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A aposta de Varoufakis

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Uma frase de Yanis Varoufakis grudou na minha cabeça logo no começo do ano, quando o Syriza venceu as eleições e o economista-motoqueiro se tornou ministro. Com o tom confiante que lhe é peculiar e uma linha de raciocínio que denuncia sua formação em teoria dos jogos, ele assegurou que, dentro de alguns meses, um acordo seria alcançado com a troika. Um acordo muito melhor do que o que estava na mesa, bem entendido – e obviamente infinitamente mais favorável aos gregos que o resultado final que agora conhecemos.

Como ele tinha tanta certeza? Os negociadores, dizia Varoufakis, estavam plenamente conscientes de que, se esse acordo não fosse alcançado, o governo do Syriza na Grécia cairia. E o próximo grupo – digamos assim – heterodoxo com que os credores europeus teriam que se sentar para negociar seria o Front National francês. É evidente que a democrática Europa não gostaria de correr o risco de ter um partido proto-fascista no poder de um de seus principais países, não? Um partido ultra-nacionalista, xenofóbico e, para horror da boa sociedade, ferrenhamente eurocético!

Essa declaração ficou ruminando na minha cabeça porque, desde o início, me pareceu um pouco ingênua. Quem garante a Varoufakis que essa abstrata entidade que (não) atende pelo nome de “troika” – e que agora tem sido chamada de “as instituições” – está mais disposta a aceitar um consórcio de grupos de esquerda nominalmente radical, mas na prática bastante moderado, do que um agrupamento de gente proto-fascista? O que a história tem a nos dizer sobre isso? Já adianto: o oposto. Com efeito, entrevistado pela revista New Statesman, Varoufakis revelou seu assombro com a despreocupação da aristocracia continental quanto à radicalização do ambiente político. Mas volto ao assunto mais abaixo. Continuar lendo

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Imagens que não fizeram história (1): Nuremberg

Pense numa imagem – uma fotografia, digamos – poderosa, que prende o olhar, provoca emoções fortes, fica marcada na lembrança. De onde vem esse poder? Pode vir de muitas origens diferentes: o enquadramento, a composição, o tema, a iluminação, as cores, as personagens. Mas será que uma imagem em que nenhum desses fatores é particularmente notável pode ter seu poder também? Uma imagem pode ser completamente desprovida de força quando olhada da primeira vez, e só depois, quando encarada com calma, explodir de alguma maneira? Não haveria momentos em que o que há de mais poderoso numa imagem não resulta do que está ali, ou melhor, do que o fotógrafo quis colocar ali, mas de um rastro involuntário, de uma referência implícita, daquilo que falta ao enquadrado, ao visível, ao captado? Imagens que, por si só, não fazem história podem ser históricas à sua própria maneira?

Por exemplo:

tribunal de nuremberg

É fácil perceber que a fotografia aí em cima precisou de um tempo de exposição considerável para ser tirada. Sem poder recorrer a equipamento de iluminação e possivelmente também sem acesso ao filme mais adequado (ou talvez na época o filme a cores ainda não viesse em grãos muito grandes), o fotógrafo teve que abusar do intervalo de abertura para não deixar metade do tribunal fora de foco ou nas trevas.

Mas quanto tempo o obturador ficou aberto, exatamente?

Um chute: só duas pessoas se locomovem na imagem. Ao fundo, perto da porta, alguém que parece ser um intérprete, dá um único passo à frente. À direita, alguém apressado, talvez um mensageiro, imagino que um soldado da Polícia do Exército (Military Police), dá o que parecem ser quatro passos. Fiz o teste em casa e concluí que dificilmente alguém dá quatro passos em menos de [quase] dois segundos.

É um tempo de exposição notável e, a julgar pelo fato de que as lâmpadas, ao fundo, não estão com a luz estourada, posso imaginar que a iluminação não era das mais fortes – algo pouco surpreendente, para padrões europeus. Além disso, a atmosfera de penumbra combina com o espírito geral do momento.

São, pois, quase dois segundos. Esse intervalo está condensado no imediato da forma, mas sem a menor intenção estilística. O autor está documentando um julgamento. Não está “investigando” nada. Não é um artista que pretende épater le bourgeois e, para isso, sintetiza os microssegundos de movimentos, meros gestos, daquele punhado de gente dentro de uma sala, espalhando-os sobre as dimensões do enquadramento. Suas escolhas não são estéticas, seu formalismo é técnico e nada mais.

Mesmo assim, é o tempo de exposição, invisível ao olhar desatento, mas discretamente presente, que provê a ocasião para que a imagem seja expressiva. Graças à evidência de um corpo apressado que se desloca, um indivíduo que dá um passo, um punhado de folhas viradas, abaixo, na mesa ao centro, temos a oportunidade de experimentar um breve momento do tribunal de Nuremberg, em 1945 ou 1946.

Nem precisamos saber quem é o réu nessa sessão específica, nem qual o crime de guerra, nem o veredito. Só precisamos nos perguntar: o que se moveu durante esse quase par de segundos em que o obturador esteve aberto, para que uma chapa recebesse a luz de uma sala de mobília escura? Já não é mais questão do intérprete, do mensageiro ou dos autos folheados: quais são os gestos flagrados?

Tentei contar, na sala toda abarcada pela lente e apinhada de figuras sisudas, os rostos que saíram borrados. Só encontrei três. Um homem de uniforme militar, aparentemente nazista, na extrema direita. Deve ser réu, o que explicaria o que parecem ser movimentos laterais da cabeça. Um pouco abaixo dele, um homem parece coçar a testa ou limpar o suor, gesto parecido ao que faz a moça de cabelos negros na mesa do primeiro plano.

De resto, nas centenas de presentes, não encontrei lábios tremidos, ou olhos, ou mãos. Alguém fala, em algum lugar, e não podemos ver. Vemos apenas aqueles que escutam, silenciosos, imóveis, sisudos. Ninguém deixa o registro, na chapa do fotógrafo, de um comentário, um bocejo, um estalar de dedos, um coçar da nuca. No máximo, dois ou três homens com a cabeça apoiada na mão.

O que eles ouvem? Um relato do holocausto? As atrocidades das tropas SS? A sentença de morte de algum nazista? Isso, a imagem não diz. O que diz é outra coisa: a tensão dos lábios, a fixidez dos corpos, algo como um sabor travado de quem é confrontado com o indizível, o inacreditável, o inaceitável – mas como fato consumado. Tudo isso graças à baixa iluminação. À primeira vista, esta é um registro de tribunal. Olhando com mais calma, é uma imagem, em todos os muitos sentidos dessa palavra, do tribunal de Nuremberg.

*     *     *

PS: Os réus que aparecem nesta foto – no centro, à direita, fundo da sala – são Hermann Goering (à esquerda, de óculos escuros), Rudolf Hess, Joachim von Ribbentrop, Wilhelm Keitel (o único que está mexendo o rosto) e Ernst Kaltenbrunner. A foto é de 1946. Exceto Hess, que cumpriu pena de prisão perpétua na cadeia de Spandau, todos os demais foram condenados à morte. Goering suicidou-se antes que a sentença pudesse ser cumprida.

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Da série citações: Karl Marx (republicado)

[Este é o segundo da série de posts republicados do antigo endereço do blog, ainda no coletivo “O Pensador Selvagem”, que travou completamente. Republico agora porque andou circulando novamente o vídeo do presidente da Nestlé que vai colado aí abaixo. Hoje, os paulistanos entendem bem do que o nosso amigo está falando…]

Karl Marx

Imaginemos agora as quedas-d’água, com as terras a que pertencem, nas mãos de pessoas que são consideradas proprietárias dessa parte do globo terrestre, como proprietários fundiários, e que resolvam excluir o investimento do capital na queda-d’água e sua utilização pelo capital. Elas podem permitir ou negar a utilização. Mas o capital não pode criar por si a queda-d’água. O sobrelucro que se origina dessa utilização da queda-d’água não se origina, portanto, do capital, mas do emprego de uma força natural monopolizável e monopolizada pelo capital. Nessas circunstâncias, o sobrelucro se transforma em renda fundiária, isto é, recai para o proprietário da queda-d’água.

Ou, no original:

7_quedas

Denken wir uns nun die Wasserfälle, mit den Boden, zu dem sie gehören, in der Hand von Subjekten, die als Inhaber dieser Teile des Erdballs gelten’ als Grundeigentümer, so schließen sie die Anlage des Kapitals am Wasserfall und seine Benutzung durch das Kapital aus. Sie können die Benutzung erlauben oder versagen. Aber das Kapital aus sich kann den Wasserfall nicht schaffen. Der Surplusprofit, der aus dieser Benutzung des Wasserfalls entspringt, entspringt daher nicht aus dem Kapital, sondern aus der Anwendung einer monopolisierbaren und monopolisierten Naturkraft durch das Kapital. Unter diesen Umständen verwandelt sich der Surplusprofit in Grundrente, d.h. er fällt dem Eigentümer des Wasserfalls zu.

(Das Kapital, Volume III, seção 6)

Por que lembrei desse trecho? Por causa disto aqui:

Por mais horrendo que seja, não deixa de ter seu lado empolgante poder ver ocorrendo diante dos olhos a produção deliberada de escassez e a geração explícita de rentismo. É bom lembrarmos dessas linhas aí acima enquanto acompanhamos o esgotamento de todos os sistemas que sustentam a possibilidade da (nossa) vida no planeta…

 

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Da série Citações: Aldous Huxley para George Orwell

Há algum tempo, circulou pela internet uma comparação entre as previsões distópicas desses dois autores, Huxley em Admirável Mundo Novo (de 1932) e Orwell em 1984 (de 1949). A conclusão era de que o universo previsto por Huxley era mais parecido com o mundo como ele é hoje do que o imaginado por Orwell.

No mundo de Huxley, a sedução, a hipnose e o prazer (em suma, a alienação) seriam os elementos nodais da dominação totalitária definitiva. No de Orwell, seriam a vigilância, o controle, o pavor. A diferença de datas de publicação não deixa de carregar uma parte da explicação para tamanha disparidade. Ao escrever, Huxley acompanhava o desmoronamento dos anos loucos anteriores à Grande Depressão, era do Fox Trot e dos americanos em Paris. Já Orwell, ao escrever, acabava de saber da existência de Auschwitz. Atroz seria escrever um livro depois de Auschwitz, a não ser que fosse 1984?

Na comparação que rodou a rede, o consumismo, a indústria cultural e a maior parte da internet eram apresentados como demonstrações do acerto de Huxley. Esse lance de terror, opressão e vigilância tinha ficado para trás, derrotado em Stalingrado e na Normandia.

Aí veio Obama, o homem dos drones e do Prism, o Bush de fala macia. E embaralhou tudo de novo. Minha tentação é dizer: ambos previram bem, mas parcialmente. Fazendo rodopiar incestuosamente a opressão e a sedução, o baile está garantido para o dominador.

E no meio disso tudo, encontro a carta que vai aí abaixo. No lançamento de 1984, Orwell pediu ao editor que mandasse um exemplar do livro para seu outrora professor de francês, Aldous Huxley. E Huxley respondeu. É interessante aprender de onde ele tirou a referência de sua sociedade da sedução, do Soma, do hedonismo Ikea. No mínimo uma curiosidade, enfim.

Wrightwood. Cal. 21 October, 1949

Dear Mr. Orwell,

It was very kind of you to tell your publishers to send me a copy of your book. It arrived as I was in the midst of a piece of work that required much reading and consulting of references; and since poor sight makes it necessary for me to ration my reading, I had to wait a long time before being able to embark on Nineteen Eighty-Four.

Agreeing with all that the critics have written of it, I need not tell you, yet once more, how fine and how profoundly important the book is. May I speak instead of the thing with which the book deals — the ultimate revolution? The first hints of a philosophy of the ultimate revolution — the revolution which lies beyond politics and economics, and which aims at total subversion of the individual’s psychology and physiology — are to be found in the Marquis de Sade, who regarded himself as the continuator, the consummator, of Robespierre and Babeuf. The philosophy of the ruling minority in Nineteen Eighty-Four is a sadism which has been carried to its logical conclusion by going beyond sex and denying it. Whether in actual fact the policy of the boot-on-the-face can go on indefinitely seems doubtful. My own belief is that the ruling oligarchy will find less arduous and wasteful ways of governing and of satisfying its lust for power, and these ways will resemble those which I described in Brave New World. I have had occasion recently to look into the history of animal magnetism and hypnotism, and have been greatly struck by the way in which, for a hundred and fifty years, the world has refused to take serious cognizance of the discoveries of Mesmer, Braid, Esdaile, and the rest.

Partly because of the prevailing materialism and partly because of prevailing respectability, nineteenth-century philosophers and men of science were not willing to investigate the odder facts of psychology for practical men, such as politicians, soldiers and policemen, to apply in the field of government. Thanks to the voluntary ignorance of our fathers, the advent of the ultimate revolution was delayed for five or six generations. Another lucky accident was Freud’s inability to hypnotize successfully and his consequent disparagement of hypnotism. This delayed the general application of hypnotism to psychiatry for at least forty years. But now psycho-analysis is being combined with hypnosis; and hypnosis has been made easy and indefinitely extensible through the use of barbiturates, which induce a hypnoid and suggestible state in even the most recalcitrant subjects.

Within the next generation I believe that the world’s rulers will discover that infant conditioning and narco-hypnosis are more efficient, as instruments of government, than clubs and prisons, and that the lust for power can be just as completely satisfied by suggesting people into loving their servitude as by flogging and kicking them into obedience. In other words, I feel that the nightmare of Nineteen Eighty-Four is destined to modulate into the nightmare of a world having more resemblance to that which I imagined in Brave New World. The change will be brought about as a result of a felt need for increased efficiency. Meanwhile, of course, there may be a large scale biological and atomic war — in which case we shall have nightmares of other and scarcely imaginable kinds.

Thank you once again for the book.

Yours sincerely,
Aldous Huxley

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É uma crônica, mas pode chamar de Brasil

A história do texto que segue copiado aí abaixo é, vamos dizer assim, tortuosa. Na semana passada, alguém achou na internet o conteúdo da nota de rodapé, essa da imagem, e o espalhou por aí. Achei o caso bem curioso e tratei de procurar a origem.

Resulta que era o livro de crônicas Verdades Indiscretas, de Antônio Torres. O dito Torres, autor mineiro e eventualmente diplomata, era um rival de João do Rio na imprensa carioca do início do último século. Eis uma biografia do referido. Continuar lendo

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Série Citações, I : Wassily Kandinsky, Do Espiritual na Arte

Se desde já começássemos a destruir completamente nossa ligação com a natureza, a nos orientar violentamente para a liberação, e a nos contentarmos exclusivamente com a combinação da cor pura e da forma independente, criaríamos obras que seriam ornamentos geométricos e que se pareceriam, para falar cruamente, com gravatas e tapetes.

Wassily Kandinsky. Do espiritual na arte, 1909-1912. Em tradução indigente e pouquíssimo confiável de Über das Geistige in der Kunst. Insbesondere in der Malerei.

Há tempos tenho a intenção de começar aqui uma série de citações. São trechos curtos que vou encontrando em minhas leituras e que acredito merecerem aparecer isoladas ou destacadas. Não são trechos que já copiei antes, embora eu já tenha tido a intenção, logo frustrada, de transcrevê-las aqui outras vezes.

Não prometo comentar as citações. Seria melhor, eu sei, mas não só existem coisas que dispensam comentário, como é melhor colocar logo a citação na roda, do que esperar para comentar mais tarde e acabar não publicando jamais.

Quanto a esta citação de Kandinsky, ela é tanto mais curiosa quanto o pintor em questão é o “pai” da arte abstrata. Mais tarde ele dirá algo como: “o objeto estraga minhas telas”. Enfim, talvez a idéia de abstração não fosse assim tão unívoca na cabeça dele, como é hoje na nossa.

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