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Série citações, III: Borges

Já faz um tempo que li a notícia de que os ingleses querem explorar petróleo nas suas Falklands, ilhas tristemente célebres, dignas de laudas e mais laudas sobre a história dos últimos séculos. (Será a BP a ficar responsável pela prospecção?) Aconteça o que acontecer, o fato é que esse ouro negro reabre velhas feridas, mais uma vez…

O episódio me fez lembrar de um livro interessante que li há alguns meses, chamado “Guerra Santa nas Malvinas”. O livro não é um primor de edição, mas é interessante mesmo assim: quatro bons jornalistas contam o episódio da Guerra das Malvinas de acordo com as reportagens que puderam ou não puderam fazer. São eles Marcos Wilson, Hugo Martinez, Roberto Godoy e Antônio Cabral, e algumas passagens são realmente iluminadoras.

Mas a citação que quero colocar aqui é a epígrafe do livro, um poeminha de Jorge Luis Borges feito especialmente para a ocasião. Uma tentativa, provavelmente, de chamar seus compatriotas à razão, num período em que estavam embriagados de entusiasmo militar, em plena ditadura, à beira de uma derrota melancólica e da bancarrota econômica.

O poeminha é simpático, quase ingênuo. Se o menciono, é porque o contraste com a sofisticação das obras mais celebradas de Borges é significativo e provavelmente espelha o móbil da escrita.

Sem mais, ei-lo:

Hoje, enquanto nas ruas de

Buenos Aires os guapos pegam suas

facas de honra para lutar

pelas Malvinas reconquistadas

e quando, por seu lado,

a primeira-ministra de Sua Graciosa

Majestade dá ordens para

ir às Falkland,

de Buenos Aires eu proponho,

num élan de humanidade,

que a Inglaterra e a Argentina

renunciem respectivamente

às ilhas Falkland e Malvinas

e dêem esse arquipélago

à Bolívia que, não tendo saída

para o mar, ignora até hoje

o significado da palavra Atlântico.

Jorge Luis Borges, 1982.

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3 comentários sobre “Série citações, III: Borges

  1. Seu artigo é bem oportuno por lembrar, uma vez mais, o alto teor de manipulação nas guerras que somos levados a participar. Acabo de ler em Cesare Pavese:
    “A guerra embrutece porque, para combatê-la, é preciso endurecer-se diante de qualquer nostalgia ou apego a valores delicados; é preciso viver como se tais valores não existissem; e, uma vez terminada, perdeu-se toda a elasticidade de retornar a esses valores.”
    Grande abraço

    Curtir

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