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Assuntos que passaram

Quando se esgotaram minhas forças – e isso deve fazer umas duas semanas, pouco mais, pouco menos – logo vi que a primeira vítima seria o blog. Eu estava certo. Assunto vinha, assunto ia; a vontade de escrever vibrava entre as orelhas, mas desfalecia entre a mão e o lápis (que digo? É o teclado…). O coeficiente de crescimento do desânimo, como não podia deixar de ser, era proporcional ao acúmulo de eventos ao redor dos meus olhos e sentidos. O mundo é assim mesmo: ou você gira com ele, ou aceita a frustração. (Não há nada errado em aceitar a frustração; é melhor do que se deprimir à toa.)

Foi assim que, nesse meio-tempo, eu quis comentar uma infinidade de coisas, mas não o fiz. Em muitos casos, a escolha foi acertada: outros o fizeram melhor do que eu jamais faria, e uma humilhação evitada não deixa de contar ponto a favor. Talvez essa máxima contrarie o espírito blogueiro, mas é assim, não há o que fazer. Em outros casos, perdi a chance: nem me lembro mais das reflexões simpáticas que me causou a vista de uma meia-dúzia de bolas de futebol, gastas e esfarrapadas, boiando em meio à sujeira, numa curva do rio.

Seja como for, listo aqui algumas das idéias que deveria ter desenvolvido em postagens específicas. Qual é o interesse para você que me visita desses parágrafos curtos sobre coisas que mereciam páginas e páginas? Ora, os links, claro. Pois vamos:

1) No último fim-de-semana, passou um documentário alemão no canal Arte sobre Dennis Hopper, com o tristemente premonitório título de “Spiel (oder stirb)”: crie ou morra. Pois bem, três dias depois ele modulou o verbo. Não obstante, recomendo a todos o filme, em que o ator conta sua vida com uma sinceridade e uma naturalidade marcantes. Em seus últimos anos, Hopper se dedicava às artes plásticas, com um interesse particular por fotografar grafites de gangues em Los Angeles, na tentativa de decriptá-los. Eis um trecho, eis outro. Eu poderia mencionar que ele era um personagem fantástico e um ator fenomenal, mas isso, todo mundo já sabe. Então me contenho em sugerir: procurem o documentário.

2) Mais uma sobre morte, um de meus velhos temas preferidos neste blog: Louise Bourgeois não chegou ao centenário, o que certamente teria sido tema para uma escultura e escritos carregados de ironia. Como no caso de Dennis Hopper, eu poderia mencionar que ela era uma personagem fantástica e uma artista fenomenal, mas isso, todo mundo já sabe. Então me contenho em recomendar um espetáculo sobre ela, obra da sempre maravilhosa Denise Stoklos. Ela tende a rodar o país apresentando diversos de seus monólogos, e “Faço, Desfaço, Refaço” costuma estar no meio deles. Ou seja, seu dever, visitante, é ficar atento à agenda da moça. Mais cedo ou mais tarde, ela vai passar pela sua cidade. Encontrei poucas coisas na internet sobre esse espetáculo, em que Stoklos incorpora Bourgeois através de seus escritos, mas eis dois links possíveis: este e este.

3) Um dos assuntos que não ouso abordar é a questão da Terra Santa (dizem que o sangue purifica, o que explica a santidade daquele deserto). Há muita coisa em jogo, uma história enrolada demais e um jogo de retórica e pressões em que os culpados são muitos e a vítima é uma só: a população que preferia poder só tocar a vida. Aliás, Brecht tinha razão. Quem tenta não se interessar por política é massacrado (desculpe a citação imprecisa) por quem se interessa. Em todo caso, algumas reflexões se fazem necessárias, sobretudo depois que o governo israelense foi mais longe do que o longe demais a que já tinha ido.

A primeira delas: não consigo entender como um país cuja fundação remete ao trauma do genocídio e ao racismo sistemáticos pode agir, meros sessenta anos depois, de forma sistematicamente genocida e racista. Acho que só conseguirei produzir um texto a respeito quando tiver entendido isso, ou seja, nunca.

A segunda: O risco de cair no fascismo começa quando alguém resolve substancializar um povo, um governo e os atos de um e outro, para em seguida identificá-los. Tenho visto muita gente tratando como anti-semitismo toda e qualquer crítica às atitudes criminosas do governo israelense: muro, bloqueio de Gaza, bombardeios de hospitais, assassinato de ativistas e por aí vai. Com o risco de cair numa comparação de Godwin, lembro que Goebbels considerava qualquer crítica a Hitler como “anti-alemã” (Sophie Scholl perdeu a cabeça por isso); Jdanov considerava qualquer arte independente como anti-revolucionária (está lá a Sibéria que não me deixa mentir); e, em nossas terras tropicais, o lema era “Ame-o (pode parecer que é o Brasil, mas é o regime, ou seja, a ditadura) ou deixe-o (pode parecer que é o Brasil, mas é o mundo dos vivos)”. Quem identifica críticas a Israel com o ódio ao judaísmo está a dois passos de se tornar um fascista, se é que já não se tornou, e o governo israelense está de braços abertos para essa categoria humana.

A terceira: Robert Fisk tem toda razão: são covardes aqueles que não condenam o ataque israelense à flotilha humanitária. E os mais covardes são os governos “ocidentais” (já disse que odeio essa expressão), aqueles que ou sentiram o fascismo na carne, ou lutaram contra ele, ou ambos, e deveriam atuar para que coisas assim não pudessem se repetir.

A ante-penúltima: o fascismo também tende a achar que consegue fazer todo mundo de otário, não sei por que razão ; em 1o de setembro de 1939, os alemães vestiram cadáveres com uniformes poloneses e acusaram o país vizinho de atacar uma estação de rádio sua, tentando justificar o início da Segunda Guerra (ninguém caiu, claro). Nossos ditadores tentaram fazer crer que Vladimir Herzog tinha se enforcado na cela (e teve gente que caiu, a começar por alguns órgãos de imprensa). Agora o governo israelense mostra vídeos de estilingues (!!!), bolas de gude (!!!) e pedaços de madeira como prova de que seus pobres comandos foram atacados por hordas de pacifistas. Bem que Einstein (por sinal, judeu) avisou: a quarta guerra mundial vai ser lutada com paus e pedras…

A penúltima: mais covarde ainda é o governo (ditatorial, aliás) egípcio, pouco mencionado em todo esse imbróglio, mas que também deixa fechado seu acesso à faixa de Gaza. E isso porque é uma nação muçulmana, que se pretende líder do mundo árabe, e que já esteve mais de uma vez em guerra com Israel.

A última: se eu vivesse no Oriente Médio ou perto dele, provavelmente estaria louco atrás de uma bomba atômica também. Afinal, quem é capaz de transformar um canto de terra num gigantesco campo de concentração é capaz de qualquer coisa. Os únicos detentores da famigerada arma na região têm se revelado uns autênticos lunáticos.

4) Outro assunto que não ouso abordar: eleições. E os motivos são vários. Estando fora do Brasil, quem sou eu para discutir mais este emocionante embate PT X PSDB? As informações que chegam aqui sobre o Brasil são bastante positivas: crescimento econômico, estabilidade financeira, redução da miséria e da desigualdade, investimentos em infra-estrutura, expansão do comércio, medidas anti-cíclicas perante o risco de recessão, desfavelização, recuperação da pesquisa científica… Mas como meus amigos tucanos seguem se descabelando, concedo-lhes o benefício da dúvida: talvez haja mesmo estatísticas secretas provando que o país ruma célere para o desastre.

Mas não posso deixar de levantar algumas hipóteses que me têm martelado a cabeça.

A primeira: muita estranheza me causa essa guinada à direita do PSDB, particularmente de Serra, nos últimos anos. De sua origem na luta intelectual contra a ditadura, o partido de Montoro e Covas foi parar nos braços da Arena, nem bem passado um quarto de século. O PSDB, que um dia chegou a se apresentar como núcleo do progressismo nacional, tornou-se um ninho para Azeredos e Guerras deste mundo.

Como explicar? Dois indícios parecem oferecer uma possibilidade de compreensão desse estranho fenômeno. Primeiro, o movimento irreversível e consistente do PT para o centro, ou melhor, para longe da esquerda (o que não necessariamente é a mesma coisa, se levarmos em conta a miríade de sentidos possíveis para o termo “esquerda”). Acontece que o PT é um partido com uma base mil vezes mais sólida que a do PSDB, porque são movimentos sociais que existem de fato e não estão apenas nas conversas de apartamentos de Higienópolis, nem entre as mesas do Massimo. Em outras palavras, essa migração do PT parece traduzir um movimento consistente da sociedade brasileira (cujos descontentes deságuam no PSol), o que deixa o PSDB um tanto sem argumentos ou bandeiras.

O segundo indício é a derrocada dos partidos conservadores tradicionais; o ex-Arena tentou até a velha estratégia de assumir um nome contraditório (“Democratas”), mas não deu certo. Só alguns poucos malucos ainda crêem que Demóstenes Torres e Kátia Abreu têm algo de construtivo a oferecer para o país. Ou seja, mesmo a parcela mais conservadora da sociedade está menos radicalizada, embora ainda apareça muita gente disposta a ter saudade da ditadura e chamar o combate a ela de “terrorismo”. Enquanto o clã dos Maias e Magalhães vai afundando, o antigo partido “social-democrata” (se é que eles jamais o foram) ocupa seu lugar. Isso para não mencionar a turma do Maluf, claro. Não deixa de ser uma evolução da mentalidade do país e uma prova de que não estamos indo tanto para o buraco quanto querem fazer crer os e-mails descabelados que tenho recebido…

A segunda, na verdade um corolário da primeira: conforme temos podido ver, o candidato dos tucanos à presidência, que dispensa apresentações, parece ter ido pelo mesmo caminho. Quem leu os artigos e comentários de “Brasil sem milagres”, escritos entre 78 e 86, tem dificuldade em reconhecer o homem que hoje inibe a pesquisa e o ensino em São Paulo e manda ver a metralhadora giratória contra países vizinhos e pessoas com pensamento menos monolítico que o de seu partido. Pois é, uma das poucas vantagens que tiro de ser formado em economia é ter lido artigos publicados nos anos 70 por gente que, hoje, pode preferir queimar seus antigos escritos (não, não estou falando de FHC).

A grande questão é: para quem vai o discurso raivoso? Para quem vão factóides como o Ministério da Segurança e a cocaína boliviana? Afinal, se considerarmos que tanto o problema da violência quanto o das drogas, embora ainda fortíssimos no Brasil, estão muito menores do que eram há dez anos, dá para perceber um descompasso estranho entre o que berra a oposição e o que percebem os eleitores. Ora, nem preciso dizer o quanto isso é improvável num tempo em que o marketing político está tão profissionalizado. Portanto, a pergunta pode ser reformulada assim: se eles não esperam conquistar eleitores novos com o discurso raivoso e descolado da realidade, o que eles esperam?

Minha hipótese é a seguinte: nem Serra, nem o PSDB têm esperança de vencer as próximas eleições presidenciais. A brigas deles, portanto, não é com o PT pelo Planalto, mas com o PFL, pela população conservadora. Se o PDS continuar sua derrocada, o PSDB se consolida como partido conservador brasileiro (o que não deixa de ser uma evolução, convenhamos), empurrando ainda mais a Arena para o esquecimento. Com isso, o estranho discurso da campanha de Serra não seria pela conquista de novos eleitores, que poderiam lhe dar uma vitória já aparentemente impossível, mas pela consolidação dos velhos eleitores. Enfim, é só uma hipótese.

A última: tenho razões para crer que Folha e Globo estão derrubando o último bastião do jornalismo independente com circulação generalizada no país. A observar de perto!

5) Sobre isto aqui, que continua aqui, ainda pretendo fazer um texto mais extenso. Quando ousei fazer críticas à pretensa panacéia do hipertexto, alguns anos atrás, me tomaram por um dinossauro – não importa se foi num blog pra lá de moderno (sic) como o Cálculo Renal. Pois bem, Carr é famoso, então neguinho vai ter que escutar. Aliás, é até irônico dizer algo assim justamente numa postagem cheia de links…

6) Não posso ir embora sem lincar um texto breve, mas preciso de meu amigo Leonardo. Quando eu falei que havia casos em que me dei bem por não escrever e evitar a humilhação de ver alguém dizer algo muito melhor do que eu diria, era nisto que estava pensando. Lelec manda muito bem ao escancarar o abuso do pretérito do futuro, que se tornou o único tempo verbal de uma imprensa tornada inútil e anódina. O contexto está no artigo anterior de Leonardo, que merece muito ser lido, em seu blog ou no Amálgama, onde a caixa de comentários pegou fogo.

Era isso… obrigado pela atenção!

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vida

Oito coisas e eu defunto

Cachoeira da Fumaça, Chapada Diamantina, Bahia
Enquanto estive fora, recebi um convite para um meme vindo lá do Ágora com Dazibao no Meio, do carioca Ricardo Cabral (que assina Ricardo C., talvez para esconder o parentesco com o governador. Será?). Ricardo pensa mal de mim. Acha que não vou aceitar o convite porque sou muito cabeça. Mas ele diz isso porque não me conhece. Se conhecesse, saberia que a parte do corpo que mais uso, aliás abuso mesmo, é o fígado.

Mas o blogueiro Cabral tem lá sua razão. Já fingi não ter visto uma série de memes (falando nisso, ô palavrinha detestável! Na sua aplicação bloguística, trucida o sentido que Dawkins quis lhe dar ao cunhá-la…). Mas se o fiz, foi porque aqueles eram memes “ruins”: “cinco discos que você adora”, “dez pessoas que deveriam ser empaladas” e outras listinhas que não interessam a ninguém. O meme do Cabral é um meme “bom”: apesar de girar em torno de um número, coisa inevitável em nossa época de planilhas, esse é um convite que dá o que pensar. Em outras palavras, é um convite ao diálogo entre blogueiros, entre leitores, entre blogueiro e leitor.

Chega de nariz-de-cera, vamos ao meme: seu tema são as oito coisas que tenho de fazer antes de morrer. Mas, por favor, blogueiro que quiser dar seguimento ao meme: não é uma lista banal com oito itens: “conhecer o Nepal”, “provar LSD, “ouvir Jimmy Page ao vivo”. A idéia é falar sobre o assunto. Não é trocar dados, é trocar humanidade.

Acontece que esse papo de morte é um pouco perturbador. Penso na questão e me vêm à mente várias coisas que são feitas depois dela: velório, enterro, cremação, obituário, missa de sétimo dia. Mas isso, são outras pessoas que têm de fazer pelo defunto. Mesmo que ele deixe instruções por escrito, não terá forças de obrigar os seus a segui-las. Ou seja, no meu caso, se quiserem me velar, vão velar, com a desculpa de se despedir de mim. Honestamente, tendo a crer que se quisessem se despedir, viriam abraçar meu cadáver. Me deixar deitado entre flores e moscas não é despedida, é tortura. Uma tortura tradicional, contra uma vítima indefesa e que jamais vai abrir o bico, mas ainda assim, tortura. Não estou dizendo que todas as tradições sejam más, mas essa aí me incomoda.

Sei que estou fugindo do assunto, mas não faz mal: fugir do assunto é uma delícia, gosto muito, Syd Field não manda neste blog. Agora, retorno ao mundo do meme. Oito coisas a fazer antes de morrer. Mas, puxa, é tanta coisa que quero fazer, e são todas enquanto estiver vivo! Mas só posso escolher oito, isto aqui não é uma autobiografia por antecipação. Então resolvi colocar um pouco de pimenta no assunto: vou partir de um cenário bastante assustador, mas útil. Imagino um oncologista insensível que me anuncie, na lata, meus últimos seis meses de vida. Mas é uma doença rara: meio ano vivendo normalmente e, de uma hora para outra, cair duro. Não sei como eu receberia essa notícia na vida real. Mas, nesta minha suposição, eu seria frio como Friedman: seis meses para fazer oito coisas, é isso e fim de papo. E finalmente me sinto à vontade para atacar o tema do meme.

Por mais cético que eu seja, principalmente em assuntos de vida após a morte, não consigo jogar uma banana definitiva para a posteridade. Engraçado, tenho pouca esperança no hoje, mas, bem, aos do futuro, temos de antecipar algum crédito. E creio que, para evitar a terrível desgraça de formar uma próxima geração tão medíocre quanto a atual, é preciso bagunçar as cabeças desde já; as dos bebezinhos e até as nossas. Sendo assim, sabedor da minha morte próxima, eu redigiria umas poucas páginas de uma obra cujo propósito seria resultar inacabada. E começaria assim: “Sei que as n (digamos… 10) teses que vou apresentar são horrendamente polêmicas e parecem atentar contra o bom senso e qualquer tipo de lógica. Mas estou certo de que a argumentação que as sustenta nos capítulos seguintes será suficientemente rigorosa e bem construída, e há de demonstrar com clareza a verdade do que estará exposto.” Em seguida, mais alguns parágrafos recheados de auto-elogio, mas muito bem disfarçado, para seduzir os leitores mais refratários sem passar recibo de afetação. Finalmente, as n teses (quantas eram? Dez?), enumeradas uma embaixo da outra, no melhor estilo analítico anglo-saxão. Por último, um “vamos então aos argumentos”. E acaba aí, porque o autor morreu sem poder concluir sua obra-prima, o coitado. Com isso, na minha fantasia, por gerações a fio as pessoas se ocupariam concordando e discordando, construindo provas e refutações, e teriam de sair da letargia intelectual. É presunçoso, claro, mas o cenário é meu, faço com ele o que quiser.

A segunda idéia parece coisa de gente boazinha, mas não é. Sem mais rodeios: eu devolveria meu apartamento e distribuiria minhas posses. Não é questão de ser franciscano, nada disso. “Liquidez é liberdade”. Eis aí uma divisa interessante… Quem tem posses está preso a elas. Você não é você: você é uma soma de você com sua casa, seus móveis, seus livros e discos, seu carro e suas contas a pagar. Mas quem precisa disso quando sabe que vai morrer? Com a ampulheta escorrendo, não quero passar o tempo na fila do banco.

Muito bem, liberdade conquistada, restaria fazer o óbvio: viajar bastante e torrar a tal da liquidez passeando por aí. Vamos dizer, pela América Latina, já que o mundo inteiro é demais para seis meses. Pode parecer um princípio um pouco guevaresco, talvez mesmo bolivariano, mas aí está uma leitura errada do meu projeto: quem vai morrer não tem mais tempo de revolucionar nada. Na verdade, é uma espécie de Libertadores pessoal; falando nisso, um certo número de estádios não está fora da lista de afazeres. Dar um olá para os vizinhos, pense comigo, não seria má idéia. Nada mal, terminar a vida entre os menonitas do Paraguai, os incas do Peru, folha de Coca e tudo, um daiquiri e um puro legítimo ao som de Compay numa praia do Caribe. Enfim, um pouco de prazer e cultura não fazem mal a ninguém.

Mas nem só de hedonismo vivem os moribundos, é claro. E os deslocamentos cansam, mais cedo ou mais tarde. Já mencionei a questão da posteridade, não? Pois bem: enquanto estamos vivos, deixamos sempre, talvez por preguiça, ou então por crueldade, ou ainda orgulho, uma infinidade de arestas por aparar. Muitas delas fáceis, rusgas desnecessárias, que não precisariam ter durado mais do que alguns instantes. Mas nós, em nossa estupidez perfeitamente natural, deixamos que cresçam até nos sufocar. Sou tão orgulhoso quanto qualquer um e não estou particularmente interessado em deixar um rastro de paz e alegria como legado, mas suponho que a proximidade da morte seja algo que amolece o coração. Para amainar os ódios e rancores, inventarei versões para todos os fatos dolorosos do passado, de forma a deixar em boa situação o antagonista. Mesmo que eu esteja seguro de ter razão, morto, ela não me fará nenhum bem. O que custa aliviar a consciência alheia? Puxando pela memória, só consigo pensar em duas exceções para este terceiro ponto. Gente que, por mim, pode carregar a culpa para a tumba (a deles, não a minha).

Quebrei a cabeça feito um louco e só agora cheguei à metade dos itens que quer o meme do Cabral. Oito é um número alto… puxa. Mas é preciso louvar o criador da série por não ter escolhido um daqueles números de sempre: três… cinco… sete… dez… A gente se acostuma a enquadrar o pensamento nas categorias mais banais e desnecessárias. Uma atitude simples, como essa de escapar aos algarismos cabalísticos, já é heróica. Um verdadeiro exemplo para o resto da nossa existência. O lado um pouco desconfortável é ter de inventar mais quatro coisas para fazer nos últimos meses da vida.

E, como acho que já soltei demais as rédeas da bondade (fui franciscano, fui agregador…), me sinto no direito de abrir espaço para a minha maldade. Quer dizer, maldade bem entre aspas. Trata-se muito mais de subverter algumas aberrações que se cristalizaram no inconsciente coletivo de todo mundo e, na seqüência, foram atacar a consciência individual de cada um, a ponto de muita gente desenvolver justificativas de muita complexidade para crenças que, cá entre nós, são umas enormes tolices. A essa altura, com só mais dois meses de vida a viver, sem precisar fazer planos para meu próprio futuro, sei que vou estar livre para me dedicar à atividade cruel e deliciosa de derrubar, ou pelo menos tentar derrubar, um certo número de ícones que me sobem à cabeça. Isso que venho de dizer pode parecer enigmático, e a idéia é essa mesmo. Estamos tratando de um futuro hipotético, em que não me desviaria de nada mais importante o trabalho de apontar charlatães, escarnecer de conceitos, sabotar monumentos e assim por diante. Não pense, por favor, que sem a perspectiva da morte eu seja um conformista, preguiçoso conservador. Simplesmente sou obrigado a expor meus argumentos com parcimônia e prudência, tentando trazer as opiniões e espíritos para o meu lado sem assustá-los e pô-los em fuga, conforme ensinou o velho Sun Tzu. Se hoje preciso ser sedicioso o quanto der, à beira da morte poderei escancarar meus propósitos mais disfarçados.

Muito bem, eis cinco coisas. A sexta será um escorregão na fraqueza. Nosso mundo nos oferece todo tipo de opções imediatas que, se somos preocupados com o longo prazo, evitamos, recusamos, tentamos ao máximo escapar. Longo prazo? Não para alguém que já prepara as malas para o encontro com a morte. Conclusão: limites para quê? Nas poucas semanas em que meu sangue ainda circularia, teria de aceitar ser transformado em laboratório. E se acaso, certa vez, eu passasse dos limites, problema nenhum: o pior que poderia me acontecer seria a morte. Mas, convenhamos, isso não representaria nada em termos de trade-off. Ainda algum cretino poderia me acusar de eutanásia, mas que então me denunciasse e mandasse atirar no xadrez meu cadáver. Irônico, não? Pergunte a algum cronista sóbrio como quer terminar a vida e ele responderá: doidão!

Muito bem, das oito coisas que me pediu o sobrinho do governador, faltam só duas. Para me livrar da tarefa de maneira cretina, mas eficaz, eu poderia dizer, não inteiramente desprovido de razão, que a última seria morrer, e a penúltima, preparar a morte. Se eu fizesse isso, quem chegou tão longe na leitura me lincharia com certeza. Mas o que vou fazer, afinal, não chega a ser muito diferente. Minha sétima atitude pré-“bater as botas”, a ser tomada poucos dias antes da hora fatídica, seria voltar ao médico, fazer novos exames e me certificar de que é isso mesmo, ele tinha razão, mais alguns dias e acabou para mim. Imagine o pandemônio que seria descobrir uma cura milagrosa à beira do fim, depois de me desfazer dos meus bens, prometer argumentos que não posso expor, dissipar os últimos fundos numa viagem interminável, oferecer em presente a meus desafetos uma consciência tranqüila imerecida, fazer novos inimigos lá onde só havia quietude e estragar o que restava do meu organismo condenado?

Nessa hora, talvez eu preferisse ouvir do doutor a confirmação da morte próxima. Ainda assim, muito me atrai a idéia de recomeçar a vida em bases inteiramente diferentes. Para além das implicações filosóficas que representaria uma experiência radical desse jeito, seria, na prática, um sopro de vida tão forte que só mesmo a morte sabe dar. Mas não posso aventurar essa hipótese neste texto: na falta de seu elemento unificador, ou seja, a própria morte, tudo que venho escrevendo perderia inteiramente o sentido. Conclusão: vou ao médico, apreensivo, mas ele balança a cabeça e diz, se fazendo de desolado: “É… isso mesmo. Seu quadro não deixa dúvidas. Dois dias e já era”. Deixo o consultório num misto de apreensão e determinação. Sei que, num dia como esse, eu suaria frio e o mundo de minha visão estaria borrado, como se eu fosse desfalecer a qualquer instante. Eu tentaria me agarrar à consciência e ao sangue frio, embora, nas veias, o sangue de verdade estivesse a um grau da ebulição. Eu tentaria me concentrar nos dois dias, não como o que me separa do aniquilamento, o nada definitivo, mas como o prazo que me concedeu a enfermidade para cumprir minha última tarefa, a já famigerada “oitava coisa”…

Dois dias é tempo suficiente para chegar à Cachoeira da Fumaça, Bahia (salve, meu pai!). Mas antes de terminar esta saga dos meus últimos dias, que já nem agüento mais escrever, e imagino que você também não suporte mais ler, preciso alertar que, como todo mundo, sou contra o suicídio. Conforme a nosso código moral, considero-o crime mais hediondo do que a covardia e a tirania. Tirar a própria vida não é justificado nem quando as convicções de nosso inconsciente, ou a mera lógica, parecem justificá-lo. Antes definhar, passar as últimas horas na dependência da morfina e ser reduzido à aparência de uma múmia anoréxica a cometer o supremo absurdo de abandonar este mundo num ato de livre arbítrio.

Por outro lado, também me parece que a morte é o momento mais importante de uma vida. É uma espécie de fecit, poioumenós, de parla, sei lá eu. Sem a morte, toda vida é uma história incompleta. Não soa injusto que passemos toda a vida buscando a dignidade, o estilo, e na hora da morte aceitemos qualquer coisa, mesmo uma bobagem como ter um piripaque no meio da rua? Acho irônico. Os bravos guerreiros do passado, afinal, não eram assim tão irracionais, ao preferir perecer no campo de batalha, jovens, mil vezes a fenecer enfraquecidos num leito de morte mal-cheiroso. É uma estranha dicotomia. De um lado, o pecaminoso; de outro, o indigno.

Eis onde entra a cachoeira da fumaça: na tentativa de conciliar o que duas partes tão diferentes de mim consideram mais apropriado. É mais do que simplesmente encontrar a morte no meio de uma beleza fantástica como a da Chapada Diamantina. É incorporar a beleza à morte de uma maneira que mesmo em vida não seria possível. Quando estive no alto desse despenhadeiro, anos atrás, veio sem ser chamado um pensamento geométrico. Tanto espaço, tanto ar, entre as escarpas em que se agarram arbustos cegos! Uma multidão de pontos de vista ocupados só com partículas de água invisíveis, tão insidiosamente densas que desencorajam até o vôo turístico dos pássaros. Um volume de ar sem olhos. Um crime.

Não digo que seja sem sentido. É que não consigo me livrar de uma certa tendência hegeliana a achar que o espírito precisa superar as mistificações da pura natureza, virgem, violenta, perigosa. Hegel poderia até estar certo, não fosse o fato de que o espírito pode muito pouco quando o corpo é tomado de vertigem. Seguindo as instruções dos guias, o espírito só pode se aproximar do abismo para espiar a maravilha se for se arrastando, o ventre contra a pedra fria e áspera. Uma humilhação para o espírito, talvez? Creio que não chegue a tanto. Ainda é o espírito que se dispõe a pôr-se na horizontal para um momento de concentração que aos irracionais não é possível. De pé, nem o mais inabalável dos brutos conseguiria evitar a tonteira e a queda. Então o espírito saudável, o que faz? Não tem pudores de meter-se de joelhos em busca da beleza que cobiça.

Entre as oito coisas a fazer antes de morrer, faço questão de incluir a própria morte. Conhecendo o destino inevitável, adquirimos um controle tão magnífico sobre a própria vida! Quantas vezes não sabotamos nossas volições mais brilhantes por medo da cortina que nos esconde o futuro e, no futuro, a idéia vaga que nutrimos da morte, única face assegurada da existência! Será que o melhor exercício do bem viver não seria convencer-se de que a morte está próxima, muito próxima? Deixo a questão aos autores de auto-ajuda. Quanto a mim, imagino algumas despedidas, dois ou três goles de cachaça para dar coragem, uma longa inspiração profunda de ar puro, impregnado de pólen e, quando o guia não estivesse olhando e não pudesse me impedir, o salto, tão distante quanto desse, naquele vazio cheio de atmosfera e paisagem. Seria uma queda louca, alucinante, infelizmente curta. Eu veria coisas que ninguém viu, de uma maneira que ninguém imaginou.

E aí, terminaria tudo. O ideal seria ter a crise que de qualquer jeito me mataria, o mais próximo possível do fim do percurso. Que frustrante, não, tombar logo depois do impulso? Minha queda pela Chapada seria como a de um saco de beterrabas. Mas o mais provável seria nem sofrer o ataque: morrer quando o corpo desse com o chão, pesado e moído. Aí sim, podemos dizer que houve um suicídio, uma eutanásia, um ato ilícito, um horror. Mas se forem buscar meus restos, teriam dificuldade em determinar o momento do sinistro, então seriam obrigados a me sepultar direitinho, de preferência por ali mesmo. A morte pela queda, dizem, é instantânea. A vítima não sente nada. Os ossos são feitos em pedaços de repente e acabou. É um pensamento terrível, mas nem tanto para o morto ele mesmo. Afinal, quando minha carne estiver espalhada, molenga, sobre as rochas cobertas de limo aos pés da cachoeira, que me importarão meus ossos? Não haverá mais ninguém ali para se importar, eis uma subjetividade a ser riscada da agenda.

Fim deste texto desordenado, cheio de digressões, quase sem unidade, às vezes enfadonho, às vezes simplesmente tolo. A rigor, eu deveria ter vergonha de submeter o distinto internauta a uma provação dessas. Mas estou tranqüilo, primeiro porque sei que o internauta não se submete a nada e eu não tenho o poder de ofendê-lo; depois, porque me diverti pensando todas essas tolices sobre minha própria morte. Pois é, isso me basta. Agora, para obedecer às prescrições do Cabral, sobrinho do governador, deixo aqui minhas indicações:

Anny
Diego
Marcão
Naty
Nelson
Olívia
Rafael
Sandro

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Nos jardins, as cerejeiras

Três cerejeiras
Existem polianas – e polianos – para tudo neste mundo. São sensibilidades capazes de encontrar alegria em qualquer coisa. É o caso da gente que aponta belezas específicas a cada estação do ano, dizendo que todas podem ser fruídas e amadas, cada uma à sua maneira. É, digamos, quase verdade. Mas uma verdade mitigada pelo fato de que o verão queima, a primavera engana com suas temperaturas imprevisíveis, o outono anuncia o inverno naquelas folhas coloridas, e o inverno, ora…

Admito que uma paisagem campestre coberta de neve dá uma belíssima imagem para quebra-cabeças de 2000 peças, ao menos nas poucas horas em que a luminosidade é suficiente para o obturador da câmera. Mas, sem mencionar a penumbra, a neve de verdade, concreta e muito empírica, não é nada disso. Fica suja ao se misturar com a lama, é viscosa quando derrete, escorrega e causa acidentes. Muito bonita quando cai. Depois, um Deus nos acuda.

Aqui em Paris, quase nunca há neve. Dizem que caiu um pouco há dois anos (eu não vi). De sorte que qualquer elogio à beleza do inverno deve excluir esta célebre cidade. Entre novembro e março, Paris é feia, cinzenta, carrancuda e ainda mais suja do que de hábito. É a estação chuvosa, quando as paredes se tornam pegajosas e recendem a cinza de cigarro barato. A ausência do que de verde há na vegetação desnuda a monotonia cromática sufocante das fachadas, na cidade que deveria ser toda luz. À exceção dos turistas brasileiros, ninguém é feliz; as mordidas e os rosnados recíprocos se multiplicam. Sair à rua torna-se algo a evitar. Em poucas palavras, são meses passados na toca.

Foi por isso que escolhi cerejeiras para ilustrar este texto rabugento. Três delas. E lanço-me à tese: não há melhor augúrio do que a chegada das cerejeiras. Ainda é março, as flores e folhas só virão em abril, mas já, ladeando os galhos eriçados dos plátanos, estão elas, as cerejeiras, rompendo em flores rosadas. É um alívio, muito mais do que uma festa para os olhos. Em si, a beleza pouco diz: há cerejeiras também no Brasil, mas elas não se destacam, ficam humildes no meio dos ipês, manacás e damas-da-noite. Em março, dar com uma cerejeira em flor em Paris é como atracar no cais após a tempestade. É o mesmo efeito, sobre os músculos como sobre o espírito.

Se me fosse dado mudar algo no texto de “O Cerejal”, de Tchekhov (seria um sacrilégio, já sei), eu apenas inverteria a ordem das estações: a ação começaria em agosto e terminaria em abril, as árvores sendo postas abaixo em pleno ápice da exuberância, quando respondem por toda a alegria dos russos a cinco graus negativos. Mas isso talvez fosse terrível demais para o público moscovita, soaria, imagino, um tanto melodramático. Vai ver, foi por isso que o autor escolheu a ordem como está, com o desmatamento às portas do inverno: nem o mais bruto dos mujiques enriquecidos derrubaria cerejeiras em flor. É certamente o que ele pensou.

Sobre a concretude dos dados: consta que as cerejeiras vieram do Japão. Não tem dúvida disso a senhorinha que, tendo visto um rapaz pacato a fotografar árvores, postou-se ao meu lado e comentou: “Como são sublimes, as cerejeiras japonesas!” Concordei e sorri para suas costas encurvadas, seu manto de lã grossa, sua cabeleira rala e opaca. Uma dessas nonagenárias que circulam por Paris sem receio algum, e hão de continuar com seus passeios enquanto tiverem pernas. Pois ela, que já viu tanta cerejeira florindo, na guerra como na paz, ainda se admira das flores. Como eu.

Corrigindo a informação: apenas as cerejeiras ornamentais são importadas da terra do sol nascente. As frutíferas são daqui mesmo. Pois as cerejeiras japonesas, em sua pátria, chamam-se Sakura e simbolizam a beleza efêmera de nada menos do que a vida em si. Os policiais e o exército usam a flor da cerejeira como símbolo, como faziam os pilotos kamikaze, de quem se esperava que reencarnassem como Sakura. É também o título de uma canção tão monótona que vence qualquer samurai pelo sono. Sakura, as árvores que enfeitam a primavera nos jardins do imperador, como a enfeitam em meus bulevares.

Devo confessar que tirar prazer da vista de uma aléia florida me faz sentir como um autêntico capiau. Das cerejeiras, diria o cínico, devemos tirar apenas cerejas (não das Sakura, que, como vimos, são ornamentais). Mas o cínico esquece que todas as cerejas que comi na vida vieram da feira ou do supermercado. Somos civilizados, tudo está ao alcance da mão, a um clique ou um telefonema de distância. Não é o caso de desesperar com o inverno e se apaixonar pelas cerejeiras. Mas, fazer o quê, é assim. Estamos chegando perto, mas ainda não aniquilamos a natureza em todas as frentes.

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A política mané e o pauvre con


Chega de Brasil por um instante. Cá na terra das rãs fritas também acontecem coisas que merecem comentário e reflexão. E não há personagem melhor para isso, neste momento, do que o impagável, o magnífico, fonte inesgotável de causos e fofocas, objeto das maiores apreensões republicanas, o único, o famosíssimo presidente da França, Nicolas Sarkozy. A última do húngaro que não curte estrangeiros, se tivesse acontecido há um ano, durante a campanha presidencial, enterraria de uma hora para a outra sua candidatura, e os franceses teriam hoje, provavelmente, sua primeira mulher na presidência.

A gafe foi gravada no vídeo que encabeça este texto. Eis a história: a maior feira de agricultura do país, no principal complexo de exposições parisiense. O presidente faz um de seus discursos cheios de promessas (em que olha fixamente para o chão, jamais para o público ou as câmeras). Findo o palavrório vazio, é hora de se mandar o mais rápido possível. Mas a multidão está espremida. Os gorilas de terno e óculos de sol não conseguem abrir caminho. Acaba sendo necessário cumprimentar alguns expositores e visitantes. A imagem é de chorar de rir: Sarko tem a cara daqueles atores de filme americano, quando representam políticos que tentam e tentam, mas não conseguem esconder o desprezo e o asco pelo populacho. Detalhe: Sarkozy não é ator, é o próprio político. Precisa voltar a seu curso de interpretação (pode se matricular na mesma turma do José Serra, que tem mostrado uma certa evolução).

Tudo vai bem, mas eis, porém, que, de repente, um bravo fazendeiro se recusa a estender a mão ao presidente: “Não encosta n’eu! Tu vai me sujar!” (reproduzo a linguagem um tanto particular do sujeito. E aponto para o fato de que usar o “tu”, sobretudo com o presidente, é de uma agressividade sem par.) Sarkozy, sustentando o arremedo de sorriso implantado no rosto, responde no mesmo tom (porque, afinal, às vezes é difícil se lembrar do cargo que a gente ocupa): “Te manda, então! Te manda!” E, virando as costas ao cidadão, emenda, com expressão zombeteira: “pauvre con!” (Con é um palavrão impossível de traduzir. A rigor, denomina uma parte da anatomia feminina. Na prática, serve de epíteto negativo a toda espécie de coisas: pessoas, situações, idéias, objetos. É quase uma vírgula. Ah, sim, pauvre é pobre.)

Mas o mais surpreendente do caso não é que Sarko tenha xingado o sujeito, embora seja de se esperar de um presidente que não entre em rusgas menores com cidadãos do país que governa. Afinal, políticos são humanos, cheios de vícios, como qualquer um de nós. Churchill bebia como um bode; Juscelino tinha um gosto muito apurado pelo belo sexo; Itamar Franco, por sua vez, o tinha não tão apurado, como todos se lembram. Acontece que Sarkozy é um líder da era das mil mídias, da informação sem fronteiras, das câmeras em cada canto. Qualquer coisa que ele diga em voz alta será captado pelos microfones com toda certeza; em menos de 24 horas, estará espalhado pelo mundo. E o ponto crucial é o que segue: ao contrário de nosso folclórico ex-presidente de Juiz de Fora, o infame chefe de Estado francês tem plena consciência do que seja a mídia em nossos tempos. Sarko vem explorando o poder da imprensa tanto quanto pode. Fala o que acha que agradará aos medíocres dentre os medíocres. Expõe ao máximo sua vida pessoal, de maneira, às vezes, para lá de vulgar. Tenta passar uma imagem de “igual a vocês”, alguém que não tem as mesmas raízes dos rivais, quais sejam, os políticos tradicionais, vetustos, anacrônicos. Um sopro de novidade. Deu certo até a eleição; depois, a estratégia começou a fazer água. Mas é um fenômeno que merece a nossa atenção.

A novidade que Sarkozy representa é menos política e mais midiática do que poderíamos supor. É universal e não está necessariamente ligada às correntes tradicionais da política. Nosso francês, em particular, cresceu na carreira e elegeu-se presidente pelo partido mais tradicional da Direita (UMP). Mas poderia ser diferente, como talvez seja o caso brasileiro (mas isso é discutível). Sarkozy é um representante do que podemos, sem concessão e com uma linguagem adequada, embora talvez indigna de análises mais rigorosas e acadêmicas, denominar “política mané”. Por que “mané”? Porque não é o mesmo fenômeno do “demagogo” ático ou do “populista” latino-americano. É algo novo, típico de nosso século de Big Brother e Dança do Créu.

Examinemos, para efeito comparativo, os grandes líderes da Direita anteriores a Nicolas Sarkozy: o já referido Winston Churchill, o grande (aliás, enorme) general Charles de Gaulle, o alemão Konrad Adenauer, chefe da reconstrução do lado Ocidental no pós-guerra. Esses eram homens que incorporavam o espírito do país como um todo; que pacificavam os conflitos internos de suas nações graças tão somente à força de sua legitimidade; mas essa legitimidade, emanando ou não das urnas, era um corolário inquebrantável da liderança que suas meras figuras exerciam. E como era possível que fosse assim? Seria alguma espécie de carisma? Não, o conceito não basta. Esses homens eram políticos na acepção weberiana do termo: nasceram para a coisa. Estão ali de corpo e alma, completamente imersos na estreita ligação que existe entre um povo, seu Estado e sua liderança. E isso, num tempo em que o aparato de comunicação dos governos era muito inferior.

Há uma passagem do filme sobre François Mitterrand, Le promeneur du Champ de Mars, em que o derradeiro presidente de Esquerda da França diz, com todas as letras, que será o último grande estadista a ocupar o cargo. Depois dele, afirma, com a implantação da Europa (leia-se União Européia), viriam apenas meros gerentes. Pois ele acertou quase na mosca. Gerente é uma categoria empresarial, mas dificilmente tem lugar nos embates políticos. Quem vai querer dar seu voto para um gerente, aquele cara pacato, de colete de crochê, óculos grossos e calva lustrosa, sem graça como picolé de chuchu light (TM José Simão)? Ademais, se não se apresentam aqueles estadistas que encarnavam em si a nação inteira, quem haverá de se apresentar, senão alguém que encarne, em compensação, as fantasias do eleitorado? Alguém que, como o eleitor comum, teve uma educação não tão boa; tem idéias não tão complexas; fala não tão difícil; revela uma queda pelos bons carros e iates; exibe um relógio suíço e elogia os blockbusters de Hollywood; não perderia a oportunidade de tirar uma casquinha da ex-modelo italiana; e, finalmente, também acha aqueles árabes sujos uns árabes sujos. Resultado: dentro de um modelo social em que o mané tem a voz preponderante, nada mais natural do que o surgimento de grandes líderes da nova “política mané”. O processo está provavelmente se repetindo no mundo inteiro. Sarkozy e Berlusconi são apenas a ponta do iceberg.

Epílogo: mencionei no texto que “talvez” seja o caso do Brasil. Já ouço as vozes sedentas, implorando para que eu afirme logo: Lula é nosso representante-mór da “política mané”. Devagar com o andor. Todos estamos irritados com o governo, mas nem por isso vou comprometer a seriedade da análise. É arriscado dizer de Lula que ele seja uma espécie de Sarkozy tupiniquim, mesmo resguardadas as diferenças ideológicas (e todas as outras). Gafes à parte, e à parte, também, o patente despreparo administrativo do velho Luiz Inácio para o cargo que conquistou duas vezes, Lula tem atrás de si, ao menos, uma biografia. Isso talvez ainda o prenda ao universo da “política política” e o afaste da “política mané”. Sarkozy, ao contrário, se fez apenas graças a intrigas palacianas e uma técnica refinadíssima de lamber as botas mais indicadas. E agora, nesses tempos de triunfo da “política mané”, que curioso: as botas a lamber são as suas próprias.

PS:
Mané não deixa de ser uma das muitas traduções possíveis para con

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