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O rumo dos vasos

Não era sonho quando vi minhas veias correndo em paralelo ao meio-fio. Posso assegurar que eu não estava chapado, nem alto, nem nada. Foi uma dessas coisas que a gente vê com nitidez e sabe que não é invenção da nossa cabeça. Todo mundo já passou por isso. Resumindo, foi simplesmente um dia em que eu acordei metafórico.

Sim, claro. Esse é um traço que já tenho normalmente. Mas, naquela noite, acho que passei dos limites. Quando levantei, já me sentia estranho. Estava escuro ou não tinha clareado ainda, depois de uma interminável madrugada que, de fato, não tinha terminado.

Na mesma hora, eu soube que estava em todas as madrugadas da minha vida, me levantando de todas as camas em que já dormi, espraiado pela minha história e pelos meus cantos, pingando aqui e ali como se pinga pela existência.

Daí minha tranqüilidade. Eis por que não me abalei de ver as veias, que deveriam estar aqui dentro, acompanhando a sarjeta. Segui meu caminho e me lembro de ter comentado, num tom que se pretendia irônico, algo como “Ah, minhas veias”. Muito blasê, como se alguém, algum amigo, alguma mulher, estivesse andando ao meu lado.

Tive, é verdade, um certo receio de que passassem por cima de um de meus vasos; uma bicicleta, ou moto, ou patinete, enfim. À hemorragia de um atropelamento, seria difícil reagir com comentários infames.

Depois, me acalmei um pouco, ao lembrar da biologia que, um dia, aprendi no colégio: na superfície, as veias, carregando o sangue ruim. O sangue bom está lá no fundo, enterrado e protegido. Nenhuma razão para alarme, a confiar na educação que me deram.

Cheguei à esquina e descobri nela um entroncamento de vasos sangüíneos. A visão daquele amontoado de tubos, uns por cima dos outros, sangue por todo lado, pressurizado… enfim, aquilo me causou um sobressalto, finalmente. Meu coração acelerou.

E, coisa incrível, as veias se puseram a pulsar mais rápido.

Deu um aperto no peito. Tudo junto, aquele trânsito insuportável das horas condensadas, aquele fluido vital correndo em desespero para meus tecidos sedentos, e eu, me fazendo de calmo enquanto contemplava aquelas avenidas todas, num bairro interminável, os sinais, os faróis, as válvulas, varizes, acidentes, colesterol, e a pulsação…

Perdi o fôlego. Caí. Por um tempo, não vi nada, depois tive vontade de chover. Era uma noite sem estrelas, que me embaralhava as idéias… Nem sei direito como contar, veja, não estava muito claro. Quis levar a mão ao coração, mas não pude, porque eu tinha esquecido o caminho. Quis acordar, mas me lembrei de que não era sonho.

E, pelas janelas, as luzes acesas: dali desciam as veias, tendo alimentado as lâmpadas e os fogões, ou seja, tendo cumprido seu dever.

Minhas veias tratavam de correr em busca de sua pureza, o novo oxigênio e o novo impulso ao sangue fatigado. Suprema contradição, aliás, um pouco vexatória: meu fluido sabia onde encontrá-lo; eu, não.

Movido por uma curiosidade tanto mais sincera porque eu mesmo não a reconhecia, esqueci da vida e me pus a seguir o caminho, a picada que me indicava o sangue encanado. Esqueci meu próprio rumo e meu destino, esqueci que também buscava renovar a cada dia minha energia e a força de viver. Esqueci das impurezas que eu, ser venoso, também carregava, e que também buscaria trocar, em mil milhões de alvéolos pontilhando a cidade. Esqueci dos pulmões, que aceitam toda a fumaça e a processam, digerem, revendem.

Tudo isso, em todas as manhãs da minha vida, em que eu estive mais metafórico do que o normal. O meu normal, quero dizer.

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4 comentários sobre “O rumo dos vasos

  1. meu amigo, desculpe a ausência, passei dias onde as metáforas não tiveram vez, a não ser que eu afirme que fora um cavaleiro pulando valas negras, me afastando sobre as quatro patas das 85 sombras da minha existência, e lendo sua METÁFORA criei novo alento, renovarei meu sangue velho sem o perigo de atropelamento
    abraço

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