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Naturam expellas (Parte 1)

[Nota: o ecocídio no Rio Doce me motivou a retomar um texto que vinha tentando escrever desde setembro. O resultado segue aí abaixo, embora esteja ainda apressado e com ar de rascunho. Mas é rascunho mesmo, respirando com a pressa que o tema exige. Esta é a primeira parte de um raciocínio que ficou mais longo do que o usual. Por isso, resolvi postar em fascículos, para não me cansar, nem ao leitor. Calculo que poderei postar cada parte com um intervalo de dois dias. Eu não poderia fazer diferente, dada a gravidade do assunto.]

Mariana (MG) - Distrito de Bento Rodrigues, em Mariana (MG), atingido pelo rompimento de duas barragens de rejeitos da mineradora Samarco (Antonio Cruz/Agência Brasil)

Naturam expellas furca tamen usque recurret

et mala perrumpet furtim fastidia victrix.

Horácio (Quintus Horatius Flaccus, 65aC-27aC)

Talvez seja uma barbaridade tratar de uma tragédia criminosa e desmesurada evocando um poema da antiguidade clássica. Mas acho que essa estratégia pode pelo menos servir como um recurso para tentarmos pensar à frente, quando nos damos conta de que, lá atrás, alguém já avisou, já deu a real, e a gente segue se estropiando por conta da nossa própria irresponsabilidade e cegueira.

Diz o poeta, escrevendo em 50 a.C.: “você pode expulsar a natureza com um ancinho, ela volta cedo ou tarde / irrompendo vitoriosa contra o seu tolo desprezo”. Nos últimos anos, enquanto subia a temperatura e descia a Cantareira, tomei gosto por esses dois versos da epígrafe. A estrofe a que eles pertencem compara a vida nas cidades e no campo.1 Mas para nós, claro, a imagem adquire um sentido bem mais urgente.

Há um mês, lia-se que o Rio Doce não está mais chegando até o mar no Espírito Santo. E agora, para piorar o que já era trágico, o que vai chegar ao oceano é uma enxurrada de metais pesados e tóxicos, depois do rompimento da barreira em Mariana. É bom lembrar que a barreira em questão é pertencente a uma empresa de nome Samarco, subsidiária de duas das maiores mineradoras do mundo: a anglo-australiana BHP Billiton e a nossa conhecida Vale do Rio Doce – empresa que, grosseira ironia, tira o nome do próprio rio que agora destrói. Morreu gente, morreram peixes, morrerão tartarugas, agriculturas ficarão inviáveis. Não há como exagerar no horror.

No mês passado, um naufrágio no porto de Vila do Conde, em Barcarena (Pará), matou boa parte de uma carga de cinco mil bois. Muitos deles afundaram junto com o barco e suas carcaças estão apodrecendo no leito do rio. Milhares de corpos inchados, milhares de esqueletos, no fundo de uma das principais bacias hidrográficas do mundo. Simplesmente porque precisamos exportar mais e mais toneladas de carne – e soja, e minério de ferro, e alumínio… – para cobrir um déficit de conta corrente que, como sabemos com maior ou menor grau de consciência, não pode ser coberto. Escândalos que se somam a escândalos.

Lamento ter que dizer isso: o mais provável é que esses sejam só os primeiros de muitos desastres que seremos obrigados a testemunhar nos próximos anos e, temo, décadas. Não tenho dúvida. Logo se vê pela reação dos responsáveis e das autoridades: livrando a barra da Vale, falando apressadamente em “desastre natural”, recorrendo a doações da população mais bem intencionada, evocando a importância econômica da atividade mineradora no Brasil, embora um breve raciocínio baste para mostrar que esses benefícios econômicos todos são uma enorme e perversa ilusão.

Indonesia

Eu poderia dizer que hoje a Vale se tornou a nossa BP (petrolífera ex-estatal britânica responsável pelo vazamento catastrófico do golfo do México em 2010). Mas não dá para ignorar que, pela frouxidão com que tratamos o tema ambiental – leia-se, o tema do território, do chão em que pisamos, da comida que comemos etc. –, caminhamos rumo a uma proliferação de casos semelhantes. Pelo andar da carruagem, seremos o país das mil BPs. Falando nisso, foi inspirada pelo desastre no golfo do México que Naomi Klein escreveu em 2014 o livro This Changes Everything; no caso do Brasil, o máximo que posso me dispor a dizer é: “I hope it does”. Mas continuo cético.

Com isso, podem dormir na santa paz de Deus as outras mineradoras, petrolíferas, empreiteiras, incorporadoras, bancos, latifúndios, usinas e por aí vai, que doam os bilhões de nossas campanhas eleitorais para poder esgotar o território (florestas, cidades, campos, mares, rios, subsolos…). Quando o mundo vier abaixo, tudo estará bem para esse pessoal, e mal para o resto de nós, com o beneplácito de todo o espectro político, incluindo a imprensa e os sindicatos. Ainda não entendemos a gravidade da ameaça que ronda nossas cabeças, e não é simplesmente uma crise pertencente aos ciclos produtivos. Essas passam.

E se o assunto é “expulsar a natureza”, parece que essa é uma fixação atávica que nós temos. Já no primeiro reinado, eis o que relata o pintor francês Jean-Baptiste Debret, que retratou algumas de nossas verdades mais desconfortáveis:

Pintor de teatro, fui encarregado de nova tela, representando a fidelidade geral da população brasileira ao governo imperial, sentado em um trono coberto por rica tapeçaria estendida por cima de palmeiras. A composição foi submetida ao ministro José Bonifácio, que a aprovou. Pediu-me apenas que substituísse as palmeiras naturais por um motivo de arquitetura regular, a fim de não haver nenhuma idéia de estado selvagem. Coloquei então o trono sob uma cúpula sustentada por cariátides douradas (…).

Desde o berço, o brasileiro desenvolveu essa mesma relação que temos hoje com o solo em que pisamos e aquilo que nele cresce: há que esconder-se a natureza! Substituí-la por “um motivo de arquitetura regular”! Expulsá-la da representação do que seja o Brasil, naquele que é um de seus símbolos fundadores, a coroa estilizada do primeiro monarca. Nada de palmeiras! A natureza não está aí porque ela não existe. Ou seja: não temos natureza, o que temos são recursos naturais, matérias-primas… Riquezas que fazem nossa pujança e grandeza, como querem nos fazer crer.

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O que mais me desanima é o quanto tudo isso é evidente. Lembro bem dos meus primeiros anos em São Paulo: verões mais ou menos amenos, invernos frios, com temperaturas de um dígito – exceto em uma ou duas semanas do chamado “veranico”, palavra que caiu em desuso, já que hoje podemos vivenciar um mês de setembro como o deste ano, cujo calor, em pleno inverno, me dava dor de cabeça.

Naquele tempo nem tão distante, tempestades de verão eram impensáveis em setembro. Neste ano, tivemos exatamente isso, embora o mês, de modo geral, tenha sido seco como têm sido quase todos os meses há coisa de dois anos. E se eu cruzar com alguém na rua se referindo a “veranico”, não dá para evitar, sangue vai correr. Tivemos algumas semanas chuvosas em São Paulo em outubro e as pessoas já vêem afastar-se a famigerada crise hídrica (que, para parafrasear uma declaração atribuída a Darcy Ribeiro, parece não ser crise, mas projeto). Mal sabem elas que aqueles pés d’água de outubro mantiveram o mês abaixo da média histórica, apesar de tudo…

E falando em correr sangue, se a coisa continuar nessa toada, já se vê que dezembro, janeiro e fevereiro vão ser meses mortíferos. Basta lançar um olhar para o subcontinente indiano, onde 4500 pessoas foram ceifadas por uma onda de calor em maio e junho. E como já se fala em um “Super El Niño” para este verão – já li até a expressão “um El Niño Godzila” –, é de se esperar que setembro pareça ameno em comparação com o que vem pela frente. Mas nenhum desses sinais basta para que o país, como um todo, a começar por suas elites sociais e econômicas, para não falar nas lideranças políticas, coloque esse tema nas primeiras posições da pauta.

E no entanto é um problema que ultrapassa o Brasil, embora o atinja em cheio, na condição de país continental que é. Desastres mortíferos, água acabando, queimadas generalizadas na Indonésia, ciclones mastodônticos no México. No contexto mais amplo, leio notícias de que 2015 baterá o recorde de 2014 como ano mais quente da história (“literalmente território desconhecido”, diz um comentarista, ao compartilhar o gráfico da evolução de temperaturas este ano).

Soubemos também recentemente que a Volkswagen, malandrinha, andou falsificando uns testes de poluição; que o Reino Unido não vai conseguir atingir sua meta de redução de emissões de carbono; que as metas brasileiras “ambiciosas” para reduzir desmatamento, anunciadas por Dilma na ONU em setembro, de ambiciosas não têm nada. Que a China está mais uma vez coberta de poluição.

A boa notícia do ano foi o anúncio de que Obama rejeitou a construção do oleoduto conhecido como Keystone XL, que carregaria petróleo de Alberta, no Canadá, até o golfo do México (pobre coitado…) no Texas. Um ligeiro vento de esperança, mas dado o esforço que movimentos como o 350.org tiveram de despender para conseguir essa vitória, é uma lufada realmente ligeirinha, facilmente engolfada pelo temor com o que há de vir.

O ancinho e nós

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Por essas e outras, não tem como não admirar a fórmula sucinta de Horácio. Dia após dia, estamos tentando expulsar a natureza, com qualquer coisa que faça o papel do tal do ancinho. Por exemplo: como se abrigar desse calor todo? Ora, comprando um ar-condicionado. Mas se a temperatura fresquinha é conseguida aqui dentro graça a um dispêndio brutal de energia, que vai aquecer o resto do mundo lá fora, cedo ou tarde o abafado volta. Talvez não diretamente aqui, mas em algum lugar.

E se está quente na rua, é melhor ir para qualquer lugar de carro – com o ar condicionado ligado, claro, reproduzindo mais uma vez o problema, em duas frentes: a poluição do motor e o gasto energético da refrigeração. Tudo isso para não falar do consumo de energia elétrica, obtida seja com barragens (que andam com reservatório baixo), seja queimando carvão. E assim por diante, até a irrupção vitoriosa daquela que quisemos expulsar.

Mas é certo que a culpa não é do pobre diabo que ativa o ar-condicionado da sala para aliviar o sofrimento dos filhos. Para evitar esse tipo de leitura culpabilizadora e moralista, tratemos Horácio como o autor de uma enorme metonímia: cada ar-condicionado vale por milhões de aparelhos no mundo; o ancinho é o arquétipo de tudo que já se usou para obter essa magra vitória sobre o mundo natural. Assim sendo, já está evidente para qualquer um com um mínimo de boa vontade que a humanidade foi, mais do que arrogante, verdadeiramente frívola ao pensar que “com um ancinho” (muitas vezes traduzido como “violentamente”) poderia “expulsar a natureza”, e que ela não voltaria, mais cedo ou mais tarde, “furtim fastidia“.

A observação de Horácio, porém, é só a primeira das respostas possíveis. Ah, sim, diz o poeta, ela volta e volta triunfal: “recurret victrix”. Vitoriosa, vingativa, violenta. Nessa resposta, ela passa por cima de tudo e retoma o que era seu – o que sempre foi seu, talvez. No plano de um poema que compara a vida urbana à campestre, como é o do autor romano, o sentido dessa idéia é que o dia-a-dia de quem tenta se livrar da natureza é ocupado em varrer, lavar, pintar paredes, consertar telhas, podar árvores, eliminar mofo, jogar fora frutas podres, matar ervas daninhas.

A woman wearing a mask walk through a street covered by dense smog in Harbin, northern China, Monday, Oct. 21, 2013. Visibility shrank to less than half a football field and small-particle pollution soared to a record 40 times higher than an international safety standard in one northern Chinese city as the region entered its high-smog season. (AP Photo/Kyodo News) JAPAN OUT, MANDATORY CREDIT

No plano de um mundo ultra-industrial, financeirizado e cego para suas próprias condições de existência, como é o nosso, a interpretação é bem mais sombria: quanto mais labutamos, quanto mais esforço fazemos, quanto mais desenvolvimento para mandar a natureza para longe, mais irresistível ela vai ser quando voltar, engolindo a todos nós. Quanto mais barragens de rejeitos tóxicos, mais enxurradas. Quanto mais usinas atômicas à beira-mar, mais Fukushima. Quanto mais for viável economicamente arrancar o petróleo do leito marítimo, mais desastres no Golfo do México. Quanto mais for necessário expandir a fronteira agrícola para garantir a expansão de cadeias de junk food, mais queimadas fora de controle na Indonésia.

A imagem que temos ordinariamente da mudança climática ilustra bem essa perspectiva apocalíptica, com sua justeza e também seus exageros. Os mares subirão, as cidades serão engolidas, as florestas se tornarão desertos, as lavouras morrerão, metano jorrará (ou já está jorrando) de enormes crateras na Sibéria. Cada um por si e Deus contra todos. A natureza no papel de Conde de Monte Cristo, eliminando pouco a pouco e fazendo sofrer aqueles que a traíram. Quem é que não está cansado de ler alertas assim?

Mas poderíamos explorar uma outra resposta para a mesma fórmula da natureza que tentamos expulsar só para vê-la retornar vitoriosa. Nesta resposta, o problema de querer enxotar a natureza não está simplesmente em sua arrogância frívola, mas acima de tudo em seu caráter de cabo a rabo ilusório. Assim, os desequilíbrios naturais provocados pelo modo de atuação do ser humano “sobre” a natureza – mas na verdade “na” natureza – se situariam não na interação alienada e extravagante entre um dentro (da casa, da cultura, da civilização, da economia, da humanidade) e um fora (a natureza que foi expulsa, as “externalidades negativas” geradas pela atividade humana, econômica em particular), mas por todos os lados, ou seja, na manutenção da própria idéia de uma “casa” que estaria isolada da natureza; na contemplação de uma natureza que está para lá das paredes; no gesto ele mesmo pelo qual cremos estar (violentamente) expulsando a natureza; por fim, no próprio instrumento que usamos para realizar essa pretensa expulsão: o “ancinho”.

Pretendo, daqui para baixo, demarcar as diferenças entre essas duas respostas possíveis, essas duas leituras rivais dos versos de Horácio tal como transplantados, sem considerações sobre o contexto, para nossa realidade. São diferenças cruciais, bem entendido. Como veremos, todos os termos que aparecem nos versos podem ser lidos diferentemente e, com eles, a maneira como nos relacionamos com essa realidade que nos toca – tão urgente, cada vez mais urgente. E com conseqüências profundas, ainda por cima.

Continua na PARTE 2

Leia também a Parte 3

Leia também a Parte 4

Leia também a Parte 5

Leia também a Parte 6

morte dos bois

Notas

1. Pouco antes desses dois versos, há estes outros dois também lindos: “purior in vicis aqua tendit rumpere plumbum / quam quae per pronum trepidat cum murmure rivum?”, que costuma ser traduzido assim: “A água que nas ruas da cidade luta para estourar os canos de chumbo / é mais pura do que aquela que trepida e murmura por um rio?”

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Imagens que não fizeram história (3): candangos e índios

A terceira fotografia da série de “imagens que não fizeram história” – e eu aqui pensando que iam ser só duas! – talvez cause um certo estranhamento; afinal, é uma fotografia muito recente, que nem “fez história”, nem deixou de fazer. Posso tentar contornar esse estranhamento dizendo que a imagem “ainda” não “fez história”, mas fará, por tais e tais motivos. Então este texto é uma aposta? Não faz mal, que seja. Estou disposto a apostar de vez em quando.

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Por outro lado, tudo gira em torno dos jogos que se possam fazer com essa fórmula: “fazer história”, que é dúbia e ainda mais maleável quando a usamos no negativo: “não fez”! Seja como for, quando dizemos que uma imagem “fez” história, geralmente estamos ressaltando seu caráter icônico, ao sintetizar nosso conceito de um determinado período ou acontecimento, esse sim “essencialmente” histórico. A imagem em questão é, portanto, a imagem visual referente a uma imagem mental de valor coletivo. A imagem que efetivamente “fez” história é aquela que aparece nos manuais escolares, nas retrospectivas dos telejornais, nas páginas não-numeradas, impressas em papel mais caro, de livros editados décadas depois, mas só para reforçar uma outra imagem e uma outra narrativa, da história que “se fez”, retratada ou não.

Então “fazer história”, no fundo, significa nada mais do que reaparecer a cada vez que alguém quer pontuar a memória social e, para isso, recorre ao ícone mais à mão. “Renúncia de Jânio”; “Guerra do Vietnã”; “Exército Soviético em Berlim”: para cada um desses sintagmas, imediatamente aflora na mente do leitor uma determinada imagem. E dificilmente vou perder dinheiro se apostar, para cada caso, que imagem será essa.

Se a fotografia que escolhi, como imagem, não fez história ainda, porque acabou de ser tirada; mas intimamente sentimos que está em sua essência um certo “fazer história”, será que estamos falando do mesmo caráter icônico?


Valter Campanato, da Agência Brasil, é o profissional responsável por esta peça tão linda. Na terça-feira, a manifestação de 1500 lideranças indígenas contra a PEC 215, no eixo monumental, acabara de ser interrompida por um temporal. Temporais, como sabemos, não são exatamente o evento mais corriqueiro em Brasília. Mas este grupo de índios (algo entre 12 e 14) continuou a fazer a dança ritual que estava fazendo como parte do protesto.

O fotógrafo capturou a dança na chuva bem quando ela passava diante do Monumento aos Candangos, que parece reverberar, na vertical, a marcha dos índios. O pé d’água, que borra as figuras, deixa impassível o bronze do monumento, mas aproxima ambas as formas por realçar seus contornos e esconder os detalhes. Passam a ser índios tão abstratos quanto aquelas duas figuras estilizadas, supostamente representando os construtores da “novacap”, tantos deles vítimas fatais do delírio de ocupação do Planalto Central…

Os candangos que empunham cajados; os índios que empunham armas. Alinhados em cruz, como se buscassem sinalizar uma simetria histórica. Com isso, a própria composição se torna o vetor pelo qual a imagem lança seu apelo ao passado e situa-se na história, fazendo-se perante a história e, se não propriamente “fazendo história”, pelo menos fazendo da história alguma outra coisa.

Ou melhor, para ficar menos enigmático, talvez seja o caso de inverter a exposição: enquadrados diante da simbologia presente de figuras do passado (o Monumento aos Candangos), os índios trazem o que “já foi” para junto do que “está sendo”, fazendo-os colidir, transformando-os em uma terceira coisa.

Uma constelação, como diria Benjamin?

Afinal, o que é um candango? O que é um índio? Em mais de um sentido, o candango (não o morador de Brasília, bem entendido, mas seu construtor) é o paradigma do lugar reservado ao índio, e não só a ele, no projeto nacional brasileiro. A mão-de-obra precária, depauperada, aculturada (esse talvez seja o traço mais essencial), disposta a deslocar-se em péssimas condições pelo território, na medida do avanço do extrativismo e demais atividades que reproduzem sua lógica. Disposta a morrer por acidentes de trabalho, por doenças que resultam da insalubridade, por violência.

É o mestiço, mas não segundo a perspectiva brilhosa de um amalgamento das raças ou coisa que o valha, e sim pelo esvaziamento das identidades (étnicas, raciais, lingüísticas) do colonizado e/ou escravizado. Esvaziamento que se opera enquanto é barrado o acesso à identidade do colonizador: o branco, europeizado, herdeiro de Dom Antônio de Mariz. É o “pardo”, aquele de cujo rosto não se desenham nem se esculpem os traços, como no monumento que o homenageia na Praça dos Três Poderes. A imagem nítida da construção de Brasília, que guardamos como ícone no fundo da memória, é a do rosto sorridente de Juscelino Kubitschek, acenando à frente de um Congresso cercado de andaimes.

Já o índio é o oposto disso: o obstinado caiapó, ashaninka, tukano, ianomâmi. É o muro em que esbarra o projeto nacional, naquele momento surpreendente em que alguém insiste na autodeterminação. É o desmentido de Rondon. É o rosto cujos traços a chuva pode borrar numa fotografia, mas o escultor não borrará no monumento. Se lá atrás o bronze dos candangos pesa sobre a Praça dos Três Poderes, com seus oito metros de altura – como uma sentença, podemos dizer –, aqui na frente a dúzia, pouco mais, de índios a atravessa, com a leveza realçada pela chuva.

Talvez seja esse o motivo pelo qual muita gente fica tão horrorizada e perturbada quando vê um índio de bermuda ou com a camisa do São Cristóvão. Ali está, materializada, a assinatura da aculturação. Então por que a recusa em admiti-la? A bermuda não é, nesse raciocínio, objeto de uso, mas mercadoria; não pode ser vista como concessão do mundo civilizado, só como porta de entrada ao sistema produtivo e à cultura que passou a lhe servir de penduricalho. O renitente índio que aceita a bermuda mas não aceita ser “pejotizado”, que continua empunhando seu arco mas não quer ir para a favela empunhar um .38 contra a polícia, está enfiando seu tacape bem no meio da engrenagem dos tempos modernos. Ou seria dos Tempos Modernos?


Mas… se é possível enxergar na fotografia um vetor de conexão cronológica, nada impede de procurar nela também um vínculo topológico, afirmando que a imagem é capaz de operar uma amarração que ressignifica a geografia. E se fizer isso, ela também dá um novo sentido ao território, com seus conflitos internos e seu enraizamento no planeta, do qual aparentemente não é tão fácil escapar. Acho que é possível ler essa imagem assim, mas vai ser necessária uma certa dose de sarcasmo. Não que isso me incomode!

O olho treinado pela televisão – que é o meu e, muito provavelmente, o seu também – quase certamente fará a imediata associação entre índios avançando em grupo debaixo de um toró e a expressão “dança da chuva”. Para o olho treinado pela televisão, o que é um índio? Ora, é alguém que faz uma dança da chuva. Porque quem dança “na” chuva não é o índio, é Gene Kelly, mas só porque tem uma câmara na frente, a chuva é de mangueira e a cantoria vem em playback.

Sem essa tecnologia toda, prossegue o raciocínio, o índio convoca a chuva dançando. E assim o reconhecemos como índio, com nosso olhar formado pela televisão. Digna de nota é a poesia embutida na idéia de convocar a chuva com uma dança: o moderno, o branco, o tecnológico, o civilizado, convoca a chuva bombardeando nuvens. Um bombardeio, pois: notória invenção do moderno, branco, tecnológico, civilizado.

Mas às vezes nem o bombardeio funciona, então é preciso recorrer… à dança? Parece ser o que fez o governo de São Paulo – moderno, branco, tecnológico e civilizado – no fim do ano passado, quando, a crer na imprensa local, entrou em contato com a Fundação Cacique Cobra Coral para ver se fazem chover em São Paulo. A fundação em questão não é indígena; é espírita, mas parte da premissa de que sua presidente recebe o espírito do cacique Cobra Coral (do qual temos poucas informações, senão que seu espírito também teria sido [sic] o de Galileu Galilei e Abraham Lincoln, o que me deixa intrigado, porque não vejo a relação desses dois senhores com a chuva). Pois esse cacique “tem poderes para interferir em fenômenos meteorológicos”, ou seja, faz chover.

Trocando em miúdos: enquanto o grupo de índios dava uma de Gene Kelly (que era moderno, branco, tecnológico, civilizado) e dançava “na” chuva, o branco e nem tão moderno, vagamente tecnológico e nada civilizado governador de São Paulo convocava uma dança “da” chuva.

Eu disse que seria preciso sarcasmo, e acho que esse sarcasmo começa a partir de agora. Afinal, São Paulo define-se como o “Estado bandeirante”, como testemunham os nomes de tantas de suas ruas e rodovias, sem falar na estátua de célebre mau gosto na avenida Santo Amaro. Mas o que é um bandeirante, senão um brutamontes descalço que leva a vida a se embrenhar pela mata para escravizar índios – e matar, estuprar…? Senão aquele cuja função histórica era limpar o terreno para a emergência de uma população aculturada e depauperada, ou seja, destinada a se tornar alguma das variantes daquele fenômeno do candango, homenageado no monumento de Brasília?

Que divina ironia! O líder político do “Estado bandeirante” recorre ao espírito de um índio para ter a chuva, enquanto os índios que conseguiram escapar à escravização e à proletarização, na capital do país, interrompem um protesto pela própria sobrevivência por causa… da chuva! E passeiam nela, dançam nela, e parecem mesmo estar se deleitando, esses maledettos nietzscheanos!


Está bom de ironia? Calma que tem mais. Se estou tratando de uma imagem e das conexões que ela é capaz de fazer, não posso deixar de citar um dos maiores marcos do “bandeirantismo” do Estado em questão. É também uma escultura, como o Monumento aos Candangos: o mais que famoso cartão-postal paulistano, o “empurra-empurra”, que pretendia ser conhecido como “Monumento às Bandeiras”.

Lá está ele, no meio do engarrafamento, retratando os maiores heróis do genocídio em traços enrijecidos, angulosos, um descarado flerte de Victor Brecheret com a estética fascista que florescia em seu tempo (há muito disso em São Paulo, a começar pelo Pacaembu). E não é que, debaixo do toró, os índios de 2015 lembram vagamente o formato da escultura-símbolo da ressecada capital paulista? De um lado, os corpos vivos, com membros flexionados; do outro, a postura marcial e os corpos de pedra.

De um lado, o protesto pela sobrevivência; do outro, a conquista do território e das populações. De um lado, o toró; do outro, o volume morto.

Em constelação, como diria Benjamin?

Resta ainda uma última questão, que não consegui identificar, com meus olhos formados pela televisão: de que etnia são esses índios? Vêm de que parte do Brasil? Sei que em Brasília, nesta semana, estiveram índios dos quatro cantos do território. Mas e esses em particular? Por sorte, posso ser preguiçoso e recorrer a meus olhos formados pela televisão, repetindo com meus confrades de televisionismo: “se é índio, deve ser da Amazônia”.

Então, em nome da poesia que pode haver nas imagens, vou simplesmente pressupor que o olhar formado pela televisão está certo, desta vez, e que os índios em questão são de uma etnia amazônica. Simplesmente porque isso convém à minha retórica: se eles vêm da Amazônia, então vivem na região do país de onde saem os rios voadores que irrigam com chuvas abundantes grande parte do resto do país… a começar por São Paulo.

Assim sendo, o que a imagem mostra é uma espécie de dança triunfal que sintetiza as contradições fundamentais do Brasil, tal como elas se manifestam hoje: o índio que protesta para garantir a sua sobrevivência e a de sua terra também é aquele cuja terra fornece o elemento indispensável à sobrevivência de todos os demais. E notadamente dos que querem forçar a aprovação da PEC que põe em risco o território dos índios. Como pano de fundo, temos a informação de que a demarcação de terras indígenas é um poderoso instrumento para frear o desmatamento, cuja consequência mais imediatamente visível para metade da população, que vive longe da floresta, é a paulatina diminuição das chuvas.

A história que se faz quase por conta própria nesta fotografia pode ser descrita como a materialização de uma anti-história do Brasil, em que o primeiro plano apresenta aqueles que são ao mesmo tempo anti-candangos e anti-bandeirantes em plena procissão triunfal, justamente no instante em que mais estão ameaçados. E quem é que vem fornecer as condições para que tudo isso seja sintetizado num único enquadramento, numa composição com basicamente dois elementos, muito pouco contraste de cor e uma simplicidade formal deliciosa? Ora, ninguém menos que a chuva. Terá sido mandada pelo cacique Cobra Coral, em resposta à convocação dos paulistas?

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O Inconcebível

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“Colapso”. Nossas conversas do dia-a-dia, aquelas do bar, da calçada, do elevador, ganharam agora uma nova palavra, um novo clichê. Colapso, como quando as fundações de um prédio se rompem e ele cai, ou quando um sistema complexo se revela mal planejado e ele entra em parafuso. Ou quando a defesa de algum time bate cabeça e toma uma goleada.

Dizemos assim: daqui a pouco a água acaba em São Paulo e a cidade vai entrar em colapso. Às vezes avançamos no raciocínio, citando que a estiagem veio para ficar, por causa da mudança climática e do desmatamento – afinal, já faz anos que tem chovido paulatinamente menos. Então toda a economia do Sudeste vai entrar em colapso: sem chuvas e com tanto calor, as hidrelétricas não agüentam.

Ocasionalmente, tendo mencionado o clima, o pensamento continua avançando e dizemos: se não fizerem algo, o mundo todo é que vai entrar em colapso. E, de fato, é pequena a probabilidade de “fazerem” alguma coisa, uma vez que, vivendo de abstrações, a humanidade, essa que poderia fazer alguma coisa, passou as últimas décadas espoliando o planeta. No máximo, dá para contar com alguns arranjos perfeitamente dribláveis por quem tem imaginação – coisa que não falta aos empreendedores mundo afora.

Às Últimas Conseqüências

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Esse termo, “colapso”, merece um olhar mais atento. Escutando suas três sílabas, percebo que saímos pronunciando a palavra de modo um pouco leviano, como diria o senador Neves. Quantas vezes não afirmei por aí, para puxar papo com um vizinho ou o porteiro, que “o colapso” está ficando cada vez mais provável? Mas será que eu consigo imaginar o que essa expressão implica realmente? Será que sou capaz de representar na minha cabeça o que é o tal colapso? Acho que não. Continuar lendo

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O Brasil é uma dádiva da Amazônia

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Há duas semanas, enfim chegou aos ouvidos da opinião publicada a relação entre o desmatamento da Amazônia e o sumiço das águas no Sul. Não deveria ter sido surpresa para ninguém: a informação vem correndo mundo há anos e já tinha saído até num canto da grande imprensa. Agora, parece só ter chamado a atenção porque um autêntico caos é iminente em São Paulo e, no resto do Sudeste, daqui a pouco ele se instala também. Nas cercanias da Cantareira, graças à irresponsabilidade da Sabesp e do governo estadual, temos hora marcada com o desastre, como sabemos graças ao boletim da Camila.

Mas a coisa vai muito além das fronteiras de São Paulo: a dar crédito ao que diz a ciência (a outra opção sendo dar crédito a lobistas e seus interesses pouco imparciais), sem os chamados rios voadores vindos do Norte, aqui onde um dia houve a Mata Atlântica, em poucos anos haverá uma savana ou algo assim. Nada como descobrir que dependemos de rios voadores!

O que fazer? Ao que consta, já nem bastaria mais só interromper o processo de desmatamento da Amazônia – que, falando nisso, voltou a se acelerar durante o governo Dilma, depois de alguns anos de queda no governo Lula. Seria preciso recorrer a uma iniciativa muito mais ambiciosa: um programa massivo de reflorestamento.

É possível? Deixo essa pergunta mais para o final. Por enquanto, faço um parêntese em nome da dramatização.

Parêntese para dramatizar

Heródoto, que escreveu no século V a.C., referiu-se ao Egito como uma dádiva do Nilo. A mais duradoura e uma das mais espantosas civilizações da Antiguidade, pela qual Platão, entre tantos outros, sentia uma inveja incontrolável, devia toda a sua existência ao ciclo de cheias de um fluxo d’água que descia do Sudão. A várzea daquele rio enche todos os anos, fertilizando uma faixa de terra não muito larga (exceto no delta), e isso bastou para manter vivos os súditos dos faraós por bons quatro mil anos. O resto do país não passava de areia, cuja serventia não ia muito além de preservar as carcaças de monarcas e animais de estimação.

Repito: um dos mais brilhantes feitos da humanidade era a dádiva de um rio.

De repente, descobrimos todos que o Brasil tem qualquer coisa de Egito. Se existe mesmo alguma mistura do Brasil com o Egito, ei-la: este país é uma dádiva da Amazônia. Não tão especificamente o rio Amazonas, mas a floresta como um todo. Essa vasta mata, que já foi chamada de “terra sem homens”, é o que permite empilhar tantos homens deste outro lado do subcontinente. Impunemente, ou quase.

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Falei em empilhar gente? Foi por querer. A fotografia aí acima mostra o que é o Egito, dádiva do Nilo na Antiguidade, dádiva do Nilo hoje. Oitenta e sete milhões de pessoas espremidas como uma cobra de luz e cercadas pela escuridão escaldante do deserto. Olhando assim, de longe, me parece um país inviável. Mas não será, enquanto houver Nilo. O Egito é o Nilo, mas o Nilo não é o Egito.

O mesmo vale para este nosso país de ruralistas. O Brasil é a Amazônia, mas a Amazônia não é o Brasil. Não existe comércio nessa relação. Não há paga, não tem ciclo do valor, trata-se de uma irredutível ecologia da dádiva, num sentido tão puro que chega a ser perturbador. Toda economia da dádiva de que tenho notícia inclui a reciprocidade, a obrigação de dar, receber, retornar e até iniciar uma outra dádiva, sob pena de uma profunda violência. Até mesmo no sistema cristão do sacrifício de si absoluto existe a noção de um retorno, ainda que em outro reino.

O caso dos rios voadores da Amazônia, e também do Nilo, é bem outro. A natureza entrega fertilidade e umidade, cheias e rios voadores. Mas não quer nada em troca, senão ser deixada em paz. A vegetação amazônica concentra vapor, mas não o acumula. Ele se espalha e cria rios, ecossistemas, faunas. Voa como uma enorme bacia hidrográfica flutuante e se transforma na neve dos Andes, na bacia do Paraná, nas tantas formas de vida da América do Sul.

A Mata Atlântica, ou o que resta dela, é uma dádiva da Amazônia. O São Francisco, enquanto não secar de vez, é uma dádiva da Amazônia. A briosa terra bandeirante é uma dádiva da Amazônia. A Cidade Maravilhosa é uma dádiva da Amazônia.

Falei em ecologia da dádiva e esqueci de falar de seu anverso: a financeirização de uma economia que finge ter esquecido da existência da dádiva. Tendo recebido da Amazônia o formidável presente de existir e ter água, o que faz o Brasil? Ora, manda essa água para o outro lado do mundo. Como uma boa parte dos produtos de exportação do Brasil (soja, frango, carne) é composta majoritariamente por água, o Brasil é exportador de água, algo como 112 trilhões de litros por ano. Não consigo nem sequer me representar o quanto isso significa, mas fico me perguntando onde essa água toda vai parar depois que a soja, o frango etc. já foram consumidos.

O major e a floresta

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Voltemos à pergunta: é possível o país se entregar a uma mobilização intensa, digna de períodos de guerra, para recuperar pelo menos uma parte suficiente da cobertura vegetal da Amazônia? Deixando de lado a questão da escala, não seria a primeira vez que faríamos algo assim.

Entrei no Google Maps e procurei por uma rua no Rio de Janeiro que fizesse referência ao major Manoel Gomes Archer. Tem duas: uma minúscula, de dois quarteirões, no Santíssimo, e um caminho no meio do parque da Tijuca. Esta última, pelo menos, é bastante apropriada. Mas pálida. O major Archer, como se vê, não é um personagem que consideremos importante.

Eis a história: no século XIX, a água potável das cidades não vinha de grandes reservatórios interligados, como hoje, mas dos rios que serpenteavam os morros e atravessavam a área urbana. No máximo, um cano captava a água de um desses cursos d’água e a conduzia por dentro de um aqueduto até o Centro. Um desses aquedutos está de pé até hoje e tem servido bastante para apoiar despachos na madrugada, já que o bondinho de Santa Teresa, que passava por cima dele, está fora de circulação.

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Acontece que, lá por 1860, a água do Rio de Janeiro, capital do Império, começou a faltar. As encostas dos morros cariocas tinham virado plantações de café (mais detalhes neste link ou neste, que faz um panorama histórico interessante). As nascentes secaram e a erosão assoreava o restante dos córregos. Os cariocas de 1860 estavam numa situação parecida com a dos paulistanos de 2014. O motivo era simplesmente a ausência da mata, ali onde hoje temos a floresta da Tijuca.

Com sua característica atenção para a vanguarda dos saberes de seu tempo, o imperador Pedro II deu a ordem do replantio e o responsável foi nosso Archer. Para recriar a mata sem a qual hoje não reconheceríamos o Rio, o major precisou de 80 mil mudas (alguns dizem 100 mil; para recuperar uma parte ao menos suficiente da Amazônia, provavelmente precisaríamos de centenas de milhões). O trabalho durou 13 anos a partir de 1862, e o resultado está visível até hoje. Quem toma banho de cachoeira nas Paineiras tem ao major Archer para agradecer.

Mas ele não é nenhum dos heróis no nosso panteão nacional. Considerando tudo que estamos vivendo neste início de século tão crítico, talvez fosse o caso de elevá-lo finalmente a essa condição. Instaurar o Dia do Major Archer, ou algo que o valha. Para resumir, eu diria que precisamos nos tornar um país Archer.

Mas, porém

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A área que seria necessário reflorestar é gigantesca, milhares de vezes maior do que o Parque Nacional da Tijuca, e está tomada por grandes plantadores de soja e gigantescas pastagens. A pastagem costuma vir antes da soja, por sinal. Outras notícias recentes dão conta de que o plantio da soja no Mato Grosso atrasou porque a chuva não veio. Fala-se também em quebra de safra para vários produtos plantados cá nos brasis. Aliás, uma listinha de notícias a respeito pode estarrecer (verbo da moda) qualquer um.

Essas informações todas, somadas à crise hídrica mais ao Sul, poderia soar um alarme até mesmo nos produtores. Afinal, o avanço do desmatamento deixou de ser apenas homicida para tornar-se francamente suicida. Ainda assim, parece que estamos indo na direção contrária à que seria recomendável.

Por que o alarme não soa? Por que o plantador não teme as condições que poderão comprometer sua própria atividade econômica? Tenho até medo de pensar em qual pode ser a resposta a essas perguntas. Não me contento em acreditar que seja ignorância. Afinal, estamos diante de um comportamento recorrente, para não dizer atávico. A predação pura e simples deu a tônica de muitos ciclos econômicos brasileiros desde a Colônia, a ponto de Monteiro Lobato dar o título de “Cidades Mortas” a seu volume de contos dedicados ao Vale do Paraíba. Quando a terra ali se esgotou para a exploração do café, a especulação agro-fundiária simplesmente deslocou-se mais adiante, São Paulo adentro, deixando para trás os personagens lombriguentos que o escritor de Taubaté representou tão bem, a começar pelo Jeca Tatu imortalizado por Mazzaropi.

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Mas isso também vale para ciclos mais recentes, como a industrialização, a consolidação financeira dos anos 90, até mesmo a expansão mais recente do consumo. Todos levados ao limite de maneira irresponsável, tentando extrair o máximo do sumo antes de largar o bagaço. Daí resultaram nossas inflações, nossos juros, nossos déficits. Mas também nossas cidades opressivas, nossas ruas apinhadas de carros, nossa célebre falta de qualificação da mão-de-obra.

Portanto, nada de surpreendente em que grandes donos de terra e cuspidores de commodities dêem pouca atenção para o risco em que sua própria atividade-mãe está incorrendo. Do ponto de vista do investimento, reorientar as escolhas de portfólio não é nada difícil. Qualquer gerente de fundos ou gestor de grandes fortunas, muito bem instalado na Faria Lima (e tomando água mineral, porque a do filtro não presta) saberá indicar boas alternativas, até mesmo levando em conta as flutuações de preços resultantes da mudança climática.

Do ponto de vista da própria terra, o custo da improdutividade futura é largamente compensado pelos retornos atuais do cultivo predatório, que, no meio-tempo, poderão ser aplicados de maneira para lá de rentável – vide o último parágrafo. Também é bom lembrar que, para atividades econômicas que se tornaram estratégicas dentro de um país (como os serviços financeiros nos EUA e a exportação de produtos de baixo valor agregado no Brasil), as perdas podem muito facilmente ser socializadas. Ainda mais na configuração política do Brasil contemporâneo, em que todo e qualquer governo é refém – que digo… – é necessariamente aliado das forças políticas mais ancoradas no poder do oligopólio.

Afinal de contas, quando falamos de oligarcas, latifundiários e ruralistas, sabemos que são indivíduos bastante poderosos politicamente, além de financeiramente e também, não raro, belicamente. Alguns estão aliados ao governo, outros à oposição. Tanto faz: do ponto de vista programático, não são muito diferentes do “pântano” (marais) que, na assembléia da França revolucionária, se aproximava dos grupos governantes ao sabor dos benefícios que poderiam obter. No que tange à possibilidade de efetivar seu comando sobre os rumos do país, são quase intocáveis.

O que fazer?

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Dá para imaginar Dilma Rousseff dando uma de Pedro II e ordenando um grandioso reflorestamento da Amazônia? Em que pese sua postura imperial e autoritária, eu diria que Dilma está mais para Floriano Peixoto que para Pedro II. Seu desenvolvimentismo toma como ponto de partida um país e um mundo que não existem mais. Como resultado, os ruralistas que se aproximaram dela, em particular a célebre Kátia Abreu, lhe aparecem como porta-estandartes de um Brasil desenvolvido. Nada mais anacrônico, além de falso.

Como resultado, enquanto China e Estados Unidos chegam a um acordo climático bilateral, o Brasil se recusa a assinar um documento global para zerar o desmatamento (e olha que nem chegaram a falar em replantar). A Alemanha desenvolve tecnologias que a colocam na vanguarda da energia renovável. A Inglaterra consegue reduzir sua pegada ecológica pesquisando métodos produtivos apropriados para um futuro, como se diz, sustentável. Israel racionaliza o uso da água ao nível das gotas. Países árabes investem em produção de alimentos em pequenas propriedades em pleno deserto. Outros tantos países já começam a idealizar a geração de energia com os chamados “smart grids”, que tornam as cidades quase autônomas na sua gestão energética, sem falar no reuso da água. Helsinki e outras cidades nesse mundão sem porteira estão começando a expulsar o automóvel de seu quotidiano.

Nós insistimos em Belo Monte, Tapajós e quetais. E comemoramos como loucos um punhado de usinas eólicas do Ceará (ainda mal e porcamente interligadas à rede) e os primeiros leilões de painéis solares. Incentivamos a produção de carros. Já as bicicletas não têm isenção de IPI, como as montadoras. E, para piorar, quando alguém resolve timidamente instalar algumas ciclovias, a população reage com tachinhas e ameaças de processo judicial. Nada muito animador.

Resumindo: um desenvolvimentismo cujo horizonte não seja a fronteira tecnológica, social e política não é desenvolvimentismo nenhum. É um engodo. Esse é o desenvolvimentismo de Dilma.

Itamar Franco visita a Volkswagen

Por outro lado, dá para imaginar a oposição liderando os esforços para romper com o ruralismo (e as oligarquias em geral)? Não se for uma oposição liderada por Aécio Neves (oligarca), José Serra (desenvolvimentista) e Geraldo Alckmin (o termo que eu ia colocar entre parênteses aqui poderia ser considerado ofensivo demais). Não enquanto Ronaldo Caiado for um de seus principais nomes. Não enquanto o mote oposicionista for um antipetismo aproveitador e cínico, incapaz de formular uma concepção de mundo para além do já mencionado escritório da Faria Lima. Não enquanto o opositor típico for um saudoso do poder discricionário e elitista da República Velha. Alguém que empunha a bandeira do liberalismo econômico simplesmente porque parece lhe permitir uma liberdade de atuação opressiva, redundante e, claro, insustentável.

Uma oposição cujo horizonte não seja a superação das insuficiências daquele desenvolvimentismo mencionado acima não passa de intriga palaciana e sede de controlar os aparelhos de Estado. Nada mais. É outro engodo.

Mais uma vez: o que fazer?

Confesso que estou começando a esgotar meu estoque de cenários para imaginar e tenho vontade de terminar este texto com um honestíssimo “não sei o que fazer”. Até mesmo Marina Silva chegou a fazer declarações de simpatia pelos ruralistas durante a campanha presidencial. A meus ouvidos, isso soa como um furacão Katrina. Parece que a iminência do desastre é invisível, como os rios voadores de vapor. Com uma diferença: esses estão começando a sumir. Já a crise hídrica está começando a aparecer.

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Acontece que desaprendemos a conceber a idéia de uma dádiva tão pura como a água dos rios voadores amazônicos. Compreendemos muito bem o que seja eficiência. Sabemos calcular os pontos de equilíbrio quando há troca, preferências reveladas, sinais de preços: monetização. Temos plena noção do que seja a entrada de um insumo, com seu custo, e a saída de um produto, com seu preço de mercado. Mas o que significa que a vida moderna de todo um subcontinente seja simplesmente uma dádiva? Como responder com dignidade, e não só com eficiência, a uma entrega desprovida de cálculo, interesse ou reciprocidade? Como reconhecer que o plano em que ocorre esse gênero de ciclo geofísico (e também ecológico, biológico…) é irredutível às determinantes do nosso modo de vida? Ou seja, como reconhecer que, ao contrário, são esses nossos determinantes que só podem até mesmo ser postulados a partir desses ciclos?

Com essas perguntas todas, tateando um muro espesso e alto, parece que chegamos a uma janela que apresenta a paisagem ainda mais carregada do que tínhamos conseguido ver. Se a pergunta ainda gira em torno do que fazer para gerar a impulsão necessária para mobilizar o reflorestamento, ela agora abandonou o campo do convencimento político para entrar numa esfera quase antropológica. Ou seja: se nos entendemos apenas como agentes de uma reciprocidade interessada, podemos chegar a algum lugar? Seremos capazes de dar aos nossos gestos e aos nossos projetos uma outra nomenclatura, que possa fazer frente à condição de profunda assimetria em que nos encontramos perante os ciclos do planeta?

Daí o apelo para que ponhamos o foco na figura do major Archer, nem que seja como símbolo. Mais ou menos como o fusca, na época de Juscelino, era o símbolo daquele antigo, já ultrapassado desenvolvimentismo, que ao menos teve o mérito de jogar o Brasil finalmente no século XX. Archer era um membro da elite imperial que ganhou o título de “major” por pertencer à Guarda Nacional, uma força semioficial, basicamente uma daquelas milícias oitocentistas que deram tanto trabalho a nossos vizinhos hispanofônicos. Foi alguém que reagiu ao desastre que tinha diante do nariz com uma atitude sagaz, corajosa e humilde.

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Com isso, introduziu a silvicultura no Brasil. Com isso, também, garantiu que as gerações seguintes de cariocas tivessem uma relação com seu entorno, sua cidade, que é única – apesar de todas as forças no sentido oposto, tantas e tão fortes. A experiência foi aprendida na tentativa e erro, observando a reação da terra, das plantas pequenas, das pedras. Deu tão certo que não só a floresta segue lá, linda e majestosa (e é majestosa mesmo, o adjetivo cai como uma luva), como o major foi convocado para repetir o trabalho serra acima, em Petrópolis.

A figura do major Archer, como símbolo, sugere essa disposição para o aprendizado, a experimentação, a reversão dos hábitos, a construção de uma nova realidade urbana e social. Hoje, não há desenvolvimentismo digno do nome que não passe por esse ícone Archer, o ícone da humildade perante o desastre, ou melhor, da disposição de transformar-se para não se deixar deformar. Não quero dizer que um símbolo sozinho consiga fazer frente a poderes políticos tão enraizados, poderosos e violentos como os que terão de ser enfrentados. Mas posso afirmar que, sem passar por um processo de ressignificação como esse, dificilmente chegaremos a acumular as forças de que precisamos para ontem.

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Nos jardins, as cerejeiras

Três cerejeiras
Existem polianas – e polianos – para tudo neste mundo. São sensibilidades capazes de encontrar alegria em qualquer coisa. É o caso da gente que aponta belezas específicas a cada estação do ano, dizendo que todas podem ser fruídas e amadas, cada uma à sua maneira. É, digamos, quase verdade. Mas uma verdade mitigada pelo fato de que o verão queima, a primavera engana com suas temperaturas imprevisíveis, o outono anuncia o inverno naquelas folhas coloridas, e o inverno, ora…

Admito que uma paisagem campestre coberta de neve dá uma belíssima imagem para quebra-cabeças de 2000 peças, ao menos nas poucas horas em que a luminosidade é suficiente para o obturador da câmera. Mas, sem mencionar a penumbra, a neve de verdade, concreta e muito empírica, não é nada disso. Fica suja ao se misturar com a lama, é viscosa quando derrete, escorrega e causa acidentes. Muito bonita quando cai. Depois, um Deus nos acuda.

Aqui em Paris, quase nunca há neve. Dizem que caiu um pouco há dois anos (eu não vi). De sorte que qualquer elogio à beleza do inverno deve excluir esta célebre cidade. Entre novembro e março, Paris é feia, cinzenta, carrancuda e ainda mais suja do que de hábito. É a estação chuvosa, quando as paredes se tornam pegajosas e recendem a cinza de cigarro barato. A ausência do que de verde há na vegetação desnuda a monotonia cromática sufocante das fachadas, na cidade que deveria ser toda luz. À exceção dos turistas brasileiros, ninguém é feliz; as mordidas e os rosnados recíprocos se multiplicam. Sair à rua torna-se algo a evitar. Em poucas palavras, são meses passados na toca.

Foi por isso que escolhi cerejeiras para ilustrar este texto rabugento. Três delas. E lanço-me à tese: não há melhor augúrio do que a chegada das cerejeiras. Ainda é março, as flores e folhas só virão em abril, mas já, ladeando os galhos eriçados dos plátanos, estão elas, as cerejeiras, rompendo em flores rosadas. É um alívio, muito mais do que uma festa para os olhos. Em si, a beleza pouco diz: há cerejeiras também no Brasil, mas elas não se destacam, ficam humildes no meio dos ipês, manacás e damas-da-noite. Em março, dar com uma cerejeira em flor em Paris é como atracar no cais após a tempestade. É o mesmo efeito, sobre os músculos como sobre o espírito.

Se me fosse dado mudar algo no texto de “O Cerejal”, de Tchekhov (seria um sacrilégio, já sei), eu apenas inverteria a ordem das estações: a ação começaria em agosto e terminaria em abril, as árvores sendo postas abaixo em pleno ápice da exuberância, quando respondem por toda a alegria dos russos a cinco graus negativos. Mas isso talvez fosse terrível demais para o público moscovita, soaria, imagino, um tanto melodramático. Vai ver, foi por isso que o autor escolheu a ordem como está, com o desmatamento às portas do inverno: nem o mais bruto dos mujiques enriquecidos derrubaria cerejeiras em flor. É certamente o que ele pensou.

Sobre a concretude dos dados: consta que as cerejeiras vieram do Japão. Não tem dúvida disso a senhorinha que, tendo visto um rapaz pacato a fotografar árvores, postou-se ao meu lado e comentou: “Como são sublimes, as cerejeiras japonesas!” Concordei e sorri para suas costas encurvadas, seu manto de lã grossa, sua cabeleira rala e opaca. Uma dessas nonagenárias que circulam por Paris sem receio algum, e hão de continuar com seus passeios enquanto tiverem pernas. Pois ela, que já viu tanta cerejeira florindo, na guerra como na paz, ainda se admira das flores. Como eu.

Corrigindo a informação: apenas as cerejeiras ornamentais são importadas da terra do sol nascente. As frutíferas são daqui mesmo. Pois as cerejeiras japonesas, em sua pátria, chamam-se Sakura e simbolizam a beleza efêmera de nada menos do que a vida em si. Os policiais e o exército usam a flor da cerejeira como símbolo, como faziam os pilotos kamikaze, de quem se esperava que reencarnassem como Sakura. É também o título de uma canção tão monótona que vence qualquer samurai pelo sono. Sakura, as árvores que enfeitam a primavera nos jardins do imperador, como a enfeitam em meus bulevares.

Devo confessar que tirar prazer da vista de uma aléia florida me faz sentir como um autêntico capiau. Das cerejeiras, diria o cínico, devemos tirar apenas cerejas (não das Sakura, que, como vimos, são ornamentais). Mas o cínico esquece que todas as cerejas que comi na vida vieram da feira ou do supermercado. Somos civilizados, tudo está ao alcance da mão, a um clique ou um telefonema de distância. Não é o caso de desesperar com o inverno e se apaixonar pelas cerejeiras. Mas, fazer o quê, é assim. Estamos chegando perto, mas ainda não aniquilamos a natureza em todas as frentes.

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