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Imagens que não fizeram história (2): Paz Celestial

Quem convive com fotojornalistas deve estar careca de saber que o principal fator para conseguir uma boa imagem é estar no lugar certo na hora certa, o que, para além do clichê (sem trocadilho), significa não ter medo de se meter num fogo cruzado, perder o equipamento por causa de água ou areia, ser assaltado, seqüestrado e tudo mais de horrível que possa acontecer a alguém. Robert Capa que o diga: esteve na Guerra Civil Espanhola, na Segunda Guerra Mundial, no conflito árabe-israelense, e foi acabar morrendo no Vietnã (então ainda conhecido como Indochina), ao pisar numa mina. E, no entanto, é por isso que ele é Robert Capa.

Maus fotojornalistas, e maus jornalistas em geral, são pessoas como essas que têm vindo à tona ultimamente: gente que inventa histórias ou relata eventos que não presenciou como se os tivesse presenciado. Mente, em suma, como fizeram Jayson Blair, Stephen Glass e Bill O’Reilly. Há correspondentes de guerra que não sabem o que é a guerra, porque passam seus dias na piscina do hotel, e acabam só reproduzindo, sobre um conflito qualquer, os relatos enviesados da narrativa oficial…

Mas viver, além de muito perigoso, também é um negócio altamente sarcástico. Nada impede que, vez por outra, o profissional sério, esforçado e digno acabe conseguindo uma reportagem – neste caso, uma foto – pior do que a dos acomodados que se escondem do fogo cruzado e passam seus dias repetindo os boletins de agências – ou, para atualizar um pouco a coisa, descrevendo o que se diz pelo Twitter.

outra foto de pequim

De certa forma, é o caso desta imagem, que andou circulando pela internet há alguns anos. Quando resolvi batizar esta pequena série de textos como “imagens que não fizeram história”, eu na verdade tinha em mente esta fotografia, mais do que a do tribunal de Nuremberg que publiquei em primeiro lugar (nem sei bem por quê). Este é o meu pequeno paradigma pessoal da imagem que tinha tudo para “fazer história”: foi tirada por alguém que fez tudo certo, estava onde deveria estar e quando tinha de estar, mostra um evento histórico, envolve um perigo terrível, capta o estado emocional do entorno… E, com tudo a seu favor para fazer história, não fez.

Verdade seja dita, do ponto de vista estritamente formal, não é lá uma fotografia muito boa. O olhar é imediatamente puxado para a única forma colorida, que, para piorar, ainda por cima está bem no centro do enquadramento: a escavadeira abandonada. Quem visse essa imagem numa página de jornal passaria adiante sem maiores preocupações. Só quando nos dedicamos a olhá-la um pouco mais demoradamente é que reparamos na sujeira da rua – a escavadeira deve ter sido abandonada às pressas – e nos outros indícios de que algo não vai bem: no primeiro plano, um jovem chinês corre em claro desespero. O outro corre de um jeito meio blasê e parece até estar sorrindo…

Depois desses primeiros elementos mais intrigantes, passamos a procurar o que causa o alvoroço do primeiro plano e só então olhamos bem para o fundo: vem vindo uma coluna de tanques. Talvez, no fim das contas, a escavadeira não tenha sido abandonada às pressas: pode ter sido colocada ali como obstáculo. E talvez, também, os dois rapazes do primeiro plano, o desabalado e o blasê, sejam militantes que, até um segundo atrás, estavam atirando pedras contra os tanques.

E é a coluna de tanques que comunica ao olhar que há algo mais que devemos procurar.

Mais uma vez: esta é uma imagem que não fez história. Mas pode participar dela por tabela. Para que finalmente possamos ver o misterioso rapaz das sacolas, que caminha para postar-se à frente da fileira de blindados ameaçadores, temos que ter na mente a referência de uma outra imagem. Sem isso, nunca seríamos capazes de afirmar o que está narrado por esse enquadramento.

Aí é que entra o sarcasmo de Clio, essa sacana que é musa da história. As imagens que efetivamente fizeram história durante o massacre da Praça Tiananmen, em Pequim – quero dizer, Beijing – em 1989, aquelas que mostram o rapaz barrando o caminho dos tanques, o vídeo que o acompanha quando sobe na lataria do primeiro e depois é retirado por outros transeuntes (seria o ciclista da nossa imagem?), essas que não preciso nem copiar aqui, porque todo mundo tem impregnadas na memória, a ponto de invocá-las de imediato, bastando que sejam mencionadas… foram todas feitas do balcão do hotel.

Em outras palavras, só conseguimos identificar o valor histórico desta imagem, ela só adquire sua carga afetiva e seu sentido político pleno, quando e porque ela remete aos ícones produzidos por gente que não cumpriu sua tarefa tão diligentemente quanto nosso autor. O trabalho do bom fotojornalista, neste caso, ficou na dependência do produto dos que, naquele dia em particular, não trabalharam tão bem.

Não me entenda mal: não estou dizendo que os demais fotógrafos e cinegrafistas estavam descansando no hotel, no lugar de fazer seu trabalho. Na verdade, as autoridades chinesas tinham confinado toda a imprensa estrangeira no hotel – ou pelo menos é o que diz o relato de Stuart Franklin, da Magnum. Pelo visto, só quem conseguiu escapar foi Terril Jones, o que, em qualquer outra circunstância, teria sido a consagração da carreira do fotojornalista. Mas Clio estava de muito bom humor naquele dia sangrento de junho. A foto de Stuart Franklin, e mais quatro ou cinco tiradas de um ângulo quase idêntico, se tornaram icônicas e pelo menos uma delas está em qualquer compêndio das imagens que fizeram a história do século XX. A sequência em vídeo, então, nem se fale. Já a de Terril Jones não foi nem escolhida pelo editor, no dia seguinte.

Em compensação, precisamente pelo fato de remeter àquelas outras imagens, esta aqui passa a ser fabulosamente interessante. Chega a ser delicioso ficar observando o intervalo entre uma e outra das imagens, reconhecer que algo estava acontecendo antes que acontecesse o que aconteceu… Pensar que aquelas compras eram mesmo compras, efetivamente destinadas à geladeira de alguém, e não o mero penduricalho de um personagem histórico, desses que se tornam personagens históricos casualmente. Dar-se conta de que o trânsito foi interrompido – aquela escavadeira foi, afinal de contas, posta ali para tentar atrasar a passagem dos tanques ou havia de fato uma obra? Se havia uma obra, seria um dos dois rapazes do primeiro plano o operador da máquina, que tentava escapar? Se eram militantes, foram massacrados também, mais tarde, junto com tantos de seus compatriotas? O ciclista é uma das pessoas que remove o desconhecido das compras, ao final? Para onde ele ia, quando foi interrompido pelos eventos? E assim por diante.

Terril Jones, que trabalhava para a Associated Press na época, conta que conseguiu tirar o clichê, sem nem sequer a oportunidade de armar a máquina devidamente, minutos antes de ser recolhido para dentro do hotel pelas autoridades chinesas, como seus colegas de profissão. Dentro do quarto, escondeu o filme num duto de ventilação, temendo que fosse confiscado pelas autoridades do Partido Comunista. Ele diz também que, ao longo dos anos, chegou a se esquecer da fotografia, porque “o mundo já tinha visto o melhor ângulo dessa cena”.

Pois sim. Mas, como podemos perceber, imagem nenhuma no mundo existe sozinha. Uma imagem isolada, se tem alguma força, é a força do dogma; a verdadeira energia da imagem é aquela que atravessa o quadro e se agarra às inclinações e aos esquemas de quem, de alguma maneira, se envolve com ela. É uma energia que passa de imagem em imagem e as amarra, como o cordão de um colar de contas.

A foto de Terril Jones enfraquece o caráter dogmático daquelas recolhidas no balcão do hotel, mas em compensação ajuda a reinseri-las na rede que vai das obras-primas de Capa na Espanha até os horrores de Gaza, e muito além. É por isso que, sem ter feito história e traído pela malícia de Clio, ainda assim essa estranha fotografia tem um poder. É o poder de trazer a tempo presente a miríade de massacres, bombardeios e resistências que merece esse nome tão trivial de “história”. Se as outras imagens fazem o interesse destas, esta retribui fazendo a história das outras imagens.

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Um comentário sobre “Imagens que não fizeram história (2): Paz Celestial

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