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Duas, três, muitas escolas Friedenreich

Estou com a impressão de que o campo de batalha decisivo para o levante social das últimas semanas será o Rio de Janeiro. O rumo que os eventos tomaram me sugere que o caminho que o país vai querer traçar para si próprio não vai ser tanto o fruto de deputados que passam duas ou três madrugadas votando coisas às pressas, mas o embate entre a vontade da guerra e o sonho de vida entre cariocas. Na antiga capital está em jogo e, de certa forma, tem estado há alguns anos, aquilo que me parece mais central e fecundo nas agitações pelo país, ainda que a gota d’água tenha sido derramada em São Paulo, naquela assustadora quinta-feira. Falo da violência com que se reproduz quotidianamente o abismo social do país. E também, sem dúvida, do próprio abismo.

Vi por esses dias alguém comentando como era impressionante ver, ao mesmo tempo, o complexo da Maré se erguendo contra a brutalidade policial, depois da chacina da madrugada; os estudantes se reunindo no Centro (sede do IFCS) com movimentos sociais; manifestantes pressionando diretamente o governador, mesmo com relatos de ameaças de morte; instrumentos de mobilização recém-surgidos conseguindo aprovar na câmara dos vereadores a CPI dos transportes públicos, a polícia e o governo deixando de lado qualquer civilidade no discurso e, para tomar emprestada a expressão do Sakamoto, perdendo o pudor do terrorismo de Estado.

O problema não se resume, é claro, à violência policial. Esta é a que se executa mais rapidamente. É a mais vistosa. Mas manter parcelas da população praticamente incomunicáveis, ou com uma comunicação regulada com rigor, é também uma violência, mais difícil de divisar, porém constante. Até mesmo quando o policial está em sua caserna, ela se exerce sem precisar dele. Ela se exerce, não esqueçamos, sobre ele. Até mesmo quando ele retorna para sua casa, provavelmente no lado menos privilegiado dessa clivagem (triste ironia), ela se exerce. Quanto ao abismo, aconteça o que acontecer, não vai desaparecer do dia para a noite. Mas se o grito de que ele não será mais suportado, nem por quem está do lado mais sortudo (no caso carioca, do túnel), reverberar e puder se tornar a centelha estruturante para uma nova forma de enxergar a cidade e o país, já terá sido um triunfo admirável.

Alguém disse, certo dia, que o Rio resume o Brasil, talvez por ter sido capital, não sei. Em todo caso, acho que tem sido uma verdade nas últimas semanas. A cidade onde a catástrofe nacional foi mais catastrófica, com a cisão completa, a violência endêmica, a corrupção privada e pública (deveríamos inventar o termo privúblico ou publivado para falar dessas coisas), a precariedade da vida, talvez seja por isso mesmo o ponto do país em que a raiva é mais intensa e o jogo seja mais sério. Sem querer desmerecer, é claro, as manifestações em tantas outras cidades, a começar por Salvador e Belo Horizonte (onde ontem a reitoria da UFMG se posicionou claramente contra a arbitrariedade da polícia). Por sinal, naquilo que consideramos positivo, acontece algo parecido: o Brasil é bonito, o Rio é “cidade maravilhosa”; o brasileiro é criativo, o carioca é malandro; o brasileiro é alegre, o carioca é gozador… E por aí vai. É o Rio da Escola Friedenreich, o Rio do Museu do Índio, o Rio do teleférico do Alemão e do Porto Maravilha…

Acontece que o Rio, por tudo que escrevi acima, está equilibrado em todas as nossas contradições que nem aquele funâmbulo de Nietzsche estava equilibrado entre o homem e o Übermensch. O que não falta à terra dos cariocas são diabinhos para agitar a corda e fazê-lo cair. Primeiro diabinho: o caveirão, com tudo que ele representa, e que a incrível disposição dos moradores da Maré acaba de conseguir expulsar de sua vizinhança. Segundo diabinho: as milícias, dando de comer, com colherinha, para tantos outros diabinhos: organizações de traficantes, máfias de transportes, esquemas com vereadores, muito dos quais se aproveitando da fé religiosa de seu eleitorado… Terceiro diabinho: a vontade de ver tudo isso se acabar de vez, da parte de poderes constituídos e monopolísticos, tanto na mídia (programada pra só dizer sim, sim?) quanto no mercado de outros sonhos, como petróleo, prédios espelhados e portos gigantescos. E outros tantos diabinhos. Os sujeitos que ocupam cargos eletivos? Rostos, apenas, e intercambiáveis.

O Rio é talvez a cidade brasileira mais dividida, ou pelo menos é a cidade brasileira que ficou conhecida por ser dividida, graças ao livro do Zuenir Ventura. A divisão urbana, faceta particular da divisão socioeconômica como um todo, está em outras cidades também, mesmo que não a vejamos. Na passeata de duas semanas atrás em São Paulo, ao passar pela avenida Juscelino Kubitschek, vi gente de todos os tipos espantado, se perguntando: mas existem prédios assim em São Paulo? – referindo-se a enormes blocos espelhados, escuros, gradeados. Existem, e seus freqüentadores te vêem como espécime de laboratório, amigo.

Se é verdade que nossa estrutura social está em transformação, então é natural que essa transformação seja mais violenta no Rio. Aqui, estou usando “violenta” no sentido de impetuosa, irrefreável… Isto é, irrefreável não, caso contrário não haveria reação. Mas há. Como no país inteiro, tem quem queira manter tudo no mesmo pé e vai reagir com mão muito pesada. Ou melhor, já reagiu. Pela primeira vez, vejo se erguer uma voz generalizada contra uma noite de mortes às dezenas. Chacina terá deixado de ser fait divers em jornal barato na cidade? A ver. Também é a primeira vez que vejo uma manifestação do lado de lá do túnel, como dizia Nelson Rodrigues, ser aplaudida do lado de cá. (Não estou de nenhum dos lados do túnel, estou a centenas de quilômetros de distância.)

Há quase três anos, escrevi aqui mesmo que algo estranho estava acontecendo no Rio: embora tudo estivesse praticamente no mesmo pé, as palavras paz e igualdade estavam entrando no vocabulário corrente até mesmo do poder público. Quando digo “corrente”, é para marcar a diferença com o plano do desejável, do sonho lindo, do discurso de campanha. Por um lado, a noção de uma polícia pacificadora, em qualquer contexto que não o brasileiro e o carioca em particular, seria, no mínimo, cara-de-pau. Afinal, a polícia, em tese, existe para garantir a paz, a ordem, a tranqüilidade (deixemos de lado a transformação das polícias do mundo todo em instâncias de exército urbano). A imagem do policial ideal é aquele guarda inglês que andava desarmado e, como diz Caetano Veloso, “seems so pleased to please you”. E pensar que, hoje, esses bebedores de cerveja quente metralham imigrantes brasileiros no metrô. O mundo está mudando e a guerra muda junto.

Voltemos ao Rio: deve ser o único lugar do mundo em que a introdução de uma polícia pacificadora (em paralelo às demais, que continuam plenamente na ativa) é uma novidade espantosa, a ponto de ser recebida com incredulidade. Está certo que o projeto começou poucos meses depois de um tiroteio gigantesco entre um malfadado helicóptero da polícia e bandidos que, com toda certeza, pagavam o “arrego” de outros policiais. Com o mesmo secretário de segurança, quero dizer… E que hoje, aliás, quer trazer o exército para conter o ódio do carioca, enquanto compra gás lacrimogêneo com o dobro da potência. Por sinal, não vamos esquecer que a introdução de uma “unidade” de polícia pacificadora deixa o caminho aberto para que a “pluralidade” das polícias continue barbarizando por aí, metralhando ruas de helicóptero (de novo!), por exemplo.

E não é que há três anos, quando o morro do Alemão foi tomado, o discurso era de paz, de integração da cidade partida, de reconhecimento dos direitos humanos daquela população até então largada?… Discurso mentiroso? Melhor dizer: falso. Não sei o que vai por dentro da cabeça de quem o proferiu. Ainda assim, estranhamente novo. Até então, a linguagem no Rio de Janeiro era sempre, a cada momento, a linguagem da guerra. Por que aqueles que sempre se pronunciam a partir de um cálculo político decidiram se apropriar de uma linguagem conciliatória, em vez de belicosa?

Seja como for, para alguém, na cidade, aquele discurso era verdadeiro. Já vinha sendo, muito antes de sua adoção política. E espero que continue sendo agora que a liderança política o abandonou, para que possa se impor contra a reação da barbárie institucionalizada. O jovem periférico, agora consumidor, quer ser mais do que consumidor. Ele se frustrará enquanto não for e está mais preparado do que ninguém para se bater por isso. Do outro lado, não são todos que torcem o nariz para os novos incorporados. Alguns querem, sim, viver numa cidade mais justa e nem precisam ser militantes para isso. Além disso, na última década, surgiram novos grupos para discutir a cidade, tanto na favela, como o Observatório das Favelas (fundado em 2001) e a Cufa (fundada em 1999), quanto no asfalto: OsteRio, Meu Rio, e agora a Casa Fluminense, auspiciosamente aberta em Santa Cruz, ou seja, longe dos salões da Zona Sul – isso não é insignificante, com certeza.

Uma reação em maior escala de quem não quer largar o osso, nem uma parte ínfima dele, é muito provável. Reação violenta, claro. Com mais mortes, até mesmo de manifestantes que normalmente só levariam bala de borracha, porque estão deste lado do túnel. Quem saberia dizer o que passa pela cabeça dos poderosos do Rio, que não têm se manifestado muito desde que o jogo virou? É por isso que me preocupa tanto, também o silêncio de todos os representantes do poder público, na esfera federal e em todas as demais cidades do país, sobre a brutalidade da polícia. A presidenta, por exemplo, propôs cinco medidas, ou melhor, pactos, e não soltou um pio sobre esse que é o segundo principal tema da agitação no Brasil, o primeiro sendo os transportes. Também é por isso que fico horrorizado com o fato de que até agora nenhum dos editorialistas que, em São Paulo, praticamente encomendou a repressão brutal, fez uma retratação. Por que tudo isso? O que tem de tão intocável na violência física corrente do Brasil?

No Rio, no momento em que escrevo, parece que tudo pode acontecer (o povo de Coimbra diz que lá é a cidade onde tudo pode acontecer, mas nada acontece. O Rio é o oposto: até o impossível e absurdo é uma possibilidade bem concreta). Pode haver um massacre generalizado, uma guerra, até mesmo uma conciliação. Podemos voltar quase ao estágio em que estávamos há três semanas, embora isso pareça bastante implausível. Pode haver intervenção, renovação das forças políticas, conflito entre os lados do túnel (é plausível). Seja o que for, será decisivo e, creio eu, determinante a nível nacional. Afinal, como reagiria o resto do país, se o governo fluminense fosse obrigado a se reformar para não cair? Por outro lado, como reagiria o Congresso, se o Rio se conflagrasse de vez? O que acontecerá com a pauta se a violência do Estado for alçada ao centro das atenções? Quanto fôlego não seria injetado nos movimentos sociais, de Altamira a Santa Maria, se a Maré conseguir punir a brutalidade?

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