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Pauta difusa e derrota, mais uma vez

Para finalmente dar meu palpite sobre o furacão que passou no Brasil nas duas últimas semanas, adotei dois princípios: pensar em termos conceituais, em vez de impressionistas, e começar do começo. Os motivos, espero, vão ficar claros ao longo do texto.

No começo, isto é, entre a porradaria geral da polícia e a primeira manifestação realmente gigantesca, a interpretação geral era de um “aqui também”. Até então, o país que realmente estava fervendo era a Turquia. Lá como cá, o primeiro vetor invocado para explicar a súbita capacidade de motivação foi o acesso às redes sociais. Ou seja, a Turquia e o Brasil seriam algo como um segundo tempo do animado ano de 2011, que teve Primavera Árabe, Occupy Wall Street, indignados na Espanha, manifestações em Israel, Chile e mais tantos outros países.

Mas eis que veio 2012, o ano da decepção: a Espanha, como o resto da Europa, seguiu com suas políticas de austeridade; na Grécia, o neonazismo ganhou terreno. No mundo árabe, os países sortudos se viram com governos religiosos e conservadores; os azarados, com guerra civil. O Occupy teve de se contentar em descobrir que não só Obama baixou a cabeça para Wall Street, como, no que tange aos direitos civis, estava na mesma linha de Bush. Derrotas, ao que parece.

Agora, 2013. Novos países entram na dança. Além da Turquia e do Brasil, Índia e Indonésia, além de, mais uma vez, os bravos chilenos, se colocam em movimento. Como sempre acontece, comparações pululam com o famoso maio de 1968, quando a greve geral francesa, somadas às manifestações dos estudantes franceses, se espalharam para o Leste Europeu, o México, o Brasil, antes de resultar em derrota e apatia.

Algo nessa comparação, porém, não se encaixa. Em 1968, o que houve de efetivo, como a greve que, sem eufemismos, parou a economia da França, foi comandado pelos fortíssimos sindicatos da época, um tempo de mobilização industrial e partidos de esquerda poderosos. Os caminhos para se chegar aos objetivos, fossem quais fossem as pautas de cada grupo social envolvido, à exceção provável dos estudantes, estavam bem traçados, até onde podiam divisar os envolvidos.

Hoje, não há nada disso. Em 2011, os árabes queriam derrubar seus ditadores. E depois? Os espanhóis queriam mandar embora o neoliberalismo… e mais o quê? Os novaiorquinos eram contra a plutocracia, como quase todo mundo. E assim por diante. No Brasil, as manifestações mais ou menos pequenas contra a cara de pau do transporte público se expandiram da noite para o dia numa maçaroca de gente despolitizada que protesta contra conceitos abstratos como a corrupção, mas não quer saber de questões concretas como… a corrupção do oligopólio do transporte. Com isso, as mesmas críticas endereçadas aos indignados e ao Occupy voltaram: as pautas são difusas, as pessoas não propõem nada de concreto. Continuar lendo

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O pedestal

Este é alguém que fabricou para si um pedestal. É alguém que, na gramática usual, não pode grande coisa. É o estereótipo do impotente. No dia-a-dia, precisa fabricar ou garimpar tudo que usa, mas seus poderes terminam aí. E um pedestal não é algo que se use, simplesmente. Continuar lendo

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Enquanto vou fechando: Charles Aznavour

Quem já se apertou num apartamento minúsculo, oprimido pela falta de luz e pelo frio glacial. Quem já flanou entre fachadas de pedra com placas de moradores ilustres. Quem já viu minguar a conta bancária e recebeu ameaças pelo correio. Quem já passou horas procurando pelo menu mais barato do bairro para almoçar mal…

Não fica indiferente a esta canção.

“E quando, em troca de uma boa refeição quente, um bistrô qualquer comprava uma tela nossa, recitávamos versos encarapitados em volta do aquecimento, esquecendo o inverno”.

Viva Charles Aznavour (ou, se preferir, Chahnourh Varinag Aznavourian), o homem que se aposentou 14 vezes e continua trabalhando. E também, claro, protagonista de uma das obras-primas de François Truffaut, Atire no Pianista:

Então viva Truffaut também, mas fica pra próxima…

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Se formos sociedade civil

Eu deveria dar mais um tempo antes de sentar para escrever isso, mas por instigação do Catatau e da Nicole no texto anterior, vamos aos comentários sobre a Marcha da Liberdade do sábado último. Na verdade, desconfio de que o assunto vai deslizar para a ocupação das cidades espanholas por sua juventude desiludida e indignada – é que não tem como comparar uma caminhada de poucas horas com as semanas de manifestações –, mas vou fazer algum esforço para evitar a escorregadela…

A primeira coisa a ser dita é que a importância de uma ocasião como essa passeata está muitos graus abaixo do perfil revolucionário que muitos querem ver nela, inclusive seus detratores, que gostam de debochar justamente do fato de que não haverá revolução alguma, como se esse fosse o âmago da questão. Em outra escala, o mesmo valeria para o caso espanhol, que já andam chamando de “revolução espanhola”, quando na verdade o que parece é que as coisas não precisam ser propriamente revolvidas, mas redescobertas. Volto a isso depois. Por enquanto, o fundamental é entender que “abaixo” não foi dito em tom pejorativo, mas puramente geométrico: o que está sendo questionado é o primeiro degrau da escada. Numa imagem barata, mas expressiva, podemos dizer que o modo de assentar esse primeiro degrau vai determinar a direção em que a escada pronta subirá. Continuar lendo

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Assuntos que passaram

Quando se esgotaram minhas forças – e isso deve fazer umas duas semanas, pouco mais, pouco menos – logo vi que a primeira vítima seria o blog. Eu estava certo. Assunto vinha, assunto ia; a vontade de escrever vibrava entre as orelhas, mas desfalecia entre a mão e o lápis (que digo? É o teclado…). O coeficiente de crescimento do desânimo, como não podia deixar de ser, era proporcional ao acúmulo de eventos ao redor dos meus olhos e sentidos. O mundo é assim mesmo: ou você gira com ele, ou aceita a frustração. (Não há nada errado em aceitar a frustração; é melhor do que se deprimir à toa.)

Foi assim que, nesse meio-tempo, eu quis comentar uma infinidade de coisas, mas não o fiz. Em muitos casos, a escolha foi acertada: outros o fizeram melhor do que eu jamais faria, e uma humilhação evitada não deixa de contar ponto a favor. Talvez essa máxima contrarie o espírito blogueiro, mas é assim, não há o que fazer. Em outros casos, perdi a chance: nem me lembro mais das reflexões simpáticas que me causou a vista de uma meia-dúzia de bolas de futebol, gastas e esfarrapadas, boiando em meio à sujeira, numa curva do rio.

Seja como for, listo aqui algumas das idéias que deveria ter desenvolvido em postagens específicas. Qual é o interesse para você que me visita desses parágrafos curtos sobre coisas que mereciam páginas e páginas? Ora, os links, claro. Pois vamos:

1) No último fim-de-semana, passou um documentário alemão no canal Arte sobre Dennis Hopper, com o tristemente premonitório título de “Spiel (oder stirb)”: crie ou morra. Pois bem, três dias depois ele modulou o verbo. Não obstante, recomendo a todos o filme, em que o ator conta sua vida com uma sinceridade e uma naturalidade marcantes. Em seus últimos anos, Hopper se dedicava às artes plásticas, com um interesse particular por fotografar grafites de gangues em Los Angeles, na tentativa de decriptá-los. Eis um trecho, eis outro. Eu poderia mencionar que ele era um personagem fantástico e um ator fenomenal, mas isso, todo mundo já sabe. Então me contenho em sugerir: procurem o documentário.

2) Mais uma sobre morte, um de meus velhos temas preferidos neste blog: Louise Bourgeois não chegou ao centenário, o que certamente teria sido tema para uma escultura e escritos carregados de ironia. Como no caso de Dennis Hopper, eu poderia mencionar que ela era uma personagem fantástica e uma artista fenomenal, mas isso, todo mundo já sabe. Então me contenho em recomendar um espetáculo sobre ela, obra da sempre maravilhosa Denise Stoklos. Ela tende a rodar o país apresentando diversos de seus monólogos, e “Faço, Desfaço, Refaço” costuma estar no meio deles. Ou seja, seu dever, visitante, é ficar atento à agenda da moça. Mais cedo ou mais tarde, ela vai passar pela sua cidade. Encontrei poucas coisas na internet sobre esse espetáculo, em que Stoklos incorpora Bourgeois através de seus escritos, mas eis dois links possíveis: este e este.

3) Um dos assuntos que não ouso abordar é a questão da Terra Santa (dizem que o sangue purifica, o que explica a santidade daquele deserto). Há muita coisa em jogo, uma história enrolada demais e um jogo de retórica e pressões em que os culpados são muitos e a vítima é uma só: a população que preferia poder só tocar a vida. Aliás, Brecht tinha razão. Quem tenta não se interessar por política é massacrado (desculpe a citação imprecisa) por quem se interessa. Em todo caso, algumas reflexões se fazem necessárias, sobretudo depois que o governo israelense foi mais longe do que o longe demais a que já tinha ido.

A primeira delas: não consigo entender como um país cuja fundação remete ao trauma do genocídio e ao racismo sistemáticos pode agir, meros sessenta anos depois, de forma sistematicamente genocida e racista. Acho que só conseguirei produzir um texto a respeito quando tiver entendido isso, ou seja, nunca.

A segunda: O risco de cair no fascismo começa quando alguém resolve substancializar um povo, um governo e os atos de um e outro, para em seguida identificá-los. Tenho visto muita gente tratando como anti-semitismo toda e qualquer crítica às atitudes criminosas do governo israelense: muro, bloqueio de Gaza, bombardeios de hospitais, assassinato de ativistas e por aí vai. Com o risco de cair numa comparação de Godwin, lembro que Goebbels considerava qualquer crítica a Hitler como “anti-alemã” (Sophie Scholl perdeu a cabeça por isso); Jdanov considerava qualquer arte independente como anti-revolucionária (está lá a Sibéria que não me deixa mentir); e, em nossas terras tropicais, o lema era “Ame-o (pode parecer que é o Brasil, mas é o regime, ou seja, a ditadura) ou deixe-o (pode parecer que é o Brasil, mas é o mundo dos vivos)”. Quem identifica críticas a Israel com o ódio ao judaísmo está a dois passos de se tornar um fascista, se é que já não se tornou, e o governo israelense está de braços abertos para essa categoria humana.

A terceira: Robert Fisk tem toda razão: são covardes aqueles que não condenam o ataque israelense à flotilha humanitária. E os mais covardes são os governos “ocidentais” (já disse que odeio essa expressão), aqueles que ou sentiram o fascismo na carne, ou lutaram contra ele, ou ambos, e deveriam atuar para que coisas assim não pudessem se repetir.

A ante-penúltima: o fascismo também tende a achar que consegue fazer todo mundo de otário, não sei por que razão ; em 1o de setembro de 1939, os alemães vestiram cadáveres com uniformes poloneses e acusaram o país vizinho de atacar uma estação de rádio sua, tentando justificar o início da Segunda Guerra (ninguém caiu, claro). Nossos ditadores tentaram fazer crer que Vladimir Herzog tinha se enforcado na cela (e teve gente que caiu, a começar por alguns órgãos de imprensa). Agora o governo israelense mostra vídeos de estilingues (!!!), bolas de gude (!!!) e pedaços de madeira como prova de que seus pobres comandos foram atacados por hordas de pacifistas. Bem que Einstein (por sinal, judeu) avisou: a quarta guerra mundial vai ser lutada com paus e pedras…

A penúltima: mais covarde ainda é o governo (ditatorial, aliás) egípcio, pouco mencionado em todo esse imbróglio, mas que também deixa fechado seu acesso à faixa de Gaza. E isso porque é uma nação muçulmana, que se pretende líder do mundo árabe, e que já esteve mais de uma vez em guerra com Israel.

A última: se eu vivesse no Oriente Médio ou perto dele, provavelmente estaria louco atrás de uma bomba atômica também. Afinal, quem é capaz de transformar um canto de terra num gigantesco campo de concentração é capaz de qualquer coisa. Os únicos detentores da famigerada arma na região têm se revelado uns autênticos lunáticos.

4) Outro assunto que não ouso abordar: eleições. E os motivos são vários. Estando fora do Brasil, quem sou eu para discutir mais este emocionante embate PT X PSDB? As informações que chegam aqui sobre o Brasil são bastante positivas: crescimento econômico, estabilidade financeira, redução da miséria e da desigualdade, investimentos em infra-estrutura, expansão do comércio, medidas anti-cíclicas perante o risco de recessão, desfavelização, recuperação da pesquisa científica… Mas como meus amigos tucanos seguem se descabelando, concedo-lhes o benefício da dúvida: talvez haja mesmo estatísticas secretas provando que o país ruma célere para o desastre.

Mas não posso deixar de levantar algumas hipóteses que me têm martelado a cabeça.

A primeira: muita estranheza me causa essa guinada à direita do PSDB, particularmente de Serra, nos últimos anos. De sua origem na luta intelectual contra a ditadura, o partido de Montoro e Covas foi parar nos braços da Arena, nem bem passado um quarto de século. O PSDB, que um dia chegou a se apresentar como núcleo do progressismo nacional, tornou-se um ninho para Azeredos e Guerras deste mundo.

Como explicar? Dois indícios parecem oferecer uma possibilidade de compreensão desse estranho fenômeno. Primeiro, o movimento irreversível e consistente do PT para o centro, ou melhor, para longe da esquerda (o que não necessariamente é a mesma coisa, se levarmos em conta a miríade de sentidos possíveis para o termo “esquerda”). Acontece que o PT é um partido com uma base mil vezes mais sólida que a do PSDB, porque são movimentos sociais que existem de fato e não estão apenas nas conversas de apartamentos de Higienópolis, nem entre as mesas do Massimo. Em outras palavras, essa migração do PT parece traduzir um movimento consistente da sociedade brasileira (cujos descontentes deságuam no PSol), o que deixa o PSDB um tanto sem argumentos ou bandeiras.

O segundo indício é a derrocada dos partidos conservadores tradicionais; o ex-Arena tentou até a velha estratégia de assumir um nome contraditório (“Democratas”), mas não deu certo. Só alguns poucos malucos ainda crêem que Demóstenes Torres e Kátia Abreu têm algo de construtivo a oferecer para o país. Ou seja, mesmo a parcela mais conservadora da sociedade está menos radicalizada, embora ainda apareça muita gente disposta a ter saudade da ditadura e chamar o combate a ela de “terrorismo”. Enquanto o clã dos Maias e Magalhães vai afundando, o antigo partido “social-democrata” (se é que eles jamais o foram) ocupa seu lugar. Isso para não mencionar a turma do Maluf, claro. Não deixa de ser uma evolução da mentalidade do país e uma prova de que não estamos indo tanto para o buraco quanto querem fazer crer os e-mails descabelados que tenho recebido…

A segunda, na verdade um corolário da primeira: conforme temos podido ver, o candidato dos tucanos à presidência, que dispensa apresentações, parece ter ido pelo mesmo caminho. Quem leu os artigos e comentários de “Brasil sem milagres”, escritos entre 78 e 86, tem dificuldade em reconhecer o homem que hoje inibe a pesquisa e o ensino em São Paulo e manda ver a metralhadora giratória contra países vizinhos e pessoas com pensamento menos monolítico que o de seu partido. Pois é, uma das poucas vantagens que tiro de ser formado em economia é ter lido artigos publicados nos anos 70 por gente que, hoje, pode preferir queimar seus antigos escritos (não, não estou falando de FHC).

A grande questão é: para quem vai o discurso raivoso? Para quem vão factóides como o Ministério da Segurança e a cocaína boliviana? Afinal, se considerarmos que tanto o problema da violência quanto o das drogas, embora ainda fortíssimos no Brasil, estão muito menores do que eram há dez anos, dá para perceber um descompasso estranho entre o que berra a oposição e o que percebem os eleitores. Ora, nem preciso dizer o quanto isso é improvável num tempo em que o marketing político está tão profissionalizado. Portanto, a pergunta pode ser reformulada assim: se eles não esperam conquistar eleitores novos com o discurso raivoso e descolado da realidade, o que eles esperam?

Minha hipótese é a seguinte: nem Serra, nem o PSDB têm esperança de vencer as próximas eleições presidenciais. A brigas deles, portanto, não é com o PT pelo Planalto, mas com o PFL, pela população conservadora. Se o PDS continuar sua derrocada, o PSDB se consolida como partido conservador brasileiro (o que não deixa de ser uma evolução, convenhamos), empurrando ainda mais a Arena para o esquecimento. Com isso, o estranho discurso da campanha de Serra não seria pela conquista de novos eleitores, que poderiam lhe dar uma vitória já aparentemente impossível, mas pela consolidação dos velhos eleitores. Enfim, é só uma hipótese.

A última: tenho razões para crer que Folha e Globo estão derrubando o último bastião do jornalismo independente com circulação generalizada no país. A observar de perto!

5) Sobre isto aqui, que continua aqui, ainda pretendo fazer um texto mais extenso. Quando ousei fazer críticas à pretensa panacéia do hipertexto, alguns anos atrás, me tomaram por um dinossauro – não importa se foi num blog pra lá de moderno (sic) como o Cálculo Renal. Pois bem, Carr é famoso, então neguinho vai ter que escutar. Aliás, é até irônico dizer algo assim justamente numa postagem cheia de links…

6) Não posso ir embora sem lincar um texto breve, mas preciso de meu amigo Leonardo. Quando eu falei que havia casos em que me dei bem por não escrever e evitar a humilhação de ver alguém dizer algo muito melhor do que eu diria, era nisto que estava pensando. Lelec manda muito bem ao escancarar o abuso do pretérito do futuro, que se tornou o único tempo verbal de uma imprensa tornada inútil e anódina. O contexto está no artigo anterior de Leonardo, que merece muito ser lido, em seu blog ou no Amálgama, onde a caixa de comentários pegou fogo.

Era isso… obrigado pela atenção!

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Um milagre basta

Abri mão de pensar num sentido para a vida graças à chuva de pétalas de cerejeira e folhas de chorão. É um fechamento tão tranquilo para o ciclo da beleza, que não pude evitar uma tranquilidade semelhante para o ciclo da existência. Simples assim. Antes que o mês de abril possa começar e terminar com seus míseros trinta dias, os galhos se enchem de flores, como se explodisse dentro deles uma matéria inquieta de cor e vida, depois as pétalas se desmancham com o vento e dão lugar às folhas. Mas estas últimas tampouco hão de durar mais do que seis meses, sete no máximo, antes de deixar novamente nus os galhos…

E assim por diante, como todos sabemos. E, como todos sabemos, é esse o mesmo círculo a que obedecem todos os viventes, desde o bilionésimo do bilionésimo ano do passado, desde que cadeias de matéria deram para se replicar. Coisas brotam, coisas secam, nas árvores, nos mares, nas savanas, como na minha cabeça brotam ideias, e são projetos, depois secam, e são desistência.

A florada de um cerejal nao nutre ambições de beleza e faz muito bem. Nada tem muito sentido para um galho coberto de flores, que só sente de fato a inclinação de atrair abelhas – e as abelhas vão, atraídas pelos formatos apetitosos. Estirado, algo preguiçosamente, sobre um branco de praça com vista privilegiada para a colheita dos insetos, vejo, quase distraído, a repetição do que aconteceu no ano passado, no ano em que nasci, antes mesmo que os anos fossem contados. E me ponho a citar: é o ciclo, o ciclo da vida, a vida é um ciclo… e adormeço.

Caem as pétalas e adubam a próxima florada, as folhas virão para tomar seu lugar e encher de energia um infinito de reações químicas, que jamais verei de perto. E nem preciso, para saber que elas só fazem manter e criar mais flores, mais folhas, mais galhos, mais reações. Eu, adormecido, embalado por uma vida em ciclo: acaba para recomeçar, morre para dar mais vida… Um dia, começou sem antes ter acabado; outro dia, vai acabar sem recomeçar em seguida, mil anos antes que o sol, como promete a grande ampulheta cósmica, exploda e engolfe nosso planetinha.

Não que as plantas se perturbem de saber, se souberem, que, depois de tanto tempo, esse brota e apodrece vai dar em nada. E eu, que em muito menos tempo também vou dar soma zero, ainda gasto meu tempo desperto pensando nessas coisas. Jeito besta de ocupar as décadas (um nada!) que me restam! Bom, no fim das contas, esse pensamento e todos os outros se valem, como se valem as abelhas se o assunto é disseminar o pólen. Algo em mim me diz que eu não deveria apostar tanto na minha própria duração para além de mim mesmo, mas…

Vendo tanto renascer, tanto rebrotar, acabo caindo na tentação, doce e idiota, de acreditar que um fim nunca é fim de verdade. Alguma coisa dura, quero; alguma coisa renasce, desejo. Meu lado ingênuo aponta para a beleza do universo, diz que é milagre, e garante que, entre as coisas que não vão terminar quando chegar o meu fim, estou eu mesmo.

É claro que isso não pode ser verdade. Mentira grossa, decerto. Que tem a ver com a beleza que admiro com a transcendência dos meus olhos? Minha carne fenece tão facilmente quanto as folhas do outono, e então, para ser direto: adeus beleza, adeus olhos. Continua o ciclo, mas eu pulei fora dele como essas pétalas que flutuam no vazio. E se meus braços e pernas são feitos do mesmo material que esses galhos, então não valem mais do que eles ou o ciclo de que fazemos todos parte.

Porém, já sei… que mudem as estações, não vai mudar a admiração que tenho pela sua regularidade, o milagre da sua reprodução, e a suspeita pouco justificada de que toda essa vida tem algum sentido e obedece a algum desígnio. Parece não bastar a evidência de que toda a beleza do universio é a beleza que eu aprecio, e todo o sentido da vida é a vida como eu a sinto. Deve ser isso. O verdadeiro milagre da vida é ter engendrado um ser que a sente como bela e tem amor ao ciclo, a ponto de desejar ser maior do que ele. Para mim, já é milagre suficiente.

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O sol e o século

Primeiro dia do ano com sol e temperatura acima de zero, já na última semana de fevereiro. Então ela aproveitou para levar as cartas todas ao correio, depois comprar queijo, vinho, carne e pão. Apesar da luz ressuscitada e do clima agradável, o clima ainda era fresco: cinco ou seis graus. Caso para um bom casaco, mas não pesado demais. Ela escolheu um escarlate, de lã, um de seus preferidos desde o dia em que Henri Salvador, do palco, atirou uma flor e ela foi cair em suas mãos. Passou a ser o casaco da alegria.

Para quebrar a tonalidade alegre demais do vermelho, pôs uma boina cor de creme, cuja sobriedade, somada aos óculos de aro dourado, deveriam emprestar à sua figura um equilíbrio elegante. Desde pequena, sua mãe lhe transmitira a certeza de que não há valores para a mulher como a elegância e o equilíbrio. A mãe já passou há muito, mas ela ainda segue a lição à risca.

A rua era a mesma de todos os anos, desde que comprara o apartamento em que vivia, com muito esforço e trabalho, dela e do segundo marido. Os mesmos prédios de pedra, haussmanianos, opacos e solenes. A mesma fileira de árvores sem folhas, a mesma linha de trem depois da cerca. Mas os tantos meses sem luz, como acontecia a cada ano, quase a levaram a esquecer que cara tinha o bairro quando banhado de sol. Na esquina, a claridade conferia a cada braço das ruas um tom próprio, inteiramente diferente dos demais.

É o que faz o sol, sempre que lança pinceladas sobre uma esquina. Mas ela não reparava nisso há muitos anos, desde muito pequena, quando quase foi atropelada por um Citroën Traction Avant. Salva por um desconhecido de sapato envernizado e bigode esquisito (sua mãe dizia que era um famoso artista espanhol), a única lembrança que ela guardava do episódio era a luz do sol, que embelezava um lado da rua e deixava o outro, aquele de onde vinha o automóvel, esfumaçado e umbroso.

De lá para cá, tanta coisa! Uma adolescência dura, em que os pais evitavam o quanto podiam deixá-la sair. O medo dos boches, os invasores que falavam pela garganta. E o dia em que não conseguiu chegar em casa, voltando da escola, porque as ruas estavam apinhadas de gente, como nunca ela tinha presenciado. Era algo que ela nem imaginava, acostumada que estava aos bulevares desertos senão por veículos camuflados. E então, o desconhecido de boina negra e jaqueta surrada que apareceu de lugar nenhum, um rifle às costas, tomou-a pelas faces e lhe tascou um beijo. Foi seu primeiro beijo. E o rapaz exclamava: “Eles foram embora! Os americanos estão chegando!”

Depois da Liberação, a escassez de comida e os tempos de normalista. E ela rompeu relações com o pai, envergonhada de ele não ter aderido à Resistência. Aceitara passivamente os soldados invasores atravessando a rua debaixo da janela. Sem esboço de reação, senão pela expressão de desgosto e asco. Continuara trabalhando, gerando renda para o inimigo, enquanto o resto do mundo lutava e morria para libertá-los. Como ela o repreendeu naqueles anos de juventude inflamada! Ele jamais deu uma respondeu. Só a mesma seqüência de suspiros. Enfim, levou muitos anos até que ela pudesse compreender a escolha de um homem que precisava engolir todas as humilhações para alimentar a família, tanto quanto em tempos de paz. Ela só o perdoou numa tarde chuvosa de janeiro, de joelhos diante de sua tumba no Père Lachaise.

O primeiro emprego, para contribuir em casa, foi num liceu suburbano. Aulas de francês, matemática e geografia para uma garotada pouco interessada nos estudos. Com o tempo, ela acabou se acostumando a pegar o trem todas as manhãs na Gare Saint-Lazare e sacudir sobre os trilhos, como se montada num cavalo mal adestrado, por mais de uma hora, enquanto as construções escasseavam. A cada vez que um aluno baixava a cabeça e dormia durante a aula, ela se lembrava de como desejara estudar medicina e de como os pais a demoveram da idéia.

Casou-se pela primeira vez por impulso: um rapaz para quem seu pai torcia o nariz, garoto sem eira nem beira, sempre do contra. Ela não era nada do contra, a não ser, é claro, quanto às atitudes do pai durante a guerra. Pois o primeiro marido era filho de um mártir da resistência, cujo nome estava inscrito na fachada de um edifício do Quartier Latin, marcando o ponto em que ele foi abatido a tiros pelos alemães em agosto de 44.

A união por rebeldia não demorou a se revelar um erro. Em menos de dois anos, ela já nutria um desejo, obviamente secreto, de divórcio. Mas não queria dar o braço a torcer ao pai. Não queria se ver sozinha, mesmo que valesse mais a pena. E a essa altura já tinha a filha, linda e meiga, que não merecia a dor e a vergonha de uma separação. “Pela menina”, ela dizia para si mesma, à noite, enquanto tentava pegar no sono, “é preciso suportar”.

O sol não mudava seu jeito delicado de banhar as esquinas, mas o mundo, entre um raio de luz e o seguinte, se transformava como esquizofrênico. E ela nunca teve certeza, ao longo dos anos, se tanta mudança era algo a aplaudir ou lamentar. Foi com esses sentimentos misturados e palavras molengas, evasivas, dúbias, que ela lançou sua condenação à irmã caçula quando, batendo as portas e lançando maldições a toda a geração anterior, abandonou a casa dos pais e desapareceu. Rebeldia muito mais grave do que um casamento intempestivo. E muito mais segura, autônoma, poderosa. A primogênita, em sua altivez de mãe e trabalhadora, invejou, muito sem querer, a atitude. E a definia como “capricho de agitação juvenil” quando conversava com os pais.

E a irmã foi reaparecer dois anos mais tarde, numa fotografia de jornal. Atirava pedras de trás de uma barricada no boulevard Saint Michel contra a parede humana da polícia de choque. A menina estava mudada. Usava os cabelos longos e desgrenhados, berrava frases políticas, impedia o funcionamento da universidade, distribuía beijos indiscriminadamente entre os companheiros de rebelião. Um assombro. A família ficou chocada. Como tinha se transformado aquela garota, que até ontem brincava de boneca! Mas a primogênita, em silêncio, não conseguia evitar de achá-la linda.

Sua filhinha já freqüentava a universidade quando o casamento se dissolveu. E não foi ela que partiu, mas ele, deixando atrás de si um sentimento amargo de abandono, em vez do alívio que ela esperava. Martelava sua cabeça a convicção de que aquilo provava que nem mesmo um homem sem classe e sem educação poderia querê-la para companheira por toda a vida. E ela se viu triste, tendo de cuidar da casa para ninguém, já que a filha estudava numa universidade do sul.

Com a separação, um bom número de homens se apresentaram como pretendentes. Para sua grande surpresa, ela que se sentia velha e sem graça. Mas, em respeito aos sentimentos da filha, declinou com gentileza todas as proposições. Como ela conhecia mal o fruto de seu próprio ventre! Foi a menina que, observando a melancolia da mãe, arranjou uma maneira de colocá-la diante do pai viúvo de um colega. O homem grisalho, de terno xadrez e fala tranqüila, mas segura, era editor em Saint Germain, e se tornaria, em menos de um ano, seu segundo esposo.

Era como se a vida recomeçasse. Tanta novidade, que passou a primavera e o verão, mas ela não se deu um segundo para observar o traçado dos raios de sol. Um ano depois do novo matrimônio, a maior e melhor das surpresas: ela ainda era fértil. Mais uma criança se juntaria à família. Alegria misturada a apreensão, claro, para alguém que já passava dos quarenta e sentia a velhice mais próxima do que a mocidade.

Mas o tempo para pensar no assunto não existia. Era necessário encontrar um apartamento maior, para caberem a nova criança e a biblioteca do novo marido. Economizaram, venderam bens, contraíram empréstimos, conseguiram pagar o três quartos no primeiro andar da rua Cardinet, acima dos correios, que ocupariam pelas décadas seguintes. Foi onde cresceu o menino, cuja maior diversão, em pequeno, era acompanhar a passagem dos trens pela janela. Era onde se faziam os almoços de domingo para a filha, o genro e os netos, garotos barulhentos e pouco mais novos do que o próprio tio. E onde ela sentiu, enfim, que, de um jeito ou de outro, tudo se encaixava e fazia sentido.

Foram os melhores vinte anos de sua vida, muito bem vividos. Sobretudo depois da aposentadoria. Tempo empregado em fruir da família, não em acompanhar os movimentos do sol ou reclamar do radicalismo da agitação política, tão mudada desde os tempos de sua irmã nas barricadas. Ela lamentava as bombas e os seqüestros, mas não pensava neles quando desligava a televisão. Só temeu pela vida do filho – um frio na espinha indescritível, um enjôo injustificado – quando explodiram a estação de Saint Michel. Mas o alívio foi imediato quando ele telefonou, algumas horas mais tarde, para dizer que estava bem, a salvo na casa de um amigo.

Enviuvou na virada do século, mas a morte do marido foi tão tranqüila e paulatina que a tristeza logo se transformou em cálculo de quanto tempo levaria para se reencontrarem. Ela mesma já não era nenhuma garotinha. Nas primeiras semanas, foi difícil encontrar modos de ocupar o tempo solitário, mas, aos poucos, ela foi se inscrevendo em cursos de cerâmica, pintura, história, filosofia. Aprendeu tanta coisa, que parecia ter voltado à escola. Sua cabeça nunca esteve tão boa. Os cálculos para se unir ao esposo no jazigo de Montparnasse desapareceram por completo: era, afinal, uma certeza. E não há necessidade de pensar em certezas. Ela, então, deixou tombar a pressa.

A um passo da primavera, descer à rua para comprar artigos de primeira necessidade se tornou um prazer. Desses pequenos deleites da pequena vida, que tantos anos leva para aprender a apreciar. E esse prazer em particular, o sol se espraiando de maneira desigual pelos braços das ruas, ela ficou contente de reaprender. A vida, tanto tempo passado, tantos eventos, tantos desgostos e alívios, ainda podia lhe trazer novidades. Talvez tenha sido por isso que ela respondeu com um sorriso aberto e um entusiasmo tamanho, talvez até inapropriado, quando o rapaz de sotaque estrangeiro e bons modos (coisa rara nesses jovens de hoje) veio lhe perguntar para que lado ficava a rua de Saussure.

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