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Lula, o sortudo

Parece estabelecido um consenso na imprensa e nos meios formadores de opinião, ao menos do eixo Rio-São Paulo, de que o sucesso do governo recém-encerrado é fruto de um grande lance histórico de sorte, sem o qual teríamos assistido a um fracasso – retumbante, como se diz de todos os fracassos. A tal sorte consiste, segundo esse raciocínio, num aumento espantoso e duradouro (mas não sem precedentes) do preço dos insumos básicos que o Brasil exporta, de minério a grãos, de carne a frutas. Ou seja, acredita-se oficialmente que o bom desempenho econômico dos últimos anos não passa de uma rebarba da expansão chinesa.

Em que pese a verdade bastante parcial dessa leitura fundada em truísmos econômicos, ela não se sustenta quando contraposta aos fatos ou mesmo a uma breve desmontagem analítica. Não apenas já houve choques de demanda e surtos de desenvolvimento antes em nossa história, sob formas tão díspares quanto o Encilhamento e o imediato pós-guerra, sem resultados comparáveis à extraordinária transformação recente do país, como também a forma como o enriquecimento meramente exportador se apresentaria seria dificilmente comparável ao que revelam os dados sobre o desempenho econômico deste início de século. Alimentos mais caros no mercado internacional até agora só fizeram enriquecer, salvo intervenção do Estado, os produtores com escala suficiente desses alimentos – além dos atravessadores e, eventualmente, um efeito bastante limitado sobre a cadeia exportadora. O mesmo fenômeno transparece numa abordagem regional. Estados de vastas terras plantadas, rebanhos incontáveis e minas em profusão se beneficiam da boa cotação das commodities, mas áreas há tempos abandonadas pelo planejamento estratégico da elite dirigente dificilmente vêem a cor do dinheiro. A análise hegemônica é, portanto, auto-refutativa, porque quer explicar como andaram enriquecendo os mais pobres através de uma explicação de como enriqueceriam os mais ricos.

Acho, sim, que Lula pode juntar as mãos e agradecer por ter tido sorte em seu governo. Mas os bons auspícios a que me refiro são outros e pretendo demonstrá-lo. Já ouço um epígono de Nelson Rodrigues sustentando que, sem sorte, nem se chupa picolé, nem se atravessa a rua. Ora, nenhum Mainardi conseguiu atropelar o torneiro mecânico até agora, nem ficou lambuzada sua gravata. Logo, podemos concluir que um mínimo de sorte deve ter o corinthiano-mor da nação. Mas há sortes e sortes, e meu argumento é que Lula teve a maior sorte que um político pode ter: foi o homem certo na hora certa. Seu governo não poderia ter acontecido em nenhum outro momento. A história sorriu para o Brasil e posso garantir que a soja cara não teve tanta parte assim nisso.

Antes da demonstração, uma breve digressão pelo principal motivo do sucesso; se fico nessas idas e vindas, é porque não posso explicar a sorte que vejo em Lula sem esse rápido desvio. Enfim, afirmo sem pestanejar: o último governo foi particularmente bem-sucedido pelo mesmo motivo que o são a maioria dos governos e também gestões privadas que dão certo. Não se pode ignorar esse detalhe aparentemente banal, sob pena de santificar ou demonizar o que não tem nada de extraordinário senão a boa consciência do que esteve fazendo. Assim como o executivo competente ao assumir uma grande empresa em apuros, a equipe de Lula identificou de cara o problema urgente e estrutural do país que iria governar; em seguida, dedicou o principal de suas forças a combater esse problema preciso. Todo o resto veio como conseqüência, na enxurrada de melhorias catalisadas por essa alteração no início da cadeia social e econômica do país.

Por mais que ainda haja muitos a torcer o nariz para políticas sociais, em particular a redistribuição de renda, é fácil perceber que o investimento nas camadas mais pobres da população tem um retorno particularmente produtivo. Empreste dez milhões a uma grande corporação e ela se expandirá em 1%, se tanto. Dissemine a mesma quantia entre famílias miseráveis e seu simples consumo renderá um giro dez vezes maior, sem contar os ganhos de produtividade de quem pode investir na melhoria de suas condições de vida, em vez de passar todo seu tempo a tentar sobreviver. Não se fie por mim, há economistas mais qualificados que o explicam. Considere ainda o quanto pode entravar o desenvolvimento da economia a existência de um contingente de dezenas de milhões de pessoas física e mentalmente incapacitadas – fruto da fome e da exclusão social – de participar a contento da vida produtiva. O quadro se evidencia de presto.

Os jornais, pelo menos os de São Paulo, têm se esforçado para ressaltar o outro lado, o dos defeitos que teve o governo Lula, e que não foram poucos porque jamais o são, em qualquer governo. Mas de que adianta? Esse trabalho de desconstrução parece uma pregação no deserto. Quando é tão patente que um fardo pesadíssimo foi, ou melhor, está sendo tirado das costas do brasileiro, todos os senões ficam parecendo pedregulhos. O mesmo vale para as qualidades, claro. É ótimo que o ensino e a pesquisa tenham sido resgatados nos últimos anos, depois do desastre Paulo Renato. É ótimo que as políticas culturais sustentem mais o verdadeiro criador brasileiro, em vez de subsidiar a vinda dos Cirques du Soleil da vida. Mas tudo isso é ofuscado pela redução radical dos índices de miséria no país. Esse foi, sim, um grande feito, e por si só caracteriza um governo que será lembrado com estima e admiração daqui a 50 anos mesmo por muitos daqueles que hoje lhe têm ojeriza.

Comparemos o sucesso de Lula, em primeiro lugar, com o do governo Cabral no Rio. Acho que todos concordamos que o problema mais urgente e visível do Estado era a violência; poderíamos supor que fosse a estagnação econômica, mas esse é um problema de longo prazo, menos evidente no quotidiano e dificilmente sanável sem um ataque frontal à crise, justamente, da violência. Mesmo que os resultados ainda sejam incipientes e incertos, a concentração de forças no combate às quadrilhas dos morros já deu pelo menos um fruto para o cruzmaltino do palácio Guanabara: uma reeleição em que “não tomou conhecimento” do adversário: 66% a 20%.

Agora, comparando com Fernando Henrique. O grande feito do ex-presidente rubro-negro foi implementado quando ele ainda era ministro de Itamar, como se sabe. Os resultados foram imediatos e lhe valeram, de cara, a eleição e a reeleição – ou alguém duvida de que a vitória de 1998 ainda foi rescaldo de 1994? Por um breve momento, tivemos um vislumbre de tranqüilidade financeira, redução de índices de pobreza e um razoável crescimento do PIB. Mas, com isso e a partir disso, talvez até por isso, FHC perdeu a chance de ser um grande presidente. Sentou em cima dos louros e passou oito anos em reformas de pouca relevância. Privatizações mal trabalhadas, “no limite da irresponsabilidade”, como diria Ricardo Sérgio de Oliveira, exigindo correções até hoje. A Lei de Responsabilidade Fiscal, que seria ótima, não tivesse sido aprovada por um governo que pouco antes tinha cometido uma irresponsabilidade cabeluda, na forma do populismo cambial de 1998, que garantiu a continuidade do governo, mas quebrou o país. Ironia do destino, o ex-presidente e seu partido seguem até hoje vivendo da memória de 1994, incapazes de enxergar tudo que se passou desde então…

Ou seja, a era Lula acertou, sobretudo, pela consciência do ponto nodal, o nó górdio a golpear. Parece uma coisa simples, não parece? E, no entanto, poucos são os que conseguem fazê-lo. E quando o fazem, como Fernando Henrique ao recuperar com os economistas da PUC um projeto de combate à inflação que já vinha se arrastando desde a década anterior, nem sempre são capazes de multiplicar os benefícios para a economia e o país como um todo.

Mas o tema deste texto não é a competência ou a sagacidade comparativa de políticos, e sim a sorte do presidente Lula. Quero defender aqui que essa sorte também é histórica e internacional, como quer crer o consenso das commodities. E para entendê-la, é preciso se colocar diante da seguinte pergunta: por que só agora alguém conseguiu atacar diretamente o entrave desgraçado da miséria? Foi por falta de vontade? Foi por falta de dinheiro? Foi por falta de conhecimentos técnicos, como esses que agora se aplicam após o estudo de diversos modelos de redistribuição de renda em outros países? Em que pese a provável presença de todos esses fatores, creio eu que o principal foi outro: falta de poder.

Convenhamos que não é fácil implementar mudanças estruturais, mesmo que sejam óbvias, em qualquer tipo de organização. Não bastam nem a vontade, nem o trabalho árduo, nem o conhecimento técnico, nem muito menos a boa vontade dos poderosos. No mais das vezes, se a reforma em questão era algo assim tão evidente, deve existir algo bem sério e forte a obstar sua adoção por tanto tempo. Isso vale igualmente para uma empresa que esteja rumando para a falência, uma cidade engolida pela violência, uma economia enterrada em inflação ou um país esperneando de miséria. As estruturas de estagnação e decadência são mantidas e reforçadas por uma cultura, um discurso, uma lógica de sustentação. Mesmo em casos visivelmente patológicos como esse, transparece que “as coisas funcionam”, os participantes tomam o hábito de viver daquela maneira e, o que é mais grave, uma certa fatia deles ainda se beneficia disso. A idéia do “aqui é assim” é fortíssima e constitui a parte mais dura no processo de transformação de uma organização.

Em todos os casos que citei, foi preciso enfrentar essa cristalização de práticas e discursos. Voltemos a nossos exemplos comparativos. Beltrame no Rio teve de enfrentar menos os traficantes e mais a banda podre da polícia, essa que parece ter surpreendido muita gente quando “denunciada” pelo capitão, digo coronel, Nascimento. Francisco Lopes, André Lara Resende e Pérsio Arida tinham lançado as bases do que seria o Plano Real, mas o triunfo sob Fernando Henrique (o ministro, não o presidente) consistiu muito mais em afastar as pressões de quem se beneficiava com a alta inflação – verdade seja dita, quando presidente, o mesmo homem os recompensou com um retorno estratosférico ao capital de curto prazo, mas isso é outro caso.

Também é verdade que essas mudanças paradigmáticas costumam se dar quando os pilares de sustentação do tal sistema da estagnação e da decadência já estão corroídos, enferrujados, podres, precisando de um peteleco apenas para ruir. Mas isso não suprime o mérito de quem soube identificar esses momentos e agir no ponto preciso. Outras tentativas de bloquear a inflação e acabar com a violência no Rio já foram lançadas, mas falharam porque sabotadas previamente. Os beneficiários da estrutura podre ainda tinham músculo.

Agora, a Lula. Se entendemos que ele soube, junto com os quadros de seu partido, identificar e atacar as demandas mais urgentes do país que governou; se concordamos que ele teve o poder de neutralizar suficientemente, embora não completamente, as forças políticas, sociais e econômicas capazes de bloquear suas iniciativas; se está claro que as diversas alianças que fez com inimigos históricos reduziram marginalmente, mas não comprometeram no núcleo, o impacto sobre a história do país desses oito anos de “era Lula”; então onde é que insistimos em dizer que Luiz Inácio teve sorte, sim senhor?

Resposta: o ex-presidente teve sorte de não vencer alguma das três eleições presidenciais em que o derrotaram. Não tivesse chegado ao poder no início deste século, em meio ao processo pelo qual o mundo vai ficando mais redondo e o país mais tridimensional, o torneiro mecânico teria fracassado em sua missão, talvez até de maneira trágica. Mas para sustentar este argumento, preciso virar a página de um outro cenário.

A idéia de que o mundo está ficando mais redondo não tem nada de revolucionário. A “verticalidade” geopolítica, pela qual há alguns poucos países dominantes e todo o resto periférico, não está invalidada e provavelmente retomará sua força habitual dentro de algumas décadas, sob novas formas e com outros personagens, mais espalhados pelo globo. Neste exato momento, porém, todas as hegemonias estão cambaleantes. O continente que dominou o planeta por quatro séculos está em pesadíssima crise de identidade; o país que parecia surgir como império absoluto negou fogo e está tão perdido em sua perseguição a terroristas árabes quanto na luta contra a estagnação econômica; as potências mais emergentes são países gigantescos com pobreza aguda e, uns mais outros menos, instabilidade política. O exercício do poder em escala global, e ainda mais agora, com o abalo diplomático do Wikileaks, é mais penoso do que jamais, porque não está claro quem são os senhores do mundo e suas regras. A força privada, na forma das transnacionais, segue firme, mas seu canal preferencial – a influência sobre Estados e estadistas – está com interferência.

O mesmo se dá em escala nacional. As forças internas que poderiam se contrapor a iniciativas de expansão dos direitos plenos (inclusive econômicos) de cidadania no Brasil estão enfraquecidas. Eu isolaria três fatores de enfraquecimento: primeiro, o cenário internacional, já citado. Segundo, o esgotamento das fórmulas com que se mantiveram hegemônicas até então, como a segregação urbana, a manipulação eleitoral e midiática, as intervenções extra-legais no exercício do poder e assim por diante. E, paradoxalmente, até o crescimento econômico, que fortalece setores menos favorecidos, cria novas demandas e reduz a capacidade que os vencedores têm de exercer pressão sobre os vencidos, porque, com a expansão, os primeiros precisam cada vez mais dos últimos.

Durante todo o século XX, qualquer redução do abismo social foi marginal, fruto de iniciativas cujas verdadeiras finalidades eram outras, seja a industrialização, seja a ocupação territorial, seja o combate a problemas econômicos de base como a inflação. Mesmo assim, esse efeito secundário causou convulsões sociais e políticas, resultando em, de um lado, manobras governamentais que o acalmassem ao menos temporariamente e, de outro lado, golpes, massacres, rebeliões. Acho que não é o caso de entrar em detalhes da nossa história, pra lá de bagunçada e conhecida de todos. Basta fazer essa associação entre ações e reações, numa espécie de segunda lei de Newton político-econômico-sócio-histórica.

Administrar essas reações exige uma habilidade política notável de quem se dispõe a reformular as bases de um sistema instalado como o brasileiro, particularmente num país periférico como costumava ser o Brasil. Getúlio Vargas, com sua política ambígua e sinuosa, é amplamente reconhecido como o mais habilidoso de todos, mas pagou com a deposição e, mais tarde, com a vida. Mesmo assim, a bala que lhe atravessou o pijama só conseguiu adiar em dez anos a avalanche golpista. Talvez tivesse conseguido menos tempo ainda, não fosse Juscelino Kubitschek, avaliado como segundo presidente mais habilidoso, mas incapaz de fazer o sucessor. Ainda assim, foi através desse tênue equilíbrio que o Brasil conseguiu vencer etapas de seu desenvolvimento econômico trôpego e sempre ameaçado. A não ser, claro, em períodos de tirania, incluindo a do próprio Vargas; mas não é difícil enxergar que o desenvolvimento sob tiranias sempre embute e esconde tendências contrárias, manifestas somente à distância do tempo – os anos 80 que o digam.

A habilidade política de Lula parece acima de qualquer dúvida. Mesmo assim, duvido profundamente de que ele fosse capaz de realizar qualquer coisa de efetivo se fosse eleito em 1989, 1994 ou 1998. Não somente porque ao barbudo e seu partido faltava o mínimo de pragmatismo necessário para qualquer ação efetiva, mas também porque as barreiras ainda eram sólidas demais e, sobretudo, porque o poder reativo era de uma potência muito superior à que conhecemos no século XXI. (Não que hoje esteja neutralizado, frisemos sempre.) Em 2005, no terceiro ano de seu mandato, as oposições, notadamente suas vertentes mais conservadoras, acreditaram que conseguiriam neutralizar sua gestão. Queira observar que se trata de neutralizar, não de derrubar, algo que mesmo para os maiores inimigos da gestão PT já não aparecia como possível, nem desejável. Dez anos antes, mesmo cinco anos antes, arrisco dizer, não haveria hesitações: seria partir para a derrubada e ponto final – como Collor foi derrubado, não pela corrupção em seu governo, algo que nunca incomodou ninguém no Brasil, mas pelo incômodo que causou aos poderes vigentes.

Nos últimos dez anos, a América Latina, continente dos ditadores até outro dia, teve dois golpes de Estado: na Venezuela em 2002 e em Honduras em 2009. O primeiro não durou dois dias completos. Começou em 11 de abril e terminou no dia 13, com a volta de Hugo Chávez ao poder. O segundo foi mais bem-sucedido, mas causa dores de cabeça a seus apoiadores até hoje, que o diga Hillary Clinton, desmentida por Julian Assange. Num país com as dimensões e o poder econômico do Brasil, sem esquecer sua projeção midiática internacional, o risco de um golpe de Estado é enorme, sobretudo contra um presidente respeitado e bem avaliado como Luiz Inácio. Nem o regime Bush, enfraquecido por suas iniciativas militares ao redor do globo, meteria a mão. No campo interno, resta aos adversários mais irracionais espernear pela mídia e bloquear iniciativas secundárias, como a CPMF. Enquanto não se chegar a um nível de civilidade razoável nas classes favorecidas do país, não haverá oposição consciente, razoável e construtiva, com propostas alternativas de desenvolvimento claramente estabelecidas e apresentadas. Mas também não haverá espaço para reações violentas com esperança de sucesso. No máximo, como se tem visto, sugestões via Twitter de atentados contra a nova presidente.

Se Lula teve alguma sorte extraordinária, que outros líderes de sucesso não costumam ter, foi essa. Chegou à presidência quando podia ser bem-sucedido sem que o país caísse aos pedaços em golpes, atentados e manobras de bastidores. Tivemos, sim, pequenas doses dessas coisas, mas nada que se compare às crises de nossa história, nem qualquer reação que não pudesse ser debelada por respostas politicamente ágeis da situação. A explosão da cotação dos produtos primários, ao lado disso, se torna irrelevante: nas condições histórico-políticas adversas de outros tempos, o governo Lula teria sido anulado nem que fosse à força, pouco importando a conjuntura econômica, a habilidade política ou o carisma pessoal. Graças à coincidência entre a vitória eleitoral do PT e a evolução do equilíbrio mundial de forças, o Brasil pôde sacar da areia movediça o torso e os braços. Falta agora salvar o resto do corpo.

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11 comentários sobre “Lula, o sortudo

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  2. Apesar de muito bem escrito, e muito ponderado (sem os rasgos messiânicos que se costuma ver em textos esquerdistas que se referem ao Inácio), seu post inadvertidamente não foge ao lugar comum de tantos outros do mesmo gênero: negar que o sucesso desses oito últimos anos em grande parte seja o sucesso de não interferir da imersão do Brasil na situação mundial. Sendo assim, também expresso os meus truísmos. A começar por uma questão que até o Inácio aventou, certa vez: o que seria seu governo se o tivesse exercido antes dos 4 primeiros anos FHC? Ele seria visto com tanta inerte unanimidade por parte dos ditos 83% da população?

    Outra coisa, testando a força inexorável de uma dúvida que não se desvanece por ser clichê: em que o Brasil realmente mudou? Um tanto de assistencialismo, numa emulação capenga do Estado previdenciário, nosso espelhismo que não serve para nada do que se faz com dignidade social nas sociais democracias alemãs e escandinavas, o Bolsa família como distribuição de renda no país de maior desigualdade social das Américas. Um placebo para continuar escondendo que a família que ganha o prêmio mensal do governo é a mesma que paga os mais caros impostos do mundo para não ter educação pública, saúde pública, e a mínima infraestrutura geral que a possam encher o peito de orgulho nacional e dizer que vive num país real, numa realidade que se sustenta efetivamente. Ou seja, o Bolsa Família é um cala a boca guri, um garantidor de votos já que as mazelas humanas a que boa parte da população está submetida trnasformam para a mente sem esclarecimento a migalha que lhe é oferecida, no lugar de seus direitos roubados, numa ação generosa por parte do Inácio patriarcal, Pai do pobres.

    Esses oito anos aprofundaram com uma delicada singeleza os velhos problemas brasileiros. Foram gastos o valor recorde de 8 bilhões de reais em propagandas para pintar o governo com as cores suntuosas do cinema digital. Câmeras voando através de campos verdes cobertos de plantações, a cana de açúcar verde e amarela sendo o símbolo novo da pátria, rostos de crianças tomados por sorrisos esplendorosos por estarem na escola pública integral, e navios, estradas com asfaltos que surpreendem aos desavisados que as acreditam filmadas na França. E o bom e velho Inácio com seu sorriso romano aparecendo cheio da mais calibrada modéstia misturando-se a essa fantasia e sumindo para dar lugar à figura da bandeira, nos efeitos de interposição de câmeras ultra chiques dos marqueteiros geniais. As propagandas do Inácio eram tão emocionantes quanto as propagandas dos bancos, que tiveram ganhos extraordinários jamais vistos na história desse país, durante seu governo. O Brasil continua com a mesma alimentação ufanista lhe dada pelas imagens natalinas e veladamente cristãs da realidade virtual construída pelo governo e bancos para sobrepujar a realidade de mazelas sociais vigente. (Esses dias me vieram lágrimas diante a mais bela propaganda de televisão que já vi, que começa por “criticar” a sociedade de consumo, interpondo soluções onde as pessoas em uma fotografia primorosa aparecem lendo escoradas a estantes gigantescas de livro, e os mesmos sorrisos de criança e rostos jovens bonitos. Feito por alguma ong de qualidade de vida? Por Zigmunt Bauman? Não, pelo Itaú.)

    O ensino público nacional é um crime multitudinário, um açoitamento a que estão submetidos professores, alunos, pais e a sociedade. Fizeram-se críticas, nesse governo, por o governo anterior ter destinado menos que 5% à educação, e o Inácio manteve a mesma faixa percentual. A Venezuela, tão aclamada pelo Inácio, tem o lado bom de suas diretrizes cubanas em vender o petróleo para a população a centavos o litro. O álcool no Brasil do biodiesel sempre foi caro, e hoje seu preço já quase encosta no da gasolina. Sem contar a total conivência do governo aos desmandos das empresas de colheita e beneficiamento da cana, não tendo regulamentos federais para controlar a destruição social, econômica e, não menos importante, ecológica por onde passa. ( A cidade onde moro, Itapuranga, em Goiás, é um microcosmo do que sobra após o “milagre” financeiro trazido pela passagem efêmera das indústrias do álcool.)

    Já é um estudo sério a incompatibilidade do crescimento econômico brasileiro com a precariedade da infraestrutura nacional. Mais de 80% da malha asfáltica do país não presta, sendo boa parte intransitável. Hoje mesmo para se chegar à cidade onde moro, tem-se que fazer desvios de 120 quilômetros por chão, pois três das pontes de BRs caíram sob o efeito da chuva. Normal? Para o Brasil do superfaturamento e das construções capengas e de datas de expiração, sim. Paga-se 40% do valor do automóvel retirado da concessionária em impostos diretos, e tem-se IPVAs montruosos, além de uma gama de outros impostos que deveriam estar indo para as rodovias. O que o Inácio fez? Um dia expus essa questão, e um adepto do inacianismo me respondeu: vc queria que ele tivesse feito tudo, resolvido todos os problemas do Brasil. Resposta: QUERIA, ele não estava aí para isso. E, além de um desenfreiado crédito para financiamentos, e ter levado milhões para uma classe média que nos índices estatísticos se posta no lugar dos subempregos e subsalários, o que foi feito?!?!

    E o maior de todos os problemas que afligem cancerosamente o Brasil: a corrupção. Melhor não falarmos nisso, né. Sarney, mensalão, a família Guerra, Dirceu. Claro, sempre tivemos corruptos em todos os governos, é tradição nacional e nessa época em que o neoliberalismo acirrado mata as tradições, é vantagem que o Inácio tenha preservado esse sagrado laço com nosso passado histórico Allan Bloom teria concordado com isso.

    Não vou tocar também na afasia intelectual por que passa o Brasil, a ponto de resgatar a revista Veja ao posto que ela tinha de contestadora à unanimidade sacralizada dos anos 70 e 80. (Pausa para receber os tomates na cara.)

    Então, o Inácio teve a inteligência de perceber os benefícios da inércia, e a sorte de estar onde esteve, porque qualquer outro em seu lugar teria feito a mesmíssima coisa.

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    • Diego Viana disse:

      Olá Charles, agradeço muito seu comentário. Fico feliz de poder ter um mínimo de debate por aqui. Por outro lado, peço que você não ligue se minha linguagem for insuficientemente empolada, é que estou num momento um tanto objetivo.

      Bom, respondendo ao que você escreveu (e acho que devo fazer isso por parte), vejo aí alguns equívocos de análise e, à parte isso, uma compreensão bastante enviesada de seu teor, objetivo e alcance. Atribuo esse viés, bem como os equívocos que pretendo apontar daqui por diante, a um rancor político contra Lula. Ora, compreendo que esse rancor exista da parte de seus adversários, mas ele não é extensivo a mim e, portanto, ao interpretar meu texto, mais vale deixá-lo à soleira da porta. Digo isso porque a ausência de “rasgos messiânicos” é fruto do fato de que o meu não é um “texto esquerdista”, mas uma avaliação de um certo fator de sorte que rendeu sucesso ao governo de seu desafeto Luiz Inácio. A questão não é saber se ele é “o cara” ou não, isso é irrelevante, assim como fazer birra contra ele – a propósito, isso é o que torna comentaristas como Dora Kramer tão irrelevantes: estão cegos para tudo que se passa em seu entorno, no afã que estão de compartilhar com o leitor seu rancor contra um indivíduo.

      Você diz que eu nego que o sucesso brasileiro nos últimos anos advém, em parte, da imersão na situação mundial. A única resposta que posso dar a respeito é pedir que releia o texto, desta vez com calma, e observe que há pelo menos três parágrafos sobre a situação mundial. É claro que eu não tomo ela apenas em seu âmbito financeiro-comercial, mas desculpe se acho a geopolítica mais complexa do que um balanço de comércio ultramarino. Aliás, um dos primeiros parágrafos consiste numa refutação dessa associação imediata entre o sucesso do governo Lula e condições comerciais internacionais. Como eu tento demonstrar mais adiante (nos outros parágrafos sobre a questão internacional), há mais em um governo do que o econômico.

      Sobre sua pergunta: “o que seria do governo Lula sem o governo anterior?”: não está no âmbito deste texto. Eu poderia escrever um texto sobre isso, mas já sei que seria um texto inútil. “E se…” não serve para grandes coisas. O que seria do governo FHC se não tivesse havido período Vargas, Juscelino, ditadura, Sarney, Collor e Itamar? Sei lá eu, ora, que pergunta mais ociosa!

      Será que essa unanimidade (unanimidade é 100%, mas deixemos isso de lado) é tão inerte assim? Recomendo a leitura da Época da última semana.

      “Em que o Brasil realmente mudou?” Compreendo que isso seja dificilmente visível para uma camada da população à qual pertencemos ambos, pelo visto. Em todo caso, eu tive o privilégio de ver bem essa mudança pelo fato de ter passado quatro anos fora do país no meio desse governo e, sem sombra de dúvida, a mudança é estarrecedora. Vejo (pelas fotos com a qual você ilustrou este comentário em sua republicação na sua própria página) que aspectos da população do país o incomodam bastante, sobretudo quando saem de seu, digamos assim, devido lugar. Compreendo perfeitamente esse sentimento, mas quero sublinhar que ele é uma reação, sobretudo inconsciente, pulsional mesmo, às mudanças que o país vem sofrendo. Potencialmente, toda a estrutura de relações sociais que vigem no Brasil há séculos está abalada, porque há cada vez menos gente obrigada a baixar sempre a cabeça para não dar sempre com a cara na porta. Esse fato simples certamente incomodará, como já vem incomodando, quem sempre andou com a cabeça altiva; tanto pior, em meio século talvez o Brasil seja antropologicamente irreconhecível e é bom o Agripino Maia entender isso se não quiser desaparecer nas brumas da irrelevância.

      Em todo caso, é de um simplismo ululante e incompreensível para alguém com o texto tão sofisticado como o seu a associação direta e acrítica entre as políticas sociais do último governo e o “assistencialismo” (termo guarda-chuva que manifesta pouco mais do que rancor, por sua falta de clareza conceitual.) Amigo, exorcise a Dora Kramer que há dentro de você! Bolsa-família, Luz Para Todos, Prouni, Reuni etc. são programas muito mais complexos do que a distribuição de comida ou de dinheiro vivo que acontecia antigamente no Brasil, fazem parte de uma estrutura de recuperação de populações marginalizadas e inserção de pessoas na cidadania moderna (leia-se atividade econômica), a partir de iniciativas e estudos feitos em muitos lugares do mundo. Sua comparação com a Europa não procede de maneira alguma, acredite. Não se trata de Estado de bem-estar, por exemplo, que ainda falta muito para chegarmos a algo desse nível. Trata-se de quebra de um ciclo altamente vicioso.

      Altamente vicioso, eu disse? Tendo lido o exposto acima, talvez você consiga entender o que eu quis dizer com a idéia de atacar um ponto nodal muito bem focalizado. Foi o que Fernando Henrique fez em 1994 (para depois ir jogar buraco com os amigos no Planalto) e Lula fez em seus dois mandatos. Detalhe: a primeira vez que votei no PT em toda minha vida faz exatos três meses.

      O que é um “Estado previdenciário”?

      Prosseguindo nos equívocos.

      1) A família que paga um dos impostos mais altos do mundo não é a mesma que ganha o bolsa-família. A família que ganha o bolsa-família praticamente não tem renda e praticamente não consome.

      2) Sugiro a você pesquisar a carga tributária que incide especificamente sobre as famílias no Brasil (e não sobre, por exemplo, as empresas). Você há de ficar surpreso.

      3) “o Bolsa Família é um cala a boca guri, um garantidor de votos já que as mazelas humanas a que boa parte da população está submetida trnasformam para a mente sem esclarecimento a migalha que lhe é oferecida, no lugar de seus direitos roubados, numa ação generosa por parte do Inácio patriarcal, Pai do pobres.”
      Amigo, clique no paper do Marcelo Neri que linquei acima. Não custa nada, mas ensina muito. É que ele estudou o assunto, ao contrário da Dora Kramer.

      4) “Esses oito anos aprofundaram com uma delicada singeleza os velhos problemas brasileiros.”
      Claramente você não conhece quais são os velhos problemas brasileiros. Para isso, recomendo a leitura da matéria da Época que citei, mas também, e com muita calma e atenção, as obras de Gilberto Freyre e Roberto DaMatta.

      5) Lula não é exatamente o inventor da propaganda política, mas, em todo caso, vai por mim: a França não é tudo isso e grande parte da imagem que temos dela é fruto de séculos e séculos de propaganda muito bem feita.

      6) Putz, você tem razão, essa publicidade do Itaú é de matar, eu sempre troco de canal quando ela começa. Pior que isso, só aquela favela cenográfica do Serra, coisa de quem realmente não tem idéia do país em que vive… (ops, eu botei um número aqui, mas não é um equívoco… bom, não faz mal.) Aliás, você menciona Zygmunt Bauman mas fala do Brasil como a Dora Kramer?! Como é possível?!

      7) O ensino público brasileiro é realmente um lixo, mas o desempenho dos alunos das escolas federais tem melhorado substancialmente nos últimos anos. Em todo caso, atribuo isso mais ao Haddad do que ao Lula. Seja como for, esqueça esse meu comentário e tente relembrar o argumento central do meu texto. (Tenha o argumento central sempre em mente ao ler um texto, seja do Bauman, seja meu, seja da Dora Kramer. É melhor do que ter em mente seu rancor.) A questão é o FOCO NO PONTO NODAL, não um sobrevôo de todos os pontos que um governo tem a tratar…

      8) A questão da reforma agrária é de fato um dos pontos mais fracos do governo Lula. Ver a última frase da nota acima.

      9) Um dia expus essa questão, e um adepto do inacianismo me respondeu: vc queria que ele tivesse feito tudo, resolvido todos os problemas do Brasil. Resposta: QUERIA, ele não estava aí para isso. E, além de um desenfreiado crédito para financiamentos, e ter levado milhões para uma classe média que nos índices estatísticos se posta no lugar dos subempregos e subsalários, o que foi feito?!?!
      Fico surpreso de ver que você tinha esperanças tão altas sobre o governo Lula. Você era bem mais esperançoso que eu. Em todo caso, lembre-se que o crescimento gera demanda por infra-estrutura, algo que não acontecia no longo tempo da estagnação nacional, quando a falta de infra-estrutura não nos incomodava em nada, nem ninguém queria investir nela. (Sobretudo com um presidente que jogava buraco com os amigos no planalto, satisfeito porque oito anos antes tinha combatido a inflação.) Em outras palavras: hoje, o brasileiro que antes andava de cabeça baixa pode circular pelo país e isso exige mais investimentos em infra-estrutura. Queira observar que, no meu texto, eu falei que o ataque ao ponto nodal e fundamental dos problemas no país repercute pelas outras áreas. Está vendo? Você levantou um bom exemplo, obrigado. Acho que você está se revelando um belo inacista!

      10) Lembre-se sempre de que a corrupção nasce no interior de um sistema em que ela é possível e constituinte. De repente, o brasileiro de classe média alta “esqueceu” desse sistema e passou a encará-la substancialmente, grudando-a em figuras de que não gosta (mesmo as de que antes até gostava, aliás). É uma pena, um emburrecimento de uma classe que deveria ser mais cultivada. Em todo caso, o enfraquecimento do clientelismo como efeito, justamente, do ataque ao ponto nodal da exclusão sócio-econômica (como se vê pela decadência inexorável do PFL e pelo relativo enfraquecimento do PMDB – creia-me, espere ver em 2014) parece indicar que a corrpução endêmica no país tem potencialmente cada vez menos espaço para se desenvolver. Tenho certeza que Allan Bloom seria sagaz o suficiente para perceber isso, talvez não por suas próprias obras, mas por sua proximidade com o hegelianismo de Kojève.

      11) Amigo, a Veja É o tomate. Não serve nem para contestar unanimidades, porque isso não se faz com adjetivos, rancores e, vamos falar claramente, fraudes. Melhor seria usar dados.

      Por fim, quero dizer algo importante. O Brasil precisa personalizar menos sua própria história. A questão não é de saber se Lula teve ou não teve a inteligência (ué, não era um apedeuta?) de perceber isso ou aquilo. Ao contrário do que pensa um leitor da Dora Kramer, o partido dele tem excelentes quadros, que vêm estudando o país há décadas. Lula é apenas um político, aliás um político de rara intuição. Veja que eu falei diversas vezes em “Lula e sua equipe”. Outros partidos também têm bons quadros, como o próprio PSDB. Mas seria melhor que o PSDB usasse esses quadros, em vez de ficar nessa guerra de cardeais que suprime todo o potencial de ação do partido. Enfim, estou entrando em outra senda, e imagino que esse assunto deve estar soando como grego, já que a moda agora é ter rancor contra a figura do Lula, que pode não ser “o cara” mas é “um” cara, e não um resumo da história recente do país. DaMatta tem razão, ainda somos muito aristocráticos na maneira de pensar!

      Um abraço,
      Diego

      PS: Autorizo a reprodução desta resposta no blog onde você reproduziu seu comentário.

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  3. Diego, nessa discussão _ que vejo como um grande presente de esclarecimento, por mais que nossas visões sejam solidamente opostas_ há equívocos gritantes de interpretações dos dois lados. Como apontastes os meus, aponto os seus. (Claro que, no meu caso, possa ser culpa da rapidez com que escrevi o longo comentário a seu post, que talvez tenha promovido uma outra interpretação.) Vamos por partes:

    – O que de imediato me impulsionou a responder, foi a sua referência às fotos que juntei ao meu texto no meu blog como sendo a de querer que o “zé povinho” fique em seu devido lugar, de cabeça baixa. Isso é pura dialética do Idelber Avelar, a de que exista ressentimento de classe. Se voltar a ler a introdução em itálico, verás que as fotos são puramente de cunho humorístico, e irônico, já que é época de véspera de carnaval e costuma-se não falar sobre questões intelectuais mais profundas que traseiro de mulata. EM NENHUM LUGAR QUIS SEQUER AVENTAR QUE A POBREZA DEVA FICAR QUIETA EM SEU CANTO, SEM INCOMODAR A CLASSE ABASTADA. Mesmo pq eu não faço parte da classe abastada. Vivo dignamente, sou funcionário público federal, e tenho preocupações legítimas sociais por já ter sido professor e por conhecer a fundo a realidade não mostrada pelas propagandas do governo. Teria sido ofensivo essa passagem de sua réplica, mas não tenho esses mimos e estamos aqui cordialmente e com simpatia.

    -Dora Kramer, que parece ser o seu Satã, por mais que vc não vá acreditar, eu NUNCA a li. Nem sei de quem se trata, pra falar francamente.

    – Como não as famílias pobres não pagam impostos? Em cada produto das prateleiras de supermercado há o dobro de seu preço real em impostos? Vc quer me convencer de que os ricos pagam mais impostos do que os pobres, que são isentos? Assistencialismo que se preze é igual ao velho diabo judeu, quanto mais age, menos mostar suas credenciais hadesianas.

    -Eu não odeio o Lula, só o vejo sem partidarismo. (Esqueci de uma parte de seu post, que trata da ajuda do Governo Federal na erradicação da criminalidade no Morro do Alemão: mas o Estado só agiu quando absurdamente provocado. Vc escreve de forma a dar a entender que Lula começou a extirpação desde quando entrou na presidência. Ele, ao contrário, imiscuí-se de agir até que ônibus em chamas e um governador desesperado, e uma população NO LIMITE, o obrigou a isso.)

    _ Não tenho mais tempo agora, o que lamento, mas uma última palavra: talvez essa Dora Kramer a que tanto lhe incomoda seja, enfim, uma representante de uma parte de brasileiros que queriam mais de um presidente surfista e fanfarrão, e que repudiam o jogo político que o PT lançou sobre o país. Não sei, ou talvez seja um outro Azevedo. Aliás, quanto a isso, não compartilho o velho rancor chauvinista que a direita e a esquerda alimentam qreciprocamente quanto a seus intelectuais. Gosto tanto de frei Beto, o Arbex, quanto o Magnoli, e achei ótima as análises dessa última veja sobre o governo Inácio. A imprensa brasileira é lastimável, mas a Carta e a Veja estão no mesmo saco.

    -83% não é unanimidade?

    Forte abraço. De todo modo, é um refresco encontrar textos como os seus, de tal forma que me motivou a contrapor a minha opinião a respeito.

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    • Diego Viana disse:

      Salve Charles,

      Espero conseguir demonstrar que nossas visões não são tão opostas assim; mais opostas são nossas volições. Na verdade, aí entra a questão da unanimidade de 83%, que é fundamental, importantíssima. Está longe de se configurar como filigrana etimológica, a questão do “uno” dentro de unânime. É que a estatística é formada de uma maneira tal que reduz, para efeito de simplificação das leituras, todo um espectro de singularidades a classes estanques. Ou seja, esses 83% comportam uma infinidade de opiniões sobre o governo Lula e o Lula (queira observar que “governo Lula” e “Lula” são coisas diferentes, algo que enriqueceria muito sua análise e, mais ainda, a dos colunistas que você cita). Você atribui a esses 83% um messianismo mas isso é falso, um sofisma verdadeiramente patente. Nesse espectro estão desde os messiânicos até aqueles que ponderam diversos pontos antes de julgar. O problema parece estar nos outros 17%, não porque eles não tenham o direito de respnder “ruim” ou “péssimo” às cinco alternativas oferecidas pelo pesquisador, mas porque parecem ter entrado numa onda de dividir o mundo em “amigo” e “inimigo”, altamente perigosa. O rancor que você demonstra é fruto disso e aqui em São Paulo é gritante, numa escala de 83% (digo isso no meio meio de classe média, claro) a 17% de pessoas que tentam dizer “vamos com calma”.

      – Às vezes o que não queremos dizer diz mais do que o que queríamos ter dito. Aquilo que achamos ridículo, estranho ou absurdo define muito melhor o que anda pelas nossas pulsões do que nossas palavras explicitadas. Por sinal, você não acha curioso e significativo que uma das imagens que você escolheu tenha fornecido o título de meu penúltimo post? Elas transmitem impressões diferentes para diferentes pessoas, a começar por nós dois, mas a imagem é a mesma. O inconsciente de cada um é que varia… mantenho o que afirmei.

      – Dora Kramer não é nenhuma satã, coitada… antes fosse. Tomei-a como exemplo um pouco por acaso, mas poderia ter sido qualquer outro colunista que se dispõe a manter a análise no nível mais raso para poder se descabelar sobre Lula, Dilma, o PT ou qualquer coisa que incomode seus superiores na redação. Sugiro a você um exercício divertidíssimo: ler a coluna da Eliane Cantanhêde da quarta-feira última e, logo em seguida, a coluna de quinta-feira da Maria Inês Nassif no Valor. É emocionante.

      Eu não disse que essas famílias (miseráveis, não pobres, não confunda as coisas, essa distinção é importantíssima e sua ausência explica um pouco por que você enxerga assistencialismo por todo lado) não pagam impostos, eu disse que não são elas que pagam os mais altos impostos do mundo. Quem paga os mais altos impostoso do mundo, e aí você tem razão, são as famílias pobres (em oposição às miseráveis, que recebem a atenção específica dos programas sociais). Isso é um problema antiquíssimo do Brasil e não vai ser o rancor a mudar isso. Aliás, arrisco a dizer que a erradicação da miséria tiraria um peso fiscal gigantesco de cima dos ombros das famílias pobres, mas esse não é o tema aqui.

      – Amigo, por favor releia meu texto. Nele não há uma palavra sequer, ZERO, sobre intervenção federal no morro do Alemão. O que eu digo sobre o Rio de Janeiro se refere exclusivamente ao governo Cabral (está lá, pode conferir) e não é sobre o Alemão, mas sobre as UPPs.

      – Desculpe, mas eu acho que você deveria ser mais honesto consigo mesmo. Sem partidarismo? Ora, você deve achar que eu sou muito ingênuo…

      – Taí uma coisa boa que você mencionou. Jogo político que o PT jogou sobre o país?! Eu realmente gostaria que alguém me explicasse isso sem adjetivos e rancores. Como assim, jogo político que o PT jogou sobre o país? Assim como todos os países, o Brasil sempre esteve imerso em jogos políticos e o PT é só mais um de seus atores. PMDB, PSDB, PFL, PSB, PPB, PDT, etc etc etc, fazem jogo político o tempo inteiro, já que, afinal de contas, são partidos políticos, e a única diferença do PT e, em menor escala, do PSDB, é que ele conseguiu algum resultado concreto de longo prazo a partir disso. Tanto é que os partidos que mais fazem o que há de pior no jogo político brasileiro, que são o PMDB e o PFL, estão com seu poder abalado. (E o PSDB deveria ser mais esperto para perceber isso, em vez de ficar querendo pintar Lula – a pessoa, o indivíduo, um sujeito com dois braços e duas pernas – como o demônio). Tudo isso pode mudar amanhã, por suposto. É claro que o PT daqui por diante pode ir jogar buraco em São Bernardo como Fernano Henrique fez no Planalto durante seu governo. Espero que não aconteça, estarei atento a isso. Prefiro que o PT continue tirando espaço dos clientelistas e, ó sonho, que o PSDB volte a ouvir seus melhores quadros para ter propostas para o país. Seria um cenário belíssimo. Mas nada impede que ambos esses partidos se percam em jogos partidários internos e o PMDB e o PFL voltem a nos assombrar profundamente. Deus nos livre e guarde. (Sem esquecer que há partidos médios em crescimento, como o PSB. Mas é difícil avaliar agora o que eles trarão de novidades.)

      Você diz aí uma coisa que já venho observando há algum tempo por aí. Lula ser surfista (ele é surfista?) não seria problema algum, mas o que é que o define como fanfarrão, exatamente? Ele é boquirroto e pouco cultivado, disso não há dúvidas, mas politicamente fez seu papel, ou seja, segurou bem as forças políticas enquanto sua equipe tentava tocar seus projetos. Melhor seria ter um presidente poliglota e bem vestido que ficasse oito anos jogando baralho no Planalto? Parece ser a opinião de muita gente na classe média brasileira, particularmente na imprensa. Ou seja, o importante nesse meio é a imagem. Interessante.

      Abraço
      Diego

      PS: Voltando à coisa da não-oposição diametral. Percebe como a questão não é “amar Lula” x “odiar Lula”? A questão é entender para onde vão as coisas e quais são os gestos que as levam nessa direção. Mas para olhar as coisas assim, é preciso distanciar-se dos rancores e, principalmente, dos adjetivos jocosos.

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  4. Diego, estou trabalhando hoje, pois faço escala de plantão num frigorífero (sou veterinário, inspetor de abate). Queria muito responder agora à tréplica, mas não tenho tempo. Mas…

    Juro com toda a minha alma para você: até ontem, nunca tinha visto o seu blog. Que incrível coincidência eu ter postado a foto de seu penúltimo post em meu texto, no meu blog. Só a vi aqui, agora, após vc mencionar a simetria. Procurei no Google images fotos de “carnaval” (faça o mesmo e verás!), e ela apareceu. Acredite, não foi cutucada nem malediscência (eu seria o primeiro a assumir, alegremente), mas uma coincidência paranormal.

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  5. Ah! Há um texto meu lá no blog sobre voto facultativo. Há dez anos que EU não voto. Pareceu-me estarrecedor demais estar entre Serra e Dilma, com uma obrigação nas mãos.

    Errata: frigorífico.

    Abraço.

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    • Diego Viana disse:

      Oi Charles, não se preocupe, eu não quis dizer que você tomou a foto de mim, nem nada, até porque ela não é minha. Citei essa foto como exemplo de como uma mesma imagem pode transmitir significações opostas para diferentes pessoas.
      Abs
      Diego

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  6. Rafa disse:

    Análise muito interessante, Diego.

    Ajuda a desmontar a visão propagada por parte da mídia (e reverberada pela classe média/alta) de que a gestão Lula teve sucesso econômico apenas porque manteve “tudo igual ao governo FHC” e teve sorte com o preço das comoddities.

    Só acho que você poderia ter enriquecido a análise com a menção a alguns dados/estudos relativos a diminuição da miséria e ascenção de classe no Brasil.

    Poderia-se estabelecer também (em um outro texto?) um diálogo com os artigos do André Singer e do Marcos Nobre, que saíram na Piauí no ano passado, analisando o apoio com que conta Lula nas classes médias/baixas, e a sua relação com o PT e o PMDB.

    De toda forma, boa reflexão, camarada!

    Abraços,

    – Rafa (dO Visconde)

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    • Diego Viana disse:

      Grandicíssimo Rafa dO (aka Rafa Punk)!

      Bom te ver por aqui. Você tem razão, citar papers seria bom. Na verdade, citei um do Marcelo Néri, que está lincado. Foi o único que encontrei facilmente disponível numa breve busca pela internet. Se você tiver acesso a outros, manda aí que eu linco com certeza.

      O do André Singer que você diz é o que fala sobre “lulismo”? Se for esse, foi publicado na Novos Estudos. O do Marcos Nobre é aquele sobre “pemedebismo”? Acho que não tem muito a ver com este post, realmente, mas se você está fazendo uma encomenda pra outro post, posso dar uma investigada…

      Abraços e volte sempre,
      Diego

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