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O povo que pedala encaixotado

A palavra “bicicleta” já vinha pipocando há algum tempo nos jornais, blogues e o escambau (“o debate”, diria um otimista, mas esse não é o meu caso). Como proposta urbana, utopia, desiderata ou discurso para as massas, dependendo de quem a pronunciasse. Agora, o ensandecido atropelador do Golf preto escancarou até onde a questão da bicicleta – a palavra e o objeto – pode chegar.

Como ideia, agora não é mais segredo para ninguém que a bicicleta encarna a imagem, isto é, o ideal de uma guinada na história urbana e econômica do Brasil. Como coisa física, ela se afigura um instrumento político, tanto pela afirmação de quem pedala impávido, contra toda a opressão – e repressão, naturalmente – de um ambiente explicitamente disposto a favorecer apenas e tão-somente o carro, quanto pelos conflitos que podem vir a manifestar esse caráter político, não raro com vítimas. (Só lembrando que o conflito é a manifestação por excelência do político.)

O caso gaúcho, como se sabe, levou ao extremo a abordagem política da bicicleta. À manifestação profundamente afirmativa, ostensiva e orgulhosa, dos ciclistas contrapôs-se uma potência de negação e destruição, chocante pelas imagens que deixou – a ausência de vítimas fatais é da ordem do milagre – e improvável pela clareza do exemplo que dá. Forçando um pouco o paralelo, se a Massa Crítica corresponde aos manifestantes jovens do Egito, a jamanta do Golf Preto corresponde à resposta tirânica de um Kadafi.

Agora que entendemos como a bicicleta, por seu potencial emancipador e socializante, é uma figura política plena (além de fazer bem para a saúde), saio do exemplo extremo vindo do sul para comentar como as coisas se passam na cidade problemática em que vivo: São Paulo. Embora de maneira velada, também aqui temos uma manifestação semanal da violência reativa e negadora contra o meio de transporte mais limpo e saudável que existe, excetuado o velho par de pés. E o pior: usando como instrumento dessa negação a própria bicicleta.

Mais sinistro que isso, impossível.

Quem vier a São Paulo e atravessar seus bairros mais afluentes haverá de observar, em certas avenidas, faixas com as bordas pintadas de um forte e contínuo vermelho. Nos postes, as placas: aos domingos, das 7 da manhã às 2 da tarde, a velocidade nessas avenidas cai para 40 km/h. As tais faixas, nesse período e nesse período apenas, se tornam o que a prefeitura paulistana considera serem ciclovias, ou melhor, “ciclofaixas”.

Pois eu digo: essa iniciativa da prefeitura é um – sutilíssimo, concordo, mas – demolidor tapa na cara de qualquer cidadão que queira ver na bicicleta um meio de transporte.

São mais de 30 quilômetros de ciclovia, quero dizer, faixa pintada, aos quais se acrescentam cones. Em cada cruzamento, pessoas de colete alaranjado e pagamento indigno (oficialmente, são 335) controlam o fluxo de automóveis e ciclistas. Ora, sem isso, dá briga. Ou coisa pior, como a gente sabe. Filas intermináveis de gente, as rodas da frente de uns perigosamente próximas das traseiras dos outros, pedalam disciplinadas e autocomplacentes. Exercitam-se, circulam, estão fora de casa, curtindo a cidade como nunca tinham curtido, encaixotadas que são.

Nas demais faixas, há trechos em que os carros se engarrafam e até se empilham, ou quase, com as bicicletas amarradas ao teto ou à traseira. Procuram vaga, e rápido. É gente que não consegue acordar às seis da manhã no domingo, mas quer aproveitar as últimas migalhas da maravilha de passatempo que a prefeitura lhes proporcionou.

E tem de ser rápido. Na hora do almoço, a turma da CET em hora extra vem, recolhe os cones e empacota tudo. A rua volta para as mãos exclusivas dos veículos a explosão (sem trocadilho com o moço explosivo de Porto Alegre), circulando aos 70 km/h regulamentares.

Como eu disse, não é em qualquer lugar da cidade que se encontram essas ciclovias (o nome oficial “ciclofaixas” só faz acrescentar à ironia da coisa). Na Radial Leste, por exemplo, existem trechos de cimento vermelho inutilizáveis; em locais isolados da cidade, há gelo baiano marcando um caminho quase indiferenciado; nos cafundós da Marginal Pinheiros tem a já famosamente anedótica via sem entrada nem saída, que, em tese, espremida entre os aprazíveis rio Pinheiros e avenida marginal, ligaria a Vila Olímpia (bairro humilde, se comparado a Beverly Hills) aos clubes de campo da represa de Guarapiranga.

Já as “ciclofaixas” ligam a universidade ao parque. (Observe que, em se tratando de São Paulo, não preciso nomear nem uma, nem o outro, porque ao leitor que vive na cidade isso é óbvio.) Passam também por mais dois exemplares do humor negro desta cidade tão singular: o parque “das bicicletas” e o parque “do povo”.

Sim, é isso mesmo: as bicicletas de que tanto se orgulham prefeitura e patrocinadores só podem ser encontradas nos bairros mais afluentes da terra bandeirante. As “ciclofaixas” são “de lazer”, está lá no site, pode procurar. Porque bicicleta, em São Paulo, é um instrumento de lazer, e lazer é o apanágio da riqueza. Fim de papo.

É o que diz a prefeitura: as “ciclofaixas” têm serviço “vip”, funcionários da CET (a minha, a sua, a nossa) fazendo hora extra e três centenas de jovens precisando de uma graninha extra. Tudo para que você, morador de Pinheiros e adjacências, belo e branco, cidadão paulistano e cliente de nosso patrocinador (ironicamente, uma companhia de seguros pertencente a um banco mastodôntico em que tenho a sorte de não ter conta) possa curtir seu domingo e sua cidade. Vivenciando o espaço público, que, naturalmente, para essa finalidade é revertido em algo que não tem nada de público, querido cliente: ele é seu.

Tanto se fala em bicicleta como alternativa ao carro! Tanto se luta! Até amante de político aparece na TV, em São Paulo, indo trabalhar de bike! Mas o recado da prefeitura é esse: nesta cidade, bicicleta é passatempo (meio bovino, aliás) para quem anda de carro a semana toda. Quem chacoalha no ônibus para ir trabalhar vai chacoalhar também no fim-de-semana. E não se fala mais nisso.

Se você diz: “vamos circular de bicicleta!”, São Paulo responde: “domingo de manhã”. Se você diz: “bicicleta no lugar dos carros!”, São Paulo responde: “domingo de manhã!”. Se você diz: “bicicleta é meio de transporte!”, São Paulo ri e responde: “é um brinquedinho de adultos”.

Os ciclistas paulistanos lutam há anos por espaço. A prefeitura, enfim, escutou. Escutou? Pois sim, como não? Antes não tivesse escutado. É menos humilhante cair em ouvidos moucos do que receber como resposta um tapa na cara, na forma de uma iniciativa que nega frontalmente tudo que a bicicleta representa. Com uma violência certamente menos dolorosa do que a do gaúcho motorizarmado, São Paulo também avançou contra a mobilização dos ciclistas e a mobilidade como um todo.

PS: texto motivado por conversas via Twitter com Catatau, Fabiano Camilo e Nat Peixoto.

PS2: Mais um belo link.

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15 comentários sobre “O povo que pedala encaixotado

  1. Belíssimo texto, Diego, assino embaixo. Nós aqui de Niterói conseguimos no começo do mês uma “ciclofaixa” na Estrada Fróes (estrada em curvas, no meio do morro, perigosíssima) que liga as ciclovias de Icaraí à Charitas. Ela é permanente, mas ainda delimitada somente por tinta. Estamos brigando por algo mais concreto, literalmente.

    Mas já é um avanço.

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    • Diego Viana disse:

      Pela sua descrição, eu diria que Niterói está num estágio bem melhor que São Paulo. DOIS bairros com ciclovia? UAU!

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        • Diego Viana disse:

          Bom, em tese, em tese, em tese, aquela “ciclovia” que não tem entrada nem saída é na “orla”, se considerarmos que a margem é a orla de um rio…

          Serve? hehe

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  2. Belo post! (e o B.N.? rsss)

    Uau, não imaginava que teu chamariz a SP chamava a atenção a algo tão…

    Certo, em muitos lugares e circunstâncias, Brasil caipira e caiçara profundo afora, os paulistas se comportam de um jeito estranho. Você acabou de explicar um pouco pq muitos deles são tão… assim (kkkk)

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  3. Muito bom seu grito de desabafo Diego. Penso exatamente como você: a ciclofaixa dominical é um tapa na cara daqueles que acreditam num futuro sustentável possível para a cidade. Conforme comentei no meu post, é necessário que ciclistas ganhem status de condutores e que o trânsito de bikes ganhe status dentro da Secretaria de Transportes para que pelo menos se comece a ganhar terreno nessa questão. Parabéns pelo texto.
    Abç
    Sergio Moraes

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  4. tiago barufi disse:

    Caro Diego
    Eu ia escrever aqui que a ciclofaixa é bonita. Que toda a estupidez é compensada pelo fato de que mais pessoas vão aprender a andar de bicicleta. Que alguns dos mortorizados vão olhar para aquela multidão festiva de domingo de manhã e quem sabe repensar seus conceitos.

    Entretanto teu post é necessário e eu vou dar RT. Eu estava com esse sentimento entalado. É ofensivo ver a política de gente séria tratar a administração do transporte e da vida das pessoas com tamanha mesquinhez. Essa subserviência que aceita a propaganda do carro, que glorifica a realização pessoal de acelerar. Essa estupidez institucional que coloca os congestionamentos, a poluição, o desperdício e a morte por negligência como única alternativa.

    Eu ando nessa cidade há muito tempo. Já foi pior. Agora ao menos existe algum debate. A mentalidade tacanha que confina as bicicletas e glorifica os carros pode ser uma corrente de pensamento muito poderosa, bancada pela indústria, mas não é a única. Ainda podem impor sua agenda pela mídia. Mas isso não pode perdurar, à medida que a inviabilidade urbana se demonstra cada vez mais.

    Espero que você, bem como muitos outros, não ceda ao sentimento de que são interesses poderosos demais, de que não adianta fazer nada. Espero que continue pedalando, demonstrando como se faz, trazendo mais pessoas para retomar a rua. E presenteando as pessoas com teu estilo de escrita que preciso cumprimentar pela elegância e exatidão.

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    • Diego Viana disse:

      Salve Tiago,
      Também já tentei ter esse sentimento condescendente e esperançoso, tentando ver as coisas pelo lado mais positivo possível. Acontece que a energia do mundo é muito limitada e os efeitos que considero negativos suplantam os que considero positivos. Por sinal, inclusive em detalhes banais como as pessoas aprenderem a andar de bicicleta: será para passear, não para viver. Ou os motoristas reverem seus conceitos: algo interessante para fazer nas manhãs de domingo, não uma alternativa de vida. E assim por diante… (Mas quanto a serem bonitas, aí discordo mesmo, acho bem feias aquelas marcas na rua, aqueles cones, aqueles funcionários dando indicações…)

      Por outro lado, acho que nenhum interesse é poderoso demais, a ponto de não poder ser fissurado por dentro. É para isso que servem as lutas, as reclamações, as denúncias…

      Valeu pela visita!

      Abraço,
      Diego

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