arte, Brasil, história, imagens

Da série citações: Vilém Flusser

Há um doce aroma de corrupção e decadência em todo barroco. As linhas tortas e involutas, a complexidade aparentemente confusa, mas estruturalmente clara e geométrica, são prova desse frisson não confessado. A linha simples e reta, a que demanda goticamente o céu, já não é mais viável. O intelecto se força barrocamente em gesto eternamente fechado. É o estilo de uma sociedade que procura na ilusão a realidade perdida e o faz deliberadamente. Esta é a beleza do barroco. É a beleza do pecado.

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Definirei o que são as igrejas do barroco mineiro da seguinte maneira: são obras de mentalidades ingênuas que copiam obras de mentalidades decadentes que, por sua vez, procuram a ilusão da ingenuidade. As igrejas mineiras são monumentos que festejam uma ingenuidade autêntica com uma técnica inautêntica que lhes é estranha. São aparentemente pecaminosas, mas fundamentalmente puras. Os pecados do espírito que fizeram do barroco o estilo diabólico que é, não podem ser nem imaginados, e muito menos praticados, pelos artistas mineiros. O que estes artistas fazem é copiar, ingenuamente, os truques diabólicos do barroco europeu, sem talvez desconfiar da sua infernalidade. O resultado é este: igrejas aparentemente pecaminosas e corruptas, mas na realidade pias e castas. E isto deixa o intelecto profundamente perturbado. Porque prova a limitação do intelecto. O barroco mineiro prova que o intelecto é apenas leve verniz, mesmo quando mascarado em alma, e que a verdadeira alma pode reduzi-lo ao ridículo e ao absurdo. O barroco mineiro prova o ridículo e o absurdo do barroco europeu.

V. Flusser, em O Barroco Mineiro Visto de Praga, publicado no Jornal do Commercio, Rio, 1966.

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O pedestal

Este é alguém que fabricou para si um pedestal. É alguém que, na gramática usual, não pode grande coisa. É o estereótipo do impotente. No dia-a-dia, precisa fabricar ou garimpar tudo que usa, mas seus poderes terminam aí. E um pedestal não é algo que se use, simplesmente. Continuar lendo

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Enquanto vou fechando: Charles Aznavour

Quem já se apertou num apartamento minúsculo, oprimido pela falta de luz e pelo frio glacial. Quem já flanou entre fachadas de pedra com placas de moradores ilustres. Quem já viu minguar a conta bancária e recebeu ameaças pelo correio. Quem já passou horas procurando pelo menu mais barato do bairro para almoçar mal…

Não fica indiferente a esta canção.

“E quando, em troca de uma boa refeição quente, um bistrô qualquer comprava uma tela nossa, recitávamos versos encarapitados em volta do aquecimento, esquecendo o inverno”.

Viva Charles Aznavour (ou, se preferir, Chahnourh Varinag Aznavourian), o homem que se aposentou 14 vezes e continua trabalhando. E também, claro, protagonista de uma das obras-primas de François Truffaut, Atire no Pianista:

Então viva Truffaut também, mas fica pra próxima…

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A classe mofadinha

Não posso deixar de compartilhar as citações abaixo, colhidas de entrevistas que fiz ao longo das últimas semanas para uma matéria sobre o consumo de cultura na classe C (a matéria saiu hoje). Elas deixam uma pulga atrás da orelha sobre o que é criar arte e cultura num país que redesenha sua pirâmide social:

Quem tem o volume de dinheiro dita as tendências. Hoje, o dinheiro está com a classe C. O que mais se vê agora são jovens louros, brancos e ricos usando ‘dreadlocks’ no cabelo. Os criadores de moda, de arte, de vestuário, de comportamento, passaram a vir de lugares que ontem eram guetos, não mais da elite.

Renato Meirelles, da consultoria Data Popular 

A arte do centro está escassa. Falta criatividade e originalidade de criação e promoção. A periferia encontrou, em diversos meios alternativos e acessíveis, uma forma de produzir, criar e promover com criatividade. Isso faz com que a arte da periferia ganhe respeito e espaço, para que os consumidores e produtores culturais se tornem capazes de pensar em novas formas de empreendimento artístico.

Marcão baixada, rapper
O ‘hype’ está em olhar o que está fazendo a classe C. A classe A está meio mofadinha e a classe B está deslocada. Não conseguem dialogar com as populações que estão subindo.  A barreira cultural está destruída. As classes abastadas dependem da nova classe média para viver. É o principal mercado consumidor e fonte de mão-de-obra. Não é mais possível fortalecer barreiras. A classe alta quer marcar sua diferença, mas essa diferença pode lhe fazer muito mal, isolando-a dos verdadeiros circuitos de produção de riqueza.
Ana Paula Kuroki e Laura Chiavone, publicitárias
Deixo os comentários a cargo de quem tenha algo a comentar.
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Enquanto vou fechando: Nina Simone

Eu queria escrever uma postagem dedicada a ela.

Sobre como sua voz me perturba, tão suja e tão precisa ao mesmo tempo, e não permite uma audição desleixada.

Sobre como seu rosto impassível, duro, forte, corresponde à potência de seu fôlego, mas esconde o esforço. E como isso me perturba.

Sobre o porte altivo que freqüentemente desliza para a superioridade — e é melhor quando desliza.

Volto a Nina Simonde sempre que algo está desalinhado. Sempre há algo desalinhado.

Na falta de tempo e energia, em vez de um texto dedicado a Nina Simone, é melhor postar simplesmente Nina Simone.

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Readymade e work in progress: esboço de pesquisa

Eu organizava meu material, colocando em caixas e decidindo o que vai na mudança e o que fica para ser reciclado, quando encontrei uma pilha respeitável de artigos sobre um mesmo tema: o readymade. Foi como provar uma madeleine: eram textos de apoio a cursos de estética e história da arte que segui há três ou quatro anos[i], e de cuja existência já tinha até esquecido. De repente, vieram-me lembranças de como o readymade é a manifestação da arte, ou do artifício humano, que provoca as reações mais instigantes nos professores e pesquisadores, fato que muito me chamou a atenção durante os cursos. É como se tudo que eles têm para dizer da arte, como um todo, fosse só uma desculpa para discorrer sobre esses objetos do cotidiano, isolados e expostos, com plaqueta de identificação abaixo, à direita.

Veja que divertido: Duchamp faz de um suporte de garrafas vazias obra de arte, por mero desígnio de sua vontade. E o que consegue com isso é instigar pesquisadores de gerações e gerações, ao redor do mundo, a produzir páginas intermináveis de especulações. Tenho para mim, como regra geral, que o assunto mais interessante é aquele que nos faz gaguejar, porque, afinal de contas, é um campo brumoso, em que tentamos avançar sem conhecer o caminho. Se não gaguejamos, é porque temos certeza e segurança no que dizemos, ou seja, estamos só repetindo algo de adquirido, conhecido, concretizado, …, velho. Juro que já vi professores gaguejando ao falar do readymade, essa centenária instituição. Houve um que chegou a parar no meio de uma frase, levar a mão à cabeça, manter essa posição por alguns eternos segundos, depois prosseguir com outro assunto, como se nada tivesse acontecido. Inesquecível. Em que pese o embaraço para uma pessoa que passou a vida estudando esse mesmo tema, mas gagueja, é prova de que a iniciativa de Duchamp dá pano pra manga: as laudas todas gastas com o readymade são como uma gagueira coletiva. Continuar lendo

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Lyon, a colina do corvo

Ao contrário dos turistas potenciais ao redor do mundo, a maioria dos franceses torce o nariz acintosamente para Paris, sua tão decantada capital. Noves fora, é a mesma atitude que tende a tomar quem passa longos anos entre a Porte d’Orléans e a Porte de Clignancourt, subindo e descendo pelas alamedas anti-barricadas. Com todo seu estilo (palavra preciosa) de edifícios haussmanianos e monumentos em bronze – na verdade uma desculpa tipicamente francesa para uma homogeneidade e um monocromatismo sufocantes –, o problema é que Paris enche, com o perdão do linguajar. Aliás, de vez em quando uma dessas pessoas que querem se mostrar viajadas e versadas nos segredos do “eldorádico” Velho Mundo (contradições à parte) lança mão do seguinte argumento: “na França? Paris é perda de tempo, boa mesmo é a região tal”, e cita alguma área do Sul. Seria um argumento quase impecável, não fosse, primeiro, o fato de que a vida não é feita apenas de férias, e segundo, a curiosa coincidência de essas pessoas aparecerem por aqui todos os anos, em busca de liquidações na galeria Lafayette, sem saber que a dita loja está presente em todas as cidades com alguma relevância no país. Continuar lendo

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