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Da série Citações: Aldous Huxley para George Orwell

Há algum tempo, circulou pela internet uma comparação entre as previsões distópicas desses dois autores, Huxley em Admirável Mundo Novo (de 1932) e Orwell em 1984 (de 1949). A conclusão era de que o universo previsto por Huxley era mais parecido com o mundo como ele é hoje do que o imaginado por Orwell.

No mundo de Huxley, a sedução, a hipnose e o prazer (em suma, a alienação) seriam os elementos nodais da dominação totalitária definitiva. No de Orwell, seriam a vigilância, o controle, o pavor. A diferença de datas de publicação não deixa de carregar uma parte da explicação para tamanha disparidade. Ao escrever, Huxley acompanhava o desmoronamento dos anos loucos anteriores à Grande Depressão, era do Fox Trot e dos americanos em Paris. Já Orwell, ao escrever, acabava de saber da existência de Auschwitz. Atroz seria escrever um livro depois de Auschwitz, a não ser que fosse 1984?

Na comparação que rodou a rede, o consumismo, a indústria cultural e a maior parte da internet eram apresentados como demonstrações do acerto de Huxley. Esse lance de terror, opressão e vigilância tinha ficado para trás, derrotado em Stalingrado e na Normandia.

Aí veio Obama, o homem dos drones e do Prism, o Bush de fala macia. E embaralhou tudo de novo. Minha tentação é dizer: ambos previram bem, mas parcialmente. Fazendo rodopiar incestuosamente a opressão e a sedução, o baile está garantido para o dominador.

E no meio disso tudo, encontro a carta que vai aí abaixo. No lançamento de 1984, Orwell pediu ao editor que mandasse um exemplar do livro para seu outrora professor de francês, Aldous Huxley. E Huxley respondeu. É interessante aprender de onde ele tirou a referência de sua sociedade da sedução, do Soma, do hedonismo Ikea. No mínimo uma curiosidade, enfim.

Wrightwood. Cal. 21 October, 1949

Dear Mr. Orwell,

It was very kind of you to tell your publishers to send me a copy of your book. It arrived as I was in the midst of a piece of work that required much reading and consulting of references; and since poor sight makes it necessary for me to ration my reading, I had to wait a long time before being able to embark on Nineteen Eighty-Four.

Agreeing with all that the critics have written of it, I need not tell you, yet once more, how fine and how profoundly important the book is. May I speak instead of the thing with which the book deals — the ultimate revolution? The first hints of a philosophy of the ultimate revolution — the revolution which lies beyond politics and economics, and which aims at total subversion of the individual’s psychology and physiology — are to be found in the Marquis de Sade, who regarded himself as the continuator, the consummator, of Robespierre and Babeuf. The philosophy of the ruling minority in Nineteen Eighty-Four is a sadism which has been carried to its logical conclusion by going beyond sex and denying it. Whether in actual fact the policy of the boot-on-the-face can go on indefinitely seems doubtful. My own belief is that the ruling oligarchy will find less arduous and wasteful ways of governing and of satisfying its lust for power, and these ways will resemble those which I described in Brave New World. I have had occasion recently to look into the history of animal magnetism and hypnotism, and have been greatly struck by the way in which, for a hundred and fifty years, the world has refused to take serious cognizance of the discoveries of Mesmer, Braid, Esdaile, and the rest.

Partly because of the prevailing materialism and partly because of prevailing respectability, nineteenth-century philosophers and men of science were not willing to investigate the odder facts of psychology for practical men, such as politicians, soldiers and policemen, to apply in the field of government. Thanks to the voluntary ignorance of our fathers, the advent of the ultimate revolution was delayed for five or six generations. Another lucky accident was Freud’s inability to hypnotize successfully and his consequent disparagement of hypnotism. This delayed the general application of hypnotism to psychiatry for at least forty years. But now psycho-analysis is being combined with hypnosis; and hypnosis has been made easy and indefinitely extensible through the use of barbiturates, which induce a hypnoid and suggestible state in even the most recalcitrant subjects.

Within the next generation I believe that the world’s rulers will discover that infant conditioning and narco-hypnosis are more efficient, as instruments of government, than clubs and prisons, and that the lust for power can be just as completely satisfied by suggesting people into loving their servitude as by flogging and kicking them into obedience. In other words, I feel that the nightmare of Nineteen Eighty-Four is destined to modulate into the nightmare of a world having more resemblance to that which I imagined in Brave New World. The change will be brought about as a result of a felt need for increased efficiency. Meanwhile, of course, there may be a large scale biological and atomic war — in which case we shall have nightmares of other and scarcely imaginable kinds.

Thank you once again for the book.

Yours sincerely,
Aldous Huxley

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3 comentários sobre “Da série Citações: Aldous Huxley para George Orwell

  1. Manoel Galdino disse:

    Achei curioso você mencionar o holocausto, mas não o stalinismo, como referência pra 1984.
    Eu li Admirável mundo novo quando tinha uns 17 anos. 1984, quando tinha uns 27. Lembro de ter sido fortemente impactado pelo livro do Huxley, mas não lembro de que a dominação viria pelo prazer e pelo sexo (culpa dos hormôniocs, talvez, que não me fariam ver o sexo como fonte de dominação?). Não me parecia que o soma fosse prazeroso como um orgasmo. Minha memória é mais de algo como essas drogas anti-depressivas de hoje e para crianças com déficit de atenção.

    De todo modo, o que queria falar mesmo é que minha leitura de 1984 é que o ponto central, ou pelo menos, o ponto que funciona melhor no mundo de hoje, é sobre a ideologia. Enfim, o duplipensar e a novilíngua. O terror e a força são menos importantes no livro do que o duplipensar e a novilíngua. E, se fosse arriscar, diria que a novilíngua e o diplipensar são mais pervasivos que o soma.

    Há um texto meu no blog sobre o duplipensar. Pode interessar.
    http://prafalardecoisas.wordpress.com/2011/03/03/hegemonia-em-1984-o-duplipensar-ideologia-e-a-teologia-materialista-de-pascal/

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    • Diego Viana disse:

      Maceió, quem falou em orgasmo? Cê que tá com isso na cabeça… Minha referência pro Soma é mais ou menos a mesma que a sua, mas também tem os nootrópicos, os ansiolíticos, o neuromarketing e o cacete a quatro. Há outros prazeres além do orgasmo, brother… 🙂

      Sobre nazismo/stalinismo: é que 1984 foi escrito mesmo sob o impacto do nazismo, embora contenha muitos elementos do modo Stalin de dominar. Não se esqueça que o que houve de pior na União Soviética só chegou aos ouvidos ocidentais a partir de Kruschev.Aliás, a União Soviética e o stalinismo foram mais diretamente retratados em Animal Farm. Veja este link também muito interessante: (http://www.nybooks.com/articles/archives/2013/jul/11/animal-farm-what-orwell-really-meant/)

      Concordo com o peso da questão da ideologia, mas tem dois detalhes importantes: 1) logo no começo do livro, o que aparece como indispensável é a “teletela”. Algo que está em todos os cantos (por que não até nos olhos?) recolhendo informações sobre o que você faz e deixa de fazer… 2) O que faz o duplipensar e a novilíngua tão penetrantes no livro é que eles tratam de repetição e automatização. (Tema pra outro post.) Não é a formulação de uma ideologia no sentido do marxismo, por exemplo, até porque a ideologia de 1984 é necessariamente desprovida de conteúdo. Você consegue imaginar “1984istas” marginais, um Benjamin ou Brecht da vida?

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