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Esse povo boa-praça

Morto+feliz
Os etruscos eram um povo bacana. Não vou declarar aqui que eram franciscanos ou carmelitas descalças, afinal, todo mundo sabe que gente pacífica não dura muito neste mundo tão hostil. Que dirá no mundo antigo, em que os povos tiravam um estranho prazer de degolar, violar e saquear uns aos outros. É evidente que os etruscos também sabiam dar seus cascudos. Os primeiros romanos, por exemplo, levaram sua parte, e não foi pouco. Roma foi fundada em território etrusco (mais ou menos), seus primeiros reis eram etruscos, assim como um terço de sua população. E como ainda não havia Sila, César ou Trajano, a prudência lhes comandava obedecer aos primos poderosos do norte. Etruscos mandavam, romanos baixavam a cabeça, e ponto.

Também não eram grandes exemplos de magnanimidade, esses aí. Ao lado dos cartaginenses e dos gregos, foram grandes mercadores do Mediterrâneo. Após uma série de batalhas, para evitar mortes e prejuízos desnecessários, os três povos assinaram um acordo que dividia o mar em áreas de exclusividade. Mais ou menos como fazem as máfias nas grandes cidades de hoje, e também, mais ou menos, como portugueses e espanhóis fizeram com o mundo inteiro no século XV. E, como em todos esses exemplos, quem cruzava a linha, mesmo sem querer (por causa de uma tempestade, digamos), acabava sem barco, sem dinheiro e, eventualmente, sem cabeça. Teve muito descendente de Ulisses que pereceu em casos assim. Esse pessoal não estava para brincadeira quando havia ouro e prata em jogo.
Abra%C3%A7o
Mesmo assim, sustento que os etruscos eram um povo bacana. Tenho dois motivos para tal. O primeiro pode se verificar em qualquer um dos muitos museus etruscos espalhados pela Toscana, bem como nos departamentos de etruscologia (sim, isso existe) dos maiores museus do mundo. A forma como aquela gente encarava a morte é invejável. Nos sarcófagos, escavados de tumbas em forma de casas, a decoração evoca grandes celebrações e banquetes, com música e dança. Os frisos são ornados de pássaros e flores, e os defuntos, representados nas tampas, não estão estirados como, bem, cadáveres, conforme vemos em sarcófagos medievais e até modernos. Os etruscos se faziam esculpir deitados de lado, face apoiada pelo punho, segurando um prato à altura do ventre, como se fotografados em pleno festim.

O ossário etrusco lembra uma urna de cremação, tampada com um busto (que parece ser) do morto. A urna fica sentada numa espécie de poltrona de metal que parece muito confortável, pelo menos para o ocupante. É curioso: o busto parece sempre sorrir. Um sorriso tranqüilo, leve, longe de histérico. Um leve alçar dos lábios. Nada parecido com os bustos de grandes homens que encontramos em galerias helenísticas, latinas ou contemporâneas. A caixa de ossos etrusca, que lembra uma pequena pessoa sentada, parece contente com a morte. Tem lá suas jóias, sua poltrona, e tudo está bem. É difícil não simpatizar com um povo desses. No Louvre, por exemplo, existe um enorme sarcófago etrusco, o maior que já vi, em que estão representados um homem e sua esposa, deitados de lado, como sempre. Têm uma expressão sorridente que me pareceu um tanto quanto sacana. Essa é, claro, uma impressão pessoal. Mas a leveza que a peça transmite é universal, a quase alegria diante de uma obra de arte funerária.
Deitada+de+lado
A segunda característica que me obriga a ter simpatia pelos etruscos nada tem a ver com morte. Pelo contrário. Observando suas inscrições em pedra e lendo brevemente sobre sua história, pude concluir que se trata de um povo bastante pragmático, o que não é, em si, uma qualidade; mas certamente o será o fato de que eles sabiam reconhecer quando estavam por baixo. Sem crise. Senão, vejamos. Lá pelo terceiro século antes de Cristo, a coisa já não ia bem para o lado da Etrúria. O poder naval, depois de algumas guerras (o tal acordo não durou tanto), era quase nulo. Os gregos se espalhavam feito pólen pelas ilhas do Mediterrâneo: fundaram colônias na Sicília, na Córsega e até no que hoje é o sul da França. Era a chamada Magna Grécia, antecedente do que seria o período helenístico. Pois os etruscos, que não foram invadidos, nem colonizados pelos helenos, não tiveram dúvidas. Adotaram os princípios artísticos da Hélade, passaram a escrever no alfabeto grego, começaram a representar nos monumentos as melhores passagens da mitologia do Olimpo (por algum motivo, o episódio preferido era o de Polinice e Etéocles). E não se fala mais nisso.

Mais um pouco, a situação piorou novamente. Celtas atacavam pelo norte, romanos se empolgavam pelo sul. A capital desses últimos, por sinal, foi saqueada por Breno, líder gaulês ancestral de Asterix, com a ajuda de alguns reis etruscos. Os futuros donos de meio mundo não gostaram nem um pouco. Enfezados, decidiram dar a volta por cima. Expulsaram seu último regente e, de quebra, iniciaram a construção do maior império do Ocidente. Os etruscos se viram enfraquecidos, empobrecidos e sufocados pelas novas grandes potências. Não faz mal. Bastou-lhes começar a escrever em latim, venerar Júpiter e Marte, e a vida continua, como sempre.

Sarc%C3%B3fago+dos+esposos
Mais vale associar-se ao poder alheio do que insistir numa força que já se perdeu? Não sei se concordo; mas, enfim, foi o que fizeram. Assim sumiram os etruscos. Não foram dizimados, nem exterminados, nem propriamente conquistados, uma vez que a maior parte de suas cidades se submeteu a Roma sem grandes conflitos. Eles apenas aceitaram o fim. Aculturaram-se. Não é, a bem dizer, um verdadeiro exemplo de amor próprio, orgulho ou grandiosidade.

Não seja por isso. Com base na facilidade com que incorporaram a própria decadência, podemos dizer, com o máximo de benevolência, que o povo etrusco era boa-praça; nada mais, nada menos.

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Os notívagos

Estatuas+em+exposicao

Quem for, saberá. Existe em certas almas o impulso de lançar-se às calçadas quando a cidade está paralisada, atemorizada pelo silêncio frágil que emana dos velhos postes. Os notívagos, no sentido inverso, encontram nessa trégua forçada e diabólica seu verdadeiro universo. A atividade selvagem das horas de luz lhes parece de uma agressividade infernal. É insuportável.

Está além de suas forças resistir ao chamado da madrugada. É como se só à noite o mundo exterior entrasse em conjunção com as tribulações de suas mentes. São dois oceanos de fatos e mitos que, sob a regência do sol, vivem em conflito, uma guerra cruel e insolúvel, e só debaixo do sereno podem estender um ao outro uma palavra de conciliação.

É um arremedo de paz, supervisionado pelo luar, entre a subjetividade do notívago e seu impávido mundo circundante. Não poderia ser diferente. O congelamento das hostilidades é permeado por uma névoa de desconfianças mútuas, uma espécie de desprezo e, sobretudo, o receio da traição iminente. E ela sempre chega, instilando-se com os primeiros raios cor-de-laranja e violeta da alba.

Quem são, alguém poderia perguntar, esses corpos errantes encolhidos de frio, atravessando as avenidas sem lançar olhares para as janelas iluminadas, raras e inexplicáveis? Mas quero crer que há todo tipo de gente. Médicos, engenheiros, advogados, um grande investidor do mercado financeiro, um general da reserva. O próprio presidente da República, imagino-o a se esgueirar para fora do gabinete, despistar o invencível aparato de segurança, abandonar o palácio pela porta lateral que dá para um beco sujo e mal-iluminado, cair incógnito na superfície de sua capital, a cidade que ele outrora conhecia tão perfeitamente, mas hoje se apresenta a seus olhos com as cores foscas que lhe conferem as janelas do carro oficial.

Quero crer, mas não posso afirmar se já topei com algum desses, político, industrial, profissional. Vi muito, isso posso garantir, de poetas e de loucos, categorias com grande facilidade em se confundir e multiplicar. Pouco me surpreende. Um louco é alguém que vive atormentado por fantasmas que só existem em sua imaginação. Um poeta é alguém que vive atormentado por fantasmas que existem na imaginação de todos. O poeta tem sorte com os fantasmas que o escolheram. Pode, durante o dia, travestir-se em cidadão. Comerciante, funcionário, burocrata. O louco pode apenas encolher-se em algum canto.

Na madrugada, os papéis se invertem. Os poetas invejam ao louco a exclusividade de seus fantasmas. Quando comungam de um mesmo reino, é o infeliz que detém cetro e coroa. Até que os assalte a alvorada, vagam todos nos domínios dos espectros, seus passos comandados pelo éter falante nos confins de seus espíritos e, aos olhos dos sensatos que dormem e ressonam, puros e criminosos igualmente, aparecem como desvairados, todos eles.

Já cheguei a me perguntar por que alguns desses poetas são puros poetas, apenas poetas, e nisso incluo todos os artistas que doam suas existências miseráveis à arte que produzem, e lhes parece tão grandiosa, ao passo que outros tantos poetas, tão poetas quanto, tão artistas quanto, mesmo se escamoteados, se metem a louvar o dia, esse tempo que cultiva doentes no lugar dos loucos e heresias em vez de fantasmas. Como pode um notívago, que dançava acordado com a encarnação de seus sonhos, comandar um país, uma corporação, uma esquadra?

Não compreendo que energia os empurra para duas direções tão distintas. Admiro a serenidade que transparece em seus momentos de normalidade. Mas posso apenas supor, fantasiar, o sofrimento que lhes causem as batalhas entre as duas metades de seus seres. A alma, que deveria ser indivisível, segundo nos ensinam há tantos anos, parece mais um espelho espatifado.

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A quem não consegue me ler

Lá vem a primeira pausa na série italiana, que mal começou!

Mas insisto que é perdoável, já que é questão de assunto técnico. Há tempos, quem usa Firefox torce o nariz para mim: este blog aparece deformado, irreconhecível, em suas telas. Diante das queixas, sempre me vi sem resposta. Nada sei sobre o funcionamento dos códigos por trás das páginas. Sou um mero usuário, um neófito, um leigo inocente que meteu o nariz onde não devia. Minha reação normal a problemas como esse é fechar os olhos na esperança de que, ao reabri-los, tudo estará de volta ao normal.

Fechar os olhos e esperar que tudo se resolva sozinho! Parece coisa de criança? Pois que pareça. Pode rir à vontade, mas costuma dar certo. Computadores, entendam, são seres de gênio difícil, como a maioria das coisas que produz a mão plena de emoções do ser humano. Essas pobres máquinas vivem dando problema. O sistema operacional quebra a cada esquina, assim como o editor de texto, o navegador da internet e qualquer outro programa. Faz lembrar um e-mail que andou circulando por aí, em que o presidente da GM (ou seria da Ford? Já esqueci) descreve um universo onde a Microsoft fabrica carros e, em resumo, as panes são regra.

Com isso, as mesmas crises que vêm, vão. Algumas duram horas. Outras, dias. Semanas. Séculos. Existem aquelas que desaparecem quando reiniciamos um programa, ou o próprio computador. Mas tampouco são raras as que persistem. Desde que uso computadores, ou seja, desde sempre, tem sido assim. Qualquer máquina inventava dois ou três problemas com que tínhamos simplesmente de conviver. Ou então… comprar outra. Mas não queríamos desperdiçar dinheiro, nem ter o trabalho de transmitir todos os dados de um para outro. Afinal de contas, esse também traria suas empulhações.

Mas a questão do Firefox versus meu blog simplesmente não queria se resolver. Passaram-se meses e meses, e com eles, as eventuais reclamações do povo que jogou uma banana para a Microsoft. Devo ter passado a impressão de não ligar para os problemas desses usuários, de ser arrogante, surdo, enfim. Mas não é verdade. Apenas, eu não sabia o que fazer. Esperava uma qualquer panacéia cibernética, que restabelecesse a boa ordem. Mas, bom, nada de boa ordem neste blog! Pelo menos para a turma desse navegador cheio de truques simpáticos.

E essas são cada vez mais pessoas. Sempre que aparece um nas minhas estatísticas, temo que ele jamais queira voltar, por conta desse detalhe desagradável (não é um detalhe, na verdade). E eu, que cheguei a acreditar que bastaria cuidar bem do texto para garantir a sobrevivência de minha página. Nada disso, pobre Diego, você se enganou redondamente. A apresentação é fundamental e inescapável. Bem reconheço… Talvez tarde demais.

Dobrando-me aos fatos, fiz o que parecia óbvio: instalei, eu também, o Firefox. E vi o desastre: tudo está alinhado à esquerda, o cabeçalho está bagunçado, a barra lateral vem antes do corpo principal, lá no fundo do universo, escondido por uma série de informações que não interessam a ninguém (infelizmente). Para chegar ao primeiro texto propriamente dito, o visitante que chega a bordo do Firefox é submetido à obrigação, aliás injusta, de descer a barra de rolagem até quase a metade. Se é que terá a paciência.

Acusei o golpe. O desespero me atacou. Suei frio. Mordi as unhas. Projetei-me sobre a página de código, escrita numa linguagem nova que me é menos compreensível que o grego arcaico. Vi-me face a face com todas aquelas barras, aquelas chaves, as letras e números que parecem não dizer nada, mas são perfeitamente legíveis para navegadores e programadores. Tentei uma coisa aqui, outra ali. No Explorer, vi mudanças. No Firefox, tudo seguia idêntico. Donde concluo que só pode ser uma maldição. E já me disseram mais de uma vez: “Engraçado, costuma ser o inverso”. Pois bem, não é o meu caso.

Como já devem estar esperando os mais cínicos, este texto não é apenas o relato de uma relação difícil com a realidade paralela do mundo virtual. Admito sem titubear: é um pedido de socorro. Endereço-o a alguma boa alma, que possa me ajudar a superar este estranho percalço na vida de um editor de blog humilde e boa praça. Pago uma cerveja ao bom amigo. Se for abstêmio, mandarei, pelo correio, bombons de chocolate. Para que tudo volte à normalidade!

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A oficina de um passado vivo

Cadeira+antiga
Bons são os edifícios mistos, daqueles que se faziam antigamente, com lojas no térreo e apartamentos por cima. Da maneira como se planejam hoje as moradias e as cidades em geral, parece que a arquitetura torce o nariz para eles. É pena, acho, mas não posso fazer nada. Sei que estou falando como um romântico; para me defender, evoco um argumento de autoridade: Paulo Mendes da Rocha também gosta, e ele é um ganhador de prêmio Pritzker. Com essa companhia, não posso estar tão errado.

Pois bem, apesar de toda essa preferência pelas construções mistas, nunca tinha morado em uma. Dirá algum rabugento que isso explica muito. Não teria tanto entusiasmo, se conhecesse na pele o que é viver sobre comércios movimentados, barulhentos, insuportáveis. Nada mais ultrapassado e miserável, para nós que vivemos na era do condomínio fechado! E também confesso, é bem o momento, que já recusei um apartamento porque era no primeiro andar, logo acima de um açougue. Tive receio de dividir a vida com ratos, baratas e o cheiro da carne. Pois é, sou um hipócrita.

Acontece que, em torno dessa ciranda de gostos, idéias e ações, há um elemento chamado mundo. E o mundo, já sabemos, dá voltas. Eis que, agora mesmo, finalmente, passo pela experiência de viver na estreita vizinhança de lojas e outros serviços. Não posso nem dizer que vivo acima deles, porque o apartamento é térreo. Trocando em miúdos, durmo e acordo espremido entre um laboratório de próteses dentárias e um entreposto da Cruz Vermelha para distribuição de roupas usadas.

Não posso dizer que tirei a sorte grande. Mendigos fazem fila diante de minha porta, na expectativa de obter casacos e cuecas. Quando partem, deixam para trás garrafas vazias e, vez por outra, fluidos corporais. Às vezes deixam também garrafas cheias, mas não de bebida. Do outro lado, zumbem os aparelhinhos dos protéticos, cujo timbre, irônica mas bem apropriadamente, faz lembrar os dos dentistas. Como se não bastasse, um dos profissionais, sempre animado e expansivo, tem o curioso hábito de conversar pelo celular, manhã cedo, logo ao chegar ao serviço. Muito educado, não quer incomodar os colegas. Prefere ir à rua e discutir diante da janela mais próxima, que, ora, é a minha. É impossível demovê-lo.

Em que pese tudo isso, estou contente com a nova experiência. As dezenas de pequenas lojas enchem de vida o bairro, por onde há sempre gente circulando, comprando, discutindo. Se, não raro, caminhões bloqueiam a rua, tanto pior, a gente desvia. Se temos pressa, esbarramos uns nos outros, rudes e irresponsáveis, mas não nos ofendemos particularmente se nos esbarram. Xingamos sempre, é claro. Mas é só para estar certos de que não somos estátuas de mármore.

Essa animação revela detalhes inusitados, muitas vezes deliciosos e pitorescos, difíceis de perceber no meio da algazarra. Costumo passar diante de um edifício, aqui perto, cujo negócio, ao rés-do-chão, é uma oficina de conserto de cadeiras. O moveleiro, se posso chamá-lo assim, é um senhor idoso, que trabalha diante da janela aberta para a rua, trançando seu vime e encaixando a madeira, em gestos lentos, discretamente trêmulos, com a ajuda de óculos espessos.

A oficina jamais está plenamente iluminada. Conta apenas com um abajur que clareia, sem grande brilho, a área de trabalho do artesão, e confere uma aparência fantasmagórica às cadeiras; as prontas, afastadas a um canto, e as enfermas, que se empilham à espera do remendo do encosto furado ou do encaixe de um pé que se quebrou.

Esse homem velho, que passa o dia todo sozinho em seu ambiente de lida, está ali sem falta, semana após semana, cumprindo o mesmo serviço simples, com o mesmo cuidado. As pacientes são mais antigas ainda do que ele. Cadeiras como as do famoso quadro de Van Gogh, ou mais elegantes, com braços de veludo, como as de um palácio, daquelas que tomam emprestado o nome de algum rei. Objetos de séculos idos. Custo a acreditar que ainda existam na casa de alguém, e constato, algo surpreso, que existem na minha própria – cuja proprietária, diz a correspondência, é condessa.

O homem que conserta cadeiras na minha rua é como uma encarnação da história diante de meus olhos, em pleno século digital, com quase todos os seus atributos de passado real, vivo. Tão prosaico em seu quotidiano, esse negócio pode se dar ao luxo de ignorar que o tempo passou. E, com o orgulho febril de último de sua espécie, herói entristecido, tenta ignorar que o tempo sempre passará. Que esteja fadado a desaparecer sob a avalancha de cadeiras mais modernas e confortáveis, pouco lhe importa.

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O mau comerciante

Monet+gare+saint+lazare
Michel não tem tino comercial. Nem um pouco. Faz parte do inexaurível contingente dos que, fora de sintonia com a época em que vivem, não nasceram para os negócios. Não é que lhe faltem interesse ou gosto. Ao contrário, ele adora o comércio. Loucamente. Sofre uma atração misteriosa pelo comprar e vender. Já se meteu no ramo do vestuário, da gastronomia, da arte. Aos trinta e cinco anos, não cansa de mudar de ramo. E essa é sua maldição.

Neste fim-de-semana, mais uma vez, Michel encerrou uma empreitada. Está mais triste do que nos outros finais. Esse era seu sonho mais belo. Prometia uma vida prazerosa, confortável, e contato com gentes de todas as partes. A ilusão, como sói acontecer a quem se coloca além das fronteiras, teve prazo curto. Mal completou três anos. Ao final, dívidas e uma amargura difícil de abafar.

O projeto parecia infalível. Graças a um empréstimo bancário, obtido com esforço e rapapés, Michel comprou uma antiga casa no vilarejo de Giverny. A localidade, que abriga pouco mais de seiscentas almas, é o segundo destino mais visitado da Normandia. O sucesso é fruto de um quase acaso: ali assenta-se a última residência de Claude Monet, o grande impressionista. Ao redor da casa singela em que o pintor passou seus anos derradeiros, espraia-se o mais exuberante dos jardins, fonte de inspiração para algumas das telas mais famosas que há. As ninféias, por exemplo, que bóiam entre pontes japonesas e salgueiros, renderam painéis gigantescos expostos no museu da Orangerie, em Paris.

O sucesso do vilarejo é tanto que, durante cinco meses, tudo permanece fechado. Casa de Monet, Museu de Arte Americana, restaurantes, hotéis, residências. Tudo. Michel, ao se estabelecer em Giverny, sabia que teria de acumular, entre abril e outubro, o suficiente para passar o inverno sem sobressaltos. E não deveria haver problemas. Seus colegas e vizinhos estavam satisfeitos com os negócios. No inverno, projetam viagens para o hemisfério sul, como se pássaros fossem. Michel, a despeito dos bons serviços prestados e da dedicação, não teve a mesma sorte.

Conheci-o por telefone, quando já estava na Gare Saint-Lazare, estação cujos trens irrigam a Normandia. Rouen, Calais, Caen. Na noite anterior, Nicole e eu passamos horas procurando lugarejos para passar um par de dias, descansando de um mês de trabalho pesado, antes do reinício das aulas. Decidimo-nos por Giverny, finalmente. Custaria menos, era mais perto e mais reservado do que os outros lugares que se apresentaram. Separamos uma lista de hospedarias. Eram quase todas chambres d’hôte, versão francesa do bed and breakfast anglo-saxão, com a diferença de que o conceito é algo mais sofisticado. Em Giverny, os preços são quase indiscerníveis. Mas uma das casas oferecia algo além: um jantar completo, com explicações de todos os pratos, dos aperitivos, dos vinhos, da sobremesa. Era a casa de Michel.

Quando nos buscou na estação, ele explicou que já não fazia mais o tal jantar, porque todo o material já fora empacotado. A casa estava vendida, ele entregaria no dia seguinte à nossa partida. Mesmo assim, escolhemos ficar hospedados ali. Foi uma ótima escolha. A casa, centenária, havia sido uma leiteria no início do século XX, conforme se via no cartão-postal pendurado no corredor de entrada, como se fosse um quadro. A acolhida, esplêndida, louvável. O pequeno quarto, de paredes amarelas, dava para um milharal infinito. Como um todo, a estadia recomporia as forças do pior doente.

O problema econômico de Michel é que ele vê no cliente um amigo em potencial. O correto, num negociante, seria o inverso. Quase perdemos o trem, pelo tempo que gastamos conversando com nosso anfitrião à mesa do café. Em compensação, ele foi magnânimo. Quando lhe contei que não havia trazido meu violão para a França, foi buscar um que já não usava há anos, e o entregou em minha mão. Em seguida, algumas lembrancinhas. Um isqueiro com o nome da vila, um pequeno quadro de vidro para pendurar à janela, figurando a catedral. E, com um suspiro que concentrou toda sua frustração, a fotografia da casa que ele habitou naqueles três anos dedicados à hotelaria.

Na última manhã, quando partíamos, havia caixas de mudança espalhadas pela sala. Nem por isso, o tratamento que recebemos de Michel e sua esposa foi menos agradável. Quando anunciei a intenção de pagar, ele trouxe aquilo que seria a cereja do bolo. Cobrou, pela hospedagem, quase 30% a menos do que o acordado. Preço de amigo, ele explicou, em tom melancólico. Protestei. Menos do que deveria, é verdade. O orçamento de estudante não pode recusar descontos.

Michel não é um bom comerciante, mas é dono de uma alma de rara nobreza. Fechou e vendeu sua casa deliciosa no campo, e haverá de se dedicar a algum outro negócio. Quanto a nós, viajantes incuráveis, é certo que teremos excelentes lembranças dos dois dias que passamos entre as folhagens avermelhadas de Giverny. Mas, quando quisermos voltar, quem haverá de nos dar tratamento assim?

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Um sonho em São Paulo

Personagens+de+sonho
Eis a postagem de um sonho. Não quero fazer do leitor um analista de ocasião, por favor. Mas as imagens que meu inconsciente me impôs esta noite têm muito de cômico. Preciso aproveitar. E não é só isso. Sonhos passam quase sempre pelo assustador e o artístico. Finalmente, são muito reveladores para quem sabe interpretá-los; mas sobre isso, terei de perguntar ao meu amigo especialista em Lacan. A partir de agora, portanto, tente imaginar um blogueiro deitado no divã, mãos cruzadas sobre o ventre e ar de aflição.

Antes de entrar no sonho em si, é preciso dar elementos de interpretação, segundo o que guardo de quando tinha condições de investir em terapia. O que posso dizer é que me lembro do último pensamento antes de me ajeitar no travesseiro: “Quando for ao Brasil, agora que vendi o carro, usarei o transporte público, como faço aqui. Mas os preços mudam tão rápido que, ao tomar um ônibus em São Paulo, terei de, céus!, perguntar a tarifa.” Por algum motivo, a situação me pareceu embaraçosa. Entrar no ônibus sem cartão magnético, só com as notas verdes de um real, e perguntar quanto custa… Acabei pegando no sono.

Coincidência ou não, sonhei justamente que me via em São Paulo, passando as férias. Visitei a família e os amigos. Estive até mesmo na velha faculdade, onde encontrei antigos colegas, um pessoal todo já formado e espalhado pelo mundo. Lá estava, aliás, um sujeito com que trombava quase todo dia, mas nunca foi de fato meu amigo. Quando o cumprimentei, caí na risada, e ele se ofendeu. Mas como não rir, diante de alguém que não vejo há anos, não sei se está vivo ou morto, e de repente me aparece em sonho? A exemplo da vida real, ele não tinha nada a dizer, nenhuma mensagem a passar. Foi uma imagem inútil, produzida pelos mecanismos insondáveis do cérebro.

Vieram me contar que retiraram todos os outdoors da cidade. “Percebeu?”, perguntaram. Olhei em volta. Vi um prédio em forma de carambola, um viaduto grafitado e postes pintados de branco até a metade. Puxa, é mesmo. Ainda é bem feio, mas publicidade, não tem.

Deu vontade de ir até o centro. Assim, sem motivo. Ainda não me esqueci das particularidades paulistanas: transporte de superfície é suicídio; se tomasse um ônibus, ao chegar na avenida Paulista, já seria hora de embarcar de volta para Paris. Cheguei à estação de metrô, mas estava fechada. Uma funcionária impaciente e de cara muito amarrada explicou que não abriria tão cedo. Ao que parece, alguém não estava conseguindo terminar a obra. Nada muito surpreendente, até aí.

Inverossímil foi o fato de, portões trancados e trens parados, haver uma enorme fila para comprar passagem. Postei-me ao final. Já que vivi na cidade a tempo de ver sumariamente eliminado o bilhete de dez viagens, nem me empolguei. Continuava aflito para saber quanto teria de pagar antes de chegar à boca do caixa.

Resolvi empregar artimanhas: puxei papo com uma senhora à minha frente. Ela tinha a altura do meu umbigo. Talvez até menos. Não sei por que reparei nesse detalhe. Comentei que a fila não andava. Ela deu de ombros e retrucou que era normal. Até gostava, e completou: “Bom momento para conversar com o Senhor”.

É pena, mas, na língua falada, não existem maiúsculas. Pensei que ela estivesse se referindo a mim. Algo como: “é um prazer conversar com o senhor”. Na minha ingenuidade, agradeci a gentileza. Sua reação restabeleceu a caixa alta que faltava à oralidade. Em poucos segundos, fui etiquetado como herege, demoníaco, impuro. Um achincalhe público.

Não sei como terminou esse imbróglio azarado. Não sei por que sonhei com uma senhora maluca me esculachando. Sonhos não se preocupam com motivos. Na cena seguinte, já me encontrava diante do caixa. A vendedora tinha os olhos de um peixe morto. (Isso não é uma metáfora.) Pedi dois bilhetes e, para evitar a vergonha de perguntar o valor, puxei uma nota toda amarfanhada de cinco reais.

O peixe morto me lançou um olhar fulminante. O dinheiro era pouco. Cada passagem valia, ou melhor, custava, quatro reais e vinte centavos. Por que essa cifra, precisamente? Não sei, deixo a meu amigo psicólogo a tentativa de responder. Talvez o inconsciente, em seu lado financista, tenha feito uma operação de câmbio autônoma: é mais ou menos o preço de uma passagem no metrô de Paris.

Saí pela estação a vociferar, como um louco. Como podem querer cobrar tanto por essa porcaria de serviço? Um metrô que não cobre quase nada da cidade, não consegue terminar uma linha e vende passagens em estações fechadas? Só fiquei quieto com a chegada dos seguranças: dois homens de uniforme negro e boina, metralhadora e walkie-talkie. Com seus enormes maxilares, já traziam a coronha em riste. Só tive tempo para uma frase: “Foi sem querer, capitão Nascimento”.

Tarde demais. Despertei.

Agradeço ao leitor pela consulta e por me escutar com tanta atenção, anotando tudo no caderninho que o paciente não pode espiar. Também mando agradecimentos ao meu chapa pelas explicações psicanalíticas vindouras. Aliás, fiquei até curioso de saber a quantas andam as tarifas de transporte público em São Paulo e no Rio, depois de pouco mais de um ano. Mas, pensando bem, talvez seja melhor não pensar nisso. O sonho de amanhã pode ser pior.

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Para os últimos miseráveis

Gente+no+metro
Já virou madrugada. Alguns gatos-pingados insistem em vagar pela plataforma, esperando o último metrô. Ainda terão de perambular, os algarismos amarelos avisam, por mais oito minutos. Na superfície, reinam o vento e a chuva. O outono começou na data precisa. Os casacos, sobretudos e capas de chuva são negros, cinzentos, pardos. Reforçam a monotonia do ambiente, decretada pela luz fria e os tijolos pálidos.

Os sapatos de quem vai chegando, sempre em passo arrastado, trazem notícias das condições melancólicas da superfície. Deixam no chão as marcas da cidade, como cartazes de propaganda. Uma trilha de pegadas, molhada e suja. Uma folha amarfanhada de jornal. Uma poça d’água que reflete a luz inconstante da lâmpada. Uma mancha de terra, quase lama, torna opaco o chão de piche.

Os casais não conversam, o grupo de adolescentes não se esganiça, os jovens estudantes que retornam, solitários, dos bares e restaurantes onde cavam seu parco orçamento, encolhidos nas cadeiras espaçadas, deixam pender as cabeças sobre os livros que pretendiam ler. O placar luminoso vai, pouco a pouco, acrescentando ao relógio os minutos que subtrai do cronômetro. Mas é lento. Transmite falta de esperança e uma estranha dor de enfado. Alguns, sem dizer palavra, têm a impressão de que a realidade se congelou. Outros deixam escapar suspiros e rejeitam qualquer impressão concreta, por desagradável.

Há muito ficou para trás o horário da loucura, em que os trens chegam um atrás do outro, as pessoas se empurram para entrar, sair, sentar-se. Para toda uma cidade, o dia terminou há muito. São horas de não estar. Mesmo os músicos anônimos, que se revezam entre vagões e estações, guardaram seus instrumentos e tomaram o caminho de casa. No meio da semana, só os irresponsáveis trocam o dia pela noite. E os miseráveis. Na extensão da plataforma, miseráveis e irresponsáveis não se deixam confundir. Mas é impossível evitar que se confundam suas faces, seus nomes, suas memórias.

A ponto de se converterem em massa despossuída, disposta a abjurar sua humanidade insustentável, cortam-se os liames de musgo que arriscavam fundir esses restos de almas. Quantos, ali, identificarão o milagre? Somente, é certo, os que abraçariam em gozo a loucura. No sentido inverso ao de todos os colegas, um homem vem instalar-se com seu estojo negro no último canto da plataforma. O último canto, aquele até o qual nenhum passageiro preocupou-se em caminhar. Um homem que já passa da meia-idade, olhos e lábios do extremo-oriente, cabelos curtos que disfarçam em vão a calvície de seus anos.

Movimentos lentos, fazem lembrar uma dança. Do estojo, quando o abre, salta um instrumento que seus dedos parecem apenas sustentar, não conduzir. O bojo tem as dimensões e a aparência de uma cuia grande. O braço é uma tira frágil de bambu envernizado. Somente uma corda se oferece para produzir toda a música. Em seguida, surge o arco. O velho chinês sustenta seu instrumento sobre os joelhos, com a mesma atitude cerimoniosa que exibiria diante de um público amplo e interessado. Apresentar-se para os últimos infelizes lhe é indiferente. Em nada menos honroso do que qualquer outra platéia.

Toda a cena passa despercebida dos viajantes impacientes. Mas é impossível, e não seria justo, que, por cada uma daquelas espinhas encurvados, um calafrio de choque não passe, quando a fricção de corda e arco lança pelo túnel as primeiras freqüências pungentes. Uma melodia de escalas desconhecidas, trazendo a estampa de outro mundo, oposto a este. E, nesse buraco abaixo de todos os bueiros, qualquer outro mundo é um alento. As pessoas não se voltam para o músico. Mantêm-se nas mesmas posições, como se congeladas. Não à toa. O estranho concerto não tem lugar no ar entre os corpos encolhidos. Seu ambiente são os espíritos aprisionados e opressos. Ali dentro, espectador algum pode manter-se indiferente.

O que espera esse homem, quando põe a acompanhar seu instrumento uma voz forte e colocada, cantando em mandarim ou nas línguas dos cãs? Não há de ser as moedas, que os miseráveis do final dos trabalhos não as têm. Pode-se fantasiar que ele atribua a seus sons algum poder mágico, como teriam sustentado os idealistas da arte. Mas o homem não tem a postura de quem reivindica um título de profeta ou xamã. Vêem-se no pescoço magro, debaixo da pele áspera, as veias que saltam quando ele canta, de olhos fechados.

Parece, sim, alguém que, vivendo de sua música, existe para ela. Sentindo-se compelido a tocar naquele espaço lúgubre, naquele momento improvável, obedeceu. Tomou seu estojo, levou-o à estação e dedicou-se a seu trabalho. Não pôde fazê-lo por mais de cinco minutos, até irromper pelos trilhos o peso grosseiro e agressivo da composição. Foi o bastante.

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Cilada e cinema

Grades+e+trilhos
Escorreguei para o mundo do crime. Foi sem querer. Culpa das más influências. “Dize com quem andas e te direi quem és”. Pois bem. Sou um fora-da-lei. E tudo aconteceu quando convidei um amigo para passar a soirée em casa. Era uma noite calma de agosto. Não passava alma pela rua. Jamais poderia supor que algo de anormal fosse acontecer. Nem mesmo a ventania, um pouco mais forte do que o habitual, me soprou um alerta ao ouvido. Céus, como eu estava enganado!

Meu amigo havia acabado de pousar em Roissy. Quinze horas mais cedo, perambulava pelo Galeão, incógnito, esperando a hora de seu vôo. Não sei se assoviava, nem se usava óculos de sol; o certo é que ninguém desconfiou de nada. Não sabiam que, atrás da expressão limpa de um viajante comum, escondia-se um criminoso frio e sem escrúpulos. Como poderiam imaginar o que havia dentro de sua bagagem de mão, acompanhando-o para cima e para baixo, entre executivos e turistas, lojas e restaurantes?

Era nada menos do que o objeto que me introduziu no submundo. Contra minha vontade, como eu disse. Um objeto achatado, mais ou menos um palmo de largura. Aconteceu há pouco mais de um mês. Conto essa história agora porque não posso mais conter a aflição e o remorso que me vão corroendo o fígado. O amigo já chegou em minha casa com o elemento ilícito na mão esquerda. Nem ao menos a preocupação de escondê-lo dentro de um saco. Quanta desfaçatez! Na mão direita, uma garrafa de vinho. Como se aquela ainda pudesse ser só mais uma noite normal.

Ah, que vinho amargo! Não vou, é claro, dar o nome desse pilantra. Vou chamá-lo de Sr. X, para que não me apontem como cagüeta, mas também porque passa uma impressão algo mais dramática e digna de Poe. Pois esse Sr. X, traidor, depois dos abraços de praxe de quem não se vê há semanas, anunciou a intenção criminosa: “Trouxe um filme pr’a gente ver!” Àquela altura, bem me lembro, ainda inocente das maldades deste mundo digital, não percebi a presença da contravenção. Só fiquei animado.

Fui o dito otário. Perdi. Se lesse com mais atenção os jornais brasileiros, estaria informado de que o filme em questão não havia sido, ainda, nem lançado no cinema. Mesmo assim, todo o Rio de Janeiro já tinha visto “Tropa de Elite”. Naquele momento, do outro lado do Atlântico, ao inserir o disco no aparelho, eu me tornei apenas mais um a sujar as mãos. Daqui por diante, viverei nas sombras.

Agora que já fiz minha penitência pública; agora que já confessei o crime e expliquei como é possível que eu tenha visto um filme que acabou de estrear oficialmente no Festival do Rio, sinto-me mais leve e, por conseqüência, livre para dar uma palavrinha a respeito. Ou, antes, duas palavrinhas, porque já comecei a bolar uma entrada, também, para o outro blog, o Cálculo Renal. Quem sabe, assim, não consigo compensar um pouco minha rápida derrapada para o lado obscuro, ao convencer dois ou três internautas a pagar ingresso pela fita de José Padilha?

Primeiro: fiquei muito impressionado com a qualidade do filme. É tão bem feito que nem parece brasileiro, e são poucos os momentos que entregam os vícios de nosso cinema atual, sobretudo no que tange às atuações. E foi isso, o que mais me impressionou: os atores são muito bons nesse filme. Aleluia! Wagner Moura, por sinal, está impecável como capitão do famigerado Bope. Tão convincente que apaga a péssima impressão que me causou o tal “Deus é Brasileiro”, de Cacá Diegues. Ou melhor, não apaga. Aquilo é um desastre absoluto…

Caio Junqueira, como um dos candidatos a novo oficial de elite, chegou a me dar a impressão, no início, de que não sustentaria o papel. Ledo engano, caro amigo. Sua transformação em máquina de triturar bandido é uma das melhores coisas do filme, digna de prêmio. Quem dera, esse esmero fosse generalizado nos atores do cinema brasileiro! Daria muito mais gosto sair de casa para vê-los, não?

Mas os elogios vão além das atuações. A produção é excepcionalmente rigorosa, considerando a prática corrente do chamado “cinemão” do Brasil. As cenas de batalha (não há outra forma de designar o confronto entre policiais e traficantes), o baile funk e o caos urbano do Rio de Janeiro são reproduzidos com um cuidado redentor. É um alívio para quem não agüenta mais a estética chupada da televisão, sempre ela, que impregna mesmo os filmes que, até segunda ordem, estão livres dos tentáculos da Vênus Platinada.

O roteiro, baseado em livro homônimo, tende a um certo deslumbramento com os “Caveiras”, seu rigor e sua truculência. É compreensível; afinal, é o ponto-de-vista deles. Fora esse detalhe, é um texto muito bem trabalhado, apesar dos mesmos velhos truques batidos que contaminam qualquer projeto em que Bráulio Mantovani e sua patota metem o dedo. Mas isso é uma ressalva, não uma condenação. A história é muito bem contada.

Da tropa em si e seu significado em termos sociais e políticos, deixo para tratar no texto que pretendo escrever para o Cálculo Renal, que é mais propício para esse gênero de reflexão. Se tudo der certo, vai para a rede ainda hoje; mas já sei que nem tudo dará certo, então deve ficar para amanhã mesmo. Avisarei com antecedência.

ATUALIZAÇÃO: Finalmente, cumpro uma promessa blogueira! Está pronto o texto do Cálculo Renal. Longo à beça, como sempre. Estão convidados.

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É hora de indicar bons blogs

Controle+de+tr%C3%A1fego
Periodicamente, é necessário tomar um desvio das nossas metas. Sói interromper as atividades centrais da vida para cuidar de estruturá-la e ajustar detalhes que, à primeira vista, parecem pouco importantes, mas fazem uma diferença enorme no cômputo final. Creio que todos concordarão. No meu caso, fazendo jus ao título de “fã dos fractais“, acredito que o mesmo princípio valha para o micro-universo do blog. Eventualmente, cumpre fazer mudanças, ajustes, limpezas, verdadeiras faxinas.

E aqui vai uma confissão: tenho sido muito lento nisso tudo. Se os fractais, em sua lógica toda mística, estiverem corretos, meu passo de cágado na reorganização do Para Ler Sem Olhar é reflexo de uma dificuldade mais profunda em garantir os princípios de funcionamento de minha existência como um todo. Não sei. Não posso garantir. Sinceramente, prefiro não tocar nesse assunto agora…

Volto à vaca fria. Alguns passos já foram tomados. Primeiro, criei uma lista com alguns textos mais antigos, para servir de referência. Depois, inaugurei o Cálculo Renal. Mais adiante, mudei a cor de fundo. Nada muito complexo, é claro. Instalei o Haloscan para os comentários: enorme revolução. Matei Paulo Osrevni, e não corro risco de ser preso, porque já estou no exílio. Mas ainda falta muito: criar um novo cabeçalho e aprender a aplicá-lo, por exemplo, é um sonho antigo. Mas isso, sei que não vou conseguir fazer sozinho, então espero alguma boa alma que me oriente.

O passo em que estou agora é a reforma dos links, ligações, liames (como preferir). Os que ainda aparecem aí ao lado, fora alguns acréscimos esporádicos, são os mesmos que inseri nos primórdios deste blog, quando aprendi o caminho das pedras do blogroll. Alguns nem existem mais; outros são, francamente, medíocres; outros, nem lembro de quem são e, finalmente, alguns não têm o destaque que merecem.

Mas o principal é que há muita coisa que leio com regularidade, mas andava deixando passar a oportunidade de “linkar”. Quero, hoje, pagar uma parte dessa dívida, pelo menos. Em alguns poucos parágrafos, juro. Como os blogs são muitos, e não quero incomodar o leitor, vou me limitar, por hoje, a quatro. E escolho um tema, a ser desrespeitado o mais rápido possível: a fotografia. Vamos a eles, pois.

Literatura e Rio de Janeiro: O blog de Ivo Korytowski parece feito para quem está longe do Brasil. O blogueiro carioca publica fotos de sua ainda incomparável cidade. Não são, claro, as obviedades da Zona Sul, calçadão em Copa, biquíni em Ipanema. São os antigos sobrados do Centro, os tesouros escondidos nos subúrbios, as igrejas do século XVII que sobreviveram à sanha modernizadora que, sejamos honestos, fez de tudo, menos modernizar. As imagens vêm, não raro, acompanhadas de trechos de Machado de Assis, Coelho Neto e outros grandes autores que teimamos em querer esquecer. É um blog que visito sempre que bate a saudade do Brasil, de suas coisas belas e bacanas, de suas paisagens e esquinas.

Sarapalha: Este blog, de um mineiro que atende pelo nome de Tristão e reside, segundo parece, em Petrópolis, tem muitas semelhanças com o de Ivo. Bastante fotografia, bastante literatura. A principal diferença é que as fronteiras são mais amplas. Ali, já vi fotografias de Juiz de Fora, Belo Horizonte, Petrópolis, Nova Friburgo, Rio de Janeiro, e agora São Paulo. A visita traz à memória algumas paisagens que já ia esquecendo, e outras que gostaria de ter conhecido. Aguça a curiosidade, toca no nervo maldito da saudade. No cardápio, também há trechos de grandes obras poéticas do nosso século XX: Jorge de Lima, João Cabral de Melo Neto, Vinícius de Moraes, Ana Cristina César, Paulo Leminski. E, eventualmente, excertos de Jacob Gorender, Darcy Ribeiro, Elio Gaspari. A propósito da poesia, de vez em quando fico me perguntando se não surgem reclamações do Ecad. Mas logo afasto o pensamento, porque pode dar azar.

Abrupto: Este blog português é o único deste lado do Atlântico que mencionarei hoje, mas pode estar certo de que não é o único da lista. Nos posts, José Pacheco Pereira ataca de política, futebol (agora, também, o rugby), cultura e tudo a que tem direito. Mas, no fundo, o que mais me atrai são, justamente, as imagens periodicamente publicadas, instantâneos do pequeno país que nos legou o idioma, muitos sobrenomes, culinária, música, formas de pensar e existir. Talvez seja por isso que gosto tanto de receber os feeds desse blog: a enorme curiosidade que exerce sobre mim um país que é a principal matriz de nosso sangue. Ou então, talvez seja apenas porque é interessante. Ultimamente, também têm sido publicados trechos de poemas e fotografias de outros países, da Itália até a China. Vale a visita.

O Biscoito Fino e a Massa: Ei!, você dirá, esse aí não vale! Não costuma ter fotografias e é uma obviedade. Todo mundo conhece, todo mundo gosta, todo mundo elogia. Mas incluí na lista de hoje quase por acaso. Estou fazendo uma limpa nos meus feeds; além de eliminar alguns blogs, talvez mais tarde do que deveria, também me dediquei à leitura de posts antigos, às vezes antiquíssimos, que havia marcado para leitura posterior. Muitos desses posts não me interessavam mais, outros eram mal escritos demais, e assim por diante. No meio dessa faxina generalizada, o blog do Idelber Avelar foi o único cujos textos, alguns datados de quase meio ano, ainda valeram a leitura. É um prazer saber que, no meio dessa pasmaceira intelectual que sufoca o “debate político” brasileiro, haja um blog, pelo menos, cujas análises sejam sérias e muito bem conduzidas. A propósito, nesta semana, o autor publicou um texto em que abdica de comentar sobre futebol doravante. Faz bem. O futebol brasileiro está indigno da atenção de gente séria.

Eis aí, então, exposta como entranhas na peixaria, mais uma etapa de minha arrumação. Mas ela está longe de terminar, é claro! Continuo aberto a sugestões de bons blogs. Há muita coisa boa por aí, e sei que estou perdendo. O mesmo vale para você. Sugiro a visita a esses quatro. A meu ver, é uma oportunidade excelente.

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O músculo criativo: digressão tautológica

M%C3%A1scara+pela+metade
Falam de um músculo criativo; a analogia é boa. Como um músculo que trabalhou mais do que pode, ou foi submetido a uma carga opressiva, a criação também se enche de ácido lático e fica estatelada. Nessa hora, as folhas seguem brancas. Se não voam, é porque um cotovelo as prega à mesa. E as janelas, fechadas, censuram o vento.

Com os dedos repousados, sem exercício, e os olhos afundados, o autor sofre em silêncio. E solitário. Ninguém percebe o vazio, onde deveria haver fantasias e fantasmas. A expressão melancólica se apresenta como apenas um momento entre outros, uma parte de algum processo insondável. Ele passa por normal.

Qual o quê. O autor se sente como o peregrino que sobe os degraus do templo e dá com as portas trancadas. Inexpugnáveis, as enormes portas de chumbo. Que se aproxime delas, e as veja ainda ornadas com os baixos-relevos imemoriais da tradição. Pouco adianta. Eles se fazem sempre opacos para sua visão exausta. O pobre se descobre um sacerdote excluído da celebração. Golpeará a barreira por dias a fio. Fará retumbar à toa a aldraba. A seus pés, a cidade seguirá sua vida, mas a catedral lhe negará o acesso.

Ele não maldiz os deuses. Não solta o grito de morte da esperança. De sua boa ressecada, o menor grunhido não sai. Figura-se em sua mente uma explicação. Uma solução, lícito dizer? Algo na sua atmosfera quotidiana o oprime. Seu músculo não tem um edema; está sufocado por um ambiente inóspito. Seu mundo é seu inimigo.

Em meio ao oceano em que se afoga o sentido, uma única palavra subsiste: a mudança. Ela se multiplica, costura-se qual tumor através de todos os tecidos. Ao autor emudecido, escapa sua principal fraqueza. Ela é desprovida de potência pelo que tem de idéia. Transmutada, animada, encarnada, soprada. Mas idéia.

Iludido pela fé na palavra, ele abandona a multidão das cidades. Rejeita o que, um dia, carregado por um espírito ébrio, louvou como solo inexaurível para sua imagem de vinha. Busca, no pólen do fígado e da memória, o contato com as musas ariscas. Estão, ele crê, escondidas nos troncos das árvores. E quando não respondem, ele é incapaz de reação melhor do que os golpes de machado.

O cansaço se apodera de sua vontade quando o último caule vai ao chão. Quando expira a madeira, voam, livres, as últimas ilusões. O misticismo, o romantismo, o simbolismo, tudo isso vai ao chão, espoucando com a folhagem morta.

Ao autor, resta apenas aquela analogia. O músculo. Toda sua busca foi vã. Ridícula, aos olhos de quaisquer deuses que comandem a arte. Como para toda a musculatura de seu corpo vincado, esse nada mais exige do que repouso e alongamento. Exercitaste-o demais, abusaste. Agora paga.

Ainda nervoso e inconformado, mas já pronto a admitir o fracasso, ele se deita. Fecha os olhos, não pelo seu peso, mas com grande esforço. Tenta dormir. Tem fé, mais uma vez, naquilo em que passou a acreditar. Pensa que, dali a pouco, será despertado por uma nova energia que invadirá esse tal músculo.

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