barbárie, Brasil, cidade, comunicação, costumes, crime, descoberta, Ensaio, Filosofia, guerra, história, modernidade, morte, opinião, passado, pena, Politica, prosa, reflexão

Policial e passista no discurso do Alemão

Tem razão quem duvida de que a tomada de favelas vai acabar com o tráfico de drogas, no Rio ou qualquer outro lugar. Também tem razão quem torce o nariz para a idéia de que a entrada do exército e da marinha em favelas represente qualquer tipo de paz. Está coberto de razão quem frisa que o simples fato de expulsar traficantes de seus enclaves não garante que estejamos livres nem desses criminosos, nem de suas substitutas igualmente sinistras, as milícias. Mas não tem razão quem vê pouco ou nenhum motivo para esperança, quem só enxerga pirotecnia na operação policial-militar, quem leva o saudável ceticismo a um paroxismo nada saudável.

Os eventos das últimas semanas no Rio de Janeiro envolvem a questão das drogas, da violência urbana brasileira, da favelização, mas não gravitam em torno de nenhum desses desafios. O centro do problema é outro e deve ser abordado. Entre os discursos triunfalistas, o ceticismo, a ode ao Bope e o horror à violência, vibram pequenos elementos a reverberar algo mais relevante do que blindados e bazucas. Por exemplo, parece que o termo “guerra” pegou, quando se fala na violência armada carioca dos últimos 30 anos. Há tempos já se fala em guerra urbana, guerra do tráfico, guerra dos morros, guerra civil. Mas agora o termo se generalizou: “Guerra do Rio”, conforme os chapéus nos jornais. Por outro lado, a expressão, tão logo se afirmou como sintagma favorito de todos os envolvidos, se esvaziou. É paradoxal, ou seja, é capital.

Seria repetitivo lembrar que o que há no Rio não é propriamente uma guerra, porque guerra é definida como o conflito entre duas entidades organizadas por um mesmo poder ou território. Enfim, os morros são territórios, quadrilhas são entidades organizadas e, em princípio, o Estado também. Acontece que, por quase três décadas, ninguém teve verdadeiro interesse em chegar à vitória, como é de se esperar das guerras. Por mais que, na PM como no CV (e demais facções) houvesse “soldados” e outros graus de hierarquia militar; por mais impressionantes que fossem as imagens de fuzis, bazucas e balas traçantes; parecia faltar ao conflito aquela busca pela glória, pelo triunfo, pela efetiva conquista, traços distintivos do universo bélico desde sempre. Mesmo assim, a noção de “guerra” permeia o discurso. Uma guerra não-guerra, uma noção sem definição, um conceito descolado dos fatos. Se formos seguir a definição acima, a guerra que havia acontecia, na realidade, entre as diferentes facções, mas isso não torna o Rio de Janeiro em nada diferente das demais cidades, no mundo, que enfrentaram embates de quadrilhas. Chicago que o diga.

De repente, algo acontece. Uma mudança que poderia encaixar o conceito carioca na definição de guerra que, tal como reproduzida há alguns parágrafos, parece ser a preferida. O Estado, na figura da polícia, começa a invadir os morros ocupados por traficantes para instalar UPPs e, segundo o prefeito, diversos serviços sociais (não estou subscrevendo às declarações do prefeito, só apontando). Mas a definição passa raspando mais uma vez. A cada investida policial, os criminosos ocupantes fugiam e quase não se disparavam tiros. Nem no Cantagalo, nem no Dona Marta, nem mesmo nos perigosíssimos morros ao redor da Tijuca.

Há três semanas, veio enfim o contra-ataque dos traficantes, com carros queimados e pânico na população. Na população, eu disse? Eis aí uma possível chave para o aparente paradoxo da “guerra-sem-guerra” carioca. A população é um personagem pouco mencionado, pelo menos como personagem. Mas exerce tantos papéis que se torna o grande pivô na disputa e razão ao mesmo tempo para a força e a impotência da noção de guerra. Para o Estado, esse personagem é eleitor e responsável, através do voto, por instituir o governo; é opinião pública, a ser cortejada e manejada com imagens de ladrões presos e drogas apreendidas; é fonte de receita, quando paga impostos. Para o criminoso, é antes de tudo o cliente que financia as atividades ilícitas pelo seu consumo de entorpecentes; é instrumento de pressão sobre o Estado, por meio de ataques como os que abalaram São Paulo em 2006; é fonte de receitas extraordinárias, através de assaltos, arrastões e outros crimes “comuns”. À parte essa clivagem e, em tese, acima disso tudo, é o conjunto dos cidadãos, termo definido como “membro pleno de uma comunidade política”, com origem na antiga idéia da “cidade”. Bela coincidência, a circularidade etimológica.

Por meio desses inúmeros papéis, o cidadão modula o funcionamento e o sentido da estranha conjuntura à qual o Rio de Janeiro se acostumou. Como eleitor, ele deve ser cortejado, senão enganado. Como alvo, deve ser assustado e, de preferência, reagir com indignação anódina. Como consumidor, deve ser satisfeito. E assim por diante. Por outro lado, a lógica das relações entre esses três atores – Estado, criminosos, cidadãos – também define quem acede à condição de cidadão, na definição acima. Por exemplo: quando a polícia sobe (ou subia, sejamos esperançosos) a favela tratando todos os moradores como criminosos, dá (desculpe, dava) o recado de que aquelas pessoas não devem se considerar cidadãs, ou seja, membros plenos da sociedade. Outro exemplo: quando moradores dessas comunidades são impedidas de sair de casa à noite por toques de recolher, são informados implicitamente de que não contam como cidadãos – o cidadão, lembremo-nos, tem o direito de ir e vir. Mais um exemplo: por estarem à margem e não pagarem determinados impostos, por não receberem serviços públicos básicos, por não estarem submetidos a leis como a do zoneamento, todo um contingente, que passa de um milhão de pessoas só na capital fluminense, tem extirpado o direito de se considerar verdadeiramente cidadão.

Pois essa é a situação, prenhe de clivagens e tensões internas. Um domínio territorial na mão do crime, um Estado que reconhece como cidadãos só uma parte de sua população, milhões de pessoas tendo de definir suas possibilidades de atuação de acordo com a estranha e mal definida relação entre legal e ilegal, violência legítima e ilegítima, cidadania plena e limitada. É uma conjuntura fundada sobre dois alicerces, a desigualdade (não apenas de renda, também de direitos, poderes e inscrições) e o conflito. E qualquer configuração social fundada sobre a desigualdade será uma configuração de conflito.

Até onde sei, não existe uma palavra que defina precisamente uma conjuntura como a carioca nos últimos trinta anos. É por isso que a noção de guerra se estabeleceu tão bem, apesar de sua imperfeição. “Guerra” expressa violência, expressa suspensão de direitos, expressa incertezas, medos, relações ancoradas no poder de fogo e no sufocamento do quotidiano. São coisas que o carioca conhece bem, ainda que a disputa não seja propriamente bélica, no sentido estrito. Como deixa escapar, por exemplo, o primeiro filme Tropa de Elite, o que há de guerra no Rio de Janeiro não é a disputa e a busca da vitória, mas o equilíbrio meta-estável estabelecido sobre a violência, o terror, a ameaça constante e, cabe lembrar, um instrumento cuja função é evitar que as tensões ultrapassem certos limites: a polícia de elite.

O Rio de Janeiro passou os últimos trinta anos, e talvez passe os próximos trinta também – façam suas apostas – regido por um sistema de violência. Mais do que sistema: uma lógica de violência, porque, como expressa o próprio termo “lógica”, o caso carioca consiste na atualização diária de um discurso de violência. Manifestações singulares desse discurso são as invasões de favelas, as execuções de desafetos, os incêndios de ônibus e carros, as balas perdidas, uma infinidade de fenômenos familiares aos cariocas, que fazem pipocar à flor da pele a ordem até então subterrânea. Porém, não se pode esquecer que as manifestações singulares são a face visível de toda essa lógica. Um epifenômeno, sem querer desmerecer o horror da violência. Mais horrível é o próprio sistema, a própria lógica, o próprio discurso: passar trinta anos circulando no interior de um modo de viver e se relacionar indissociável do medo, da morte e do conflito.

Dentro desse sistema, dessa “guerra” tão carioca que não é uma guerra inteiramente, a tomada da Vila Cruzeiro e do Complexo do Alemão é simbólica. Como resposta à escalada do conflito por parte dos criminosos – que visavam a população, não o Estado –, a polícia pediu e obteve a ajuda das Forças Armadas. Blindados, tanques, helicópteros, tudo que pode impressionar as câmeras e dar sustentação ao título de “Guerra do Rio”, que encabeçou as matérias dos principais jornais e redes de televisão. Somando o clima de medo, a disputa de território e, até que enfim, as fardas, pareciam estar reunidos todos os elementos para que a “guerra”, no sentido figurado, se tornasse uma guerra de fato, conforme definida acima.

Mas o conceito foi frustrado, mais uma vez, pela opção dos criminosos em fugir. Se ficassem, seriam algo como um exército inimigo, teríamos algo mais próximo de uma guerra civil no sentido pleno. É por esse motivo que podemos dizer, do conflito carioca, que não era mesmo nada de guerra, mas uma outra coisa. Mais importante ainda: sendo assim, o espetacular, grandioso e, esperamos, último ato de violência que foi colocar as Forças Armadas no coração de uma metrópole brasileira passa a sugerir a possibilidade de que a lógica da violência já não dá resultados, que o discurso da violência perdeu o sentido, que o sistema pode estar ficando para trás.

É uma certeza? Não. É possível que se ande para trás? Claro. Mesmo que seja sincera a disposição de instaurar uma lógica mais civil e pacífica na Cidade Maravilhosa, as três décadas de discurso do terror, da ilegalidade e da divisão podem ser mais poderosas, a ponto de pôr tudo a perder. Não sou de lisonjear governos, não direi que Sérgio Cabral e Eduardo Paes estejam trazendo a paz ao Rio montados em tanques, UPPs e o PAC – nem seria possível dizer isso do governo Cabral, que antes das unidades pacificadoras tinha escolhido a via do confronto direto e mortífero. Mas os elementos de reorientação lógica estão colocados e bem claros.

É importante frisar que a vistosa invasão das duas perigosas favelas, a Vila Cruzeiro e o complexo do Alemão, continua sendo um gesto de violência e, portanto, segue inscrita na lógica da violência. Mas o gesto vem acompanhado de um outro discurso, verdadeira novidade no contexto dos conflitos cariocas. Por um lado, os representantes do Estado dizem ter mudado o foco. José Mariano Beltrame, o secretário de Segurança, não se cansa de repetir que a idéia não é eliminar o tráfico de drogas, mas recuperar para o Estado (ele deveria ter dito sociedade) uma parte do seu território que estava nas mãos de criminosos. O Rio de Janeiro passaria a ter, então, um “tráfico normal”, isto é, como no resto do mundo. Policiais continuam a abusar dos moradores das comunidades invadidas, mas desta vez há, ao menos, alguma vontade de puni-los, ou seja, talvez a era do “tapa na cara de favelado” tenha ficado para trás – oxalá. Já o prefeito prometeu uma “invasão de serviços”, o que não passa de promessa, mas é uma promessa quase inédita na cidade em que o projeto Favela-bairro maquiava a aparência dos morros e um ex-prefeito chegou a louvar as milícias como solução para a “guerra urbana”.

Palavras são palavras, e só. Mas o discurso, como eu já disse, é a primeira etapa de uma lógica. Difícil de perceber, talvez, para quem recebe as imagens da televisão, lê os relatos dos jornais e sabe que qualquer promessa de político deve ser recebida com muita desconfiança. Eu diria que o sinal mais confiável de que um outro discurso vai brotando na cidade está no outro lado, o da população. Mais especificamente, penso nos moradores do Alemão, que receberam a entrada do Estado de uma forma surpreendentemente pouco traumática, em comparação com a dor e a desconfiança de invasões policiais anteriores. Aquilo que é inefável e meramente sugerido para quem está distante, ao contrário, pode ser muito palpável para quem vive na carne essa realidade objetiva. Que o morador do Alemão acredite na chegada da polícia como algo positivo é uma novidade estarrecedora no Rio de Janeiro, materializada na antológica fotografia em que um policial fortemente armado, em primeiro plano, divide o quadro com uma senhora vestida de passista de escola de samba. É a coexistência do gesto da guerra, tão forte, violento e assustador como sempre, com uma prática discursiva de outra ordem. Sinal de uma transformação tipicamente carioca? Caminho certo para a desilusão? A ver-se.

Uma rápida passada de olhos nos discursos de governantes, de policiais e de moradores faz pensar que não se trata da mesma cidade de dois ou três anos atrás. Está na ponta da língua de todos esses atores a intenção de deixar na história a cidade partida, na fórmula de Zuenir Ventura. É possível vislumbrar uma realidade em que, se há seis milhões de cariocas, são seis milhões de cidadãos, membros plenos da sociedade, cujas relações serão pautadas pela lógica da lei, não da ameaça. Mas essa possibilidade resulta não das ações da polícia, nem dos revezes das quadrilhas de traficantes, nem do cerco às favelas.

Se for possível um Rio de Janeiro assim, será pela reorientação do discurso. Um novo eixo de discurso, centrado na cidadania e na legalidade, poderá estabelecer uma lógica em que a violência é marginal e ocasional, em vez de ser o eixo central de todas as relações, como vem sendo há 30 anos. Nesse caso, o modo de funcionamento da cidade dos anos 1980 para cá – um péssimo funcionamento, por sinal – será esvaziado. O maior ato de guerra, esse que envolveu o exército, terá sido o ato que pôs em xeque a própria noção carioca de guerra. Terá sido o ato que expôs a lógica subjacente à tal guerra, uma lógica em que a violência não é de disputa, mas de acomodação, de modulação. O caminho para a vitória e a paz é mais conceitual do que bélico. E sempre foi assim.

Anúncios
Padrão

3 comentários sobre “Policial e passista no discurso do Alemão

  1. Pingback: Tweets that mention Policial e passista no discurso do Alemão | Para Ler Sem Olhar -- Topsy.com

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s