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Lula, para além da sorte

 

O último texto, sobre a sorte de Lula, não foi dos mais comentados na história deste blog, mas pelo visto pode render alguns “espinofes”. Reparei, tanto no que foi comentado aqui, quanto no Amálgama (link), que as principais objeções ao que escrevi recorrem a uma lista de coisas que “Lula não fez”. Coloquei a expressão entre aspas porque me incomoda bastante o velho cacoete de dizer “tal prefeito fez isso”, “tal governador fez aquilo”, como se a administração pública e a política fossem um jogo de tabuleiro. Mas essa é só uma divagação, não é disso que vou falar.

Eu queria me concentrar nessa fixação com as coisas que não foram feitas, por Lula, sua equipe, seu governo, ou seja quem for. O argumento do texto era simplesmente que o momento histórico preciso em que Lula chegou ao Planalto fez com que ele não saísse como Salvador Allende. Mas as discussões foram por outro lado. Aliás, uma ressalva: ao contrário do que pode parecer pelo que escrevi aqui, concordo com quem vê exageros na idolatria ao ex-presidente, assim como vejo exagero nas idolatrias a Napoleão, Lincoln, De Gaulle, Perón, Churchill. Acontece que todas as denúncias que tenho visto a essa idolatria logo deslizam para tentativas de demolição, muitas vezes faltando com a gentileza que devemos a qualquer um.

A idolatria à figura política é uma tendência humana tão antiga quanto andar para frente, mas cai sempre no mesmo erro: esquecer que a gestão do Estado, por mais histórica que tenha sido um período – e mesmo os detratores dificilmente negarão que a “era Lula” foi um período histórico fundamental no Brasil, ainda que negativamente –, ele se constrói sobre as tensões, lutas e afetos do momento. Foi nos revertérios desse turbilhão que Churchill, herói de guerra e maior orador do século passado, acabou virando primeiro-ministro em tempo de paz e foi mal, muito mal. O mesmo pode acontecer com Lula no futuro, nada impede. Com todas as suas qualidades, com todos os seus defeitos, intuo que ele sabe disso.

É sintomático, portanto, que as mesmas pessoas a demonizar o antigo chefe da nação reclamam das coisas que ele deixou de fazer enquanto presidente: legar ao país os portos e aeroportos mais eficientes do mundo, consertar todas as estradas, acabar com a dívida externa (e a interna), erradicar o analfabetismo, reflorestar a Mata Atlântica, eliminar o racismo, aprender quatorze idiomas e refutar a crítica à onto-teologia de Heidegger. A lógica é: pode ser que algo “seja bom”, mas se não for tudo perfeito, então é tudo péssimo. Estranho silogismo.

Minha proposta, então, é que o leitor que não suporta o apedeuta, o eneadáctilo, o torneiro mecânico, releia o último texto trocando a palavra “Lula” por “o presidente X”. Acredito que vai saltar da tela um curioso argumento: o que deu certo na “era Lula” foi justamente o fato de não ter tentado resolver todos os problemas do país de uma vez. Observe que o que está em jogo no texto é a “sorte” do ex-presidente, mas no meio dele há uma declaração clara e determinada sobre algo que não ressai do domínio da sorte, mas da escolha consciente: focar as ações sobre uma área precisa e particularmente gritante das mazelas do país. No caso, foi a miséria, maldição nacional muito bem escolhida por capaz de bloquear a eficácia de iniciativas em qualquer outra área.

Eu disse que Lula fez bem em não tentar resolver todos os problemas do país, como era a expectativa da maior parte de seus eleitores. Talvez seja cínico fazer uma afirmação dessas agora que centenas de brasileiros foram vitimados pelas condições precárias em que viviam. Mas sustento, porque o substrato do argumento é que uma tentativa dessas teria fracassado redondamente. Seria um desperdício enorme de energia: o esforço difuso seria facilmente abafado por poderes contrários e talvez o homem não fosse nem reeleito. A quebra de paradigma em que consiste a inclusão social de dezenas de milhões de brasileiros terá efeitos de longo prazo muito superiores ao que poderia conseguir qualquer tentativa de heroísmo desfocado.

Até nisso, porém, Lula teve uma certa sorte. Ao assumir a presidência, parecia que ele pretendia mesmo reformar o país todo, brigar com tudo e todos, fazer e acontecer. O PT vitorioso foi com muita sede ao pote. Não deu certo: seus inimigos uniram forças e quase o derrubaram. O grande gesto de inteligência de Lula foi recuar e concentrar as energias. O custo foi altíssimo, com uma penetração desnecessariamente grande do PMDB em seu governo e uma dose de paralisia. Mas os benefícios foram maiores, como demonstram sua saída triunfal e o resultado das eleições de 2010, que elevaram o PT a maior bancada federal.

Espero que esteja respondido por que o não-feito é tão relevante na contabilidade do sucesso da última gestão quanto o feito. Às vezes esquecemos que a política é mais do que a ocupação de cargos públicos, é aquilo em que estamos impregnados quando saímos do casulo e engajamos na vida coletiva, plural, nossos corpos – ou seja, nossas forças. Pois as forças estarão sempre aí, contra nós ou a nosso favor, e melhor resultado terá aquele que melhor conseguir manejá-las a seu favor. Há grande sabedoria em não dar murro em ponta de faca.

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15 comentários sobre “Lula, para além da sorte

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  2. Diego, bom ler outro texto seu. Vou ser muito mais comedido nesse comentário.

    Não concordo em absoluto com essa tese de que foi melhor o Lula não ter tentado resolver os problemas nacionais, de uma vez. Esse “de uma vez” faz acreditar que há um plano macrohistórico bem moldado em que as gotas de saneamento serão administradas profilaticamente a cada governo, e que faz bem a população fiar-se nessa espera. Há um ensaio excelente do Llosa em seu livro, Sabres e Utopias, intitulado “O Socialismo do Século XXI”, em que o peruano esclarece a eficiência de governos ditos de esquerda, como o do Lula. Llosa diz que Lula assumiu todas as exigências liberais, as privatizações, as concessões bancárias, as fragmentações dos movimentos de reforma agrária (anulando-os cordatamente), etc. Foi tão FHC quanto FHC. Não há com refutar Llosa com algo mais substancial que jogos de retórica que, no final, assumirá o mesmo argumento. Essa lucidez serveria para acabar com o fanatismo lulista, com a ridícula defesa de tudo que torna blogs e imprensa lulista um verdadeiro saco de se ler (Idelber Avelar, Carta Capital, etc, etc), mas nesse nosso país de futebolismos antes da razão é ato impossível.

    Eu não pediria que o Lula mudasse TUDO. Mas, em oito longos anos, daria para tentar mudar ao menos um pouco a situação abominável da educação, da saúde pública e, o mais elementar e que é a pedra fudamental do desenvolvimento da sociedade: a diminuição da corrupção.

    (deu pau na caixa de comentários e seu post passado. não se pode acessá-la)

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    • Diego Viana disse:

      Oi Charles, bem-vindo de volta!

      Perdoe tomar a liberdade, mas você disse aí uma coisa que me deixou com o cabelo em pé. Não posso deixar de comentar. Como leitor de Zygmunt Bauman e, suponho, outros autores do mesmo nível, deveria acender-se dentro de você um alerta vermelho a cada vez que lhe surja na imaginação a mais tênue vontade de dizer “não há como refutar”. SEMPRE há como refutar, e se você assume de antemão a postura de que algo não possa ser refutado, você oblitera no mesmo instante qualquer possibilidade de participar de um debate saudável, aprender alguma coisa ou, pior ainda, distinguir silogismos, dados e outras coisas confiáveis de sofismas e opiniões meramente chutadas. De certa forma, é uma questão de atitude, ou seja: de prudência. Mas também é uma condição fundamental para quem pretenda se orientar no pensamento (como diria Kant) com honestidade.

      Um exemplo: observe como você, após dizer que um genial romancista não pode ser refutado ao impor uma interpretação pétrea da realidade política de um bom número de países (algo de que você já deveria ter desconfiado em primeiro lugar), diz que é “insuportável” ler o pessoal da esquerda (citando os mesmos dois que você tinha citado em outro comentário, mas a propósito, o que você acha, por exemplo, do NPTO?). Por que é insuportável? Porque eles usam “jogos de retórica”, “fanatismo lulista” e “ridículas defesas”. Ao passo que o genial romancista, ao repetir lugares comuns que não sobrevivem a um breve olhar em dados (recomendo o último PNAD, por exemplo), fala com “lucidez”.

      Traduzindo: lucidez é concordar comigo, fanatismo é discordar. Bom, você lê Bauman, acho que não preciso dizer qual é o termo mais adequado para traduzir esse tipo de pensamento, certo? E qual é a origem disso? Pois bem, uma postura irredutível e sofística de que determinada coisa “não pode ser refutada”, mesmo que seja só a opinião de um romancista sobre questões de que ele não entende absolutamente nada. E por que ele não pode ser refutado? Porque coincide com o que você pensa, quer dizer… convém para corroborar o que você sente. Se for assim, não há debate possível.

      No que há de mais pontual: vocè diz que meu aragumento faz acreditar num “plano macrohistórico bem moldado”. Falso. Não faz não. Se você descesse um instantinho da sua posição do “não pode ser refutado”, você poderia se permitir acompanhar a linha de argumento e entender o que eu quis dizer. Planos há muitos, não são grandes (eventualmente são grandiosos, e são esses que mais falham, vide o “foquismo” de Guevara, por exemplo), e certamente não são bem moldados, exemplo maior sendo o USAID, ao qual voltarei em breve. O que há, e eu disse isso explicitamente nos textos (no primeiro, mais precisamente) é um desenrolar do político (e do social) fundamental, isto é, um sistema interminável e indefinível de forças afetando umas às outras. Daí a idéia de que terá maior sucesso quem saiba concentrar melhor suas forças e desviar melhor das forças contrárias.

      A idéia de que Lula foi mais FHC que FHC é um disparate tão claro e simples, mas como não pode ser refutado porque foi afirmado por um romancista genial, além de um certo número de revistas “suportáveis” porque seu fanatismo não é lulista e seus jogos de retórica são mais convenientes que os dos outros, seus ataques não são ridículos sabe-se lá por quê, então deixo esse assunto para outro texto. Isso só pode ser afirmado por alguém que se decida a enxergar a realidade de maneira muito, mas muito seccionada. E veja bem: estou falando de “decisão”, a pessoa escolhe isso, porque é mais conveniente, não é um “engano”, uma “falha”. É uma ESCOLHA. Em todo caso, voltarei a isso no texto em que explicarei mais detalhadamente por que a questão da miséria é capital no Brasil, o que tem na exclusão social de tão decisivo em termos históricos. Sabe-se lá como vai andar meu tempo livre pra escrever isso nas próximas semanas!

      Por fim, só pra amarrar a questão “mais FHC que FHC” com a menção ao USAID (ou melhor, à Aliança para o Progresso) e a questão da profilaxia que você mencionou. No início dos anos 60, (isso o Vargas Llosa certamente sabe, mas prefere não mencionar, porque derrubaria o argumento dele) o governo Kennedy concluiu que a melhor maneira para evitar novas Cubas na América Latina seria não tanto financiar a contra-insurgência, mas promover o desenvolvimento econômico nas bases que a época conhecia: reforma agrária, industrialização, sanitarização, urbanização, combate ao analfabetismo e outros índices de direitos humanos. Essa foi a Aliança para o Progresso, saudada por todos os governos do continente como uma belíssima iniciativa do irmão rico do norte. Pois bem, resulta que exatamente esses mesmos governos foram os que sabotaram o programa e garantiram que ele não desse NENHUM resultado, fosse uma falha retumbante, tema de campanha para Nixon ao final da década.

      Ora, por quê? Porque, simplesmente, por mais que os governos do continente quisessem crescimento econômico, eles certamente NÃO queriam tocar na estrutura agrária, NÃO queriam alfabetizar as populações e só queriam industrialização até um certo ponto. NENHUM país latino-americano aproveitou as verbas americanas pra se desenvolver. As forças estabelecidas se mobilizaram de maneira terrivelmente competente nesse sentido, até que os americanos desistiram e se voltaram novamente para o financiamento à contra-insurgência.

      Moral da história? Deixo isso ao seu próprio julgamento, se você estiver disposto a descer da postura “não pode ser refutado” e discernir a linha de raciocínio dos meus argumentos.

      A propósito, por que raios você não exigiu essas coisas todas do governo anterior ao de Lula? Assim não vale, um tem que fazer tudo, o outro não precisa fazer nada…

      Por fim, uma previsão: nos campos que você mencionou, ou seja, educação, saúde e corrupção, aposto que nos próximos anos você vai ter gratas surpresas.

      (De vez em quando dá erros estranhíssimos no blog, seja na caixa de comentários, seja nos links, seja nas imagens, nos vídeos… Desisti de entender e consertar! Por sorte, temos esta aqui…)

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      • Tá bom, mea culpa Diego. Não devo ir tão depressa à confecção fácil de pensamento que o estilo “comentário” nos dá o relaxo de acreditar permitido. Trata-se tudo de “arquétipos do discurso”, que não são mais que fórmulas preguiçosas para MATAR o discurso. Assim como o seu (tento ser um bom cristão e oferecer a outra face, mas não dá, quem sabe em outro nível de evolução) “só a opinião de um romancista sobre questões de que ele não entende absolutamente nada”. Um pouco apressado da sua parte medir o envolvimento de um escritor peruano, que conhece com um tanto de proficiência sobre a realidade política do continente a que pertence, como de alguém que não conhece “absolutamente nada”. No mesmo livro que te citei, o compilador (que não foi o Llosa), sequencia os textos que marcaram a derrocada do Llosa esquerdista, castrista, para o condenador dos crimes da esquerda latino-americana, do médico humanista François Duvalier que se transforma no sanguinário Papa Doc, do Fidel incansável que recebeu a ele, e uma turma de escritores e intelectuais latino-americanos, e com eles monologou durante uma febril e amistosa noite de 1967, arvorando simpaticamente o projeto de liberdade irrestrita de imprensa para Cuba, mas que 4 anos depois determinava que os poetas e romancistas cubanos assinassem manifestos de auto-desagravo e arrependimento, sob tortura. Talvez haja mesmo um argumento para interpor a esses testemunhos impressos de um escritor do porte de Llosa (do porte tanto para melhor, quanto para o que há de defenestrável: afinal surgiu até a suspeita de que o peruano contratava “negros” para escrever suas obras, enquanto ele ficava dolentemente arquitetando manobras thatcheristas de dominação das Américas), coisa que me agradaria muito ler.

        Claro que suas observações sobre as intenções norte-americanas de deixar o bastardo inculto procedem. Ta aí o Galeano, mas também GGM, Ângel Astúrias, Carlos Fuentes, e o próprio Llosa para nos lembrar disso. E essa verdade dogmática também é uma forma de vedar e condicionar o discurso. Ou você, que sem sombra de dúvida, tem um impressionante arsenal de conhecimentos sobre história de nosso continente, é capaz de relativizar para benefício da turma da esquerda que Allende representou menor atraso para o Chile do que a ditadura militar de Pinochet? Nossas antenas tremulam a indicar a zona de alerta vermelho quando se le essas palavras: então estou a defender o militarismo latino-americano? Ou será que seria possível entender que o Chile teve um grande crescimento econômico, se tornando o país de melhor IDH das américas, não DEVIDO a ditadura militar, mas APESAR dela? Ou, nesse sentido de relaxamento a times e partidos, nosso próprio país esteja avançando economicamente não de forma inédita e centralizada no governo Lula, mas, em alguns pontos específicos (como a da abertura de mercado para as grandes montadoras de automóveis mundiais), desde a época Collor?

        Não sei se lestes a ótima matéria de Colm Tóibín na última Piauí, sobre a dramatica derrocada da Irlanda. Por uns dois anos de felicidade, os índices econômicos da Irlanda a apontavam como a segunda maior economia do mundo, só atrás da China. Em questão de meses, ela despencou para o último lugar entre os países europeus. Um país sem infra-estrutura, com a corrupção alastrada até a medula em seu aparato público e político, jogado num rol de ilimitada liberalização de crédito, em que a população, crente num éden de consumo, gastou seus recursos em viagens ao exterior, ao financiamento de imóveis e carros, a gastos desmedidos. Resultado: bancarrota. A elite bancária, que frequentava todas as festas e colunas e jornais, a heróica e briosa classe de banqueiros, foi a única que lucrou com esse plano todo. Lembra uma certa realidade, não? Na bolha dos imóveis de 2007-8, que jogava a primeira pá de terra sobre países como a Grécia, e ressecava o barro dos tornozelos dos EUA, o Itaú nacional, das propagandas mais lindas e autruísticas do mundo, lucrou de forma inédita, como em nenhum ano anterior. E a nossa “nova classe média”, desse nosso país cujos mesmos valores obscuros e generalizadores que alçaram a Irlanda à estatística de segundo maior, nos coloca como a oitava maior economia do globo. Também segue pela mesma sintomática o fato da Dilma já ter cancelado o crédito para retirar um carro novo da concessionária, o que até o mês passado qualquer um de nós, ou um pedreiro ou um outro que ganha a altissonante quantia de dois salários mínimos por mês (um dos 35 milhões de pessoas resgatadas da miséria para o sub-emprego), podia-se comprar uma Hilux, sem dar um centavo de entrada, e apresentando apenas uma conta de luz ( que não precisaria estar, necessariamente, paga). Hoje, tem-se que dar 40% do valor, para um financiamento em 24 meses. A Dilma, esperta, não querendo entrar para a história com o nome de uma bolha financeira aguerrida a seu nome.

        O que me faz pensar que tal crescimento econômico nacional existe não DEVIDO ao Lula, mas APESAR dele. E não, no período FHC eu era universitário, e odiava vê-lo pela TV, temeroso que tivesse que interromper a aquisição de meu diploma por não poder pagar a mensalidade de uma universidade privatizada.

        Também acho que a Dilma vai sobressair, e o teatro esquizofrênico de um presidente bailarino, encegado pelos holofotes, não vai ter espaço. Estou realmente confiante. Mas quanto à dita (hahahahhaah) “imprensa” progressista dos blogs de esquerda, não boto fé. Vão continuar atrasados, com seus lemas de guerra (não percebem que seus jargões idiotas como PIG _ o Idelber quis tascar um horrível M.O.S.C.O.U._ são ainda mais antipáticos que os jargões da direita), suas paixões, suas vendasnos olhos. Se ainda estivesse na fase de precisar escrever uma monografia, escolheria como tema a sociopatia do poder que esses “progressistas” sofrem. O caso do Idelber. Releia, agora, na fria e desinteressada etapa atual, os posts deles da época da campanha. Ele chegava a espumejar a boca de certeza que a Dilma teria uma vitória acachapante no primeiro turno. Era de egolatria tão repulsiva, que sua caixa de comentários começou a se encher de críticas de desafetos. A um ponto que chegou a estudar a resolução de bloquear os comentários. Aí ele escreveu uma corajosa tríade de textos apiedantes sobre uma cena de discriminação num aeroporto, cheia de clichês e bang-bang, em que ele e um QI belga defendem uma família de mineiros contra a depredação moral de uma família de paulistas. Daí, chega o dia do advento e a Dilma não leva no primeiro turno. Dias e dias de post soturnos, depressivos, de silêncio e aflição. Um quadro nitidamente clínico. Não havia ali críticas altaneiras, nem a mais distante lucidez ou iteresse político construtivista, apenas a paixão cega daquela que representava seus sonhos reprimidos de herói exilado, de professor perseguido. Defendia-se Dirceus, famílias Guerras, que bolinhas de papel eram bolinhas de papel. Hoje, em vários blogs “progressistas”, encontra-se a lastimável pauta da defesa da mudança ortográfica para aceitar-se a formalidade da palavra “presidenta”. A isso chegou a profundidade dos debates políticos nacionais, a um problema substancial de gênero.

        O NPTO? Parece que rolou grana lá. Passou a eleição, passou todo o alardeado potencial oxfordiano do dono do blog. Ele não foi capaz de fazer uma resenha de “Solar”, nem mesmo de um livro de um seu amigo blogueiro.

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        • Diego Viana disse:

          Oi Charles, veja só: quando eu deixei a cargo do seu julgamento derivar a moral da história quando mencionei a Aliança para o Progresso, cria ainda que você se tinha enfim disposto a interpretar o que eu escrevo a partir da lógica de um sistema de interação de forças a que chamamos “política”, o que rapidamente te demonstraria que, no caso da USAID, o grande erro tinha sido achar que a boa vontade, o dinheiro e a diplomacia bastariam para manter as coisas na direção desejada. Pois a história demonstrou o óbvio, esse que você, como aliás muitas outras pessoas, simplesmente se recusa a enxergar: que o jogo de forças políticas não se altera segundo a boa vontade de ninguém, mas segundo as capacidades dessas próprias forças de exercerem, mais do que serem exercidas. Financiar a violência dos contra-insurgentes surtiu muito mais efeito para o objetivo visado, que era anular os focos de guerrilha, do que tentar transformar as estruturas econômicas/sociais/fundiárias do continente. Veja que o que eu disse é o perfeito oposto do que você diz que eu disse. Não são os americanos tentando manter o bastardo inculto, é justamente o contrário… e falhou, pelos motivos expostos acima (volto a isso). Um outro exemplo, mais próximo de nós: Carlos Lacerda achou que, insuflando a classe média para o golde de 64, em 65 ele seria guindado à presidência. Nunca um erro de avaliação foi mais estúpido, vindo de uma pessoa mais inteligente: ele simplesmente não entendeu que havia forças muito maiores no país do que o mero gogó dele. Resultado: deu-se mal, muito mal. Aliás, se não tivesse havido golpe, é bem provável que ele fosse eleito…

          Bom, voltando: por que você interpretou o que eu disse como sendo exatamente o oposto do que era na verdade? Resposta: porque você incorporou, um tanto acriticamente, diga-se de passagem, uma lógica que já foi muito usada pela esquerda, particularmente o PT, mas que hoje parece alojada na direita brasileira. Essa lógica diz: tudo que não é um ataque frontal ao inimigo é uma defesa incondicional do inimigo; todos que não são aliados incondicionais são inimigos espumantes de raiva. Nem preciso dizer que essa lógica leva às idéias mais delirantes, não é mesmo? Aliás, eu arrisco dizer que um dos grandes problemas do PSDB neste momento é abdicar dessa forma de raciocínio e voltar a ser o partido que foi no início dos anos 90; caso contrário, vai continuar dando contra a parede.

          Portanto, se o seu único propósito ao vir comentar aqui é lançar vitupérios contra o demoníaco ex-presidente Lula (que parece não sair da cabeça de seus adversários, isso é realmente um caso interessante de fixação paranóica) e qualquer um que não o ataque (e nem precisa defender), garanto que vamos andar em círculos eternamente. Um quadro bem delineado dispensa os adjetivos, esses que você aplica tão abundantemente.

          Outra: por que raios todo o universo do anti-Lula resolveu agora que qualquer discordância dessa lógica é fruto de benefícios financeiros? Eu, hein. Aliás, você também está com uma enorme fixação com o Idelber, hein? Deixa o cara, pô. O caso deste blog é outro inteiramente. Estou defendendo um ponto a partir de uma cadeia de argumentos que parte de um postulado, qual seja, compreender a política segundo o sistema de forças. Respire fundo, esqueça por um momento que você odeia ver a cara do Lula e tente ler o que eu escrevi a partir disso. Senão, você só vai estar perdendo o seu tempo. Aliás, o meu também, mas não entenda isso como uma expulsão ou algo do gênero.

          Sobre Vargas Llosa: é claro que ele entende da história política da América Latina, mas isso não implica que ele entenda da política interna do Brasil. Se entendesse, não diria platitudes, nem repetiria um discurso vazio que conflita violentamente com os dados. Sustento a frase.

          A comparação do Brasil com a Irlanda não procede, basta ver o que aconteceu com cada um desses países na crise de 2008-201?. Em todo caso, se você algum dia se interessar por sair do campo das alusões vagas e entrar num universo mais concreto (ainda ficando restrito ao campo macroeconômico, tudo bem), sugiro um pequeno exercício: procure descobrir como foi a trajetória do déficit nominal desses dois países nos últimos 20 anos. Se sobrar energia, procure a evolução, no mesmo período, da relação dívida/PIB. Temo que não vá convir à sua intenção de retratar dantescamente o último governo, mas garanto que é melhor do que continuar confundindo a farra do euro com políticas anticíclicas de curto prazo (por sinal, as facilidades de financiamento que, como você diz, tínhamos “até ontem” começaram nessa época, com essa finalidade).

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          • Nossa discussão não vai dar em nada. Vejo erros em vc, e vc em mim. Não abdico das minhas opiniões a respeito, e vc idem. Tudo que vê acentuado no que escrevi, vejo o reflexo hiperatrofiado em vc. Quem é Idelber? E, não, a Irlanda não é igual ao Brasil. O Brasil está bem mais próximo a um país africano.

            Quando passas a falar de assuntos em que possamos ao menos discordar compreensívelmente, volto a comentar.

            Abraços sinceros.

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            • Diego, uma derradeira nota: googlei-te e descobri que és um economista. Isto explica tudo! A barreira que percebo, inamovível, em seus textos, reflete o longo treino acadêmico. Qualquer coisa que eu fale, alimentada por minha experiência nem sempre suave de exilado em meu próprio país, e por minhas leituras, não vai perfurar o filtro de um expert em cifras e teorias sincréticas. Afinal, você pode morar em Paris, e minha opção, ligada aos entreveros profissionais, me faz um interiorano, que se agrada das boas coisas de uma cidade pequena, assim como padece de tudo que o país tem de pior instalado exemplarmente numa amostra geográfica de suas mazelas. Agora entendi porque nunca nos conciliaremos nesse assunto: você tem o privilégio das boas e seriíssimas teorias abstratas sobre os nossos glamorosos oito últimos anos, eu, infelizmente, tenho só a experiência da mão na massa. Li seu texto sobre Said. Quando for escrever algo mais sobre ele, me avise. Um de meus autores preferidos. Valorizava a importância do intelectual livre de cargos de ofício e aptidões partidárias, apto a “falar a verdade ao poder”.

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              • Diego Viana disse:

                Arrá! Charles, parabéns, você resistiu bastante antes de fazer a profissão de fé anti-intelectualista em nome da prerrogativa de resguardar e cultivar seus obscurantismos. Em geral, as pessoas já partem direto dessa premissa. Agora que você se despiu daquela capa de amante dos debates, combinemos: você tem toda razão. Eu vivo no mundo da lua, é por isso que gosto de buscar dados e argumentar ponderadamente, coisa de quem está fora do mundo real. Já que você tem o privilégio do empírico e do pragmático, não precisa se preocupar com essas minhas mesquinharinhas abstratas, então está livre para bradar preconceitos sem fundamento, acriticamente. Bravo!

                Aliás, sobre isso, já escrevi aqui: http://diegoviana.opsblog.org/a-inteligencia-do-anti-intelectualismo

                Sem querer me comparar a Espinosa, acho que você deveria procurar por aí a história de um sujeito chamado Blyenbergh (tem num livro do Deleuze sobre Espinosa, chama-se “Espinosa, filosofia prática”. Acho que você vai se identificar.

                PS: Já não moro mais em Paris.

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                  • P.S.: já conheço a história que mencionas. Além de veterinário, tenho diploma de jornalismo e de história. Não procuro taxar esteriótipos para restringir as pessoas neles. Porém, já pelo título que vejo em verde no link do texto que oferece, dá para perceber a indisfarçada distância do acadêmico treinado brasileiro dos que estão abaixo da moldura do diploma. Conheço por demais doutores e mestres do pensamento feito, da ideologia solidamente alimentada, que transitam pelos corredores universitários. Nesse caso, me deixo refugiar em sua ironia, pois a percepção pragmática da nossa sociedade que possui um trabalhador, hoje, seria muito mais produtiva para a melhora desse país do que as emulações dos intelectuais brasileiros das grandes entonações retóricas. Ainda mais com tanto espaço virtual, o que não faltam são pretensos Saids, Judts, pretensos continuadores da tradição do alto pensamento secular e catedrático, que montam um blog e imagina-o um púlpito. Se tal trabalhador tivesse ESCLARECIMENTO, contudo…o que não acontece, e por isso o país estar assim, jogado na ausência de tudo e na manipulação. Os intelectuais tais quais vc, para também devolver uma imagem, são semelhantes ao Dr. Pangloss, do Voltaire, que julgam viver no melhor dos mundos. A visão que tenho do Brasil, ainda é dantesca. Uma massa de milhões e milhões de ignorantes, que só pensam ter saído de um ciclo do inferno pelas televisões compradas que lhes dão a alento de pensar que os programas de domingo enaltecendo o presidente são o que os porta-vozes da razão vaticinam como CULTURA. Daí que, quando pessoas tais quais vc surgem defendendo que as mudanças não podem vir de uma vez (a velha cartilha maquiaveliana), que tudo tem que ser lento, ao fogo brando, que nem seria saudável que uma grande conquista ocorrece, é sinal de que realmente estamos na merda. (Vc vai dizer que eu sou um energúmeno que, novamente, disvirtuei todas as palavras de seu sexto parágrafo, tudo bem!)

                    Meu argumento, independente se tenho fixação por biscoitos finos ou ódio pelo Lula, é esse: nada mudou no Brasil. A estabilidade econômica já estava aí (esse é x polêmico da questão). O que agrava mais a inércia, é que os que propalaram a mudança quando chegassem ao poder, são os que compõem um partido que antes era o rei da ética, e hoje, graças à condição eternamente inculta do povinho brasileiro, vai retornar ao posto moral como se nada tivesse acontecido. Mas não vou voltar nisso, pelamordedeus.

                    A esquerzóide latino e brasileira é tão tosca e burra, que metem o pé no Llosa. Isso é o maior exemplo de que a esquerda nacional é iletrada mas se passa por sábia. O Llosa é bichinho perto de um outro escritor caribenho, também detentor do Nobel. Quem? Quem? O Naipaul! Em cada livro dele há uma escracho completo de nossas revoluções, de nossos intelectuais, de nossas inpressões de arrebatamento social. E não aparece ninguém para criticar o cara, por que fica-se mais fácil meter o pau nas entidades instituídas. A esquerda brasileira não lê.

                    Agora com licença que preciso dobrar os talos de algumas plantações de cana, abduzir uma morena gostosa, e telefonar para casa.

                    Menos raiva, se for responder. Cuidado com a pressão.

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                    • Diego, na procura por saber o que é a USAID, (ou Usa-Aid), cheguei ao livro Confissões de um assassino econômico, do John Perkins. Vc deve ter lido. Omar Torrijos eu já admirava; Hugo Chaves não é isso que a imprensa direitista diz que é, e muito menos, tb, o que a imprensa esquerdista afirma que é. Ao menos colocou a gasolina a preços de centavos para os venezuelanos. Uma coisa leva a outra, e acabei por assistir ao excepcional Zeitgeist, com a contribuição de Perkins. Acho, enfim, que nós dois estamos enganados nessa história toda.

                      Abraço.

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                    • Diego Viana disse:

                      Legal Charles, mas então que tal a seguinte proposta: deixar um pouco de lado o que dizem os direitistas, o que dizem os esquerdistas, quem está errado ou quem está certo numa determinada história, pra se concentrar em entender qual é, afinal de contas, a tal da história, e em que se baseia a argumentação? As vantagens são duas: deixar de andar em círculos e clarear uma visão obliterada por rancores.

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                    • Diego Viana disse:

                      Compreendo, mas isso não é um problema tão difícil assim. Basta um esforcinho pra deixar de se preocupar com estar ou não com razão e o exercício que mencionei se torna perfeitamente realizável.

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