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O pedestal

Este é alguém que fabricou para si um pedestal. É alguém que, na gramática usual, não pode grande coisa. É o estereótipo do impotente. No dia-a-dia, precisa fabricar ou garimpar tudo que usa, mas seus poderes terminam aí. E um pedestal não é algo que se use, simplesmente.

Era só uma caixa de concreto, guardando controles da rede de semáforos. Um cubo feio de doer, manchado de chuva. Algo que não deve nunca ser olhado. Foi pensado para não ser olhado. Alguém o colocou ali para que técnicos da CET regulem a abertura e o fechamento dos sinais.

É uma massa incorporada ao sistema da cidade. O terminal de um sistema técnico de funcionamento. Sua indigência estética se propõe a ser o espelho de sua função nesse sistema. Eis uma cidade cujo sistema deve ficar à maior distância possível da vida de quem reside nela e se serve dos benefícios de ter um tal sistema.

Então o sistema não tem pejo em espalhar suas caixas de concreto pelas ruas. Ninguém vai olhar, é uma forma angulosa entre formas angulosas. No meio de tantas, essa, na verdade, é irrelevante.

Eu nunca tinha visto. Só fui concluir que se tratava de uma caixa de serviço em retrospecto. Cheguei a imaginar que pudesse ser uma construção incompleta ou o pilar em ruínas da fábrica que um dia se ergueu ali.

Não estava lá e não era um pedestal. Nunca será o meu pedestal. Tomara que nunca seja. Nunca teria passado pela minha cabeça.

O homem está cabisbaixo. É a própria figura da derrota, do abandono, ali no meio de uma avenida sem nenhum vestígio de charme urbano. Lembra vagamente o Pensador de Rodin, mas esse último está fincado num jardim geometricamente calculado da Rue de Varenne.

Pessoas do mundo todo pagam para vê-lo em posição não muito diferente dessa que assumiu o personagem. Mas o Rodin não escolhe seu pedestal. Este homem, sim.

Aquele é o pensador. Este talvez já não consiga pensar com muita clareza… Que sei? É fácil diagnosticá-lo como insensato e desvairado, porque o lúcido não veria num pitoco de concreto um pedestal, menos ainda para si próprio. Mas o que isso faz de mim, que antes não via nada e agora enxergo ali um pedestal?

O homem, eu já disse, fabrica ou garimpa tudo que vai usar no dia-a-dia. Ele é, também, a própria figura da impotência. Ou da derrota. O homem é a representação acabada de uma falha no sistema. Seja falha sua perante o sistema ou falha do sistema em torno dele. Não é rigorosamente aquele mesmo outro sistema que usa o caixote de concreto para se regular, mas é mais ou menos.

O sistema que espalha por um território as pontas terminais de sua regulação é o mesmo que os finca nos canteiros centrais para que, ali, diante de todos, sejam invisíveis.

É um plano de invisibilidade que dispensa o subterrâneo até com algum esnobismo. Essa invisibilidade está disseminada por todos os recortes das superfícies em que o sistema está ativo. Os pitocos invisíveis, os quadros de fusíveis, as caixas de concreto, os ângulos irrelevantes, todos invisíveis, fora da gramática urbana daqueles a quem o sistema serve.

As superfícies de homens que fabricam e garimpam suas vidas, suas comidas, suas camas, suas casas. De homens que são a figura da impotência justamente porque fabricam tudo que usam: não podem conceder ao sistema que fabrique seus utensílios em troca de suor ou cascudos.

Mas este é (ainda assim) alguém que fabricou para si um pedestal. Tomou um ponto do sistema, tirou do plano do invisível e lhe deu relevo, para não dizer relevância. Uma caixa de concreto que eu nunca tinha visto, vi-a pela primeira vez assim, como pedestal.

Até se poderia dizer que o homem mais impotente do sistema urbano, face mais explícita de sua derrota, venceu a lisura da superfície ao se fazer monumento. Involuntário e fugaz, sim, mas monumento, ponto de elevação, desvio da curva, invenção topográfica. Algo que eu, por mim, nunca fiz.

Foi só um dia, claro. O homem prossegue fabricando seus utensílios e garimpando suas refeições. Nada mudou. O ruído foi eliminado dos sistemas sem comprometer em nada o funcionamento. Fugacidade à parte, tudo que posso dizer (tudo que sei) é que os sistemas comportam ruídos.

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Um comentário sobre “O pedestal

  1. foda. Eu iria além: o sistema não vive sem o ruído. Aliás, é no “amansamento” do ruído – seja ele homem vivo e concreto, ou fruto de arte ou intenção de homem passageiro – que o tal do sistema se acomoda e se ergue.

    abraços

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