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Elogio à paciência e à sutil ironia

Foi na semana passada que entrei no blog do Catatau para comentar um texto recente, mas acabei não comentando. Fui atraído pela lista de comentários recentes, que terminava com o de um certo Pr. Thieme, num artigo publicado no longínquo, para não dizer antediluviano, mês de maio. Admirado da distância entre os argumentos originais e a contribuição listada na coluna lateral, resolvi visitar a página e acabei esquecendo da vida, sem contar o texto recente com que eu pretendia contribuir.

Fiquei pasmo ao ver a extensão da lista de comentários (para quem se interessar, ela está aqui), quase monopolizada pelo titular do blog e o Pr. Thieme. Mais ainda, deliciei-me com o desenrolar da conversa, muito embora ela manifeste algumas práticas retóricas que me enchem de apreensão quanto ao futuro. É que a irreconciliável diferença entre a lucidez argumentativa do blogueiro e o messianismo quase iletrado do comentarista produz algumas situações impagáveis, dignas de figurar em esquetes de um Monty Python da vida. (Por sinal, Eric Idle tem um vídeo no Youtube em que esfarela em derrisão alguns comentários virulentos que aparecem na lista do grupo. Merece uma visita.)

Começo com o que me preocupa. O Pr. Thieme se apresenta como um pastor evangélico defensor daquela tal psicóloga (por ter se formado na faculdade de psicologia, não por compreender a matéria, bem entendido) que prometeu “curar gays”. A defesa é baseada em uma série de testemunhos e passagens curtas da Bíblia, que, costurados de maneira aleatória e conveniente, fazem as vezes de exegese e fundamento teórico. Eventualmente, como na caixa de comentários de Catatau, esse tipo de técnica retórica esbarra em gente mais preparada. Solução? Vencer pelo cansaço, através de evasivas, repetições, argumentos ad hominem e assim por diante.

Mas vamos com calma. Vale analisar os sintomas um por um, para traçar o quadro daquilo que considero tão perturbador.

De fato, Pr. Thieme escreve com a retórica de quem foi treinado para seduzir platéias. Recorre reiteradamente a exemplos de grande apelo emocional e fácil compreensão. Intercala esses exemplos com sentenças identificativas, do tipo “A é B”, de imediata absorção, como postulado, pelo auditor (ou leitor) desatento ou despreocupado. Resultado: sem precisar expressá-lo distintamente, ele cria a falsa impressão de um silogismo. Mas, já que a conexão lógica não está explícita, a falácia passa batida e se instala no inconsciente do receptor como uma grande verdade.

Por exemplo:

Apelo emocional: “Nem a medicina resolve. Os três médicos que acharam que o Bozo estava morto converteram-se a Cristo (os três).

Postulado: “É a vantagem de ter o Poder de Deus para te iluminar sobre o problema a enfrentar e não depender somente de seus conhecimentos humanistas.

Silogismo disfarçado: Práticas de origem científica (no caso, medicina e psicologia) têm a obrigação de romper com seus fundamentos teóricos se for do interesse maior de determinada afiliação religiosa.

Observe que o truque aí acima só pode ter efeito por se aproveitar de outro silogismo escondido, que pressupõe que toda afiliação religiosa interpreta perfeitamente os textos sagrados. Isso parece contraditório, uma vez que, como todos sabemos, diferentes grupos religiosos interpretam as mesmas escrituras diferentemente. Sem contar, claro, o fato de que determinados grupos aceitam ou rejeitam tais ou tais escrituras como válidas ou não. Mas é menos contraditório do que parece. Trata-se de uma adaptação relapsa, talvez voluntariamente, dos princípios de sola fides (só a fé) e sola scriptura (só as escrituras) de Lutero.

Não sei se o pastor em questão é luterano (duvido muitíssimo), mas pouco importa. O fato é que Lutero pregava a salvação pela graça e a orientação pelo recolhimento diário para leitura e exegese dos textos sagrados cristãos, no âmbito individual e, por extensão, comunitário. Salientar o comunitário como extensão do individual é de fundamental importância para não cair no erro de determinados argumentadores, sobretudo evangélicos, como o Pr. Thieme. Dentro de uma comunidade bem delimitada, a aceitação (leia-se fé) de algumas interpretações básicas das escrituras funciona como conjunto de postulados para promover a vida religiosa comunitária, calcada sobre um desenvolvimento conjunto, no interior daquela coletividade específica e delimitada, de uma compreensão global dos textos sagrados. Não é à toa que grande parte da teologia e do pensamento político alemães partem da noção de comunidade.

O que tenta fazer o intérprete leviano do sola scriptura e do sola fides é incinerar o conceito de comunidade. Mas, como algum tipo de formulação coletiva é necessária num universo não-autista como o nosso, o que acaba acontecendo é algo profundamente perigoso: a comunidade é engolida pelo conceito de indivíduo. Isso permite a qualquer fiel isolar um versículo, aplicá-lo a algo em que tem convicção, e alardear suas próprias conjecturas como sendo a palavra de Deus.

A armadilha não poderia ser mais clara. O raciocínio por trás dessa atitude considera como verdadeira a seguinte conseqüencial: se os textos sagrados manifestam a palavra de Deus, então tudo que pode ser tirado de um texto sagrado manifesta a palavra de Deus. É um evidente caso de premissa omitida. Mesmo admitindo que toda escritura manifesta a palavra de Deus, quem “tira” interpretações desses textos não é Deus. São homens, mesmo que eles se creiam inspirados pelo Espírito Santo.

O que, a princípio, poderia vir salvar essa leitura solipsista das escrituras é o sola fides. Ora, lembremos que o sola fides é um rumo para a salvação, quase um atestado de “adesão” ao sola gratia, considerado em geral o princípio fundamental do luteranismo e retomado pela maior parte das denominações protestantes. Portanto, ele não pode ser usado como princípio que valide argumentos de cunho social, isto é, coletivo. O motivo é muito simples: não há mecanismo individual nenhum para assegurar o fiel de que sua fé está bem encaminhada; a própria Bíblia possui mais de um trecho destinado a alertar o fiel para a projeção em Deus de suas próprias convicções. O melhor exemplo de todos é provavelmente o mesmo trecho da carta de S. Paulo aos Coríntios que Catatau invoca para espezinhar o Pr. Thieme, e que inspira o título deste meu elogio (voltarei a isso mais adiante).

Retomando o fio do raciocínio, temos uma situação em que a interação entre o indivíduo e a comunidade está rompida, tornando os princípios de sola fides, sola gratia e sola scriptura o oposto daquilo a que estavam destinados. Suplantada pela retórica e pelo marketing espetaculoso (acho que aqui um exemplo é desnecessário), a religiosidade vira instrumento de manipulação política (e social, econômica, …). Observe que esse resultado seria suficiente para fazer queimar no inferno as almas mesmas que invocam Deus (ou deuses, se for o caso) para manobrar decisões políticas e sociais.

Afinal de contas, e eis a mais temível conseqüência da armadilha já mencionada, quando alguém projeta em Deus suas próprias idéias, como descrito nos últimos parágrafos, ele está, sabendo ou sem saber, tomando a si mesmo por Deus. Repito: a subversão dos princípios de sola fides, sola gratia e sola scriptura leva o fiel, ou aquele que se considera fiel, a se tomar por Deus. O termo técnico, se ainda for necessário, é blasfêmia.

É claro que esse tomar-se por Deus é um processo inconsciente e involuntário. Mas ele não acontece à toa: é resultado da perda da noção de comunidade, aquela em cujo seio a fé e as escrituras, compartilhadas pela leitura e a interação (lembremo-nos que, para Lutero, todo fiel é um sacerdote), aproximava a coletividade de Deus. No lugar da comunidade eclesiástica, o que temos hoje é o messianismo, o marketing e o espetáculo. No lugar da interação, temos grupos cada vez mais restritos, voltados não a uma busca de iluminação pela investigação das escrituras (sola scriptura), mas uma busca da catarse pelo contato físico com o livro sagrado (já viu aquelas pessoas andando por aí com a Bíblia na mão? Vê se elas refletem comunitariamente sobre aquilo…). No lugar da fé desenvolvida pela intersubjetividade comunitária, temos a auto-afirmação através de um combate profundamente político e longe de espiritual.

Como foi acontecer algo assim? Escolho, como explicação, usar dois autores que vão deixar muita gente ignara com os cabelos em pé. Isso mesmo: Nietzsche (cruz credo!) e Marx (te esconjuro!). O primeiro é autor da famosa sentença: “Deus está morto”, que todo mundo conhece e muita gente entende como uma provocação aos fiéis. Mas quem a lê assim o faz porque prefere não espiar o resto da passagem do louco com a lanterna: “Fomos nós que o matamos”, ele diz.

A interpretação mais imediata dessas duas frases é a preferida de quem se aproveita da religiosidade em proveito próprio. Ela consiste em crer que, no lugar desse Deus que considera morto, o homem coloca a si próprio. Afinal, parece difícil imaginar que o homem possa não colocar nada no lugar de princípio absoluto, para se orientar neste mundo de contingência em que tudo é fugidio. Como organizar uma interpretação da realidade sem pontos de apoio? Resultado: o homem se colocaria na condição de parâmetro para essa interpretação, tomando-se por absoluto e, por que não extrapolar, tomando-se por Deus. Quem nunca ouviu essa análise?

Ela não é tão errada quanto parece, na verdade. Mas ela se interrompe onde lhe interessa, sem chegar ao ponto verdadeiramente problemático da questão. Um tal “assassinato de Deus” não poderia ir adiante sem a corrosão do espírito comunitário que sustentava, para Lutero, os três “solae” e, para S. Paulo, a ecclesia (igreja; veja essa explicação em mais detalhe nos comentários do blog do Catatau). Trata-se, portanto, de uma decorrência da modernidade, tanto quanto as ferrovias, a metralhadora, a Coca-Cola e o Edir Macedo. De súbito, a estrutura onto-teológica que sustentava a espiritualidade ruiu, primeiro na Europa cristã, depois no mundo todo – e as perturbações do mundo islâmico que perduram até hoje são outra faceta do mesmíssimo fenômeno.

Mas o tema deste texto não é o Islã, e sim o discurso pseudo-religioso que toma suas próprias máximas como sendo palavra de Deus. E aqui é que vou recorrer a Marx (tire as crianças da sala). O barbudo alemão comedor de criancinhas abre seu 18 de Brumário de Luiz Napoleão com uma de suas passagens mais brilhantes. Diz ele, citando Hegel, que a história acontece duas vezes, “a primeira como tragédia; a segunda como farsa”. Mas o mais interessante é o que vem logo em seguida e merece uma citação integral (tirada do site marxists.org):

Os homens fazem a sua própria história, mas não a fazem segundo a sua livre vontade; não a fazem sob circunstâncias de sua escolha e sim sob aquelas com que se defrontam diretamente, legadas e transmitidas pelo passado. A tradição de todas as gerações mortas oprime como um pesadelo o cérebro dos vivos. E justamente quando parecem empenhados em revolucionar-se a si e às coisas, em criar algo que jamais existiu, precisamente nesses períodos de crise revolucionária, os homens conjuram ansiosamente em seu auxilio os espíritos do passado, tomando-lhes emprestado os nomes, os gritos de guerra e as roupagens, a fim de apresentar-se nessa linguagem emprestada.

Proust, que não sei se leu Marx, escreveu um romance de umas boas 4000 páginas (uma tal Busca do Tempo Perdido) em que demonstra, por exemplo, como a burguesia fin-de-siècle se comportava como imitação farsesca da aristocracia dos séculos passados. Pois é o mesmo que acontece hoje, com aqueles que se pretendem os ressuscitadores do Deus cujo necrológio Nietzsche escreveu no século XIX.

Como vimos, o que essas pessoas promovem não é ressurreição de nenhuma sorte. Ao contrário, aproveitando-se da morte (autêntica ou não, pouco importa) de Deus, eles embalsamam o cadáver exposto por Nietzsche, como os soviéticos embalsamaram Lênin na Praça Vermelha, e falam através dele, como os soviéticos falavam através dos despojos do pai da Revolução, incapaz de se defender. O resultado é o que vemos: uma imitação, como farsa, da religiosidade histórica, baseada ela sim em um verdadeiro sistema exegético. E essa imitação se manifesta nessas lamentáveis lideranças, auto-intituladas religiosas, que se aproveitam da necessidade natural humana de alívio espiritual, apenas para adquirir peso num jogo político que tomou dimensões inimagináveis em épocas anteriores à “morte de Deus” que Nietzsche apontou, com sua habitual argúcia e verve.

Mas peço desculpas por essa longa digressão que foge absurdamente do título. É que eu queria demonstrar como o individualismo que gente como o Pr. Thieme denuncia nos “humanistas” e “relativistas” (ver seus comentários no blog do Catatau) está na origem da própria religiosidade ersatz que sustenta tantas denominações que aparecem muito mais no noticiário político do que em verdadeiros estudos teológicos. Pois é isso que, no começo do texto, eu considerava perturbador e perigoso. Utilizar-se de um subterfúgio religioso para fazer política não pode ter boas conseqüências. Logo me vem à cabeça gente como Savonarola e Torquemada. Fé cega e poder estatal são uma mistura explosiva, porque a certeza absoluta de encarnar o Bem (com letra maiúscula, e não nos esqueçamos que estamos falando de gente que confunde seus próprios instintos com a palavra de Deus) surrupia à ação qualquer possibilidade de limites. Assustador, sim, por esse motivo.

Agora, finalmente, chego ao elogio à paciência e à fina ironia. Nos comentários do blog do Catatau, o Pr. Thieme tenta, de toda forma, exaurir o gosto argumentativo do blogueiro. Se fosse comigo, ele conseguiria, porque eu não consigo exercitar essa divina virtude que é a paciência. Enquanto o comentarista insiste em repetir o mesmo discurso sentimental e confuso, que certamente passa por muito sábio para quem está predisposto a segui-lo se necessário até o inferno, o blogueiro perde horas de sua vida para responder. Privado do “chega, cansei” com que ele espera a vitória por pontos, o que resta ao comentarista? Expor-se ao ridículo e cansar não mais o blogueiro, mas o leitor.

E eu pergunto: como Catatau consegue ter tanta paciência? Acho que a resposta está na fina ironia. Apesar da enorme empulhação que deve ser ficar dando respostas, durante meses, à tortuosa linha argumentativa de seu oponente, imagino que deve ser muito divertido levá-lo a tornar suas próprias frases uma grande piada. Catatau chega ao ponto de, na maior cara-de-pau, chamar o sujeito de idiota, e ter como réplica apenas a queixa molenga de que a palavra é grega.

Se eu for pedir algo a Deus (e digo isso sem nenhuma intenção provocativa), será uma infinita paciência como a do Catatau, temperada com a mesma sabedoria de usar da ironia sem dar a perceber a ofensa numa primeira e ligeira leitura. Acontece que, sempre que sou irônico, e isso acontece com freqüência, a hostilidade fica logo patente. Não consigo disfarçar. Ao contrário, com sua proverbial fineza, Catatau é muito mais eficiente, como demonstra deu desmonte dos delírios do comentarista em seu blog. Simplesmente brilhante.

Como eu já disse, vale a leitura.

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15 comentários sobre “Elogio à paciência e à sutil ironia

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  2. Eh um equilibrio sutil entre a necessidade real de debater com pessoas assim em todos os espaços que eles procuram ocupar e o perigo de ocupar-se tanto com isso que nao sobra tempo para debates mais interessantes…

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    • Diego Viana disse:

      Exatamente. É por isso que a ironia entra em campo: para que você, pelo menos, se divirta, em vez de se estressar. É um exercício de criatividade humorística…

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  3. Rapaz, não sei se tive tanta paciência assim no debate, mas como você alarde não ter paciência?

    Veja o que você fez: leu pacientemente comentário a comentário daquela discussão quase insuportável (é verdade, o humor talvez seja uma chave de leitura que resolve tudo, heheh), e diagnosticou o debate de um modo fabuloso! Tua contribuição com Lutero e a questão do comum, analisando o “caso”, além de o descrever, esclarece e diz melhor sobre tudo o que está em questão. Essa ponte Paulo x Lutero x Comum é muito interessante, bem como teu gancho de chamar a importância da questão do Comum nos alemães, e porque não dizer, de tabela em nosso próprio mundo. Você consegue dizer o “não dito” do debate, e obviamente não do “meu” debate, mas desse tipo de debate, de um modo exemplar.

    E também teu gancho com o Monty Python acerta na mosca: o “bé” não foi tão por acaso assim; tem muito a ver com um certo “goood night ding ding ding ding!” (kkkkkkk) Mas é importante notar a questão retórica, e como ela se põe no meio da “pregação” da “verdade”, pois é exatamente isso que está em questão. Como você disse muito bem, essa arma dos caras vencerem pelo cansaço não é apenas um artifício bobo, inofensivo e casual. Isso é quase uma espécie de retórica às avessas, o convencimento na falta dele, a aposta no assentimento do debatedor por seu esquecimento, lapsos e até mesmo respeito ao religioso. Quando o debatedor desiste, aí está a vitória. E “vitória” aqui não é apenas um convencimento bobo num papo de botequim, é um schwarmer tentando arrebanhar almas para seus delírios, ou como já disse um alemão tão bem muitos anos atrás, é o artifício de “macaco de gênio”, que acredita identificar seu idiotismo com a verdade universal, reduzindo qualquer espaço comum ao próprio umbigo.

    Então… porque não usar as armas do adversário? Se ele aposta no nosso assentimento, paciência e bom senso, porque não apostar no dele?

    Taí um exercício interessante, e nada melhor do que uma analogia com Monty Python para descrevê-lo!

    abração,

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    • “Quando o debatedor desiste, aí está a vitória. E “vitória” aqui não é apenas um convencimento bobo num papo de botequim, é um schwarmer tentando arrebanhar almas para seus delírios, ou como já disse um alemão tão bem muitos anos atrás, é o artifício de “macaco de gênio”, que acredita identificar seu idiotismo com a verdade universal, reduzindo qualquer espaço comum ao próprio umbigo.”

      Mas qual a real chance de pessoas como o Pr. Thieme convencerem alguém nestes blogs?

      Minha impressão é que a batalha real já está perdida; e perdida em lugares quase inacessíveis para nós, como os cultos evangélicos ou similares, em que tal tipo de visão “crítica” não é apenas predominante, é também a única possível. Basta ver os programas de TV nas madrugadas, embora o contato com os neo-evangélicos talvez seja mais profícuo (e mais chocante).

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      • Diego Viana disse:

        É por isso que é preciso sair da posição excessivamente respeitosa e, sem precisar apelar, deixar que eles mesmos exponham o vácuo de suas proposições. Quando, diante de uma muralha de derrisão, eles começam a gaguejar, a força que eles tiem para controlar a massa se desmancha rapidamente.

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    • Diego Viana disse:

      Na verdade, não li tudo não… as respostas dele eu pulei em grande parte. Confesso…

      O problema da vitória pelo cansaço é que ela não leva a nenhum ganho, ou seja, deixa um vazio no meio do qual todo tipo de pilantragem pode se instalar, vide certas redes de TV por aí…

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  4. Talvez fosse bom ter essa paciência; mas temo por outro lado ficar dando ‘ibope’ para uma figura (perigosa, perniciosa) como essa.
    É a mesma coisa que dar espaço para o Fundamentalismo em pessoa.
    E os CFP/CRP? Expulsaram minha …(ugh!)… ‘colega’?… Espero que sim.
    Abração

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    • Diego Viana disse:

      Pois é, eu não soube mais da história… espero que sirva de exemplo pra toda a falta de seriedade que confinua grassando em nosso país…

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  5. O negócio, quanto ao comentário do Vinicius, é que o próprio figura lá utiliza a caixa de comentários como uma espécie de cruzada fundamentalista, então não tem muita importância real convencer o outro. O silêncio alheio já é garantia de “vitória”, dado que no limite o outro não está tanto assim em questão.

    E o efeito é curioso, pois se ficamos quietos, como é o óbvio fazer, tal macaquismo de gênio do pastor pode ser lido pelo pessoal do secto dele exatamente como uma “vitória”. E o pastor mesmo já comentou mais de uma vez que o efeito é exatamente esse (sendo nesse caso verdade ou não, é outro assunto).

    O negócio é que estamos num desafio, digamos, “retórico”. Não de direito, mas de fato. A própria “colega”, censurada publicamente pelo CRP, joga com essa atenção pública dirigida a ela. O problema é que a atenção dos psicólogos, por exemplo, talvez não visualize exatamente esse manejo retórico da situação, e aí que está o perigo…

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    • Diego Viana disse:

      E acrescento que eles exibem esse tipo de silêncio como um troféu MESMO. Em cultos, em reuniões, em e-mails mandados para “os irmãos”… eles sabem brigar, meus caros.

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  6. Não custa tbm dizer que é muito comum o procedimento de entupir de comentários longos e ensandecidos um blogue de alguém, 5, 6, 7 posts quase seguidos como uma espécie de competição de quem grita mais alto traduzida para a linguagem escrita. Seria mais um motivo para não silenciar.

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    • Diego Viana disse:

      Esses são até menos perigosos, eu acho. O problema de gente como esse Pr. Thieme é que eles se fazem passar por sábios, e os simplórios que os seguem caem como patinhos, principalmente quando ouvem coisas do tipo: @sabe o que ele respondeu? Silêncio…” A turma vai ao delírio com a inteligência superior da figura, que eles crêem inspirado por deuses e santos.

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  7. leocruzsouza disse:

    Fala Diego!

    Parabéns pelo seu texto! Ele ficou excepcional. Já tinha lido este texto “em diagonal”, mas só hoje pude lê-lo com tranqüilidade.

    Como sempre, eu cheguei atrasado. Confesso que não gosto de ler seus textos quando estou cansado ou com o relógio a me vigiar. Prefiro lê-los com calma, degustando cada palavra e parando para refletir nas muitas reflexões que você nos propõe.

    Li também o texto do Catatau e os comentários do tal pastor. Nunca vi um cara com tanto fôlego para discutir como o Catatau. Eu já teria jogado a toalha, confesso.

    Se eu tivesse participado da discussão lá, teria falado dos “endemoniados” que vi nos pronto-socorros por onde passei. O tal pastor fala dos demônios que expulsou, provavelmente à custa de muita oração gritada, de berros e de gestos teatrais… Pois eu tenho um método bem mais simples: uma ampola de Amplictil, anti-psicótico que faz proezas em casos de endemoniados. Nunca vi capeta que não se acalmasse com Amplictil.

    Você não sabe como eu gostaria que algumas pessoas do meu círculo de convivência (you know…) lessem e refletissem no seu texto. É brilante seu raciocínio de que “a certeza absoluta de encarnar o Bem (com letra maiúscula, e não nos esqueçamos que estamos falando de gente que confunde seus próprios instintos com a palavra de Deus) surrupia à ação qualquer possibilidade de limites.”

    Há uma coisa que eu acho muito furada no raciocínio moral dos evangélicos. É que ele é tautológico. Evangélicos dizem que a Bíblia é a referência moral máxima, que ela é a “regra de fé e de prática”. São essas premissas que são usadas para a condenação ao gays, porque a Bíblia diz mesmo que homossexuais não verão a Deus.

    Mas todos os cristãos que conheço usam a própria consciência moral para julgar na Bíblia o que deve e o que não deve ser retido como regra prática. Para julgar a validade de uma regra bíblica, usam até mesmo os conhecimentos da ciência, e mesmo os valores que séculos e séculos de filosofia secular nos legaram. É por isso que não conheço nenhum cristão que ache válido considerar imunda a mulher menstruada (Levítico 15:25), porque sabem que isso não faz sentido algum à luz da medicina moderna. Por outro lado, todos consideram justo o mandamento “não dirás falso testemunho” – mas ninguém cogita que mulheres devam mesmo rapar a cabeça, como recomenda Paulo (I Coríntios 11:6). Mas outros tantos usam os mesmos textos paulinos para justificar a proibição da ordenação de pastoras. A maioria dos cristãos de 2009 – infelizmente, não foi sempre assim – repudiam a escravidão, apesar da Bíblia não condenar tal prática (antes, ela a regulamenta: Levítico 25: 44-46). Paulo, inclusive, orienta os servos a se manterem submissos (Efésios 6:5) e a concessão que o autor do Êxodo faz ao escravo é que ele seja liberto quando for ferido em um olho ou em um dente (Êxodo 21: 26-27).

    Por que os cristãos de hoje repudiam a escravidão, mesmo se a Bíblia a autoriza? Por que, afinal, os cristãos aceitam algumas regras bíblicas e não obedecem a outras? Por que umas regras são tomadas literalmente e outras não? Por que logo se encontra um argumento para se “contextualizar” (um meio para torná-la racionalmente aceitável) uma recomendação e não se esforça tanto assim para outra? Por que se descarta atualmente o mandamento que regula a venda da filha (Êxodo 21:7), recorrendo a escapismos como “é preciso ver o contexto da época”, mas não se descarta o que obriga mulheres a se casarem virgens ? Não poderíamos também, no caso dessa última recomendação e considerando o atual estágio dos costumes, descartá-la, dizendo que aquilo era válido apenas para “o contexto da época” ? Por que um mandamento é válido ainda hoje e outro não? Por que nenhum cristão segue à risca o mandamento de Levítico 19:37,“Guardareis todos os meus estatutos e todos os meus juízos e os cumprireis” , nem acham razoável cumprir tudo o que está explicitamente escrito na Bíblia – antes, vivem a selecionar o que irão e o que não irão cumprir?

    Porque, apesar de dizerem que a Bíblia é a referência moral máxima, é cada cristão que julga individualmente a moralidade e a conveniência de cada uma das recomendações bíblicas. Porque, no emaranhado de advertências, prescrições e mandamentos que compõem a Bíblia, não há uma regra para definir qual ordem deve ser acatada pelo cristão de 2009 e qual deve ser descartada. Os mandamentos não estão separados em “regras para a sociedade dos Patriarcas”, “regras para a Igreja Primitiva”, regras para a “Igreja do século XXI”. Está tudo misturado numa mixórdia tremenda. Cada um é livre para selecionar passagens bíblicas de acordo com o que acredita ser moralmente bom ou socialmente válido: algumas são convenientemente desconsideradas (alguma mulher gostaria de rapar a cabeça?), outras, como a que nos recomenda a não mentir, são justamente acatadas, de acordo com a intuição moral de cada um.

    Cada um recorre à teologia que lhe aprouver para justificar sua posição. Afinal, em um livro complexo como a Bíblia, muitas leituras teológicas são possíveis, e posições antagônicas podem ser muitíssimo bem defendidas costurando argutamente numerosos textos bíblicos. Na ampla variedade de denominações e seitas cristãs hoje disponíveis, cada um escolhe o grupo religioso que está mais de acordo com aquilo que ele pessoalmente concorda – e o que lhe é mais conveniente – como comportamento. Cada um escolhe o que vai e o que não vai seguir: mulheres prebiterianas, por exemplo, escolheram que podem cortar o cabelo, ao contrário de assembleianas. Batistas da Louisianna não bebem álcool, ao contrário de protestantes europeus. E cada grupo possui bem encadeadas explicações bíblicas, dotadas de notável coerência interna, para justificar suas posições. Cada um usa sua teologia para justificar suas escolhas morais e suas conveniências sociais.

    O raciocínio, portanto, é tautológico. A Bíblia é a regra moral máxima, mas suas expressas recomendações passam pelo crivo da consciência moral de cada cristão, que decide finalmente se é bom ou não (conveniente ou não, como diz Paulo em I Coríntios 6:12) agir de determinada maneira.

    Bem, já escrevi demais, tem um monte de coisas aí no seu texto que merecem uma reflexão cuidadosa.

    Abração,

    Léo

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