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O Inconcebível

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“Colapso”. Nossas conversas do dia-a-dia, aquelas do bar, da calçada, do elevador, ganharam agora uma nova palavra, um novo clichê. Colapso, como quando as fundações de um prédio se rompem e ele cai, ou quando um sistema complexo se revela mal planejado e ele entra em parafuso. Ou quando a defesa de algum time bate cabeça e toma uma goleada.

Dizemos assim: daqui a pouco a água acaba em São Paulo e a cidade vai entrar em colapso. Às vezes avançamos no raciocínio, citando que a estiagem veio para ficar, por causa da mudança climática e do desmatamento – afinal, já faz anos que tem chovido paulatinamente menos. Então toda a economia do Sudeste vai entrar em colapso: sem chuvas e com tanto calor, as hidrelétricas não agüentam.

Ocasionalmente, tendo mencionado o clima, o pensamento continua avançando e dizemos: se não fizerem algo, o mundo todo é que vai entrar em colapso. E, de fato, é pequena a probabilidade de “fazerem” alguma coisa, uma vez que, vivendo de abstrações, a humanidade, essa que poderia fazer alguma coisa, passou as últimas décadas espoliando o planeta. No máximo, dá para contar com alguns arranjos perfeitamente dribláveis por quem tem imaginação – coisa que não falta aos empreendedores mundo afora.

Às Últimas Conseqüências

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Esse termo, “colapso”, merece um olhar mais atento. Escutando suas três sílabas, percebo que saímos pronunciando a palavra de modo um pouco leviano, como diria o senador Neves. Quantas vezes não afirmei por aí, para puxar papo com um vizinho ou o porteiro, que “o colapso” está ficando cada vez mais provável? Mas será que eu consigo imaginar o que essa expressão implica realmente? Será que sou capaz de representar na minha cabeça o que é o tal colapso? Acho que não.

Há algo de flutuante nessa noção. No meio de um monte de informações clara e distintamente conectadas sobre o futuro funesto que nos aguarda, vai flutuando essa palavra de tonalidade dramática, sem que a fixemos, de fato, no discurso. Pelos jornais, acompanhamos as negociações de líderes políticos em busca de acordos que “contenham” o aquecimento global em 2oC, nível considerado, sem grandes explicações, ainda “tolerável”… embora trágico. Recebemos periodicamente a notícia de gigantescos desastres ambientais no Caribe e nas Filipinas, ficamos tristes com elas e nos solidarizamos. Sabemos também que agricultores de países inteiros estão quebrando e isso nos preocupa, ainda mais quando somos informados de que a população de abelhas está minguando e, sem elas, não tem polinização. Tudo isso nos faz lembrar de Mad Max, The Day After e outros filmes-catástrofe.

Ainda assim, somos incapazes de formar na cabeça um quadro coerente do que todas essas informações querem nos dizer. Simplesmente não conseguimos conceber a noção do colapso. Não dispomos de uma matriz conceitual capaz de representar o momento em que se oferece a nós a evidência de que nosso mundo, ou seja, o campo de referências e sentidos em que vamos tocando nossa vida, estará compromentido – e definitivamente.

Certa vez, um sujeito que entrevistei me disse que, dentro de alguns anos, o negacionismo não vai mais existir. Se alguém, no bar, soltar que não tem essa de mudança climática causada pela nossa digníssima espécie, levará um soco na certa. Na hora, não perguntei, mas depois fiquei pensando: dentro de quantos anos? O que vai ter que acontecer no mundo, acontecer conosco, para que cheguemos a isso? Levando a sério o uso da palavra “colapso” aplicada ao planeta e à vida que levamos nele, será que esse soco poderá mesmo acontecer? Será que ainda existirão bares para isso?

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Antes de mais nada, é bom citar que o grande risco que existe concretamente é o chamado “runaway global warming”, um aquecimento global que sai completamente de controle. Isso seria causado sobretudo pela emissão do metano contido debaixo do gelo permanente siberiano. Se esse gás for parar na atmosfera, dizem os cientistas que o efeito estufa será muito mais poderoso do que foi até hoje, com conseqüências imprevisíveis. Suponhamos que isso aconteça (sem querer ser mais passimista do que já fui, há sinais de que possa estar acontecendo), aí o termo “colapso” se torna incontornável. Nesse caso, é bom saber o que ele carrega!

Mas, para tanto, é preciso radicalizar a linguagem, levar às últimas conseqüências o significado das expressões que empregamos. É preciso preencher de sentido esse “colapso” de que estamos falando. É preciso se entregar a um aterrorizador exercício mental, em que cada efeito da mudança climática e do esgotamento das capacidades do planeta é levado ao seu paroxismo… ao colapso. Exercício interessante, esse. Mas exige um sangue-frio que eu, pelo menos, ainda não atingi.

Nós, Modernos

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O que exatamente entraria nesse “colapso” de que tanto falamos? Para ser um colapso de verdade, tem que ser mais do que uma falta de luz, mais do que um racionamento de água, mais do que uma série de temporais, nevascas, furacões, enchentes e secas. Um colapso envolve a ruína de um grande complexo de convicções, pontos de referência, sentidos aceitos de antemão, objetos do quotidiano. Um colapso envolve a impossibilidade de contemplar o futuro com base no presente, a insegurança sobre o dia seguinte, a indistinção entre ter esperança e fantasiar, pura e simplesmente, como um desvairado. Senão, é crise, mas não chega a ser colapso.

Para nós, modernos, industriais, urbanos, consumistas, financeirizados, hiper-conectados, que vivemos no tempo real e em escala global, será que um colapso significaria perder a modernidade, a escala industrial, a vida urbana, o poder de consumo, as transações financeiras, a conexão constante? Significaria um tempo diferente e uma escala reduzida? Nem sabemos mais que cara isso tem. Digo tudo isso, mas, honestamente, isso não entra na minha cabeça.

Será que em alguma parte há alguém que consiga imaginar (e não digo nem “entender”) a que ponto nosso jeito de viver está ameaçado? Acho que não. Note-se a avidez com que os maiores ativistas acompanham as discussões nas COPs, em torno de conceitos tíbios como “responsabilidades” e “capacidades”, na tentativa de resguardar, aí sim, as condições de possibilidade do sagrado crescimento econômico. Sobretudo no outrora “terceiro” mundo, logo agora que ele vai enfim puxando milhões de seus cidadãos para fora da miséria, o que hoje não significa muito além de consumo, paradoxalmente.

Crescimento este, como se sabe, medido pelo PIB: quantidade vezes produto, explicitado e ponderado pelo preço. Em outras palavras, estamos produzindo demais e destruindo o planeta, então buscamos um modo de continuar a produzir mais, sob o manto da luta para salvar o planeta. Equação difícil de fechar, essa. O mais longe que conseguimos chegar até agora foi a idéia de pagar pelos “serviços ambientais” de quem é proprietário de terras mas tem a gentileza de não derrubar suas matas. Um grande avanço.

Falando especificamente da crise brasileira, aproveitamos a oportunidade para queimar o filme dos políticos que desprezamos, como Alckmin, com seu desempenho efetivamente ridículo perante o governo de São Paulo, ou Dilma, que meteu os pés violentamente pelas mãos em muitos campos. Ou ambos, de preferência.

Mas enquanto lançamos impropérios contra os que nos governam, enquanto fazemos piada com o desamparo da nossa situação, enquanto torcemos pelo avanço da “sustentabilidade” (e essa palavra começa a soar tão anêmica…), ainda contamos com as gôndolas preenchidas no mercado, com o livre poder de tomar o carro para visitar a família no interior, com a televisão que nos distrai, com o Twitter onde podemos “xingar muito”. Ainda pensamos no plano de aposentadoria, lemos notícias sobre “as profissões do futuro”, planejamos as férias e nos preocupamos com o desempenho do PIB, dos juros, da inflação, do emprego.

Todas essas coisas são importantes, claro, mas se estamos dispostos a usar o termo “colapso”, como podemos ignorar que sob um verdadeiro colapso elas todas perdem sentido, valor e vigência? É que falamos em colapso sem saber o que ele quer dizer.

O “Meme” e o Ar Condicionado

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Olhando pelas janelas do apartamento, posso ver umas dez piscinas de prédios (algumas em coberturas, também). Estiveram cheias de gente em janeiro. Ninguém agüenta a estufa em que se transformou a cidade. A criançada corre, pula, mergulha. Os pais se aliviam do calor nos chuveiros ou nos degraus mergulhados. Piscinas que, neste momento de penúria, deveriam estar vazias ou transmutadas em cisternas. Fico me perguntando quantos desses vizinhos são negacionistas, quantos são ambientalistas, quantos não são nem uma coisa, nem a outra. Quantos falam em colapso nas conversas de elevador?

Também tem as piadas sobre o calor, que são muito boas e me fazem rir. Na imagem, um casal em plenas preliminares; a mulher pede ao homem para dizer “alguma coisa quente” e ele responde: “Bangu!”, ou “Teresina!”, ou outra fornalha Brasil afora. Na versão reinterpretada da capa do Wish You Were Here, disco do Pink Floyd, o sujeito de terno que cumprimenta o camarada em chamas pergunta de onde ele vem. Mesma coisa na resposta: “Rio de Janeiro”, “Salvador”, “Cuiabá”. Em mais uma imagem dessas, somos informados de que Deus esqueceu o Rio no forno enquanto via televisão. Em mais outra, um homem abre a janela para dar bom dia ao sol e recebe em retribuição uma lufada de fogo.

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Vemos esses memes, postados em tempo real de lugares às vezes muito distantes, nas telas que temos em nossos escritórios, quartos ou salas. Onde os aparelhos de ar-condicionado estão ligados à toda. Ou os ventiladores, segundo a preferência. Dizem que tem gente por aí colocando piscina de bebê na sala para assistir TV: um sofá dos tempos esturricantes.

Na outra ponta, assustados com a insalubridade do volume morto, paulistanos compram água engarrafada, dita mineral. Será que eles sabem de onde essa água vem? (Uma das marcas sei que vem do Brooklyn, Zona Sul. Deve ser uma maravilha de água.) Será que sabem o que acontece com a embalagem depois de vazia? Será que sabem quanto emitem os caminhões que a trazem para a cidade? Será que falam de “colapso” nas conversas de bar? Será que páram para pensar na palavra que estão usando?

O ar condicionado, como bem lembra o Catatau, gera para fora da sala resfriada o mesmo calor do qual isola um interior, aumentando o diferencial de temperatura e o problema que supostamente veio combater. Como as crises financeiras, a crise climática envolve a socialização das perdas e a privatização dos ganhos, correlativa de um diferencial de poderes. Mas, como no caso financeiro, isso não pode ser feito ad aeternum e, no limite, leva ao… colapso. O ar condicionado é emblemático porque, ao mesmo tempo em que nos alivia, nos engana em diversas frentes. Se o ar está mesmo mais seco do que costumava ser, o funcionamento das maquininhas vai ser cada vez mais dificultado e o ar insalubre que produz (lamento informar) vai ficar ainda mais irrespirável.

Além disso, o ar condicionado, como o ventilador, puxa energia elétrica, que hoje vem de hidrelétricas ou termelétricas. Se vem de hidrelétricas, azar: sem chuva, pode faltar luz e o aparelho vai deixar o dono na mão, com calor, com sede e mergulhado na escuridão. Já a termelétrica polui, contribuindo para gerar o calor que seca represas e exige ar condicionado…

Tudo isso em cidades inchadas, desmatadas, dominadas por lajes de concreto que se comportam como frigideiras e superfícies de asfalto que retêm calor. Ao mesmo tempo, dentro dos escritórios, a potência do ar condicionado é tamanha que algumas pessoas precisam ter sempre um agasalho na gaveta. Mas quando falta luz, no meio do verão, como manter as condições de sobrevivência dentro dos edifícios de escritórios? Se vier o apagão, o que não vai faltar é empresa “entrando em colapso”…

Seção Técnico-Metafísica

(se não tiver saco para isso, pode pular)

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Esses são só alguns exemplos de como nossa sobrevivência e nosso quotidiano são inteiramente dependentes de múltiplos sistemas técnicos interligados, aliás cada vez mais interligados. Acontece que só enxergamos uma parte desses sistemas e um quase nada dessas interligações. Ademais, pensamos neles como sendo “nosso mundo”, esquecendo tanto da nossa relação de constituição recíproca com eles quanto do fato de que eles, ao dar forma e sentido a tudo com que nos relacionamos, também mascaram essa relação.

Uma das raízes do problema – tanto da nossa incapacidade de formular mentalmente o que é o colapso de que tanto falamos, quanto da impotência para transformar as condições de vida que nos levaram a essa encruzilhada – é que ainda não ficou claro para nós como a existência humana é técnica de cabo a rabo. Nada do que fazemos vem ao mundo sem uma elaboração que o torne algo diferente do imediatamente somático ou psíquico. Mesmo nossos caprichos, nossos apetites, nossas taras, só aparecem ao tomar forma, ou seja, ao adquirir sentido. Isso vale até para a nossa relação com o próprio corpo, que depende daquilo que aprendemos sobre ele ao longo da vida e dos imperativos e interditos que mediam a apreensão e o sentido de nossa própria experiência interna.

É um problema de alienação: pensamos que está fora e distante de nós algo que nos atravessa, cuja existência consiste em ser a manifestação visível e concebível do que nós somos. Porque, fundamentalmente, é fazendo nosso mundo que nos fazemos: não existimos antes de fazer o mundo nem simplesmente nos adaptamos a ele. O que nós somos é o gesto pelo qual nos fazemos, fazendo nosso mundo. Se não entendemos isso, se pensamos nossa ação sobre o mundo e a ação do mundo sobre nós como algo que está fora, acima (oprimindo) ou abaixo (escravizado) de nós, entendemos errado nossa posição e nossa situação. Estamos alienados de nós, de nossa ação, da técnica.

Os sistemas técnicos se encaixam uns nos outros e se hierarquizam, como, de resto, todas as grandes estruturas que orientam a existência humana (linguagem, leis, economia, mitos). Então não é completamente absurdo que nos tenhamos alienado de nossa própria constituição no mundo. É lamentável, mas reversível, que tenhamos subordinado nossa existência repleta de subjetividade criada e criativa a um sistema de valores abstratos (abstraídos), mas que agem sobre justamente essa subjetividade.

Precisamos entender que existe um abismo entre o que os sistemas técnicos são enquanto tais, ou seja, enquanto modos do que entendemos por subjetividade humana, e esses mesmos sistemas enquanto investimentos empatados, fontes de receita, sinais de desenvolvimento ou coisa que o valha. Na sua tecnicidade, ou seja, como modos de subjetividade, os objetos e sistemas técnicos dialogam com o mundo físico (a natureza, digamos), a realidade psicossomática, as configurações socioculturais. Enquanto intermediários para uma racionalidade financeira de auto-valorização, os mesmos objetos e sistemas se furtam a esse diálogo, enxergando na natureza, nos corpos, na cognição, na realidade sociocultural, um repositório de matéria-prima, de insumos, um campo sempre aberto a explorar e ressignificar.

Assim, se pudéssemos pensar no poder da criação (obrigado pela expressão, João Nogueira), do artifício, da técnica, não dessa maneira alienada, e sim como a tarefa fundamental do constituir-se como humano, reinterpretando e reconstituindo o papel da tecnicidade na comunicação entre as necessidades da vida humana e o espaço de sua constituição psicossomática, poderíamos pensar não apenas o próprio colapso (concebê-lo enfim), mas inventar suas alternativas: criar novas rotas. Digo que poderíamos conceber finalmente o sentido do colapso porque teríamos diante dos olhos as rachaduras do edifício, nosso edifício, antes de sua ruína definitiva. E poderíamos inventar as alternativas porque viveríamos mais de perto nossas próprias faculdades de criação de modos de existência: nossa própria tecnicidade. Cortaríamos assim a corrente que nos aliena.

A Vertigem das Conexões

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Um dos efeitos da sistematicidade dos modos de vida é a quase impossibilidade de sair deles sem romper com a lógica inerente a sua reprodução. Individualmente, até que nem tanto: é só “bem difícil”, mas há sempre aquele que vai viver nas montanhas ou compra um sítio sei lá onde para produzir alimentos orgânicos e escapar “dessa loucura toda”.

Coletivamente, a conversa é bem diferente. Os bares do meu bairro, por exemplo, estão economizando água de um jeito romanticamente ineficaz: usam copos, pratos e talheres de plástico, descartáveis. (E tem cliente que torce o nariz.) É claro que essa estratégia, além de representar um custo a mais para os donos do estabelecimento, só transfere o problema adiante: água e energia são abundantemente usados na fabricação desses talheres, e depois também na sua reciclagem – quando são reciclados; quando não são, levam milênios para se degradarem. Até lá, são apenas lixo, demasiadamente lixo.

Mas que remédio? Os bares poderiam, por acaso, simplesmente fechar? E o IPTU? E os salários? E as prestações do banco? E os fornecedores? Eles não vão desaparecer só porque já entendemos que, no horizonte, vai despontando um desastre, uma catástrofe, um colapso. Para que desapareçam, é preciso que o colapso aconteça primeiro: grande parte do colapso consiste, justamente, no desaparecimento de todas essas coisas, de todos os sistemas que nos mantiveram vivendo como vivemos até hoje.

É vertiginoso. Posso enumerar, mas será que consigo imaginar? Tantas coisas dependuradas umas nas outras, acima do abismo: a renda de cada família depende de quem a emprega – governo ou setor privado – ou de algum negócio que ela tenha. O consumo depende das cadeias logísticas. O setor produtivo depende de insumos e da previsão de um mercado. A receita do setor produtivo depende do consumo. Dessa receita saem os salários. O setor financeiro, que financia o setor público e o produtivo, depende dos depósitos e dos juros. O setor público depende dos impostos e de empréstimos do setor financeiro, além do trabalho de seus funcionários.

A maior parte do consumo e do trabalho se dá nas cidades e usa a infraestrutura urbana, portanto. A infraestrutura urbana é dependente do fornecimento de energia, água e gás, além do bom funcionamento das cadeias logísticas de alimentos e outros bens de consumo. Tudo isso é regulado pelos empregados do setor produtivo e pelos funcionários do setor público, que, por mais que regulem, não deixam de ser dependentes do bom funcionamento de cada um desses itens. (Para não falar no setor externo, nas questões de defesa, no controle de epidemias, na rede hospitalar, em grupos paralegais à espreita, em mercados negros…)

A vida que levamos é um nódulo minúsculo dessa rede infinitamente intricada. E todos sabemos disso muito bem. Mas então o que queremos dizer quando falamos em colapso? Qual é o elo que se quebra e, ao se quebrar, até onde vai essa reação em cascata? Quão parecido seria, ou será, um colapso desses com outros colapsos que já vivenciamos na história: hiperinflações, guerras, epidemias?

A hiperinflação, com todo o sofrimento que provoca, é “só” um desarranjo no sistema de preços: o “substrato natural” (digamos assim) do mundo continua o mesmo. A guerra, mesmo a mais genocida, “só” destrói enquanto não há armistício, e depois é a reconstrução, por mais traumática, porque o “substrato natural” está razoavelmente intocado – a exceção teria sido uma guerra nuclear em plena escala, mas isso não aconteceu, felizmente, a não ser no cinema; um aperitivo do horror que guerras podem realizar está em Hiroshima; outro está nos campos de batalha da Primeira Guerra Mundial; outro ainda, no Afeganistão. Muitos, muitíssimos, estão na África. Quanto à epidemia, ela “só” dizima populações, mas depois vem a cura, há sobreviventes, ajuda externa, a lenta retomada da vida normal; afinal, o “substrato natural” segue impávido, talvez até aliviado de sua carga excessiva de seres humanos.

Por três vezes, usei aspas mas usei a palavra “só” para descrever coisas das mais horríveis. É que nada disso chega a inviabilizar um modo de viver, nem provoca um efeito-cascata completamente imprevisível, nem se situa bem além de nossa capacidade vocabular e representativa. Nada disso é “inconcebível”. Os efeitos de uma transformação radical da composição química da atmosfera (com o metano que escapa da Sibéria, por exemplo), de uma extinção em massa, da acidificação dos oceanos, da contaminação generalizada do solo e dos aquíferos, da subida de nível dos oceanos, da transformação súbita dos regimes de chuva, isso sim é inconcebível.

Para Encerrar

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Agora talvez fosse a hora de me desculpar pelo tom que pende ao apocalíptico – mas, afinal de contas, eu avisei que este seria um exercício mental sobre o aspecto real e visível de um colapso. Talvez eu também devesse me retratar por ter afirmado que o colapso é inconcebível para nós em nossa presente configuração mental, sem em seguida oferecer pelo menos uma leve sugestão do que poderia vir a ser uma concepção desse colapso. Pelo menos, fui fiel à afirmação de que não posso conceber todos os elos que se quebrariam na corrente que inventamos para viver. E não posso mesmo.

Mas pelo menos sugeri que tanto a imaginação do que nos espera quanto a invenção de alternativas passa por uma ampliação extraordinária da idéia que fazemos sobre o que constitui esse “nós” e o que esse “nós” é capaz de fazer. No parágrafo sobre a técnica, que provavelmente você pulou, segundo minha própria sugestão, eu afirmei a capacidade humana de considerar e conceber o que significa nossa realidade, contanto que sejamos capazes de desarmar aquilo que nos aliena.

Ora, neste momento, o que nos aliena é uma verdadeira bomba-relógio: alteração aceleradíssima da composição química da atmosfera, rompimento das cadeias alimentares biológicas das quais acreditamos equivocadamente poder nos libertar, submersão das potências físicas e psíquicas a uma matemática dos débitos recíprocos e dos juros, tendente ao infinito e que poderá terminar de duas maneiras apenas: revogação extensa ou desagregação social – sem falar nos reflexos sobre o mundo natural.

É hora de reinterpretarmos nosso modo de existência técnico: da invenção, da produção, do artifício, do símbolo, da imagem, da linguagem. Abandonar tolices como o “domínio do homem sobre a natureza” e entender toda ação criadora, ou seja, toda ação técnica, como diálogo com o mundo, o que também significa a invenção de um mundo em que o natural e o artificial são compatíveis – no sentido de que seriam ambos constituintes de uma subjetividade comum (para usar a linguagem de Simondon: o transindividual).

Já passou da hora de recuperarmos a amplitude dos modos de vida possíveis para o humano, para além das platitudes sobre a “natureza humana” que seria mesquinha, individualista, acumuladora, predatória (cancerígena, para ser bem claro): tudo isso não passa da construção de um arquétipo do humano que se adequa muito especificamente a um mundo pretensamente “do humano”, a uma sociedade, a uma civilização, que detém todas essas características. Civilização esta que está fundada sobre um delírio financeiro, composto de abstrações algorítmicas cujo maior poder é velar a relação fundamental com o mundo, hipostasiando-se como código definitivo do real vivido e “vivível”: daí a noção tão disseminada dos mercados globais como alicerce da vida contemporânea.

De tudo isso, só posso torcer para que o esforço de conceber essa figura do colapso, já que começamos a empregar a palavra com razoável freqüência, sirva como catalizador para um processo que culmine nessa expansão da imaginação, no reaproveitamento dos potenciais inventivos do humano, num entendimento de nossa tecnicidade que seja muito mais completo, equilibrado e apropriado. Para terminar numa nota positiva (depois de tanto negativismo…), posso dizer que essa, sim, é uma possibilidade que me deixa um pouco mais esperançoso.

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3 comentários sobre “O Inconcebível

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