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Elvis e Michael: do extrativo ao industrial

Agora que passou um pouco a comoção em torno do maior dos reis do Pop, acho que posso especular a respeito sem risco de levar tijoladas na testa. Prudência nunca é demais, mesmo quando o assunto é Michael Jackson, cujos receptores de hormônios prudentes eram para lá de atrofiados… Difícil é escolher o aspecto mais fecundo desse falecimento lastimável, mas longe de surpreendente.

Poderia ser a triste ironia de que todo o aparato medical, as máscaras, a hipocondria, eram resultado de uma intenção declarada do cantor de atingir os cem anos: não só o projeto fracassou, mas fracassou exatamente na metade do período. Prova de que a fixação com a longevidade é só mais um dos pequenos auto-enganos que nos impedem de simplesmente viver a vida. Também se pode enveredar pelo caminho que é, sem dúvida, o mais explorado: Michael como vítima do massacre da mídia, da ebriedade com o sucesso, das relações familiares doentias. Mas isso é notícia velha, não precisávamos de um cadáver para saber que a indústria cultural tem o poder de esfarelar uma vida, sobretudo a de alguém talentoso e desequilibrado como o caçula dos Jackson.

E já que foi evocada a tal indústria cultural, lembro que a morte súbita e inesperada (mais ou menos) de Jacko foi comparada à de Elvis Presley, mais de trinta anos antes, tão súbita e inesperada quanto. E as semelhanças são várias: ambos haviam sido “os reis”. Elvis do rock nos anos 50, depois da canção melosa e romântica; Michael, do pop nos anos 80, aquele que se atravessava no cruzamento entre o soul negro e o que viriam a ser os ritmos eletrônicos. Ambos foram belos e luminosos na juventude; no final da vida, tornaram-se estranhos, até repulsivos. Ambos ficaram conhecidos por passos de dança arrojados e revolucionários. Ambos marcaram a história da música popular americana: Elvis por ter sido o branco que “invadiu” o gueto e se apropriou de seu novo ritmo; Michael porque, enquanto negro, foi um ídolo universal, acima das questões de raça, à parte a mudança de cor.

Todas essas semelhanças são notáveis, claro; mas a diferença é mais fundamental e reveladora. Essa diferença se refere à época em que cada um viveu e atuou. Não tanto pelo período histórico em si, mas porque Elvis e Michael encarnam e são produtos de fases diversas do desenvolvimento histórico da tal indústria cultural. Para simplificar as coisas, podemos dizer que Elvis pertence à era da “indústria cultural extrativa”, enquanto Michael representa a “indústria cultural industrial”… Soa estranho? Tanto melhor, continue a leitura.

Michael Jackson foi produzido, em mais de um sentido, pelo pai. Junto com os irmãos mais velhos, foi talhado e moldado para o sucesso. Sendo, por natureza, o mais talentoso de todos, foi também o alvo do maior esforço de caracterização. Desde pequeno, inculcaram-lhe a máxima a que ele seria fiel, talvez contra a própria vontade, pelo resto de sua conturbada e curta vida: qualquer resquício de humanidade seria um estorvo para o produto midiático que ele deveria ser a todo instante. Michael Jackson tornou-se, com isso, uma marca. Uma máquina forçada a adaptar-se ao mercado caprichoso dos gostos juvenis, para continuar a produzir uma torrente volumosa de lucros e dividendos.

A falha trágica de Michael foi jamais ter conseguido demarcar a fronteira entre a commodity midiática e o indivíduo verdadeiro. O sucesso de Thriller se tornou uma obsessão tão grande que ele precisou pensar em si mesmo como monumento e imagem de capa de disco, talvez até mesmo quando estivesse dormindo em Neverland. Falando no rancho, creio que um junguiano o retrataria como tentativa desesperada do inconsciente do ídolo para retornar a uma era em que ele era verdadeiramente humano, apenas uma pessoa como todos nós: o tempo de sua primeira infância. Mas é melhor pular essa parte.

O caso de Michael se torna ainda mais chocante quando o comparamos a Madonna, sua contemporânea como ídolo pop. Ela, como ninguém, sabe ser um produto, capaz de se renovar a cada repique do mercado, capaz de chamar a atenção e, claro, os holofotes, de todas as formas possíveis, seja via sexualidade, maternidade ou musculatura. Mas ela também sabe ser a dona do produto, a detentora da marca, a empresária, a investidora. Michael Jackson jamais teve essa sapiência, daí sua desgraça.

Mas a comparação que queremos fazer é com Elvis, que também veio de baixo, também tinha questões familiares (o pai dava pequenos golpes na praça e chegou a ser preso por isso; a mãe tinha tendência ao alcoolismo e morreu bebendo). Também teve um sucesso retumbante: vendeu tanto quanto os Beatles, ou quase. E também morreu cedo, irreconhecível, decadente, infeliz, afogado em barbitúricos e outras drogas.

Ao contrário de Michael, Elvis jamais foi talhado para o sucesso. Seus pais o prepararam para uma vida dura de americano sulista; o maior mérito de sua mãe foi tirá-lo de um emprego para não prejudicar demais os estudos. Mas era um garoto mimado, isolado, que gostava de usar roupas e penteados diferentes, aprendeu alguns acordes tortos no violão e passava tardes inteiras ouvindo cantores gospel pelas igrejas de Memphis, Tennessee.

Um pouco mais crescido, montou uma bandinha para tocar os ritmos do tempo. O movimento diferente de seu corpo, aliado à mistura única de influências em seu canto, hipnotizava as plateias e chamou a atenção de um executivo da Sun Records. Era 1953. Em 1955, ele estava na RCA com um contrato de primeiro time, rumo a se tornar o Rei do Rock. Arrumaram-lhe um (péssimo) empresário; inventaram golpes de marketing. Mudaram um pouco seu som e sua aparência. Exploraram o movimento de seus quadris (Elvis the Pelvis, lembra dessa?). Levaram-no à televisão e ao cinema. Graças a ele, muita gente encheu o bucho de grana. Como ocorreria, mais tarde, com Michael Jackson.

Só que, no caso e no tempo de Elvis, ele só passava a ser moldado e formatado depois de descoberto. Michael nunca foi descoberto: ele foi feito. Foi fabricado nas oficinas da Motown pelo artífice que era seu pai. Daí o caráter exemplar da comparação entre os dois ídolos. O período em que viveu Elvis era extrativista no sentido em que as gravadoras procuravam o talento bruto, perdido no coração da América rural ou nos subúrbios das metrópoles, nos cantos esquecidos. Em todo lugar, enfim, de onde poderiam sair jovens, tímidos e desajeitados, mas com novas misturas rítmicas, novos passos de dança, figuras potenciais de um frenesi midiático. Em seguida, é claro que havia uma cadeia industrial instalada e a respeitar: as gravações, as composições encomendadas, as capas de disco, as polêmicas forjadas, tudo que os últimos 60 anos souberam estabelecer e reproduzir tão bem.

Essa cadeia é que evoluiu com o tempo. Primeiro, foram os profissionais que tentaram se adaptar a ela, para melhor explorar seus potenciais: é o caso de Jimmy Page, que foi músico de estúdio antes de ser ídolo nos Yardbirds e, claro, no Led Zeppelin. Ele conhecia em profundidade o funcionamento da indústria do disco e foi o primeiro a calcular com precisão a dinâmica das faixas. A lendária banda que ele formou com John Paul Jones, John Bonham e Robert Plant nada mais era, no princípio, do que a aplicação desse conhecimento de Page. Por que não chamar a essa fase da indústria cultural “fabril”?

Pois enquanto o Led estava no auge, surgia na Motown – aquela grande fábrica de sucessos e ídolos – a banda dos irmãos Jackson, em mais uma fase da indústria cultural. Em vez de simplesmente reproduzir na cadeia produtiva da cultura (no caso, da música) uma série de técnicas de sucesso comprovado, como na era fabril, passou-se a inserir técnicas novas de sedução do público, desenvolvidas em laboratório, a partir de testes e estatísticas. Assim, o retorno dos investimentos seria mais garantido: o produto cultural que resultasse do processo de fabricação seria impecável, irresistível, um triunfo assegurado. Pura tecnologia industrial.

Madonna e Michael Jackson são, como eu já disse, os exemplos mais fecundos de produtos dessa fase “industrial” da indústria cultural. Mas, enquanto Madonna soube ser ao mesmo tempo investimento e investidor, Michael confundiu os dois lados e não foi capaz de aproveitar os rendimentos de sua própria produção. Com isso, ele enfraqueceu sua posição no mercado e não é à toa que, na última década de sua vida, tenha rolado constantemente ladeira abaixo, sempre a tentar recuperar seu valor em bolsa.

Como tudo no mundo, a indústria cultural continua a evoluir. Todos sabemos como as gravadoras estão sofrendo com as mudanças nos gostos e nos hábitos do público. Hoje, quem quer se fazer conhecer posta, por exemplo, vídeos no Youtube e músicas no Facebook. Um exemplo límpido é o sujeito que compôs músicas como Hey, Paul Krugman , e foi citado pela net inteira.

A princípio, para muita gente, essa nova fase parece uma volta ao período extrativista. Mas isso é enganador. Há tantos métodos e fórmulas nas redes sociais quanto em qualquer outra configuração da produção cultural. Resta aos produtores a tarefa de descobri-las e lucrar com elas. Não tenho dúvidas de que a era das redes sociais produzirá seus Elvis Presley, John Bonham e Michael Jackson, cujas histórias gloriosas e trágicas serão contadas pelos jornalistas de amanhã. Seja lá como forem esses jornalistas…

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13 comentários sobre “Elvis e Michael: do extrativo ao industrial

  1. Não sei se é prudente, Diego, mas quero elogiar o teu texto por algumas marcas das quais gosto. Primeiro porque ele ficou aguardando a hora de vir a público. Sinal de que é um texto que reflete antes e age depois. Depois porque ele vai apresentando outras possibilidades e caminhos de texto, ou seja vai refletindo conosco sobre outras vias de apreensão do fato (seria do fenômeno). E por último a escolha argumentiva quase que perfeita, ensejando reflexões oportunas, a partir de uma notícia desgastada e de certo modo, tantas vezes vista, apesar de ser trágica, por ser de morte de um ídolo(perdoem-me os fãs incondicionais do Elvis, do Jimmy Hendrix, da Janis Joplin, das nossas Elis e Cássia Eller, guardadas as proporções e detalhes, etc…)
    Bem, ler teu texto assim construído, com esse vagar de prosa vespertina, esse andamento clássico e dialogal, é agradabilíssimo. Acho inclusive, que há algo de muito mais positivo a aprender com o jeito de ser desse texto, do que (valei-me Deus, o que digo?) com o jeito de ser do “ídolo” que se foi. Talvez com ele só se aprenda pela via negativa. Mas, ao que parece, com um pai daqueles, não poderia ser diferente…

    Abraço fraterno e parabéns.

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    • Diego Viana disse:

      Obrigado Lírico Eurico. Acho que temos muito a aprender com casos como esse, não só moralmente, mas até social e economicamente. Não podemos esquecer da ligação intrínseca entre nossas vidas pessoais e econômicas…

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  2. A comparação entre Elvis e Michael foi abordada de maneira isenta e reflexiva, como bem destacou o Eurico. Não identifiquei qualquer sinal de desrespeito com a memória de ambos. Os fatos comentados são de conhecimento público e foram simplesmente analisados do ponto de vista mercadológico.

    Nunca tinha pensado neste caráter visionário de Jimmy Page na fundação do Led Zeppelin, mas também faz todo o sentido devido à bagagem de estúdio do lendário guitarrista.

    Parabéns Diego, você escreveu o melhor artigo que li sobre a morte de Michael até o momento.

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    • Diego Viana disse:

      Pois é, o próprio Jimmy já explicou em algumas entrevistas como ele planejava os discos do Led pra fazer variar o interesse e a carga emocional do ouvinte. É por isso que são tão perfeitos. Jimmy Page iniciou uma ciência!

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  3. Concordo com os que me antecederam, seu texto não só apresenta um estilo invejável para qualquer jornalista, como também traz uma visão fora da mesmice sobre o caso quando faz uma análise vista pelo lado do grande negócio que é a música. É quando encontro textos assim que faz valer a pena passar algumas horas visitando blogues.

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  4. Bruno Alvaro disse:

    Salve, salve Diego… Rapaz, já me estabeleci sim aqui em Aracaju. Consegui um bom apartamento, relativamente próximo à UFS. Pretendo comprar uma bike e ir pedalando, por enquanto, estou na base da carona de outros professores ou utilizando o péssimo, mas péssimo mesmo transporte público daqui! Até o momento, é a única queixa que tenho desse maravilhoso lugar, onde o sol brilha intensamente e o vento é fresco e agradável, claro, ainda não barra o Rio de Janeiro, mas já mora no meu coração, afinal, passarei por aqui os meus próximos dias na terra…

    Forte abraço e manterei contato!

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  5. Liene disse:

    Diego, o tema está muito bem exposto, de um cuidado imenso ao se falar de Indústria Cultural. Me agrada também a forma como são feitas as relações entre os ídolos e suas épocas, entre seus modos de constituição como artistas e como indivíduos.

    A respeito do gancho final, sobre os métodos e fórmulas das redes sociais, é uma discussão que de fato vem sendo trazida à tona com essa mudança nas formas de lucro de empresas que vivem da circulação dos produtos culturais, e também das empresas que patrocinam projetos culturais. A esse respeito, vou deixar a indicação de um blog que tem discutido o tema: http://midializado.blogspot.com/

    Do seu amigo que está viajando o mundo, morri de uma inveja saudável também…

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  6. Ailton Mattos disse:

    O amargo sabor do remorso
    Nos últimos dias não se falou outra coisa a não ser sobre Michael Jackson, e vi o mundo parar para ver o seu velório com despedida e super produção de um grande show. Choro, gritos, multidões ovacionando e chamando o Rei do Pop, gênio, extraordinário, que agora estava na boca do povo, será esse mesmo Michael que passou os últimos dez anos de sua vida levando pedradas da mídia e de muita gente, é esse mesmo Michael e diziam que ele era um pedófilo e parecia um personagem do planeta dos macacos, um louco, negro que queria ser branco. Michael Jackson morou por três anos no Oriente médio se afastando de todos e ninguém estava nem ai prá ele, para os filhos, e nem para a sua música.
    O amargo sabor do remorso é o que todos estão sentindo agora, desde amigos, parentes e até fâs de ultima hora se agarram na figura do grande mito de um talento que sempre esteve aqui. Vi no velório uma deputada do Texas falar de um projeto para eternizar Michael nas tabuas do congresso Americano, eu me pergunto, onde ela estava quando ele foi a julgamento pela justiça e pelo povo? Distribuía milhões de dólares para se livrar de advogados que o acusava de crimes que não cometeu.
    Michael como Elvis que morreu do mesmo jeito em casa, cheio de remédios e de falsos amigos que só queriam uma vida fácil atrás de quem podia dar. Cercados por uma rede de mentiras, explorados, incompreendidos sonhavam em deixar algo pra humanidade, com suas musicas e seus talentos desde cedo dado por Deus. O povo chora hoje o que disse ontem, mas agora é tarde e só os verdadeiros fãs sabem o que é perder um ídolo como Michael Jackson, eles podem ter a certeza que morre o artista e nasce o Mito com mais força do que nunca, e não é comum na historia assistirmos à essa passagem que vai ficar na memória do povo por muitos e muitos anos
    Aillton Mattos.

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    • Diego Viana disse:

      Não sei, Ailton, se é realmente remorso ou simplesmente a força do hábito. Michael andava bastante esquecido, mas sabe como é a mídia, quando o sujeito morre tem que ser incensado e pronto. Mesmo que seja preciso forçar a barra…
      E cá entre nós? Não creio que a memória dele dure muito, não…

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