-gestão-lá-em-Minas-Neves e sua arqui-inimiga Dilma-gerentona-que-faz-assessor-chorar-Rousseff. É aquilo a que Jacques Rancière se refere, por exemplo, como “polícia”. Em outras palavras, o que a “nova política” tão ingênua escancarou foi a absoluta despolitização da sociedade, aí inclusos os partidos políticos, mesmo aqueles com raízes altamente politizadas.

Por isso, se Marina é um fantasma para a cúpula petista, isso decorre de sua própria hybris, sua falha trágica. O partido que, no Brasil que se redemocratizava, mais teve a política no cerne da sua formação e de seu crescimento admirável, coisas que não se pode honestamente negar em relação ao PT, foi também o partido que supervisionou o maior processo de despolitização da sociedade brasileira em período democrático. Funcionou enquanto era preciso desativar o campo minado que permitiria a tal transformação epocal, leia-se inserção social e supressão da miséria (em outro texto, tentei argumentar o quanto a questão da miséria é fundamental para entender o sucesso do governo Lula, mas é preciso reforçar essa argumentação, coisa que ficará para ainda um outro texto, a ser escrito sabe-se lá quando).

Essa estratégia imediatamente deixaria de funcionar quando o impulso da inserção começasse a enfraquecer e fosse necessário atacar os grandes nós e gargalos que mantêm tão injusta a sociedade brasileira: interesses encastelados, rentistas, latifundiários, oligarcas e oligopolistas, todos eles muito poderosos e muito articulados. Só haveria um caminho para fazer isso: a política. Seria preciso correr riscos, entre eles o de ficar fora do poder. Haveria confronto, porque quando há política, há confronto. Não se trataria de “prosseguir” uma transformação epocal que só pode ocorrer de uma vez, mas de construir as estruturas da tal nova etapa.

O PT se recusou a assumir essa tarefa. Definiu-se como governo de esquerda cujos antagonistas todos seriam “a direita”. Aliou-se, para tal, a diversas cepas daquilo que, em outras eras, teria denominado “direita”. Atingiu um notável controle sobre a máquina política cujo principal efeito prático não foi jamais a garantia de sucesso na implantação de políticas públicas, essas que desalojariam os poderes tradicionais encastelados, mas a garantia de que seus adversários mais frontais teriam uma posição marginalizada nos processos legislativo e eleitoral. E só. Desse ponto de vista, foi um enorme sucesso, atestado pelo naufrágio do PFL e a contenção em um nível meramente estadual do PSDB. No mais, os interesses encastelados prosseguem impávidos, aprovando seus códigos florestais e barrando suas reformas políticas.

Marina, espectro Marina, cujo uivo na calada da noite pergunta: voltará a política? Pessoalmente, acredito que ela terá de voltar, mais cedo ou mais tarde: ainda somos uma sociedade cheia de cisões e a inclusão social não poderá ter outro efeito senão aguçá-las. Duvido que a política, não “nova”, mas “novamente”, se encarne em Marina Silva, mas temos hoje um gostinho dela. André Singer foi a mente vinculada ao PT que mais cedo entendeu essa urgência de retomarmos um pouco de política que seja, ao escrever sobre junho de 2013 que era o momento de reforçar alguns aspectos e jogar outros fora daquilo que ele denomina “lulismo”. Recomendo ao partido lhe dar ouvidos, senão o próximo fantasma poderá ser um demônio sulfuroso.

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A dama do S.O.S.

Passemos à narrativa conservadora. Aqui, o ponto de partida é a necessidade de remover os usurpadores, para falar grosseiramente. Não há expressão melhor para definir a visão conservadora sobre o governo do PT, o que ajuda muito a explicar a incapacidade de lhe dar uma resposta à altura. Voltaremos a isso. Sim, diz o conservador, o PT venceu eleições em série, mas foi fruto de populismo, clientelismo, cooptação de forças políticas, corrupção e, por que não, sorte. O trono, na verdade, ainda pertence de direito àquele que for ungido pelos poderosos tradicionais, embora de fato esteja na mão de uma corja bolivariana e assim por diante.

Não é por acaso que Aécio Neves derreteu muito mais do que Dilma com a chegada de Marina à corrida presidencial. O PSDB tornou-se, pouco a pouco, o grande ungido dessa força social. Deixou de ser o partido de Franco Montoro para tornar-se o partido de Marconi Perillo e nem se deu conta. Ao aceitar a tarefa de ser a ponta-de-lança do anti-petismo, que na verdade não passa de um sentimento anti-usurpação, os tucanos se contentaram com um papel de subordinado perante forças tradicionais que, como sabemos, nunca tiveram pudores de se associar mesmo aos usurpadores que tanto combatem: Getúlio queimou café de bom grado e Dilma se refestelou com Belo Monte… O PSDB, afinal, tornou-se refém desse papel e ficou paulatinamente desmilingüido com a incapacidade de seus representantes em bater o inimigo. Hoje, sua sobrevivência depende de um governador em São Paulo que mais parece um quadro da Arena e de um candidato a presidente sem presença política e, principalmente, sem o menor vestígio daquela máscara de moralidade que se espera de um candidato do conservadorismo. Triste retrato.

Para piorar, a posição de ungido do PSDB implodiu ruidosamente quando apareceu um ator que parecia um pouco mais adequado para o papel, no curto prazo. É bem verdade que Marina vende a alma ao prometer, para ficar só nesse tema, uma política econômica ortodoxa ao extremo. Coisa que Lula, como se sabe, também fez, e por escrito, sorrindo ao assinar. Mas o contrato que alienou seu velho espírito lhe deu em troca as chaves do coração conservador, escancarando o caminho para encarnar em definitivo o combate ao usurpador. Incomodado com a anemia política de Aécio e a tibieza geral de seu antigo partido-herói, o conservador brasileiro respira aliviado: encontrou sua tábua de salvação. E não podia ser uma efígie mais perfeita: uma pessoa que veio do povo, ambientalista, lutou a vida toda, foi ministra de Lula, atrai o voto evangélico, que costuma ser também conservador… O que poderia ser melhor?

Ainda assim, é uma tábua de salvação, digna daquela literatura de banca de rodoviária, a auto-ajuda mais rasteira. Marina, como qualquer outro ungido de mesma ordem, pode ser bastante confiável, mas não completamente. Jamais poderá apagar a evidência avassaladora do naufrágio: os botes e bóias salva-vidas se espalhando pela água, passageiros e tripulantes ensopados e berrando em desespero, um Schettino que não quer voltar a bordo… Hoje, já não há mais timão para o conservador assumir. O conservador não quer que lhe usurpem o trono, mas tampouco quer se sentar nele, preferindo algum outro aventureiro para fazer o trabalho sujo.

Acontece que, se estivesse disposto a se sentar no trono, seria preciso administrar diretamente o país tal como ele vem se transformando nas últimas décadas, isto é, numa direção que não interessa em nada a quem se beneficia dos antigos desequilíbrios desta terra. Voltar atrás não seria possível, salvo sob catástrofe. Avançar rumo a uma sociedade mais equânime e eficaz poderia ser muito interessante, mas não para os poderes instalados, que teriam que abrir mão de uma parte de suas prerrogativas. Por enquanto, ainda não é necessário fazer isso (até porque o poder, hoje, está nas mãos de um grupo que jamais chegou a tentar isso explicitamente, ainda que tenha criado parte das condições para tal).

Daí a enorme conveniência de poder se apoiar numa tábua que flutua auspiciosamente nas proximidades do naufrágio. Mas por que falo em naufrágio? Ora, sempre pareceu que um usurpador não duraria muito no centro do poder (ainda que o poder, no caso, seja a mera administração de poderes muito pouco dispostos ao deslocamento). O radicalismo, a ingenuidade, a pouca repercussão das idéias, o acesso barrado a meios de expressão, as campanhas midiáticas, a intervenção do Judiciário, o bloqueio do Congresso… Enfim, sempre haveria algum meio de remover o incômodo, o pequeno incômodo.

Mas o usurpador atual, sabe-se lá por quê, conseguiu se instalar e perenizar no posto, apesar de terem ido embora alguns daqueles fatores já mencionados: sorte, vastas alianças, líderes malévolos, corruptos até o talo, e por aí vai. Embora muito pouco tenha sido cedido em qualquer momento, já se chegou ao ponto em que os poderes tradicionais cansam de permitir ajustes pontuais nas relações de poder. Que, afinal, arriscam mais tarde se tornarem ameaças de fato, quem sabe?

Oriunda do ninho inimigo, Marina Silva carrega a imagem perfeita de salvadora da pátria e parece ter percebido isso ao mandar sinais como a velha história do Banco Central independente e a promessa de não concorrer a um segundo mandato. Não tem uma estrutura partidária forte que a sustente, o que, do ponto de vista de quem a quiser manipular, parece torná-la mais manipulável (muito embora estruturas partidárias fortes também se deixem manipular, como sabemos). Sua principal bandeira, a ambiental, pode aparecer sobre inúmeros aspectos, inclusive alguns que agradem às maiores esferas do poder. Sua disposição em governar com “os homens bons” ou “os melhores de cada lado” ressoa, aos ouvidos de quem se considera elite intelectual e esteio moral de uma sociedade, como um convite para retomar as rédeas.

O ícone bizantino de Marina, quando olhado por esse grupo, se desenha como uma imagem iluminada surgindo através de uma bruma espessa e escura, e não como a aparição fantasmagórica de todos os temores. (A bem dizer, me parece que quem tem cumprido esse papel, por enquanto, é Fernando Haddad, mas deixemos isso para outra hora.)

Mesmo assim, é o traço de uma falha trágica, e ainda mais sedimentada que a versão petista. É a hybris de quem desconsidera a existência de movimentos internos na sociedade e a inevitável formação de espaços para grupos que não sejam o seu próprio. Em outras palavras, é a típica arrogância de quem enxerga uma determinada sociedade como um espaço pronto e estamentado, que se deve apenas administrar e manter sob controle. De modo que é também uma despolitização, ou, mais claramente, uma deslegitimação da política como um todo. O Estado aparece aí como instância administrativa a ser ocupada por políticos que incorporam executivos, instalados pelo verdadeiro conselho de administração que compõe o grupo dos verdadeiramente poderosos. Por sinal, Marina ganha pontos entre esses brâmanes ao subscrever à idéia de que se possa tocar um país com “quadros técnicos”, qualificados e assim por diante.

Um último ponto sobre as tábuas de salvação do conservadorismo brasileiro: elas têm uma característica muito estranha, que se mete no meio do cálculo conservador e pode ser resumida na expressão “vida própria”. A cada vez que surge uma nova tábua, o conservadorismo brasileiro se esquece desse traço incômodo e é por isso que, até hoje, não houve momento de catarse redentora que não acabasse dando em algum tipo de confusão. Dos militares a Joaquim Barbosa, de Jânio a Carlos Lacerda, as tábuas de salvação sempre acabam saindo do “script”. Às vezes, até que o resultado não é muito terrível. Outras vezes, dá em tragédia, seja do ponto de vista dessa direita de raiz, seja do de todos os demais. (Aproveitando, nesse caso específico não acho tão infértil comparar Marina a Jânio: cabe lembrar que um dos motivos pelos quais seu governo ficou travado, forçando-o a tentar o golpe, é que ele não quis ser simplesmente um títere da UDN. Será que Marina está disposta a ser títere? Eu não poria minhas fichas nisso.)

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Deus ex machina

“Um mês de gente na rua e descobrimos que o modo de fazer política no Brasil já não dá mais, chega, precisamos de caras novas, precisamos sonhar. Tudo que desejamos é que apareça alguém trazendo algo em que se possa acreditar, simplesmente acreditar, algo que seja belo e mobilize todas as classes sociais, todas as raças, todas as profissões, todas as origens regionais e étnicas, rumo à reconciliação final, absoluta, essa sim verdadeiramente redentora. Uma pessoa, um rosto, uma imagem, que desate todos os conflitos e traga à flor da pele o que há de puro e belo em todos nós. Alguém que nos conduza a um novo patamar de sociedade e desenvolvimento, sem nenhum tipo de ruptura, sem conflito, sem que ninguém perca nada, nem mesmo os privilégios que mantêm o estado das coisas mais ou menos igual ao que sempre foi. Algo como um anjo…”

Eis que já havia uma pessoa disponível, que poderia corresponder a essa expectativa imagética. Uma pessoa que irrompeu na cena eleitoral alguns anos atrás de maneira algo obscura, mas já com elementos muito aproveitáveis, como a mensagem pacífica, conciliadora; a bandeira de alcance potencialmente universal que é o ambientalismo; a história de vida inspiradora, com o aspecto agradável de quem veio para somar, não dividir.

Forma-se assim mais uma imagem para Marina: a síntese corporificada de uma esperança social e política. Uma esperança difusa, é certo, mas ainda assim mobilizadora. É importante ver com clareza que não existe a mínima necessidade, neste contexto, de que o conteúdo da plataforma de Marina coincida com os anseios de quem quer que seja. A rigor, o fato de que os diferentes anseios não coincidem entre si chega a ser um trampolim, catapultando essa associação que, em outras circunstâncias, poderia ser vaga, mas com a proximidade do processo eleitoral se tornou mais sólida. Como ninguém sabe ao certo qual é a linha em torno da qual se coordenam os diferentes anseiose as diferentesansiedades que se amalgamaram em algum momento de 2013 (removendo um pouco a concretude dos problemas de mobilidade e violência policial, com os quais a agitação começou), basta que sejam, eles mesmos, anseios – isto é, afetos. Hesito em dizer que se trata de uma rede de cunho substancialmente afetivo, para não parecer que estou associando essa rede à Rede que Marina tentou transformar em partido político, sem sucesso.

Olhada por esse ângulo, a história de vida, a postura pública e a mensagem de Marina deixam completamente de ser de Marina: a relação se inverte. Ou seja, Marina é que se transforma no apêndice, na manifestação material e corporificada, inevitável ainda que um pouco incômoda, de uma imagem, uma história, uma postura e uma mensagem desejadas. Como acontecia com os ícones bizantinos, e de maneira geral com toda forma simbólica em religiões, movimentos políticos, agremiações políticas etc., Marina (não a pessoa, estou falando da figura pública) se torna uma estrutura vaga, com compartimentos disponíveis para se preencher com a inscrição, aliás a representação, de uma miríade de desejos. Esses desejos tão variegados passam a parecer, desta feita, milagrosamente semelhantes, coincidentes, próximos. Eles estão espaçados, como numa díade, em que de um lado existe a singularidade indiscernível e indeterminada e, de outro, sua versão estampada na efígie de Marina.

Até aqui, a diferença entre a Marina-dos-desejos e qualquer outro líder político carismático da história é muito pouca. Tudo que está dito acima pode ser encontrado em descrições e análises de fenômenos políticos de massa em autores tão inconciliáveis quanto Ortega y Gasset e Freud, Gustave le Bon e Adorno, Gabriel Tarde e Elias Canetti. A pequena diferença que existe está no aspecto de resolução que a Marina candidata recobre, e que estava faltando na Marina vice-candidata de EduardoCampos. Perante um cenário em que esse impulso desejante estava se desvanecendo, perdido na discussão estéril sobre Black Blocs, Sininho, Copa do Mundo e sei lá mais o quê, quando parecia perdida a perspectiva de que os anseios desaguassem em algo de concreto, ou ao menos visível (quero dizer, identificável, apontável numa tela de televisão ou computador), o que representaria um nível de frustração com alto potencial destrutivo, eis que apareceu um deus ex machina, pairando sobre o cenário como se saído dos escombros de alguma tragédia.

Mas existem diferenças mais significativas, particularidades mais acentuadas. Essa é mais uma imagem de Marina, aquela que não exatamente angariou a multidão, mas foi angariada por ela e, no mesmo gesto, produzida por ela. Mais uma vez, isso não significa que a própria Marina tenha algo a ver com isso, o que faz muito pouca diferença, considerando que o assunto deste texto é justamente a imagem caleidoscópica de uma candidata. Uma característica interessante dessa imagem em particular é o quanto ela atraiu uma certa classe média que, sem ser anti-petista, muitas vezes tendo até mesmo sido petista no passado, desencantou-se com o governo do PT em alguma das levas de desencantamento que esse governo produziu, mas se recusa a bandear para as hostes do adversário tradicional, leia-se o PSDB. Aquela vasta onda de indecisos que apareciam nas pesquisas eleitorais quando Eduardo Campos era candidato implodiu e uma parte disso deve se dever, sem dúvida, especificamente a essa Marina entre tantas, a Marina-deus-ex-machina. Alguns poucos desses desencantados estavam dispostos a votar em Aécio apenas para se verem livres de Dilma, que parece infinitamente mais insuportável do que Lula por diversos motivos, entre eles sua notória empáfia – cabe lembrar que essas pessoas eram as mesmas que desejavam alguém “menos político” liderando o país. Pois, o “menos político” é isso aí: alguém que não sabe atrair simpatia apenas com sua mera figura. – Agora, todos podem bandear, com uma dose razoável de alívio, para Marina.

Ainda preciso explicar por que acho que aqui também há uma falha trágica em ação. Qual é a hybris desse contingente que produziu a imagem de Marina como síntese do “desejo de mudança”? Ora, essa efígie de Marina é provavelmente a mais cândida de todas, porque ela não apenas rejeita o conflito – e aqui cabe apontar mais uma vez a presença de um instinto de despolitização que anda grassando entre nós –, como ainda o ignora. Marina, aquela que pode unir a todos. Marina, enviada para nos redimir sem que tenhamos de partir para o confronto. Marina, a figura distante no interior da qual podemos nos reunir como jamais conseguiremos fazer aqui fora. Com ela, alguma mudança muito positiva será obtida sem as cenas de violência que presenciamos nos últimos 15 meses. Marina, cuja história de vida tão entrelaçada com a história social do Brasil representa a superação que o próprio Brasil precisaria viver – e viver, cabe dizer, é sinônimo de atravessar.

Mas será que é possível descrever essa história de vida apagando todas as partes que dizem respeito ao conflito? Será que a fome que ela passou é apenas o ponto de partida dramatúrgico para uma bela história de superação? É nisso que vamos transformar o horror – antigamente se dizia flagelo – da fome? Será que vamos silenciar sobre a dor, a doença, a angústia, a fraqueza, a morte que circundam a fome? Vamos obliterar as origens políticas e sociais, leia-se conflituosas, da fome?

O mesmo vale para a questão religiosa: tornar-se evangélica após décadas de catolicismo, envolvendo-se ao mesmo tempo em lutas políticas que envolvem o confronto, lado a lado com agnósticos e ateus, contra poderes espirituais instituídos e violentos, será que isso é apenas um detalhe a mais? Não existe aí uma escolha de lados que denota uma cisão, isto é, um conflito?

Na bandeira ambiental, a mesma coisa. Será que é apenas a linguagem de uma política futura, ou será que é o confronto com poderes rigidamente encastelados, como parecem indicar o destino de Chico Mendes (da elite, como ela disse, ou não, esse não é o ponto) e o gigantesco aparato repressivo montado na curva do Xingu?

Será que o partidário da imagem-redenção de Marina reconhece a presença nela dessa síntese não da esperança e do desejo, mas das contradições sociais de um país em que ainda há muita luta a ser travada?

Não me parece. E fico me perguntando como esse eleitor reagirá, isto é, o que ele fará com o ícone bizantino para o qual orou, quando a verdadeira Marina – aquela que tem um corpo, uma voz, uma presença – tiver de lidar com todos esses pontos de conflito, dominação e exclusão, tendo assumido a presidência. Ele vai incorporar também a redescoberta da política, essa que sempre esteve ali em algum lugar, em estado latente? Ou vai se tornar um iconoclasta? Até que pode ser algo interessante a descobrir.

Para encerrar

Não deixa de ser uma certa covardia dispor-se a falar tanto sobre as imagens que os outros têm de Marina Silva, e não da minha própria. Mas enfim, se sou covarde, que pelo menos se faça bom proveito da minha covardia. Honestamente, eu não seria capaz de ir muito além disso, porque nas minhas tentativas de ler o processo eleitoral, Marina em particular, minha concepção de nossa candidata oscilou entre as três imagens acima (talvez nem tanto a segunda) e mais algumas outras. O que não chega a ser um fracasso; devo confessar que personagens enigmáticos me fascinam.

E me fascinam mesmo quando podem ocupar um cargo importante como a presidência da República. Sou muito cético quando dizem que este ou aquele presidente vai destruir o país ou algo assim. Sou igualmente cético com a idéia de que este ou aquele candidato seja algum tipo de panacéia. O Brasil é uma sociedade muito complexa, urbanizada, diversa e extensa, seu sistema político absorve uma infinidade de forças, e me parece altamente improvável que alguém assuma o Executivo federal e vire tudo de cabeça para baixo da noite para o dia.

Sociedades como a brasileira têm uma dinâmica própria, que pode acelerar ou ralentar, desviar-se de alguns graus, sofrer revezes, de acordo com quem ocupa ou deixa de ocupar o poder. Mas é pouco mais do que isso. E mesmo assim, sempre produz suas linhas de fuga, suas alternativas criadoras. Sempre acumula energias neste ou naquele ponto para um salto que desate este ou aquele nó. Acusado de pretender virar a economia de cabeça para baixo, Lula imediatamente produziu a “carta ao povo brasileiro”. Acusado de pretender eliminar o Bolsa-Família, Serra em 2010 imediatamente prometeu dobrá-lo. Acusados de ter idéias de suprimir benefícios sociais e trabalhistas, Aécio e Marina imediatamente afirmaram que os reforçarão. Nada de surpreendente aí.

No caso da eleição de 2014, prefiro me concentrar em dois fatos: o primeiro é a volta de uma certa discussão política efetiva: o que queremos para o Bacen? O que queremos para a Amazônia? Até que ponto a religião deve se misturar com a política? E o segundo pode soar mais trivial, mas não creio que seja. Como bem apontou o editorial do New York Times (N.B.: nenhuma mídia brasileira), o Brasil, esse país tão racista e tão machista, se encaminha para escolher a próxima presidenta entre duas mulheres; uma das duas, negra. Como eu disse, uma sociedade complexa e vasta como a brasileira tem sua dinâmica própria.

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