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Uma guerra à sociedade civil

Mesmo que nestas eleições não aconteça o pior, parece ter se formado o consenso de que nos próximos anos vamos continuar mergulhados no caos político, no conflito social e na estagnação econômica. É evidente que o triunfo do picareta protofascista torna tudo pior e instala o caos imediatamente. Mas mesmo se o próximo presidente for um dos candidatos do campo democrático, o sistema político está tão bagunçado e o tecido social tão esgarçado, que dificilmente um governo terá a estabilidade necessária para governar sem sustos.

Esse consenso é explicado, no mais das vezes, por dentro do próprio sistema político. A trajetória do PT, tanto no governo quanto fora dele, tentando garantir a hegemonia no campo da esquerda e forçando a candidatura de Lula. As atitudes dos tucanos, que promoveram a tese da derrubada de Dilma logo depois da eleição e estimularam o crescimento da direita raivosa. A falha de Marina Silva em capitalizar seus bons desempenhos eleitorais de 2010 e 2014. Os oligarcas e os fisiológicos que buscam se preservar de todo modo, mesmo que isso signifique jogar o país nas mãos da barbárie.

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Um segundo elemento de explicação muitas vezes levantado é internacional, lembrando da vitória de Trump e do Brexit, além do crescimento da extrema-direita em países como França, Alemanha, Itália, Polônia. Muitos lembram da influência de Steve Bannon, que colocou o laranjão na Casa Branca e pode agora colocar o amarelão no Planalto.

Tudo isso é fato; mas a melhor comparação é com países de renda média, mais semelhantes ao Brasil: Filipinas, Turquia, Hungria, Venezuela. São países que já caíram nas mãos de regimes autoritários ou com tendência ao autoritarismo, nas mãos daqueles que os anglófonos chamam de “strongmen”.

Frágil como é o Brasil – socialmente, politicamente, culturalmente –, não chegará a ser surpreendente se algo semelhante acontecer por aqui. É um risco constante, que não surgiu ontem. E, a seguir o exemplo desses países, não vamos demorar para ter perseguições generalizadas a jornalistas, artistas, políticos de oposição, livre-pensadores.

(Nem preciso dizer, mas demorei a conseguir a energia para sentar e escrever algo, de tanto que temo pela minha própria segurança. E de tão triste, desalentado, que fiquei ao descobrir pessoas que supostamente gostam de mim apoiando a instalação de um regime que poderá me matar.)

Países com perfil parecido com o nosso conseguiram escapar dessa tendência ao obscurantismo, inclusive alguns vizinhos: México, Chile, Colômbia e até a Argentina, com seus megaprotestos e penúria econômica, parecem estar a salvo, ao menos por enquanto. Ainda rezo fervorosamente para que também seja o nosso caso.

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Mas acho que há mais do que a mera explicação política ou internacional para o que está se passando entre nós e para a tendência amplamente percebida de que a ainda há muito a piorar. Essa é, de fato, a dinâmica que está colocada na sociedade e no sistema político: não necessariamente a implosão da democracia frágil e incompleta que construímos nos últimos 30 anos, mas seguramente algum tipo de ruptura, seja com a estrutura de partidos, seja com as formas de lealdade.

Explico (se conseguir): o país está sendo conduzido por duas dinâmicas divergentes, já ativas há pelo menos duas, talvez três décadas, mas que vieram à luz em 2013. Mais cedo ou mais tarde, seria necessário chegar a uma decisão: ou bem uma ação política concreta e consciente para ajustar essas dinâmicas entre si, ou bem deixar chegar à desconexão completa, ou seja, o momento em que o país se torna definitivamente inviável em seu desenho institucional corrente. O que podemos concluir do que aconteceu nos últimos cinco anos é que o sistema político e a sociedade, cada um à sua maneira, estiveram bem aquém do desafio.

Ai de nós.

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A primeira dinâmica é a da inclusão e da diversidade. O lado bom da Constituição de 1988 (e das leis que vieram em sua esteira) é que ela prevê e promove o combate aos nossos maiores males históricos: obriga os três níveis da federação a investir em educação, saneamento, saúde, segurança, infraestrutura. Contém, tanto quanto consegue, a sanha extrativista, latifundiária, sanguinária, de nossas velhas oligarquias patrimoniais. Tudo isso vem de muito antes do governo mais lembrado em termos de inclusão, que foi o de Lula, mas é bem verdade que esse período intensificou os esforços, introduzindo métodos que, inclusive, fogem à lógica da Constituição, como o programa Bolsa-Família.

É evidente que essa inclusão é incompleta e falha em muitos aspectos. Basta pensar em termos de segurança, grande fracasso da Nova República. Para conseguir os ganhos que existiram, insuficientes como foram, foi necessário um sistema político ineficaz, lento, caro, facilmente capturável pela corrupção (se é que se pode falar de captura, quando o objetivo de muitos dos atores envolvidos era justamente promovê-la). O sistema tributário é caótico e regressivo. A geração de receitas para cumprir com as aspirações da Carta Magna é insuficiente (torno a isso depois). Muitos privilégios corporativos foram mantidos e ampliados, notadamente no que diz respeito ao Judiciário. Tudo isso é bem conhecido e documentado.

Mesmo assim, a melhora dos indicadores sociais é patente. Mortalidade infantil, matrículas do ensino fundamental, expectativa de vida, IDH. Não são apenas as ações afirmativas, por exemplo, que garantem a introdução de categorias até então excluídas (a população negra e periférica em geral, sobretudo) nas universidades e principalmente no debate público como um todo. Ao contrário, é porque movimentos sociais se robusteceram que foi possível fazer a pressão necessária para que pudesse haver ações afirmativas.

Se algumas melhorias urbanas incrementais são feitas cá e lá, é porque a população adquiriu energia e poder de pressão suficientes para colocar o poder público em movimento. Se moradores de favelas conseguem obrigar uma prefeitura como a do Rio de Janeiro a abandonar projetos faraônicos em nome do saneamento, agradeça à mobilização social e às normas constitucionais. O Brasil segue sendo um país terrivelmente desigual e injusto, mas é muito menos homogêneo do que há trinta anos. Nesse sentido, a Nova República foi um sucesso.

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A segunda dinâmica é a da derrocada econômica. Já não somos aquele país industrial que chegamos a ser em meados dos anos 70. Este foi um tema que já tratei em outras ocasiões, mas vale dizer que as consequências da mudança de perfil da estrutura produtiva, intensificada, mas não causada, pela ascensão da China e sua gula por soja e minério de ferro, tem impactos graves sobre a capacidade de continuar cumprindo as aspirações da Nova República e de sua Constituição.

O complexo agroexportador e o extrativismo mineral geram pouco valor agregado, pouco emprego, implicam uma cadeia produtiva de baixíssima complexidade. O tão incensado setor agrícola corresponde por algo como 6% do PIB e, mesmo que dobre de tamanho (não vai acontecer), não é capaz de sustentar um desenvolvimento nem sequer próximo ao que precisamos.

Se os empregos criados nas áreas urbanas são quase todos em serviços simples e na construção civil, a renda e os impostos gerados não são suficientes para garantir o fornecimento dos serviços públicos necessários a essa mesma população. E estamos falando de cidades muito grandes, inchadas, como são as brasileiras. Não é por acaso que são cidades feias, violentas, travadas, fábricas de mal-estar e sofrimento psíquico.

O breve, inócuo e atrapalhado plano de incentivo à indústria do governo Dilma é uma das causas próximas do desastre econômico de 2015-2016; mas suspeito que não teria tido um sucesso muito maior se fosse extenso, eficaz e organizado. É preciso mais do que o impulso a certos setores para promover a sofisticação de um parque industrial; é preciso saber se situar, em paralelo ao setor empresarial, na divisão internacional do trabalho.

Mas isto é tema para outro texto (e outro autor). O que quero reter dessa dinâmica é o fato de que toda a lógica da Nova República, com seu espírito inclusivo e diversificador, requer o solo fértil de uma economia que se sofistica, moderniza, complexifica, diversifica. Só assim é possível gerar o valor agregado necessário à realização das aspirações daquele Brasil que retornava à democracia – ou assim acreditava.

No caso do século XXI, isto é algo completamente diferente do que foi nos anos 1950, tempo da substituição de importações, da atração de multinacionais automobilísticas e da expansão da fronteira agrícola. Estamos em era de antropoceno, de modo que é necessário sofisticar o investimento em tecnologias e energias limpas. Mas isto também é assunto para outro texto (esbocei aqui).

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A continuação da primeira dinâmica exige uma transformação da segunda dinâmica. Sem que isso aconteça, e até agora não aconteceu – muito pelo contrário –, o que teremos é a segunda corroendo, canibalizando, a primeira. É o que temos vivido: na tentativa de “equilibrar o orçamento”, de “fazer a Constituição caber no PIB”, o país está abrindo mão de tudo aquilo que aos poucos o vem tornando um pouco menos injusto, um pouco mais diverso. É o caso das universidades, do ensino médio, da ciência e tecnologia, do desenvolvimento territorial.

Mas aquela primeira dinâmica ainda existe e é capaz de expressar sua força. Ela não vai desaparecer só porque as condições objetivas não são mais as mesmas. É por isso que está sendo tão atacada. O conservadorismo “dos costumes”, que logo se traduz em ódio racial, misoginia, homofobia etc., é uma forma de abafamento dessa dinâmica social como um todo. O importante é regredir às antigas distinções da sociedade.

Mencionei um “momento de decisão” e sugeri que ele pode estar se arrastando desde 2013. Nesse caso, não é tanto um “momento” e, como nada foi decidido, não é “de decisão”. Mas o fato é que nem chegamos ainda à ruptura, nem conseguimos instaurar a ação política que sintonizaria as aspirações republicanas ao desempenho econômico. Em outras palavras, o sistema político não se mostrou à altura do país. Não se mostrou à altura da sociedade, por certo.

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Isto é o que traz de volta à tentativa de explicação do nosso possível desastre, agora, neste outubro de 2018. Não vou entrar em detalhes neste texto (outro mais longo se prepara), mas dá para ler as decisões tomadas por todas as forças políticas a partir dessas duas dinâmicas divergentes e da incapacidade de corresponder à necessidade de decisão, perante um esgarçamento que se radicaliza.

Resumindo bem, o esforço do PT em manter a hegemonia no campo da esquerda reflete a perda de sua base, não só aquela de que fala André Singer ao discorrer sobre o lulismo, mas também a rarefação do proletariado industrial, de onde vem o próprio Lula. Tendo perdido as classes médias urbanas, só o que lhe resta é ser um partido burocrático interior ao sistema, que tem a oferecer aos demais atores um forte apoio na população mais desfavorecida. Parece ter funcionado até 2014, sobretudo porque o partido controlava boa parte da máquina estatal e podia cooptar alianças. Agora já não basta.

Os tucanos, que se crêem por algum motivo representantes do Brasil mais lúcido e moderno, erraram feio ao apostar sua sobrevivência política na aproximação com as oligarquias e na radicalização à direita. O PSDB acabou se fundindo com as oligarquias e não conseguiu convencer a direita radical, que prefere inventar seus próprios nomes. Sendo um partido de caciques, vai morrendo pela segunda vez – a primeira foi em 2010, até que em 2014 o PT o ressuscitou para conseguir um segundo turno polarizado.

Já a conjunção entre oligarquias, fisiológicos e outros aproveitadores da política está nadando de braçada. Que perigo corre a bancada do boi, da bala, da bíblia? As dinastias políticas que há séculos dilapidam o Estado conseguiram aprovar uma reforma eleitoral destinada explicitamente a mantê-las no poder. Aqueles que não podem concorrer por estarem presos mandam seus rebentos. É o caso de Eduardo Cunha e Sergio Cabral. O Supremo e o TSE estão majoritariamente alinhados com eles, como ficou evidente com a entrevista irregularmente concedida pelo candidato protofascista à televisão do dono de igreja, que não teve reação dos tribunais.

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Esse grupo – que coincide razoavelmente com o “centrão” da constituinte e pode ser chamado assim – encontrou o candidato presidencial perfeito para seus propósitos. Foi pinçar no Baixo Clero, aquele grupo de aproveitadores sem relevância política, que estão no Congresso só por se dar bem, geralmente graças a um discurso eleitoral mentiroso e populista, uma figura facilmente moldável e desprovida de qualquer escrúpulo.

É algo como um novo Severino Cavalcanti. Desta vez, tem boas chances de colocá-lo no Planalto. Nesse caso, pode-se dizer que é um novo Collor, mas muito piorado, porque retira sua energia política das energias mais destrutivas e reativas que há na sociedade. A candidatura protofascista é a realização lógica do grande acordo anunciado por Romero Jucá e Sérgio Machado: com o Supremo, com os generais, com tudo.

Assim, a candidatura protofascista não é primariamente uma arma na guerra contra a esquerda, o PT, o globalismo ou o que for. Não é primariamente um elemento a mais nas ditas “guerras culturais” que tomaram conta de sociedades mundo afora, e que têm a ver com direitos de mulheres, gays, imigrantes, negros etc. Essas são as energias, facilmente convocáveis neste país moldado pela escravidão, de onde as oligarquias e o fisiologismo retiram sua força para realizar a principal guerra em que está metido.

Trata-se da guerra contra a sociedade. Mais especificamente: a guerra contra a dinâmica de fortalecimento e diversificação da sociedade civil, que poderia colocar em risco sua posição histórica. O Brasil atrasado está em vantagem nessa guerra porque a dinâmica social, sua inimiga, tem necessidade daquele solo de sofisticação econômica que está se desfazendo no país. A dinâmica histórica está a favor do atraso, do patrimonialismo, da oligarquia, e contra a sociedade civil.

A candidatura protofascista é uma ofensiva de grande envergadura contra a sociedade civil.

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Que a democracia está em risco, poucos ainda duvidam. Mas de que vale a democracia para esses agentes? Desde quando oligarcas gostam de democracia? Grupos que foram favorecidos por ambas as nossas ditaduras, e que já se beneficiaram em outros períodos de exceção, por que se preocupariam em manter um regime que dá espaço para a sociedade civil, se ela só atrapalha seus desígnios?

Para ficar no exemplo do bispo dono de igreja que apoia o protofascista, recordo que, em alguns textos publicados em 2016 e 2017, lancei a seguinte pergunta: o que acontece à teologia da prosperidade (essa que sustenta algumas das igrejas recentes que se espalham pelo país) quando deixa de haver prosperidade? Ou seja, quando o crescimento econômico, que até 2014 trazia respostas divinas aos anseios dos fiéis (carro novo, casa própria, ascensão social), vai por água abaixo, deixando em seu lugar a penúria, o fracasso, as dívidas?

O próprio bispo dono de igreja trouxe a resposta: alinha-se imediatamente à repressão pura e simples, à tirania anunciada. E vale dizer: uma tirania anunciada nunca deixa de se realizar, quando tem a chance.

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Abri o texto dizendo que talvez não aconteça o pior neste mês. E que, mesmo não acontecendo, ainda estaremos enredados numa crise em que o risco de ruptura com o regime democrático é real. Apesar da tendência de regressão econômica e social, tudo vai depender da capacidade de mobilização que a sociedade civil será capaz de criar, tendo passado por um susto tão terrível.

Se, por outro lado, acontecer o pior, tudo dependerá da força que a sociedade civil terá para resistir à sua própria destruição. Ainda acredito que essa força seja bastante expressiva, apesar da perda de dinamismo nas últimas décadas. Mesmo que a resistência provoque do outro lado um aprofundamento repressivo, com todas as atrocidades que teremos de testemunhar, não me parece que será suficiente para quebrar a espinha de uma sociedade tão variada e complexa como a brasileira.

Talvez seja excesso de otimismo. Ou um último esforço para ter algum otimismo. Seja como for, os ventos são desfavoráveis, mas ninguém, nunca, está obrigado a sucumbir ao horror – e muito menos se unir a ele.

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Faits divers à brasileira

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I

Saiu na semana passada a notícia de que morreu o prefeito de um determinado município de Minas Gerais. Seu avião caiu enquanto ele sobrevoava um acampamento do MST, que ocupava uma fazenda de sua propriedade.

Os acampados dizem que esse e um outro avião davam rasantes sobre os barracos para assustar as famílias. Também segundo os sem-terra, coquetéis molotov eram jogados dos aviões. Um bombardeio, em suma.

O advogado do prefeito morto disse à imprensa que tinha apenas pedido que o falecido mandatário fotografasse a área invadida, para poder entrar com um pedido de reintegração de posse.

Seja um bombardeio, seja um reconhecimento aéreo, o motivo para o próprio prefeito estar lá, e não um fotógrafo contratado – ou capangas, seria o caso de dizer, em se tratando de um bombardeio – é coisa que não se explica racionalmente. Seria preciso recorrer a uma explicação afetiva: o gozo do sadismo, talvez.

Não se sabia, da última vez que li a notícia, se o avião foi abatido ou caiu sozinho. Já o outro piloto, que não nasceu ontem, se mandou e não se falou mais nele. Pelo menos na imprensa.

II

Em 30 de abril de 1981, uma bomba explodiu no colo do sargento do Exército Guilherme Pereira do Rosário, dentro de um automóvel de marca Puma, no estacionamento do Riocentro, que naquela época ficava longe pra burro de tudo.

Dentro do centro de convenções, um espetáculo que reunia 18 mil pessoas comemorava o Dia do Trabalho. No horário da explosão, Elba Ramalho estava no palco.

A bomba tinha sido preparada para explodir no meio do show, matando sabe-se lá quantos espectadores. O objetivo dos conspiradores, como tantas outras vezes na história, era colocar a culpa em movimentos contrários à ditadura (ou, simplesmente, comunistas). Com isso, achavam que podiam barrar a redemocratização.

Não deu certo e o único cadáver nessa aventura acabou sendo o de um dos criminosos. Só em 2014 a Justiça aceitou a denúncia contra os demais militares envolvidos. Até então, o Judiciário considerava que esse crime entrava no âmbito da lei de anistia, de 1979.

III

O artista plástico Cildo Meirelles relata, em documentário sobre sua obra, a história do seu pai, que foi afastado do Serviço de Proteção ao Índio depois de fazer uma denúncia grave: na região conhecida como Bico do Papagaio, no norte do que hoje é Tocantins, fazendeiros massacravam índios lançando mão de algo que pode perfeitamente ser considerado guerra biológica.

Roupas contaminadas com o vírus da gripe eram atiradas de aviões sobre aldeias. Os índios, ainda não contactados pelo “homem branco”, não tinham anticorpos contra a gripe, essa doença de origem europeia.

O raciocínio lembra de maneira perturbadora o do prefeito mineiro morto na semana passada. Mas naquela ocasião, até onde sei, não caiu nenhuma aeronave. Com isso, morreram algo como 40 mil índios. Dos sobreviventes, diz Cildo, muitos tiveram um colapso mental diante do extermínio de toda a sua aldeia.

O pai do artista conseguiu levar o caso à Justiça. Mas só: o corrompido Serviço de Proteção ao Índio tinha mais interesse em proteger os criminosos e relegou seu incômodo funcionário a funções burocráticas. Algo que não lhe permitisse atrapalhar.

IV

Em 1968, antes mesmo do AI-5, o brigadeiro João Paulo Burnier arquitetou um plano mirabolante para tornar o Cenimar (Centro de Informações da Marinha) uma organização terrorista no sentido mais literal possível. A idéia de Burnier era usar pára-quedistas para explodir diversas bombas no Rio de Janeiro, a mais destruidora delas Gasômetro de São Cristóvão, às 18h, matando centenas de milhares de pessoas, de uma vez só.

O objetivo – adivinhe! – era acusar as oposições à ditadura, comunistas em particular, claro, e produzir um furor nacionalista sanguinolento como o que gangrenou a Indonésia poucos anos antes.

O plano só não foi adiante porque o pára-quedista Sérgio Macaco se recusou a cumprir a missão e, ainda por cima, entregou tudo à imprensa: o plano foi publicado no hoje extinto jornal Correio da Manhã e, em conseqüência, abortado.

O que resultou dessa aventura genocida? Uma sindicância militar: Burnier, nosso aspirante frustrado a Bin Laden, foi inocentado. Sérgio Ribeiro Miranda de Carvalho, que salvou a vida de uma multidão de cariocas, foi expulso da corporação.

V

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Em 1987, uma matéria da revista Veja – que, os mais jovens talvez não acreditem, naquela época era considerada uma fonte digna de informação – dá conta de que um capitão do exército de nome Jair planejava explodir algumas bombas, uma delas numa adutora do Guandu, que abastece o Rio de Janeiro.

O jovem e irresponsável Jair, prossegue a reportagem, pretendia abalar a confiança no ministro do Exército indicado por Sarney. Tudo por causa de disputas em torno do soldo de oficiais. Um croqui da bomba chegou a ser desenhado pelo capitão e publicado pela revista.

Mesmo assim, com evidências feitas pelo próprio punho do conspirador, o episódio de terrorismo planejado não impediu o militar de encetar uma notória carreira política, arrastando consigo boa parte de sua família.

Como sabemos, o tal de Jair não amadureceu muito de lá para cá.

VI

Em 2009, foi premiado no festival de Gramado (e em muitos outros) o filme Corumbiara, de Vincent Carelli. O filme conta a história do “outro” massacre de Corumbiara. Sobre o massacre de sem-terra na mesma região de Rondônia, ocorrido em 1995 e mais conhecido, o jornalista João Peres acaba de lançar um livro.

O massacre do filme de Carelli ocorreu dez anos antes do caso do livro de Peres. Um completa 20 anos, o outro completa 30. Pelo visto, os massacres no Brasil são tantos que os nomes já começam a se esgotar.

Em 1985, uma aldeia inteira de índios de etnia desconhecida foi varrida do mapa por fazendeiros locais, que ali preferiam ver bois a pessoas. Vinte anos depois, os indigenistas conseguem voltar à área e encontram vestígios do crime. Jagunços e policiais tentam bloquear o trabalho – defendendo criminosos, mais uma vez. A população tem medo de falar.

Com a passagem do tempo, é impossível saber quantas pessoas foram assassinadas em nome do latifúndio.

E cito este caso apenas porque ele é pontual: seria exaustivo e não acrescentaria nada ao argumento listar os abusos cometidos quotidianamente Brasil afora contra populações autóctones.

VII

A semana passada também conteve uma, digamos assim, efeméride. Completaram-se dois anos desde que policiais da UPP da Rocinha, no Rio de Janeiro (mais de 20 policiais) seqüestraram, torturaram e assassinaram o auxiliar de pedreiro Amarildo Dias de Souza. O cadáver desapareceu e provavelmente nunca será encontrado.

Acho que quem leu até aqui se lembra bem da fórmula “Cadê o Amarildo”, que marcou a esperança de que esse tipo de crueldade, sadismo e barbaridade oficial, em nome da “boa sociedade”, fosse erradicado e superado no Brasil. Esperança frustrada, mais uma vez.

Mas esse é apenas o caso mais emblemático. No começo deste ano, policiais militares da Bahia mataram 12 jovens, a grande maioria sem passagem na polícia. Foi a chamada “chacina do Cabula”. A primeira reação do governador, o petista Rui Costa, foi comparar a ação da polícia a um gol.

Só a mobilização da população local levou à mudança da narrativa.

Os casos semelhantes são muitos e não vou me alongar.

* * *

PS: Na verdade, vou me alongar, sim. Na primeira versão deste texto, onde deveria estar “chacina do Cabula”, escrevi por descuido “chacina da Chatuba”. Mas não seja por isso: em 2012, houve uma chacina na Chatuba, em Mesquita, Baixada Fluminense. Seis jovens mortos por traficantes.

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Dialética do triunfo conservador

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Aconteça o que acontecer no segundo turno, já se vê que os próximos anos vão ser difíceis. Não é que tenhamos uma Câmara e um Senado conservadores, simplesmente. É mais que isso: candidatos do mais profundo fisiologismo, retrógrados, histriônicos, reconhecidamente desonestos no discursos e corruptos na prática tiveram votação expressiva no início do mês. Teremos mais bancada da bala, mais ruralistas, mais fundamentalistas e isso não vai ser fácil.

É tentador atribuir o triunfo de tantos raivosos ao conservadorismo arraigado na sociedade brasileira, um conservadorismo pobre e mesquinho que se materializa nessas figuras. Todos nós vemos diariamente demonstrações dessa visão de mundo sectária, covarde e insidiosamente violenta. Daqui por diante, essas demonstrações, muito bem implantadas no Legislativo, serão um celeiro de manchetes vergonhosas.

Outra possível explicação está na falha grosseira daqueles que, outrora progressistas, buscaram assegurar sua posição no poder abraçando os representantes do Brasil mais retrógrado: era um abraço de urso. Esse Brasil retrógrado tem suas próprias preferências, pouco importa com quem esteja abraçado. A cúpula petista deveria ter entendido e foi avisada, mas aparentemente tinha outros planos. Pois. Em poucas semanas, essas lideranças que se acreditavam tão prescientes poderão se ver sem pirão, sem farinha e até sem panela. Quanto ao país, estará nos braços daqueles que se nutrem de seus maiores males.

Há mais explicações, todas elas muito verdadeiras, certamente. Mas em vez de tentar explicar o que aconteceu, pode ser mais proveitoso procurar sua relação com as dinâmicas do que já acontecia e continua acontecendo. Será verdade que a sociedade está ficando mais conservadora e isso se reflete nas suas câmaras de representantes? É um estranho diagnóstico, que poderia ser verdade a partir de algumas premissas: que 1) esse conservadorismo ampliado refletisse o acúmulo de frustração de uma ampla camada da população ao sentir-se atingida por processos sociais e econômicos, a começar pela redução da oferta de trabalho doméstico; ou que 2) o contingente que ascendeu na última década traga consigo uma ética da segurança a qualquer custo, de uma ordem social e familiar cuja maior garantia é ser absoluta, diante dos perigos quase indivisáveis em um mundo novo e inconstante; ou ainda que 3) a religiosidade brasileira, tão mística e variegada, tenha entrado numa espiral de fundamentalismo incontrolável e assustadora.

Uma resposta?

Todas essas premissas têm uma razoável parte de verdade; algumas mais, outras menos. Mas elas mesmas contêm suas negações e, ainda que possam oferecer respostas satisfatórias – no sentido de reconfortantes – para a questão dos motivos da votação tão conservadora, não esclarecem em nada quais são as dinâmicas que atuaram e continuam atuando.

Por exemplo, a frustração e a raiva de uma camada historicamente conservadora só podem assumir a forma de grande onda reativa se estiverem a contrapelo de um movimento mais lento, porém mais seguro. Adiante, caberá perguntar se esse movimento existe, mas por enquanto vale dizer que, se uma coisa implica a outra, a idéia do retorno a um estado básico e fundamental de conservadorismo ganha novas nuances. Voltarei a isso, mas por enquanto vale a pena manter em mente que reações são profundamente dependentes de algo a que reagir.

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Também é importante olhar de perto a identificação de uma população que sobe de vida e se torna refratária a idéias modernizadoras. Essa noção reflete o princípio, tantas vezes repetido, de que quem conquistou coisas na vida fica mais conservador, porque quer manter o que ganhou. Sim, é um público conservador, na medida em que precisa ter a segurança de que seu mundo, esse no qual e graças ao qual a vida melhorou, não vai desmoronar de uma hora para a outra: filhos deslumbrados que começam a usar drogas, casais que se separam para buscar ambições individuais, empregos perdidos por causa de absenteísmo e bebida etc.

Ainda assim, não podemos esquecer que quem está subindo na vida tem uma consciência aguçada dos limites da ascensão. Ou, mais que consciência, tem a experiência desses limites. Sabe que a faculdade que fez (e isso já foi um triunfo) não é das melhores. Sabe que pode ter orgulho do carro que comprou, mas vai dirigi-lo em ruas engarrafadas por falta de transporte público. O que não sabe é se, até terminar de pagar as prestações, as condições da economia ainda vão atuar a seu favor. É o tipo de sensação angustiante e frustrante que pode jogar pessoas na mesma situação do grupo mencionado no primeiro item: a sensação de ser vítima dos processos sociais, quando ontem mesmo era beneficiário.

Em grande medida, o que essas pessoas querem conservar, e o que as torna conservadoras, é uma não-conservação. Querem manter idêntico um estado de movimento constante, numa inércia algo paradoxal, quando se trata da vida política. Talvez o melhor exemplo seja a figura ambígua de Celso Russomanno, eleito com votação recorde em parte graças à bandeira da defesa do consumidor. Quem depende do consumo não quer ser passado para trás de jeito nenhum. Um componente crucial no desejo de manter o mundo do tamanho que sempre foi – isto é, pequeno – é que resulta em grande parte da constatação de que ele está se ampliando. E essa ampliação não chega sem uma boa parcela de ameaças.

A hipótese do discurso religioso é a mais complexa de todos, porque ele está vinculado, este sim, a movimentos muito profundos da sociedade que é difícil encerrar numa significação unívoca. É, aliás, um erro muito comum, como quando se diz que o evangélico, por exemplo, é mais rigoroso em sua fé que o católico, ou mais conservador. Para não me alongar demais numa discussão que não vai se resolver neste texto, deixo a recomendação de alguns outros.

A onda e o corpo

Todos os pontos acima sugerem que não existe um estado estacionário que subitamente tenha se tornado visível pela via eleitoral. E se existe uma mudança de direção, ela não é um bloco que abarca todo o país e o força para algum rumo. Por maior que seja o impulso de dizer algo como “é o fim!”, é bom ter em mente que a eleição é ponto nodal de uma dinâmica política, mas não é termo: nem fim, nem começo propriamente. Ainda que possamos traçar a narrativa do sistema político como uma sucessão de governos e legislaturas intercalados com eleições periódicas, essa narrativa sempre interage com outros ciclos e processos, alguns muito curtos (como a conjuntura macroeconômica e a ocupação de espaços nos governos), outros muito longos (como a maturação de ciclos econômicos, divisões de classe e reconfigurações fundiárias).

No caso do conservadorismo aparente que se revela na sociedade, como descrito acima, o que se pode vislumbrar é que algo tomou corpo, organizou-se; mas seria um engano profundo vê-lo como uma totalidade, a corporificação da mente coletiva. A idéia de que haja uma onda conservadora – e vamos dizer que o “corpo” mencionado acima é essa onda – implica que ela vá varrer algo da praia. Ela se levanta diante de algo, contra algo. O sentido de sua existência (se preferir: sua essência) é opor-se.

A bem dizer, a analogia do corpo é insuficiente: a onda conservadora é uma força. O que ela quer não é serser simplesmente, satisfeita consigo mesma (como poderíamos dizer de um corpo, por exemplo). O que ela quer é atingir algum outro corpo (ou outra força), derrubá-lo, quiçá anulá-lo, se tudo der certo, eliminá-lo. É uma onda reativa, e não é por acaso que o extremo do conservadorismo recebe o nome de reação.

Sendo assim, a primeira coisa a reconhecer é que se trata de uma manifestação visível de negatividade: se essencialmente é uma força que quer se opor (poderíamos brincar: o-por) a algo, é negação, não posição. A onda conservadora pressupõe para existir, e não faz sentido nenhum sem que esteja posto, algo que ela mesma identifique como seu contrário. Torno a isso logo mais.

O conservadorismo invisível

Por enquanto, ainda gostaria de citar um traço importante do conservadorismo: quando ele pode ser ele mesmo, é praticamente invisível. O conservadorismo essencial é quase a definição por excelência do consenso. É aquilo que não precisa ser enunciado. Por isso, não existe, não faz sentido, uma “onda” de conservadorismo bem instalado. A onda que pode existir é a do conservadorismo deslocado rumando de volta para o lugar fora do qual não pode viver por muito tempo: o centro, a base, o fundamento. Ou imitando esse retorno.

Pense em Bismarck, De Gaulle, Tristão de Athayde; ou Burke, Roberto Campos, Churchill. Grandes figuras conservadoras. Não são ondas, de maneira nenhuma: são rochas sólidas, frias e muitas vezes bastante admiráveis. Deles, pode-se até dizer que corporificam ou incorporam alguma totalidade presente no cerne de uma sociedade. Que semelhança têm essas figuras com nossos Heinze, Bolsonaro, Lorenzoni, Feliciano? Nenhuma, eu diria.

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Este é, finalmente, o ponto central do problema da onda conservadora: ela é composta de jatos d’água que não se parecem em nada com as rochas sólidas, aparentemente irremovíveis, do conservadorismo tradicional, que é maciço. A onda conservadora só existe quando é muito visível, quando exerce uma pressão muito forte, quando faz muito barulho. E é por isso que sua característica mais saliente é o histrionismo.

O histrionismo é mesmo um sinal de triunfo? Alguém que se coloca como anteparo para a chamada modernização dos costumes ou bastião da segurança amedrontada, vociferando contra o que entende ser uma ameaça existencial ao seu modo de vida, é plenamente vitorioso? Ou só é vitorioso até certo ponto?

A vitória do histrião

A vitória do histrião tem um alcance sintomaticamente curto: só chega até a beira do abismo, só persiste enquanto a derrota é iminente ou parece ser iminente. É por isso que o histrião é um histrião, e não um ativista ou o administrador de uma estado de coisas (um conservador efetivo). Para o histrião, é preciso que a ameaça seja iminente e constante. Sua resposta grosseira e grandiloqüente aparece, então, como um esplendoroso triunfo contra o mal. Só que esse mal não pode desaparecer, senão o campo de atuação e de existência do histrionismo some junto. O histrião é aquele que vive na superfície da aparência e luta para manter-se vivo ao garantir a permanência dessa mesma superfície. O histrião é o apêndice de seu inimigo, um inimigo que ele mesmo elegeu.

O que é o histrião? Não é o capitão de um navio em águas límpidas. O histrião é uma espécie de esquadrão suicida chamado para ocasiões que se anunciam catastróficas. O histrião é um kamikaze. Não há histriões e não há onda conservadora quando uma sociedade atravessa um consenso conservador. Nesse mar, não há ondas e o dissidente faz papel de lunático ou visionário. Só surgem reativos, histriões, quando brota o dissenso. Ou seja, quando surge um espaço até então desconhecido, inaugurando um novo regime da aparência. Só há onda conservadora onde há linhas de força correndo em sentidos opostos.

Isso posto, o que a onda conservadora nos diz sobre o Brasil? Não diz uma coisa só, e isso é que precisamos entender melhor. Aliás, precisamos investigar melhor. Vimos acima que o Brasil quotidianamente conservador existe, sim, e não deixa de ser natural que se represente no Legislativo. Vimos, porém, que não avançamos muito só com essa constatação. A solidez do conservadorismo brasileiro (com todas a perversão que contém, mesmo do ponto de vista de um conservadorismo mais castiço) está muito, muito abalada, e aquela rocha maciça está rachada. Ou, para usar uma imagem brasileira: milhares de cinzéis arrancam lascas dessa enorme pedra-sabão.

Não subestimemos a importância de episódios como os xingamentos ao goleiro do Santos e as conseqüências que tiveram. Os xingamentos sempre aconteceram, como bem lembrou Pelé, o rei do futebol e só do futebol, numa de suas declarações infelizes. O que não acontecia era a condenação do racismo. Não subestimemos a onda de torcidas organizadas gay, mesmo se tiver sido um fenômeno circunscrito às redes sociais: as pessoas estão se expondo no espaço público porque esse espaço está começando a surgir.

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Será pouca coisa o furor que cercou a “PEC das domésticas”? Será que a turma do “gagau” triunfou só por ter colocado seus histriões no Congresso? Talvez, mas só até um ponto: a beira do abismo. Eu pretendia não falar do segundo turno presidencial, mas vá lá: quando Aécio promete manter os programas sociais do PT, é mais que mero cinismo. Existem avanços que se pode até tentar esvaziar aos poucos, mas não se pode seriamente pensar que é possível remover de uma vez só. É o caso das cotas, da transferência de renda, da expansão do ensino superior. E tudo isso deixará marcas na população, mesmo quando elas preferirem candidatos conservadores.

(A propósito, recomendo vivamente este vídeo.)

Como se vê, as transformações da sociedade, muitas delas invisíveis e no plano do potencial, podem produzir resultados visíveis muito divergentes. Tem razão quem duvida de que mudanças se concretizem sem uma contrapartida institucional, uma forma perene e identificável que possa assumir seu nome. Mas formas assim não se compram no supermercado. Não estão dadas de antemão. Há descompassos e alternâncias de velocidade que são muito bem manobrados por quem domina os caminhos que já estão abertos. Abrir outros caminhos é tarefa mais árdua, incerta e demorada. Nesse meio-tempo, as emoções fervilham.

Outro terreno de jogo

É por isso, por exemplo – e aqui voltamos a algumas das questões que apareceram bem no começo – que não chega a ser absurdo que um período tão agitado como vivemos nos últimos tempos, de manifestações e violência escancarada, resulte num retrocesso eleitoral. Bastante gente se mostrou frustrada com isso, e não por nada: é frustrante, mesmo. Mas não inédito. Uma explosão coletiva como foi junho de 2013 é capaz de destruir muita coisa muito rapidamente, mas só consegue construir algo de concreto à medida em que vai esfriando. O rescaldo continua sendo como as cinzas de um incêndio e quem se aproveita é quem consegue se enfiar pelas brechas do sistema posto. É de se esperar que o histrião conservador seja o mais bem sucedido, mas não é o único: basta ver a votação do PSOL e do Jean Wyllys em particular, no Rio de Janeiro, e a notícia de que os candidatos das milícias foram rejeitados.

Eu disse que o momento explosivo do desejo no espaço público destrói rapidamente e constrói lentamente. Mas destrói o quê? Difícil dizer, quando tudo parece ter voltado ao normal. Por outro lado, essa normalidade é incompleta e certamente alguém está enxergando a situação com outros olhos. Isso se percebe por sinais vagos, cá e lá, a começar por um aumento das apostas. Primeiro, desses conservadores de estilo histriônico que discuti acima. Segundo, da esquerda de rua até ontem completamente desarticulada e deixada à sombra do PT vencedor, mas agora mais assanhada depois que o MPL fez e aconteceu. Dos Comitês Populares da Copa ao fortalecimento do movimento por moradia – e o senso de oportunidade dos Frias não permite que ignoremos o convite de Guilherme Boulos para ser colunista da Folha –, germes de articulação vão surgindo. Terceiro, pela figura de Marina Silva, que galvanizou as aspirações de muita gente que, oprimida pelas insuficiências do velho em política, encanta-se com a idéia de que houvesse uma nova.

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O que foi destruído? Pelo menos um certo consenso sobre as linhas em que o país se divide. Não hesito em dizer que a despolitização que vinha aos poucos tomando conta da sociedade, oriunda de um sistema político bastante despolitizado, sofreu uma fratura. Discreta, claro, mas visível, mesmo que em filigrana, mesmo que por sinais esparsos. As agruras do PT em diversas frentes dão testemunho dessa fratura, porque o partido acreditou poder beneficiar-se da despolitização para ocupar os espaços e empurrar os adversários para fora. Mais do que beneficiar-se dela, acabou promovendo-a. E o resultado foi lançar os adversários nos braços do histrionismo, ao mesmo tempo em que alienava seus melhores aliados potenciais. Agora o jogo será jogado em outro terreno.

Ao destruir, a explosão social, que se revela nas manifestações de rua mas não se limita a elas, pelo menos deve limpar o terreno para que as forças se realinhem. Parece que a política está de volta: tomara que façamos bom proveito dela. Haddad parece ter entendido, ou pelo menos vislumbrado esses sinais. Toda a briga em torno das faixas de ônibus e das ciclovias dá mostras de que há muita política para acontecer por aqui. E mesmo nesse caso, o que emerge primeiro é a golfada de histrionismo conservador.

Muitos dos nossos fantasmas coletivos vão emergir como efeito da onda conservadora no Congresso. Muitos contingentes da população vão ter de se situar e se revelar. Mesmo assim, ou exatamente por isso, o cataclismo do triunfo conservador precisa ser entendido como o aspecto fenomenal, visível, superficial, de um turbilhão de forças, recomposições, rearticulações.

Isso não significa que, daqui a poucas décadas, seremos necessariamente um país menos amarrado a modos de vida sectários e envelhecidos. Todavia, significa que antigas linhas de divisão e disputa, tendo caído na obsolescência mas continuado em vigor por muito tempo, estão começando a ceder o lugar para linhas novas, provavelmente mais condizentes com as forças que efetivamente disputam espaço. Os próximos anos serão difíceis, é claro, mas, olhando direito, o fácil pode ser mais assustador.

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