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Metalinguagem quotidiana

Marido e mulher estendidos na praia, modorrentos e embotados. O sol está torrando, esturricando, insuportável. A mulher, com voz pastosa, constata:

– Faz calor demais. Estamos aqui há horas. Nossos corpos não suportam mais. Deveríamos mudar para a sombra, mas nenhum de nós tem forças para se mover.

O marido sorri ligeiramente e replica:

– Você falou como se estivesse narrando uma história. Assim: “Marido e mulher estendidos na praia, modorrentos e embotados. O sol está torrando, esturricando, insuportável. A mulher, vírgula, com voz pastosa, vírgula, constata, dois pontos, parágrafo, travessão. ‘Faz calor demais. Estamos aqui há horas. Nossos corpos não suportam mais. Deveríamos mudar para a sombra, mas nenhum de nós tem força para se mover.’ O marido sorri ligeiramente e replica, dois pontos, parágrafo, travessão. ‘Você falou como se estivesse narrando uma história. Assim: ‘Marido e mulher estendidos na praia, modorrentos e embotados. O sol está torrando, esturricando, insuportável. A mulher, vírgula, com voz pastosa, vírgula, constata, dois pontos, parágrafo, travessão.’” … Oh, meu Deus! Não consigo parar!

Sem se incomodar, em plena modorra, a mulher explica:

– É a metalinguagem, meu bem.

– Hein?

O marido está com preguiça de pensar. A mulher, sem nada melhor para fazer, se arma de paciência.

– É a metalinguagem. Você está contando a história dentro da história, a história da história, num ciclo infinito. Eu disse: “Faz calor demais. Estamos aqui há horas. Nossos corpos não suportam mais. Deveríamos mudar para a sombra, mas nenhum de nós tem força para se mover.” Você sorriu e respondeu que eu falei como se estivesse narrando uma história. Assim: “Marido e mulher estendidos na praia, modorrentos e embotados. O sol está torrando, esturricando, insuportável. A mulher, vírgula, com voz pastosa, vírgula, constata, dois pontos, parágrafo, travessão. ‘Faz calor demais. Estamos aqui há horas. Nossos corpos não suportam mais. Deveríamos mudar para a sombra, mas nenhum de nós tem força para se mover.’ O marido sorri ligeiramente e replica, dois pontos, parágrafo, travessão. ‘Você falou como se estivesse narrando uma história. Assim: ‘Marido e mulher estendidos na praia, modorrentos e embotados. O sol está torrando, esturricando, insuportável.’ A mulher, vírgula, com voz pastosa, constata, dois pontos, parágrafo, travessão”…

Marido e mulher estendidos na praia, modorrentos e embotados. O sol está torrando, esturricando, insuportável.

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Um comentário sobre “Metalinguagem quotidiana

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